FIOS NA TEIA DA VIDA – O papel do jornalismo na defesa da sociobiodiversidade

FIOS NA TEIA DA VIDA:
O papel do jornalismo na defesa da sociobiodiversidade

por Eduardo Carli de Moraes

Escrito para o Edital do XVI Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros (resultado)

“A pluralidade é a lei da terra”.
HANNAH ARENDT (1906 – 1975) [1]

“Não sou apenas o índio que perdeu a taba
Na curva da estrada que o trator abriu
Quando arrancou mãe-floresta,
Quebrou minha flecha
Deturpou minha festa e quase ninguém viu
Não quero esse lero-lero de quem diz:
Não posso! Coitado! Ai de mim!
Se a Amazônia dá um grito, nós gritamos juntos.
E rezamos assim: Ave! Ave! Santa árvore
Pai nosso e do palmital
Pão nosso e do santo fruto
Ribeirinho enfrenta o mal
Do homem que traz a cerca
Planta capim, faz curral
Amparado num projeto de violência brutal
Onde o homem é esquecido
E o boi querido é o tal.”
ZÉ PINTO [2]

Neste ano de 2016, o Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros comemora 16 anos de travessia. Através desta história, vem atuando como propiciador de intercâmbios culturais que contribuem para que “a voz do nosso povo se faça ouvir com toda sua diversidade” [3], para lembrar palavras de Célio Turino.

Esta é também uma das tarefa de antropólogos e etnográfos, de fotógrafos e jornalistas: tornar evidente e manifesto a polifonia e a pluralidade de nosso “país que pulsa diversidade”, como se lê na Carta de São Jorge. Esta é um manifesto coletivo, nascido como um dos muitos frutos da 15ª edição do Encontro, assinado pela Comissão Nacional dos Pontos de Cultura, reunida entre os dias 28 de julho a 01 de agosto na Vila de São Jorge, Alto Paraíso de Goiás. Suas eloquentes palavras permanecem, um ano depois, intensamente atuais:

O Brasil, que pulsa diversidade, está atento à onda conservadora que assola o País e promove uma crise civilizatória. Setores reacionários atacam nossa juventude por meio da redução da maioridade penal e o genocídio da juventude negra, agridem povos de terreiro, mulheres e a comunidade LGBTT com o crescente fundamentalismo religioso. Indígenas, quilombolas e povos tradicionais sofrem uma ofensiva do grande capital contra seus territórios. Fica claro para nós que as conquistas sociais e econômicas dos últimos anos não são suportadas pelas elites do nosso País… (Carta de São Jorge [4])

Aldeia_Multietnica_Yawalapiti_-_foto_de_Fredox_CarvalhoN

Aldeia Multiétnica @ Encontro de Culturas da Chapada dos Veadeiros – Foto: Fredox Carvalho

Premiado pelo Iphan em 2015 [5], o Encontro das Culturas Tradicionais tem contribuído para repovoar nosso imaginário utópico rumo a uma cultura polifônica, repleta de participação social e diálogos fecundos entre os diferentes povos e perspectivas que constituem os fios na grande teia da vida. É neste contexto que nos propomos, no presente texto, realizar algumas reflexões sobre o papel do jornalismo na defesa e na celebração da sociobiodiversidade, conceito muito enfatizado no “Encontrão” (como é carinhosamente conhecido).

Acredito que os profissionais da mídia têm o dever ético e profissional, além da função pública essencial, de engajarem-se na defesa da “inestimável sociobiodiversidade dos povos da floresta”6 e na denúncia da brutalidade das práticas “da cerca e do curral” mencionadas no poema-canção de Zé Pinto e que fazem com que “o homem seja esquecido”.

Hoje, mais do que nunca, quando estamos ameaçados por todos os lados por desmatamentos e etnocídios, por assassinatos de ecoativistas e imensas catástrofes ambientais (como aquela que ocorreu no Rio Doce), faz-se necessário e urgente defender as culturas em sua pluralidade, re-afirmando a possibilidade de um convívio fecundo e mutuamente enriquecedor entre as diferenças.

Para esta tarefa grandiosa e utópica é preciso a congregação de forças – e sem dúvida que os jornalistas podem (e devem) somar suas vozes e palavras, suas investigações e pesquisas, suas reportagens e fotografias, suas denúncias e seus anúncios, ao coro daqueles que querem uma cultura viva, pulsante, pluralíssima, que celebre o colorido todo da nossa inestimável sociobiodiversidade hoje tão ameaçada, vilipendiada e golpeada.

Geral Encontro 2_2015_Foto Leonil Jr

Palco de atrações artísticas do Encontro de Culturas da Chapada dos Veadeiros – edição XV, 2015, foto de Leonil Jr

A desconexão pode enlouquecer – e não estamos falando da Internet que, quando cai, pode deixar doido (ao menos provisoriamente) alguns de seus usuários mais adictos. A desconexão mais nociva é aquela que nos separa uns dos outros em facções e seitas inimigas, impedindo-nos a congregação e a troca em meio à pluralidade que nos constitui. Em um país de cultura adoecida, os sujeitos estão desconectados da rede da vida. Podem estar conectados a seu feed de besteirol no celular ou no navegador, mas vivem na alienação da desconexão, desvinculados uns dos outros, construindo abismos intransponíveis que as separam ao invés de pontes que comunicam as margens, incapazes de perceberem os laços que os unem uns aos outros e à natureza comum de que participam.

