SARCÓFAGO ESPACIAL: Em “Aniara”, sci-fi distópico sueco, o pesadelo do ‘modus operandi’ capitalista e consumista exportado para o espaço sideral

O filme sueco de ficção científica distópica Aniara (2018) revela o que ocorre quando grandes catástrofes sócio-ambientais – tsunamis, furacões e mega-incêndios – acabam com a aventura humana neste planeta. O que restou da Humanidade tenta emigrar para Marte deixando para trás uma Terra devastada.

Ao assisti-lo, fiquei pensando no quanto a Suécia, talvez pelo impacto duradouro de Ingmar Bergman sobre a Sétima Arte do país, consegue levar a depressão pós-apocalíptica a novos níveis de desespero sem saída. Na espaço-nave Aniara (do grego “aniarós”, que significa tristeza e desespero), uma viagem que deveria durar 23 dias acaba se estendendo por vários anos em que esperanças se convertem em miragens enquanto os índices de suicídios alçam vôo como foguetes. É a Suécia nos mostrando como se faz cinema esmagador de ingenuidades com este poderoso tema do Sarcófago Espacial.

À semelhança de “Melancolia” de Lars von Trier e de “Snowpiercer – O Expresso do Amanhã” de Bong Joon-ho, “Aniara” retrata o futuro humano com cores bem sombrias. Seu tema, no fundo, é a extinção da Humanidade, ou o retrato de nosso suicídio coletivo. Pode também ser descrito como um “Wall-E” (de Andrew Stanton) bem mais deprê.

Se na animação da Pixar já se retratava uma estação espacial onde os humanos gastavam seu tempo a alienar-se diante de uma torrente de entretenimentos a serem consumido com muita Coca-Cola e marshmallows por uma população obesa e emburrecida, em “Aniara” a espaçonave também está equipada com escadas rolantes que dão acesso a shopping centers, centrais de entretenimento digital e esportivo, entre outras distrações.

Deixamos pra trás um planeta todo fudido e sem vida, mas não se preocupe: jogue baseball com uma robô que atira bolas pra que você se delicie fingindo que o estádio inteiro comemora seu home run. Sente numa falsa motocicleta e dirija em alta velocidade diante de uma tela que te faz delirar que está ziguezagueando pelas estradas de asfalto de uma Terra cada vez mais distante. Encha o bucho com hambúrguer de alga produzido a bordo pela nova versão do McDonalds.

Dirigido por Pella Kagerman e Hugo Lilja, o filme é baseado em um longo poema épico homônimo, de 1956, do prêmio Nobel de Literatura Harry Martinson (1904 – 1978).

A atriz protagonista, Emelie Jonsson, trabalha muito bem no papel de gestora de uma interessante entidade, dentro da espaçonave, chamava MIMA. Trata-se de uma espécie de Fábrica de Sonhos, um equipamento de Simulação Onírica, que permite aos seus usuários, deitados de bruços no chão abaixo de uma nuvem catódica, terem acesso a imagens bucólicas e idílicas de uma Terra esverdejante, cheia de florestas e cachoeiras, com equilíbrio ecosistêmico preservado. Mima permite que a Humanidade, saudosa de seu habitat antigo, fissure-se em fantasias do que perdeu irremediavelmente.

Mima é um símbolo poderoso que o filme ergue para que nós, humanos, olhemos nele como num espelho de verdades intragáveis. Mima poderia estar dentro de um episódio da série Black Mirror. Através de Mima, a humanidade revela sua vontade indomável de enganar a si mesma e se enfiar de propósito numa simulação enganadora que nos console de um presente onde prepondera a sensação de estarmos “doomed”.

Platão, com a Alegoria da Caverna, no livro “A República”, já havia previsto que o filósofo que se libertasse das correntes e fosse em jornada de descoberta da verdade, uma vez retornado à obscuridade da Caverna, seria rechaçado e ridicularizado por aqueles que já estão acostumados com sua ilusão cotidiana, tão comum quanto o pão. Se tentasse libertar outras pessoas da Caverna, o filósofo seria espancado por aqueles que já adoram demais suas correntes para ver com bons olhos um suposto libertador.

A máquina Mima é cada vez mais solicitada pelas massas, cada vez mais ávidas, naquele cenário de isolamento cósmico desolador, por um pouco de enganação, por ao menos um simulacro da Terra agora destruída. Após a destruição da Teia da Vida e suas finas e refinadas tessituras, os humanos querem ficar delirando com um passado não reconstrutível, plugados na máquina de simulações Mima, máquina de sonhos também imperfeita, consumidora de energias que em Aniara são limitadas. E assim o resto da Humanidade se arrasta para cada vez mais longe de uma Casa que já destruímos.

Como escreveu o crítico no site Flickering Myth, até mesmo o consolo supremo oferecido aos passageiros de Aniara acaba entrando em colapso: “The increased pressure on the Mima – which itself begins to sicken and warp – is just the beginning of a tragic spiral that sees fake news spread, sex cults form and hope become rarer than a raindrop in the Sahara.” (Flickering Myth)

Como bem percebeu também o crítico Wilson Roberto Vieira Ferreira de Cinema Secreto: Cinegnose, ancorado numa reflexão sobre a obra de Daniel Boorstin:

“Aniara é um gigantesco shopping center espacial que leva para o espaço o mesmo ‘modus operandi’ que destruiu econômica e ambientalmente a Terra: a cultura do supérfluo, do consumismo e, principalmente, a necessidade da simulação – parques temáticos e mundos virtuais tecnologicamente desenvolvidos para embalar os passageiros de Aniara no marketing e propaganda. (…) A nave chamada Aniara leva para o espaço sideral, e depois para Marte, o estilo de vida que acabou destruindo o próprio planeta Terra: a dependência humana pelo artificial, supérfluo e o consumo de imagens que simulam uma vida que não mais existe. E o que os espera não é exatamente um paraíso: Marte é um planeta frio, árido e hostil. Mas certamente parques temáticos ao estilo Disneylândia criarão uma estrutura cenográfica de um mundo que deixou de existir.”

As atitudes do capitão da espaçonave, Chefone, revelam a recorrente demagogia de líderes políticos e religiosos em tempos de crise: ele vende esperanças falsas e, quando estas se frustram, tenta curar as frustrações com novas esperanças fraudulentas. Enquanto isso, os suicídios se disseminam. E a própria Inteligência Artificial de Mima, cansada de gerar alucinações idílicas e reconfortantes na mente semiadormecida de seus usuários, parece cometer uma espécie de suicídio maquínico, de auto-extinção amargurada.

Para cúmulo da ironia, a personagem principal, após o colapso de Mima, busca formular uma nova solução envolvendo o sacrossanto Simulacro: ela pensa em impedir que as pessoas olhem, através das janelas, a profunda escuridão cósmica que as rodeia, polvilhada pelo brilho pálido de estrelas distantes, um cenário desolador onde ninguém parece ouvir os gritos de desespero dos últimos humanos.

A solução para uma vida melhor no sarcófago espacial de Aniara seria fazer com que todas as janelas se transformassem em telas onde seriam projetadas imagens agradáveis dos lagos, cachoeiras e florestas biodiversas da Terra (uma Terra, é evidente, que já não existe mais).

Presos naquele espaço exíguo da nave, os humanos não são ameaçados por nenhum alien ou monstro. A monstruosidade é exclusividade nossa. Os inimigos somos nós mesmos, incapazes de romper com o ‘modus operandi’ que destruiu o equilíbrio dos ecosistemas planetários, carregando para o espaço sideral a insanidade auto-destrutiva do capitalismo consumista e perdulário.

Alguns podem argumentar que a “profecia” que o filme faz nunca vai se cumprir, que se trata apenas de uma obra-de-arte nascida de suecos maníaco-depressivos que leram demais as obras do movimento intelectual hoje conhecido como Catastrofismo Esclarecido. Talvez.

Eu responderia que “Aniara” decerto não quer que sua profecia fílmica se cumpra. O filme chega ao mundo com o intento de ser uma “cautionary tale”, um conto que ensina cautela aos ingênuos que hoje tentam lidar com a crise climática planetária com a fantasia perigosa de que seria possível migrarmos mais de 7 bilhões de humanos para outro planeta.

Através de sua sombria pedagogia, “Aniara” ensina que a destruição da biosfera é possível, ou pior: está em curso. O filme pinta um cenário futuro possível para nos conclamar a agir no presente para que pesadelos como este não se consumem. Assim, “Aniara” parece reforçar a mensagem daquela que se tornou, no fim desta década de 2010, uma das mais célebres suecas do planeta: Greta Thunberg, que nos conclama a perder toda a esperança e propõe um novo imperativo categórico: “ajam como se nossa casa estivesse em chamas – pois está.”


Eduardo Carli de Moraes, 14/11/2019, para A Casa de Vidro.

PSICOSES CORPORATIVAS NA ERA DOS SUPERPORCOS: O clash entre Carnivorismo Lucrativo e Libertação Animal no filme “Okja” (2017), do cineasta sulcoreano Bong Joon Ho

por Eduardo Carli de Moraes para A Casa de Vidro

Na era da bioengenharia genética e das corporações psicopatas, a ideologia carnista prossegue dominando mentes e estômagos com uma força descomunal e efeitos nefastos que incidem sobre nós e sobre as futuras gerações. O que é extremamente preocupante diante de uma crise climática planetária que coloca em chamas nossa casa comum (como vem denunciando Greta Thunberg). Enquanto isso, centenas de milhões de humanos continuam a devorar seus hambúrgueres na inconsciência dos alienados que não sabem nem querem saber sobre a pegada ecológica que sua predileção por uma dieta carnívora acarreta.

Se o cinema de não-ficção já soou muitos alarmes sobre esta grave situação através de obras como Cowspiracy, Meat the Truth, Terráqueos – EarthlingsFood Inc., Ser Tão Velho Cerrado, dentre outros, também o cinema de ficção mostrou serviço com Okja (2017), fábula fílmica forjada pelo cineasta sul-coreano Bong Joon Ho – vencedor da Palma de Ouro em Cannes com seu filme mais recente, Parasita (2019).

Bem-vindos à era dos Superporcos: criaturas fabricadas em laboratório pela corporação Mirando pra proporcionar aos consumidores os hot dogs mais baratos do pedaço (o imperativo deste agrobiz é que os animais geneticamente modificados tenham um sabor suculento – “they need to taste fucking good”, na expressão da CEO da empresa). Por seu tamanho gigante, mais parecidos com hipopótamos (ou com Dumbo, recentemente reativado em filme de Tim Burton), os Superporcos são organismos geneticamente modificados (OGMs) destinados a virarem carne barata produzida em massa.

Os Superporcos são também o carro-chefe da estratégia corporativa da Mirando Corp. para limpar sua imagem pública trucidada por seus crimes socioambientais anteriores. Corroída em sua reputação por um passado em que comercializou napalm, devastou direitos trabalhistas e aniquilou equilíbrios ecossistêmicos com a fúria inconsequente de um psicopata que tivesse escapado da camisa-de-força, a Mirando agora aposta todas as suas forças num marketing enganador sobre os benefícios da produção em massa de carne-de-porco geneticamente modificada.

Nas propagandas, é claro, não se revela o grau de degradação e sofrimento em que vivem e morrem os animais nas fábricas-da-carne que mais se parecem com uma espécie de Auschwitz para animais. O grande escritor Isaac Bashevis Singer, laureado com o prêmio Nobel de Literatura, dizia que nós, humanos, seríamos culpados do crime de condenar os animais cujos cadáveres devoramos a um “eterno Treblinka”.

Em suas cenas finais, Okja é um dos mais pungentes retratos desta realidade. Após construir, no princípio do filme, uma relação afetuosa de alta intensidade entre o Superporco Okja e a menina sulcoreana Mikhta, a narrativa nos lança nas entranhas do pesadelo real que é a Indústria da Carne (factory farming). Segundo o célebre dito do vegetariano Paul McCartney, caso os matadouros (slaughterhouses) tivessem paredes de vidro, isso geraria um imenso surto de migração comportamental dos humanos rumo à dieta vegetariana.

Após abordar o fim da humanidade na magistral distopia Snowpiercer – Expresso do Amanhã (2013), em que o homo sapiens tornou-se uma espécie reduzida a alguns passageiros de um trem que se locomove através de uma nova Era Glacial, o cineasta sul-coreano Bong Joon Ho resolveu abordar este fator importantíssimo do nosso pesadelo climatizado (para emprestar a expressão de Henry Miller): nossa relação com os animais, em especial com aqueles que foram modificados geneticamente.

Nesta produção da Netflix, somos confrontados com uma ácida sátira de um mundo tresloucado pelo poderio excessivo de mega-corporações que põe o lucro acima de tudo e as salsichas acima de todos. Em Okja, não estamos mais diante do cenário apocalíptico de Snowpiercer, mas sim numa espécie de pré-apocalipse numa civilização ocidental-industrializada que mergulha fundo no irracionalismo do carnismo. Não escapará aos mais atentos a similaridade entre os nomes Monsanto (hoje fundida com a Bayer) e Mirando: no filme, o que está em questão é justamente a insanidade das corporações que tratam a Natureza como objeto de manipulação na conquista de capitais a concentrar nas contas bancárias de acionistas e banqueiros.

Em um cenário de carnivorismo globalizado, a demanda dos consumidores por carne é o motor de um processo que conduz ao pavoroso cenário distópico que o filme descreve: nos matadouros do futuro, mais parecidos com campos de concentração para Superporcos mutantes, as engrenagens sombrias que estão por trás do processo produtivo dos bacons salsichas são expostos na telona através de uma fábula cativante, didática, problematizadora e frequentemente horripilante.

Nossa tendência a conceber a psicose como uma neurose individual cai por terra quando começamos a estudar mais a fundo as forças dominantes de nosso tempo. Aí fica claro que não se trata de uma doença mental que aflige certos indivíduos, mas algo muito mais pervasivo e epidêmico: a psicopatia é aquilo que subjaz a estruturas sociais hoje hegemônicas. Psicopatas são as atitudes de boa parte das mega-corporações capitalistas que hoje infestam o mundo com suas mercadorias e que lançam ao meio ambiente os tóxicos e poluentes classificados, nas planilhas de CEOs e acionistas, como meras “externalidades”.

A tese da corporação-psicopata foi exposta com contundência em The Corporation – A Corporaçãodocumentário canadense lançado em 2003, dirigido por Mark AchbarJennifer Abbott, baseado no livro de Joel Bakan. Ali, as características básicas do psicopata, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS) e seu Manual de Desordens Mentais (DSM-IV), são utilizadas para a análise das atitudes empresariais:

“If you did a psychological profile of the corporation, what would it look like? Self-interested, manipulative, avowedly asocial, self-aggrandising, unable to accept responsibility for its own actions or feel remorse – as a person, the corporation would probably qualify as a full-blown psychopath. (…) Behind its benevolent face, Joel Bakan argues, the most important institution of modern capitalism is a Frankenstein’s monster that has broken its chains and is now consuming the society that created it.” – The Guardian

No filme, a atriz Tilda Swinton encarna as duas irmãs gêmeas que disputam o domínio da empresa Mirando, tentando limpar a reputação corporativa manchada pelas atitudes psicopatas do pai das duas, um dos exemplares de psycho-CEO que Okja põe em tela. Um estudo recente do psicólogo australiano Nathan Brook revelou que 1 em cada 5 CEOs revelam traços de psicopatia, índice bem superior ao da população em geral (1 em 100). Outro estudo, da Universidade de Oxford, aponta que o presidente dos EUA, Donald Trump, ele próprio CEO da Trump Corporation, possui mais traços de psicopatia do que Adolf Hitler. No cinema e na teledramaturgia, o tela já ganhou representações icônicas em um filme como American Psycho – Psicopata Americano, de Mary Harron, e uma série como The Sopranos (HBO).

Em Okja, o que está em questão é o contraste brutal entre aquilo que a corporação apresenta de si através do marketing empresarial e aquilo que é sua prática cotidiana em suas fábricas (também conhecidas, vide caso Nike, como sweatshops). Há uma dissonância gigantesca entre a apresentação midiática e a realidade oculta. Oferece-se um showzinho espetaculoso e enganador aos consumidores desejosos de se empanturrar com carne suína barata, fazendo-os crer que não há nada de moralmente errado em financiar a indústria da carne e a ideologia do carnismo. A sátira do filme é certeira ao visar como alvos empresas e consumidores que lavam suas consciências na piscina suja do marketing mentiroso na tentativa de esquecer as brutalidades inerentes ao sistema de factory farming.

Em sua crítica para Omelete, Marcelo Hessel destacou:

Bong basicamente une Ocidente e Oriente ao referenciar Disney (o porco gigante geneticamente modificado tem as orelhas grandes e os olhos pequenos de Dumbo, e passa por altos e baixos emocionais que também evocam a animação clássica) e Hayao Miyazaki (em entrevistas a atriz Tilda Swinton conta que ela e Bong são fãs de Totoro, e mesmo as irmãs gêmeas que ela interpreta no filme são como uma releitura das irmãs de “A Viagem de Chihiro”), unidos por sua matriz fabular. Seu filme parte de uma premissa simples que não parece envelhecer: uma criança e seu bicho de estimação têm entre si a relação mais pura que pode haver num mundo onde deixar a infância significa perder a inocência. “Tirando ela e Okja todos os outros personagens são estúpidos”, brinca Bong.

(…) Nessa oscilação entre a caricatura e a gravidade (quando os ecoterroristas de “Okja” apanham da polícia, por exemplo, a câmera lenta tem ao mesmo tempo um efeito lúdico e agravante), ele encontra um meio termo que aos poucos se expande, e é por onde sua visão de mundo transita. Assim como em “O Expresso do Amanhã”, o filme anterior de Bong e o primeiro falado em inglês, esse meio termo inequivocamente toma a forma da sátira. A sátira é o meio de expressão mais caro a Bong, para dar conta de todos os absurdos que ele vê na relação entre capitalismo e geopolítica hoje, embora o discurso ambientalista-anarquista de “Okja” já pudesse ser sentido há anos desde “O Hospedeiro”, o blockbuster de monstro sul-coreano que colocou Bong em evidência mundial.

