O 13º ANDAR – Ofuscado por Matrix, este filme sci-fi de 1999 merece ser redescoberto e decifrado

“I wasn’t the first person to be troubled by the possibility that nothing is real.” – DANIEL GALOUEY

No ano que encerrou o século 20, o arrasa-quarteirão “Matrix” (Wachowski Brothers) ofuscou um outro filme de ficção científica que é sensacional e digno de toda nossa atenção: “O 13º ANDAR” (THE THIRTEENTH FLOOR), de Josef Rusnak, não é só apenas um primor cinematográfico em todos os quesitos (com destaque para sua montagem magistral e sua direção de arte impecável), como também oferece muito alimento para o pensamento.

Lançado em 1999, o filme é uma adaptação do romance de 1964 “Simulacro 3”, de Daniel Galouye, autor que já havia inspirado anteriormente um filme de R. Werner Fassbinder: “Mundo Ao Telefone”, de 1973.  É digno de nota que Daniel Galouye escreveu a obra literária que inspira “O 13º Andar” muitos anos antes da publicação de ensaios importantes como os de Jean Baudrillard (“Simulacres te simulation” é de 1981) ou de Pierre Lévy (“O Que é O Virtual?” é de 1996).

O tema principal de “O 13º Andar” são as dificuldades de distinção entre Real e Fictício em um mundo repleto de simulações e simulacros. Universo temático que o aproxima de “Matrix”, é claro, mas também de uma obra, igualmente ofuscada quando de seu lançamento no mesmo ano de 1999: o excelente e subestimado “eXintenZ” de David Cronenberg (o genial cineasta canadense que já havia mergulhado em debates semelhantes em seu Videodrome, de 1983).

Em “O 13º Andar” também são  tematizados os dilemas da Inteligência Artificial, ou seja, do tipo de mentes e “vivências” de que podem ser dotados os artefatos tecnológicos como robôs, andróides e personagens de simuladores – algo em voga até hoje na ficção científica e que ganhou recentes contribuições com o Ex Machina – Instinto Artifical de Alex Garland (2014) e o Anon de Andrew Niccol (2018)

É incrível o quanto a temática e a vibe deste The Thirteenth Floor também prenuncia uma das melhores séries do século 21, Westworld (da HBO) – cuja primeira temporada, propulsionada pelas atuações de Anthony Hopkins e Ed Harris, é uma obra-prima na história da teledramaturgia contemporânea, abordando vários dos temas que são centrais ao filme de Rusnak.

O título da obra faz referência, como descobri em uma consulta à Wikipédia, a um fenômeno curioso: alguns elevadores de prédios altos omitem o 13º andar devido à superstições e fobias em relação às supostas propriedades maléficas do número 13, tido como de mau agouro.

A superstição humana é capaz de impactar ações reais a tal ponto que estimou-se que 85% dos edifícios com elevadores da empresa Otis foram construídos com esta característica bizarra: no painel de botões, o andar 12 “pula” para o 14.

Nos anos 1960, uma das melhores bandas do rock psicodélico fez referência a isso: o The Thirteenth Floor Elevators prometia romper com estes tolos preconceitos e nos levar para uma viagem estética lisérgica e excitante, odisséia sônica só acessível àqueles com coragem de embarcar no décimo terceiro andar. São sonzeiras que ainda soam bem estupefacientes, mais de 50 anos desde seu lançamento, e que convidam à descoberta do tesouro que é a coletânea Nuggets.

Mal o filme se inicia e o espectador se surpreende com uma de suas muitas originalidades: trata-se uma ficção científica que, ao invés de se lançar à tentativa de decifrar o porvir, investe em reconstruir o passado – a Los Angeles anos anos 1930. Para isso, o filme não se utiliza para isso de uma Máquina de Viajar no Tempo como aquela que impulsiona através das épocas os heróis da trilogia de R. Zemeckis: De Volta Pro Futuro.

Em “O 13º Andar”, estamos diante de um mega-empreendimento corporativo na área de simulação e realidade virtual, uma empresa multibilionária que não deixa de ter suas similaridades com a Tyrell de Blade Runner.

Na ficção de Galouye, o objetivo da empresa é testar produtos comerciais antes de sua distribuição: “Podemos simular eletronicamente um ambiente social e povoá-lo com subjetividades análogas”, as chamadas “Unidades ID”, e através da “manipulação do ambiente e estimulação das Unidades ID, nós podemos avaliar o comportamento em situações hipotéticas.” (GALOUYE, 1964, pg. 5, citado por Bernardo, 2010, p. 252).

Bem-vindo à era das Cyber Cobaias do Capitalismo Cibernético.


A empresa que realizou a reconstrução digital da Los Angeles pretérita – uma impressionante simulação de uma metrópole que pode ser explorada pelo sujeito que “pluga” sua consciência à mega-máquina de “realidade virtual” – foi criada por um sujeito de nome Hannon Fuller. Este é (aparentemente) assassinado logo no princípio do filme – mas este crime, cuja decifração motiva o personagem Douglas Hall (herdeiro da empresa e amante de Jane Fuller, a filha do assassinado), torna-se apenas a ponta de um iceberg complexo.