O jornalismo, quando de fato fornece informação autêntica sobre a realidade concreta, fornece não apenas uma enxurrada de informação, infértil e sem consequência. O jornalismo, ao informar-nos sobre o real, fornece-nos algo essencial para a transformação do que há, para a superação do dado, uma vez que pode servir para desfazer os feitiços paralisantes da alienação, definida magistralmente por Milton Santos nos seguintes termos: “A força da alienação vem dessa fragilidade dos indivíduos, quando apenas conseguem identificar o que os separa e não o que os une.”

milton-santos-alienacao_thumb3

O jornalismo, quando de fato se presta a ouvir as vozes das comunidades tradicionais, quando abre-se a aprender com as sabedorias ancestrais de povos indígenas ou quilombolas, pode realizar um trabalho de revelação de uma realidade que muitos não enxergam. Pode contribuir para que a opinião pública se sensibilize em relação a problemas, dificuldades e desafios enfrentados pelas comunidades, mas pode também ensinar sobre outros modos de conviver e de criar. O jornalismo autêntico, segundo acredito, busca compartilhar um saber sobre o real de que somos contemporâneos, sendo uma atividade não apenas informativa mas também de formação; contêm uma dimensão pedagógica intrínseca, desde que não preste ao leitor o desserviço de enganá-lo ou ludibriá-lo por ordem do patrão.

Compartilhar o saber sobre a vida concreta, as dificuldades e os triunfos, os obstáculos e as vitórias, das comunidades tradicionais, pode ajudar os leitores a compreenderem a importância das raízes bem plantadas em solo fecundo para que as árvores dêem profusão de flores e frutos. O jornalismo pode ser uma dessas forças que fornece saber sobre a efetividade desses povos e que amplifica seus valores e práticas. Se saber não é exatamente poder, é sim um elemento essencial à eficácia da ação conjunta no mundo comum de que nos fala Hannah Arendt, esta terra cuja lei a filósofa afirmava ser a pluralidade.

Conhecer o real é indispensável para aqueles que querem transformá-lo, e o jornalismo, em sua vocação, deve ser veículo de conhecimento sobre aquilo de que somos contemporâneos. Assim considerado, o jornalista é análogo ao historiador (que deseja ter cognição do passado para comunicar conhecimento sobre tempos idos), com a diferença de que é no calor da hora, em um presente que está acontecendo em toda a sua desenrolante imprevisibilidade, que o jornalista buscará aquilo que é digno de comunicar a seu público.

Em nosso país de dimensões continentais como o Brasil, estamos condenados a desconhecer vários Brasis onde nunca estivemos, vários locais onde nossa experiência imediata nunca bebeu. E já que ninguém tem o dom da ubiquidade, só se pode conhecer a fundo este país gigantesco – e de si mesmo tão dessemelhante! – através das narrativas que tecemos e comunicamos uns aos outros, entre elas as jornalísticas. Uma boa reportagem não difere tanto, quanto aos efeitos éticos e estéticos que propicia à sensibilidade e à inteligência do leitor, de algum primoroso conto de nosso repertório literário. E creio não haver absurdo em debater quem é a escritora mais magistral, se Clarice Lispector, se Eliane Brum.

Eliane Brum, jornalista e escritora brasileira

Eliane Brum, jornalista e escritora brasileira

No Brasil, existem em atividade alguns jornalistas muito engajados nas questões socioambientais: caso de Washington Novaes, Felipe Milanez, Eliane Brum (El País), Inês Castilho (Outras Palavras), André Trigueiro, dentre outros. Há também institutos e ONGs, com seus respectivos blogs e sites, devotados ao jornalismo de qualidade sobre o tema, caso do Combate Racismo Ambiental, Instituto Sócio Ambiental ou Envolverde [7]. O jornalismo, tal como praticado por estes inspiradores luminares da profissão, pode contribuir para que o leitor enxergue as conexões entre os fenômenos, refletindo sobre as consequências futuras de nossas ações atuais etc.

Infelizmente, a chamada “grande mídia” não costuma dar o devido destaque aos temas do meio ambiente e dos modos-de-vida de populações tradicionais capazes de uma relação harmônica com a natureza. Temas de extrema importância, como o aquecimento global, a acidificação dos oceanos, a poluição atmosférica, o desmatamento, a invasão de garimpeiros e madeireiras sobre áres demarcadas, dentre outros temas, sofrem com uma espécie de blecaute cotidiano em grande parte da imprensa empresarial, apelidada por alguns “mídia burguesa”.

