AS REVOLUÇÕES SÃO INFINITAS – As lições da obra prima da ficção científica distópica, “Nós” de Zamiátin (URSS, 1920s)

Escrito na União Soviética pós-Revolução Bolchevique, em plena Guerra Civil, no início dos anos 1920, o livro Nós de Zamiátin (Ed. Aleph, 2017, 344pgs.) já teria entrado para a história da literatura distópica do século XX somente pela façanha que foi inspirar Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, e 1984 de George Orwell. No entanto o livro vai muito além de ser o mero inspirador de obras primas subsequentes, é uma obra-prima por seu próprio mérito. E segue pulsando relevância no contexto atual, quase 100 anos após sua publicação.

George Orwell foi uma das mentes brilhantes do século XX que melhor viu a fulgurância artística e política do magnum opus futurista-distópico de Zamiátin. Em uma resenha publicada em Londres em 1946, o autor de A Revolução dos Bichos, que nunca escondeu o impacto que a leitura de Zamiátin deve sobre seu fazer artístico e sua atividade política, resumiu os porquês da forte ressonância de Nós na posteridade:

No século 26, na visão de Zamiátin, os habitantes de Utopia perderam a individualidade tão completamente que somente são conhecidos por números. Vivem em casas de vidro (isso foi escrito antes da invenção da televisão), o que permite que a polícia política, conhecida como Os Guardiões, possa supervisioná-los mais facilmente. Todos vestem uniformes idênticos, e costuma-se fazer referência a um ser humano tanto como “um número” quanto “um unif” (de “uniforme”). Se alimentam de comida sintética, e a recreação habitual é marchar em filas de 4 pessoas enquanto o hino do Estado Único toca em alto-falantes. A intervalos estabelecidos, é permitido, durante uma hora (conhecida como “Hora Pessoal”), baixar as cortinas em torno dos apartamentos de vidro… – GEORGE ORWELL (p. 318)

É impressionante a habilidade que Zamiátin tem para, com fina ironia, delinear os contornos do Estado Único, gerido por um monarca-imperador chamado de O Benfeitor – e que tem óbvias ressonâncias nas figuras de autoridade do Big Brother (O Grande Irmão) orwelliano e do Chefe-de-Estado em V de Vendetta (graphic novel de Alan Moore e David Lloyd, adaptada para o cinema por James McTeigue em 2005).

Lá pelo século 26, na fantasia inventada por Zamiátin, todo o globo terrestre foi submetido ao poderio do Estado Único, que agora inicia a colonização de outros planetas. Nós tematiza, pois, uma espécie de imperialismo intergalático que se segue ao período em que se exauriu completamente a possibilidade do bom e velho imperialismo internacional. A abordagem ousada desta temática prenuncia também a obra magistral de outro dos maiores gênios da ficção científica, Ray Bradbury, autor das Crônicas Marcianas e de Farenheit 451 (adaptado ao cinema por Truffaut).

Não tendo mais continentes a pilhar, nações a invadir, riquezas naturais a roubar, massacres e pogroms perpetrar, o imperialismo capitalista deseja agora lançar seus foguetes para a empreitada de buscar colônias em outros planetas, e é este o fim principal da nave Integral. É neste super-foguete que trabalha o protagonista e narrador de Nós, um livro constituído inteiramente por anotações no diário realizadas pelo narrador em primeira pessoa, um matemático, engenheiro, astrofísico, conhecido apenas pela sigla D-503.

D-503 é uma figura que, assim como Winston Smith, o protagonista do 1984 de Orwell, vai se descobrindo como ovelha negra no rebanho, como mosca na sopa das autoridades. Ele descreve-se, a certo ponto, como “um dedo cortado da mão”, saltitando por aí (p. 145). Ele vai desviando da norma, vai saindo dos eixos da uniformidade compulsória, vai adquirindo uma doença perigosa: desenvolve uma alma. E neste mundo querem que sejamos todos mecanismos. Que funcionemos como relógios e que todas nossas ações sejam cronometradas e coordenadas pela central estatal, o Estado Único.

Há uma Tábua das Horas destinada a sincronizar as milhões de pessoas que constituem as massas adestradas: todos acordam e dormem, almoçam e jantam, trabalham e se divertem, nos mesmos horários, tudo se pratica sob a Ditadura do Despertador e do Cronômetro. Tudo isso se passa numa espécie de território-bunker, todo cercado por um gigantesco Muro – que segrega aquela nação da natureza selvagem e exuberante que a rodeia. O protagonista nos conta ainda que esta civilização é herdeira da Guerra dos 200 Anos, conflito que atravessou dois séculos e no qual as mortandades em massas foram tão gigantescas que apenas 0,2% da Humanidade sobreviveu (p. 41).

Na fachada, esta civilização é uma Utopia; quando penetramos em suas entranhas, ela se expressa como Distopia. Ela faz propaganda de si mesma como civilização que gera a Felicidade para todos os seus cidadãos – e os inimigos do Estado Único são, por isso, chamados de “inimigos da felicidade”. Como Orwell bem viu, “o princípio condutor do Estado é que felicidade e liberdade são incompatíveis. No Jardim do Éden, o homem era feliz, mas em sua loucura exigiu liberdade e foi expulso para o ermo. Agora o Estado Único restaurou sua felicidade ao retirar-lhe a liberdade.” (ORWELL, p. 319)

Distopia que denuncia e satiriza o Totalitarismo, “1984” de George Orwell não era um manual de instruções

Em Nós, de Zamiátin, também há um movimento clandestino de libertação que está em pleno levante contra o Estado Único e planeja sequestrar a espaçonave Integral. O protagonista, D-503, acaba se enredando nas teias de aranha desta conspiração anti-estatal, deste grupo revolucionário em insurreição, cuja natureza e ideologia não se delineiam com clareza. Sabemos que os revolucionários agem concretamente através do projeto de sequestrar a Integral (numa espécie de apropriação/expropriação de um artefato tecnológico de primeira ordem para o Estado Único) e com a iniciativa de dinamitação do Muro Verde – uma entidade que eu imagino parecida com o Muro entre EUA e México, a famigerada La Migra.

O conflito lancinante, alucinatório, que atravessa o psiquismo do protagonista do romance, o atormentado D-503, tem a ver também com sua posição desconfortável no meio de um cabo-de-guerra entre Estado e Revolução. Pois D-503, que é um tecnocrata importantíssimo para o Estado Único e tem sob sua responsabilidade o projeto aeroespacial Integral, acaba se apaixonando por uma moça, número I-330, que integra o movimento de resistência clandestino e que, por força dos magnetos poderosos do amor, é capaz de arrastá-lo, por parte da travessia, à rebelião. Ou pelo menos a atos de insubmissão aos ditames do Estado. Para D-503, a descoberta é a de que “só se pode amar o insubmisso” (p. 105).

Em tempos em que o amor é proibido, amar se torna um ato revolucionário. Porém D-503 não é um revolucionário, mas um funcionário do Estado, e nem mesmo a força magnética do amor é capaz de vencer o cabo-de-guerra: o Benfeitor acaba sendo mais poderoso. D-503, que flerta com a revolução, termina no peleguismo. Prefere a cumplicidade com o establishment à insurreição transformadora. Orwell foi ao ponto nevrálgico:

Quando a rebelião irrompe, parece que os inimigos do Benfeitor são, de fato, muito numerosos, e que, além de tramar a derrubada do Estado, eles se entregam, no momento que as cortinas estão abaixadas, a vícios tais como fumar cigarros e beber. D-503 acaba por fim se salvando das consequências de sua própria loucura. As autoridades anunciam a descoberta da causa das recentes desordens: alguns seres humanos sofrem de uma doença chamada imaginação. Agora, o centro nervoso responsável pela imaginação foi localizado, e a doença pode ser curada por meio de um tratamento de raio-X. D-503 é operado e então se torna fácil fazer o que sabia ser sua obrigação desde o início – a saber, denunciar seus cúmplices à polícia. Com total equanimidade, ele observa I-330 ser torturada com gás comprimido sob uma redoma… (ORWELL, p. 320)

O narrador, D-503, revela-se um anti-herói. A “terapia” pela qual ele passa para limpar sua psiquê evoca procedimentos da barbárie psiquiátrica, como a lobotomia e o eletrochoque. É como se, na sociedade que Nós descreve, todos os súditos do Estado Único tivessem que ser lobotomizados. Um processo de normalização autoritária, de imposição de uma norma única. A imposição do conformismo por um procedimento de dano cerebral patrocinado pelo Estado Único.

Já os rebeldes, os insubmissos, os revolucionários, esses são matáveis, extermináveis, liquidáveis, como se fossem a escória do mundo (título, aliás, do excelente livro de Eleni Varikas, publicado pela Ed. Unesp, que analisa a figura do pária atreavés da história). Impossível não lembrar do triste fim dos desviantes em relação à norma social vigente em obras também distópicas como Laranja Mecânica (livro de A. Burgess, filmado por Stanley Kubrick) e Um Estranho no Ninho (livro de Ken Kesey, filmado por Milos Forman).