Quebrando com o binarismo de Matrix – que divide o mundo em apenas dois: o Real (fora da Matrix) e o ilusório-fake (o mundo daqueles cujas consciências estão alucinadas e alienadas pois plugadas ao Simulador matricial), o filme de Rusnak multiplica os territórios do falso. Constrói uma matrioshka de simulações. Faz-nos questionar em profundeza nossa própria realidade ao empilhar simulações sobre simulações.

O efeito é de vertigem e deslumbramento. E afinal de contas é o próprio Cinema que nos aparece como uma ferramenta impressionante para a invenção e a disseminação de Simulações consumíveis em massa.

Este é um filme muito interessante de tentar decifrar por todo cinéfilo interessado por este gênero artístico fascinante: a meta-ficção. As obras de arte que falam sobre obras de arte, os artefatos culturais metalinguísticos (gravuras de Escher, Janela Indiscreta de Hitchcock, contos de Cortázar etc.) são postas debaixo da lupa sempre esperta do filósofo brasileiro Gustavo Bernardo em uma de suas obras mais brilhantes – O Livro da Metaficção (Ed. Tinta Negra, 2010). Nele, este brilhante discípulo de Vilém Flusser dedicou um esforço de análise muito interessante ao “13º Andar” (ver páginas 250 a 264):

“Os habitantes são projetados para acreditar que vivem em mundo real – e o fazem a tal ponto que acabam eles mesmos simulando modelos de mundo sob seu controle. Estes outros mundos simulados pelos seres virtuais também estão habitados por indivíduos que, como eles, acreditam viver em um mundo real. A interação conflituosa entre os supostos criadores e as supostas criaturas, bem como a expansão e a multiplicação fractal do sistema, leva Douglas Hall a começar a duvidar da veracidade da sua própria realidade – o que dá ao leitor do romance a incômoda sensação de alguém lhe dizendo que a sua própria realidade pode não ser tão real assim, que a sua realidade pode ser um produto ou um subproduto de outra realidade, de outro universo acima e à volta dele.” (p. 252)

O filme, que se inicia com uma das frases mais famosas da história da filosofia – o “Penso, logo existo” de Descartes -, é também uma espécie de tratado sobre o ceticismo. O próprio poster do filme ordena: “questione a realidade”. Em “O 13º Piso”, vários personagens que não passam de simulações, amontoados de códigos de programação encarcerados dentro de computadores, possuem uma mente que os faz ir além de seus limites pré-programados.

Quando a mente artificial busca compreender seu próprio mundo, e acelera rumo aos limites do conhecimento, atropelando as barricadas que separam o território lícito daquele que é proibido, tudo parece sair dos trilhos que haviam sido programados pelos humanos.

Aqueles entes cibernéticos, que deveriam ser usados como meras marionetes por seus usuários, ganham uma certa autonomia, inclusive embarcando em jornadas de auto-descoberta: aceleram seus carros de bytes através das rodovias virtuais, rumo às fronteiras da cidade, e nas periferias descobrem “o que se pode chamar de fim-do-mundo” (situação que o poster do filme, ao lado, representa): “a renderização incompleta de postes, pássaros e montanhas” (p. 257).

A mistura de fascínio e de horror pela transformação tecnológica do mundo está presente nesta obra que, segundo G. Bernardo, “antecipa os replicantes e os clones na ficção e nos laboratórios do final do século XX, mas também presta tributo ao Golem judaico, ao Monstro sem nome do doutor Frankenstein e ao robô de Karel Capek.” (p. 254)

As criaturas se voltam contra os criadores. As invenções virtuais, adquirindo um certo nível de auto-consciência e inteligência, não se limitam mais a serem apenas usadas por seus usuários, manifestam um certo grau de vontade própria. Também era isso o que assombrava a imaginação dos criadores de Matrix e de Blade Runner. É o que faz “O 13o Piso” estar em conexão com o que de melhor se criou na ficção sci-fi de caras como Philip K. Dick ou William Gibson. Nesta metaficção cyberpunk, o personagem Douglas Hall é como uma marionete que adquire consciência de sua condição de “cobaia”:

“De algum jeito ele descobriu o que era, o que era toda esta cidade apodrecida e de faz-de-conta. Ele sabia que isso era parte de um mundo falsificado, que sua realidade nada mais era do que um reflexo de processos eletrônicos”, escreve Galouye. E Bernardo comenta que “Douglas embarca na dúvida hiperbólica de Descartes e questiona não apenas a sua própria existência, mas também a bondade do suposto criador. Passa a considerar factível a hipótese do Gênio Maligno cartesiano – ou, de maneira menos disfarçada, do Deus Mau… suspeita que o próprio Deus seja uma solução forçada e inverossímil para os problemas da humanidade, confundindo-o com o Mestre das Marionetes ou com o Gênio Maligno de Descartes.” (BERNARDO, 2010, p. 261 – 263).

