O IMENSO ESPELHO DO CÉU – Documentário curta-metragem filmado no Salar de Uyuni, em Potosí, Bolívia (2018, 14 min)

EL INMENSO ESPEJO DEL CIELO

 

 

“O que é a História de toda a América senão uma crônica do real-maravilhoso?” Alejo Carpentier

Salar de Uyuni é um dos locais mais deslumbrantes sobre a face da Terra. É o maior e mais alto deserto de sal do mundo: estende-se por 10.582 km quadrados e encontra-se a 3.656 metros acima do nível médio do mar. Está localizado nos estados de Potosí e Oruro, na Bolívia, sendo um dos destinos turísticos mais procurados do país.

Era época de chuvas, quando o salar se transforma em um “Imenso Espelho do Céu” – “El Inmenso Espejo Del Cielo”, título deste documentário curta-metragem, falado em espanhol, em que registro um pouco da travessia maravilhosa que fiz na excelente companhia de Elvis Félix (nosso guia), o peruano Alexander Ccoycca Ccaulla, a holandesa Amanda Sabat, os chilenos Hans Richard Carrasco Jorquera e Carla Ríos Martinez, e o japonês Hiroki Matsubara.

Ali passei algumas das experiências mais extraordinárias que essa existência já me proporcionou. Era o início de 2018 e eu vinha de uma travessia extremamente fascinante pelo Peru – primeiro, por Cuzco e Macchu Picchu, depois em Puno para as festividades folclóricas da Candelária no Lago Tititica. Após deixar para trás a região do Titicaca, chegando em La Paz e seus teleféricos de transe, peguei um vôo doméstico da BOA rumo à Uyuni que foi um dos piores que já tive o desprazer de experimentar: tanta turbulência e tempestade que eu, em meio às taquicardias, já estava me despedindo dos vivos e imaginando que morreria espatifado no chão com a queda daquele teco-teco treme-treme. Chegar vivo em Uyuni foi um alívio tão maravilhoso que me colocou na vibe certa para apreciar cada segundo da jornada.

No vídeo, registro algumas conversas que tive com os companheiros de viagem sobre temas importantes de nossa latinoamericanidade: o que significa que a Bolívia tenha se tornado, na era Evo Morales, um “Estado Plurinacional”? Por que há um “Cemitério de Trens” nas proximidades do salar e para quê finalidades eram utilizados os vagões e trilhos? Que minérios foram extraídos dali no passado, e quais os minérios que hoje fazem crescer os olhos dos mineradores? Por que este é um dos locais mais “fotogênicos” do planeta e por que tanta gente gosta de levar pra lá dinossauros em miniatura?

Este filme, mescla de diário turístico com tentativa de etnografia documental a quente, revela alguns vislumbres das belezas infindas da paisagem natural e humana da Bolívia. Filmagem, montagem e som direto por Eduardo Carli de Moraes para A Casa de Vidro. Trilha sonora com canções queridas do Quilapayun e do Perotá Chingó.

Dále! 

 

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“O Muro”, documentário de Lula Buarque Hollanda, revela um Brasil com fratura exposta

O MURO, documentário de Lula Buarque de Hollanda (2018, 1h 27min), produzido pelo Canal Curta, foca sua atenção sobre o “Muro do Impeachment”, erguido em Brasília durante o processo de deposição da presidenta Dilma Rousseff em 2016. O filme considera este muro como emblema de uma pátria com fratura exposta, em estado de acirramento da guerra de classes, em que o mito fundador da “cordialidade” brasileira jaz por terra.


Em entrevista à Revista Select, o cineasta disse: “Ver Brasília, a capital utópica, aquele lugar específico, imaginado para agregar, com um muro que dividia famílias, era a imagem-limite de nossa impossibilidade de conversar. E não existe democracia sem diálogo” [1].

Lula Buarque de Hollanda.


Contando com a colaboração de grandes intelectuais – como a psicanalista Maria Rita Kehl, o antropólogo Luiz Eduardo Soares, a economista Laura Barbosa, o advogado Ronaldo Lemos, o historiador James Green, dentre outros – o filme parte do exemplo brasileiro para compreender um fenômeno global.

Por isso, estabelece analogias com outros Muros, tanto de nosso passado (como o de Berlim) quanto de nosso presente (como aquele que segrega Israel e Palestina, como aquele que se estende pela fronteira entre EUA e México, como aqueles que se multiplicam pelo mundo para conter refugiados e imigrantes ilegais…).

Em um artigo instigante chamado “A Era dos Muros”, Giselle Beiguelman escreve sobre aquela bizarrice segregatória que pintou no imenso gramado da Esplanada dos Ministérios, em frente ao Congresso Nacional, na época em que foi votado o impeachment de Dilma (re-eleita em 2014 com mais de 54 milhões de votos):

Brasília – Manifestantes pró e contra o impeachment ocupam a Esplanada dos Ministérios durante o processo de votação na Câmara dos Deputados (Juca Varella/Agência Brasil)

“A barreira, erguida por presidiários, tinha a finalidade de separar os manifestantes, de esquerda e de direita, contra e a favor do impeachment, dividindo a Esplanada dos Ministérios ao meio. A partilha estava longe de marcar um momento de equilíbrio democrático. Ao contrário, assinalava uma fissura na vida política do País, que tinha sua metáfora na imagem do Eixo Monumental fraturado. O espaço projetado para o encontro era tristemente atualizado como o da total desagregação do consenso político.” [2]

Estive lá naquele dia histórico – 17 de Abril de 2016 – em que a maioria dos deputados votou “sim” ao prosseguimento do processo de impedimento da presidenta, ainda que as tais “pedaladas fiscais” e os tais “decretos de crédito suplementar” não tenham sido convincentemente comprovados como crimes de responsabilidade pelos quais a suprema mandatária merecia perder seu cargo. Ao contrário, ouvimos uma enxurrada de votos em prol da família, da Bíblia, de Deus, dos bons costumes, dos cidadãos de bem, sendo espetacularmente mobilizados ao microfone por hordas de deputados investigados por crimes de colarinho branco.

Não pude me abster de tomar posição em um dos lados da barricada, e estive lá entre os que gritavam “não vai ter golpe” e que vibravam a cada “não” ao impeachment que vinha das bancadas de partidos como PT, PSOL e PC do B. Sim, eu estava lá engrossando o caldo do Lado Vermelho da Força, e tratando como inimigos e proto-fascistas os “amarelinhos” lambe-botas de Moro que estavam do outro lado do Muro. Lembro-me de que foi um dia que começou na maior empolgação, com a belíssima e massiva mobilização cívica que tomou as ruas de Brasília, mas que terminou na maior tristeza, com a sensação de termos sido derrotados por uma corja de bandidos engravatados que estavam conseguindo estuprar a jovem e frágil democracia brasileira através de um mal-disfarçado golpe de estado. 

Naquele fatídico ano de 2016, em que viajei 3 vezes para a capital federal com uma câmera na mão e mil idéias e indignações fervilhando no coração e na mente, eu estava animado por uma noção de tête-à-tête com a história que exigia a presença crucial da figura do documentarista. Como testemunha ativa desta História presente, produzi então quatro curtas-metragens que constituem uma espécie de etnografia a quente das ruas brasilienses em tempos de golpe: O Céu e o Condor, A Babilônia Vai Cair, Levantem-se! e Ponte Para o Abismo.




Por ter me mobilizado para documentar estes tempos intensos e instáveis, tenho muito interesse por conhecer e estudar a obra de outros documentaristas que estavam fazendo o mesmo que eu – decerto com mais fomento, experiência e capacidade técnica do que eu tinha então a meu dispor. Tanto que já esmiucei O Processo de Maria Augusta Ramos em outro artigo.