Em certo momento de “Okja”, o líder dos anarquistas vivido por Paul Dano, num acesso de fúria, diz aos seus companheiros globalizados que “tradução é sagrado”, e ao combinar uma variedade de registros e discursos fica claro que Bong Joon-ho está atrás de um esperanto próprio, um idioma capaz de resumir o desmanche e a fluidez de valores que presenciamos no mundo, capaz de capturar tanto a caricatura mais grotesca do homem quanto o gesto mais discreto de empatia.

Apesar da qualidade de seu comentário, o crítico Hessel falha ao se utilizar da expressão pejorativa “ecoterroristas” e ao não mencionar em nenhum momento a questão da Libertação Animal, central no filme. É explícito em Okja o desejo de debater sobre organizações como a Animal Liberation Front (ALF) (acessar verbete da Wikipedia em inglês), descrita na obra de Bong Joon Ho com certo sarcasmo mas também com boa dose de empatia.

O sarcasmo é devido às divisões internas do movimento e pelo radicalismo do ethos de certos ativistas, que correm o risco de prejudicarem suas saúdes e sobrevivências devido à alimentação vegana levada a extremos. O filme revela também certos desvios éticos que incluem a tradução mentirosa de um ativista, responsável pela interlocução entre a sul-coreana e os ativistas anglo-saxões, e o consequente espancamento punitivo cometido pelo personagem Jay (Paul Danno) contra seu tradutor-traidor. Apesar de comporem os quadros da mesma organização, os ativistas envolvem-se em rixas e conflitos graves.

Dizer que o filme problematiza o divisionismo interno e as ideologias abraçadas por membros da ALF não significa dizer que os ideais e práticas do grupo estejam sendo desprezados. Muito pelo contrário, Okja empresta seu vigor narrativo e a sua capacidade de gerar eletrizantes cenas de ação para uma espécie de captura pop da problemática da Libertação Animal – tema de célebre livro do filósofo australiano Peter Singer.

Na cena em que os ativistas sofrem com a truculência da repressão policial, o espectador é levado a sentir compaixão e empatia por aqueles corajosos defensores dos direitos e interesses dos animais. Estes anarco-ativistas colocam seus corpos em risco na defesa de um outro mundo possível e referi-los com a expressão “ecoterroristas” é equívoco e mentiroso, dado que o próprio filme enfatiza o caráter pacifista, não-violentocontrário a qualquer sofrimento imposto a quaisquer criaturas sencientes, das ações da ALF.

“The Animal Liberation Front (ALF) is an animal liberation group who engage in direct action on behalf of animals. These activities include removing animals from laboratories and fur farms, and sabotaging facilities. Any act that furthers the cause of animal liberation, where all reasonable precautions are taken not to harm human or non-human life, may be claimed as an ALF action. The ALF is not a group with a membership, but a leaderless resistance. ALF volunteers see themselves as similar to the Underground Railroad, the nineteenth-century antislavery network, with activists removing animals from laboratories and farms, arranging safe houses and veterinary care, and operating sanctuaries where the animals live out the rest of their lives. ALF activists believe that animals should not be viewed as property and that scientists and industry have no right to assume ownership of living beings. They reject the animal welfarist position that more human treatment is needed for animals; their aim is empty cages, not bigger ones.” – JUST SEEDS

De certo modo, teria razão quem fizesse a acusação de que Okja realiza uma espécie de caricatura tanto dos ativistas da A.L.F. quanto dos líderes corporativos da Mirando. O filme de fato adota um tom satírico, caricatural e fabuloso, despreocupado com o realismo e a informatividade (elementos que devem ser procurados em um documentário como o A.L.F. de Jérôme Lescure, lançado em 2012). Isso não o impede de ser uma obra importante para debater o tema, cada vez mais urgente e relevante diante da crise climática, daquilo que se conhece como carnismo ou especismo (expressões tornadas populares por Melanie Joy e Peter Singer, respectivamente).

Em sua resposta para a questão que dá nome a seu livro – “por que amamos cachorros, comemos porcos e vestimos vacas”? -, Melanie Joy aponta que os animais humanos não aderem ao carnismo por necessidade, mas sim por ideologia. Ou seja, é falso supor que apenas vegetarianos e veganos baseiam suas dietas e comportamentos em um sistema-de-crenças subjacente. Na verdade os carnívoros ou carnistas é que estão ideologicamente motivados de maneira muito mais tóxica e perigosa do que os veggies – pois o carnivorismo opera muitas vezes com base num belief system que é ideologia inculcada a operar de maneira sub ou inconsciente.

O carnismo seria uma ideologia, de pervasiva força cultural e de potência explicável pelos altos capitais investidos em brainwashing pelas corporações pecuaristas, que nos ensina a mentira de que é necessário comermos porcos, vacas e galinhas. Isto só é necessário para o lucro das corporações que vendem os cadáveres destes animais, mas nunca será verdade que é necessário para a nutrição humana.

No seguinte vídeo produzido pelo canal Like Stories of Old, destaca-se que os porcos são animais tão “inteligentes, sensíveis e sencientes quanto cães (se não forem mais)” – então o que explica que tratemos os cães como família e os porcos como propriedade e comida?

A crítica social envolvida no filme incide, de maneira pontiaguda, sobre a atitude dos psicopatas corporativos que lidam com seus consumidores como se não passassem de crianças tuteladas. Estas crianças consumistas que eles querem que sigamos sendo precisam ser protegidas a todo custo de se verem confrontadas com o dilema ético em que se apresenta a opção de deixarem suas posições como carnistas, indiferentes à ética e à práxis daqueles que combatem o especismo e criticam o carnismo. Mantendo os consumidores em estado de infantilismo, a ideologia carnista os enxergaria como crianças só interessadas em carne gostosa e barata, consumidores adestráveis através das palhaçadas de Ronald McDonald ou com a fantasia dos frangos sorridentes da Sadia.

O filme revela todo o investimento midiático das corporações psicopatas para ganhar as mentes dos consumidores, que são o epicentro da demanda por carne que as mega-corporações do ramo destinam-se a suprir mas também a pré-fabricar. Okja lida com a construção ideológica de um consumidor carnista a partir de instituições sociais como a mídia colonizada pela publicidade – parte de uma imensa engrenagem que acaba por naturalizar este construto sócio-cultural lucrativo-catastrófico que é o carnismo, perpetuando todos os males vinculados ao especismo (a presunção humana de que nossa espécie é superior às outras e por isso tem pleno direito ao predomínio e à opressão sobre outras espécies).

Problemático, porém, é o tratamento que o filme traz da Super-inteligência do Superporco, explícito naquela cena espetaculosa em que Okja salva Mikhta da morte quando a menina fica dependurada no precipício. Nesta cena revela-se um gosto duvidoso por cheap thrills cinematográficos conjugado com uma aposta quase supersticiosa na capacidade de inteligência prática do animal geneticamente fabricado.

É uma cena onde a Superporca pratica a salvação da heroína mirim que estava em perigo de morte, ou seja, onde se manifesta a velha tática conhecida como marmelada, mas este é o menor dos problemas. O maior problema  é a afirmação subjacente à cena de que a Superporca Okta teria uma inteligência descomunal, quase miraculosa para um animal, o que serviria como uma espécie de elogio lateral às proezas da bioengenharia genética.

O professor de Ética e Direito da Universidade de Harvard, Michael Sandel, problematiza estas questões em seu livro Contra a Perfeição – Ética na Era da Engenharia Genética:

MICHAEL SANDEL – “Contra a perfeição: ética na era da engenharia genética” (The Case Against Perfection: Ethics in the Age of Genetic Engineering) – 160 páginas, Editora Civilização Brasileira. SINOPSE: Os avanços da ciência genética nos apresentam uma promessa e um dilema. A promessa é que em breve poderemos ser capazes de tratar e prevenir uma série de doenças debilitantes. O dilema é que apesar destes e outros benefícios, nosso repertório moral ainda está mal equipado para enfrentar as perguntas mais complexas suscitadas pela engenharia genética. O livro explora este e outros dilemas morais relacionados com a busca por aperfeiçoar a nós mesmos e a nossos filhos. Michael Sandel argumenta, de forma brilhante, que a revolução genética vai mudar a forma como filósofos discutem a ética e vai colocar as questões espirituais de volta na agenda política.

No livro de Sandel, há vários exemplos de como a bioengenharia genética já se faz presente em nossas vidas, por exemplo através da clonagem de pets. Consumidores que amam seus gatinhos e cachorrinhos, e que sofrem por antecipação com a perspectiva de que os pets vão morrer um dia, podem enviar uma amostra genética acompanhada por U$50.000 à empresa californiana Genetic Savings & Clone para que fosse produzida uma Carbon Copy do amado kittie. A empresa funcionou entre 2004 e 2006 e fazia propaganda dizendo: “Caso você ache que seu gatinho não se parece o bastante com o doador genético, nós devolveremos seu dinheiro integralmente, sem fazer perguntas.” (SANDEL, p. 18)

Para além da clonagem de gatinhos e cãezinhos, serviço disponibilizado para os donos de pets que estão com dinheiro sobrando, o autor se manifesta muito preocupado também com a engenharia genética da mente humana. Ou seja, com intervenções de caráter eugenista ou farmacológico, destinadas a criar uma espécie de Übermensch de laboratório, um projeto fáustico também presente na indústria farmacêutica e sua busca insaciável por “melhoradores cognitivos” e por modificadores do ânimo (como antidepressivos e anfetaminas):

“O melhoramento genético é tão possível para o cérebro quanto para os músculos. Em meados da década de 1990, cientistas conseguiram manipular um gene das drosófilas ligado à memória e criaram moscas com memória fotográfica. Mais recentemente, pesquisadores produziram ratos inteligentes ao inserir em seus embriões cópias extras  de um gene relacionado à memória. Os ratos modificados aprendem mais depressa e se lembram das coisas por mais tempo do que os ratos normais. Empresas de biotecnologia com nomes como Memory Pharmaceuticals estão ensandecidas atrás de medicamentos para melhorar a memória, os chamados ‘melhoradores cognitivos‘, para uso em seres humanos.” (SANDEL, pg. 25)

Okja manifesta uma ansiedade diante deste cenário de OGMs e de eugenia, reafirmando a figura de Bong Joon Ho como um dos cineastas-pop de maior impacto da Aldeia Global, sempre pautando temas importantes através de filmes fabulosos, propulsionados por uma narrativa cinematográfica poderosa, repletos de sátiras e caricaturas, mas que falam sobre os cruciais problemas de nosso tempo. Ele conta que visitou vários matadouros antes de fazer o filme e os descreve como “incrivelmente chocantes”, lamentando que não conseguiu colocar nem 10% dos detalhes de um matadouro real em seu filme.

Ao projetar na relação entre a criança e seu pet aquele vínculo afetuoso que liga milhões de humanos a seus bichinhos de estimação, o filme serve como uma espécie de arma de conscientização em massa que levará muitos a se questionarem sobre suas condutas enquanto consumidores dos cadáveres de bichos mortos. Aproximando-se de teses anarcoprimitivistas, Okja parece propor que os animais foram feitos para viver soltos na Natureza, in the wild, e que encerrá-los nas Treblinkas da indústria carnista é uma das piores opressões que os humanos podem impor a outros seres sencientes.


SAIBA MAIS – Monbiot @ Ted Talks

Por isso, por mais que soe caricatural e altamente satírico, o filme funciona como uma espécie de panfleto fílmico de divulgação das causas da Libertação Animal e do Veganismo. Ao mesmo tempo, deixa soar o grito que conclama pelo processo de re-selvagizar o mundo, sintetizado por um dos grandes pensadores contemporâneos, George Monbiot, em uma palavra emblemática: REWILD!

O anarcoprimitismo não propõe o rewind, mas sim o rewild; não acredita ser possível voltar no tempo, mas quer um futuro onde a selvageria volte a recobrar seus direitos em face das atrocidades terrificantes da auto-proclamada Civilização Industrial. Esta, cujo carnismo e obsessão com lucros vem gerando um ethos da ganância e da hýbris que mostra-se cada vez mais insustentável. Por isso, mais que nunca, em coro com as criaturas sencientes da Terra, cantemos a plenos pulmões o clássico do rock’n’rolling Steppenwolfiano: “Like a true nature’s child / We were born, born to be wild!” 

Eduardo Carli de Moraes @ A Casa de Vidro, Goiânia, 14/10/2019


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CONFERÊNCIA DE IMPRENSA – Cannes 2017

ENTRE O FASCISMO E NÓS, SÓ HÁ NÓS – Como sobreviver à distopia real que encarnou-se no Brasil em 2018?

PARTE 1 – APOLOGIA DO VERMELHO

Todos os demônios estão soltos nesta terra que tem por nome Brasil.

A tragédia já estava prefigurada em nosso batismo: nos puseram um nome em homenagem a uma planta que havia nas terras de nosso litoral atlântico, o pau-brasil, com sua rubra madeira cor de brasa. O Brasil é um dos países do mundo com nome mais vermelho – e estou falando de linguística, não de política.

Os portugueses que nos invadiram com suas caravelas e bíblias, suas escopetas e doenças, logo viram no pau-brasil uma mercadoria rentável, pois podia ser usado no ramo da tinturaria de tecidos (fonte: etimologia de “Brasil” em Wikipedia). Rainhas da Inglaterra pisavam sobre tapetes vermelhos, signos de sua alta posição hierárquica e acesso a caríssimos luxos e privilégios, que haviam sido tingidos com pau-brasil.

Desde nosso batismo, partindo da palavra que nos nomeia, somos vermelhos na essência e constantemente espoliados por imperialismos. Por isso é tão estranho a meus ouvidos o grito-de-guerra de certos brasileiros, dizendo: “nossa bandeira nunca será vermelha!”

Compreendo que com isso manifestam sua fobia não de uma cor, ou seja, de uma configuração cromática específica, mas sim uma fobia daquilo que compreendem por “comunismo”. Às vezes, essa “rubrofobia” atinge as raias da loucura, como ocorreu com a senhora que revoltou-se diante da bandeira do Japão, que é branca com uma bola vermelha no centro, acusando os nipônicos de comunistas, o que não é puro nonsense (quem estudou História sabe, aliás, que os japoneses que estiveram aliados ao nazi-fascismo na 2ª Guerra Mundial).

Somos todos nós vermelhos no cerne: em nossas veias corre o mesmo rubro sangue. O que se classifica, com base em fenótipos aparentes, como “branco”, “negro”, “indígena”, segundo a tosca classificação vigente, colapsa diante de uma solidariedade ontológica mais funda, que nos une ao invés de nos segregar: todos nós sangramos sangue vermelho, todos nós temos a vida, em nós sustentada, pelos rubros fluxos deste líquido que nos comuna. Globalmente comunados estamos na condição humana, simbolizada pelo vermelho de todos os nossos sangues.

No Brasil de 2018, sinto medo de andar nas ruas de meu país vestido com uma camiseta vermelha onde se lê duas palavras: LULA LIVRE. Posso ser espancado, esfaqueado ou mesmo assassinado pelo delito gigantesco de vestir uma camiseta assim. Que país nos tornamos, quando não se pode manifestar discórdia diante de um processo que se julga injusto, um cárcere político? “Que país é este?” – como cantou, questionador, Renato Russo, em outra época mas ainda similar à atualidade.

Acreditamos realmente que um Brasil de tamanha intolerância alteritária  é um projeto sócio-político a se apoiar? Ou então devemos rechaçar e repudiar qualquer sistema político que queira reduzir a policromia do mundo à sua pobre paleta de cores? Nossa diversidade não é a mais preciosa de nossas riquezas? E você tem certeza que sabe de fato o que significa propor a “extinção dos comunistas” e a “extirpação dos vermelhos”? Sabe mesmo o que é uma pessoa comunista, para além da caricatura imaginária do Outro demonizado?

Eduardo Galeano ensina que o Arco-Íris Terrestre tem bem mais que 7 cores. Excluir o vermelho é um projeto que enfeia o mundo. O vermelho é maravilhoso. O vermelho é mágico como os raios de Sol quando se põe, despedindo-se deste setor do planeta girante. Pelo menos até amanhã de manhã. O vermelho sanguíneo é a continuação da vida, a transfusão dos ânimos. Aquilo que flui por dentro de todos nós, como um tônico revitalizante, distribuindo o alimento. Sangue vermelho bombeado por nossos corações, que ficam sempre do lado esquerdo do peito, independente de gênero e de sexo, independente de raça e de etnia, independente de classe e de pertença a castas.

Digo a todos os humanos terráqueos: “Do You Realize?”, como pergunta a música do Flaming Lips, que todos nós sangramos vermelho e temos um coração à esquerda no peito?

PARTE 2 – BEM-VINDOS À DISTOPIA DO REAL

  

Vivemos em dias nos quais a distopia não está restrita às obras de sci-fi pessimista ou aos filmes futuristas pós-apocalípticos. Somos contemporâneos de uma distopia que encarnou-se no real. Hoje convivemos com a instauração da barbárie brutal do Bolsonarismo.

A utopia, como Eduardo Galeano ensina, segue fugindo no horizonte, inalcançável por mais que caminhemos na sua direção, em nosso anseio insaciável de abraçar uma realidade menos opressiva e sórdida. A utopia segue inacessível, ainda que prossiga servindo à nossa incansável caminhada.

Já a distopia de nós se aproxima cada vez mais de nós com tanques, tropas e truculências que vão triturando nossas tristes vidas.

A nossa distopia tropical em processo de encarnar-se é, cada vez mais, a nossa realidade histórica contemporânea: a fase catastrófica em que embarcou a sociedade brasileira assusta pela escala colossal da tragédia autoritária e militarista que vem se empoderando.

O retrocesso brutal agora está encarnado no que venho chamando de “Bozonazismo” – a nova extrema-direita, seguidora de Jair Messias Bolsonaro, que se manifesta no país com brutalidade e descontrole.

O plano deste grupo político elitista, supremacista, interessado sobretudo em lucrar com o entreguismo de riquezas nacionais ao imperialismo Yankee, inclui a instauração de uma espécie de teocracia militarizada à la Gilead.

Refiro-me à distópica sociedade em que se transformou os E.U.A. após um Golpe de Estado fascista-teocrático na série The Handmaid’s Tale, inspirada no livro da autora canadense Margaret Atwood.

“Extirpar os ativismos”, “fuzilar a petralhada” e “dar carta branca pra polícia matar”: eis algumas das promessas de campanha proferidas pelo presidenciável do PSL (partido que terá a 2º maior bancada da Câmara dos Deputados, só menor que aquela eleita pelo PT). Apesar de fazer pose de “exterminador de corruptos”, Jair Bolsonaro passou a maior parte de sua trajetória política sendo liderado por Paulo Maluf no PP.

