Vladimir Safatle está estarrecido: “Fiquei procurando um cartazete sobre a corrupção no metrô de São Paulo, um ‘Fora, Alckmin!’, grande timoneiro de nosso ‘estresse hídrico’, um ‘Fora, Eduardo Cunha’ ou ‘Fora, Renan’, pessoas da mais alta reputação. Nada.”

Em um artigo brilhante publicado na Folha De São Paulo, o filósofo Vladimir Safatle, com altas doses de sarcasmo e apurado senso crítico,  comentou as manifestações do último Domingo, 15 de Março de 2015. Em sua avaliação, não houve nada remotamente parecido a uma festa da democracia, apesar de todo o “confete” que a imprensa corporativa lançou sobre estes atos, que ela aliás ajudou a convocar e bombar, como a atitude manipulatória da Rede Globo comprova.

Uma pesquisa da Datafolha apontou que 82% dos manifestantes que foram à Avenida Paulista votaram em Aécio e que 74% deles participavam pela primeira vez de uma manifestação. O que é um índice forte de que um pessoal apolítico e desinformado, sem conexão alguma com ativismo ou militância, serviu como massa de manobra do P.I.G. (o Partido da Imprensa Golpista), do Tucanato (derrotado nas urnas) e dos interesses petrolíferos do imperialismo yankee (em especial a Koch Industries).

Decerto muita gente esteve nas ruas por causas tão singelas quanto o desejo de aparecer no Plim Plim (como se pedissem às câmeras:”Filma a gente pra passar no Faustão!”). Muito mais grave do que o  rolê patriótico dominical ao qual alguns compareceram só pois o ato ia passar no Fantástico ou ser comentado no intervalo do jogo pelo Galvão e pelo Arnaldo, foi a licença que alguns tomaram para soltar os cachorros do ódio (como sugere o ótimo texto de Leandro Fortes) e bradar abundantes defesas reacionárias da barbárie e do fascismo em várias formas.

A começar, é claro, por aqueles brasileiros que clamavam por uma intervenção militar contra um governo democraticamente eleito (eles têm realmente saudade dos 21 anos tenebrosos que passamos entre 1964 e 1985? Querem o retorno das torturas, dos exílios, dos desaparecimentos, do terrorismo de Estado institucionalizado?); aqueles que queriam a extinção da influência marxista e deletéria de Paulo Freire na pedagogia brasileira (o que propõem estes mentecaptos?Que façamos grandes fogueiras públicas para incinerar não só Freire, mas também reduzir a cinzas o pensamento d’um Florestan Fernandes ou d’uma Marilena Chauí? Devemos apostar numa educação “100% Bíblica”?); para não falar naqueles que pregavam a pena de morte ou o linchamento para Dilma, Lula ou Stédile… Fascismos do cotidiano deste tipo conduzem-nos a suspeitar, como fez o rapper Criolo em já clássica canção, que “Não Existe Amor em SP”.

Paulicéia Desvairadíssima:

Em meio à pior crise de abastecimento de água já vivenciada em São Paulo, não se ouvia um pio, nem se via um mísero cartazete, contra o governador Geraldo Alckmin, ironicamente descrito por Safatle como o “grande timoneiro de nosso estresse hídrico” (leia também: Breve Tratado Sobre o Sonambulismo Paulista). Beira o inacreditável a relação sadomasoquista que boa parte dos paulistas têm com seu governador, como aponta Altamiro Borges: “a aceitação bovina pelos paulistas dos problemas advindos da incúria do governo estadual na questão da distribuição de água fez essa relação quase sadomasoquista atingir o fundo do poço”.