Ainda assim, há de se reconhecer que, apesar das críticas que podem lhe ser dirigidas, existem projetos como a Planeta Sustentável, “uma iniciativa multiplataforma de comunicação que tem a missão de difundir conhecimentos sobre desafios e soluções para questões ambientais, sociais e econômicas do nosso tempo. Dissemina conhecimentos sobre temas relacionados a sustentabilidade para 21 milhões de leitores anuais por meio de seu site mais de 30 títulos de revistas da Editora Abril.” [8]

Já no âmbito da intelectualidade brasileira, também há alguns ilustres autores que têm oferecido muitas reflexões relevantes sobre os temas socioambientais e culturais: é o caso, por exemplo, de Ricardo Abramovay, Ladislau Dowbor, Deborah Danowski, Eduardo Gianneti da Fonseca, Antonio Nobre, Eduardo Viveiros de Castro, dentre outros.

Quando exercido por profissionais de talento literário e percepção sociológica aguçada, a narrativa jornalística pode atingir tons épicos, grandiosos. Um exemplo excelente é aquilo que costumo chamar de “jornalirismo” de Eliane Brum, autora capaz de descrições socioambientais de raro brilhantismo literário, que podemos exemplificar relembrando sua descrição da realidade vivenciada pelos ianomâmis:

A floresta proibida dos ianomâmis, 9,7 milhões de hectares estendidos como um tapete verde e úmido sobre Roraima e Amazonas, assemelha-se a um universo primordial. Rios de sucuris gigantes, cachoeiras cinematográficas, árvores eternas. Quase o dia da criação. Os índios, feitos dessa mesma matéria original, se mimetizam à selva, invisíveis ao primeiro olhar, aconchegados ao ventre de Omamë, o precursor de tudo segundo sua cosmologia. Revelam ao cibernético século XXI, agora tragicamente confrontado com as diferenças que julgava encobrir, um modo de viver semelhante ao dos primeiros ancestrais. Dos povos mais isolados do planeta, travam a guerra do começo do mundo enquanto o planeta globalizado ameaça manchar a Terra com um ponto final. – ELIANE BRUM 9

Eliane Brum serve para ilustrar a potência do jornalismo quando pratica a sensibilização do leitor para as questões socioambientais, em que a vida humana e a vida da biosfera nunca estão desconectadas, onde as florestas e seus povos são reveladas em toda a tessitura de sua pluralidade, inclusive com a revelação recorrente da unicidade de cada personagem que dá o ar de sua graça na reportagem.

Foi lendo e relendo os textos de Brum que fui me convencendo que hoje o jornalista precisa ser um pouco antropólogo, um pouco etnógrafo, movido por um sincero desejo de compreender o mundo do outro, acessar a perspectiva existencial alheia, construindo pontes de comunicação que permitam uma mútua cognição e que nos auxiliem a melhor tecer, em conjunto, a continuação da teia da vida.

Sem dúvida, o jornalista responsável, que conhece sua função pública, têm necessariamente de pôr em prática permanente o seu senso crítico, inclusive sobre os dogmas e as dominações que vigem na profissão. Um livro publicado recentemente no Brasil pela Ed. Boitempo, Mídia, Poder e Contrapoder – Da concentração monopólica à democratização da informação, traz um interessante artigo de Ignacio Ramonet onde ele afirma que vários grupos midiáticos “estão se comportando, segundo o conceito de Louis Althusser, como ferramenta ideológica da globalização”10.

Para não se render a ser serviçal das ideologias hegemônicas e dos sistemas de produção e consumo hoje hegemônicos, que são insustentáveis pois ecocidas, o jornalismo precisa esclarecer a opinião pública sobre as culturas, em sua pluralidade, que sobrevivem hoje com técnicas ancestrais de interação com o meio ambiente, sem devastação, com respeito e sabedoria. Povos indígenas e quilombolas têm destaque neste cenário, infelizmente ainda muito desconhecido de boa parte dos brasileiros “civilizados”, já que muitos urbanóides que habitam os grandes centros urbanos ignoram boa parte da realidade brasileira (e, como viemos explorando, a mídia empresarial tem culpa no cartório em relação à produção social desta relativa cegueira).

Um outro exemplo de jornalismo competente, cujo tema tem muita relação com o XVI Encontro de Culturas das Chapadas dos Veadeiros, é uma interessante reportagem recente chamada “As Novas Cercas do Quilombo”, na qual Repórter Brasil revelou que “apenas 7% das famílias quilombolas vivem em áreas tituladas. Na busca pelo reconhecimento dos territórios, comunidades enfrentam ameaças, confisco de objetos históricos e resistência até do órgão de preservação do patrimônio.” Eis um exemplo interessante de como o jornalismo pode servir ao bem público ao informar-nos sobre a realidade social:

Dos cerca de 2.700 quilombos de todo o país já certificados pela Fundação Palmares, só 163 chegaram à etapa final e foram titulados. No Incra, a morosidade é absoluta: “A questão é que há mais de 1.500 processos abertos no Incra, mas o órgão não tem capacidade de encaminhá-los”, afirma Otávio Penteado, assessor da Comissão Pró-Índio de São Paulo, organização que também lida com a questão quilombola. Para Otávio, a falta de titulação das terras ocorre por “desinteresse político”, o que se traduz em cortes orçamentários na área.