Nos palanques pelo Brasil, um dos gestos mais recorrentes do candidato de extrema-direita consiste em pegar crianças no colo e ensiná-las a fazer com as mãos o gesto de atirar uma arma-de-fogo. Comportamento que é um ícone de sua brutalidade. Um indício de que, em matéria de ética, ele age como um neandertal.


É com esse tipo de homem que estamos lidando: alguém que diz que o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) “deve ser rasgado e jogado na latrina” (leia em O Globo: https://glo.bo/2BJ7cwr). É só um exemplos dentre dezenas que servem como sintoma claro de que Bolsonaro pretende lançar no lixo ou na privada a Constituição Federal de 1988.

Não há de respeitar a Constituição Cidadã alguém que se diz “favorável à tortura” e que promete transformar em “herói nacional” àquele que foi o comandante supremo, durante a Ditadura civil-militar (1964-1985), do aparato repressivo, torturador e exterminador, o facínora Brilhante Ustra.

PARTE 3 – POLÍTICA DA MORTE: TÂNATOS OPRESSOR DE EROS

O candidato a ditador, escudado por seu vice (o General Mourão), promete derramar muito sangue no Brasil: sua insana proposta para o complexo problema da segurança pública é permitir a aquisição de armas à torto e a direito, para felicidade das megacorporações armamentistas dos EUA, que lucram com a morte e a destruição, em um processo que é pura Necropolítica, conceito de Achille Mbembe:

“Neste ensaio, propus que as formas contemporâneas que subjugam a vida ao poder da morte (necropolítica) reconfiguram profundamente as relações entre resistência, sacrifício e terror. Tentei demonstrar que a noção de biopoder é insuficiente para dar conta das formas contemporâneas de submissão da vida ao poder da morte. Além disso, propus a noção de necropolítica e de necropoder para dar conta das várias maneiras pelas quais, em nosso mundo contemporâneo, as armas de fogo são dispostas com o objetivo de provocar a destruição máxima de pessoas e criar “mundos de morte”, formas únicas e novas de existência social, nas quais vastas populações são submetidas a condições de vida que lhes conferem o estatuto de “mortos-vivos”. Sublinhei igualmente algumas das topografias recalcadas de crueldade (plantation e colônia, em particular) e sugeri que o necropoder embaralha as fronteiras entre resistência e suicídio, sacrifício e redenção, mártir e liberdade.” [Achille Mbembe]

 SOBRE O AUTOR: Mbembe é considerado um dos mais agudos pensadores da atualidade. Leitor de Fanon e Foucault, com notável erudição histórica, filosófica e literária, vira do avesso os consensos sobre a escravidão, a descolonização e a negritude. Nascido nos Camarões, é professor de História e Ciências Políticas em Joanesburgo, bem como na Duke University, nos Estados Unidos. É autor, entre outros, de “Crítica da razão negra”, “De la postcolonie”, “Sortir de la grande nuit” e “Politiques de l´inimitié”.

Bolsonaro parece querer retroceder àquilo que o filósofo Thomas Hobbes chamou, no “Leviatã”, de “Guerra de Todos Contra Todos”. Em uma famosa entrevista ao programa Câmara Aberta, em 23 de maio de 1999, Bolsonaro disse: “Só vai mudar, infelizmente, quando, um dia, nós partirmos para uma guerra civil aqui dentro, e fazendo o trabalho que o regime militar não fez. Matando uns 30 mil, começando com o FHC, não deixar pra fora não, matando! Se vai morrer alguns inocentes, tudo bem, tudo quanto é guerra morre inocente.”

Atentem bem: vocês que digitam o número 17 nas urnas, votando em Bolsonaro, estão dando aval e sendo cúmplices de um sujeito que já disse repetidas vezes que, se depender dele, vão morrer milhares de inocentes durante seu governo – que mais parece, na verdade, um empreendimento bélico.

Os seguidores de Bolsonaro já estão pondo prática essa carnificina no período eleitoral, dando ao povo brasileiro um antegosto do inferno que os Bolsonaristas pretendem instaurar caso sejam eleitos. No período entre o 1º e o 2º turno das Eleições, já são pelo menos 3 vítimas fatais da escalada de ódio, violência e intolerância perpetrados por apoiadores do sr. Jair Bolsonaro:


Vítima: Moa do Katendê.
Local: Salvador – BA.
Data: 15/10/2018.
Arma do crime: faca.
https://goo.gl/DS71oQ

Vítima: Priscila.
Local: São Paulo – SP.
Data: 16/10/2018.
Arma do crime: faca.
https://goo.gl/BsW1yy

Vítima: Laysa Furtano.
Local: Aracaju – SE.
Data: 20/20/2018.
Arma do crime: faca.
https://goo.gl/RCUJDe


Caso esta tragédia se consume e a campanha eleitoral fraudulenta e propulsionada por fake vença nas urnas, o Brasil se tornará, no planeta Terra, uma espécie de paradigma da barbárie, vanguarda do atraso, palco de atrocidades que nos envergonharão diante das outras nações. 

Nenhum governo legítimo nascerá de um processo eleitoral tão marcado por ilegalidades e fraudes. O que permitiu a ascensão de Bolsonaro foi o golpe parlamentar que destituiu Dilma Rousseff em 2016, ao que somou-se a guerra jurídica ou lawfare que culminou com a prisão de Lula, um “impeachment preventivo” que transformou o Brasil no único país do mundo em que um ex-presidente da república foi encarcerado em ano de Eleições num contexto em que estava disparado em 1º lugar nas intenções de voto. É algo sem precedente global histórico que eu conheça.

PARTE 4 – ELITISMO E HIGIENISMO: UM PROJETO DE CARNIFICINA E GENOCÍDIO


Pregando a violência e o ódio ao seu rebanho de seguidores fanatizados, Bolsonaro cada vez se revela mais como um caso psiquiátrico grave: é um sujeito gravemente adoentado com sintomas de psicose e megalomania. 

A fusão que o Bolsonarismo opera entre o discurso higienista da “faxina” – muito próximo à ideologia nazi-fascista e também às práticas dos supremacistas brancos da KKK nos EUA – e o antipetismo fanático, típico daqueles que são incapazes de fazer qualquer tipo de avaliação sensata sobre os méritos e deméritos das políticas públicas petistas (como a expansão da rede pública de ensino, o combate às desigualdades sociais, os programas sociais de auxílio aos mais vulneráveis e desvalidos etc.) vai produzindo uma monstruosidade coletiva muito perigosa.

É tão perigosa que seria a maior das fake news dizer que o campo Anti-Bolsonarista é apenas um antro dos petistas. O repúdio a Bolsonaro é amplo e irrestrito, atravessa todas as classes sociais, ainda que possua regiões de maior intensidade de resistência (o Nordeste) e que possua nas mulheres a principal força de mobilização contestatária (leia em Vice: As Mulheres Fizeram A Maior Marcha Antifascista do Brasil).

O maior fenômeno de mobilização cívica de 2018 foi sem dúvida o movimento #EleNão, que manifestou a grandeza do repúdio organizado ao projeto de poder, elitista e genocida, da extrema-direita Bolsonarista. A crítica ao Bolsonaro é feita não só pela esquerda (PSOL, PC do B, PT etc.), mas até mesmo por setores mais ao centro e à direita: inclui até mesmo certos tucanos (o FHC já farejou o fascismo das práticas da família Bolsonaro), a maioria dos ciristas (PDTistas) e de marinistas (Marina Silva declara ‘voto crítico’ em Haddad).

 

PARTE 5 – INTOLERÂNCIA SANGUINÁRIA CONTRA A DIVERSIDADE HUMANA


Seguidores de Bolsonaro tem propagado a noção de que “petista bom é petista morto”, mas também a de que “gay bom é gay morto”, “feminista boa é feminista morta”, “sem terra bom é sem terra morto”, e por aí vai.

É uma doutrina que se baseia num tipo de pensamento tosco, maniqueísta, baseado na criminalização do outro e na construção de grandes generalizações imaginárias (“todos os esquerdistas não prestam, todos os petistas são corruptos e ladrões, logo eles precisam ser varridos do Brasil”).

Assim, a extrema-direita apóia milicianos e gangues estão tocando o terror: dando facadas em mestres da cultura popular, desenhando suásticas em mulheres, assassinando brutalmente transexuais, numa atitude de hooliganismo destrutivo que hoje aterroriza o país e que ameaça sair totalmente do controle.

Pois o instigador supremo dessas violências é um completo irresponsável, que diante dos homicídios e agressões perpetrados por seus seguidores diz simplesmente: “O cara lá que tem uma camisa minha comete lá um excesso, o que é que eu tenho a ver com isso?” (Bolsonaro, TV UOL, 10 de outubro de 2018)

Tal grau de irresponsabilidade mostra o total desprepo do candidato para o cargo que ambiciona. O transtornado líder dessa seita, embriagado com a ambição e a sede de poder, como um Macbeth ou um Ricardo III (mas sem a grandeza dos personagens shakespearanos), fala na linguagem dos ditadores brutais. Não se houve de sua boca nada em defesa da democracia. Mas sim elogios e mímesis dos que cometeram as piores atrocidades da História humana.

Bolsonaro promete uma “limpeza como nunca antes houve neste país”, o que soa como uma proposta de higienismo social que assusta pela proximidade com projetos genocidas e totalitários de “limpeza étnica” que constituem, na linguagem penal internacional, “crimes contra a humanidade”.

O pretendente a führer tropical tampouco se importa com esta besteira que são os Direitos Humanos Universais. Já prometeu que vai tirar o Brasil das Nações Unidas (Leia em O Globo: https://glo.bo/2N0tJWO). Para ele, esta babaquice esquerdista que é o Estado Democrático de Direito pode e deve ser sacrificado no altar do seu Estado Teocrático Militarista onde “as minorias tem que se curvar à maioria”.

Na verdade, por trás desta retórica que vem encantando tantos cidadãos brasileiros, frustrados com a política tradicional, está uma velharia mofada que ressurge em nossa história: Bolsonaro é a cara da nossa antiquíssima Elite do Atraso, um macho, branco, milionário, hetero, cis, que encarna tudo aquilo que o velho elitismo defende desde a época da escravatura. É um cara-pálida machista, supremacista racial, favorável aos ricos, apoiador do extermínio da diversidade humana, intolerante com modos de viver e de crer que se desviem de sua norma caduca e esclerosada.

Concedo que nesta tragédia há elementos cômicos – um eleitorado que elege, como fez em São Paulo, um ator pornô, um palhaço (sem muita graça), um herdeiro de um luso monarca, e ainda tem coragem de vomitar xenofobia contra os nordestinos que seriam cabras que “não sabem votar”.

Sabemos muito bem, pelo resultado do primeiro turno das eleições presidenciais, que o Nordeste foi a única das 5 regiões brasileiras em que Bolsonaro perdeu, seja para Fernando Haddad, seja para Ciro Gomes. Sinal de que o Nordeste tornou-se a vanguarda ética da nação, o Nordeste é nossa estrela-guia para tentar “re-iluminar” o resto do Brasil, que tem estado refém das trevas de um obscurantismo fundamentalista que pôs a democracia na guilhotina.

PARTE 6 – UMA CATÁSTROFE PARA A EDUCAÇÃO E A CULTURA

Após o Golpe de Estado de 2016, vimos o governo Temer nascer instaurando o que foi chamado de Machistério: só havia homens, brancos e ricos comandando 100% dos Ministérios. Como nada é tão ruim que não possa piorar, a promessa de Bolsonaro é encher os Ministérios com militares, inclusive o Ministério da Educação – MEC: Bolsonaro já se manifestou no sentido de sua predisposição ao extermínio da obra e da influência pedagógico-política de Paulo Freire, considerado mundo afora como um dos pensadores brasileiros mais brilhantes que já nasceu. O “Andarilho da Utopia”, como Paulo Freire gostava de se referir a si mesmo, também está sob ameaça.

Como informa a reportagem de Época, segundo Bolsonaro, defensor do Escola Sem Partido (que é também o Escola Sem Darwin, o Escola sem Marx, o Escola Sem Nietzsche…), lá no MEC o plano é esta beleza: tem que pôr lá um milico, de pulso firme, que extirpe o “esquerdismo”: “Tem de ser alguém que chegue com um lança-chama e toque fogo no Paulo Freire.” 

E vocês pensando que Farenheit 451 era só uma obra de ficção científica sci-fi!  Bolsonaro disse que seu programa vai ser usar o “lança-chamas” contra o Paulo Freire, igual aos bombeiros que, ao invés de apagarem incêndios, botam fogo em bibliotecas no romance de Ray Bradbury, filmado por François Truffaut, e que voltou aos cinemas na era Trump-Bolsonaro em produção da HBO.

Nenhum compromisso com a verdade, com a cultura, com o conhecimento, com a ciência. Bolsonaro só pensa em dinheiro e poder para pôr em prática seus ensandecidos planos de “purificação” da nação. Seu slogan é “Brasil acima de tudo” (similar ao Deuteschland Ubber Allez dos nazis alemães) e “Deus acima de todos” (o Deus como o concebem os evangélicos neopentecostais estupidificados pelas organizações teocráticas de Edir Macedo, Malafaia, Feliciano etc.).

É a distopia total da união de um nacionalismo fake, conversa pra boi dormir diante da explícita submissão vira-latística do Bolsonarismo aos EUA de Trump, com a teocracia do setor mais fundamentalista e obscurantista do mercado-da-fé no capitalismo brasileiro contemporâneo. Tudo o que Bolsonaro mais quer é poder ir lamber as botas de Trump na Casa Branca, faturando bilhões para si mesmo ao liberar o nosso petróleo e nossa Amazônia, além de nossa água doce e nosso espaço aéreo, para a exploração “livre” por parte do Império hoje gerido por um fascista, xenófobo, supremacista branco, cúmplice do genocídio do povo palestino.

PARTE 7 – QUANDO O NARIZ DE PINÓQUIO BATEU NOS ANÉIS DE SATURNO

O candidato Bolsonaro, além de basear sua campanha em mentiras difundidas em larga escala através de impulsionamentos patrocinados via caixa 2 (dinheiro investido por empresas que, aliás, estão diretamente interessadas na devastação de nossos direitos trabalhistas), também tem uma espécie de “plano piromaníaco” para a educação e a cultura. Um plano parecido com o de Nero, o incendiário de Roma.

Um programa que obviamente não tem compromisso algum com o processo coletivo de busca da verdade que engaja profissionais de tantas áreas, do jornalismo, da filosofia, das ciências sociais, da literatura, das artes, da tecnologia etc. Toda barbárie está liberada quando o líder supremo, como Goebbels no III Reich, como o Grande Irmão no 1984 de Orwell, julga-se no direito de mentir em massa. Aniquilando reputações a base de calúnias, difamações e memes ridicularizadores e mentirosos. Tudo com dinheiro ilegal vindo de empresas simpáticas ao projeto de aniquilação (lucrativa pro patronato) dos direitos trabalhistas.

É de se imaginar, num virtual regime Bolsonarista, o seguinte quadro aterrador para a educação e a cultura. Os militares estarão no domínio no MEC e no MinC. Estarão mobilizando o polvo repressor da Escola Sem Partido, mandando artistas e intelectuais pros novos porões do DOI-CODI. Os educadores considerados subversivos, pois aplicam a Pedagogia do Oprimido de Paulo Freire, vão berrar no pau-de-arara… De agora em diante, só Educação Moral e Cívica, só Doutrinação Criacionista! E que se calem aqueles que não querem ser as bruxas e os hereges queimados na Nova Inquisição!

Os piromaníacos, os “profissionais da violência”, as milícias Bolsonaristas, neste futuro possível (ainda que intragável) podem aproveitar que o fogo das intolerâncias está acesso e ir no embalo da queima não só dos livros de Paulo Freire. O lança-chamas será também usado contra Charles Darwin, de Karl Marx, de Friedrich Nietzsche, de Judith Butler, de Jessé Souza… Arderá todo o “lixo esquerdista”: será a Segunda Morte de Rosa Luxemburgo, de Gramsci, de Mandela, de Malcolm X….

Os BolsoNeros também podem empolgar-se na piromania e tacar nas fogueiras também os professores de biologia que queiram ensinar o evolucionismo. Ou os professores de sociologia vão gemer torturas nos porões das delegacias militares para abjurar do pecado de ensinar Marx, Engels e Max Weber. Os professores de filosofia que julgam digna de ser ensinada na escola a vida e obra de figuras como Walter Benjamin ou George Lúkacs, serão truculentamente levados aos centros de detenção e “interrogatório” onde sangram aqueles que ensinam “lixo esquerdista”.

Pode até parecer que estou paranóico, que estou dando asas demais à minha imaginação distópica, mas lembro-me agora da frase de William Burroughs de que Kurt Cobain tanto gostava e que contrabandeou para dentro de uma música do Nirvana: “just because you’re paranoid, don’t mean they’re not after you”.

Na Alemanha do III Reich, os nazistas fizeram muitas fogueiras de livros. Fizeram também campos de extermínio e câmaras de gás em que tentaram reduzir a cinzas todo o povo judeu no processo que ficou conhecido como Solução Final. Puderam convencer boa parte do povo alemão a ser cúmplice do Holocausto – em um processo social desastroso, onde passa a ser dominante a obediência cega e servil aos ditames da tirania nazi e que a filósofa política Hannah Arendt conceituou como  “A Banalidade do Mal”, um dos mais importantes conceitos na história do pensamento do século XX.

PARTE 8 – A ESPERANÇA EQUILIBRISTA ESTÁ COM HADDAD E MANU

O Brasil, em Outubro de 2018, está diante de uma encruzilhada histórica colossal, em que nosso futuro coletivo está na balança. A maioria do eleitorado pode eleger um psicopata que promete a carnificina, a guerra, a violência, a intolerância, o destravamento de todos os ódios, o colapso de toda solidariedade e toda justiça. Pode acontecer, mas seria catastrófico, segundo todas as mais lúcidas previsões e prognósticos de gabaritados historiadores, sociólogos e filósofos.

Nós, que amamos a democracia e a liberdade, que somos educadores e intelectuais comprometidos com a defesa dos direitos humanos, que não aceitamos o argumento de que “ativismos” devem ser extirpados, prosseguimos incansavelmente na ação de conscientização para alertar o cidadão brasileiro do tiro-na-cabeça que é digitar 17 nas urnas.