Já o filme de Lula Buarque de Hollanda, que agora me ocupa, pareceu-me um filme instigante, provocativo, complexificador, mas não oferece nenhum consolo fácil, nenhuma solução para nossos antagonismos sociais cada vez mais irreconciliáveis.

Em uma crítica do filme chamada “Crônica da Polarização”, Carlos Alberto Mattos encarou um tema difícil: julgar se o documentário seria “imparcial” e se teria errado em somente nomear nos créditos as “pessoas importantes” que contribuíram com o filme, deixando no anonimato muitas das vozes que ouvimos durante a película:

“Ajustando o foco no muro, o filme de Lula Buarque de Holanda assume um certo caráter conceitual, em que as paixões de um lado e de outro se equivaleriam. Seria, portanto, um filme imparcial – essa “virtude” que tantos cobram de documentários políticos como “O Processo”.

Assim, pessoas favoráveis e contrárias ao afastamento da presidenta aparecem posando para a câmera, caladas e “fantasiadas” com seus adereços, em meio a manifestações. Enquanto isso, vozes desencarnadas em off declamam seus slogans e fazem a apologia de suas respectivas posições. Alguns comentários ultrapassam a superfície do óbvio ou do preconceito e soam mais analíticos ou supostamente ponderados, evidenciando tratar-se de gente culta e estudiosa do assunto. Estes serão apresentados e nomeados nos créditos finais, ao passo que os populares ficarão sem identificação. Uma divisão de classes culturais se coloca aí, separando os “de nome” dos anônimos.

O efeito é também de despersonalizar a discussão, fazendo com que tudo o que é dito permaneça numa nuvem indefinida de opiniões. Dessa maneira, O MURO adota um distanciamento cauteloso em relação ao clima reinante, como se almejasse uma mirada científica, neutra, desapaixonada. Mas eis que, em dado momento, como se não resistisse ao apelo da editorialização, Lula insere uma sequência de imóveis e propriedades postos à venda na época do golpe, como a querer confirmar os argumentos de quem acusava o governo Dilma de “afundar o país”. Além de estar completamente deslocado da lógica narrativa do filme, esse trecho tampouco se coaduna com o debate em pauta, uma vez que o impeachment não dependia da crise econômica, mas de supostas irregularidades fiscais.

Depois de oscilar entre os dois lados do muro, o filme se põe a tratar dos que ficam em cima do dito cujo. As figuras do “isentão” e do “apartidário” entram na roda, aqui também na base de “uma opinião para cada lado”, como se o roteiro fosse construído numa balança. Daí a impressão de um filme interessado em parecer, também ele, “isentão”.

O terço final de O MURO se converte numa espécie de ensaio sobre os dualismos da política a nível global. Entram em cena as barreiras montadas na campanha americana que elegeu Trump, o anti-exemplo histórico do Muro de Berlim e os dilemas que cercam o muro entre palestinos e israelenses na Cisjordânia. É quando surgem as melhores reflexões sobre as ambíguas funções dos muros, no Brasil como no mundo. Uma das vozes desencarnadas comenta o que ninguém pode negar: o muro de Brasília simplesmente concretizava o que sempre houve no país, adormecido, reprimido ou dissimulado no mito da conciliação e da cordialidade brasileiras. Um mito definitivamente soterrado sob muitos muros.” [3]

“O Muro” merece ser reconhecido como uma obra muito relevante do cinema de não-ficção no país, com sua proposta ensaística e intento complexificador – pois “todo reducionismo é paupérrimo”, como opina no filme Luiz Eduardo Soares.

O filme sabe erguer o muro ao status de emblema de uma bi-polarização ideológica que é nefasta. O Brasil é muito mais complicado e multicor do que a representação simplória e simplista que gostaria de nos reduzir, de um lado, a coxinhas com camiseta da CBF (precursores dos Bozominions); de outro, petralhas que gritam contra o golpe (precursores dos “defensores do presidiário de Curitiba” do movimento Lula Livre).

Comentando sobre o processo de “fanatização”, não muito afastado de torcidas organizadas de futebol, o filme aborda a crise política de 2016 concedendo esta carga simbólica ao muro divisório, estrutura física monumental que impede os cidadãos em discórdia de sair na porrada.

Alguns podem argumentar que era um dispositivo de segurança necessário para adiar a eclosão da guerra civil. Outros podem afirmar que o muro foi um cala-a-boca na democracia, que pressupõe o diálogo amplo e irrestrito como solução das conflituosidades sociais.

Fazendo a crítica das práticas de segregação / apartheid, o filme aponta para um horizonte utópico: investir na construção de um mundo onde caibam todas as pessoas, conviventes na diversidade. Um tema já tratado, ainda que em outra clave, por Lula Buarque de Hollanda em um de seus filmes anteriores mais importantes: “Pierre Verger: Mensageiro Entre Dois Mundos” (1998). [4]


Nada indica que estejamos de fato caminhando neste sentido com a eleição de Bolsonaro, que é a Lógica do Muro piorada até as raias da insanidade, apimentada com populismo fascista, que vem para impor a segregação militarizada em um país desgovernado por um plutocracia.

Longe de ser a panacéia, a eleição de Bolsonaro é a piora da peste. E, neste sentido, “O Muro” tem a vantagem de ser uma obra de cinema que soa profética e que tem muito a ensinar inclusive ao futuro.

Em amanhãs aos quais já estamos condenados, não temos mais como evitar sermos governados por uma extrema-direita subserviente aos EUA, desejosa de ser capacho de Trump e do Império Yankee, em aliança com o sionismo israelita apesar dos crimes contra a humanidade perpetrados pelo Estado Israelense (sob Netanyahu e anteriormente Ariel Sharon).

status quo tende a proteger os antigos e erguer os novos Muros da Segregação que mantêm permanentemente separados, de um lado, a Elite do Atraso, e do outro um povo com seus direitos massacrados, seus empregos precarizados e suas existências radicalmente vulnerabilizadas. De um lado, uma plutocracia em seus blindados; do outro, a massa dos matáveis (mas que se recusam, em resistência, a serem mortos). O futuro será cheio de muros – e cheio também daqueles que os derrubam em prol de um mundo mais diverso e multipolar.

Por Eduardo Carli de Moraes para A Casa de Vidro –www.acasadevidro.com

Filme assistido em 09 de Janeiro de 2019, baixado a partir do fórum da Making Off. Faça o download do filme completo em torrent: https://bit.ly/2C81txo.


REFERÊNCIAS

[1] – Revista Select >>> https://www.select.art.br/lula-buarque-de-hollanda-lanca-o-muro/

[2] – BEIGUELMAN, Giselle. >>>https://www.select.art.br/era-dos-muros/.

[3] – MATTOS, C. A. >>> https://carmattos.com/2018/06/11/cronica-da-polarizacao/

[4] – Biografia e filmografia de Lula Buarque de Hollanda em Wikipedia >>> https://pt.wikipedia.org/wiki/Lula_Buarque

 

 

MEU AGORA ATÉ AQUI – Por Tamyres Maciel || Colunista d’A Casa de Vidro

O plano da minha vida foi o seguinte: terminar os estudos, papeladas burocráticas debaixo do braço: partiu mundão! Foquei em terminar tudo nos prazos e finalizar esse ciclo de quase 10 anos na faculdade. Oito, pra ser exata. E foi feito. Entrei em Letras na UFOP em agosto de 2009 e saí mestra em dezembro de 2017. Voltei de mala e cuia pra casa de mãe e pai no sul de Minas.

Julgo que tomei as decisões certas no tempo certo diante dos sonhos que tenho. Bem nesse momento de finalização dos compromissos acadêmicos, surgiu uma oportunidade nessa nossa sociedade brasileira: foi aprovada uma lei que daria benefícios a jovens de baixa renda: o IDjovem. Com essa política pública, um benefício do Ministério do Desenvolvimento Social – Secretaria Nacional da Juventude (sim, existe esse órgão público), comecei a rodar pelos estados do Brasil com meus apetrechos: roupas, equipamentos de som e o violão. Tudo que eu preciso pra me virar em qualquer lugar do mundo.