A mudança na composição dos ministérios que o presidente interino Michel Temer (PMDB) realizou assim que Dilma Rousseff foi afastada pelo Senado agravou as preocupações das entidades ligadas à questão quilombola. Na última quinta-feira (12/05), o deputado federal ligado à bancada ruralista Osmar Terra (PMDB-RS) foi nomeado para a pasta de Desenvolvimento Social e Agrário, que é responsável pelo Incra. Também foi extinto o Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos, que coordenava o Programa Brasil Quilombola e executava políticas voltadas às comunidades negras tradicionais. – Repórter Brasil [11]

Acredito que o jornalismo possa ser uma tocha iluminante em nossos tempos sombrios, fornecendo informação verídica sobre o real que permita transformá-lo de modo criativo. Quando soma suas forças narrativas à eventos como o Encontro de Culturas Tradicionais, pode auxiliar a tornar visíveis os invisíveis, tornar audíveis os silenciados, dando voz e vez àqueles que o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro apelidou recentemente de os involuntários da pátria [12].

O jornalismo, que também integra o âmbito da cultura e tem todo o interesse em seu florescimento, pode (e deve) agir consciente de sua função pública ao invés de servil a interesses empresariais classistas e excludentes. Para recuperar a Carta de São Jorge com que começamos, não há jornalismo emancipador que não seja devotado à construção de uma democracia participativa, do diálogo perene, que aposte numa política da gestão compartilhada do mundo comum, tendo sempre em foco a defesa e a celebração da sociobiodiversidade. Por isso, subscrevemos o seguinte trecho do manifesto:

Entendemos que a cultura deve estar na centralidade do modelo de desenvolvimento do país. E um governo que tem como lema Pátria Educadora deve reconhecer as sabedorias, os conhecimentos e os ensinamentos próprios de seu povo. Deve reconhecer, também, que quem faz cultura, quem produz cultura não são gestores em gabinetes, mas o povo no seu viver, conviver, sobreviver, existir e resistir. A Política Nacional de Cultura Viva (Lei 13.018) é a afirmação de que, sem diversidade com base nos direitos humanos, não há cidadania. Ela é essencial para combater o avanço conservador em marcha e construir uma sociedade emancipada.”

Que a pluralidade pulse no XVI Encontro e que o jornalismo possa juntar sua voz para cantar nesta ciranda exuberante da cultura viva!

14a edição 4

Aldeia Multiétnica do Encontro de Culturas da Chapada dos Veadeiros – 14a edição

* * * * *

NOTAS

1 A frase de filósofa está presente em seu livro A Vida Do Espírito – Volume I: Pensar.

2 Zé Pinto é poeta e cantador de Rondônia e este poema foi declamado na música “Devoção à Amazônia” do CD Arte em Movimento do MST – Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Ouça na Internet: https://youtu.be/InHzQ_h1SbA.

3 Célio Turino em Ponto de Cultura: o Brasil de baixo para cima. 2ª ed. São Paulo: Ed. Anita Garibaldi, 2010. P. 16.

5 Na 28ª edição do prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade, do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), foi um dos vencedores na categoria II – “iniciativas de excelência em promoção e gestão compartilhada do patrimônio cultural.“

6 CALEGARE; HIGUCHI (org). Nos interiores da Amazônia: leituras psicossociais. Curitiba-PR: Ed. CRV, 2016.

9 BRUM, E. A Guerra do Começo do Mundo. Leia a reportagem na íntegra no portal A Casa de Vidro. O texto integra o livro Olho da Rua – uma repórter em busca da literatura da vida real (ed. Globo, 2008, p. 53)

10 “Vocês acham que os meios de comunicação dominantes, que pertencem a grupos de alta relevância no mercado, serão críticos com a globalização e o neoliberalismo, sendo que eles são atores centrais nessas duas dinâmicas? É evidente que a possibilidade disso acontecer é pequena. Em termos gerais, o que eles dizem sobre esse assunto? Que isso é muito bom para nós. Você perdeu seu trabalho, não dispõe mais de serviços públicos, cortaram sua pensão, complicam sua aposentadoria e fazem você trabalhar mais… mas isso é muito bom! É excelente! Todos os meios de comunicação nos repetem isso constantemente. Em outras épocas, quem dava a visão de mundo, quem tinha a responsabilidade e a missão de inculcá-la na sociedade era a Igreja. A Igreja difundia uma concepção de mundo; do mundo e do além. Por exemplo, na colonização da América, os conquistadores eram acompanhados por evangelizadores na destruição de sociedades que tinham sua idiossincrasia, sua religião, sua cultura, suas línguas, sua própria cosmogonia. O conquistador brutal destruía todos esses elementos da sociedade e o evangelizador dizia: ‘mas que sorte maravilhosa!’ Destruíram sua família, destruíram seu povo, destruíram suas crenças, destruíram sua língua, destruíram sua cultura, mas agora você tem a verdadeira religião! Alegre-se! Hoje, a imprensa e os meios de comunicação têm a missão de ser a ferramenta ideológica da globalização.” (RAMONET: Boitempo, 2013, p. 63)