Ao invés deste sádico opressor que é Bolsonaro, temos a oportunidade de eleger um sábio professor que é Fernando Haddad. É evidente para qualquer cidadão que não esteja cego pelo fanatismo que Haddad é um gestor público de comprovada competência, que realizou um primoroso trabalho como Ministro da Educação do governo Lula. Foi um prefeito de São Paulo premiado internacionalmente pelo seu trabalho inovador e humanista no processo desafiador de governar a maior cidade da América Latina. Sua mentora, a filósofa Marilena Chauí, garante-nos sobre as muitas excelências éticas e intelectuais de Haddad.

Haddad é um líder de centro-esquerda inteligente, dinâmico, capaz de diálogo amplo com todos os setores da sociedade brasileira. Sempre portou-se de maneira honesta, íntegro e digna, sempre na defesa dos valores civilizacionais elementares de uma república democrática como o Iluminismo a idealizou na “Era das Luzes”. É um intelectual crítico, iluminista, humanista, com incríveis capacidades no âmbito da práxis e da gestão pública.

Ao invés da carnificina que a extrema-direita fascista deseja instaurar, derramando o sangue dos inocentes, podemos eleger o projeto de valorização da educação e do trabalho, dos serviços públicos e da qualidade de vida, que hoje Haddad defende e representa.

 

O antipetismo de alguns atingiu tal grau de insanidade que, motivados pelo ódio irracional, alguns aplaudem quando seu líder Bolsonaro diz que “marginais vermelhos serão banidos de nossa pátria” e que “bandidos do MST e MTST” terão suas “ações tipificadas como terrorismo” (leia em UOL Notícias – https://bit.ly/2AlK4S0).

O discurso de Bolsonaro exibido num telão na Avenida Paulista em 21 de Outubro, faltando uma semana das eleições, nos dá o alerta: estamos diante de um tirano intolerante que pretende perseguir, silenciar ou mesmo assassinar impiedosamente, usando a máquina de repressão do Estado, os cidadãos que participam de movimentos sociais e partidos políticos estigmatizados como “esquerdistas e marginais”. Bolsonaro é a barbárie, e quem o apóia é cúmplice do projeto político mais exterminador, estúpido e nefasto da história da Nova República.

O que há de mais precioso na vida política popular do Brasil são aqueles que mobilizam-se por justiça no campo e na cidade, que querem a reforma agrária e o direito à moradia, que demandam condições dignas de existência e de florescimento. Temos a oportunidade histórica de empoderar, com a eleição do presidente Fernando Haddad, um projeto de Brasil muito mais justo, generoso, solidário, fraternal, inteligente, amoroso e sábio. Que saiba ouvir a sociedade civil organizada, ajudar a empoderá-la, criando condições para uma ressurreição democrática entre nós.

Votar Haddad é votar num Brasil que possa ter um futuro mais doce: o do diálogo democrático e colaborativo, re-instaurado. Bolsonaro só nos obrigará a beber um amargo cálice de Necropolítica, feito todo de intragáveis doses de silenciamento, brutalidade e carnificina, um projeto que inclui um grotesco massacre dos inocentes e uma tirania militarizada e teocrática que nos leva de volta à Idade das Trevas.

Sempre que deparo com os “Bozominions” (esta versão fascista do Coxinha) falando horrores criminalizadores sobre o PT, penso que o PT – Partido dos Trabalhadores merece mais respeito. É de um desrespeito brutal o que os Bozominions fazem com a biografia e a trajetória de Lula, Dilma, Haddad, Lindbergh etc. Tratá-lo como “organização criminosa” não é só falso, desonesto e obsceno, é um verdadeiro crime contra um partido que faz parte da nossa História há 38 anos e cuja trajetória merece ser estudada, avaliada, criticada, mas jamais descartada nem muito menos exterminada.

Ao final do mandato de 8 anos de Lula, o Brasil era um dos países mais admirados do mundo e vencia com ousadia alguns dos piores males que lhe haviam sido legados pelo passado de colônia e de ditadura. Vomitar o slogan “O PT é ladrão” jamais vai apagar os feitos de quem retirou 40 milhões de pessoas da miséria, fortaleceu o salário mínimo, levou-nos a um estado de pleno emprego, ampliou Universidades Federais e IFs como nunca antes na História, fortaleceu o SUS, criou Minha Casa Minha Vida, Bolsa Família, ProUni, Cultura Viva, dentre tantos outros programas sociais de valor e mérito que merecem nossa estima.

 

PARTE 9 – O FALSO DEUS DOS PSEUDO-MESSIAS

O grau de obscurantismo da extrema-direita brasileira nos ameaça com a instauração de um nova idade trevosa, com milícias à la Ku Klux Klan acendendo as fogueiras das novas intolerâncias. Sabemos que o tropicalführer está apoiando-se no poderio das igrejas neopentecostai$ do Brasil. Malafaia, Feliciano, Edir Macedo, Jair Bolsonaro: são “poderosos” da mesma laia.

São a laia dos mercadores de ilusões, megalomaníacos, doidos de ambição pela conquista do poder político, mercadores da fé que querem violar todos os princípios do Estado Laico, para que se empoderem para disseminar por toda parte o seu fundamentalismo ultracapitalista. Chamemos isso de Teologia da Prosperidade, nas antípodas da Teologia da Libertação defendida por Leonardo Boff, Frei Betto, dentre outros cristão progressistas.

O Bolsonarismo é aliado de empreendimentos como a UIRD e a Record, de Edir Macedo. A Indústria da Mentira une Bolsonaro e Macedo, e é justamente a mentira que lhes serve como lucrativa mercadoria, que tantos milhões de reais injeta nas máquinas de que eles são os patrões: suas “grandes empresas, imensos negócios”.

Para sua diabólica maquinaria de enganação em massa, estão usando o spam das mídias sociais para praticar a desinformação e também altas doses de calúnia e a difamação contra os adversários políticos. Estão produzindo, com isso, violento sectarismo, intensificação dos ódios e das violência, além de propagarem um tipo de subjetividade lamentável: os cabaços de Whatsapp, aqueles analfabetos políticos, que compartilham material falso e degradante.

 

Justificando​ – Bolsonaro, com seu discurso teocrático, agradou uma expressiva parcela de cristãos que – traindo o Evangelho de amor e paz, pregado por Cristo – estão propagando o ódio e o extermínio ao inimigo construído no imaginário (esquerdista, petralha, LGBTQIA+, comunista, minorias etc.), ou seja, tudo aquilo que, supostamente, não siga a cartilha idealizada do fundamentalismo religioso. São reedições sucessivas da “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, embora tenhamos uma forte resistência de muitos cristãos contra esse avanço inquisitório da fé.

Isso revela um cenário preocupante de desejos e afetos que estavam represados. Não é à toa que, quando a comporta da represa foi aberta e Bolsonaro apareceu como mensageiro, o ódio e a vontade de exterminar tiveram tanta força. Portanto, torna-se bastante curioso que o lema da campanha de Bolsonaro seja “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”.

Está em curso, no país, uma ressignificação interpretativa do que são valores cristãos por parte de um setor interno barulhento e com capilaridade política. É uma abordagem autoritária, com táticas eficazes de instrumentalização do medo do “inimigo”. A institucionalização da lógica bélica de professar a fé abandonou, de vez, os lindos ensinamentos bíblicos previstos em 1 Samuel (25:31), Mateus (5:38-48; 25:35-46), Romanos (12:20,21; 12-14), João (13:33-35), Efésios (4:31,32), Gálatas (5:14,15) e (Lucas 10:25-37). O Deus da vingança e da “justiça” sem misericórdia encontrou vários porta-vozes.

Mas não nos esqueçamos do que essa distorção gerou ao longo da história. Não nos esqueçamos do genocídio indígena, da escravidão e destruição dos negros, da Inquisição, da morte de mulheres nas fogueiras, do fascismo, da ditadura civil-militar de 1964, entre outras atrocidades. Nesse passado sombrio, a legitimação religiosa foi fundamental. Não esqueçamos que a CNBB (Confederação Nacional dos Bispos do Brasil) apoiou o golpe de 64. Não nos esqueçamos da ligação do papa Pio XI com o ditador Benito Mussolini na ascensão do fascismo italiano. E hoje, reproduzindo erros do passado, temos um reencontro de vários setores cristãos com um presidenciável que elogia a ditadura civil-militar de 1964, bem como os torturadores dessa ditadura, além de ter, em seu gabinete parlamentar, 05 quadros com a foto dos 05 ditadores daquele período tenebroso de nossa história.

Jesus não é responsável por esse derramamento de sangue. Esse derramamento de sangue jorra das mãos daqueles que usam a religião para legitimar e promover a destruição do “outro” ou, quando distorcem os ensinamentos de Cristo, para capitalizar o ódio. Jesus é paz, amor, misericórdia e compaixão. Cristo viveu ao lado dos marginalizados. Jesus é celebração da vida, e não da morte. Talvez muitos cristãos não entendam o ritual do papa ao se ajoelhar e lavar os pés dos presos. Nesse ritual, o papa Francisco já disse aos presos: “Sou pecador como vocês”. O problema é que, em muitas igrejas, fazem falta pecadores com esse grau de espiritualidade. Ao resultado, estamos assistindo horrorizados. A teocracia bolsonariana avança. E Deus nos livre.

http://www.justificando.com/2018/10/08/a-teocracia-bolsonariana/

Os algozes – Edir Macedo, Silas Malafaia, Marco Feliciano, mercadores de ilusões que ficaram milionários na indústria da mentira e da exploração das ingenuidades alheias – já preparam as lâminas para o lamentável espetáculo. Jair Bolsonaro foi convidado para essa lúgubre cerimônia para que possa ir lá, ao cadafalso onde a democracia faz acorrentada (como Lula na PF de Curitiba), e acionar a queda da lâmina. Para depois sair de cena, descartado como uma palhaço patético mas bem útil, cedendo espaço a uma Junta Militar. O Vampirão Temer tratará ser o mordomo dessa tenebrosa transação. Um acordo de cúpulas entre golpistas, roubando a mente de massas gigantescas de cidadãos alienados que só vão perceber que foram enganados e estiveram equivocados quando já for tarde demais.

O Brasil vai se tornando um dos epicentros globais do fascismo empoderado. E isso graças às desgraças que acarreta por aqui a nossa Elite do Atraso, como o sociólogo Jessé de Souza a batizou. Nós, que anos atrás oferecíamos ao mundo todo um paradigma de excelência em matéria de gestão do Bem-Estar Social através das políticas públicas criadas e aplicadas pelo governo Lula, hoje estamos decaídos a uma espécie de republiqueta de bananas que ameaça instaurar, com Bolsonaro, uma espécie de sub-führerdom que responde às ordens lá de cima: não de Deus, como reza o slogan (também ele fake), mas sim de Mr. Donald Trump.

O brasil era visto internacionalmente como um farol e uma inspiração para que a Europa, a América do Norte e a Ásia pudessem não se destruir no processo de navegar as turbulentas marés criadas pela crise econômica de 2008. O PT navegou através de uma das piores crises desde o crack de New York em 1929 que dá início à Grande Depressão dos anos 1930.  uma espécie de hospedeiro de um câncer que ameaça se espalhar pelo mundo inteiro.

Leandro Karnal tem um ótimo vídeo em que explica o óbvio: “quem defende torturador é inimigo de Cristo”:

Nele, Karnal explica porque é absurda e sem noção a atitude de qualquer cristão que apoia Bolsonaro, um defensor da tortura, que prometeu transformar o facínora Ustra em herói nacional, o que já é prova de que o candidato do PSL é um sujeito de péssimo caráter e um canalha completo.

Alguém que em sua vida jamais trouxe nenhum benefício ao povo brasileiro, já que sua vida se resume em propagar o ódio, a violência e a discórdia, Bolsonaro é o completo oposto de Jesus de Nazaré, cuja mensagem resume-se em ensinamentos como “amai-vos uns aos outros”, “ofereça a outra face a quem te ofendeu”, propagando virtudes de resistência pacífica, empatia com os fracos e oprimidos, além denúncia dos ricos (a quem estará vedada a entrada no Reino) e da expulsão dos vendilhões do templo.

Se vivesse naquela época em que Jesus foi morto, Bolsonaro estaria entre os torturadores e assassinos de Cristo – e os Bolsominions estariam se deleitando com o espetáculo e gritando para o algoz: “mito! mito!”. E Bolsonaro estaria urrando de gozo sádico diante do torturado com a coroa de espinhos. Pois Bolsonaro é isso: um doente mental que goza com a crueldade que ele propaga. Os católicos e evangélicos que estão apoiando esse Coiso não entenderam nada sobre o cristianismo: tem que ser muito cego e alienado pra ficar lambendo a bota deste pseudo-Messias que vomita ódio por todos os poros. Bozo é o Anticristo e um baita dum engana-otário. E clamamos aos iludidos: acordem antes da tragédia! #EleNão

A atual ascensão do “Fascismo Evangélico” já estava prenunciada pelos “Gladiadores do Altar”, projeto que chocou o Brasil alguns anos atrás: nele, a mega-organização chefiada por Edir Macedo, a Igreja Universal do Reino de Deus, começou a recrutar soldados para um “Exército do Senhor” (https://bit.ly/2J1LvrK).

Os mercadores de ilusões agora abraçam de vez o Capeta: a Rede Record, em atitude execrável, não vê problemas em violar a legislação eleitoral para colocar todos os holofotes de seu canal de TV e seu portal R7 como palanque para o fascista-facínora.

Além disso, a 3º esposa do Coiso, Michelle Bolsonaro, provável Primeira Dama do Brasil em um governo Bozonazista, é uma das crias e das prediletas de Silas Malafaia (https://bit.ly/2P286cW) – e seria, ainda mais que Marcela Temer, a imposição de um modelo feminino “bela, recatada e do lar”, somando-se a isso o agravante: “fanática e descerebrada”.

Já sabíamos que havia este perigo rondando o frágil Estado Laico do Brasil quando Marco Feliciano pôde levar todo seu obscurantismo para o Comitê de Ética e Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. Esta tendência lamentável se aprofunda.

Também ficamos chocados, durante o impeachment de 2016, com a quantidade de parlamentares ficha-suja, investigados por corrupção, co-partícipes de um golpe de Estado contra a presidenta legítima, que votaram sim ao impeachment “em nome de Deus” e da Família Tradicional Brasileira.

Os gremlins do Bozo vomitam sem parar a frase “o PT vai transformar o Brasil numa Venezuela”, quando o projeto deles é nos transformar num Afeganistão sob o Taleban. Uma teocracia militarizada que lembra a distopia de Gilead em The Handmaid’s Tale.

O plano deles: retroceder o Brasil para 50 anos atrás – época do AI-5 (1968 a 1978). A gente elege Bolsonaro primeiro, depois a gente sai das Nações Unidas, pra não se preocupar com essa besteira que são os Direitos Humanos, uma invenção comunista para defender bandido. E depois a gente começa a Cruzada do Homem de Bem para “extirpar os ativismos”, começando por “fuzilar a petralhada” (cito frases do führer, que parece não ter compreendido nada do que disse Jesus de Nazaré com “amai-vos uns aos outros”).

Eles vão re-acender por aqui as fogueiras da Inquisição e tacar os livros e os professores de esquerda lá dentro – vai ser Farenheit 451 em meio à barbárie do neo-fascismo tropical. E haverá uma horda de imbecis que vão aplaudir a carnificina diabólica, dizendo amém a um deus que nunca existiu: o deus da intolerância e do obscurantismo, o deus homóbico e genocida de Sodoma e Gomorra, o deus que o ser humano inventou como pretexto para cometer as piores atrocidades na crença absurda de que derramando o sangue dos ímpios está comprando com isso um tíquete de entrada no Céu.

Triste pátria fanatizada por pastores corruptos e falsos profetas da Salvação!

PARTE 10 – A TORTURA É CRIME HEDIONDO, MAS OS BOLSOMINIONS PASSAM PANO

Vivemos tempos tão tenebrosos que é preciso explicar o óbvio: tornou-se tarefa dos cidadãos que ainda possuem o mínimo de lucidez, sensatez e senso ético elucidarem, para uma parcela imensa demais de um povo, porque não há nada de bom a esperar do processo de empoderamento de um facínora psicopata, que faz apologia da tortura e deseja transformar Ustra em herói nacional.

Em um país mais civilizado, dizer estas obviedades – que a tortura é um crime hediondo, que fazer o elogio de torturadores é sintoma de sadismo, perversidade e outras patologias psíquicas-afetivas etc. – seria desnecessário, pois já seria consenso social básico. No Brasil, sob o feitiço maléfico do Bozonazismo, tornou-se necessário relembrar as atrocidades cometidas pela Ditadura Militar, quando estamos sob a ameaça de que aqueles horrores recomecem.

Entre nós, falar sobre tortura tornou-se necessário e inadiável, dada a conexão umbilical de Bolsonaro com o elogio destas práticas de brutalidade contra o outro. O duro é que muitas vezes encontramos, no eleitorado que vota 17 com fanatismo e convicção inabaláveis, com ouvidos trancados. São pessoas dogmatizadas e intolerantes, que mobilizam todo um arsenal de racionalizações destinadas a justificar o injustificável. Você tenta criticar a postura aberrante e lamentável de um político que idolatra torturadores e puxa o saco do Ustra – e as pessoas logo dão um jeito de retrucar metendo o Lula ou o Marighella na história, para desviar o papo para os supostos “crimes dos esquerdistas” que supostamente justificariam, em todos os tempos, os tratamentos brutais “corretivos” que lhes foram infligidos.

Desfazer adesões de brasileiros à maré fascista / Bolsonarista tornou-se uma espécie de absurdo trabalho de Sísifo, pois muitos eleitores do Coiso não são capazes de ver sua adesão ao facínora abalada nem mesmo por tantas evidências de que Bolsonaro é um pretendente a tirano, doentio em sua megalomania, com ‘delírios de onipotência’ (como bem disse Ivana Bentes), que vomita um discurso de ódio e de segregação muito similar àquele de líderes que estiveram à frente de regimes totalitários e genocidas.

Empoderá-lo não tem a mínima chance de acabar bem.