Em janeiro peguei busão Campestre – Poços de Caldas – São Paulo. A passagem mais cara foi de Campestre pra Poços, por ser no mesmo Estado. Sim, porque o Id vale apenas saindo de um estado pra outro. Na rodoviária do Tietê, cheguei num dos guichês e perguntei quando é que tinha passagem de Id pra onde. Tinha pra Porto Seguro dali 2 dois. Foi essa mesma. Cerca de 20 reais e muitas horas de estrada pra chegar era o valor total da passagem. Salva por uma mana grande parceira, fui amparada os dois dias em Barueri até o dia da viagem.

Da Bahia desci pro Espírito Santo, foi pra onde consegui passagem pelo Id. Fiquei pouco tempo, contando com o apoio de amigues nos arredores de Vitória, porque tinha uma tocada agendada em Ouro Preto pro final de janeiro. Peguei Vitória – BH e fiquei também pouco tempo. Esse ano me planejei pra realizar um dos sonhos plantados em mim na época da faculdade: participar do  festival Psicodália em Rio Negrinho, Santa Catarina, mas mais perto do Paraná.

Então, desci BH – SP – Curitiba: estava eu no rumo do Dália. Passado esse carnaval descritível, voltei de carona com uma mana poderosa na direção defensiva de Curitiba – PC. Fiquei por lá fevereiro. Final de março dei um pulo de PC – SP – BH – Ouro Preto. Depois voltei pro sul de Minas na linha contrária: OP – BH – SP – PC.

Em abril, mesma história do sul de Minas pra região central: PC – SP – BH – OP, com uma disposição que eu sempre questionava nas muitas horas que passei sentada no chão das rodoviárias. Sim, o Idjovem se chama assim porque tem que ter muita disposição. Tem que ser jovem no sentido das, ainda leves porém já presentes, dores no corpo. E se cuidar, se planejar, saber que as rodoviárias também são lugares interessantes, de histórias incríveis…

Passado um bom tempo no sul de Minas, o mês de maio todo, peguei o rumo PC – Brasília – Alto Paraíso de Goiás e pro destino real, a Vila de São Jorge, tem que ser de carona mesmo. O plano foi ficar junho e julho desenvolvendo ideias e aproveitando todo e qualquer momento como oportunidades de aprendizado, o que aconteceu de forma mágica como tudo aqui nesse lugar encantado que é a Chapada dos Veadeiros: o coração do Brasil, o Cerrado.

Em agosto voltei Brasília – PC, setembro fiz PC – Campinas – BH – OP, outubro voltei OP – BH – Campinas – PC. Pelo que cês podem observar estive bastante tempo nas rodoviárias, pelo menos uma vez por mês. Esse tempão que eu passava em cada uma era o momento em que me planejava e já comprava as passagens do mês seguinte. Sim, porque passagens com o benefício do Id só podem ser compradas no guichê das empresas de busão.

Quando estive na rodoviária de Campinas em outubro, comprei a passagem de Patos de Minas pra visitar uma mana parceira e conhecer um pouco mais desse estado tão diverso que é o das Gerais. Duas semanas em Patos. De lá, com a sorte de uma passagem em promoção, parti pra BH pra visitar outras pessoas e lutar pra levantar grana.

Eu tinha dois planos. O plano A) pegar BH – Porto Seguro e de lá ir subindo aos poucos pelo litoral da Bahia em dezembro e janeiro, fazendo som ao vivo e me locomovendo de um canto a outro. Início de fevereiro o objetivo era estar chegando em Pernambuco, onde vou realizar mais um sonho de carnaval plantado na época da graduação.

Cheguei na rodoviária de BH e já era tarde: não tinha mais passagem pra lugar nenhum da Bahia. Com dificuldade de encontrar oportunidades pra tocar nesse interior de Minas, minha grana acabando, num dos poucos momentos breves que passei em rodoviária esse ano, decidi apelar pra outra saída.

O plano B) comprei passagem BH – Campinas – PC e voltei pra renovar as energias no sul de Minas. Compartilhar afetos com a família e reorganizar as ideias. Na rodoviária de Poços, procurei passagem pra Brasília. Sim, o plano B foi voltar pra Chapada dos Veadeiros, trabalhar o máximo possível em dezembro e janeiro e daqui seguir pra PE. Chegando em Brasília fui direto no guichê que faz o trajeto pra lá. Foram 5 reais de dinheiro, serão duas noites e um dia de viagem o valor total da passagem. O segundo carnaval dos sonhos, então, está planejado.

Depois da sucinta introdução sobre meus rumos até aqui, apresento minha pessoa: sou Tamyres Maciel, aprendiz de musicista, viajante disposta, educadora multiplicadora e linguista sonhadora. Pessoa em quem o sangue latino pulsa forte. No nó da atitude, na página de um livro bom, no melhor lugar do mundo: aqui e agora. Pronta pra quando a estrela do norte me falar sobre a morte.

“Estrela do Norte” de Doroty Marques

Pra quem quiser acompanhar os causos desse meu dia a dia, minhas escritas estarão por aqui. Contarei com mais detalhes as experiências do meu agora: planejamentos estratégicos pra aproveitar a política pública Idjovem, momentos especiais das viagens pelo Brasil e minhas perspectivas da vida artística pela estrada afora.

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Tamyres Maciel escreverá uma coluna quinzenal em A Casa de Vidro.

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Siga viagem e assista ao documentário curta-metragem “O Futuro Nos Frutos”:

PEDRAS QUE ROLAM NÃO CRIAM MUSGO – 50 anos da Revista Rolling Stone em documentário da HBO

Lançada em 1967, em plena efervescência do movimento hippie em San Francisco, a lendária publicação Rolling Stone (Site oficial: https://www.rollingstone.com/), ao comemorar seus 50 anos de existência em 2017, foi honrada com um excelente documentário.

Dividido em 2 partes e com cerca de 4 horas de duração, “Rolling Stone: Stories From the Edge” foi produzido pela HBO e dirigido por Blair Foster e Alex Gibney. O filme é um concentrado alucinante, eletrizante e provocativo do que de mais louco ocorreu na cultura dos EUA nas últimas 5 décadas.

Primeira edição da revista, em Novembro de 1967, com John Lennon na capa e matéria de fôlego sobre o Grateful Dead.

Eis um filme que vai muito além de ser apenas uma crônica histórica de um órgão essencial da imprensa cultural estadunidense (e que depois abriu filiais em outros países, inclusive a Rolling Stone Brasil). O doc é um sobrevôo intenso e comovente sobre alguns dos fatos e agitos sócio-políticos mais fulminantes das últimas décadas: aborda o nascimento do “Gonzo Jornalismo” com os escritos chapados de Hunter S. Thompson; as mobilizações sociais contra a Guerra do Vietnã e em prol da Liberdade de Expressão (Free Speech Movement); o relacionamento do ex-beatle John Lennon com sua parceira Yoko Ono, além das ressonâncias do assassinato de John em 1980; a conversão de Patty Hearst (neta do “Cidadão Kane) à guerrilha que a sequestrou; as lendárias fotografias de Annie Leibovitz que estrelam várias das capas da revista; as reportagens também antológicas do Cameron Crowe (que depois se tornaria um dos grandes cineastas norte-americanos, realizando filmes como “Singles” e “Quase Famosos”). E por aí vai…

Batizada em homenagem à esta imagem emblemática na história do rock – “a rolling stone gathers no moss” -, a revista californiana criada por Jann Werner e seus colaboradores tirou seu nome dessa célebre imagem da Pedra Rolante. Esta aparece primeiro em blues elétrico do lendárioMuddy Waters que inspirará o nome de uma das principais bandas da história do rock inglês: The Rolling Stones. A Pedra Rolante depois vai parar na lendária canção do poeta folk-rock laureado com o Nobel Bob Dylan, na canção que abre o álbum “Highway 61 Revisited”, música que seria também re-interpretada pelo gênio da guitarra Jimi Hendrix (que abre o filme com sua magistral abordagem de “Like a Rolling Stone”).