12 Em um trecho magistral, Viveiros de Castro diz: “Povo” só ‘(r)existe’ no plural — povoS. Um povo é uma multiplicidade singular, que supõe outros povos, que habita uma terra pluralmente povoada de povos. Quanto perguntaram ao escritor Daniel Munduruku se ele “enquanto índio etc.”, ele cortou no ato: “não sou índio; sou Munduruku”. Mas ser Munduruku significa saber que existem Kayabi, Kayapó, Matis, Guarani, Tupinambá, e que esses não são Munduruku, mas tampouco são Brancos. Quem inventou os “índios” como categoria genérica foram os grandes especialistas na generalidade, os Brancos, ou por outra, o Estado branco, colonial, imperial, republicano.” Trecho de “Os Involuntários da Pátria”, aula pública de Viveiros de Castro proferida durante o ato Abril Indígena, na Cinelândia, RJ, em 20/04/2016, que pode ser lida na íntegra no portal A Casa de Vidro.


SIGA VIAGEM:

Moacir

moacir-chapada

Trabalhos do artista plástico Moacir, na Vila de São Jorge (GO), tema do documentário “Moacir Arte Bruta” de João Jardim (assista abaixo)


“Chapada dos Veadeiros” – filmagens de drone


“Cada Terra Tem Um Uso, Cada Roda Tem Um Fuso” (2009, 80 min, diretor Neto Borges)


“ATLÂNTICO NEGRO – Na Rota dos Orixás”


SERRAS DA DESORDEM – Um filme de Andrea Tonacci (2006, COMPLETO)


PROGRAMA ENREDO CULTURAL DA TV UFG


BOOGARINS – “Benzin” (clipe filmado na Chapada e estrelado pela Salma do Carne Doce)


ACOMPANHE A COBERTURA COMPLETA DO 
XVI ENCONTRO DE CULTURAS DA CHAPADA DOS VEADEIROS
Site oficialhttp://www.encontrodeculturas.com.br/

O Petróleo do Pré-Sal e as Hidrelétricas Amazônicas: Dois Projetos de Reportagem Abortados

1

Durante as últimas semanas, mergulhei de cabeça nas pesquisas, analógicas e digitais, on e off line, sobre dois temas essenciais para o Brasil de hoje e para o planeta de amanhã. A Agência Pública de Jornalismo Investigativo e o Greenpeace estavam oferecendo microbolsas de R$5.000 para realização de grandes reportagens sobre os meandros e veredas da produção de energia em terra brasilis. Abaixo, compartilho as duas pautas que apresentei a eles na esperança de ser agraciado com uma das bolsas. Não fui um dos 4 selecionados, e eis-me aqui restituído à melancolia do desemprego; mas ao invés de engavetar esse material, escondendo-o nos armários do fracasso junto com milhares de outros papéis cuja brancura eu ousei profanar, preferi postar as pautas neste blog transparente e despoluído ( e que não vale um puto na bolsa de valores… ). Fica aí como uma espécie de monumento-em-escombros, dedicado a algo que eu planejei realizar mas que não terá verbas para deixar o mundo platônico das ideias inúteis  tão cedo… A serventia disso, acredito, é pouca mas não nula: com estes planos de reportagem, procurei compartilhar um pouco das informações mais estarrecedoras que andei descobrindo, e cuja relevância prossigo acreditando imensa. Agradeço ao companheiro Rodrigo Gomes Lobo, poeta-jornalista-antropólogo-e-muito-mais, que estava topando embarcar comigo nessa jornada em busca das verdades infames sobre o pré-sal e sobre as barragens hidrelétricas amazônicas. A vontade de expandir nossa amizade para abarcar uma parceria de trabalho prossegue viva e, oxalá, apenas adiada.

Eis aí o que não vai ser:

Fossil Fuel

 

 CONCURSO DE MICROBOLSAS – GREENPEACE & PÚBLICA

MUITO ALÉM DO DINHEIRO: OS CUSTOS SOCIOAMBIENTAIS DO PRÉ-SAL

* Resumo da proposta

Propomos investigar várias vozes que argumentam pelo fim da era dos combustíveis fósseis. Ofereceremos um quadro geral das controvérsias a respeito dos impactos socioambientais do projeto energético do pré-sal em nossa era de aquecimento global.

* Pré-Apuração. Explique o que você já apurou sobre a pauta e por que ela é relevante. Deve conter pesquisa inicial, contexto e relevância (Máximo 4 mil caracteres)

Nas profundezas do oceano, com 800km2 de extensão e 200km2 de largura, jaz a “província do pré-sal”. As reservas valem trilhões de dólares no mercado internacional e a produção atual já ultrapassa os 500 mil barris por dia (http://bit.ly/1sEkeu7). O relatório “Point of No Return” do Greenpeace, classifica-o entre os 14 maiores projetos de energia “suja” hoje em curso no planeta. Se todos esses mega-empreendimentos extrativistas e poluidores seguirem em frente, avalia-se que a média das temperaturas globais vai subir entre 4º e 6º C neste século.