O TSE, que censurou a veiculação deste vídeo na TV, tenta amordaçar o PT quando este procura resgatar verdades históricas e informar a opinião pública sobre o tipo de caráter diabólico que encontra seu porta-voz em Bolsonaro. Já em relação ao #caixa2doBolsonaro para disparar milhões de mensagens caluniosas, notícias falsas e memes de assassinato de reputações, o TSE mostra-se conivente, acovardado e até mesmo cúmplice deste processo golpista que envolve dúzias de empresas brasileiras que já aderiram ao Capitalismo Fascista, ao Neoliberalismo Militarizado.

Em outras palavras: o PT é silenciado e censurado por revelar a verdade, em um vídeo alinhado com os ideais e práticas da Comissão Nacional da Verdade, importante iniciativa do primeiro mandato de Dilma Rousseff; já a extrema-direita recebe carta branca para seguir fraudando a lisura do processo eleitoral com uma campanha de sórdida enganação e manipulação da opinião pública (com o beneplácito de Steve Bannon e Trump, da Havan e Edir Macedo, da Record e da Globo, tudo construído sobre a fraude jurídica que excluiu Lula das eleições, botando fogo no Comitê de Direitos Humanos da ONU e picando em pedacinhos a Constituição de 1988.

ASSISTA AO VÍDEO – via Meu Professor de História:

https://www.facebook.com/MPHistoria/videos/980852965581631/

 

PARTE 11 – NÓS SOMOS A ÚLTIMA BARREIRA CONTRA O FASCISMO

O Estado autoritário, ultra-conservador nos costumes, apesar de ultra-liberal na economia, que está sendo proposto pelo Bolsonarismo, tem a cara fétida de um Leviatã Hobbesiano: vende-se a idéia de que esse Monstro de autoritarismo e militarismo virá para o benefício de todos, para “limpar toda a corrupção do Brasil”. Mas este Leviatã ensandecido que é o projeto político Bolsonarista não vem para pactuar uma paz, mas sim para destravar a mais feroz guerra de todos contra todos.

 O cidadão brasileiro ainda não percebeu o tamanho do risco de processos bélicos (guerra civil ou guerra internacional) que se tornam agora muito mais palpáveis e possíveis entre nós. Por falta de formação política, a maioria do povo brasileiro não conheço o ovo da serpente do fascismo, não sabe de seus estragos, não sabe da dificuldade de vencê-lo, uma vez que ele conquista o domínio do Estado (como foi com Mussolini na Itália, Salazar em Portugal, Franco na Espanha, Hitler na Alemanha). Muito sangue é derramado para des-empoderar o fascismo, uma vez este tenha se apoderado do Estado.

O Brasil vai se tornando um dos epicentros globais do fascismo empoderado. E isso graças às desgraças que acarreta por aqui a nossa Elite do Atraso, como o sociólogo Jessé de Souza a batizou. Nós, que anos atrás oferecíamos ao mundo todo um paradigma de excelência em matéria de gestão do Bem-Estar Social através das políticas públicas criadas e aplicadas pelo governo Lula, hoje estamos decaídos a uma espécie de republiqueta de bananas que ameaça instaurar, com Bolsonaro, uma espécie de sub-führerdom que responde às ordens lá de cima: não de Deus, como reza o slogan (também ele fake!), mas sim de Mr. Donald Trump.

O Brasil da Era Lula era visto internacionalmente como um farol e uma inspiração para que a Europa, a América do Norte e a Ásia pudessem não se destruir no processo de navegar as turbulentas marés criadas pela crise econômica de 2008. O PT navegou através de uma das piores crises desde o crack de New York em 1929 que dá início à Grande Depressão dos anos 1930.  uma espécie de hospedeiro de um câncer que ameaça se espalhar pelo mundo inteiro.

Segundo o filósofo e professor da USP, Vladimir Safatle, as 4 características do fascismo são:

1- Culto da violência.
2- Culto do Estado-nação paranóico.
3- Insensibilidade absoluta em relação às classes mais vulneráveis.
4- Entregar todo seu poder para um líder “cômico” que fala o que quiser sem nenhuma responsabilidade.

Nós agora somos a última barreira contra o fascismo. Ele fere nossa existência, então seremos resistência. Seguiremos criando novas maneiras de viver e conviver. Como disse Luis Felipe Miguel em um excelente artigo publicado no Blog da Boitempo: “entre o fascismo e nós, só há nós”: 

Com o golpe de 2016, as condições da disputa política no Brasil entraram em processo de rápida deterioração. A institucionalidade fundada na Constituição dita “cidadã” opera de maneira cada vez mais precária; suas garantias são cada vez mais incertas. A prisão do ex-presidente Lula, após julgamento de exceção, ao arrepio do texto expresso da própria Carta de 1988 e com inequívoca intenção de influenciar no processo eleitoral, simboliza com precisão a situação em que nos encontramos.

Ao mesmo tempo, a violência política aberta se alastra, seja por meio dos agentes do Estado (como mostra a repressão cada vez mais truculenta às manifestações populares e a perseguição aos movimentos sociais), seja contando com sua complacência. Das tentativas de intimidação à expressão de posições à esquerda em espaços públicos ao brutal assassinato da vereadora Marielle Franco (e de seu motorista Anderson Gomes), passando pelos atentados às caravanas de Lula, são muitos os episódios que revelam essa escalada.

Há rincões em que o assassinato político nunca deixou de existir – somos um país em que o latifúndio nunca parou de matar lideranças camponesas, por exemplo. Neles, o golpe agravou o quadro, dada a sensação de “porteiras abertas” que o retrocesso no Brasil gera para os mandantes dos crimes. E, nos lugares em que o conflito político apresentava um verniz mais civilizado, regredimos para patamar inferior.” – BLOG DA EDITORA BOITEMPO

por Eduardo Carli de Moraes, Professor de Filosofia, IFG.
22 de Outubro de 2018

As eleições no Brasil parecem um episódio de Black Mirror – e o documentário “Trumping Democracy” explica porquê

por Eduardo Carli de Moraes
para A Casa de Vidro

Um documentário sobre as Eleições no Brasil em 2018 poderia ficar muito parecido com um assustador episódio de Black Mirror, uma das melhores séries televisivas do século 21​.

As mulheres, que se levantaram aos milhões para dizerem em alto e bom som que #EleNão, também sabem a ameaça que pende sobre nossas cabeças de virarmos algo similar à teocracia militarizada de Gilead na também excelente The Handmaid’s Tale. Nossa realidade é pura distopia.

É mesmo chocante: foram quase 50 milhões de votos para Bolsonaro no 1º turno das eleições presidenciais no Brasil, e isto só se explica a contento se incluirmos em nossa análise de conjuntura estas novidades históricas: a viralização de fake news, a “memetização” da política, o poderio de mega-empresas da comunicação digitalizada, além da completa falta de escrúpulos éticos e senso de responsabilidade que se manifesta em campanhas como a de Trump e do Partido Social Liberal (PSL)​ entre nós.

É a Pós-Verdade turbinada com doses cavalares de testosterona. É a elefantíase do Princípio Pinóquio. É a mentira deslavada transformada em mercadoria digital a se propagar em prol dos fins mais espúrios.

Foi assim que um partido nanico de repente se agigantou, elegendo a maior bancada de extrema-direita da história da Câmara: em 2014, o PSL possuía apenas um deputado federal, em 2018 saltou para 52; ele terá uma bancada que só será menor do que aquela do PT – Partido dos Trabalhadores​, que elegeu 56 (fonte: IG – https://bit.ly/2E7eKdC).

Se, em outros tempos, poderíamos apelar para grandes obras da Psicologia de Massas, como as Wilhelm Reich​, Stanley Milgram​ ou Erich Fromm​, para desvendar como o fascismo pode tornar-se disseminado em uma sociedade, em nossos tempos precisamos somar a isso e focar em outro elemento-chave de explicação: a Internet como território onde proliferam, muitas vezes de modo ingovernável, os boatos, as calúnias, as difamações, os assassinatos de reputação. E onde também se exploram os afetos dos cidadãos, seus medos, suas esperanças, seus ímpetos agressivos, suas ansiedades, suas frustrações – é o Circuito dos Afetos que Vladimir Safatle tão bem tem explorado em suas obras.

Ao invés de debate público autêntico sobre propostas para o país, o que vimos, vindo da Direita do espectro político, foi um show de horrores: memes agressivos, odientos, preconceituosos, sendo replicados como células de câncer.

Na véspera da eleição, nos grupos de Whatsapp, não faltavam memes comparando petistas a ratos, convocando eleitores Bolsonaristas a irem às urnas como quem vai ao extermínio das pragas munidos de inseticidas. Cheira a nazifascismo?

Também não faltou baixeza contra Manuela D’Ávila​ e Fernando Haddad​, vítimas de uma enxurrada de mentiras propagadas por um eleitorado que gosta de fazer pose de “Cidadão-de-Bem”, mas que na prática age como um cão raivoso – e mentiroso. Eleitores que acreditam no “vale-tudo” para vencer a candidatura lulopetista. O grau de respeito pela democracia demonstrado pelo eleitorado de Bolsonaro de fato faz pensar em espectadores da UFC urrando diante de ossos fraturados.

O documentário Trumping Democracy​, dirigido por Thomas Huchon, em cartaz no Canal Curta​, é essencial para incrementar nossa compreensão do processo eleitoral no Brasil e das estratégias que a extrema-direita está usando (e que, infelizmente, estão funcionando). Pois Bolsonaro é um fenômeno que só pode ser compreendido através de uma analogia com a eleição de Trump nos EUA: em ambos os casos, as campanhas investiram centenas de milhões em uma estratégia de grotesca desinformação e manipulação dos eleitores. Embarcaram de cabeça no clima da “Pós-Verdade” e abandonaram qualquer escrúpulo de “fair play”.

Vivemos em um contexto tecnológico em que as mídias sociais exercem um impacto sem precedentes nos processos eleitorais, rivalizando com as empresas midiáticas tradicionais: hoje, as rádios, as TVs e os jornais não possuem mais o predomínio sobre as consciências que já tiveram em processos eleitorais anteriores. Hoje, não se compreende uma eleição sem abordar o peso que nela têm empresas como o Facebook (dono do Instagram e do Whatsapp) e o Google.

O filme, traduzido no Brasil como “Driblando a Democracia”, revela que o triunfo de Trump envolveu estratégias encabeçadas pelos bilionários Robert Mercer e Steve Bannon, duas figuras favoráveis ao programa do Partido Republicano e que ajudaram a eleger o atual ocupante da Casa Branca. No Reino Unido, o plebiscito Brexit, que culminou com a separação do país da União Européia, envolveu as mesmas táticas. Já foi revelado que a campanha Bolsonaro vem pagando Bannon para aplicar por aqui a Tática Trump.

Funciona mais ou menos assim: empresas como a Cambridge Analytica pagam para bancos, empresas de cartão de crédito e corporações da informática para terem acesso a uma montanha imensa dos nossos dados (o que é conhecido como Big Data).

Tudo que fazemos na Web, nossos cliques, nossos likes, nossos compartilhamentos, nossas compras, nossos comentários, nossas visitas a sites, nosso tempo de navegação, tudo isso deixa “pegadas” digitais que são muito úteis àqueles que desejam nos usar de marionetes. Soma-se a isso o fenômeno dos “dark posts”, publicações dirigidas a pessoas específicas, que logo desaparecem do feed de notícias, e que não deixam rastros – de modo que, em caso de mentira ou assassinato de reputação, o responsável pela disseminação do fake, ao invés de penalizado por cometer crime eleitoral, fica impune. No caso, mega-corporações ficam impunes de todo tipo de manipulação viciosa e ilegítima do processo eleitoral.

A campanha de Trump não teria sido bem-sucedida se tivesse simplesmente mentido. Além de mentir, é preciso que a mentira seja eficaz, ou seja, que convença uma fatia considerável do eleitorado. Os Bolsonaristas, sob os auspícios do mesmo Steve Bannon que alçou Trump ao poder, aplicam por aqui a mesma tática, adicionando pitadas extras de crueldade e sadismo. Cidadãos que se informam sobretudo pelo Whatsapp estão sendo literalmente afogados debaixo de uma avalanche de fake news e de memes manipulatórios, que buscam criar um clima de furioso anti-petismo e de apoio acéfalo ao projeto direitista, autoritário, trucidador de direitos sociais, de Bolsonaro, Mourão, Guedes e o resto da trupe.

Chegamos a um impasse histórico que não estava previsto pelas visões mais róseas e utópicas da Rede Mundial de Computadores, como a Aldeia Global de McLuhan. Hoje, a Internet está sendo usada para passar a perna na democracia, dentro da pequena área, e o juiz está fingindo que não vê nada – e não apita o pênalti. No Brasil, os inúmeros crimes eleitorais cometidos pela campanha Bolsonarista – que parece não só se enxergar como portadora do direito de mentir, ofender, agredir, mas que inclui a inaceitável apologia ao genocídio dos adversários no pleito (“vamos fuzilar essa petralhada!”) – estão passando impunes diante de uma Justiça acovardada, submissa, quando não cúmplice dos abusos.

Sobre o tema, Rafael Azzi​ escreveu um texto fundamental, que vale a pena ser lido e propagado: “Sua tia não é fascista, ela está sendo manipulada.” (Leia aqui: https://bit.ly/2pMW1Kl, ou no fim deste post).

Na verdade, a manipulação Trumpista e Bolsonarista, que se apropria dos ensinamentos da propaganda nazista e stalinista, coloca o totalitarismo em um novo patamar. Agora, trata-se de viralizar a mentira grotesca de que o “mito” Bolsonaro é um cidadão-de-bem que vai salvar o Brasil da peste bubônica (o petismo).

Resta por compreender – e a psicologia old scholl segue nisso inestimável – como é possível tamanho grau de credulidade e subserviência de parte do eleitorado diante de uma figura como Bolsonaro, que não cessou de manifestar sua psicopatia e seu sadismo em uma inacreditável série de discursos e práticas que revelam tudo o que de mais execrável pode animar um ser humano: o racismo, o machismo, a homofobia, a mentalidade escravocrata e colonialista, a subserviência entreguista aos interesses imperialistas, o desrespeito completo às diferenças humanas, a falta de qualquer projeto concreto de justiça social e solidariedade, a aposta na truculência armamentista, a crassa ignorância sobre assuntos econômicos e políticos, para não falar da mais lamentável de todas as suas características: tratar torturadores como heróis e elogiar um regime político ilegítimo, cruel e homicida, nascido com o golpe de Estado de 1964, e que afundou este país em mais de 20 anos de trevas e sangue. Diante das pessoas que buscavam os ossos dos seus entes queridos, sequestrados pela ditadura, torturados no pau-de-arara, mortos no DOPS ou no DOI-CODI, desaparecidos para sempre, Bolsonaro disse: “quem procura osso é cachorro”.

O Brasil dará um tiro na própria cabeça e cometerá um atentado suicida contra seu próprio futuro ao eleger uma figura que representa tão boçal desumanidade. Que tenhamos a sensatez e a sabedoria de combater o fascismo nas urnas, nas ruas, nas redes, nas escolas. Pois o preço de barbárie que já estamos pagando pela atual ascensão da extrema-direita já é altíssimo.

LEIA TAMBÉM:

A Casa de Vidro​http://www.acasadevidro.com

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ASSISTA: TRUMPING DEMOCRACY

SINOPSE – This explosive documentary follows the money to the elusive multi-billionaire Robert Mercer who bought Breitbart News and funded the effort, while inserting Steve Bannon into the presidential campaign as its manager. Using data of millions of Americans acquired from Facebook, Google, banks, credit companies, social security and more, another Mercer company, Cambridge Analytica, used tactics honed during the UK’s Brexit campaign to identify voters deemed “most neurotic or worried,” whom they believed could swing for Trump. In the days before the election, using a little-known Facebook feature, “dark posts”, they deployed highly manipulative and personalized messages, that could be seen only by the user before disappearing. In the darkness of the web, democracy was trumped by data.

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SUA TIA NÃO É FASCISTA, ELA ESTÁ SENDO MANIPULADA

Você se pergunta como um candidato com tão poucas qualidades e com tantos defeitos pode conseguir o apoio quase que incondicional de grande parte da população?

Você já tentou argumentar racionalmente com os eleitores deles, mas parece que eles estão absolutamente decididos e te tratam imediatamente como inimigo no mais leve aceno de contrariedade?

Até sua tia, que sempre foi fofa com você, agora ataca seus posts sobre política no facebook?

Pois bem, vou contar uma história.

O principal nome dessa história é um sujeito chamado Steve Bannon. Bannon tinha uma visão de extrema direita nacionalista. Ele tinha um site no qual expressava seus pontos de vista que flertavam com o machismo, com a homofobia, com a xenofobia, etc. Porém, o site tinha pouca visibilidade e seu sonho era que suas ideias se espalhassem com mais força no mundo.

Para isso, Bannon contratou uma empresa chamada Cambridge Analytica. Essa empresa conseguiu dados do facebook de milhões de contas de perfis por todo mundo. Todo tipo de dado acumulado pelo facebook: curtidas, comentários, mensagens privadas. De posse desses dados e utilizando algoritmos, essa empresa poderia traçar perfis psicológicos detalhados dos indivíduos.

Tais perfis seriam então utilizados para verificar quais indivíduos estariam mais predispostos a receber as mensagens: aqueles com disposição de acreditar em teorias conspiratórias sobre o governo, por exemplo, ou que apresentavam algum sentimento de contrariedade difuso ao cenário político atual.

A estratégia seria fazer com que esse indivíduo suscetível a essas mensagens mudasse seu comportamento, se radicalizasse. Como as pessoas passaram a receber as notícias e a perceber o mundo principalmente através das redes sociais, não é difícil manipular essas informações. Se você pode controlar as informações a que uma pessoa tem acesso, você pode controlar a maneira com que ela percebe o mundo e, com isso, pode influenciar a maneira como se comporta e age.

Posts no facebook podem te fazer mais feliz ou triste, com raiva ou com medo. E os algoritmos sabem identificar as mudanças no seu comportamento pela análise dos padrões das suas postagens, curtidas, comentários.

Assim, indivíduos com perfis de direita e seu tradicional discurso “não gosto de impostos” foram radicalizados para perfis paranóicos em relação ao governo e a determinados grupos sociais. A manipulação poderia ser feita, por exemplo, através do medo: “o governo quer tirar suas armas”. Esse tipo de mensagem estimula um sentimento de impotência e de não ser capaz de se defender. Estimula também um sentimento de “somos nós contra eles”, o que fecha a pessoa para argumentos racionais.