Quão tragicômicos são estes paulistanos que, vestidos com suas camisas canarinho da corruptíssima CBF, depois de terem votado em Aécio Neves e Geraldo Alckmin na última eleição (aparentemente não dando a mínima para os casos de corrupção e má gestão do bem público em que estiveram envolvidos estes tucanos-dos-trensalões-e-das-privatarias…), tenham aparecido para esta versão 2015 da “Marcha da Família, com Deus, pela liberdade” e que nela bradassem sua indignação seletiva e simplória contra Dilma Rousseff e os “petralhas”, tidos como os únicos culpados por todos os males da pátria. Como mandava a cartilha pregada pela mídia corporativa golpista e que muita gente, papagaios da Globo ou da Veja, repete de modo acéfalo.

Ora, se a manifestação era contra a corrupção, como é que não se viam manifestações de repúdio a figuras como Renan Calheiros ou Eduardo Cunha, nem muito menos questionamentos sobre a gestão Alckmista desastrosa da Sabesp? Se a manifestação pedia por reformas que pudessem melhorar a qualidade de vida de 99% dos brasileiros, por que não começar pela taxação das grandes fortunas (prevista na Constituição de 1988) ou (como outro artigo de Safatle sugere) pelo fim dos privilégios concedidos à elite que “anda” de jatinho e helicóptero particular, sem ter que pagar IPVA? (“Se os 20 mil jatos particulares e os 2.000 helicópteros que voam livremente no Brasil pagassem IPVA, teríamos algo em torno de mais R$ 8 bilhões.”)

O artigo de Safatle também aponta bem o quanto a histeria anti-comunista chegou a tais níveis de irracionalidade e de representação delirante da realidade que – pasmem! – tem gente que acredita que o PT governista, na Era Lula e Dilma, representa um regime comunista, cubano, bolivarista… Petista é tudo comedor de criancinha, financiador de Black Bloc e defensor de vietcongue…

Após esta introdução, convido os leitores d’A Casa de Vidro a deixarem-se provocar e refletir por mais um texto primoroso do Vladimir Safatle, um dos maiores pensadores políticos brasileiros, que é radical e contundente a ponto de enfatizar que o país precisa de uma “refundação radical de sua República”.

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Você na rua, de novo. Que interessante. Fazia tempo que não aparecia com toda a sua família. Se me lembro bem, a última vez foi em 1964, naquela “Marcha da família, com Deus, pela liberdade”. É engraçado, mas não sabia que você tinha guardado até mesmo os cartazes daquela época: “Vai para Cuba”, “Pela intervenção militar”, “Pelo fim do comunismo”. Acho que você deveria ao menos ter tentado modernizar um pouco e inventar algumas frases novas. Sei lá, algo do tipo: “Pela privatização do ar”, “Menos leis trabalhistas para a empresa do meu pai”.

Vi que seus amigos falaram que sua manifestação foi uma grande “festa da democracia”, muito ordeira e sem polícia jogando bomba de gás lacrimogêneo. E eu que achava que festas da democracia normalmente não tinham cartazes pedindo golpe militar, ou seja, regimes que torturam, assassinam opositores, censuram e praticam terrorismo de Estado. Houve um tempo em que as pessoas acreditavam que lugar de gente que sai pedindo golpe militar não é na rua recebendo confete da imprensa, mas na cadeia por incitação ao crime. Mas é verdade que os tempos são outros.

Por sinal, eu queria aproveitar e parabenizar o pessoal que cuida da sua assessoria de imprensa. Realmente, trabalho profissional. Nunca vi uma manifestação tão anunciada com antecedência, um acontecimento tão preparado. Uma verdadeira notícia antes do fato. Depois de todo este trabalho, não tinha como dar errado.

Agora, se não se importar, tenho uma pequena sugestão. Você diz que sua manifestação é apartidária e contra a corrupção. Daí os pedidos de impeachment contra Dilma. Mas em uma manifestação com tanta gente contra a corrupção, fiquei procurando um cartazete sobre, por exemplo, a corrupção no metrô de São Paulo, com seus processos milionários correndo em tribunais europeus, ou uma mera citação aos partidos de oposição, todos eles envolvidos até a medula nos escândalos atuais, do mensalão à Petrobras, um “Fora, Alckmin”, grande timoneiro de nosso “estresse hídrico”, um “Fora, Eduardo Cunha” ou “Fora, Renan”, pessoas da mais alta reputação. Nada.