Em entrevista concedida a Eliane Brum, o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro criticou o status quo político no Brasil por sua incapacidade de enxergar o pré-sal no contexto do planeta – entendido como “a casa das espécies” (http://bit.ly/1vpFf0H). Segundo Viveiros, o pré-sal não é meramente uma oportunidade comercial para que o Brasil faça fortuna e acarretará efeitos socioambientais que vão muito além do dinheiro. Longe de ser algo de interesse local, o pré-sal é um problema para o planeta. Em tom similar, o deputado federal Chico Alencar sustenta que “cada vez mais somos tripulantes de uma nave comum ameaçada que é a Mãe-Terra.” (http://bit.ly/1tGGnIu)

Como alertam o IPCC e as Cúpulas do Clima da ONU, há alarmantes índices de CO2 já na atmosfera e as emissões prosseguem muito acima do recomendável. Há evidências empíricas da crise ecológica global em profusão: queda brutal da biodiversidade, derretimento das calotas polares, ascensão dos eventos de disrupção climática (como aqueles documentados em “Disruption”: http://bit.ly/1xhiXRk).

Estamos presenciando também crescentes mobilizações de ativistas e ONGs que militam em prol de um “futuro verde”, o que atingiu seu ápice na People’s Climate March 2014 (Mídia Ninja: http://bit.ly/1pIO4xl). Uma das principais demandas deste recente ecoativismo é o fim da hegemonia das corporações de petróleo, carvão e gás natural. As ruas bradaram um “chega!”, por exemplo, ao cartel das Sete Irmãs (http://bit.ly/1unDilz), aos crimes da Shell na Nigéria, aos derramamentos tóxicos cancerígenos da Texaco no Equador e da British Petroleum no Golfo do México. Afinal de contas, como aponta reportagem do The Guardian (http://bit.ly/1gCaHA0), 90 corporações (a imensa maioria delas do setor energético) são responsáveis por mais de 2/3 de todas as emissões de gases de efeito estufa.

Julgamos relevante, através da realização deste projeto em parceria com a Pública e o Greenpeace, dar voz àqueles que, no Brasil, diante dos ecocídios, levantam-se em resistência organizada para constituir um movimento global em defesa da biosfera. Queremos materializar em uma grande reportagem (ricamente ilustrada) e em um documentário curta-metragem algumas das manifestações brasileiras desta efervescência global de ativismo, já analisada por Naomi Klein em seu livro This Changes Everything (http://bit.ly/VEOtIc).

Propomos investigar e comunicar ao leitor/espectador várias vozes que argumentam pelo fim da era dos combustíveis fósseis. Um painel de argumentos e opiniões colhidos entre ecosocialistas, antropólogos, climatologistas, midiativistas e militantes. Figuras como Alexandre Araújo Costa, que sustenta: “A exploração das últimas reservas fósseis (o que inclui o pré-sal brasileiro) é absolutamente incompatível com qualquer perspectiva mínima de manter o sistema climático sob limites precariamente seguros. (…) É preciso parar de crescer e desacelerar a locomotiva tresloucada do capital, arrancando a riqueza diretamente do punhado de bilionários que a controla.” (http://bit.ly/1qDQ0aK)

As perguntas norteadoras deste projeto podem ser: “Em que mundo irão viver as futuras gerações (inclusive as não-humanas) caso as reservas de petróleo hoje conhecidas, inclusive o pré-sal, sejam queimadas? Que tipo de amanhã estamos legando à Teia da Vida (para usar a célebre expressão de Chief Seattle: http://bit.ly/1v4hIEM)? Há mundo por vir?”

* * * * *

Tapajos2

PAUTA 2:

OS HERÓIS ANÔNIMOS DA RESISTÊNCIA AMAZÔNICA CONTRA AS BARRAGENS

Resumo da proposta

Propomos dar voz aos povos indígenas e ribeirinhos afetados pelas usinas hidrelétricas na Amazônia, comunicando ao leitor as vivências subjetivas e posturas políticas dessa gente, com foco no ecoativismo popular e na solidariedade comunitária.

Pré-Apuração. Explique o que você já apurou sobre a pauta e por que ela é relevante * Deve conter pesquisa inicial, contexto e relevância (Máximo 4 mil caracteres)

Nos últimos anos, muita controvérsia envolveu os megaprojetos hidrelétricos brasileiros. Um relatório do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) aponta que “1 milhão de pessoas foram expulsas de suas terras devido a construção de barragens. Isto corresponde a 300 mil famílias. Dados do MAB apontam que a cada 100 famílias deslocadas, 70 não receberam nenhum tipo de indenização.” (http://bit.ly/1zRRdUa)

Belo Monte, a terceira maior barragem do mundo, atrás apenas de Itaipu e da chinesa Três Gargantas, é só a ponta-de-lança de um fenômeno mais amplo: a disseminação das hidrelétricas em rios como Xingu, Amazonas e Tapajós, em obras financiadas pelo PAC e celebradas pelo governo federal como templos do progresso. As 29 novas hidrelétricas na Amazônia, informa O Globo em 2012, “alagarão uma área de ao menos 9.375,55 km2, quase oito vezes o tamanho da cidade do Rio de Janeiro.” (http://glo.bo/1xxbif6)

Atualmente, cerca de 80% da eletricidade brasileira é gerada em hidrelétricas (como esclarecido no vídeo “A Luz Que Vem Das Águas”, da série Linhas: http://bit.ly/1BfG01i). É raro que a imprensa corporativa conte a história das milhares de vidas que são afetadas por estes mega-empreendimentos, responsáveis por imensos fluxos de migração forçada, problemáticos reassentamentos e colapso de ecossistemas.