Sites e blogs foram fabricados com notícias falsas para bombardear diretamente as pessoas influenciáveis a esse tipo de mensagem. Além disso, foi explorado também um sentimento anti-establishment, anti-mídia tradicional e anti “tudo isso que está aí”. Quando as pessoas recebiam várias notícias de forma direta, e não viam essas notícias repercutirem na grande mídia, chegavam à conclusão de que a grande mídia mente e esconde a verdade que eles tem.

Se antes a mídia tradicional podia manipular a população, a manipulação teria que ser feita abertamente, aos olhos de todos. Agora, todos temos telas privadas que nos mandam mensagens diretamente. Ninguém sabe que tipo de informação a pessoa do lado está recebendo ou quais mensagens estão construindo sua percepção de realidade.

Com esse poder nas mãos, Bannon conseguiu popularizar a alt right (movimento de extrema direita americana) entre os jovens, que resultou nos protestos “unite de right” no ano passado em Charlottesville, Virgínia que tiveram a participação de supremacistas brancos. Bannon trabalhou na campanha presidencial de Donald Trump e foi estrategista de seu governo. A Cambridge Analytica trabalhou também no referendo do Brexit, que foi vencido principalmente por argumentos originados de fakenews.

Quando a manipulação veio à tona, Mark Zuckerberg foi chamado ao senado americano para depor. Pra quem entendeu o que houve, ficou claro que a democracia da nação mais importante do mundo havia sido hackeada. Mas os congressistas pouco entendimento tinham de mídia social; e quem estaria disposto a admitir que a democracia pode ser hackeada através da manipulação dos indivíduos?

Zuckerberg estava apenas pensando em estabelecer um modelo de negócios lucrativo com a venda de anúncios direcionados. A coleta de dados e a avaliação de perfil psicológico das pessoas tinham a intenção “inocente” de fazer as pessoas clicarem em anúncios pagos. Era apenas um modelo de negócios. Mas esse mesmo instrumento pode ser usado com finalidade política.

Ele se deu conta disso e sabia que as eleições brasileiras podiam estar em risco também. Somos uma das maiores democracias do mundo. O facebook tomou medidas ativas para evitar que as campanhas de desinformação e manipulações ocorressem em sua rede social. Muitas contas fake e páginas que compartilhavam informações falsas foram retiradas do facebook no período que antecede as eleições.

Mas não contavam com a capilarização e a popularização dos grupos de whatsapp. Whatsapp é um aplicativo de mensagens diretas entre indivíduos; por isso, não pode ser monitorado externamente. Não há como regular as fakenews, portanto. Fazer um perfil fake no whatsapp também é bem mais fácil que em outras redes sociais e mais difícil de ser detectado.

Lembram do Steve Bannon, que sonhou com o retorno de uma extrema direita nacionalista forte mundialmente? Que tinha ideias que são classificadas como anti minorias, racistas e homofóbicas? E que usou um sentimento difuso anti “tudo que está aí”, e um medo de os homens se sentirem indefesos para conquistar adeptos?

Pois bem, ele se encontrou em agosto com Eduardo Bolsonaro. Bolsonaro disse que o Bannon apoiaria a campanha do seu pai com suporte e “dicas de internet”, essas coisas. Bannon é agora um “consultor eventual” da campanha. Era o candidato ideal pra ele, por compartilhava suas ideias, no cenário ideal: um país passando por uma grave crise econômica com a população desiludida com a sua classe política.

Logo depois de manifestações de mulheres nas ruas de todo o Brasil e do mundo contra Bolsonaro, o apoio do candidato subiu, entre o público feminino, de 18 para 24 por cento. Um aumento de 6 pontos depois de grande parte das mulheres se unir para demonstrar sua insatisfação com o candidato.

Isso acontece porque, de um lado, a grande mídia simplesmente ignorou as manifestações e, por outro, houve um ataque preciso às manifestações através dos grupos de whatsapp pró-Bolsonaro. Vídeos foram editados com cenas de outras manifestações, com mulheres mostrando os seios ou quebrando imagens sacras, mas utilizadas dessa vez para desmoralizar o movimento #elenão entre as mais conservadoras.

Além disso, Eduardo Bolsonaro veio a público logo após a manifestação e declarou: “As mulheres de direita são mais bonitas que as de esquerda. Elas não mostram os peitos e nem defecam nas ruas. As mulheres de direita têm mais higiene.” Essa declaração pode parece pueril ou simplesmente estúpida mas é feita sob medida para estimular um sentimento de repulsa para com o “outro lado”.

Isso não é nenhuma novidade. A máquina de propaganda do nazismo alemão associava os judeus a ratos. O discurso era que os judeus estavam infestando as cidades alemãs como os ratos. Esse é um discurso que associa o sentimento de repulsa e nojo a uma determinada população, o que faz com que o indivíduo queira se identificar com o lado “limpo” da história. Daí os 6 por cento das mulheres que passaram a se identificar com o Bolsonaro.

Agora é possível compreender porque é tão difícil usar argumentos racionais para dialogar com um eleitor do Bolsonaro? Agora você se dá conta do nível de manipulação emocional a que seus amigos e familiares estão expostos? Então a pergunta é: “o que fazer?”

Não adiante confrontá-los e acusá-los de massa de manobra. Isso só vai fazer com que eles se fechem e classifiquem você como um inimigo “do outro lado”. Ser chamado de manipulado pode ser interpretado como ser chamado de burro, o que só vai gerar uma troca de insultos improdutiva.

Tenha empatia. Essas pessoas não são tolas ou malvadas; elas estão tendo suas emoções manipuladas e estão submetidas a uma percepção da realidade bastante diferente da sua.

Tente trazê-las aos poucos para a razão. Não ofereça seus argumentos racionais logo de cara, eles não vão funcionar com essas pessoas. A única maneira de mudar seu pensamento é fazer com que tais pessoas percebam sozinhas que não há argumentos que fundamentem suas crenças e as notícias veiculadas de maneira falsa.

Isso só pode ser feito com uma grande dose de paciência e de escuta. Peça para que a pessoa defenda racionalmente suas decisões políticas. Esteja aberto para ouvi-la, mas continue sempre perguntando mais e mais, até ela perceber que chegou num ponto em que não tem argumentos para responder.

Pergunte, por exemplo: “Por que você decidiu por esse candidato? Por que você acha que ele vai mudar as coisas? Você acha que ele está preparado? Você conhece as propostas dele? Conhece o histórico dele como político? Quais realizações ele fez antes que você aprova?”

Em muitos casos, a pessoa tentará mudar o discurso para falar mal de um outro partido ou do movimento feminista. Tal estratégia é esperada porque eles foram programados para achar que isso representa “o outro lado”, os inimigos a combater.

Nesse caso, o caminho continua o mesmo: tentar trazer a pessoa para sua própria razão: “Por que você acha que esse partido é tão ruim assim? Sua vida melhorou ou piorou quando esse partido estava no poder? Como você conhece o movimento feminista? Você já participou de alguma reunião feminista ou conhece alguém envolvido nessa luta?”

Se perceber que a pessoa não está pronta para debater, simplesmente retire-se da discussão. Não agrida ou nem ofenda, comportamento que radicalizaria o pensamento de “somos nós contra eles”. Tenha em mente que os discursos que essa pessoa acredita foram incutidos nela de maneira que houvesse uma verdadeira identificação emocional, se tornando uma espécie de segunda identidade. Não é de uma hora pra outra que se muda algo assim.

Duas das mais importantes democracias do mundo já foram hackeadas utilizando tais técnicas de manipulação. O alvo atual é o nosso país, com uma das mais importantes democracias do mundo. Não vamos deixar que essas forças nos joguem uns contra os outros, rasgando nosso tecido social de uma maneira irrecuperável.

P.S.: Por favor, pesquise extensamente sobre todo e qualquer assunto que expus aqui, e sobre o qual você esteja em dúvida. Não sou de nenhum partido. Sou filósofo e, como filósofo, me interesso pela verdade, pela ética e pelo verdadeiro debate de ideias.

Texto de Rafael Azzi

O 13º ANDAR – Ofuscado por Matrix, este filme sci-fi de 1999 merece ser redescoberto e decifrado

“I wasn’t the first person to be troubled by the possibility that nothing is real.” – DANIEL GALOUEY

No ano que encerrou o século 20, o arrasa-quarteirão “Matrix” (Wachowski Brothers) ofuscou um outro filme de ficção científica que é sensacional e digno de toda nossa atenção: “O 13º ANDAR” (THE THIRTEENTH FLOOR), de Josef Rusnak, não é só apenas um primor cinematográfico em todos os quesitos (com destaque para sua montagem magistral e sua direção de arte impecável), como também oferece muito alimento para o pensamento.

Lançado em 1999, o filme é uma adaptação do romance de 1964 “Simulacro 3”, de Daniel Galouye, autor que já havia inspirado anteriormente um filme de R. Werner Fassbinder: “Mundo Ao Telefone”, de 1973.  É digno de nota que Daniel Galouye escreveu a obra literária que inspira “O 13º Andar” muitos anos antes da publicação de ensaios importantes como os de Jean Baudrillard (“Simulacres te simulation” é de 1981) ou de Pierre Lévy (“O Que é O Virtual?” é de 1996).

O tema principal de “O 13º Andar” são as dificuldades de distinção entre Real e Fictício em um mundo repleto de simulações e simulacros. Universo temático que o aproxima de “Matrix”, é claro, mas também de uma obra, igualmente ofuscada quando de seu lançamento no mesmo ano de 1999: o excelente e subestimado “eXintenZ” de David Cronenberg (o genial cineasta canadense que já havia mergulhado em debates semelhantes em seu Videodrome, de 1983).

Em “O 13º Andar” também são  tematizados os dilemas da Inteligência Artificial, ou seja, do tipo de mentes e “vivências” de que podem ser dotados os artefatos tecnológicos como robôs, andróides e personagens de simuladores – algo em voga até hoje na ficção científica e que ganhou recentes contribuições com o Ex Machina – Instinto Artifical de Alex Garland (2014) e o Anon de Andrew Niccol (2018)

É incrível o quanto a temática e a vibe deste The Thirteenth Floor também prenuncia uma das melhores séries do século 21, Westworld (da HBO) – cuja primeira temporada, propulsionada pelas atuações de Anthony Hopkins e Ed Harris, é uma obra-prima na história da teledramaturgia contemporânea, abordando vários dos temas que são centrais ao filme de Rusnak.

O título da obra faz referência, como descobri em uma consulta à Wikipédia, a um fenômeno curioso: alguns elevadores de prédios altos omitem o 13º andar devido à superstições e fobias em relação às supostas propriedades maléficas do número 13, tido como de mau agouro.

A superstição humana é capaz de impactar ações reais a tal ponto que estimou-se que 85% dos edifícios com elevadores da empresa Otis foram construídos com esta característica bizarra: no painel de botões, o andar 12 “pula” para o 14.

Nos anos 1960, uma das melhores bandas do rock psicodélico fez referência a isso: o The Thirteenth Floor Elevators prometia romper com estes tolos preconceitos e nos levar para uma viagem estética lisérgica e excitante, odisséia sônica só acessível àqueles com coragem de embarcar no décimo terceiro andar. São sonzeiras que ainda soam bem estupefacientes, mais de 50 anos desde seu lançamento, e que convidam à descoberta do tesouro que é a coletânea Nuggets.

Mal o filme se inicia e o espectador se surpreende com uma de suas muitas originalidades: trata-se uma ficção científica que, ao invés de se lançar à tentativa de decifrar o porvir, investe em reconstruir o passado – a Los Angeles anos anos 1930. Para isso, o filme não se utiliza para isso de uma Máquina de Viajar no Tempo como aquela que impulsiona através das épocas os heróis da trilogia de R. Zemeckis: De Volta Pro Futuro.

Em “O 13º Andar”, estamos diante de um mega-empreendimento corporativo na área de simulação e realidade virtual, uma empresa multibilionária que não deixa de ter suas similaridades com a Tyrell de Blade Runner.

Na ficção de Galouye, o objetivo da empresa é testar produtos comerciais antes de sua distribuição: “Podemos simular eletronicamente um ambiente social e povoá-lo com subjetividades análogas”, as chamadas “Unidades ID”, e através da “manipulação do ambiente e estimulação das Unidades ID, nós podemos avaliar o comportamento em situações hipotéticas.” (GALOUYE, 1964, pg. 5, citado por Bernardo, 2010, p. 252).

Bem-vindo à era das Cyber Cobaias do Capitalismo Cibernético.


A empresa que realizou a reconstrução digital da Los Angeles pretérita – uma impressionante simulação de uma metrópole que pode ser explorada pelo sujeito que “pluga” sua consciência à mega-máquina de “realidade virtual” – foi criada por um sujeito de nome Hannon Fuller. Este é (aparentemente) assassinado logo no princípio do filme – mas este crime, cuja decifração motiva o personagem Douglas Hall (herdeiro da empresa e amante de Jane Fuller, a filha do assassinado), torna-se apenas a ponta de um iceberg complexo.

Quebrando com o binarismo de Matrix – que divide o mundo em apenas dois: o Real (fora da Matrix) e o ilusório-fake (o mundo daqueles cujas consciências estão alucinadas e alienadas pois plugadas ao Simulador matricial), o filme de Rusnak multiplica os territórios do falso. Constrói uma matrioshka de simulações. Faz-nos questionar em profundeza nossa própria realidade ao empilhar simulações sobre simulações.

O efeito é de vertigem e deslumbramento. E afinal de contas é o próprio Cinema que nos aparece como uma ferramenta impressionante para a invenção e a disseminação de Simulações consumíveis em massa.

Este é um filme muito interessante de tentar decifrar por todo cinéfilo interessado por este gênero artístico fascinante: a meta-ficção. As obras de arte que falam sobre obras de arte, os artefatos culturais metalinguísticos (gravuras de Escher, Janela Indiscreta de Hitchcock, contos de Cortázar etc.) são postas debaixo da lupa sempre esperta do filósofo brasileiro Gustavo Bernardo em uma de suas obras mais brilhantes – O Livro da Metaficção (Ed. Tinta Negra, 2010). Nele, este brilhante discípulo de Vilém Flusser dedicou um esforço de análise muito interessante ao “13º Andar” (ver páginas 250 a 264):

“Os habitantes são projetados para acreditar que vivem em mundo real – e o fazem a tal ponto que acabam eles mesmos simulando modelos de mundo sob seu controle. Estes outros mundos simulados pelos seres virtuais também estão habitados por indivíduos que, como eles, acreditam viver em um mundo real. A interação conflituosa entre os supostos criadores e as supostas criaturas, bem como a expansão e a multiplicação fractal do sistema, leva Douglas Hall a começar a duvidar da veracidade da sua própria realidade – o que dá ao leitor do romance a incômoda sensação de alguém lhe dizendo que a sua própria realidade pode não ser tão real assim, que a sua realidade pode ser um produto ou um subproduto de outra realidade, de outro universo acima e à volta dele.” (p. 252)

O filme, que se inicia com uma das frases mais famosas da história da filosofia – o “Penso, logo existo” de Descartes -, é também uma espécie de tratado sobre o ceticismo. O próprio poster do filme ordena: “questione a realidade”. Em “O 13º Piso”, vários personagens que não passam de simulações, amontoados de códigos de programação encarcerados dentro de computadores, possuem uma mente que os faz ir além de seus limites pré-programados.

Quando a mente artificial busca compreender seu próprio mundo, e acelera rumo aos limites do conhecimento, atropelando as barricadas que separam o território lícito daquele que é proibido, tudo parece sair dos trilhos que haviam sido programados pelos humanos.

Aqueles entes cibernéticos, que deveriam ser usados como meras marionetes por seus usuários, ganham uma certa autonomia, inclusive embarcando em jornadas de auto-descoberta: aceleram seus carros de bytes através das rodovias virtuais, rumo às fronteiras da cidade, e nas periferias descobrem “o que se pode chamar de fim-do-mundo” (situação que o poster do filme, ao lado, representa): “a renderização incompleta de postes, pássaros e montanhas” (p. 257).

A mistura de fascínio e de horror pela transformação tecnológica do mundo está presente nesta obra que, segundo G. Bernardo, “antecipa os replicantes e os clones na ficção e nos laboratórios do final do século XX, mas também presta tributo ao Golem judaico, ao Monstro sem nome do doutor Frankenstein e ao robô de Karel Capek.” (p. 254)

As criaturas se voltam contra os criadores. As invenções virtuais, adquirindo um certo nível de auto-consciência e inteligência, não se limitam mais a serem apenas usadas por seus usuários, manifestam um certo grau de vontade própria. Também era isso o que assombrava a imaginação dos criadores de Matrix e de Blade Runner. É o que faz “O 13o Piso” estar em conexão com o que de melhor se criou na ficção sci-fi de caras como Philip K. Dick ou William Gibson. Nesta metaficção cyberpunk, o personagem Douglas Hall é como uma marionete que adquire consciência de sua condição de “cobaia”:

“De algum jeito ele descobriu o que era, o que era toda esta cidade apodrecida e de faz-de-conta. Ele sabia que isso era parte de um mundo falsificado, que sua realidade nada mais era do que um reflexo de processos eletrônicos”, escreve Galouye. E Bernardo comenta que “Douglas embarca na dúvida hiperbólica de Descartes e questiona não apenas a sua própria existência, mas também a bondade do suposto criador. Passa a considerar factível a hipótese do Gênio Maligno cartesiano – ou, de maneira menos disfarçada, do Deus Mau… suspeita que o próprio Deus seja uma solução forçada e inverossímil para os problemas da humanidade, confundindo-o com o Mestre das Marionetes ou com o Gênio Maligno de Descartes.” (BERNARDO, 2010, p. 261 – 263).

É que o Master of Puppets, neste caso, não é nenhum deus, mas sim a Humanidade brincando de Deus. Tema de um dos grandes álbuns na história do rock pauleira, em que o heavy metal chove chumbo sobre este molhado tema:

Muito além de usar a maquinaria da indústria do Cinema para apenas inventar um RPG (Role Playing Game) através de uma matrioshka de simulações, o filme questiona a fundo certas posturas humanas, certos ethos hoje muito difundidos, que poderiam ser caracterizadas com o termo grego HÝBRIS (desmesura).