Na sociedade retratada em Nós, reina suprema a rítmica do trabalho de Taylor e tudo se justifica com apelo à sacrossanta Razão. Os bem ajustados ao sistema consideram-se ultra-racionais e desejam estar isolados da selvageria que há do outro lado do Muro Verde, aquele “insensato e repugnante mundo das árvores, pássaros, animais” (p. 132). O ser humano segregado de sua matriz natural é aquilo que esta civilização consagra. Tanto que o protagonista, D-503, julga que os sonhos noturnos representam uma patologia, devido à irrupção do irracional (p. 141-142), e ele desejaria que sua consciência fosse blindada contra o mundo onírico.

O tipo de personalidade que é considerada normal e louvável nos faz lembrar dos ensinamentos de Wilhelm Reich, formulador do conceito de Couraça do Caráter. O Estado Único deseja súditos encouraçados, duros como diamantes, que não devem nunca se deixar derreter por emoções malsãs como o amor e a piedade.

O foguete Integral é testado e, no processo, um acidente acarreta a morte de 10 pessoas. Porém, “ninguém se abalou”, já que 10 mortos não são nada diante dos 100 milhões que constituem a massa do Estado Único: “só os antigos conheciam a compaixão iletrada: pra nós ela é cômica.” (p. 150) A ideologia corrente reza que “o amor mais difícil e elevado é a crueldade” (p. 169), e o Grande Benfeitor não tarda a dar amostras deste amor cruel: no Dia da Unanimidade – aquilo que conhecemos por Eleições – o chefe de Estado massacra os que não se juntam ao coro uníssono que o celebra.

A tal Unanimidade é manufaturada a golpes de chacinas contra os que são dissidentes, contra os que votam contra, contra os que denunciam no Grande Benfeitor um crápula e um malfeitor, o reverso de sua máscara de cidadão de bem. A ideologia dominante no Estado Único pede que se imagine a Justiça assim: há dois pratos na balança, o prato do EU e o prato do NÓS. Ora, não é difícil de ver, mesmo que você não seja um gênio da matemática, que é o EU pesa quase nada, é equivalente a 1g, enquanto o NÓS pesa mais de 1000 toneladas.

Esta moral simplista quer que nenhum eu tenha direito à sua singularidade e que o nós seja um organismo único, homogêneo, descrito de maneira biologicista como um corpo dotado de milhões de cabeças. Cada súdito é uma célula deste Grande Corpo. Nos anos 1920, Zamiátin já previa, em contornos gerais, muitos dos elementos da doutrina eugenista-racista do III Reich hitlerista, onde o anti-semitismo genocida estava conexo a uma noção do Povo Alemão, do Volk, como um corpo que precisava ser “purificado” de uma infecção – os inimigos da saúde do corpo coletivo eram judeus, ciganos, comunistas, doentes incuráveis etc.

Em Nós, quem fala pela segunda pessoa do plural, quem é este sujeito coletivo que se expressa em uníssono, se não a voz altissonante de ideologia dominante: “somos um organismo único com milhões de células”, mas estas células não podem ter autonomia alguma, devem se submeter ao projeto do Estado, que deseja uma massa homogênea, unânime, sem diversidade.

O “processo eleitoral” descrito em Nós é a negação mais crassa da Democracia, o consentimento aterrorizado de Todos ao reinado inconsteste do Um, através de ritos públicos onde a Unanimidade deve sempre ser re-afirmada – e aqueles que destoam, que impedem a unanimidade de se constituir, devem ser tratados com máxima severidade, pois são doentes (“anormalidade e doença são as mesma coisa”, lê-se na página 179).

A Democracia é uma polifonia, o totalitarismo é uma monofonia. Só se chega à monofonia – negação da música e reinado atordoante da monotonia – através do silenciamento e do assassinato das vozes dissonantes. Isto fica claro quando o protagonista de Nós descreve a monofonia eleitoral, seu “grandioso uníssono”:

Amanhã assistirei ao mesmo espetáculo que se repete ano após ano e cada vez emociona de uma maneira diferente: o poderoso Cálice do Consentimento, as mãos erguidas em reverência. Amanhã é o dia anual do Benfeitor. Amanhã voltaremos a confiar ao Benfeitor as chaves da inabalável fortaleza da nossa felicidade.

Sem dúvida, isso não é parecido com as eleições confusas e desorganizadas dos antigos, quando – é engraçado dizer – o resultado das eleições sequer era conhecido de antemão. Construir um governo sobre causalidades inteiramente incalculáveis, às cegas – o que pode ser mais sem sentido? E ainda assim, foram necessários séculos para entender isso.

Seria importante dizer que, tanto nisso como em tudo o mais, não temos lugar para quaisquer casualidades, o inesperado não é possível. As próprias eleições têm um significado mais simbólico: recordar que somos um organismo único, poderoso, de milhões de células, que somos, nas palavras do ‘Evangelho’ dos antigos, uma única Igreja. Isso porque a História do Estado Único não conhece um incidente em que, nesse dia solene, uma única voz tenha ousado perturbar o grandioso uníssono. (ZAMIÁTIN, p. 188)

Ora, pouco tempo depois de nosso protagonista dizer ao leitor que a unanimidade está garantida, que sempre foi e sempre será assim, irrompe na cena o imprevisto. O uníssono manifesta-se como farsa quando a resistência insurrecional manifesta sua dissonância. A ideologia dominante segue justificando que assassinar friamente os que se recusam a juntar-se a Nós é uma medida de higiene, uma política sanitária, destinada a limpar o organismo coletivo de um “pequeno distúrbio provocado pelos inimigos da felicidade” (p. 202), como as autoridades fazem publicar no jornal oficial, a Gazeta do Estado Único.

Autoritário com seus súditos, de quem espera submissão total e consenso unânime (as votações, nesta civilização, são uma farsa completa), o Estado Único, diante de seus opositores e contestadores, mostra a sua face totalitária e genocida. O Estado Único pratica tortura e faz uso frequente de uma guilhotina hi-tech. O instrumento para execução da pena capital chama-se “A Máquina do Benfeitor” e há momentos do romance em que Zamiátin rivaliza com Kafka em sua capacidade de pintar um pesadelo judicial que evoca a absurdidade de O Processo ou A Colônia Penal. Orwell impressionou-se:

Há muitas execuções na utopia de Zamiátin. Elas ocorrem publicamente, na presença do Benfeitor, e são acompanhadas pelas odes triunfais recitadas pelos poetas oficiais. A guilhotina, evidentemente, não é aquele antigo e grosseiro instrumento, mas um modelo muito aprimorado, que literalmente liquida a vítima, reduzindo-a a fumaça e uma poça de água límpida em um instante. Com efeito, a execução é um sacrifício humano, e a cena que a descreve recebe deliberadamente a cor das sinistras civilizações escravocratas do mundo antigo. É esta apropriação intuitiva do lado irracional do totalitarismo – sacrifício humano, crueldade como um fim em si, idolatria de um Líder a quem se atribui características divinas – que faz do livro de Zamiátin superior ao de Huxley (Brave New World). – ORWELL (p. 321)

Denúncia de um totalitarismo que depois Hannah Arendt se devotaria a explicar e elucidar em seus clássicos estudos como Eichmann em Jerusalém As Origens do Totalitarismo, a obra de Zamiátin permanece atualíssima, infelizmente: pois ainda pende sob nossas cabeças a espada de Dâmocles da guilhotina totalitária, desta vez sob a forma de uma espécie de fundamentalismo de mercado, anarco-capitalista e neoliberal, globalizado e sem controle, que encontrou em Naomi Klein uma de suas críticas mais penetrantes e perspicazes, o que faz de A Doutrina do Choque um manual essencial para a compreensão de nossos tempos. Tempos estes em que podíamos dizer a recém-chegados de outro planeta: Bem-Vindos à Distopia do Real! (Com o perdão desta anedota Zizekiana…)

Muito antes de Naomi Klein, Arundhati Roy ou de Zygmunt Bauman nos fornecerem muitas das chaves para a decifração da sociedade capitalista atual, Zamiátin denunciou a intentona totalitária de inventar um mundo onde o único está em guerra contra o múltiplo, o homogêneo em guerra contra o diverso, o autoritarismo dos lucros em guerra contra as liberdades civis… Tudo disfarçado por trás de uma fachada alegre como Mickey Mouse ou Ronald McDonald: a máscara da Sociedade da Felicidade.

Nada tenho contra a noção de Felicidade Pública como conceito político (a Bolívia sob Evo Morales é um exemplo da possibilidade de um socialismo focado na felicidade pública e na sabedoria Pachamâmica), mas o sistema atualmente hegemônico, nosso status quo, fala de uma felicidade como possibilidade apenas para indivíduos isolados e em competição por este recurso escasso. Prega que o acesso à felicidade se dá pelas escadarias estreitas e acessos limitados da Meritocracia – a Sociedade das Áreas VIP.