O filme tem uma montagem espertíssima e uma trilha sonora maravilhosa. Inclui cenas raras e incríveis de artistas como Janis Joplin, Tina Turner, Bruce Springsteen, Ramones, Sex Pistols, dentre muitos outros. Aborda as relações da revista com movimentos como o hippie, o punk, o grunge, o hip hop, mas também tematiza as relações polêmicas com o mercadão da música pop (pois a Rolling Stone também teve seu lado caça-níqueis e estampou muita “propaganda” de boybands popstars, travestidas de jornalismo, para figuras como Britney Spears e NSync… ainda que também soubesse explorar o lado sombrio do “Sonho Americano” com o colapso da fama de Britneys e Amys…).

No filme, as relações da publicação com o establishment político também são abordadas, mostrando uma certa “gangorra” entre a tendência a alianças com a “mainstream politics” (como a adesão um tanto condescendente a Bill e Hillary Clinton) e posturas muito mais subversivas e contraculturais (como ocorreu nas diatribes e críticas disparadas contra Richard Nixon). Recentemente, jornalistas como Matt Taibbi se notabilizaram pelas grandes reportagens, de sabor gonzo e teor subversivo, sobre a ascensão da extrema-direita, a eleição de Donald Trump e o “racha” entre os democratas (a onda Bernie Sanders sendo derrotada pela escolha de Hillary nas Primárias).

O mérito maior do filme está em transcender a música, ou melhor, em inserir as manifestações musicais em um contexto mais amplo, em um horizonte expandido. A Rolling Stone nunca quis ser apenas uma publicação “especializada” e dirigida apenas para fissurados em música; sempre meteu o bedelho em temáticas sócio-políticas, ousando nas suas abordagens dos fenômenos contraculturais, dando voz a movimentos sociais e ensinando ao mundo o escopo amplo da ressonância da Cultura Rocker em vários âmbitos da vida social.

Neste filmaço, podemos conhecer um pouco mais à fundo a história desta publicação lendária que ensinou ao mundo que a música era uma força social, mobilizadora e transformadora, capaz de gerar abalos sísmicos no âmbito do comportamento e da expressividade. Cinquenta anos depois, esta pedra segue rolando pra não juntar musgo e seguir servindo de caixa de ressonância para o que de mais extraordinário se passa na Babel de nossa globalizada cultura de massas. Um filmaço!

Saiba mais: https://www.imdb.com/title/tt7604980/

Baixar em torrent: PARTE 1 e PARTE 2 (via Making Off)

Por Eduardo Carli de Moraes para A Casa de Vidro:www.acasadevidro.com

A PRIMAVERA FEMINISTA E ANTIFASCISTA DO #ELENÃO – Assista ao documentário sobre uma das maiores manifestações de massa do século 21

Acima: as ruas brasileiras em 29 de Setembro de 2018 no Rio, em Sampa, em Belo Horizonte e em Curitiba; de acordo com Brasil de Fato, estima-se que 1 milhão de pessoas tenham participado das manifestações em todos os 27 estados do país.

#EleNão.doc – Mulheres Contra o Fascismo (Documentário, Goiânia, 2018, 16 min). Uma produção A Casa de Vidro.

“Companheira, me ajude, que eu não posso andar só! Sozinha ando bem, mas com você ando melhor!” Essa era uma das muitas canções que ressoaram pelas ruas neste dia histórico em que as mulheres do Brasil botaram a boca no trombone e se mobilizaram contra o fascismo, o racismo, a misoginia e o golpismo representados pelo “Coiso” e seus lambe-botas. Céli Regina Jardim Pinto, professora da UFRGS e pesquisadora da história do feminismo, afirmou em entrevista à BBC News Brasil  que o 29 de Setembro de 2018 “foi a maior manifestação de mulheres da história do Brasil.”

“Nem fraquejada e nem do lar, a mulherada tá na rua pra lutar!”: era o que também cantava-se a plenos pulmões em meio às batucadas e aos animados fluxos de gente guerreira pela cidade. Foram atos cívicos de grande beleza e potência, pluripartidários, unindo diversas bandeiras, num levante colorido em que a tônica era a luta intersecional contra a Opressão. Movimentos contra o racismo, a LGBTfobia, o machismo e a Cultura do Estupro estavam unidos e solidários às organizações estudantis, sindicais e anarquistas.

Em repúdio e repulsa às posturas machistas, racistas e armamentistas do candidato-a-ditador Jair Messias Bolsonaro, escudado por Mourão, Guedes e toda uma corja de Bozominions, mais de 3 milhões de mulheres reuniram-se ao redor da hashtag #elenão em um grupo de Facebook que demonstrou ser capaz de realizar com sucesso a jornada das redes para as ruas no 29S. Foi uma maré gigantesca de protesto que ecoou até na imprensa internacional – vejam, por exemplo, esta reportagem inglesa do The Guardian.

O maior fenômeno de mobilização de massas deste ano de 2018 é, sem dúvida, o movimento #EleNão, que transcende o cenário eleitoral e configura-se como “um movimento feminista e político que pode mudar o Brasil”, como defendem Rosana Pinheiro-Machado e Joanna Burigo em The Intercept Brasilhttps://bit.ly/2N99gyr. Estima-se que os atos cívicos levaram cerca de 1 milhão de pessoas às ruas nas mega-manifestações que ocorreram em todos os 27 estados do país em 29 de Setembro. Apenas no Rio de Janeiro, foram 200 mil cidadãos mobilizados, de acordo com Brasil de Fatohttps://bit.ly/2N89u93.

Neste curta-metragem documental, A Casa de Vidro registra os agitos no coração do Cerrado brasileiro neste dia de floração da Primavera Feminista. Em Goiânia, estima-se que cerca de 20.000 pessoas estiveram presentes ao ato, que concentrou-se na Praça Cívica, fluiu pela Avenida Goiás e Av. Anhanguera, para desaguar na Praça Universitária. O resultado é este documentário de 16 minutos, filmado por Eduardo Carli de Moraes e Renato Costa, que dá voz e visibilidade àqueles que tomaram o espaço de público para si neste momento histórico de tantas urgências e riscos.

Além de entrevistas com cidadãos que estão engajados com os movimentos democrático-populares, como Diane Lula Da Silva Valdez e Marnei Fernando, o filme registra também os agitos culturais e artísticos, como os batuques do Coró Mulher e as poesias declamadas por Pilar. O filme busca ser um registro histórico dos acontecimentos que já marcaram época, sendo também um projétil audiovisual de intervenção e de ativismo, animado pela convicção de que não há possibilidade de “ficar em cima do muro” em uma época como a nossa. Isto é cinema engajado e que abre-se às ventanias das polêmicas, sabendo que irá tomar muita pedrada e que terá que recolher muito vidro estilhaçado. Mas é a vida e o destino dos que tomam posição contra o que julgam ser as injustiças inaceitáveis e os intoleráveis discursos e práticas de intolerância que hoje sairam do armário e nos ameaçam com “o Horror, o Horror!” (Joseph Conrad).