Se você não colocar ao menos um cartaz, vai dar na cara de que seu “apartidarismo” é muito farsesco, que esta história de impeachment é o velho golpe de tirar o sujeito que está na frente para deixar os operadores que estão nos bastidores intactos fazendo os negócios de sempre. Impeachment é pouco, é cortina de fumaça para um país que precisa da refundação radical de sua República. Mas isto eu sei que você nunca quis. Vai que o povo resolve governar por conta própria.

Vídeos recomendados:

Breve Tratado Sobre o Sonambulismo Paulista

Cantareira

Breve tratado sobre o sonambulismo paulista

Paulistano é mesmo um bicho gozado… O grau de desinformação atinge tais alturas na Paulicéia Desvairada (belamente batizada assim por Mário de Andrade) que 200 mil vão à Paulista vociferar “fora Dilma” e pedir “intervenção militar”, e o Sr. Alckmin sai ileso, como se fosse santo, mesmo após ter muita culpa no cartório no que diz respeito à essa crise hídrica sem precedentes que assola SP depois de 20 anos de (des)governos tucanos. “Lázaro ou alguém, nos ajude a entender!” (Criolo)

Como apontam inúmeras pesquisas e reportagens – por exemplo, esta da BBC inglesaBrazil Drought: São Paulo Sleepwalking Into Water Crisis – São Paulo está indo rumo à desertificação. Está às beiras de mutar-se numa mescla caótica de Detroit (após o colapso da indústria automobilística) com Cochabamba (na época da privatização da água e dos mega-protestos que se seguiram). Sampa vai tornando-se um símbolo global das tragédias causadas pela poluição dos rios e da atmosfera, pela destruição das florestas, pelo aniquilamento de ecossistemas, pelas emissões de gases de efeito estufa. Prestes a encarar uma situação de calamidade humanitária onde 20 milhões de seres humanos vão vivenciar rodízios de água duma extrema austeridade, disputando por recursos escassos. E aí tem um bocado de gente que vai às ruas pedir “intervenção militar” (qualquer manifestação do Passe Livre São Paulo já tem de sobra isso que Vossas Senhorias estão demandando!) pois é “tudo culpa dos petralhas corruptos”. Uma pesquisa – divulgada pelo Blog da Cidadania – indicou que 53% dos paulistanos acreditam que a crise hídrica é culpa da Dilma e do Haddad, algo de uma desinformação tão crassa que realmente depõe contra a mídia de massas e o desserviço que ela nos presta.

A demonização simplória de um inimigo – o equivalente a pintar chifrinhos no retrato da Dilma como um adolescente metido a bully – parece uma medida de defesa contra a angústia descomunal que tomaria conta dos paulistas caso eles abrissem os olhos para a crise ecológica sem precedentes que já vivenciam – e que tende a piorar, já que o Brasil ainda vive num estágio de analfabetismo em relação ao aquecimento global e sua gravidade. A verdadeira crise é tão monumental que a maioria prefere o conforto duvidoso da ignorância voluntária, da cegueira auto-infligida: no reino de Fantasia onde muitos paulistas habitam, Alckmin é um santinho, idôneo, responsável, que nunca esteve metido em trensalões do Metrô nem na semi-privatização da Sabesp via Wall Street; São Alckmin, diante da desgraceira, tratará de pedir, através da Opus Dei, uma intervenção divina salvadora na forma de temporais replenificadores do Cantareira… São Pedro há de enfim revelar-se um tucano roxo… E a megalópole poderá então seguir no mesmo rumo, com engarrafamentos monstro margeando alguns dos rios mais tóxicos do planeta, enquanto a especulação imobiliária segue fazendo suas orgias de gentrificação e as empreiteiras seguem comprando eleições… Tudo na mais sacrossanta “lei e ordem” (defendida, é claro, por uma polícia militarizada que nos legou o maravilhoso regime de 64-85).