É que o Master of Puppets, neste caso, não é nenhum deus, mas sim a Humanidade brincando de Deus. Tema de um dos grandes álbuns na história do rock pauleira, em que o heavy metal chove chumbo sobre este molhado tema:

Muito além de usar a maquinaria da indústria do Cinema para apenas inventar um RPG (Role Playing Game) através de uma matrioshka de simulações, o filme questiona a fundo certas posturas humanas, certos ethos hoje muito difundidos, que poderiam ser caracterizadas com o termo grego HÝBRIS (desmesura).

Os criadores da Realidade Virtual plugam-se a ela para poderem viver ali, na fantasia, muitos de seus ímpetos que na sociedade real não podem se manifestar: o cientista respeitável, que na realidade é cioso de seus deveres como pesquisador e operário da verdade, na virtualidade frequenta cassinos e transa com prostitutas; o bem-sucedido empresário, que é CEO de uma empresa hi-tech, pluga-se à virtualidade para brincar de matar, como quem descarrega sua agressividade naqueles jogos de simulação de matança, como aquelas de uma longa linha evolutiva dos videogames: Duke Nukem, Doom, GTA (Grand Theft Auto), Counter Strike…

É a personagem de Jane Fuller que se mostra a mais clarividente sobre os horrores deste processo quando acusa seu marido, endoidecido por sua mente demasiado plugada nas simulações, de estar “brincando de deus”, atividade perigosa que nos põe no papel de demiurgos, de Mestres das Marionetes, dando-nos uma ilusão de potência que nos conduz ao abismo da hýbris – ou seja, da prepotência que nos dana. Este filme também pode ser lido como Emblema do Antropoceno, a Era dos Humanos, em que a nossa desmesura se volta contra nós.


Por Eduardo Carli de Moraes @ #CinephiliaCompulsiva – Filmes assistidos em 2018. Leia as críticas e artigos da seção “Cinephilia Compulsiva” do site A Casa de Vidro:


https://acasadevidro.com/cinephilia-compulsiva-resenhas-sobre-filmes/

[Cinephilia Compulsiva] – O faroeste dark de Alejandro Gonzalez Iñarritu, estrelado por DiCaprio e indicado a 12 Oscars

THE REVENANT (O REGRESSO)
de Alejandro Gonzalez Iñarritu

A ultra-violência é cult. De Laranja Mecânica a Quentin Tarantino, de Cronenberg a Chan Wook Park, os filmes digladiam entre si pelo troféu da violência melhor estilizada. Alguns travestem a carniceria com glamour e deixam-na quase chique (Guy Ritchie?), outros pretendem-se bíblicos ao realizarem filmes-açougue de pregação evangélica (Mel Gibson e seu A Paixão de Cristo). O novo filme do badalado cineasta mexicano Iñarritu (Amores Brutos, 21 Gramas, Babel, Birdman) investe numa espécie de faroeste dark que flerta com uma estética à la Sam Peckinpah. É um filme “sangue nos olhos” e que contêm algumas cenas altamente GORE – inclusive uma treta-com-urso de uma verossimilhança tão impressionante que deixa o espectador louco pra ver o making off e descobrir como aquilo foi filmado (realmente não fica parecendo que o bicho é feito de CGI…).

Alejandro González Iñarritu

Alejandro González Iñarritu


Para o espectador médio, The Revenant  é só um filme de aventura na natureza selvagem, cheio de correrias, pancadarias e conflitos territoriais, e que tem algo das técnicas narrativas grandiloquentes de um Ridley Scott. É uma obra que destoa da filmografia de Iñarritu, que tornou-se célebre pelos filmes de temporalidade picotada como “21 gramas”, onde o fluxo temporal passado-presente-futuro é totalmente subvertido em prol de outras (des)orientações no tempo. “The Revenant”, apesar de seus eventuais flashbacks e delírios, é uma saga bastante linear. Centra-se na luta pela sobrevivência nas condições mais adversas, a ponto de às vezes parecer que faltou criatividade ao roteiro, que parece apostar na fórmula: “bóra espancar Di Caprio até estraçalhá-lo e depois fazê-lo erguer-se heroicamente de cada surra!”

Aquiles lamenta a morte de Pátroclo; em sua fúria vingativa, em breve matará Heitor (Cenas da epopéia homérica "Ilíada")

Aquiles lamenta a morte de Pátroclo; em sua fúria vingativa, em breve matará Heitor (Cenas da epopéia homérica “Ilíada”)


O filme é veículo de uma ideologia um tanto homérica, um ethos do guerreiro viril e perseverante, sendo que o personagem de Di Caprio parece talhado à imagem e semelhança de Aquiles. A fúria de Aquiles diante da morte de Pátroclo, na Ilíada de Homero, é muito similar à fúria do protagonista de “The Revenant” em sua epopéia vingativa contra Fitzgerald, assassino de seu filho. O que resulta é uma obra com testosterona em excesso e com um certo fedor patriarcal – um filme que se enquadra naquela categoria, de gosto duvidoso, do “filme pra machão”. É uma espécie de “Duro de Matar” com pretensão a filme cult – com a ressalva de que DiCaprio é muito melhor ator que Bruce Willis.