Além dos agitos do dia 29 de Setembro, o filme também registra os eventos da véspera, quando ocorreu um grande comício petista com a presença do candidato à Presidência Fernando Haddad. Comentando declarações de Mourão, vice de Bolsonaro, que ameaçou extinguir o 13º salário, Haddad fez um forte discurso em defesa dos direitos trabalhistas constitucionais e elogiou as posturas de sua vice, Manuela D’Ávila, citada por muitas mulheres nas manifestações como uma referência de representatatividade e empoderamento feminino na política institucional da atualidade. Leia o relato completo da visita de Haddad a Goiânia neste post: https://bit.ly/2P35YyC.

Em seu texto “#EleNão: as mulheres e a resistência à desconstrução da democracia”, a cientista política Flávia Biroli destaca: “As novidades mais evidentes nas eleições de 2018 são o fato de um candidato de extrema-direita ter chances reais de ser eleito presidente e o fato de que uma linha divisória de gênero se apresenta como clivagem central nas intenções de voto. (…) Na pesquisa Ibope sobre as eleições presidenciais de 2018 divulgada em 24 de setembro, 54% das mulheres disseram que não votariam em Bolsonaro de jeito nenhum, enquanto entre os homens essa rejeição é de 37%.” (Publicado em Boitempo: https://bit.ly/2IrUbaE)

* São muitos os casos de mulheres brutalmente torturadas durante a ditadura de 1964. Ver o site do Memorial da Ditadura.

Todas as pesquisas indicam que o 2º turno das eleições presidenciais oporá a extrema-direita Bolsonarista ao projeto lulopetista vencedor dos últimos 4 pleitos. Muitos já destacam que este será o duelo entre a Barbárie direitosa e ditatorial da chapa Bozonazi e a Civilização defendida pela chapa encabeçada pelo ex-Ministro da Educação do governo Lula. Tendo isso em mente, este documentário vem para contribuir para a conscientização pública dos labirintos políticos da atualidade brasileira. De fato, não acreditamos em jornalismo ou documentarismo que se pautem pelo mitológico conceito de “neutralidade” ou “imparcialidade”. O que não quer dizer que aceitemos o sectarismo ou o fanatismo. No atual imbróglio, estamos clara e confessamente ao lado de todos que gritam #elenão, o que no atual contexto significa uma adesão ao projeto lulista que pode vencer nas urnas a ameaça fascista.

Como Naomi Klein sugere em seu livro, “Não Basta Dizer Não”, e nós aqui dizemos “Sim!” a  #HaddadPresidente, a #LulaLivre, a #ManuNoJaburu. Sabemos também que a luta contra o fascismo não tem data para acabar, é algo que transcende as urnas. Aqueles que não respeitam a pluralidade da vida serão sempre contestados pela pluralidade oprimida. Se fere minha existência, serei resistência! A fecundidade das lutas populares atuais só se intensificará se soubermos conectar as pautas dispersas num grande caldeirão fervente de mobilização intersecional contra as opressões de gênero, de raça e de classe. “Quem não se movimenta, não sente as correntes que o prendem”, disse Rosa Luxemburgo. Nós, hoje, estamos em pleno movimento não só para sentir as correntes que nos aprisionam, mas para quebrá-las com a força de nossa colaboratividade indomável.

Uma das maiores pensadoras e escritoras do Brasil, Eliane Brum, cujas palavras servem de epígrafe para este curta-metragem, expressou muito bem os desafios e as promessas de nossa tensa e intensa atualidade em sua coluna: “É com corpos que se recusam a ser determinados pelo ato de ser violentada ou pelo ato de violentar que podemos criar um outro jeito de ser e de estar nesse mundo.” Leia na íntegra.

A boa notícia, que dá um pouco de ânimo em meio a este pesadelo de tamanho continental que é a terra brasilis, está naquela comovente e arrebatedora Potência Popular que ficou manifesta nas ruas e nas redes em 29 de Setembro, um dia histórico na luta contra o fascismo na América Latina.
Foi uma demonstração de Poderio da Soberania Popular, um chega-pra-lá nos pretendentes a tiranos, e uma das mais lindas realizações político-culturais já realizadas no país sob protagonismo feminino. Equiparável à grandeza de alguns dos protestos das Jornadas de Junho de 2013, estes protestos coordenados e muito bem organizados, onde não houve repressão policial talvez pela força que demonstramos, são um sintoma salutar de que estamos acordados, unidos, solidários, na luta ampla e intersecional contra o que nos oprime e nos esmaga.
Surgiu no cenário político brasileiro um outro tipo de Gigante que parece ter acordado: a mobilização cívica, supra-partidária, que congrega o feminismo, o movimento LGBT, a luta anti-racismo e anti-apartheid, os movimentos estudantis e juvenis, além de boa parte da militância que está em plena a resistência aos desmontes e retrocessos de nosso estado pós-democrático, fraturado gravemente em 2016 com a deposição fraudulenta da presidenta eleita.
O Golpe não ficou em 2016: ele se “espraiou” até 2018; foi inaugurado pelo golpeachment, prolongou-se no cárcere político de Lula, e agora escancara-se como cadela no cio fascista ao propor a candidatura do Coiso – aquele golpista que não teve vergonha de elogiar o torturador Ustra em sessão da Câmara, de triste memória, onde tripudiou sadicamente sobre a dignidade da Dilma e, por extensão, estuprou com suas palavras todas as mulheres latino-americanas que já estiveram sob tortura ou cárcere devido a um Terrorismo de Estado.
Bolsonaro é a caricatura grotesca daquele famoso “entulho autoritário” que a Ditadura Civil-Militar nos legou como amargo legado. Derrotá-lo é urgente para que aquilo que nos sobrou de Civilização e Civilidade não chafurde totalmente no lodaçal da Barbárie totalitária. Elegendo esse violador contumaz dos direitos humanos, o Brasil inteiro estará perdido, e mesmo os que votam nele sairão perdendo, e perdendo feio. Elegendo isso, damos um tiro no nosso próprio pé coletivo, estragamos nosso futuro, mergulhamos nosso porvir no descalabro da guerra civil e de uma nova ditadura, prenhe de horrores.
A boa notícia, repito, foi que o #elenão experimentou a interseccionalidade na práxis. Colocou em movimento esta salutar confluência dos feminismos, das lutas contra a homofobia, das mobilizações estudantis, dos trabalhadores em busca de dignidades e de reversão das hecatombes de direitos que temos assistido, todos juntos e coligados, respeitando-se nas diferenças, somando forças na luta contra a barbárie opressora que nos rodeia, nos agride, nos promete o fuzilamento e a tortura.
Essa confluência de lutas, esta intersecionalidade na prática, este esforço de solidarização e confraternização, será importantíssima de sustentar e de cultivar em nosso futuro turbulento (aquilo a que já estamos condenados). Como disse Naomi Klein, não basta dizer não. Ao nosso não devemos somar o sim de nossa utopia concreta, em vias de realizar-se: um mundo onde caibam todos os mundos, onde se concretizem os nossos sonhos que não cabem em tuas urnas, onde os inéditos viáveis da justiça social e da confraternização na diferença se façam carne viva e não cadáveres aos pés dos fascistas e seus lambe-botas.
#LulaLivre
#FascistasNãoPassarão
#HaddadPresidente
#ManuNoJaburu

– Por Eduardo Carli de Moraes, 01 de Outubro de 2018.

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(Goiânia, 2018, 16 min)
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🎶 Ele é o olho roxo
De quem não caiu da escada
Ele é a violência
Escondida na piada
Ele é aquele aperto nojento
Na condução
Ele é a Casa Grande
Rindo da escravidão
Ele é o país na contramão
Da caminhada
Ele é o patrão
Violando a empregada
Ele é o nosso salário
Um terço mais baixo
A política do ódio
Covardia, esculacho
A política do ódio
Covardia, esculacho
A barbárie de farda
Berrando no palanque
A hipocrisia mais truculenta
Ele é a mão suja de sangue
Que se diz
Ungida de água benta
Ele é o atraso
Que país nenhum
Merece ter
E nós somos as mulheres
Que não vão deixar ele vencer 🎶
Uma canção de Marina Iris

CERRADO VIVO OU BARBÁRIE – O cinema como arma de conscientização em massa. Sobre “Ser Tão Velho Cerrado”, de André D’Élia.