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PARA SABER MAIS, LEIA TAMBÉM: 

 

Re-eleição de Dilma comentada por Jean Wyllys, Cynara Menezes, Fernando Haddad, The Guardian, Sakamoto, dentre outros [A CASA DE VIDRO.COM]

Dilma Muda Mais

É TETRA! PT É ELEITO PARA A PRESIDÊNCIA PELA 4ª VEZ CONSECUTIVA

Jean Wyllys comenta a re-eleição da presidenta Dilma Roussef: “Não passarão, a gente disse — e não passaram! (…) Tem momentos históricos em que a gente precisa se unir para impedir um retrocesso, para não perder o que conquistamos, mesmo que esteja aquém dos nossos sonhos e utopias”, declarou Wyllys.

“A eleição do Aécio Neves teria sido uma tragédia para o Brasil não apenas pelo que ele mesmo representa, com sua arrogância machista, seu macartismo vintage, seu neoliberalismo radical e seu udenismo, falso como todo udenismo, mas também pelo conteúdo que sua campanha representou”, completou. [Jornal GGN]

O Brasil barrou o retrocesso… agora é expandir os avanços, nas redes e nas ruas, na demanda e na luta, puxando o PT pra esquerda com as múltiplas vozes dos movimentos sociais… Avante, MST – Movimento dos Trabalhadores Sem TerraPasse Livre São PauloMovimento Xingu Vivo para SempreNINJAJornal A Nova DemocraciaMtst Trabalhadores Sem Teto, Marcha da Maconha, PSOL (Partido Socialismo e Liberdade), Agência Pública, Mães de Maio, entre tantos outros corações valentes!

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EXISTE AMOR EM SP?

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Dilma Vitoria

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Fernando Haddad (o provável candidato do PT à presidência em 2018?), na Avenida Paulista, discursa frente à multidão que comemora a re-eleição de Dilma Rousseff. Haddad garante que a reforma política será prioridade, que os entulhos autoritários da sociedade brasileira precisam ser superados, e que o Brasil não deve se cindir em dois mas abraçar sua unidade. Ele aproveita também para alfinetar a sórdida campanha de Aécio Neves e do PSDB, em conluio com a imprensa burguesa golpista (vulgoP.I.G.), bradando: “Não se vence eleição no tapetão!” Não há dúvidas de que a revista Veja, da Abril, não escapará de punições na justiça e boicotes da população após seu crime eleitoral. Confira o vídeo de Haddad:

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“A elite brasileira e a imprensa que a representa odeiam, em primeiro lugar, Lula. Não porque Lula despreza as famílias que são donas dos meios de comunicação. É o contrário: Lula despreza as famílias que são donas dos meios de comunicação porque sempre foi maltratado por seus jornais, TVs e revistas, porque foi vítima de seu enorme preconceito de classe. A elite e a imprensa que a representa não suportam que não seja um dos seus que esteja à frente do poder no Brasil. Dilma Rousseff achou que podia seduzir a imprensa, atraí-la para seu lado. Doce ilusão. Foi um dos maiores erros do primeiro mandato e espero que corrija no segundo.” Cynara Menezes, a Socialista Morena

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COMO VOTOU O BRASIL:

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AMERICA LATINA

Líderes da América Latina, relata a Carta Capital, também celebram a re-eleição de Dilma Rousseff: os presidentes da Venezuela (Nicolás Maduro), do Equador (Rafael Correa) e da Argentina (Cristina Kirchner) mandam suas saudações à presidenta re-eleita. O sucessor de Chávez na presidência venezuelana, Maduro, manifestou-se pelo twitter: “Dilma venceu a guerra suja e a mentira” (uma menção às calúnias golpistas a que o PSDB de Aécio Neves recorreu, em conluio com a imprensa burguesa?) “Pôde mais a verdade de um povo que mira o futuro com esperança.” Pelo jeito, a VEJA pode até esbravejar e a Rede Globo pode até espernear, mas nos próximos anos a reforma da mídia e a reforma política vão ser top-prioridade do governo federal e do PT, assim como a estreitação dos laços e dos intercâmbios latino-americanos, para horror dos paranóicos reacionários que tem pavor do “bolivarismo”… 

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REPERCUSSÃO INTERNACIONAL: THE GUARDIAN

Glenn Greenwald

Dilma Rousseff pledges unity after narrow Brazil election victory

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Leia também:

 

Dois Brasis Em Embate: #Eleições2014 @ A CASA DE VIDRO (http://www.acasadevidro.com)

Dilma Campanha

Campanha de Dilma Roussef, na foto acompanhada pelo ex-presidente Lula, o prefeito de São Paulo Fernando Haddad, e o deputado e liderança do PSOL Jean Wyllys.

“Ganhe ou perca Dilma Rousseff (e o Ibope e Datafolha repetem a vantagem dela sobre o adversário tucano Aécio Neves), o PT fez nesta empolgante jornada eleitoral do segundo turno a sua campanha mais autêntica desde 1989.

Em vez dos slogans limpinhos e brilhantes dos marqueteiros, o que se viu foi a multiplicidade de vozes, sotaques, reivindicações e cores.

Se, na campanha do primeiro turno, Dilma aparecia um dia em um templo evangélico – e no seguinte também –, nesta, ela surgiu em ato na periferia de São Paulo ladeada por representante devidamente paramentada de uma religião de matriz africana. E defendeu, ao lado do imprescindível Jean Wyllys, do PSOL, a criminalização da homofobia, para horror do fundamentalismo religioso de Marco Feliciano e Silas Malafaia.

Foi uma Dilma ativista dos Direitos Humanos a que se viu –comprometida com a luta “contra a discriminação da juventude negra deste país, contra os ‘autos de resistência’, contra esse morticínio”, disse ela em Itaquera, bairro da zona leste paulistana. (Os “autos de resistência” são instrumentos jurídicos que têm servido para mascarar os homicídios praticados pela Polícia Militar, acusando as vítimas de ter tentado resistir à abordagem policial.)

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“Achei foda a Dilma falar de ‘auto de resistência’… Foi bem bonito hoje. Tô emocionado e acho que isso aqui hoje é histórico. Nunca fui tão convicto para as urnas igual eu vou no dia 26. É 13 mesmo!”, declarou ao fim do ato o rapper Emicida, uma das maiores referências do hip hop nacional.

Saíram do proscênio os petistas amigos de banqueiros e do agronegócio e entraram outros tipos de dirigentes, mais ligados à militância das ruas, como o ex-ministro da Cultura Juca Ferreira e o ex-ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social Franklin Martins –ambos escanteados durante o primeiro governo Dilma.

Eles ajudaram a campanha petista a desenvolver o encantamento da “continuidade que segue sonhando”, esvaziando o discurso meramente mudancista da oposicão.

Foi como transfundir sangue em paciente anêmico. “Em vez da medíocre e derrotista política do possível, a grandiosidade de lutar para tornar possível o impossível”, conforme descreveu um militante.

O resultado tem sido o reencontro do PT com a espontaneidade das ruas. Se, em outras campanhas abundavam as monótonas camisetas distribuídas gratuitamente pelos comitês eleitorais, nesta, são os militantes que fazem a moda-PT, usando o avatar que inunda as redes sociais, de uma Dilma guerrilheira, retratada ainda jovem e de óculos. Nos comícios petistas em Recife e São Paulo, garotos levavam suas camisetas para serem impressas com silk screen ali mesmo.