Into the WIldEm comparação com outros filmes de temática semelhante, “The Revenant” soa raso em sua escassez de boas idéias: Into The Wild – Na Natureza Selvagem, de Sean Penn, adaptação do livro de Krakauer, é imensamente mais eloquente e instigante em sua discussão sobre a dualidade Civilização x Selvageria: a saga de Chris McCandless serve para colocar em questão os valores hegemônicos da ideologia capitalista neoliberal através da Contracultura Encarnada em Chris McCandless.

Já “The Revenant” tem idéia de menos e estilização demais: os personagens parecem desprovidos de maior densidade psicológica para além do conatus mais cru, de modo que o ser humano aparece um tanto animalizado e bestializado – algo que fica explícito na cena hardcore em que DiCaprio relaciona-se intimamente com as entranhas de um cavalo morto. É verdade que esta cena grotesca tem a coragem de ir aos extremos como um bom terror do cinema dito B – parece uma cena de filme do Zé do Caixão… – mas de todo modo parece veicular a noção de um “vale tudo para a sobrevivência” que, num filme de mais de 2h30min, acaba por soar repetitivo, como uma tese demasiado reiterada.

Se há algumas lições a serem aprendidas do filme, talvez elas digam respeito às patologias da masculinidade que desde tempos arcaicos são celebradas em obras de arte que se pretendem “alta cultura”. Transformar em heroísmo a suposta virtude da virilidade, pregar a areté do macho fisicamente forte e perseverante, talvez só coloque mais lenha no lamentável machismo do patriarcado ainda triunfante.

The Revenant ambiciona ser um épico e realmente flerta com a estética da epopéia homérica de modo aberto – inclusive usando como recurso uma espécie de “Helena indígena”, sequestrada pelos branquelos gananciosos que estão colonizando aquela região por causa das peles cheia de “fur” dos bichos peludos (que evoluíram corpos adaptados às friacas e nevascas). Porém, o filme desenvolve mal as interações étnicas e mestiçagens interculturais que poderiam ter deixado a obra interessante do ponto de vista antropológico.

Novo MundoIñarritu fez um filme anti-romântico e supostamente realista – um faroeste “in the wild” onde, na hora do aperto, a comida é carne crua e ensanguentada das feras. Só que, como retrato histórico ou reflexão política, parece-me bem inferior a filmes como O Novo Mundo de Terence Malick e A Missão de Roland Joffe. Estes, sim, desvelam diante de nossos olhos um quadro impressionante sobre o que foi a colonização da América e os múltiplos “encontros” – nem todos violentos – que aconteceram então naquele “choque de civilizações” que o filme de Iñarritu minimiza em prol do duelo entre indivíduos (flertando, de modo que beira o plágio, com o filme de estréia de Ridley Scott, Os Duelistas, adaptação do romance de Joseph Conrad).

De todo modo, é notável que o establishment do cinema norte-americano esteja, nos últimos anos, sendo “hackeado” por cineastas mexicanos cujas obras andam impactando o cenário e papando prêmios de um modo sem precedentes: Alfonso Cuarón (Gravidade, Filhos da Esperança, E Tua Mãe Também) e González Iñarritu já pularam o muro vergonhoso de La Migra e tomaram Hollywood de assalto (ainda que o tenham feito se adaptando parcialmente à “estética hegemônica”) – faturaram os dois últimos Oscar de Melhor Diretor. Os cineastas brasileiros – apesar das empreitadas de Fernando Meirelles (Ensaio Sobre a Cegueira), José Padilha (Robocop) e Walter Salles (Diários de Motocicleta) – ainda não conseguiram o mesmo grau de “penetração” na indústria cinematográfica dos U.S.A. Os cineastas México tem dado aos EUA algumas aulas-magnas de cinema que ajudam a demolir o mito supremacista dos yankees e, para além dos Oscarizáveis, o México é responsável por uma das mais brilhantes sátiras políticas dos últimos anos: “A Ditadura Perfeita”, de Luis Estrada.

 

(Carli, 23/01)
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PREDILETOS DE 2014: DISCOS, FILMES, LIVROS & SHOWS [A CASA DE VIDRO.COM]

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Aí vai, meu povo, uma “retrospectiva cult” do ano que acaba de terminar, em forma de listão de prediletos-da-casa; aí estão reunidas algumas das novidades culturais que mais marcaram meu 2014: são álbuns nacionais e internacionais, filmes de ficção e documentários, além de livros publicados recentemente, que eu prezo pra valer e estimo como alguns dos melhores lançamentos destes últimos tempos… Voilà!