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ARMA DE CONSCIENTIZAÇÃO EM MASSA
por Eduardo Carli de Moraes para A Casa de Vidro

Não é catastrofismo delirante, é puro senso de realidade e atenção aos fatos empíricos: o Cerrado e toda sua estonteante diversidade está indo pro ralo, e nós com ele.

No país que é líder global no uso de agrotóxicos, onde cada cidadão consome 5 litros de veneno ao ano, estamos trucidando biodiversidade para substituí-la por monoculturas focadas no mercado estrangeiro. Estamos deixando áreas de preservação ambiental serem invadidas pelos interesses de mineradoras, empreiteiras e hidrelétricas. Estamos testemunhando incêndios criminosos que alastram um fogo destruidor como represália pela expansão de Parques devotados ao ecoturismo e à ampliação da consciência ambiental.

Estamos diante de uma alternativa similar à proposta por Rosa Luxemburgo (e Castoriadis) entre socialismo ou barbárieou mantemos o Cerrado vivo, ou tempos muito bárbaros virão, com água escassa, solos desérticos, migrações em massa, climate wars…

Um exemplo é a estrada que liga Brasília à Chapada dos Veadeiros: ela está tomada pelos mega-empreendimentos do agronegócio, e esses fazendeiros endinheirados são especialistas em ecocídio.

O extermínio da vida original do território é muitas vezes um crime sem volta, uma dilapidação de um bem que deveria, caso não fôssemos tão irresponsáveis, ser legado aos que ainda não nasceram (são preceitos básicos daquele livro de filosofia ainda tão pouco estudado, compreendido e praticado por nós: O Princípio Responsabilidade de Hans Jonas).

A riqueza inestimável da fauna e flora do Cerrado brasileiro é sacrificada para que possamos vender soja transgênica que alimentará porcos e vacas na China. Bichos escravos da indústria da carne (assistam Meat the Truth, Cowspiracy Earthlings), ainda necessitados daquela Libertação Animal de que fala o filósofo Peter Singer, animais cujas existências repletas de horror, sofrimento e agonia são tratados como commodities, produtos a serem consumida pelas centenas de milhões de carnívoros do planeta (enquanto isso, o vegetarianismo segue menos disseminado do que precisaríamos para salvar o planeta das hecatombes que já não podemos evitar).

Os lordes do agrobiz, especialistas em desmatamento, mestres da cegueira imediatista, fascinados com lucros a curto prazo mas desatentos em relação às necessidades de futuras gerações, estão fabricando a encarnação da distopia: um mundo onde este Ser tão velho, o Cerrado com seus mais de 40 milhões de anos nas costas, é irreversivelmente tratorado pelo avanço inclemente do “Progresso Modernizador”.

Ou seja, uma avalanche de latifúndios monocultores, que empregam pouquíssima gente, proliferam pesticidas cancerígenos, estimulam sementes transgênicas que só funcionam em conjunção com os produtos fertilizantes e mata-pragas fabricados por mega-corporações transnacionais, tomam o cenário de assalto.

E isto justo na época histórica onde formam-se monstros corporativos como a fusão entre Bayer e Monsanto. Num tempo onde a conjuntura política é desesperadora, com a ascensão ao poder de figuras como Donald Trump, inimigo número 1 de quaisquer práticas sustentáveis e quaisquer discursos ecologistas – e que saltou fora do Acordo de Paris sobre o aquecimento global, praticamente inviabilizando uma solução para o aumento vertiginoso das temperaturas planetárias, pois o maior poluidor atmosférico sobre a face da Terra diz, desde a Casa Branca, que está cagando e andando pra isso. O que interessa é a bufunfa, o clima que se exploda. Diante disso, ensina Naomi Klein, não basta dizer não!

Neste contexto, Goiás caminha no sentido de coloca um revólver tamanho família em sua própria cabeça e dar um tiro suicida em seu cérebro: o Caiado (DEM) é líder em todas as pesquisas de intenção de voto e deve tornar-se o novo governador do Estado após décadas de hegemonia do PSDB de Marconi Perillo. É uma conjuntura que nos leva a pensar na Lei de Murphy que enuncia: nada é tão ruim que não possa piorar. Pior que tá, fica sim.

É nossa tarefa trampar por um mundo melhor, decerto, mas às vezes também estamos obrigados a unir forças para evitar que a situação degringole para algo ainda mais catastrófico do que aquilo que já vivemos. De modo que os discursos e práticas favoráveis à conservação natural não necessariamente vinculam-se ao campo conservador do espectro político: podemos ser como ecosocialistas que defendem um modelo de intercâmbio entre Humanidade e Natureza que não seja predatório nem loucamente extrativista, apostando num modelo que privilegie a agrofloresta, a agricultura familiar e orgânica, a permacultura, a celebração da sociobiodiversidade em nossa cultura.

Neste contexto é que o cinema – como não cesso de descobrir em jornadas de intensa cinefilia! – tem poderes impressionantes de mobilização e conscientização. A chegada entre nós de Ser Tão Velho Cerrado é crucial para mostrar que esses poderes do cinema não servem somente para entreter e alienar, para gerar lucros estratosféricos com ingressos, para movimentar uma pujante indústria cultural massificada. Os poderes do cinema – em expansão espantosa deste a época dos primórdios, com os Irmãos Lumière e o mago Mèslies – podem ser mobilizados para iluminar e expandir horizontes, como ferramentas para a educação cívica, como armas de conscientização em massa.

O cinema pode ser uma via de sabedoria, uma escola itinerante cujos ensinamentos viajam na mídia leve da imagem-e-som digitalizados. Um meio de comunicação disseminável através das fronteiras, que vai onde um professor de carne-e-osso não pode ir, devido à proliferação das cópias e a divulgação na Internet, que rompe com o isolamento físico do educador que só pode estar em um único ponto do espaço-tempo de cada vez. Um filme pode ser, sintetizado em 90 minutos, todo um tratado de física, de filosofia, de biologia, de ambientalismo, de espiritualidade, de geografia, de história, de astronomia. Pode ser um chamado à união, ou mesmo à insurreição. Pode disparar os alarmes para que os adormecidos despertem para catástrofes iminentes – mas evitáveis.

Esta ambição de ensinar, somada ao ímpeto de denunciar os maus rumos que na atualidade estamos tomando, anima este filme co-movedor de André D’Élia. Sinto que nós todos, que de alguma maneira estamos visceralmente envolvidos com o métier do documentarismo e do audiovisual, sentimos bem, durante a sessão do documentário de produção e pesquisa primorosas, o quanto Ser Tão Velho Cerrado chega em boa hora e é uma obra-prima do gênero. É um documentário extremamente relevante e que precisa ser disseminado.

A aula que o filme proporciona é rica em ensinamentos cruciais: nos fala sobre o maior território quilombola da América Latina, o sítio histórico do povo Kalunga, e retrata a resistência deste povo contra o avanço trucidador dos poderes do ecocídio lucrativo; nos fala sobre a crise hídrica que nos ameaça e sobre a importância do Cerrado, como berço das águas, para todos os biomas que o circunda no território deste país de dimensões continentais; nos fala da desgraça política que é a falta de representação, nas instituições pseudo-democráticas, daqueles que defendem os interesses das populações tradicionais, dos agricultores familiares, dos produtores que não usam transgênicos; nos fala também das benesses de um ecoturismo em expansão e que, apesar de seus perigos (a gourmetização e a gentrificação), parece ser mesmo a solução imediata mais sábia para uma ocupação cívica construtiva da Chapada dos Veadeiros.