Hoje vivemos sob a ditadura “branda” de um fundamentalismo capitalista neoliberal que, anti-democrático e excludente, concentrador de capital, prefere dizer que a Felicidade é para poucos, para escolhidos, exclusivo para empreendedores capitalistas. Algumas migalhas caíram da mesa para os microempreendendores do neocapitalismo, com seu trabalho Uberizado, em que ter uma máquina de cartão de débito permite que você “seja seu próprio chefe”, e onde somos convidados a engolir o capim de uma ideologia que diz: conquiste para si sua felicidade, pague em 12 prestações com pequeno juro mensal!…

Aquela felicidade que, hoje em dia, nos pregam os apóstolos do Livre Mercado e do Estado Mínimo, está historicamente vinculada a um modelo de regime social que não costuma gostar do processo democrático, visto que adora subir ao poder depois de perversos golpes de Estado. Foi assim na instalação do Laboratório Neoliberal em 1973, no Chile, com a derrubada violenta da União Popular de Salvador Allende; e todas as ditaduras militares instauradas antes disso na América do Sul (Guatemala, 1954; Brasil, 1964; Argentina, 1976) tiveram a ideologia dos Chicago Boys – os neoliberais ao estilo Milton Friedman e Gary Becker – como motor do empreendimento golpista. Hoje em dia, é difícil não cair na gargalhada, ou não se indignar com a má fé, daqueles que dizem que o neoliberalismo respeita a democracia…

Hoje, Zamiátin ensina-nos a desconfiar de toda sociedade que busque decretar o fim da História e procure tornar o mundo homogêneo – querem hoje que sejamos todos consumidores, e não mais cidadãos; espectadores, e não mais agentes. Pode-se dizer que Zamiátin criou uma obra irrotulável, um livro difícil de domar: não é nada fácil colar uma etiqueta classificatória neste livro, até mesmo porque ele reúne uma mescla de ideários que, de maneira um pouco simplista, poderíamos dizer que se enquadram no antagonismo que opõe Liberalismo e Comunismo através da história.

O Liberalismo clássico, aquele de figuras como Locke, Stuart Mill, Tocqueville, era um movimento burguês contra a tirania e o despotismo do Antigo Regime, e reivindicava os direitos civis individuais, entre eles o direito à privacidade, a não ser incomodado pelo monstro do Estado – o Leviatã conceituado por Thomas Hobbes – em excesso. De certo modo, Nós denuncia uma sociedade em que os direitos reivindicados pela tradição liberal não existem, como provam as casas de vidro e as tábuas das horas, sinal de uma gestão estatal invasiva, altamente despótica. Uma leitura liberal de Nós Paulo Leminski falará de uma “unanimidade compulsória” que teria marcado o bolchevismopode apontar as similaridades entre o Estado Único e o Estado Bolchevique, então em sua constituição primordial – escrevendo muitas décadas depois de Zamiátin, .

Mas Nós não é um panfleto pós-liberal como são os livros de Ayn Rand. Nós quer também debater a tese comunista, em atuação na época histórica onde Zamiátin escreveu, em plena efervescência do regime que decretou “todo poder aos sovietes!” A ideologia dominante, em que o Grande Benfeitor parece-se muito com a figura do velho Czar, diz que qualquer levante revolucionário é inútil: “é uma loucura como tapar a boca do cano de uma arma com a mão e achar que é possível deter o tiro.” (p. 221) Por séculos, o czarismo disse aos seus súditos que ele era inderrubável, que jamais seria vencido, até que em 1917 tudo colapsou e um mundo novo começou a ser forjado, com os bolcheviques liderando as massas proletárias russas, a partir dos escombros do velho mundo.

Escrevendo ainda nos tempos em que Lênin encabeçava o empreendimento revolucionário bolchevique, o livro de Zamiátin é também célebre por veicular a tese bastante Trotskysta da revolução permanente. É óbvio que, tendo sido escrito antes da contra-revolução Stalinista tomar conta dos processos revolucionários desencadeados em 1917, o livro de Zamiátin não poderia ter como intenção a denúncia da URSS pós-1929.

Se este livro pode ser dito visionário, é pois foi capaz de criticar o Stalinismo sem nem saber que o estava fazendo, avant la lettre: Zamiátin lançou em 1920 palavras que, nos anos 1930, atingiam em cheio o coração do pesadelo burocrático e genocida que transformou Stalin em um “Benfeitor” que, na real, enterrou a revolução real – internacionalista e permanente – com a mesma brutalidade com que lidou com Trotsky (liquidando-o fisicamente e buscando depois apagá-lo da História…).

No fim das contas, o romance de Zamiátin comunica fortemente a noção de que as revoluções não vão parar. Não há o pretenso “fim da História” pregado por Fukuyamas e congêneres – a História segue, e no futuro talvez ninguém mais vá se lembrar de que ouve alguém chamado Fukuyama… Enquanto houver tirania, opressão, espoliação, injustiça, as revoluções serão infinitas.

D-503: Isso é inconcebível! Um absurdo! Por acaso não está claro que o que você está começando é uma revolução?

I-303: Sim, uma revolução! Por que isso é absurdo?

D-503: É um absurdo porque uma revolução não é possível. Porque a nossa revolução foi a última. E não é possível haver outras revoluções. Todo mundo sabe disso.

I-303: Meu querido: você é um matemático. Inclusive mais do que isso: um filósofo da matemática. Então: fale-me sobre o último número… O último, o mais elevado, o maior.

D-503: Mas, I, isso é um completo absurdo. Os números são infinitos, que último número é esse que você quer?

I-303: E que última revolução é essa que você quer? Não há última, as revoluções são infinitas. Último é para as crianças: o infinito as assusta, e é imprescindível que as crianças durmam tranquilamente à noite… (ZAMIÁTIN, p. 236)

Nós, que não somos mais tão crianças, já acordamos para o fato de que as tiranias nunca se instalam sem resistência, que as opressões nunca reinam sem insurreições, que as ditaduras nunca deixam de suscitar guerrilhas. Nós sabemos que nenhuma das configurações societárias é imutável, pois tudo é dialético e dinâmico, pois tudo está em disputa e os dados ainda estão rolando, de modo que vivemos na certeza e no enntusiasmo de que, como diz a rebelde de Zamiátin, ecoando Trótsky e prenunciando Che Guevara, as revoluções são de fato infinitas.

Eduardo Carli de Moraes
http://www.acasadevidro.com

 

 

Bem-vindo à Distopia do Real – Crítica do curta-metragem “2081”, baseado na obra de Kurt Vonnegut

Vivemos em uma era em que nada descreve melhor a sensação de habitar o real do que as distopias. Estamos na aurora de uma nova Era Dourada do sci-fi pesadelo, que manifesta-se em obras-primas da televisão como Black Mirror e The Handmaid’s Tale.

Os romances de Margaret Atwood​ bombam nas livrarias enquanto Blade Runner 2049 (de Denis Villeneuve)​ pousa nos cinemas, reavivando o interesse tanto pelo filmaço de 1982 de Ridley Scott, quanto pela obra de Philip K. Dick, uma das fontes originais do sci-fi cyber-punk.

Alguns best-sellers transformados em blockbusters provam também que é altamente lucrativo o negócio das narrativas catastrofistas em um planeta reduzido a uma caótica Devastolância, como provam as trilogias “Jogos Vorazes” (The Hunger Games) e “Divergente” (Divergent), cujos filmes explode-quarteirão levaram às multidões as criações literárias de Suzane Collins​ e Veronica Roth​ (respectivamente).

O curta-metragem “2081” encapsula em 25 minutos de filme muito da potência expressiva da ficção científica distópica no cenário artístico atual. Baseado no conto do genial escritor Kurt Vonnegut​, “2081” se passa nos EUA no fim do século 21, quando reina um governo que promete ter atingido, enfim, a Era da Igualdade.

“O ano era 2081 e todos eram finalmente iguais. Eles não eram iguais somente perante Deus ou e Lei. Eles eram iguais de todas as formas. Ninguém era mais inteligente que ninguém. Ninguém era mais bonito ou forte que ninguém. E toda essa igualdade era devida às 211º, 212º e 213º emendas constitucionais e à vigilância incessante do General Nivelador dos EUA. Os fortes usavam pesos para torná-los mais fracos. Os inteligentes usavam aparelhos no ouvido que os impediam de tirar vantagem injusta do cérebro. Até o belo às vezes usava máscaras em situações onde a beleza podia simplesmente ser… distrativa. Era a Era de Ouro da Igualdade.”

Vonnegut talvez tenha se inspirado, assim como fizeram Orwell e Huxley, na seminal distopia do escritor soviético Zamiátin, o romance Nós (Editora Aleph), emblemática sociedade imaginária onde a Igualdade é imposta com mãos firmes pelo Grande Benfeitor e todos fazem as mesmas coisas, sincronizados pela Tábua das Horas e vigiados pelos Guardiões da lei e da ordem que impõe: “o eu é diabólico, o nós é divino”.

Em 2081, trata-se de uma igualdade na mediocridade, de uma totalitarismo da imposição de homogeneidade social a partir de controles militares e vigilância hi-tech. Mais uma sociedade onde reina a imposição de um mesmo modelo medíocre a todos. Todos aqueles que possuem talentos extraordinários ou dons singulares tornam-se vítimas de um Estado que impõe por toda parte as ferramentas de controle e mediocrização – os “handicaps”.

Ou seja, em “2081” um Estado totalitário, gerido por uma Big Sister e não por um Big Brother, faz política de terra arrasada contra a Criatividade humana. Em toda parte, imposição autoritária, por parte das autoridades comandadas pela chefe-de-Estado, a “Handicapper” General, de um padrão de mediocridade.