DISCOS

[NACIONAIS]

* JUÇARA MARÇAL, “Encarnado”

* CRIOLO, “Convoque Seu Buda”

* CARNE DOCE, “Carne Doce”

* DIEGO MASCATE, “A.C.”

* CEUMAR, “Silencia”

* FAR FROM ALASKA, “Mode Human”

* TAGORE, “Movido a Vapor”

*ESTRELINSKI E OS PAULERA, “Leminskanções”

* NÔMADE ORQUESTRA, “Idem”

* RUSSO PASSAPUSSO, “Paraíso da Miragem”

* * * * *

[INTERNACIONAIS]

* TEMPLES, “Sun Structures”

* THE WAR ON DRUGS, “Lost in the Dream”

* ROGER DALTREY & WILKO JOHNSON, “Going Back Home”

* SHARON VAN ETTEN, “Are We There?”

* DEATH FROM ABOVE 1979, “The Physical World”

* ST. VINCENT, “St. Vincent”

* * * * *

SHOWS

* Queens of the Stone Age, Festival d’été de Québec
* Layla Zoe, Festival International de Jazz de Montréal
* Deltron 3030, Fest. de Jazz de Montréal
* Carne Doce, Festival Juriti de Música e Poesia Encenada
* Jello Biafra and the Guantanamo School of Medicine, Toronto’s Opera House
* Soundgarden, Festival d’été de Québec
* The Kills, Festival d’été de Québec


* * * * *

FILMES

[FICÇÃO]

Snowpiercer-Poster

– SNOWPIERCER: EXPRESSO DO AMANHÃ, de Joon-ho Bong
– NINFOMANÍACA, de Lars Von Trier
– O LOBO ATRÁS DA PORTA, de F. Coimbra
– WE ARE THE BEST, de Lukas Moodyson
– BOYHOOD, de Richard Linklater
– RIOCORRENTE, de Paulo Sacramento
– MAPS TO THE STARS, de David Cronenberg
– LUCY, de Luc Besson
– NIGHTCRAWLER, de Dan Gilroy

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[DOCUMENTÁRIOS]

– THE MISSING PICTURE, de Rithy Pahn
– JE SUIS FEMEN, de Alain Margot
– WATCHERS OF THE SKY, de Edet Belzberg
– FAITH CONNECTIONS, de Pan Nalin
– FINDING FELA KUTI, de Alex Gibney
– THE INTERNET’S OWN BOY: STORY OF AARON SCHWARTZ, by B. Knappenberger
– BJÖRK: BIOPHILIA LIVE
– PARTICLE FEVER, de Mark A. Levinson
TEENAGE, de Matt Wolf

[LIVROS]

thischangeseverything

– NAOMI KLEIN, This Changes Everything
– 
ARUNDHATI ROY, Capitalism: A Ghost Story
– 
EDUARDO VIVEIROS DE CASTRO E DÉBORAH DANOWSKI, Há Mundo Por Vir?
– PETER LINEBAUGH, Stop, Thief! – The Commons, Enclosures and Resistance
– 
RAJ PATEL, The Value of Nothing
– 
RODRIGO SAVAZONI, Os Novos Bárbaros – A Aventura Política do Fora do Eixo

[MELHOR ESCRITOR DESCOBERTO E LIDO PELA PRIMEIRA VEZ EM 2014…]

Arundhati RoyARUNDHATI ROY

 

As mutações de David Cronenberg: um tributo a um dos maiores artistas do cinema

David and the Fly

The Creator and its Creature: Cronenberg together with Mr. Bundlefly

CRONENBERG’S MUTATIONS
Article by Eduardo Carli de Moraes

PROLOGUE

I have recently spent a whole afternoon wandering around at the Evolution exhibition, wonderfully produced by the Toronto International Film Festival (TIFF). It was such an amazing tribute to one of Canada’s greatest artists alive, David Cronenberg. I was already an admirer of his oeuvre – I’ve watched every film that Cronenberg has ever delivered, and some of them several times – but TIFF’s homage to this great creative mind took me on a thrilling “trip down memory lane” (to quote a memorable line by Ed Harris’ character in A History of Violence).

Since the late 1960s, Cronenberg has been producing some of the most tought-provoking and original films I’ve ever seen, and in this article I intend to argue that his body of work deserves our high praises for its artistic accomplishments. I don’t see why he should be confined within the limits of genres such as science fiction and horror: Cronenberg has gone way beyond the boundaries of “specialized filmmaking” and has built a cinematic legacy that bears the mark of far-sighted vision and unique imagination.

naked lunchHere is an artist that never shies away from challenging themes: he has adapted to the big screen some works of literature deemed “unfilmable” (such as William Burrough’s Naked Lunch or Don De Lillo’s Cosmopolis); he has depicted sexual perversions and car-fetishism in impacful ways (in his film on J. G. Ballard’s Crash); he has engaged in a debate with Marshall McLuhan’s theories about media and its social effects (in Videodrome); he has explored the mysteries of schizophrenia, paranoia, depression, identity crisis, among other dark corners of the mind (in films such as Dead Ringers, The Brood, Spider…). Cronenberg, to sum things up, may be understood as a philosopher of cinema, who uses his art in order to understand the world around him, to share his fears and doubts about the paths treaded by Western civilization, and to awaken us from the slumbers of conformity by sounding the alarms on some doubtful process through which the human mind and body is being transformed and mutated.