Os criadores da Realidade Virtual plugam-se a ela para poderem viver ali, na fantasia, muitos de seus ímpetos que na sociedade real não podem se manifestar: o cientista respeitável, que na realidade é cioso de seus deveres como pesquisador e operário da verdade, na virtualidade frequenta cassinos e transa com prostitutas; o bem-sucedido empresário, que é CEO de uma empresa hi-tech, pluga-se à virtualidade para brincar de matar, como quem descarrega sua agressividade naqueles jogos de simulação de matança, como aquelas de uma longa linha evolutiva dos videogames: Duke Nukem, Doom, GTA (Grand Theft Auto), Counter Strike…

É a personagem de Jane Fuller que se mostra a mais clarividente sobre os horrores deste processo quando acusa seu marido, endoidecido por sua mente demasiado plugada nas simulações, de estar “brincando de deus”, atividade perigosa que nos põe no papel de demiurgos, de Mestres das Marionetes, dando-nos uma ilusão de potência que nos conduz ao abismo da hýbris – ou seja, da prepotência que nos dana. Este filme também pode ser lido como Emblema do Antropoceno, a Era dos Humanos, em que a nossa desmesura se volta contra nós.


Por Eduardo Carli de Moraes @ #CinephiliaCompulsiva – Filmes assistidos em 2018. Leia as críticas e artigos da seção “Cinephilia Compulsiva” do site A Casa de Vidro:


https://acasadevidro.com/cinephilia-compulsiva-resenhas-sobre-filmes/

NÃO BASTA DIZER NÃO – A utopia de Naomi Klein para um outro mundo possível

“Um mapa-múndi que não inclua a Utopia não é digno de ser consultado.”
Oscar Wilde (1854 – 1900), escritor irlandês

 

PARTE 1 – O FUTURO TURBULENTO AO QUAL JÁ ESTAMOS CONDENADOS

“Não basta dizer não!”brada Naomi Klein em seu novo livro (Bertrand Brasil, 2017, 292 pgs, compre aqui), uma obra crucial para navegarmos nas águas revoltas de nosso mundo convulsionado. Não há dúvida de que precisamos manter em nosso arsenal toda uma resoluta gama de nãos: não ao sequestro do sistema político por gangues de plutocratas! não ao extrativismo e queima de combustíveis fósseis que aquecem o planeta e propulsionam catástrofes ecológicas e humanitárias! não ao massacre dos povos originários, ao encarceramento em massa dos desvalidos, ao desrespeito aos direitos civis de refugiados! etc. Mas ao que desejamos e necessitamos dizer sim?

A jornalista e ativista canadense, sempre intrépida na denúncia dos horrores ocorridos em um planeta vendido, onde a febre da corrida aos lucros transforma grupos humanos e ambiente natural em entidades descartáveis, agora dá sequência a uma carreira de imensa coerência e coragem que já tinha nos legado Sem Logo, Doutrina do ChoqueIsso Muda Tudo, tríade de livros que desmascaram com contundência as injustiças e desigualdades produzidas pela hegemonia neoliberal.

Agora, em plena Era Trump, Naomi Klein nos fornece outro guia essencial “para enfrentarmos o futuro turbulento ao qual já estamos condenados”, para emprestar uma expressão do Manifesto Leap, que ela ajudou a redigir e disseminar. Para além das necessárias resistências contra a ascensão neofascista, as práticas de ódio racista e xenófobo, a manutenção de opressões instituídas baseadas em segregações de gênero, raça e classe, ela chega para propor uma coalização ampla que ouse sonhar com uma plataforma de soluções integradas

“para fazer avançar políticas que melhorassem vidas de forma dramática, acabassem com o abismo entre ricos e pobres, criassem grandes números de empregos com bons salários e baixas emissões de carbono e revigorassem a democracia de baixo para cima. Isso seria o inverso da Doutrina do Choque. Seria um Choque Popular.” (p. 254)

O Choque Popular não é apenas uma fantasia utópica desconectada da realidade concreta, pois temos muitos exemplos dele em ação: os protestos de Seattle contra a OMC em 1999 e o levante popular dos bolivianos de Cochabamba contra a privatização da água sendo alguns dos exemplos mais citados. Naomi Klein gosta de nos relembrar também do que ocorreu na Argentina, entre o fim de 2001 e o começo de 2002, quando o país, que era considerado pelo FMI como um “estudante modelo”, totalmente servil aos ditames do capital financeiro, desmoronou para uma crise sócio-política que derrubou quatro presidentes em apenas três semanas.

O modo como o Levante de Buenos Aires contestou de modo radical a Doutrina do Choque neoliberal, contrapondo a esta uma autêntica onda de Choque Popular muito bem documentada pelo documentário de Klein e Avi Lewis, The Take, inspira-nos a forjar táticas em que uma democracia de baixo para cima ouse se erguer na era em que as multidões cada vez mais percebem a falência e o fiasco dos mecanismos tradicionais de representação política. Pois nossos sonhos não cabem nas urnas.

Citando Eduardo Galeano, Naomi Klein também diz que a utopia, ainda que se afaste de nós enquanto caminhamos em sua direção, tem sua serventia. A utopia serve para caminharmos. Olhando para o passado, Naomi Klein tenta nos convencer da importância crucial que teve, nas transformações sociais do passado, a coragem

“das pessoas que ousavam sonhar grande, em voz alta, em público – explosões de imaginação utópica. (…) É essa capacidade imaginativa, a habilidade de vislumbrar um mundo radicalmente diferente do presente, que está em larga medida faltando desde que o grito de NÃO começou a ecoar ao redor do mundo em 2008. No Ocidente, há pouca memória popular de qualquer outro tipo de sistema econômico. Há culturas e comunidades específicas – mais notavelmente comunidades indígenas – que mantiveram vivas, de maneira zelosa, memórias e modelos de outras formas de viver, não baseadas na propriedade da terra ou em uma obtenção infindável de lucro. Porém, a maioria de nós que estamos fora dessas tradições se vê completamente dentro da matriz do capitalismo.

O que explica em parte por que os movimentos que de fato emergiram – do ‘movimento das praças’ europeu ao Occupy Wall Streeet e até mesmo à revolução do Egito – tinham muita clareza em relação ao seu não: não à ganância dos banqueiros, não à austeridade e, no Egito, não à ditadura. Mas o que muitas vezes faltava era uma visão clara e cativante do mundo além desse não. E, nessa ausência, os choques continuaram vindo.

Com a misoginia e a supremacia branca desencadeados, com o mundo à beira do colapso ecológico, com os últimos vestígios da esfera pública destinados a serem devorados pelo capital, está claro que precisamos fazer mais do que apenas traçar um limite e dizer BASTA. Sim, precisamos fazer isso e precisamos traçar um caminho crível e inspirador para um futuro diferente. E esse futuro não pode simplesmente ser onde estávamos antes de Trump aparecer (também conhecido como o mundo que nos deu Trump). Tem que ser um lugar no qual nunca estivemos antes.” (KLEIN, N: 2017, p. 236, 237)

Boa parte do ativismo de Naomi Klein concentra-se atualmente na denúncia de um sistema energético viciado em combustíveis fósseis, fontes não renováveis e altamente poluentes, que estão entre as causas principais do Efeito Estufa. A plataforma Leap propõe um salto para bem longe de uma economia insustentável como esta em que ainda estamos presos, a de um capitalismo ecocida pois baseado em extrativismo e consumismo desmesurados, em explícito desrespeito aos equilíbrios ecossistêmicos que sustentam a vida sobre a face da terra.

“Temos um sistema baseado na apropriação e extração ilimitadas, na exploração máxima… Somos todos parte de um sistema que explora incessantemente a generosidade natural do planeta, sem proteger os ciclos de regeneração, ao mesmo tempo que dá perigosamente pouca importância aonde estamos despejando poluição, sejam os sistemas hídricos que sustentam a vida, seja a atmosfera que mantém nosso sistema climático equilibrado… Isso é o que um sistema viciado em lucro e riqueza a curto prazo tem que fazer: tratar as pessoas e a Terra como recursos a serem explorados até o limite ou como lixo a ser descartado bem longe das vistas, seja nas profundezas do oceano, seja no fundo de uma cela de prisão.” (p. 258)

Em seus trabalhos jornalísticos, muito esforço é posto por Klein na tentativa de nos convencer de que temos que migrar urgentemente para uma economia de energia limpa trabalhos verdes. Isso exige um enfático não ao atual reinado de mega-corporações petrolíferas (como a Shell e a ExxonMobil) e a todo o complexo industrial conexo à indústria automobilística e à infraestrutura rodoviária. É suicídio civilizacional que continuemos com uma economia tão fortemente baseada em automóveis com motores de combustão interna que queimam petróleo, vomitando CO2 na atmosfera, quando temos tecnologia para migrar para carros elétricos, painéis solares, energia eólica etc.

“Por exemplo, quando falamos em TRABALHOS VERDES, geralmente pensamos em um indivíduo de capacete instalando um sistema de energia solar. E esse é um dos tipos de trabalho verde, e um tipo importante, mas não é o único. Cuidar de pessoas idosas e doentes não consome muito carbono. Fazer arte não consome muito carbono. Ensinar é baixo em emissões de carbono. Trabalhar em uma creche também. Entretanto, esse tipo de trabalho, em grande parte realizado por mulheres, tende a ser subvalorizado e mal remunerado, e com frequência é o alvo dos cortes governamentais. Então decidimos ampliar deliberadamente a definição tradicional de trabalho verde para qualquer coisa útil e enriquecedora para as nossas comunidades que não queime muitos combustíveis fósseis. A enfermagem é energia renovável. A educação também… Foi uma tentativa, em resumo, de mostrar como substituir uma economia baseada na destruição por uma economia baseada no amor.” (p. 259)

A utopia de Naomi Klein – “uma economia baseada no amor”, onde trabalhos vinculados à educação e à medicina sejam melhor remunerados do que trabalhos na indústria poluidora e ecocida – confronta-se hoje com o poderio, altamente distópico, de figuras como Donald Trump, Marine Le Pen, Jair Bolsonaro etc… Por isso Não Basta Dizer Não é um livro tensionado pela dialética entre a denúncia e o anúncio, sobre a qual tanto nos ensinou Paulo Freire.

É preciso denunciar (não), mas também anunciar (sim): são duas faces da mesma moeda a denúncia dos inúmeros crimes sócio-ambientais cometidos por corporações petrolíferas ou automobilísticas (a Shell já foi eleita a pior empresa do mundo pela ONG Global Witness; a Volkswagen envolveu-se em escândalos corporativos por ter mentido por décadas sobre o impacto ambiental de seus motores; a General Motors só não foi à falência por ter sido salva com bilhões de dólares em recursos públicos…) e o anúncio de um outro mundo possível (também responsabilidade que assumiu para si, desde a Era Lula, o movimento internacional do Fórum Social Mundial, inaugurado em Porto Alegre em 2003).

“Hoje, a energia que a maioria de nós usa pertence a um número minúsculo de corporações que a fornecem para gerar lucro para seus acionistas. Seu principal objetivo, na verdade seu dever fiduciário, é maximizar o lucro – e é por isso que a maioria das empresas de energia tem encarado com tanta relutância a mudança para fontes renováveis. Mas e se, perguntamos, a energia que usamos fosse propriedade de cidadãos comuns, controlada de maneira democrática? E se mudássemos a natureza da energia e a estrutura de sua propriedade?” (p. 262)

A proposta de Naomi Klein é retirar a energia das garras do domínio corporativo, lutar para que “a geração de energia fosse propriedade pública, das comunidades e de cooperativas energéticas. Se os sistemas energéticos nos pertencerem democraticamente, então poderemos usar o lucro para construir as estruturas sociais necessárias nas áreas rurais, vilas e cidades – creches, assistência para idosos, centros comunitários e sistemas de trânsito” (p. 262), o que não pode ser desprezado como mero devaneio utópico pois tem um exemplo concreto na Dinamarca, que

“na década de 1980, foi pioneira na mudança para um sistema de energia controlado pelas comunidades, com políticas governamentais que encorajavam e subsidiavam parques eólicos pertencentes a cooperativas. (…) Na Dinamarca, em 2000, cerca de 85% das turbinas eólicas do país estavam nas mãos de pequenos proprietários, como agricultores e cooperativas.” (p. 263)

Imaginem – como fez John Lennon – um mundo-alternativo, onde tivéssemos acabado “com os subsídios para os combustíveis fósseis, que são cerca de 775 bilhões de dólares em todo o mundo” e tivéssemos concordado com cortes nos gastos militares (“se os orçamentos militares dos 10 países que têm mais gastos militares no mundo sofressem um corte de 25%, seriam liberados até 325 bilhões de dólares, de acordo com números informados pelo Stockholm International Peace Research Institute”, p. 265).

Diante da emergência em que estamos, com a iminência de catástrofes sócio-ambientais e o acirramento de conflitos bélicos e fluxos migratórios de refugiados, é preciso levar a sério, e logo, o alerta e o convite de Naomi Klein. Saltemos, antes que o cometa que nos tornamos venha colidir com nossa civilização condenada.

É preciso dizer não a um capitalismo cuja democracia de fachada só permite que escolhamos com qual molho seremos devorados, após devidamente cozidos no fogaréu do caos planetário. Nossos sonhos não cabem nas tuas urnas, plutocratas que hoje nos dominam! Queremos um mundo onde caibam todas as vidas. Com a somatória de nossos nãos – os motivos que temos para a revolta, a indignação e a insurreição legítima não faltam – unida à coerência utópica de nosso sim de soluções integradas, podemos rumar – aos saltos! – rumo a uma alter-realidade, a uma outra sociedade, que deixou de ser apenas intensamente desejável para tornar-se imprescindivelmente necessária.

PARTE 2: TRUMPLÂNDIA, A DISTOPIA ENCARNADA

Naomi Klein chama a tomada da Casa Branca por Donald Trump de golpe corporativo. Como esta catástrofe, que antes de ocorrer parecia apenas o tipo de bizarrice horrenda capaz apenas de ilustrar um episódio de South Park, pôde acontecer após os 8 anos de presidência de Barack Obama? No diagnóstico veiculado por Não Basta Dizer Não, Trump é o sintoma de uma sociedade enlouquecida, posta fora de órbita de qualquer bom senso racional sobre a gestão social por uma certa agudização do ideário neoliberal, anarco-capitalista, uma ideologia tóxica e que precisaria ser urgentemente superada :

“Trump não é de maneira nenhuma uma ruptura, mas sim a culminação – o fim lógico – de muitas histórias perigosas que nossa cultura vem contando há muito tempo. Que a ganância é uma coisa boa. Que o mercado comanda tudo. Que dinheiro é o que importa na vida. Que os homens brancos são melhores do que o resto das pessoas. Que o mundo natural existe para ser saqueado por nós. Que os vulneráveis merecem seu destino e que o 1% merece suas torres douradas. Que qualquer coisa pública ou comunitária é sinistra e não merece ser protegida. Que estamos cercados de perigos e deveríamos cuidar apenas de nós mesmos. Que não há alternativa para nada disso.

Ao se considerar que essas histórias são, para muitos de nós, parte do ar que respiramos, Trump realmente não deveria ser encarado como um choque. Um presidente bilionário que se gaba de poder pegar mulheres por suas genitálias ao mesmo tempo que chama os mexicanos de estupradores e zomba das pessoas com deficiência é a expressão lógica de uma cultura que garante níveis indecentes de impunidade aos ultrarricos, que é obcecada por competições no estilo ‘o vencedor fica com tudo’ e que está fundamentada em uma lógica da dominação em todos os níveis… Passei a acreditar que deveríamos encarar o primeiro presidente norte-americano saído de um reality show e no comando de armamentos nucleares de maneira similar, como uma ficção distópica real.” (p. 276)

Donald Trump na Casa Branca é a encarnação da distopia em nosso real histórico. Não é à toa que explodiram nas livrarias dos EUA, logo após a eleição de Trump,  as vendas de livros de distopia política, como 1984 de George Orwell e Não Vai Acontecer Aqui de Sinclair Lewis. Também não é mera coincidência que a história da teledramaturgia e da arte tenha sido tão marcada por The Handmaid’s Tale (O Conto da Aia), obra de Margaret Atwood escrita nos anos 1980 e que se tornou uma série que tornou-se uma das obras-primas culturais lançadas em plena Era Trump.

Por detrás do slogan Make America Great Again, o que há é um bilionário narcisista, infantilóide, repleto de tendência à psicose e à megalomania, que mostrou-se um manipulador de massas tão eficaz quanto um dia foi o Ministro de Propaganda do regime Nazi, Goebbels. “A parte mais potente da promessa de Trump a sua base eleitoral: vou acabar com a competição das pessoas pardas, que serão deportadas ou banidas, e dos negros, que vão ser presos se lutarem por seus direitos. Em outras palavras, ele ia colocar o homem branco de volta no topo em segurança.” (p. 106)

Trump, com seu discurso repleto de ódio, mostrou algo cada vez mais óbvio: não devemos subestimar jamais o poder do ódio, e a escalada fascista que hoje vivenciamos é também um reaflorar, um voltar à tona, de uma raiva irracional, de um horror à alteridade, de uma intolerância em relação à outridade variante, de uma fobia da diversidade, e que no caso de Trump está conectada a uma personalidade doentia de tão racista e xenófoba que se manifesta.

Trump é a encarnação tão grotesca de um grosseirão da supremacia branca e de um empresário who has shit for brains que ele parece ter sido criado, não por um Divino Deus (que não teria perdido seu tempo criando tal estrupício), mas sim por um caricaturista que estivesse a serviço de Lúcifer… Agora, em prol da própria sobrevivência da possibilidade de uma civilização humana minimamente capaz de fornecer condições de vida digna aos humanos, precisamos compreender “o complexo suporte que permitiu que um bandido cleptocrata colocasse as mãos no cargo mais poderoso do mundo como se fosse a recepcionista de um clube de strip-tease…” (p. 111)

O Tuiteiro-General, que hoje ocupa a Casa Branca e parece brincar de bravatas envolvendo bombas nucleares com a maturidade de um pirralho pré-adolescente que joga videogame contra um vilão de HQs chamado North Korea, foi um dia o produtor e apresentador de um reality show chamado O Aprendiz (The Apprentice), que passava na NBC e que estreou em 2004. 