O filme nos faz imaginar uma sociedade na qual quem tivesse ouvido absoluto seria obrigado a andar pelo mundo com cera nos ouvidos para ensurdecê-los um pouco. Uma sociedade na qual os inteligentes seriam enviados à força para a mesa de um neurocirurgião para passarem por um processo de dano cerebral que os emburrecesse. Uma sociedade na qual os cantores à la Orfeu, que encantam por seus talentos musicais, teriam suas línguas cortadas. E os poetas que escrevem bem demais teriam suas penas quebradas e a publicação proibida.

O diretor e roteirista Chandler Tuttle realiza esta pequena obra-prima com uma conjunção rara entre comédia e tragédia. Como alguém que aprendeu com a dramaturgia dos gregos a mesclar o cômico e o trágico, Woody Allen e Shakespeare, Apolo e Dionísio.

A comédia manifesta-se no cenário do filme: a sala-de-estar de um casal de velhinhos que assiste TV, no maior tédio, ele com a latinha de cerveja na mão, ela tricotando sua malha. A tragédia irrompe nesta sala-de-estar quando um prisioneiro de Estado, o anarquista e inimigo-público-número-1 Harrison Bergeron, foge da prisão e invade um teatro. O evento disruptivo – que evoca o V de Vingança de Alan Moore e o filme que o levou à telona – é transmitido ao vivo para todos os telespectadores acompanharem de olhos colados à Orwelliana teletela.

A velhinha tricotante é a encarnação do conformismo ao regime, da incapacidade de questioná-lo, da futilidade feliz com sua própria rasidão.

O velhinho, atônito em seu sofá, provavelmente com os músculos já atrofiados depois de tantos anos de handicaps, é rabugento com a presença da esposa, que considera também uma “handicapper”, uma mutilante-do-outro.

Este filme quase-de-terror nos revela uma sociedade tão doente que todo mundo mutila todo mundo e chama isso de “Igualdade”… Neste cenário de pseudo-igualdade, e de real ausência de qualquer estímulo à liberdade e à criatividade, irrompe o anarco-mártir.

Harrison é uma espécie de ativista anarquista, está em levante contra o regime, o sistema, as forças de repressão. Quer hackear a mídia de massas para mandar sua mensagem. Por essas e outras ele aparece como muito semelhante ao V, herói de “V De Vingança”, HQ do gênio-xamâ Alan Moore​ já adaptada para o cinema, tributo ao lendário Guy Fawkes e sua tentativa de destruição do Parlamento Inglês…

Harrison, em “2081”, é anarco, mas não punk: depois de fugir da cadeia, invade um balé e solicita música clássica como acompanhamento para uma memorável performance… Ele diz que instalou uma bomba no teatro e que está com o detonador em suas mãos. Joga xadrez com a Tropa de Choque que está a seu redor, pronta para trucidá-lo. Ensina suas lições à distinta platéia ao seu redor, pregando a divergência, a quebra das correntes impostas pelo regime político handicapante. Faz-se maestro de orquestra e parceiro de dança de uma das bailarinas. Conduz as peças no tabuleiro com maestria, enganando o inimigo até a hora de seu xeque-mate.

Para Harrison, a morte não é o pior dos males, mas sim viver sem liberdade. Inclusive a essencial liberdade de divergir, que é o que faz a vida digna de ser vivida. Não há democracia digna deste nome senão aquela onde exista o direito à divergência – e eis um ensinamento que podemos tirar tanto do herói anarco de “2081”, quanto da saga da personagem “Tris”, protagonista da trilogia “Divergente”.

Em ambos os casos, as obras comunicam uma mensagem libertária: escapar à norma, ao padrão, à divisão em castas ou facções. Resistir ao medíocre paradigma do que se deve ser, imposto pelos mediocrizadores de tudo, é essencial à ação e à reflexão daqueles que desejam melhorar o mundo através da criação de um outro mundo possível, que supere este que está “dado” mas não finalizado.

A criatividade é essencial para que se transcenda as limitações deste estado atual do mundo, e só se cria em um contexto que estimule a irrupção do novo, do extraordinário, do inédito. Queremos um mundo onde possam eclodir possibilidades novas, em que inauguremos uma reinvenção constante do que mundo que não é, mas que está sendo, rumo a um ser-outro, um alter-mundo, na Terra, e não no céu; pra aqui, e não para o Além…

“2081” sugere que pode-se morrer e vencer ao mesmo tempo. Kurt Vonnegut, o grande mestre que marcou a história do sci-fi literário com obras como Matadouro #5 Revolução no Futuro (Player Piano), conduz Harrison a ser devorado pelos lobos, mas faz com que os lobos queimem seu próprio filme diante do rebanho de ovelhas que assiste à carnificina. A ovelha sacrificada torna explícita a crueldade insana dos lobos que a mataram.

Talvez o grande mérito, tanto do personagem Harrison, quanto do brilhante curta-metragem de Chandler Tuttle cono um todo, seja algo além de prestar um tributo ao brilhantismo de um dos maiores escritores estadunidenses do século 20 – o brilhante Vonnegut. “2081” quer convocar as ovelhas para fora do rebanho, como fazia o Zaratustra de Friedrich Nietzsche​. “2081”, ecoando Rosa Luxemburgo​, quer que a gente perceba: “quem não se movimenta não sente as correntes que o prendem.” “2081” nos inspira a ser hackers de um sistema falido, como Assange na empreitada Wikileaks. “2081” mostra que, na história da arte, as melhores distopias são aquelas que permitem, pelas frestas dos seus pesadelos, as irrupções utópicas e transformadoras de uma contestação libertária.

* * * * *

Crítica por Eduardo Carli de Moraes​ para A Casa de Vidro​

Assista o filme:

(Áudio em inglês, legendas em espanhol)

 

GEORGE ORWELL (1903 – 1959) – “O Que é Fascismo? E Outros Ensaios” (Companhia das Letras, 2017, 160 pgs, R$29,90 na Livraria A Casa de Vidro)

por Eduardo Carli de Moraes || A Casa de Vidro

A liberdade de expressão, que era definida por George Orwell (1903-1950) como “o direito de dizer às pessoas o que elas não querem ouvir”, é um dos ingredientes que torna tão cativantes os escritos do autor de 1984 Revolução dos Bichos. Sem papas na língua, com uma prosa lúcida e sem firulas, sempre corajoso na manifestação de suas opiniões e impressões, o escritor inglês também tem uma significativa produção jornalística e ensaística que se torna cada vez mais disponível ao público brasileiro.

Com o lançamento de “O Que é Fascismo? E Outros Ensaios” (Companhia das Letras, 2017, 160 pgs, compre por R$29,90 na Livraria A Casa de Vidro), que contêm 24 artigos selecionados por Sérgio Augusto, já gozamos de acesso a 3 livros que coletam os ensaios políticos de Orwell – os outros dois são Como Morrem Os Pobres Dentro da Baleia. Além disso, podemos nos deliciar com relatos autobiográficos como Na Pior Em Londres e Paris e com romances excelentes, ainda que menos conhecidos, como A Flor da Inglaterra A Filha do Reverendo. 

Frequentemente descrito como um dos críticos mais perspicazes do totalitarismo, George Orwell defendia o que chamava de “socialismo democrático”. Tal tomada de posição não torna seus artigos na imprensa culpáveis de panfletarismo ou proselitismo. Sem afetar nenhum tipo de neutralidade angelical, aliás inacessível aos animais políticos que somos, Orwell mantêm-se fiel a certos parâmetros éticos que norteiam sua conduta na ação e na escrita, em especial sua convicção de que é preciso respeitar a verdade objetiva e sua noção de que a missão do socialismo é a invenção de uma sociedade baseada na fraternidade humana.

“A história é escrita pelos vencedores”, escreve Orwell em 1944. “Em última análise, nossa única reivindicação de vitoriosos é que caso ganhemos a guerra contamos menos mentiras sobre ela do que nossos adversários. O que é realmente assustador quanto ao totalitarismo não é que ele cometa ‘atrocidades’, mas que agrida o conceito de verdade objetiva: ele proclama que controla o passado tão bem quanto o futuro.” (p. 77)

É só lembrar que, em 1984, o Partido Único que governa a distópica sociedade que têm à sua testa o Grande Irmão também pratica a mentira em escala massificada: o protagonista Winston Smith trabalha no Ministério da Verdade, onde passa seus dias adulterando notícias de jornal e registros históricos de acordo com as ordens da elite, adaptando o passado conforme os interesses da ocasião.