Some oversensitive people may certainly turn away from his work in disgust and horror, claiming that the guy is obsessed with disgusting creatures, nasty and monstruous mutants, scary uncontrolable viruses, and lots of bloodshed and carnage. There’s definetely a B-movie flavour to some of Cronenberg’s work, but this doesn’t mean his investigations are narrow and shallow. If some of his movies are far from being eye-candy, and if his esthetic choices have a strong tendency against kitsch, it leads us to ask: is the role of the artist to caress us and entertain us rather than to provoke us, shock us and kick us out of our comfort zones?

In the following explorations of Cronenberg’s films, I’ll attempt to throw the spotlight on the great contribution his art embodies as a reflection upon human psychology and the mysteries that underlie the mutations of our identities in the midst of our society’s ever faster techno-scientific transformations.

 Cronenberg

I. THE NEW FLESH

videodromeAt TIFF’s Evolution exhibition, it was stated that “Cronenberg demonstrates a keen interest in doctors and scientists who initiate experiments with unforeseen, often disastrous, consequences”. Very well remarked: in Cronenberg’s realm, science and technology often produces “disasters” and “monsters”. Things never seem to turn out the way they had been planned to. There’s an abyss between good intentions and the actual outcomes of the experiments – and this abyss is one that Cronenberg’s loves to explore. In many cases, it’s as if Science is being seen from the lenses of its victims, from the perspective of the abused or the deranged by it.

“History is a nightmare from which I’m trying to awake”, goes the famous saying by James Joyce in Ulysses. Watching David Cronenberg’s films I frequently get a feeling of entering a nightmarish world, where epidemics and plagues rage, and human heads suddenly explode, and brains get messed-up by medical interventions, consumption of pharmaceutical drugs, or misguided scientific manipulations.

It seems Science is a nightmare from which Cronenberg is trying to awake. And that by filming his dystopic visions he suceeds in sharing his nightmares with his perplexed audience. William Burroughs once said, later to be quoted by Kurt Cobain in a punkish Nirvana song: “just because you’re paranoid it doesn’t mean they’re not after you.” Likewise, it could be said of Cronenberg’s filmed nightmares: just because they’re pessimistic and terrifying, it doesn’t mean they can’t turn out to become reality. Just remember Chernobyl, in the past; just take a look at Fukushima, in the present; with these catastrophes in mind, Cronenberg’s phantasies will appear to our eyes as explorations of possibilities that we might unfortunely realize.

The originality of David Cronenberg cinema lies in, among other elements, the way he questions the consequences of technological “advancements” and scientific experiments: it can be a new brand of psychotherapy that relies on the un-repressed expression of rage (The Brood); it can be the evolution in video-games and artificial/digital environments (eXistenZ); it can be a new drug supposedly destined to turn life on Earth into a chemically induced Paradise (ephemerol in Shivers); it can be innovations in the fields of surgery, genetics or robotism…

David

Cronenberg’s cinema is surely dystopic, dismal, pessimistic, and one gets a “mood”, from his films, of anxiety and preocupation arising from the possible outcomes of our self-remaking, of mankind’s efforts to transform itself and to transcend its present limitations. Everyone who’s seen some of his films knows that scientific experiments – including the ones inside the field of Psychology, which interests Cronenberg very lively! – can end up going terribly wrong. And one of the thrills of watching his movies derives from the fact that we know this artist is not going to spare us, that he’s gonna make us confront some bloody and disruptive occurences.

Since the beggining of his carreer, with Stereo (1969) or Crimes of The Future (1970), Cronenberg was into description of “laboratorial environments”, but within them there were no rat labs: in his films, the rat labs are always human beings. In one interview, the director states that he never makes “monsters movies”, but rather describes the ways through which the human body is transformed into a monstruous and uncontrolable post-human organism. In Cronenberg, the illusion of safety and control almost always ends up terribly shattered to pieces with the eruption of chaos and unpredicted consequences.

TIFF’s exhibittion EVOLUTION claimed that Cronenberg must be understood as one of the greatest thinkers in the whole of Canadian culture – and I agree entirely: he’s a philosopher of the big-screen with as much to say to us as Jean Baudrillard, Pierre Lévy, Manuel Castells, or other of the thinkers of our present-day Technological Age. Cronenberg’s contribution to an interdiscilinary debate concerning genetics and eugenics, obsessions and fetishism, biotechnology and scientificism, is outstanding.