É um filme que sonda com coragem os problemas mais urgentes e cruciais de nossa época: fala das mudanças climáticas, da interconexão entre os biomas, da importância inestimável da preocupação com sustentabilidade, mas sem vender róseas soluções prontas. Ao contrário, Ser Tão Velho Cerrados pinta um retrato bastante distópico de nossa realidade atual, em que os retrocessos sócio-ambientais são chocantes e imensos. Vide a catástrofe gigantesca que matou o Rio Doce na “Tragédia de Mariana” (e que ameaça se repetir com as novas ofensivas das mineradoras sobre áreas outrora protegidas).

Este é também o primeiro filme brasileiro que faz a crônica e o registro histórico das proporções assustadoras do incêndio que devorou uma imensa fatia da fauna e flora da Chapada dos Veadeiros em 2017, chamas que muito provavelmente foram criminosamente provocadas em represália à expansão da área do Parque Nacional. Fiapos de esperança são os mutirões e as brigadas de combate ao fogo que puderam conter a tragédia através de uma solidariedade nascida das urgências do instante.

O fogo consumiu vorazmente cerca de 66 mil hectares – o equivalente a 28% da unidade de conservação – da rica flora e fauna do Cerrado em um dos piores desastres sócio-ambientais ocorridos no Brasil depois da hecatombe do Rio Doce. A Chapada dos Veadeiros viu-se lançada a um estado de emergência que exigiu solidariedade construída às pressas: ativistas e cidadãos conscientes se mobilizaram em brigadas para apagar o fogo e triunfaram após 20 dias de intensos e fatigantes trabalhos (leia mais minúcias nesta reportagem da Mídia Ninja): 

“Segundo Christian Berlinck, coordenador de combate ao fogo do Instituto Chico Mendes de Biodiversidade, o Governo Federal gastou aproximadamente um milhão de reais na operação. Da sociedade civil, foram quase 200 voluntários envolvidos nas funções da operação e quase 600 mil reais arrecadados em um exitoso financiamento coletivo, que continuará a ser feito, na criação de brigadas voluntárias permanentes, que atuariam anualmente.” – Ninja

Esse Ser tão antigo do nosso planeta, o Cerrado de ancestralidade que deveríamos reverenciar, hoje está envolvido no cerne de uma contextura desesperadora, onde comparecem elementos como a escassez hídrica, a extinção acelerada da biodiversidade, a iminência de uma catástrofe ambiental global com o descontrole do clima terrestre etc. Tudo isso somado aos mega-projetos da mineração, do agrobiz, da hidreletricidade, fortemente amparados no poder político plutocrático. Contra tudo isso, precisamos sim, e muito, de educação – desde que ela seja mobilizadora, ativista, colocando o aluno na posição daquele que precisa ser posto em movimento e retirado de sua passividade de esponja, rumo à atividade de co-laborador no partejar de um outro mundo possível.

Este documentário é capaz de acordar no espectador uma consciência ampliada do tempo. É um fenômeno cinematográfico que merece ser estudado pelos filósofos, em especial os que se interessam pelo tema da temporalidade, já que veicula uma visão do tempo que rompe completamente com o imediatismo, com a cegueira mental daqueles que põe lucros imediatos na frente da preservação das riquezas concretas e reais do planeta, aquelas que temos a responsabilidade inalienável de legar intacta para as gerações que virão.

40 milhões de anos cabem em 90 minutos? A pergunta pode parecer absurda, mas a resposta é sim – e Ser Tão Velho Cerrado, o filme de André D’Élia, realiza este aparente milagre. É um documentário altamente didático, uma ferramenta de conscientização em massa que chega para marcar época naquilo que eu chamaria de pedagogia audiovisual. Somando denúncia e anúncio, como aconselhava Paulo Freire, a obra chega em boa hora para nos alertar sobre a preciosidade do Cerrado, sua reverenciável ancestralidade, e o perigo imenso que hoje corre.

Seu título em inglês é Old Lord Savanna, um nome que me parece problemático: invoca o Lord dos monoteísmos patriarcais, ao invés de entrar em sintonia com a espiritualidade muito mais matriarcal que o filme sugere e propaga. Precisamos mais do que nunca de um Matriarcado de Pindorama, de uma cultura mais Pachamâmica, de uma espiritualidade com mais pendores para Oxum e Iemanjá do que para o enfurecido deus pintudo de Sodoma e Gomorra. Abaixo Jeová e seus clone, queremos que todos sejam co-partícipes do panteísmo que enxerga-nos como grudados à Matriz do Planeta Mãe. Estamos todos na mesma barca Gaia. 

Foi tocante descobrir que o filme integra a seu material de conscientização em massa a obra de artistas como a da talentosa fotógrafa Mel Melissa Maurer, do projeto O Caminho do Cerrado. A arte como instrumento de sensibilização é algo que se explicita nas fotos da Mel – que já expusemos em Goiânia durante uma das edições do Confluências: Festival de Artes Integradas, evento que contou com a presença da modelo Moara, que nos concedeu uma entrevista enquanto passeava pela exposição (veja abaixo).

As fotografias põe em cena a beleza exuberante e a fragilidade constitucional do corpo humano nu, vestido apenas com botas, máscara anti-gás e fitas pretas nos mamilos, em meio à devastação ambiental acarretada pelo avanço das monoculturas de soja, pelos pesticidas e transgênicos, pelos mega-projetos de barragens, pelas mega-mineradoras e seus braços na indústria da construção civil.

O filme Ser Tão Velho Cerrado também dá voz e vez a outras figuras da cultura, como a Mãe da Lua, o Caio (da Turma Que Faz) etc. Assim obrando, o documentário congrega artistas e intelectuais para somarem numa mensagem direcionada não somente aos cérebros, mas às sensibilidades.

O lucro de mineradoras, latifundiários, empreiteiras e políticos a elas vinculados representa a devastação de nosso patrimônio ancestral somada à aniquilação de nossa possibilidade de termos um futuro vivível. O mínimo que se espera é que possamos legar aos que ainda nascerão um futuro com ar limpo para respirar, água potável em fartura, espaço comum para conviver e celebrar. Tudo sob ameaça. Os defensores da terra, ameaçados com a mordaça e as balas. O sangue de milhares de Chicos Mendes é derrubado aos borbotões, enquanto os rios são barrados. E os risos são abafados pelo vampirismo de Temers e Caiados, de Sarneys e de Marconis, de Maggis e Kátias Abreus. Velhos sanguessugas escrotos, contaminados por ganância, contaminadores de tudo com sua poluição e estupidez.

Sei que o cinema não pode tudo, mas tampouco é negligenciável seu poder de transformação. No escuro daquela sala em que estamos todos sozinhos-acompanhados, alone together, podemos ser impactados de modo transformador por aquele veloz e caleidoscópio desfile de imagens e sons. Portal de luz que conduz a que possamos mergulhar em locais onde não estivemos, permite que ouçamos pessoas que não conhecíamos, aprendendo lições com aqueles que nos comunicam o que sabem de melhor.

São filmes como Ser Tão Velho Cerrado que reativam a consciência da importância do documentário para a civilização. Pois o cinema-do-real é um espetáculo à parte. À margem da Sociedade do Espetáculo, com seus blockbusters e seus rentáveis ficções a serem consumidas com muita pipoca e refrigerante, quase sempre dentro de shopping centers, o cinema documental representa uma vertente essencial desta arte: seu poderio cívico, sua capacidade de informar, formar e mobilizar um público que não é visto apenas como espectador, mas como co-partícipe e co-laborador.