Propondo-se a não mentir sobre nada do que acredita, ponto em ação sua notável capacidade de parrhesía, Orwell tem como um de seus principais temas o pensamento e a prática utópicos. No artigo Socialistas podem ser felizes? (p. 63 a 72), Orwell tece certas reflexões importantes sobre a utopia (“a propósito, a palavra não significa ‘um lugar bom’, mas ‘um lugar inexistente'”) e estabelece sua própria perspectiva socialista democrática em bases sólidas, nada quiméricas, bastante pé-no-chão, sugerindo que as lutas contra as distopias reais são o primeiro passo de qualquer mobilização sócio-política rumo a uma sociedade mais fraternal:

“Sugiro que o verdadeiro objetivo do socialismo não é a felicidade. O verdadeiro objetivo do socialismo é a fraternidade humana. Homens passam suas vidas em dolorosas lutas políticas, ou são mortos em guerras civis, ou torturados em prisões secretas da Gestapo, não para estabelecer algum paraíso com aquecimento central, ar condicionado e iluminação fluorescente, mas porque eles querem um mundo no qual homens amem uns aos outros em vez de trapacearem e se assassinarem reciprocamente. E eles querem esse mundo como um primeiro passo. (…) Neste Natal, milhares de homens estarão sangrando até morrer nas neves da Rússia, ou se afogando em águas geladas, ou fazendo uns aos outros em pedaços com granadas nas ilhas pantanosas do Pacífico; crianças sem-teto estarão vasculhando as ruínas de cidades alemãs em busca de comida. Fazer com que esse tipo de coisas seja impossível é um bom objetivo.” (ORWELL, 2017, p. 70-71)

Estas palavras mostram bem que George Orwell não era um utopista, ou seja, alguém que tivesse proposto um modelo ou arquétipo de sociedade idealizada, mas muito mais um crítico mordaz dos pesadelos reais de que foi contemporâneo em seu tempo histórico. A distopia é o seu terreno, muito mais que a utopia, e certamente ele não fabricou com uma imaginação sem freios os sistemas políticos opressivos e totalitários de 1984 Revolução dos Bichos, mas partiu de realidades que pôde conhecer e nas quais se engajou.

Sabe-se bem que Orwell não foi autor de exilar-se das turbulências do mundo em uma torre de marfim. Por exemplo: ele fez parte das milícias do Partido Operário de Unificação Marxista (POUM) que insurgiu-se contra a tirania de Franco na Espanha, tendo lutado durante a Guerra Civil Espanhola (1936-1939), onde acabou sendo baleado no pescoço (sobre o tema, escreveu Homenagem à Catalunha).

Com sua inteligência vigilante e seu senso crítico sempre ativo e operante, Orwell, vivendo na primeira metade do século XX, testemunhou a ascensão de lideranças nazi-fascistas como Franco (Espanha), Mussolini (Itália) e Hitler (Alemanha), mas também viu a Revolução Russa de 1917 trair as suas promessas ao transformar-se no pesadelo stalinista, denunciado na literatura por romances como O Zero e o Infinito (Darkness At Noon), de Arthur Koestler, autor que Orwell comenta longamente em um magistral ensaio de 1946, incluído em O Que É o Fascismo? (pgs. 102 a 116).

Somado ao monumental estudo de Hannah Arendt em As Origens do Totalitarismo, a obra de Orwell condensaria a tese de que teriam existido dois totalitarismos neste século que Hobsbawn apelidou A Era dos Extremos: um totalitarismo de direita e outro de esquerda. Seria indigno que nos indignássemos, por exemplo, apenas contra o pesadelo do III Reich e todos os seus holocaustos e atrocidades bélicas, caso silenciássemos sobre os gulags e os expurgos do regime de Stálin; seria indigno criticarmos somente o autoritarismo e a arbitrariedade cruel dos regimes de um Mussolini ou de um Pinochet, mas sem criticar o autoritarismo soviético que esmagou a Primavera de Praga em 1968..

A atitude de Orwell é de crítica ampla e ilimitada a todas as faces da tirania, mas nota-se que ele não menospreza seus adversários: boa parte dos ensaios é dedicado a um debate com poetas reacionários e conservadores, alguns francamente fascistas, como é o caso de Ezra Pound (que aliou-se ao regime de Mussolini). Orwell analisa de modo crítico a obra de um T.S. Eliot e um Yeats, sem cair na falácia de repudiar totalmente suas obras literárias por discordar de suas posições políticas. Chega a admitir que aprecia Louis-Ferdinand Céline como escritor, apesar de seu vociferante e inaceitável anti-semitismo.

Orwell também fala sobre o Mein Kampf de Hitler, destacando que “o que impressiona é a rigidez de sua mente, o modo como sua visão de mundo não evolui”, mas admitindo que “Hitler não teria tido sucesso contra seus muitos rivais não fosse a atração de sua própria personalidade”. Em frases capazes de chocar alguns, escreve: “nunca fui capaz de não gostar de Hitler. Desde que ele chegou ao poder, acho que decerto o mataria se pudesse ter acesso a ele, mas sem sentir nenhuma animosidade pessoal. O fato é que há nele algo que é profundamente atraente…” (p. 29)

Pode parecer estranhíssimo que Orwell confesse que havia em Hitler algo de “profundamente atraente”, mas de fato é um enigma importante de se decifrar: o que constitui o fascínio do fascismo? Como é possível que tanta gente se filie a movimentos fascistas, que tantos soldados tenham sido obedientes às ordens de seus líderes fascistas e que tenham marchado para campos de batalhas onde massacrariam e seriam massacrados?  Que atração é esta que Hitler, Mussolini, Franco ou Pinochet – alguns dos mais célebres estadistas fascistas – puderam exercer sobre seus acólitos? Para Orwell, Hitler sabia fazer uma pose heróica, como se a história fosse uma epopéia, era cheio de posturas “napoleônicas”:

“Se estivesse matando um camundongo ele saberia fazer com que parecesse estar matando um dragão. Sente-se, como no caso de Napoleão, que ele está lutando contra o destino, que ele não tem como vencer, mas que de certa forma ele o merece. A atração de uma pose assim é, obviamente, enorme; metade dos filmes a que assistimos trata desse mesmo tema… Hitler também  captou a falsidade da postura hedonista diante da vida. Quase todo o pensamento ocidental desde a última guerra, com certeza todo o pensamento ‘progressista’, assumiu tacitamente que os seres humanos não desejam nada além de ter facilidade, segurança e evitar o sofrimento. Em tal visão da vida não há espaço, por exemplo, para o patriotismo e para as virtudes militares. O socialista que surpreende seu filho a brincar com soldadinhos costuma ficar aborrecido, mas nunca é capaz de pensar em um substituto para soldados de chumbo; pacifistas de chumbo, de certa forma, não iam funcionar.

Hitler, por sentir isso com força excepcional em sua própria e triste mente, sabe que seres humanos não querem apenas conforto, segurança, poucas horas de trabalho, higiene, controle de natalidade e, no geral, bom senso; eles também, ao menos intermitentemente, querem luta e autossacrifício, e isso sem falar em tambores, bandeiras e desfiles demonstrativos de lealdade. O que quer que possam ser como teorias econômicas, o fascismo e o nazismo são, em termos psicológicos, muito mais sensatos do que qualquer concepção hedonista da vida.” (New English Weekly, 1940, p. 30)

Este é um dos trechos mais questionáveis de todos os que já li de Orwell e sinto necessidade de debatêlo, e até contestá-lo: quando ele busca demolir a “concepção hedonista da vida”, parece compreender por esta expressão algo que pouco tem a ver com a ética epicurista (como se expressa também na obra de Lucrécio ou Horácio) ou com as propostas do materialismo iluminista (Helvétius, por exemplo). Ao falar contra o hedonismo, Orwell parece estar dizendo que o ser humano, longe de ser uma máquina simplória de perseguir o prazer pessoal e imediato, tem uma psiquê mais complexa e que pode admitir o martírio e o autossacrifício, caso acredite que através disso aumentará seu valor pessoal, seja no mercado intersubjetivo dos afetos humanos terrenos, seja no mercado transcendental em que alguns crêem e que pode incluir a noção de que compramos o tíquete de entrada no Paraíso através de certas afrontas que fazemos ao nosso próprio egoísmo.

Para Orwell, os líderes fascistas sabiam muito bem que as pessoas não desejam apenas conforto, segurança e entretenimento – em suma, sofás luxuosos onde deitarem-se para assistir TV enquanto comem salgadinhos com Coca-Cola. As pessoas têm necessidade íntima de sentido e não só prazer, e por isso fascinam-se por projetos que proponham aventura coletiva, heroísmo nacional, filiação e lealdade a projetos que transcendem a individualidade e a vida privada – e esta predisposição psíquica as conduziria a abraçar lideranças fascistas como Hitler. A tese orwelliana, bastante debatível, parece-me um pouco simplista, em especial quando a comparamos com aquilo que foi realizado pela psicologia de massas através de autores como Erich Fromm (O Medo à Liberdade),  Stanley Milgram (Obediência à Autoridade), Wilhelm Reich (Psicologia de Massas do Fascismo). Todas as reflexões de Hannah Arendt sobre o conceito de banalidade do mal parecem-me também de suma relevância.

fascínio do fascismo, segundo estes autores, tem a ver também com uma espécie de auto-demissão da autonomia, praticada por um sujeito que deleita-se em abandonar-se ao comando de algo mais forte que ele, gozando com a hedonê perigosa que é o alívio do senso de responsabilidade. Esta prazeirosa leveza da des-responsabilização, o hedonismo fácil que consiste em seguir o rebanho e ir com o fluxo, Orwell parece não ter considerado em suas incursões rápidas no território da psicologia social. Não se trata, para as massas arrebanhadas pelo fascismo, de anti-hedonismo, mas sim de um irracionalismo grávido de atrocidades onde os sujeitos sentem prazer no aniquilamento da própria autonomia e responsabilidade, mas o fazem, sim, em busca de um prazer pessoal por vezes bastante mesquinho e atroz, já que baseado em larga medida no prazer perverso ou sádico do ódio à alteridade  que o fascismo possibilita que se expresse, dando-lhe o estatuto de legalidade e garantindo-lhe os louvores e as salvas-de-palmas do regime.