Nesta pauta aqui apresentada à Pública e ao Greenpeace, propomos investigar a condição existencial dos brasileiros afetados por barragens, que foram empurrados para fora de seus lares, em com destaque para aqueles que tornam-se ecoativistas ou líderes comunitários. Nossa reportagem buscará revelar a densidade psicológica das subjetividades condenadas a uma sina de “desenraizamento”, para usar um conceito de Simone Weil. Nossa intenção é também dar voz à resistência popular daqueles que, por terem sofrido danos, militam para barrar as barragens.

Nos últimos anos, irromperam inúmeras manifestações, protestos, ocupações e greves relacionadas à luta contra as barragens. Um dos episódios mais célebres desta saga ocorreu em 1989, quando os Kayapó, liderados pelo cacique Raoni, conseguiram frear os projetos hidrelétricos do governo Sarney. Duas décadas e meia depois, o ímpeto “conquistador” da Ditadura Militar (1964-1985) em suas relações com a Amazônia não foi inteiramente superado com a re-democratização e alguns pesquisadores, como Idelber Avelar e Viveiros de Castro, acusam o projeto “belo montista” de ser um entulho legado pela ditadura.

No primeiro mandato de Dilma na presidência, houve a emergência de uma resistência multi-facetada a estes projetos faraônicos em eventos como o Xingu +23 e movimentos como Xingu Vivo Para Sempre e o supracitado MAB. Buscaremos entrevistar figuras significativas deste embate e que trazem escritas na carne as estórias de como lutam diariamente para defender rios, florestas e ecossistemas contra a devastação que costuma vir na esteira das hidrelétricas.

Julgamos relevante apresentar ao Brasil alguns de seus heróis anônimos do ecoativismo “grassroots” , ainda mais quando consideramos quanta coragem é necessária para este engajamento em um país que é campeão mundial em assassinatos de ativistas da ecologia, segundo o relatório da Global Witness (http://bit.ly/1u7rFOd). É preciso dar visibilidade e proteção às pessoas que denunciam o desmatamento da Amazônia e que militam contra os grandes projetos de barragens, para que seus direitos de expressão e seus modos de vida sejam respeitados, de modo a evitar novas tragédias como aquelas sofridas por Chico Mendes, Dorothy Stang, José Cláudio Ribeiro, entre outros.

Em suma, procuraremos dar voz aos brasileiros que resistem às barragens, revelando suas perspectivas sobre os rumos do país, de modo a questionar uma das ideologias hegemônicas no país: aquela que Arundathi Roy, em The Greater Common Good (http://bit.ly/113Sbhj), apelida ironicamente como “Local Pain for National Gain” (Dor Local Para Benefício Nacional).

* * * * *

SIGA VIAGEM…

Gaia e o Antropoceno: Viveiros de Castro, D. Danowski, Isabelle Stengers, Dipesh Chakrabarty e Bruno Latour

capaandre

Se Gaia também é um mundo vivo e plural, (…) não se trata porém de um mundo harmonioso e equilibrado, e muito menos dependente, para sua persistência, da exclusão da humanidade, como se esta fosse um invasor extraterrestre chegado para estragar um idílio pastoril. (…) Gaia é antes de mais nada feita de história, ela é história materializada, uma sequência contingente e tumultuária de eventos… Na concepção de Bruno Latour, é menos a história humana que vem se fundir inesperadamente com a geohistória, mas sim a Terra-Gaia que se torna historicizada, narrativizada como história humana – compartilhando com esta, aliás, e a ressalva é essencial, a ausência de qualquer intervenção de uma Providência. Resta saber quem é o demos de Gaia, o povo que se sente reunido e convocado por esta entidade, e quem é seu inimigo.”

EDUARDO VIVEIROS DE CASTRO & DÉBORAH DANOWSKI, Há Mundo Por Vir? Ensaio Sobre Os Medos E Os Fins (2014, Editora Cultura e Barbárie, p. 120. Compre aqui.)

Tô devorando por aqui o instigante “Há Mundo Por Vir? Ensaio Sobre os Medos e os Fins”, de Eduardo Viveiros De Castro & Deborah Danowski, e coletando altas dicas de livros que eu desconhecia e que já entraram para a lista das ‪#‎LeiturasFuturas‬, a começar por este “O Mundo Sem Nós” de Alan Weisman, “a penetrating, page-turning tour of a post-human Earth…”:

TWWU
WorldWithoutUs_2

ALAN WEISMAN, “The World Without Us”
(2007, 340 pgs)

DOWNLOAD E-BOOK (PDF):
http://libgen.org/book/index.php?md5=129A059BDD7D4798C8725BB2EA35C76B

In The World Without Us, Alan Weisman offers an utterly original approach to questions of humanity’s impact on the planet: he asks us to envision our Earth, without us. In this far-reaching narrative, Weisman explains how our massive infrastructure would collapse and finally vanish without human presence; which everyday items may become immortalized as fossils; how copper pipes and wiring would be crushed into mere seams of reddish rock; why some of our earliest buildings might be the last architecture left; and how plastic, bronze sculpture, radio waves, and some man-made molecules may be our most lasting gifts to the universe.