Do lado de Aécio Neves, uma militância também aguerrida tem disputado as ruas, com uma narrativa bem diferente. Na concentração realizada no largo da Batata, em Pinheiros, na quarta-feira, 22/outubro, colada ao centro fashion-financeiro da avenida Faria Lima, os tucanos (Fernando Henrique Cardoso presente) gritavam em uníssono “Fora PT! Viva a PM!”

Como se vê, da atual campanha pode-se dizer tudo. Menos que tenha sido despolitizada. Os dois projetos de Brasil estão expostos em toda a sua nudez. Que falem as urnas.

Laura Capiglione, publicada no Yahoo.
Via Mídia Ninja.

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11de setembro
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P.S.

O P.I.G. E SEU CANDIDATO, AÉCIO NEVER

Qualquer cidadão brasileiro que tenha ficado indignado com o #DesesperoDaVeja, que conduziu a revista da Abril a realizar crime eleitoral através da calúnia e da difamação mais desavergonhadas, faz um favor a todos a nós nesta ampla pátria que sonhamos como um futuro melhor para as comunicações no Brasil ao recusar-se a votar em Aécio Neves, o candidato do P.I.G. (o Partido da Imprensa Golpista). O modo como Aécio e a mídia corporativa agiram nesta reta final é mais um imenso argumento contra sua pretensão, cambaleante, de tornar-se presidente da República: Aécio age como Silvio Berlusconi, o tirano italiano hoje já afastado do cargo e condenado na justiça.

O Tucanato faz tempo que pensa na mídia como sua serviçal, sua putinha de luxo, que publicará tudo o que PSDB pagar de jabá. Geraldo Alckmin dá uma dinheirama de dinheiro público para a Veja, e quem sofre a infelicidade de ter que ler o panfletário hebdomadário tucano são as crianças paulistas do sistema público de ensino (pô, Geraldinho, não as exponha a tal tortura, a tal lavagem cerebral! Dê-lhes Júlio Verne, dê-lhes Ziraldo, mas não estraçalhe mentes com o jornalixo vejístico!).

A Rede Globo – que na última hora parece ter desistido de acompanhar Veja na tentativa de golpe – deve ter se contido por medo, de modo que Junho de 2013 até que serviu para alguma coisa: obrigado aos Black Blocs que expulsaram repórteres do P.I.G., e ativistas que pintaram com esterco a sede da TV Globo no Rio de Janeiro. Eles mereciam muito mais do que uma salva de vaias na lingagem da merda: nunca fomos devidamente informados pela Rede Globo da Privataria Tucana da Era FHC (comandada pela parentada de José Serra, como o livro de Amaury Jr. documenta com farto material comprobatório). A mesma Globo teria a cara-de-pau de ficar apontando o dedo para o PT como se ele fosse o mais sórdido e horrendo dos antros de corrupção, quando a própria Globo é acusada de tentar ludibriar o Fisco, furtando aos cofres públicos um valor que devia ser pago que ultrapassa os 500 milhões de reais?

Tanto Globo quanto Veja tem que responder na justiça e diante do povo brasileiro por seus crimes, pela sistemática desinformação que veiculam, pela perseguição política contra o PT que os torna bem assemelhados aos magnatas elitistas da imprensa venezuelana em sua campanha neurótica contra o “bolivarismo”.

Aécio Neves, que é notório censor da imprensa em MG, que pensa poder ser o caubói que “põe ordem na Internet” (através do ataque a blogueiros e jornalistas independentes), que é um empresário com capitais aplicados na imprensa corporativa mineira incapaz de respeitar a liberdade de imprensa e opinião, é uma péssima escolha para a democracia do Brasil que precisa urgentemente ser refrescada e renovada por projetos extraordinários e brilhantes como a Mídia Ninja, A Nova Democracia, Outras Palavras, Pública, dentre outras.