Estes temas ganharam uma nova ocasião para reflexão em 1940 quando chegou aos cinemas O Grande Ditador (The Great Dictator), de Charlie Chaplin, obra que é objeto de um dos mais interessantes ensaios de Orwell em O Que É Fascismo?. No filme, Chaplin interpreta dois personagens: Hynkel, o ditador da Tomânia, inspirado em Hitler; e um barbeiro judeu que se torna soldado durante a 1ª Guerra Mundial, sobrevive à queda de seu avião e é trancafiado num hospício por 20 anos. Ao sair do hospício, retornando à sua barbearia, este personagem não sabe dos horrores que estão sendo praticados por Hynkel em seu frenesi antisemita e imperialista.

Após uma série de peripécias, repletas de humor pastelão entremeado com as ocorrências do lodaçal bélico em que a Europa chafurdou, a semelhança física entre Hynkel e o pobre barbeiro oferece ocasião para uma das cenas mais célebres da história do cinema e “o grande momento do filme”:

“A invasão de Osterlich (a Áustria) está prestes a acontecer, e Charlie, que foi preso por resistir às tropas de choque, foge do campo de concentração num uniforme roubado bem no momento em que Hynkel está para cruzar a fronteira. Ele é confundido com o ditador e levado à capital do país conquistado em meio à multidões que o aclamam. O pequeno barbeiro judeu vê-se guindado a um enorme palanque, com cerradas fileiras de dignitários nazistas atrás dele e milhares de soldados abaixo, todos esperando para ouvir seu discurso triunfal. Em vez de proferir a solene fala que dele se espera, Charlie faz um poderoso e combativo discurso em prol da democracia, da tolerância e da decência. É realmente um tremendo pronunciamento, uma espécie de versão do discurso de Gettysburg de Lincoln num inglês de Hollywood, uma das mais fortes peças de propaganda que ouvi em muito tempo.

(…) Qual é o dom peculiar de Chaplin? É seu poder de representar uma espécie de essência concentrada do homem comum, a inerradicável crença na decência que existe no coração de pessoas normais, pelo menos no Ocidente. (…) Mais do que qualquer truque humorístico, assim creio, o poder de atração de Chaplin reside em sua capacidade de reiterar o fato, encoberto pelo fascismo e, muito ironicamente, pelo socialismo, de que vox populi é vox Dei, e que gigantes são uma praga. Não é de admirar que Hitler, a partir do momento em que chegou ao poder, tenha banido os filmes de Chaplin da Alemanha!” (p. 39)

CHARLIE CHAPLIN, O Grande Ditador

Discordo do tom um pouco populista que Orwell utiliza-se para falar que o “homem comum”, as “pessoas normais”, teriam uma “inerradicável crença na decência”: não se trata, aí, de idealização excessiva das classes populares, quando sabemos que existem cúmplices do fascismo em todas as classes e que muitos daqueles que eram funcionários em campos-de-concentração e apertavam botões para soltar o gás letal Zyklon B não eram de classes economicamente privilegiadas?

Ademais, Orwell tem certos arroubos anti-marxistas que parecem inacreditáveis de tão toscos, como quando ele diz que “uma educação no marxismo e em credos similares consiste grandemente em destruir o senso moral” (p. 39), algo que poderia ter sido escrito por algum reacionário direitista apoiador de C.C.C.s (Comando de Caça aos Comunistas). Este “socialista democrático” parecia descrente de qualquer possibilidade de construir uma sociedade onde a felicidade pudesse ser permanente – e boa parte dos artigos reunidos em O Que É Fascismo revelam a crítica orwelliana dos pensamentos e práticas dos utopistas:

“Todos os esforços para descrever uma felicidade permanente têm fracassado, desde a história mais primeva”, sugere Orwell, relembrando alguns intentos utópicos nas obras de H. G. Wells nos anos 1920 como The Dream e Men Like Gods. “Ali se tem uma imagem do mundo como Wells gostaria de vê-lo. É um mundo cujas tônicas são um hedonismo esclarecido e a curiosidade científica.Todos os demônios e todas as misérias que agora nos afligem desapareceram. Ignorância, guerra, pobreza, sujeira, doença, frustração, fome, medo, sobrecarga de trabalho, superstição – tudo desapareceu. Expresso dessa maneira, é impossível negar que é o tipo de mundo que todos nós queremos. Todos queremos abolir as coisas que Wells quer abolir. Mas será que existe alguém que realmente quer viver numa utopia wellsiana?

Ao contrário, não viver num mundo como esse, não acordar um dia num higiênico subúrbio-jardim infestado de rigorosas professorinhas nuas tem se tornado de fato uma consciente motivação política. Um livro como Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley é uma expressão do verdadeiro medo que o homem moderno sente da sociedade hedonista racionalizada que ele tem o poder de criar. Um escritor católico disse recentemente que, em termos técnicos, utopias são agora factíveis e que, por consequência, como evitar uma utopia tornou-se uma questão séria. Com o movimento fascista bem à nossa vista, não podemos descartar isso como se fosse uma mera e tola observação. Pois uma das fontes do movimento fascista é o desejo de evitar que se crie um mundo racional demais e confortável demais…” (ORWELL, 2017, p. 65).

A tentativa de construir uma sociedade perfeita pode acabar atingindo justamente o inverso: a instauração de uma distopia totalitária. Orwell insiste neste tema, comentando livros como o Nós de Zamyatin (pg. 141 a 146) e o Brave New World de Huxley, dizendo que a felicidade permanente de todos não é um objetivo factível, não é algo que possa ser de fato concretizado, é somente uma quimera inútil da qual ele pretende desenganar-nos:

“Quase todos os criadores de utopia se parecem com o homem que está com dor de dente e, por isso, pensa que a felicidade consiste em não ter dor de dente. Eles querem produzir uma sociedade perfeita mediante uma interminável continuação de algo que só foi valioso porque era temporário. Mais sábio seria dizer que há certas linhas ao longo das quais a humanidade tem de se movimentar, que a grande estratégia está mapeada, mas que profecia em detalhes não faz parte de nosso negócio. Quem quer que tente imaginar perfeição simplesmente revela seu próprio vazio.” (p. 72)

Orwell, portanto, está bem distante daquele dreamer evocado por Lennon em “Imagine”. O autor de 1984, vivendo em uma época histórica conturbada por conflagrações bélicas gigantescas, só podia mesmo enxergar com sarcasmo a proposta de que o ser humano chegaria um dia a constituir uma utopia sobre a face da Terra. Sua denúncia das realidades distópicas, porém, segue fornecendo alimento para nossa lucidez e permitindo-nos pensar em lutas necessárias e urgentes por um mundo menos pior. 

A perfeição, de fato, é inacessível, sonhá-la só nos trará desilusão. Trata-se de fazer com que tornem-se impossíveis os horrores e atrocidades que existem de fato nesta realidade em que convivemos e que muitas vezes nos faz pensar em James Joyce e sua frase lapidar: “a História é um pesadelo do qual estou tentando acordar”. Ao evocar um socialismo que é devotado à fraternidade humana, Orwell não fecha a porta à possibilidade de que esta fraternidade também possa manifestar-se como solidariedade no infortúnio, união na miséria, congregação coletiva que imperfeitamente improvisa o improvement de um mundo que, se nunca será perfeito, será sempre aperfeiçoável. Façamos juntos com que torne-se impossível aquilo que hoje é o mais horrível. E que esse seja nosso primeiro passo rumo a outro mundo possível.

Distopia que denuncia o totalitarismo, “1984” de George Orwell não era um manual de instruções…

“Durante parte de 1941-1942, quando a Luftwaffe estava ocupada com a Rússia, a rádio alemã brindou sua audiência com histórias de devastadores ataques aéreos a Londres. Hoje, estamos cientes de que esses ataques nunca aconteceram. Mas que uso teria esse nosso conhecimento se os alemães houvessem conquistado a Grã-Bretanha? Para os fins de um futuro historiador, esses bombardeios aconteceram ou não? A resposta é: se Hitler sobreviver, eles aconteceram; se ele cair, eles não aconteceram.

O mesmo ocorre com inúmeros outros eventos dos 10 ou 20 anos passados. Serão os Protocolos dos Sábios de Sião um documento autêntico? Será que Trótski tramou com os nazistas? Quantos aviões alemães foram abatidos na Batalha da Grã-Bretanha? A Europa dará as boas vindas à nova ordem? Em nenhum desses casos você obterá uma resposta que seja aceita universalmente por ser verdadeira: em cada caso você terá um número de respostas totalmente incompatíveis, uma das quias é por fim adotada como resultado de algum embate físico. A história é escrita pelos vencedores.