The “mood” in most of his films makes it clear that Cronenberg isn’t buying naively the ideology that says technological and scientifical progress will lead us to Paradise on Earth. It’s quite frequent, in Cronenberg’s films, that the attempt made by human scientists to reshape our bodies ends up messing things up badly. The transformations that the human body undergoes with its constant interactions with technology, the way our bodies and minds end up emboding technology, is one of Croneberg’s obssessions. The bio-ports in ExistenZ are the best example: holes in our bodys, similar to a computer’s entrance door, through which we can be plugged in to an artificial realm that cuts us off from day-to-day “natural” reality. But decades prior to that, he had already painted a gory portrait of the possible evolutions of television in his unforgetable Videodrome. There he explores the possible transformations of media, tripping on McLuhan’s ideas to end up creating a nightmarish dystopia, filled with hallucinationaty head-helmets and very weird mutations that give birth to a “new flesh”.

The effect of going through several roller-coaster rides in Cronenberg’s sci-fi park is, among other, this: skepticism about the marvels brought to us by advancements in technology and science. Cronenberg’s imagination may seem a little bit “paranoid”, in the sense that his fantasy springs from the fear that things can go horribly ashtray in human civilization while we venture into ever increasing degrees of artificiality. But there’s not a single drop of idealization of the past, or of Rousseau’s Natural Man, in Cronenberg’s work: he doesn’t seem to see any way backwards that will leads us to the way things used to be. It can be said that this cinema deeply anguised by time’s irreversibility and portraying the dangers of artificiality. It would also be unjust to say he’s condemning techno-cientific advancements; it seems to me Cronenberg’s tries to underline the ambiguity of this processes we have developed. They can have largely beneficial results for medicine and health, for example, but the other side of the coin – the nightmarish side – also deserves to be taken into account. An example: of course it would be silly to deny the importance of X-rays, for example, for the diagnosis of disease, but it would also be silly (and dangerous!) to ignore that a body that gets exposed to an excess of radiation can suffer terrible consequences.

Nothing guarantees us that the New Flesh is an evolution on the previous one – it may be a backward step. It may be the unleashing of forces we’ll be unable to control. It may be nightmares coming true.

But it would be unfair to dismiss and undervalue Cronenberg’s artistic insight if we were to treat him as a pessimist always obsessed with disasters. Of course there’s lots of bloodshed in his films – just remember the ending of A History of Violence, that rivals with the most gruesome of scenes in Tarantino’s or Sergio Leone’s oeuvre. But a debate about violence in cinema can’t leave Cronenberg out of the picture: something quite original and unique is involved in this peculiar brand of cinematic ultra-violence. I would argue that the profoundness we can find in his films, if only we delve deep enough in their secrete layers, arises from an anxious questioning of the real ways of our world.

Cronenberg is deeply concerned by what’s going on with our world, even tough sometimes he seems to be filming some future or alternative society. Cronenberg’s vision has been labeled by many as “dystopic”, and I feel that’s quite accurate: this guy ain’t filming utopias where perfection and harmony have been realized. He’s much more into letting his worst nightmares get an objetified existence as film – so many others can dream Cronenberg’s nightmares. To sum things up, I would say that he engages in an anxiety-ridden cinema, with a dystopic flavour to it, with several irruptions of ultra-violence, throught which Cronenberg acts as a critic of Western commercial-industrial society. For this reason, among many other, he deserves recognition as an artist of many merits, among them the fact that he sounds the alarms on the possible consequences of mankind’s attempt to deeply re-shape Nature – including our own.

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David Cronenberg

II. THE RE-SHAPING OF NATURE AND HUMAN ATTEMPTS AT SELF-TRANSCENDENCE

If there’s anything in our era that seems to be a shared truth, a point of conccord and no controversy, is that mankind’s been re-shaping Nature in massive scale and in various ways through technological interventions, medical innovations, advancements in genetic manipulation etc. If the artistic genre of “Science Fiction” is to survive as a culture force, relevant to the general audience, it needs to adress the dangers and anxieties that befall us all in such a world. That’s what Cronenberg’s cinema does so well. In the second part of this article, I’ll focus on the some of his films in which mutations are a central theme.

the-fly-movie-poster-1986There are lots of Gregor Samsas in Cronenberg’s films: the process by which Kafka’s character gets transformed into a giant bug is not merely repeated in cinematic form, but serves as a theme upon which Cronenberg builds several variations. Seth Bundle (Jeff Goldblum), in The Fly, is the most obvious example: the scientist who gets things messed up in his laboratory and ends up getting his genes mixed with that of an insect.

In Kafka’s masterpiece, the “mood” is of a horrific family drama that may remind the reader of Strindberg or Kleist. In Cronenberg’s case, we’re taken to a futuristic sci-fi scenario in which Bundle attempts to create a means of tele-transportation, which he deems likely to cause a whole revolution in the common limits of mankind. If he suceeds, history will rain down un-ending glory on him, and we’ll be honoured as one of the greatest scientists and innovators of all time – a new Galileo, a new Kepler, a new Einstein! But high hopes seldom live up to their promise in Cronenberg’s art.