Avante, juntos, fiéis ao commons, não vamos permitir que a praga do P.I.G. prossiga. “Don’t hate the media… become the media!”

Eduardo Carli de Moraes

Imprensa
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Privataria Tucana. A gente nao ve por aqui

Belo Monte – Anúncio de Uma Guerra

“Belo Monte – Anúncio de uma Guerra”

(Documentário – Brasil – 2012 – 1h44min – diretor: André D’Elia)

“O Brasil do futuro: como diz Beto Ricardo, metade uma grande São Bernardo, a outra metade uma grande Barretos. E um punhado de Méditerranées à beira-mar plantados, outro tanto de hotéis de eco-turismo em locais escolhidos dentro do Parque Nacional “Assim Era a Amazônia”, criado pela Presidente Dilma Roussef (em segundo mandato) no mais novo ente da federação, o Iowa Equatorial, antigo estado do Amazonas. Bem, esse é só um pesadelo que me acorda de vez em quando…” (VIVEIROS DE CASTRO)

Dilma só aparece uma vez no filme, mas sua participação ligeira se encerra com uma fala que carrega um famoso maquiavelismo: “há males que vem para o bem”, diz em reunião com sua trupe nossa presidenta. É o retorno do celebérrimo “o fim justifica os meios”. Que soem os alarmes da suspeita (mais uma vez!) diante de idéias assim! Afinal de contas, que males são estes que se supõe como necessários? E vem eles para o bem de quem? Ademais, não há uma certa arrogância em se bancar o profeta visionário que consegue prever com certeza os caminhos que levam aos amanhãs cantantes?

 A mesma lorota já ouvimos antes: “não se faz uma omelete sem quebrar alguns ovos”. O desenvolvimento do Brasil exigiria, para que a omelete saísse ao gosto do Palácio, alguns “efeitos colaterais”: milhares de índios expulsos das terras onde habitaram seus ancestrais, Altamira lançada ao Caos da superpopulação e das epidemias tropicais, e tudo em prol dos sacrossantos interesses de crescimento desse país que, após tanto tempo de Complexo de Vira-Lata, parece subitamente de ego inflado, pavoneando-se de estar entre a meia-dúzia de economias mais pujantes do globo. E se tem algo que aprendi lendo as tragédias gregas de Ésquilo, é isso: a soberba causa desgraça certa.
Os que estão embevecidos com a utopia desenvolvimentista, ainda hoje, parecem pintar um cenário cor-de-rosa dos tempos que virão: um Brasil “financeiramente forte”, “competitivo no mercado internacional”, com bolsas de valores bombadas e demais blá-blá-blás economicistas. Enquanto isso, muitos de nós, brasileiros, não conseguimos enxergar senão com horror e pavor a perspectiva de que brotem McDonalds às margens do Rio Xingu e que logo as latinhas de Coca Cola estejam boiando nas águas junto aos cadáveres dos cardumes.
 Quiçá em algumas décadas teremos realizado a proeza de que se abram dúzias de Shopping Centers na Amazônia, rodeados por imensos favelões e outros bolsões de pobreza, onde novos Caveirões da Polícia Militar possam reprimir os que tem pouco para que possam prosseguir na bonança os que têm demais. Amazônia, 2050: gigantescos outdoors de néon anunciam as mais novas maravilhas em promoção nos Wal-Marts que vieram tomar o lugar da antiga rainforest. E as outrora cristalinas águas dos rios agora estão imundas feito as do Tietê.
Essa megalomania do desenvolvimentismo, esta vontade cega de crescimento, merece ser questionada: desenvolver o Brasil em direção ao quê? Qual o nosso modelo e paradigma de civilização digna de ser imitada? Queremos de fato seguir na senda dos EUA, feito uns totózinhos servis, de mentalidade ainda colonizada, que só sabem seguir pelas vias abertas pelos outros? Vamos ficar pagando-pau pra quem cagou em cima do Protocolo de Kyoto e que não pára de se meter em guerras no Oriente Médio para defender o interesse da indústria petrolífera? Queremos de fato imitar um país cujos gastos com tanques, bombas, mísseis e demais armas de destruição em massa dá de lavada em qualquer outro país? Queremos de fato prosseguir botando lenha na fogueira do Industrialismo, quando as ruas de nossas metrópoles mal conseguem suportar novos afluxos de carros em nossas avenidas abarrotadas? Queremos o tal do desenvolvimento ao preço da uma catástrofe ambiental, de um desflorestamento brutal dos alvéolos verdes amazôneos, tão cruciais para o planeta quanto são os pulmões que cada um de nós carrega no peito?
Se Belo Monte está sendo feita para o bem das grandes empresas e das grandes empreiteiras, se o governo Dilma só está tão obstinado em prosseguir com a obra por causa da grana alta correndo nos bastidores do poder, comprando eleições e mandando e desmandando com a força da bufunfa, então não tenho dúvida de que mais e mais multidões vão engrossar o coro: “Um, dois, três, quatro, cinco, mil / Ou pára Belo Monte ou paramos o Brasil!”