Em última análise, nossa única reivindicação de vitoriosos é que caso ganhemos a guerra contamos menos mentiras sobre ela do que nossos adversários. O que é realmente assustador quanto ao totalitarismo não é que ele cometa ‘atrocidades’, mas que agrida o conceito de verdade objetiva: ele proclama que controla o passado tão bem quanto o futuro.” (ORWELL, 2017, p. 77)

“O Que é Fascismo? E Outros Ensaios”
(Companhia das Letras, 2017, 160 pgs)
Compre por R$29,90 na Livraria A Casa de Vidro)

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PUXANDO O FREIO DE EMERGÊNCIA: Reflexão na companhia de “Crédito à Morte”, de Anselm Jappe (Ed. Hedra, 2013)

credito-a-morte-a-decomposicao-do-capitalismo-e-suas-criticas

PUXANDO O FREIO DE EMERGÊNCIA
Reflexão na companhia de Anselm Jappe

por Eduardo Carli de Moraes
http://www.acasadevidro.com

Cartão de Credito

AS ESPERANÇAS CATASTROFISTAS DE DECOMPOSIÇÃO DO CAPITALISMO

Uma velha esperança, que “gerações e gerações de revolucionários proclamaram”, é esta: o capitalismo será o “coveiro de si mesmo”. Segundo esta esperança, explica o filósofo Anselm Jappe, “o capitalismo é de tal modo devastador que forçará a humanidade a se desvencilhar dele ou, pelo menos, a fazer mudanças drásticas.” (pg. 28) É a tese que Jappe chama de “catastrofista”, disponível em versão ecológica e econômica, e que é expressa muitas vezes com um certo entusiasmo esperançoso: “O instinto de sobrevivência fará com que a humanidade pare às bordas do penhasco” e “diante do perigo extremo, as pessoas acordarão e um milagre acontecerá”! (pg. 29)

Mas se não há Providência divina que zele pelo futuro da Humanidade, nem ética que governe a livre barbárie do Mercado, de onde este evento milagroso surgiria para despertar as multitudes de seu conformismo, de seu consumismo, de sua zumbizice? O capitalismo não é algo que diz respeito somente às estruturas da economia, da produção objetiva de mercadorias e serviços, mas também à nossa estrutura subjetiva: “Desde pequeno fomos programados a receber / O que nos empurraram com os enlatados do U.S.A. das 9 às 6”, canta Renato Russo em “Geração Coca-Cola”. “Desde pequenos nós comemos lixo comercial e industrial – e não somente o capitalismo agarra-nos com seus tentáculos por fora, como também coloniza nosso mundo íntimo. 

Um dos conceitos mais interessantes mobilizados por Anselm Jappe em sua análise da presente crise ecológico-climática planetária (milhares de alarmes soando, enquanto a Shell avança pelo Ártico e a Monsanto coloniza nosso solo…) é a do capitalismo como forma-sujeito. Capitalismo é também uma forma do sujeito ser, o que acarreta a possibilidade, para todos e cada um, de que o capitalismo seja um crime de que somos cúmplices. Nós o sustentamos.

As “revoluções”, opina o autor de Crédito À Morte, emergem de um desejo de “romper com o capitalismo e com a própria forma-sujeito imposta por ele e que cada um carrega consigo” (pg. 112). Nosso imaginário foi colonizado e agora sonha seus delírios de consumo: sonhamos não mais sobre a esfinge proposta pelo dínamo estrelado da noitemas sim com um novo automóvel zero km que queremos comprar. Narcisos perdidos em suas narcoses de auto-celebratório conformismo, permanecemos firmemente abraçados a um Titanic que já teve seu casco ferrado pelo clash com o iceberg. 

É insistente, teimoso, este nosso velho conhecido: o antropocentrismo. Ele resistiu e sobreviveu às 3 feridas narcísicas de que fala Freud e que acometeram-nos quando as doutrinas científicas heliocêntricas, evolucionistas e psicanalíticas começaram o processo de demolição de nosso antropo-ego. Não cremos mais numa Terra imóvel no centro de tudo, mas cremos numa Terra que é legitimamente colonizada pelos humanos como se fosse algum tipo de rocha morta em território alienígena. Cremos no nosso direito de sujar a atmosfera com toneladas de poluentes, apesar de não crermos mais que todas as estrelas no céu foram criadas para agradar a nossa vista, como pintava aquela visão, teleológica e narcisista, tão finamente ironizada por Fontenelle no clássico iluminista Diálogos Sobre a Pluralidade de Mundos:

“A nossa loucura é acreditar também que toda a natureza, sem exceção, é destinada a nosso uso; e quando perguntamos a nossos filósofos a serventia desse número prodigioso de estrelas fixas… eles nos respondem friamente que servem para lhes agradar a vista. Nessa base, a princípio não faltou quem imaginasse estar a Terra necessariamente imóvel no centro do universo, enquanto todos os corpos celestes, que eram feitos para ela, davam-se ao trabalho de girar em volta para iluminá-la.” (FONTENELLE, Diálogos Sobre a Pluralidade de Mundos. Campinas/SP: Editora da UNICAMP. Pg. 53)

Se abandonamos o geocentrismo, no entanto ainda cremos numa Terra que está aí para que nós a dominemos, e que aceita passivamente tudo o que impusermos a ela como subprodutos de nossos empreendimentos produtivos: grande parte de nós não é capaz de “expressar dúvidas sobre o rumo como um todo da viagem empreendida pela sociedade industrial” (pg. 113). Jappe quer que foquemos a atenção em algo maior que qualquer existência individual, qualquer grupo social, qualquer pátria ou filiação étnica: é o rumo como um todo desta civilização o que interessa-lhe compreender e criticar, e a palavra rumo é interessante por seu “futurismo”: ruma-se para um certo futuro, ou ou z. Supondo que seja um futuro de caos climático generalizado e grandes emergências humanitárias e mortandades em vasta escala, não seria de interesse humano generalizado uma mudança drástica de rumo?

Rumo ao quê? Quicá a um certo futuro y, que não queime mais combustíveis fósseis como um junkie enlouquecido injeta heroína. Um futuro y em que, ao contrário, a superfície do planeta tenha reverdejado com o engendramento de novos verdes e reganhado a saúde de suas flores e suas colméias de abelhas. Um futuro y, que cabe a nós muito mais construir juntos do que esperar que algum deus, messias ou político faça pela gente, seria por exemplo movido a energia solar e eólica, sua dieta seria mais frugívora do que carnívora, a convivência social mais comunitária e celebratória, bem menos cruel e menos competitiva em relação ao que é hoje.

Que um outro futuro z, de catástrofe apocalíptica – digamos… 90% das espécies vivas do planeta sendo extintas antes de 2.500 d.C. – , seja possível é certamente a crença de Jappe. O pior é possível. E nossos rumos não nos dão razão para otimismos infundados. Rumamos sim para colapsos, para catástrofes climáticas, caso sigamos hoje certos rumos infelizmente já bem trilhados – e que muitos parecem querer seguir trilhando, quiçá pelo medo que nos geram as novas estradas.  “Houve já civilizações inteiras que desapareceram em vez de mudar seus hábitos”, opina Anselm Jappe, um autor bastante ducha-d’água-fria sobre os otimismos. O prognóstico Jappeano é sombrio: “O que está programado é a catástrofe e não a emancipação.” (pg. 28)

O que hoje conhecemos como “Aquecimento Global”, por exemplo, é uma catástrofe programada, já muito anunciada, já infinitamente prognosticada, que no entanto não soubemos, coletivamente, sequer encarar de frente, de olhos bem abertos e disposição para a ação renovadora. A perspectiva de uma iminente crise climática global agora serve como novo avatar deste velho mito: o capitalismo, coveiro de si mesmo. Estamos esperando que ele se auto-destrua, e enquanto isso passeamos pelos shoppings centers e circulamos pela metrópolis queimando fósseis em nossos motores? Mas e quanto – eis a questão do milhão… – à tarefa de matar o capitalismo dentro de si?

Antidepressivos

A globalização do sistema de produção capitalista trouxe-nos à beira do penhasco, mas muitos de nós estão demasiado distraídos, clicando compulsivamente em botões de celulares e PCs, zapeando por centenas de canais de TV repletos de besteirol imbecilizante e iscas para o consumo sem freios, e enquanto isso a atmosfera do planeta é tratada como se fosse uma gigantesca privada. O privatismo caga sobre a biosfera, perdido na narcose de seu narcisismo, obcecado com o conforto e o bem-estar, mas despreocupado das próprias condições ambientais para o prosseguimento desta velha trama: a evolução da vida.

Lendo “Crédito à Morte”, de Anselm Jappe, fico com a impressão de que existem pelo menos duas vertentes para o catastrofismo intelectual atual, e que daria para rotular, de modo um tanto simplista, como vertentes otimistas e pessimistas. Os otimistas acham que “o instinto de sobrevivência fará com que a humanidade pare às bordas do penhasco e reconheça que a continuidade do capitalismo é incompatível com os interesses fundamentais de sobrevivência.”

Já os pessimistas, como Jappe, argumentam: “infelizmente não existe instinto de sobrevivência generalizado… A consciência dos riscos ecológicos não leva necessariamente à emancipação. Pelo contrário, também pode levar a soluções autoritárias, à concorrência extrema para ter acesso aos lugares não poluídos, ou a novas guerras. A derrocada econômica também não traz consigo um vento que sopra rumo à emancipação…” (pg. 29)

Emancipação, palavra menos judiada pela história que “revolução”, prossegue servindo-nos como conceito fundamental para pensar nossa ação, ainda que precisemos renovar o rol de tudo aquilo de que precisamos (urgentemente) nos emancipar. Anselm Jappe despeja seu sarcasmo sobre movimentos políticos que desejassem, por exemplo, demandar “o direito de todos comerem no McDonald’s”, quando ele acredita que “a emancipação não pode ser outra coisa senão a libertação em relação àquilo que impede a autonomia num nível mais profundo e mais geral. Essa emancipação só pode dizer respeito ao sistema capitalista e tecnológico em seu conjunto.” (pg. 30)

Diante da disseminação dos transgênicos e dos pesticidas, da proliferação dos ecocídios petrolíferos e das táticas de fracking, da possível clonagem humana e do fantasma da eugenia rediviva, da certeza de que o capitalismo seguirá produzindo crises como a de 2008 (e quiçá ainda mais graves), diante do desmate de florestas tropicais e da extinção de milhares de espécies, e frente às geleiras que derretem-se enquanto a Shell avança como vampira sobre o Ártico, talvez devamos prestar um tantinho de atenção aos catastrofistas, estes que sugerem que talvez seja hora de… puxar o freio de emergência!