The World Without Us reveals how, just days after humans disappear, floods in New York’s subways would start eroding the city’s foundations, and how, as the world’s cities crumble, asphalt jungles would give way to real ones. It describes the distinct ways that organic and chemically treated farms would revert to wild, how billions more birds would flourish, and how cockroaches in unheated cities would perish without us. Drawing on the expertise of engineers, atmospheric scientists, art conservators, zoologists, oil refiners, marine biologists, astrophysicists, religious leaders from rabbis to the Dali Lama, and paleontologists — who describe a prehuman world inhabited by megafauna like giant sloths that stood taller than mammoths—Weisman illustrates what the planet might be like today, if not for us.

From places already devoid of humans (a last fragment of primeval European forest; the Korean DMZ; Chernobyl), Weisman reveals Earth’s tremendous capacity for self-healing. As he shows which human devastations are indelible, and which examples of our highest art and culture would endure longest, Weisman’s narrative ultimately drives toward a radical but persuasive solution that needn’t depend on our demise. It is narrative nonfiction at its finest, and in posing an irresistible concept with both gravity and a highly readable touch, it looks deeply at our effects on the planet in a way that no other book has.”

* * * *

Este, de Isabelle Stengers:

Isabelle Stengers

Isabelle Stengers, “Au temps des catastrophes : Résister à la barbarie qui vient”
(2009, 198 pgs.)

Download e-book:
http://libgen.org/get.php?md5=0DD24B5CBA0666F03219339D5F6FBC78

* * * * *

E, é claro, Latour:

Alex-Grey-Psychedelic-Painting-Art-Gallery-Gaia-1024x640

GAIA IN THE ANTHROPOCENE
By Bruno Latour

“Geologists are beginning to use the term ANTHROPOCENE to designate the era of Earth’s history that extends from the scientific and industrial revolutions to the present day. These geologists see humanity as a force of the same amplitude as volcanoes or even plate tectonics. It is now before GAIA that we are summoned to appear: Gaia, the odd, doubly composite figure made up of science and mythology, used by certain specialists to designate the Earth that surrounds us and that we surround, the truly global Globe that threatens us even as we threaten it.

If I wanted to dramatize – perhaps overdramatize – the ambiance of my investigative project, I would say that it seeks to register the aftershocks of the MODERNIZATION FRONT just as the confrontation with Gaia appears imminent.

At all events, we shall not cure the Moderns of their attachment to their cherished theme, the modernization front, if we do not offer them an alternate narrative… After all, the Moderns have cities who are often quite beautiful; they are city-dwellers, citizens, they call themselves (and are sometimes called) “civilized”.

Why would we not have the right to propose to them a form of habitation that is more comfortable and convenient and that takes into account both their past and their future – a more sustainable habitat, in a way? Why would they not be at ease there? Why would they wander in the permanent utopia that has for so long made them beings without hearth or home – and has driven them for that very reason to inflict fire and bloodshed on the planet?

After all these years of wandering in the desert, do they have hope of reaching not the Promised Land but Earth itself, quite simply, the only one they have, at once underfoot and all around them, the aptly named Gaia?”

BRUNO LATOUR.
“An Inquiry into Modes of Existence: An Anthropology of the Moderns”
Harvard University Press, 2013. Translated by Catherine Porter.
Download e-book at Library Genesis.
Join: http://www.modesofexistence.org

 

Adam and Eve (Art by Alex Grey)

* * * * *

You might also enjoy:

The Affects of Capitalism (full lecture)
(If you wanna skip the intro, Latour actually starts speaking at 12 min and 45 seconds.)

* * * *

Veja também:

PALESTRA COM DIPESH CHAKRABARTY

“Anthropocene means that collectively, human beings, thanks to their profligate use of fossil fuels, now act with the power of a geophysical force…” – Dipesh Chakrabarty, Dept. of History, University of Chicago

“History on an Expanded Canvas – The Anthropocene’s Invitation”
Lecture, 2013. 1h01min.

* * * *

“Our fossil fuel deposits, a 100.000.000 years old, could be gone in a few centuries, leaving climate impact that will last for hundred of millenia.” Dave Archer
http://en.wikipedia.org/wiki/David_Archer_(scientist)

“Fate of fossil fuel CO2 in geologic time”:
https://www2.bc.edu/jeremy-shakun/Archer,%202005,%20JGR.pdf

* * * *


“DISRUPTION”, o filme que acompanha a PEOPLE’S CLIMATE MARCH
Leia também, na Mídia Ninja, “Não Há Planeta B”