Co-laboremos, pois, para que o Cerrado viva e sobreviva – pois é também nossa sobrevivência que está em jogo, nosso futuro o que está na balança. São nossos amanhãs que estão com o pescoço na guilhotina. Impeçamos a descida brutal da espada de Dâmocles que nós mesmos deixamos que ali se colocasse. Levantemos para salvar nossas goelas, nossos pulmões, nossas vidas-em-teia. Para ajudar-nos, o filme dá voz e amplifica a potência de pesquisadores e intelectuais (como Altair Sales – blog), de ONGs e instituições da sociedade civil (como a Fundação Mais Cerrado), de órgãos públicos (como o ICMBio) e comunidades tradicionais (como os Kalunga, do sítio histórico quilombola localizado em Cavalcante). Mas exige que a gente entre nessa ciranda, junte a voz a este coro.

UM PUNHADO DE CRÍTICA CONSTRUTIVA

“Nem tudo que é torto é errado, veja as pernas do Garrincha e as árvores do Cerrado.” – Nicholas Behr

Pelo que ficou dito acima, fica evidente que adorei o documentário, reconheço seu imenso mérito e farei o possível para disseminá-lo. Quero utilizá-lo em sala de aula no IFG e tentarei persuadir colegas professores a espalharem por aí os cine-debates que ponham em circulação os ensinamentos de Ser Tão Velho Cerrado. Mas gostaria de, antes de encerrar, tentar um pouco de crítica construtiva, aquele tipo de procedimento que não tem a mínima intenção de tacar pedras ou de diminuir o valor da obra em questão, mas visa somar com o processo de discussão ao apontar uma espécie de déficit.

Um aspecto que poderia ter deixado o filme ainda mais interessante, mas que teria o agravante de deixá-lo mais longo em sua duração e mais amplo em seu espectro de problemas considerados, seria uma abordagem mais minuciosa do tema da Cultura. É muito neste sentido que venho tentando colaborar, recentemente, com a produção audiovisual – propondo, em O Futuro nos Frutos mas também em Afinando o Coro dos Descontentesque há uma imensa diversidade de manifestações artísticas de teor transformador, questionador, sincrético, celebrador da diversidade, rolando em Goiás. É uma produção cultural em que as manifestações artísticas de modo algum estão alheias às problemáticas ecológicas, políticas, socioambientais, éticas etc.

Sertão Velho Cerrado nem menciona que algumas das mais expressivas bandas do cenário goiano, como Carne Doce, Boogarins, Pó de Ser, Ave Eva, Umbando, Passarinhos do Cerrado, Turma Que Faz, dentre outras, vem focando suas atenções sobre a Chapada dos Veadeiros há tempos. Este tema está lá no slogan viralizável “o progresso é mato”, que Salma Jô canta na canção-manifesto “Sertão Urbano”, uma das canções mais politizadas e mais relevantes do Carne Doce, e um dos mais belos clipes já realizados em território goiano. Este tema está lá na sapiência comunicada nas belas vozes de Flávia Carolina Almeida e Paula de Paula, que com o Ave Eva estão invocando Oyá para criticar “os humanos seres da terra” que “pagam a ela com ingratidão”.

Está lá também no rap-folk de Doroty Marques, entoada pelo coro polifônico da Turma Que Faz, que fala assim: “deixe o meu Cerrado que ele não está errado!”. Está lá em “Benzin” dos Boogarins, cujo videoclipe celebra, em belas imagens, a imensidão do Cerrado através da qual Salma Jô trafega como uma transeunte do infinito. Está lá na proposta estética de vertente mais “makulelê”, em coletivos como Coró de Pau e Ninho Cultural, na música das finadas (e maravilhosas) bandas Umbando e Cega Machado, além de rebrilhar em muitos pontos da obra magistral de Juraildes da Cruz. Está lá, também, nos mais de 20 anos de trabalhos da Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge, que realiza o Encontro de Culturas e a Aldeia Multiétnica.

É uma gente que merecia ao menos menção no esforço documental de André D’Élia. A cultura – ainda que representada pelo lindo trabalho da Mel, pelas falas do Caio, pela Mãe da Lua – ficou um tanto menosprezada. De todo modo, assistir a Ser Tão Velho Cerrado me inspirou a continuar o trabalho que venho realizando como documentarista e agente cultural, com foco neste tema das manifestações artísticas de viés político. O filme de D’Élia, com todos os seus inúmeros méritos, extremamente elogiáveis, deixou escapar essa chance de tematizar, por exemplo, o quanto o cenário musical independente, em Goiás, está em estado de razoável sintonia (que merece ser expandida) com o eixo central que estrutura este meu discuro: a alternativa Cerrado Vivo ou Barbárie.

Esse menosprezo da Cultura impede o espectador de pôr questões importantes: o que precisamos para sair do buraco não é de uma autêntica revolução cultural? Ela não teria que estar conexa a uma transformação midiática que nos empodere diante dos velhos barões da mídia)?Não precisamos acelerar rumo ao Ponto de Mutação de que nos falava Fritjof Capra? E não é uma metamorfose cultural, em direção a uma sociedade com hegemonia de uma cultura mais consciente das interconexões e interdependências que constituem a Teia da Vida neste planeta, aquilo que poderá salvar tudo da ganância e da hýbris do homo sapiens, em toda sua estúpida e ultra-disseminada falta de sabedoria? E esta cultura transformada, com suas cegueiras curadas, com sua estupidez transcendida, também não será necessariamente uma obra dos artistas, esses disseminadores de uma nova sensibilidade, de uma consciência renovada?

Em “Gota Miúda”, o “sol se escondeu atrás de um edifício” e o eu-lírico, lindamente vocalizado pela Paula de Paula, lamenta-se: “amor, como é difícil perdê-lo na construção!”. É uma imagem impressionante do quanto a natureza acaba eclipsada pelos edifícios da urbe, que arranham os céus mas servem de obstáculo à nossa visão do horizonte. Uma imagem lírica similar e análoga anima “Avalanche”, dos Boogarins, onde o eco dos amplificadores e o ataque conjugado de guitarras, baixo e batuques (todos devidamente psicodelizados), é a ferramenta imaginada como capaz de transformação de um cenário urbano que pratica um apagão da natureza e nos prende num “labirinto de tédio”. “A maior demonstração de propagação do ser é o eco. Com ele meu grito tem força para derrubar todos os prédios que não nos deixam ver o sol.”

Para que o berço das águas não se torne o túmulo da vida ao ficar seco, desértico e distópico, para que a imensa biodiversidade que é riqueza viva e inestimável não seja imolada no altar retardado do capitalismo predatório, precisaremos sim de muita arte. De uma arte que ensine e ilumine, que expanda horizontes, que chova sobre nós estas gotas miúdas que re-ativam constantemente “o milagre do pão”.

Eduardo Carli de Moraes
Goiânia, 14/08/2018

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SIGA VIAGEM:

Repórter Eco da TV Cultura

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O diretor André D’elia apresenta seu projeto “Ser Tão Velho Cerrado”, um filme que mostra a importância do bioma cerrado para a sociedade brasileira e é um exemplo do Cinema Pedrada:

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NA IMPRENSA:

FOLHA DE SÃO PAULO >>> Documentário corajoso de André D’Elia denuncia devastação do cerrado

“Este documentário do diretor e roteirista André D’Elia —afeito às causas ambientais, como demonstram os longas “A Lei da Água” (2015) e “Belo Monte – Anúncio de uma Guerra” (2012)— procura sensibilizar o grande público sobre a situação da savana brasileira, que está em avançado processo de extinção.”

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LEIA TAMBÉM EM A CASA DE VIDRO:

  • A DANÇA DA CHUVA – RIOS VOADORES E MANANCIAIS SUBTERRÂNEOS: A escassez de água que alarma o país tem relação íntima com as florestas (Reportagem e Vídeos por Revista da FAPESP): https://wp.me/pNVMz-1qW