“É conhecida a frase de Walter Benjamin escrita na época em que o fascismo triunfava:

“Marx diz que as revoluções são as locomotivas da história. Mas talvez não seja bem assim. É possível que as revoluções sejam, para a humanidade que viaja nesse trem, o gesto de puxar o freio de emergência.”

(BENJAMIN, W. Notes préparatoire pour les thèses sur le concept d’histoire. Paris: Gallimard, Vol. III, p. 442)

Vivemos tossindo em nossas metrópoles megapoluídas e todo este CO2 causa no cérebro coletivo uma crise das utopias? De todo modo, aos que insistem em proclamar e decretar a invencibilidade do capitalismo, convêm perguntar: “Por que estamos tão certos de que o capitalismo pode escapar ao ciclo do nascimento, crescimento e morte? Será que ele não poderia conter limites intrínsecos a seu desenvolvimento, limites que não residem somente na existência de um inimigo declarado (o proletariado, os povos oprimidos), nem unicamente no esgotamento dos recursos naturais?” (JAPPE, pg 48)

Montt

O prognóstico catastrofista sobre nosso futuro é o de que caminhamos correndo rumo a um abismo que não enxergamos pois diante de nossas mentes está a imensa Matrix do Mercado. Caminhamos a passos largos para a catástrofe ecológica de vasta escala, a uma desregulação tão bárbara do sistema climático que suas consequências para o futuro da vida são imensos, e muitos seguem tão apegados a seus cartões-de-crédito quanto o são de seus crucifixos e pingentes santos. Evocando Céline, Anselm Jappe diagnostica que o capitalismo é morte à crédito. E que “o crédito, que é um lucro consumido antes de ter sido realizado, pode adiar o momento em que o capitalismo vai atingir seus limites sistêmicos, mas não abolir esse limite.” (pg. 51)

Celulares em 10 parcelas, sem juros! Financie seu carro e sua casa, pague nas três décadas futuras! Quem não ouve às mancheias, hoje em dia, serem trombeteadas, como iscas, pelos publicitários de plantão, convites ao crédito, seduções sobre as maravilhas inumeráveis do crédito? Ser pessoa “digna de crédito” é elogio. Tem quem adorne-se com terno e gravata (item de vestuário apelidado pelo iconoclasta Tom Zé como uma “forca portátil”) pois quer parecer pessoa de crédito. E no entanto o crack de 2008 chegou feito cataclismo, com muitas analogias históricas com a Grande Depressão iniciada em 1929, e mostrou que crédito e catástrofe são irmãs siamesas. A tese de Anselm Jappe é a de que a mais grave das crises do capitalismo global recente não pode ser explicada apenas com aquela que é a “explicação mais despachada, e também a mais difundida, que atribui a culpa de tudo isso à ‘avidez’ de um punhado de especuladores que teriam jogado com o dinheiro de todos como se estivessem num cassino.” (pg. 40)

crédito massificado merece ser o alvo de nossa crítica, argumenta Jappe, não para encontrarmos aí um bode expiatório, mas para que sejamos ilustrados por um dos sintomas do capitalismo contemporâneo e sua Schumpeteriana “destruição criadora”. O trem do capitalismo globalizado choca-se com os limites naturais e as resistências ético-políticas, está sob ameaça de desintegração, pois duas fronteiras foram transgredidas: “um limite externo foi atingido, tanto com o esgotamento dos recursos – principalmente do recurso mais importante e o menos substituível: a água potável -, quanto com as mudanças irreversíveis do clima, a extinção das espécies naturais e o desaparecimento de paisagens. Mas o capitalismo também se dirige a um limite interno… a transformação do trabalho em valor está historicamente destinada ao esgotamento por causa das tecnologias que substituem o trabalho.” (60) A tecnê há de enterrar o velho vilão?

Dahmer Tecnê

Os catastrofistas encontram esperanças onde podem. É perdoável diante do trauma daquilo que vivenciaram assim que ousaram pôr as caras fora da Matrix midiática, para investigar o que de fato está sendo feito com o planeta atualmente. É de imensa valia a obra, nascendo tão belamente diante de nossos olhos, de pessoas como Arundhati Roy, Raj Patel, Naomi Klein, Vandana Shiva, dentre tantos outros, que corajosamente ilustram-nos sobre nosso habitat e nossa responsabilidade, ajudando-nos também a confrontar o monstro em si, monstro dentro de cada um, esta tarefa que muitos pensadores da esquerda radical anti-capitalista às vezes praticam de modo débil e esquivo… Não basta dizer que é tudo culpa de uma conspiração de ricos, uma corja de canalhas endinheirados, que gerem um desastroso cassino capitalismo: precisamos confrontar, cada um de nós, dentro de nós mesmos, o quanto somos cúmplices do capitalismo que às vezes, da boca pra fora, repudiamos.

Se ando julgando que a obra de Anselm Jappe merece ser lida, é um pouco pelo efeito de gerar no leitor uma sensação de repúdio refletido ao capitalismo. Jappe defende uma “lucidez” que nos faça ir além do mero “engrossar o coro dos populistas de toda cor que se limitam a resmungar contra os bancos, as finanças e as bolsas… Esse populismo desembocará facilmente na caça ‘aos inimigos do povo’, na parte de baixo (os imigrantes) e na parte de cima (os especuladores), no caso da França, evitando toda e qualquer crítica dirigida contra as verdadeiras bases do capitalismo, que aparecem, ao contrário, como sinônimo da civilização a ser salva: o trabalho, o dinheiro, a mercadoria, o capital, o Estado.” (pg. 63)

Parece vigorar uma espécie de desilusão crônica no seio da intelectualidade crítica. Hoje em dia Zizek, Badiou e Negri, três dos principais representantes de uma filosofia crítica à supremacia capitalista, não me parecem exatamente otimistas quanto ao futuro, já que é “mais fácil imaginar o fim do planeta do que imaginar o fim do capitalismo” (Zizek). Mas será que não se trata de algo mais do que imaginar fim do capitalismo? Não se trata sobretudo de emancipar os corpos e mentes dos seres humanos da escravidão em que insistem em viver, comprando fielmente as mercadorias e as ideologias das mãos daqueles que são os coveiros do nosso futuro“Efetivamente, dá vertigem encarar o fim de um modo de vida em que todos estamos afundados até o pescoço”, escreve Anselm Jappe, e “que agora está naufragando sem que ninguém tenha decidido, deixando-nos numa paisagem de ruínas.” (p. 63)

Bem vindo à wasteland do real. O lugar da distopia realizada, onde a utopia (eco-socialista, por exemplo) só brilha por sua ausência. Ou melhor: as utopias anti-capitalistas parecem queimar em fogo baixo, enquanto proliferam-se os reformismos e os green capitalisms, pregando que o capitalismo seria eternamente corrigível, como se tivéssemos que nos resignar ao melhorismo gradativo do que aí está.

O fundamentalismo de mercado pôde impor em boa parte do globo terrestre as suas maquinarias de produção e consumo, mas ainda não colonizou totalmente nossos corações e mentes, disso Jappe bem sabe. O outro mundo possível frequentemente acompanha os catastrofistas em sua atribuladas jornadas teóricas e práticas – e a tarefa do intelectual jamais pode ser somente denuncista e nada propositiva. “Para além das rebeliões abertas, há infinitos atos cotidianos que dão o testemunho da resistência, frequentemente muda, que quase todos os homens, num momento ou em outro de seu dia, opõem à utopia invivível de uma sociedade inteiramente capitalista. (…) Talvez seja uma ‘utopia ingênua’ crer que a humanidade possa viver sem a propriedade privada e as hierarquias, a dominação e a exploração; é seguramente uma utopia terrível crer que a vida possa continuar a se basear sempre no dinheiro e na mercadoria, no vender e no comprar, quando as consequências disso já estão debaixo dos nossos narizes.” (JAPPE, pg. 202)

Walter Benjamin

“Marx diz que as revoluções são as locomotivas da história. Mas talvez não seja bem assim. É possível que as revoluções sejam, para a humanidade que viaja nesse trem, o gesto de puxar o freio de emergência.” (BENJAMIN, W. Notes préparatoire pour les thèses sur le concept d’histoire. Paris: Gallimard, Vol. III, p. 442)

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Este post dialoga com o livro “CRÉDITO À MORTE”, de Anselm Jappe. Editora Hedra/SP, 2013.

O Futuro Segundo Robert Crumb + Documentário da BBC completo

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3 alternativas:

-desastre ecológico;
– utopia hi-tech;
– eco-vilas hippies.


Documentário da BBC [completo – 55 min]