Viveiros de Castro: “Em uma fotografia de Miguel Rio Branco, que mostra um cárcere na Bahia, lemos uma frase arranhada no reboco da parede: “Aqui o filho chora e a mãe não ouve”. Frase terrível. Seria isso o Estado: onde o filho chora e a mãe não ouve. O lugar geométrico de todos os lugares onde o filho chora e a mãe não ouve. E ao mesmo tempo, o dossel que nos protege… Fora da cela, fora da jaula, seremos devorados – é o que nos contam.

Uma intenção poético-política sempre esteve comigo e diz muito diretamente respeito a um outro modo de imaginar o Brasil: o Brasil como multiplicidade complexa, original, polívoca, antropofágica. Quem sabe mesmo um “país do futuro” em outro sentido – no sentido de que o Brasil abriga virtualmente em si uma idéia futura, inédita, do que pode ser um país? Invenção, experimentação. Contra vento e maré, reinventar o Brasil. Com os índios, entre outros.

Uma boa política, aquela que me desperta simpatia de início, é aquela que multiplica os possíveis, que aumenta o número de possibilidades abertas à espécie. Uma política cujo objetivo é reduzir as possibilidades, as alternativas, circunscrever formas possíveis de criação e expressão, é uma política que descarto de saída.

A diversidade das formas de vida é consubstancial à vida enquanto forma da matéria. Essa diversidade é o movimento mesmo da vida. A diversidade dos modos de vida humanos é uma diversidade dos modos de nos relacionarmos com a vida em geral, e com as inumeráveis formas singulares de vida que ocupam todos os nichos possíveis do mundo que conhecemos. A diversidade é um valor superior para a vida. A vida vive da diferença; toda vez que uma diferença se anula, há morte. “Existir é diferir”.

É do supremo e urgente interesse da espécie humana abandonar uma perspectiva antropocêntrica. Os rumos que nossa civilização tomou nada têm de necessários… é possível mudar de rumo, ainda que isso signifique mudar muito daquilo que muitos considerariam como a essência mesma da nossa civilização.

Falar em diversidade socioambiental não é fazer uma constatação, mas um chamado à luta. Não se trata de celebrar ou lamentar uma diversidade passada, residualmente mantida ou irrecuperavelmente perdida. A bandeira da diversidade real aponta para o futuro: a diversidade socioambiental é o que se quer produzir, promover, favorecer. Não é uma questão de preservação, mas de perseverança. Não é um problema de controle tecnológico, mas de auto-determinação política.”

EDUARDO VIVEIROS DE CASTRO
in: Encontros (org. Renato Sztutman)
Azougue Editorial Leia na íntegra


Assista ao documentário on-line ou faça o download: http://vimeo.com/belomonte/review/44221280/6ef84267c4