Naomi Klein, para que ninguém precise perder seu tempo assistindo essa bosta, resume a série: “O Aprendiz era explicitamente sobre a corrida para sobreviver na selva violenta do capitalismo moderno. O primeiro episódio começava com a cena de um sem-teto dormindo na rua – em outras palavras, um fracassado. Então a câmera cortava para Trump em sua limusine, vivendo o sonho – o grande vencedor… ” (p. 61)

“A mensagem era inequívoca: você pode ser o morador de rua ou pode ser Trump. Esse era o grande enredo sádico do programa: faça as jogadas certas e seja o único e sortudo vencedor, ou sofra a humilhação abjeta de ser criticado e em seguida demitido pelo chefe. Era um grande feito cultural: depois de décadas de demissões em massa, queda do padrão de vida e normalização de empregos extremamente precários, Mark Burnett e Donald Trump deram o golpe de misericórdia: transformaram o ato de demitir pessoas em entretenimento de massa.

Todas as semanas, para milhões de espectadores, O Aprendiz transmitia o argumento de venda central da teoria do livre mercado, dizendo que, ao dar vazão a seu lado mais egoísta e implacável, você está, na verdade, agindo como um herói – criando empregos e estimulando o crescimento econômico. Não seja legal, seja um predador. É assim que você ajuda a economia e, mais importante, você mesmo…

Nas temporadas posteriores, a crueldade subjacente do programa ficou ainda mais sádica. O time vencedor vivia em uma luxuosa mansão, bebendo champanhe em espreguiçadeiras infláveis na piscina, indo e vindo de limusine para encontrar celebridades. O time perdedor era deportado para barracas no quintal, estacionamentos de trailers de Trump… Os moradores das barracas, a quem Trump se referia alegremente como ‘os desafortunados’, não tinham eletricidade, comiam em pratos de papel e dormiam ao som de cachorros uivando. Eles espiavam por uma fresta na cerca viva para ver de quais maravilhas extravagantes os ‘afortunados’ estavam desfrutando.

Em outras palavras, Trump e Burnett criaram deliberadamente um microcosmo das desigualdades muito reais e cada vez mais acentuadas fora do programa… Havia uma atmosfera de Jogos Vorazes, embora limitada pelas restrições das redes de TV no que diz respeito à violência não simulada. Em um dos episódios, Trump dissse ao time das barracas que ‘a vida é dura’ e então era melhor que eles fizessem todo o possível para passar por cima dos perdedores e se tornarem vencedores como ele… esse tipo particular de luta de classes televisionada mostrou que a farsa vendida para a geração anterior – de que o capitalismo ia criar o melhor dos mundos possíveis – estava completamente ausente. Não: trata-se de um sistema que dá origem a alguns poucos grandes vencedores e hordas de perdedores. Então era melhor se certificar de estar no time vencedor.” (p. 61)

PARTE 3 – A DIALÉTICA DA UTOPIA E DA DISTOPIA

Uma das novidades que Não Basta Dizer Não traz aos leitores de Naomi Klein está no mergulho mais aprofundado que ela faz no âmbito da dialética entre utopia e distopia. Ela está ciente de que vivemos um autêntico boom cultural distópico e que ele reflete, como um Black Mirror, tudo que há de sinistro no presente e nas tendências para o futuro próximo que manifesta o atual status quo:

“A cidade murada onde os poucos ricos vivem em relativo luxo enquanto as massas do lado de fora lutam umas contra as outras pela sobrevivência é basicamente o pressuposto fundamental de todo filme de ficção científica distópica produzido hoje em dia, de Jogos Vorazes, com a decadente Capital versus as colônias desesperadas, a Elysium, com sua estação espacial de elite que mais parece um spa pairando sobre uma favela crescente e letal.” (p. 201)

As distopias invadem até mesmo um território cultural normalmente dominado pelo kitsch, como é o caso das animações de grandes estúdios como Disney e Pixar, como o caso Wall-E explicitou: em um planeta reduzido a escombros de uma hecatombe nuclear, um exército de robôs lixeiros tenta limpar o terreno de toda a baderna criada pelos humanos, cujos poucos exemplares sobreviventes agora habitam resorts em órbita onde chafurdam na junk food e na TV estupidificante, sempre viciados em telas brilhantes que lhes alimentam com alienação constante e sempre requentada.

A imaginação distópica parece estar vencendo a imaginação utópica. A síntese dessa dialética têm, por hora, propendido para o lado da distopia, mas Naomi Klein não acha que devemos nos resignar a isso. Também nossa imaginação não pode e não deve ficar refém de um imaginário negativista, que sempre imagina o pior – o que eu costumo chamar de Síndrome de Schopenhauer. Que é também uma fé dogmática na Lei de Murphy…

“Nós imaginamos coletivamente esse fim extremo de vencedores e perdedores para a nossa espécie tantas vezes que uma de nossas tarefas mais prementes é aprender a imaginar outros fins possíveis para a história humana, fins nos quais nos unimos diante das crises em vez de nos dividirmos, acabamos com fronteiras em vez de construirmos mais.

Porque sabemos muito bem aonde a estrada na qual estamos vai nos levar. Ela vai nos levar a um mundo de Katrinas, um mundo que é a confirmação de nossos pesadelos mais catastróficos. Embora haja uma subcultura florescente de ficção científica utópica, as safras atuais de livros e filmes distópicos de sucesso imaginam e reimaginam aquele mesmo futuro de Zona Verde / Zona Vermelha repetidas vezes. porém, o objetivo da arte distópica não é atuar como um GPS temporal, mostrando-nos nosso destino inevitável. O objetivo é nos alertar e nos fazer despertar, de forma que, vendo aonde esse caminho temerário vai nos levar, sejamos capazes de mudar de rumo.” (Klein, p. 202)

Há algo de chocante no modo como os EUA caiu de joelhos diante de Trump, consumando a entrega do poder político a uma figura notória por seu comportamento de “tubarão” capitalista impiedoso, mas Naomi Klein acredita que

“a falta de constrangimento de seu golpe corporativo contribuiu erormemente para fazer com que uma mudança sistêmica pareça mais necessária. Se os titãs da indústria americana podem se enfileirar avidamente atrás desse homem – com todos os seus terríveis ódios, sua venalidade e seu vazio -, se Wall Street pode se regozijar com as notícias de seus planos de deixar que o planeta queime e que os mais velhos morram de fome, e se uma parte tão grande da mídia é capaz de elogiar os seus mísseis… bem, então muitas pessoas estão chegando à conclusão de que não querem fazer parte de um sistema como esse. Com essa elevação da figura mais baixa de todas à posição mais elevada, a cultura da extração máxima, da apropriação e do descarte infindáveis chegou a uma espécie de nível crítico. Claramente, é essa cultura em si que deve ser confrontada agora, e não política por política, mas em sua raiz.” (Pg. 280)

Essa raiz envenenada, que têm produzido o câncer na Árvore da Vida hoje tão tripudiada a ponto de estarmos vivenciando a Sexta Extinção em Massa da biodiversidade planetária (a primeira causada pela Humanidade como força geológica), não é outra senão a ideologia capitalista em sua vertente ultraliberal. “Eis o que precisamos compreender profundamente: o feitiço do neoliberalismo foi quebrado, massacrado sob o peso da experiência vivida e de uma montanha de provas”, diz Naomi Klein (p. 281). Ela ensina-nos de maneira muito didática as evidências que provam que o capitalismo neoliberal não é uma proposta com futuro. Seguindo no mesmo rumo, praticando o business as usual, nossa única destinação é o abismo e a catástrofe.

A percepção social da ineficácia, da injustiça e do ecocídio conectados à hegemonia neoliberal cresce na esteira de eventos como o crash financeiro de 2008 e os eventos climáticos extremados, como o Furacão Katrina, que expôs a fratura exposta no seio da sociedade dos EUA, quando o poder público explicitou sua incompetência para atender às necessidades da população de New Orleans em meio às urgências do desastre.

Vamos na direção de um mundo repleto de Katrinas – e é a Doutrina do Choque aquilo que nos promete o atual status quo. Já passou da hora de nos engajarmos na construção de um outro mundo, a ser construído com o colorido explosivo de nosso Choque Popular.

PARTE 4 – O SALTO QUE É PRECISO TER A OUSADIA  DE DAR

O que Naomi Klein propõe com o Movimento Leap, do qual ela é uma importante liderança, mas que também tem como intelectuais e artistas propulsores figuras como Avi Lewis, Neil Young, Bill McKibben, dentre muitos outros, é um salto para fora da piscina tóxica do capitalismo neoliberal globalizado. “O Leap é parte de uma mudança no zeitgeist político, à medida que muitos vão se dando conta de que o futuro depende de nossa capacidade de nos unir acima de divisões dolorosas e obter liderança daqueles que tradicionalmente têm sido mais excluídos. Chegamos ao limite da política de silos, na qual todos lutam em seu próprio canto sem mapear as conexões entre as nossas várias batalhas e sem uma ideia clara dos conceitos e valores que devem formar a base moral do futuro do qual precisamos.” (p. 271)

Eis uma faceta ainda pouco explorada do trabalho multifacetado de Naomi Klein: seu lado de filósofa da ética, de “moralista” no sentido Chamfort e La Rochefoucauld da palavra, o desejo desta autora de discutir valores e pôr em julgamento ideologias, que transforma sua obra em algo que transborda o mero jornalismo. Naomi Klein, se consegue informar-nos com enorme competência, não se vê como alguém que deve limitar-se à informação: seu texto age como formação e também como tribunal de julgamento. Ela nos forma para o pensamento crítico e para os desafios da práxis transformadora em um movimento simultâneo à sua denúncia do neoliberalismo no Tribunal da História… É uma ambição estratosférica, e ela é irreverente o bastante para se pretender à altura da tarefa.

Migrando do jornalismo para as trincheiras da luta global altermundialista, Naomi Klein hoje se enxerga como uma cidadã global e influenciadora da opinião pública cuja voz é fortemente ouvida. Entre seus leitores, admiradores, que acompanham seu trabalho e debatem com suas ideias, ela conta com um dream team que inclui Noam Chomsky, Cornel West, Arundhati Roy, Michael Stipe, Danny Glover, Michelle Alexander, dentre outros.

Investindo suas energias na imaginação utópica de um “sim cativante que estabeeça um plano de melhorias tangíveis na vida diária, sem medo de palavras poderosas como redistribuição reparação”, “determinada a desafiar a equação da cultura ocidental de uma ‘vida boa’ com confortos cada vez maiores dentro de casulos ainda mais isolados de consumo” (p. 280), Naomi Klein é hoje uma das mestras daqueles entre nós que sabem: não basta dizer não. Mãos à obra, companheiros! Um outro mundo possível é um constructo que a nossas mãos e mentes compete.

Para “ampliar os horizontes do que é politicamente possível” (p. 141), Naomi Klein recomenda sobretudo uma abordagem inter-seccional, que una as diferentes causas em um movimento solidário, superando a dispersão das pautas e das lutas, o que ela chama de “política de silos”, quando as pessoas ficam presas a “caixas de causas únicas”: alguém que é ativista apenas da causa anti-racista, mas não vê razão para se envolver com a causa feminista ou socialista, fracassa em perceber os vínculos necessários, que intelectuais vinculadas ao feminismo negro como Angela Davis e Audre Lorde mostraram, que há entre as opressões baseadas em raça, gênero e classe. Se as opressões estão entrelaçadas, nossas lutas contra essas opressões também devem entrelaçar-se.

Não há porque temer uma união entre o Black Lives Matter e a Marcha Global do Clima (People’s Climate March); não há razão para que as Marchas de Mulheres se vejam isoladas em relação às mobilizações ao estilo Ocuppy Wall Street; assim como a força seria expandida caso MST e MTST, no Brasil, pudessem se perceber como um movimento solidário que luta pela reforma agrária e urbana.

Os zapatistas de Chiapas e os maoístas da Índia são aliados em potencial para os levantes anti-neoliberais que no futuro virão, contestando as políticas de austericídio brutal (como aquela praticada pelo regime Temer após o golpe de 2016). E, diante da distopia corporativa que se globalizou, o brasileiro tem que saber aprender as lições com os bolivianos que, em Cochabamba, conseguiram expulsar a Bechtel do país na “Guerra da Água” – onde o povo boliviano mostrou, através de um Choque Popular, que não aceitava a privatização da água.

“Nos meses e anos por vir, as várias táticas de resistência vão ser mais necessárias do que nunca: os protestos nas ruas, as greves, as contestações judiciais, os refúgios, a solidariedade acima das divisões de raça, gênero e identidade sexual – tudo isso vai ser essencial… Está se tornando possível ver um caminho genuíno adiante – novas formações políticas que, desde a sua origem, vão unir a luta por justiça econômica a uma profunda análise de como o racismo e a misoginia são usados como ferramentas poderosas para impor um sistema que enriquece ainda mais os já obscenamente ricos à custa tanto de pessoas quanto do planeta. Formações que podem se tornar o lar de milhões de pessoas que estão se engajando no ativismo e na organização pela primeira vez, costurando uma coalizão multirracial e intergeracional unida por um projeto transformacional comum.” (p. 271 e 274)

Este projeto utópico é embasado, por Klein, em uma doutrina sobre a natureza humana, uma teoria sobre o que nos move psicologicamente, somada a um amplo diagnóstico histórico e sociológico sobre as causas do fascínio das ideologias capitalistas, como aquela vinculadas às marcas comerciais e que foram alvo do bisturi crítico da jovem Klein em Sem Logo. A distopia encarnada que é Donald Trump é a culminação grotesca da mesma lógica das marcas que Naomi Klein já denunciava no início de seu percurso enquanto midiativista. Agora, ela é capaz de enxergar como ninguém os vínculos entre Donald Trump, sintoma de uma doença, e a causa determinante deste grave adoecimento da democracia estadunidense:

“Se é que existe um aspecto real no festival de fraudes que é a presidência de Donald Trump, é a voracidade em sua essência. A pura insaciabilidade. Trump gosta de falar sobre como não precisa de mais dinheiro – ele tem mais que o suficiente. No entanto, não consegue conter o ímpeto de vender seus produtos em todas as oportunidades, não consegue parar de explorar todos os ângulos. É como se ele sofresse de alguma obscura doença moderna – vamos chamá-la de um distúrbio de personalidade de marca – que faz com que promova sua marca quase que involuntariamente (…) Essa fome insaciável, esse oco no centro, de fato reflete algo real – um profundo vazio no coração da cultura que gerou Donald Trump.” (p. 73)

Donald Trump na Casa Branca é sintoma de uma cultura carcomida pelo câncer do ultracapitalismo que Stiglitz chamou de “fundamentalismo de mercado”. A ideologia neoliberal é isto: fundamentalista em sua defesa da liberdade dos mercados, ou seja, da liberdade dos ultraricos de ficarem ainda mais ricos, com prejuízo de quase todos. O laboratório foi o Chile de Pinochet, em que um golpe derrubou o governo socialista e democraticamente eleito de Salvador Allende, para instaurar um regime de adoração aos Chicago Boys e à doutrina de Milton Friedmann. Ronald Reagan e Margaret Tatcher depois levariam isso ao mainstream político anglosaxão.

Trump é só a careta obscena do estertor de uma doutrina que, se tiver futuro, aniquilará com o nosso. Se houver futuro digno de ser vivido, ele só se fará caso conseguirmos superar este capitalismo fundamentalista neoliberal, que hoje se mescla com o fascismo, filho da burguesia assustada. É contra a atual fusão de neoliberalismo e fascismo, respaldado pela demagogia populista da direita racista e xenófoba, que precisamos nos unir – e não basta dizer não. Temos que dizer sim à missão de construir um mundo melhor que este, arruinado e aos destroços, que nossos adversários estão, já faz tempo demais, perpetrando.

O que o neoliberalismo, enquanto ideologia tóxica mas sedutora, oferece-nos é um beco-sem-saída: consumismo narcísico, individualista; batalha por honras e famas em sociedades rachadas entre winners losers, com mentes lobotomizadas pelo discurso da meritocracia; extrativismo acéfalo, somado à continuação da queima de combustíveis fósseis e à proliferação do modelo agropecuário ecocida das factory farms; tudo isso azeitado por um petróleo que vem de reservas globais declinantes e é cada vez mais conquistado à base de guerras imperiais de conquista que estão entre os piores eventos contemporâneos de genocídio e crime contra a humanidade (como a invasão do Iraque pelos EUA em 2003 explicitou).

A ascensão neoliberal veio em um momento em que “as principais instituições que costumavam dar aos indivíduos um senso de comunidade e identidade partilhada estavam em forte declínio”, escreve Klein, apontando que assim o neoliberalismo disseminado acabou por fuzilar na raiz a própria possibilidade da felicidade humana autêntica. Pois, segundo ela, “nós, humanos, precisamos para o nosso bem-estar de algo pelo que nunca deixamos de ansiar: comunidade, conexão, um sentido de missão que vai além dos nossos desejos atomizados imediatos.” (p. 73)

O declínio das instituições comunitárias e a expansão das marcas corporativas, expressões da hegemonia neoliberal, nos trouxeram a um estado de alta insatisfação massiva dos humanos com a realidade que os circunda, instaurando um estado de divórcio e discórdia que expressa a vastidão da infelicidade humana, e isto pois

“ainda que nosso mundo dominado pelas marcas possa explorar a necessidade não atendida de ser parte de algo maior do que nós mesmos, não consegue satisfazê-la de maneira sustentável: você compra algo para fazer parte de uma tribo, uma grande ideia, uma revolução, e por um momento a sensação é boa, mas se dissipa quase antes de você jogar fora a embalagem do novo par de tênis, do último modelo de iPhone ou qualquer que seja seu substituto. Então você tem que encontrar uma maneira de preencher o vazio novamente. É a fórmula perfeita para um consumo infindável e uma perpétua automercantilização por meio das mídias sociais, e um desastre para o planeta, que não consegue sustentar esses níveis de consumo.

Mas é sempre importante lembrar: no cerne desse ciclo está uma poderosa força: o desejo humano de comunidade e conexão, que simplesmente se recusa a morrer. E isso significa que ainda há esperança: se reconstruirmos nossas comunidades e começarmos a extrair delas mais significado e uma sensação de vida boa, muitos de nós ficarão menos suscetíveis ao canto da sereia do consumismo irracional (e, nesse processo, podemos até passar menos tempo produzindo e editando nossa marca pessoal nas mídias sociais).” (p. 73-74)

Eduardo Carli de Moraes

Goiânia, Junho de 2018

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