There’s not a drop of cheap optimism in The Fly: it’s an enormously enjoyable film, well-crafted in all technical aspects, a masterpiece of narrative in cinema, but it’s message is far from being ear-candy. The Fly is actually a tragedy. For those of you who haven’t watched it, please jump to next paragraph so you won’t have your fun spoiled by my revealing of its ending. The Fly can be seen as a tragedy because it shows how a scientist goes through a terrible misfortune, having his organism monstruously transformed by the technological process he was aiming to master, and ends up having to ask the woman he loves (embodied by the gorgeous Geena Davis) to aid him in suicide. Life-conditions, for him, have been so screwed up by his experiment, that his only choice ends up to demand someone to put him off his misery. Josef K, in Kafka’s The Trial, feels he’s being killed “like a dog”; similarly, Seth Bundle’s demise is a terrible, gory and grotesque event – in which he’s murdered like a nasty fly. Things have turned out so horribly that the world needs to be rid of the monstruous human-insect he tragically became.

M. Butterfly (1993)But it would be demeaning to say that Cronenberg is a mind that can only imagine transformations in the human body there are due to techno-cientifical intervention and manipulation. In M Butterfly, for example, the transformations that René Gallimard (Jeremy Irons) goes through have nothing to do with his genetic structure, or with surgery, eugenics or laboratorial side-effects. Gallimard, a french diplomat working in China at Beijing’s embassy, starts off his metamorphosis when he watches a performance of Puccini’s opera Madama Butterfly. Cronenberg leads us, with his known talents as a compelling story-teller, in a downward spiral that shows how deeply Gallimard will have his identity changed and deranged in the life-process the film encapsulates.

At first, Gallimard is shown as an arrogant person, very ethnocentric, certain that he’s the living embodiment of civilization and finesse: he believes that Western presence in China and Indochina is cherished by the majority of the population, and he’s certain that the United States is going to suceed in the war efforts in Vietnam and Camboja. He’s a married man, and his wife (Barbara Sukowa, who recently embodied Hannah Arendt in Margareth Von Trotta’s film) would never suspect Monsieur Gallimard of being anything but a loving, faithful husband – and definetely heterossexual.

M Butterfly, among Cronenberg’s films, is one of the richest in terms of the possibility of discussion of gender matters. Sexual identity is shown as something that’s far from solid and immutable – it also undergoes changings and mutations. Gallimard thinks he’s straight, a “normal” heterossexual guy, but his experience in Beijing’s opera will call that into question when he falls in love with an opera diva (a man dressed as a woman). Gallimard ignorance of Chinese cultural reality is made obvious by the fact that he seems to be completely unaware that female characters, in China’s operatic spectacles, are played by men – a custom that has existed also in the past of West (for example in England, during Shakespeare’s epoch, something described, for example, by Richard Eyre’s brilliant film Stage Beauty).

M Butterfly is filled with Gallimard’s delusions: his beliefs doesn’t correspond to the facts. He, for example, believes he has fallen in love with a chinese woman, an opera diva, when in fact he’s been used by a Communist Party spy who’s gathering information about Western military actions in Indochina. Gallimard believes he has found true love outside the bonds of marriage, and abandons himself to the calculated seduction of the transvestite-spy. When he wakes up to what’s really going on, the whole structure of his personality will be shattered.

In Puccini’s opera, the Jananese girl kills herself after being abandoned by the american foreign; in Cronenberg’s film, the positions shift: now the Western guy is the one who’s going to kill himself because of the abandonenment he suffered. When the dream cracks and dies, when Gallimard finds out all the truth and realizes he has been used, then love’s past utopia metamorphosis into suicidal frustration and self-destruction.

The Fly, I claimed such paragraphs ago, could be seen as a tragedy; well, M. Butterfly is another. Its tragic core lies in the crack in identity’s continuity. Gallimard’s psyche gets cracked by the sudden death of his illusion. He was severely mistaken about China – and never really knew the “woman” he claimed to love. In the end of the process that the film narrates, he’s utterly confused about his own sexuality, uncertain and shaken: he lost all the prior confidence in his “straitght-ness”, his “masculine normality”. In his death trip, in the ritual in which he sacrifices himself, very Orientaly, as if attempting a hara-kiri, Gallimard has become himself the Oriental and the Transvestite.

The well-defined limits of his previous personality gets crushed by new experiences. He’s boundless and insane. He cuts his own throath in front of the audience of prisoners, as thus becomes an embodiment of Puccini’s Madama Butterfly. The brilliance of this masterpice in filmmaking, which I consider one of the most under-valued classics of the 1990s, lies in authentic description of the mutations that can occur to the human body and mind.

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Gallimard, in M Butterfly, lived through a severe “personality crisis”. Tom Stall (Viggo Mortensen), in A History of Violence, will struggle with something similar. In this film, Cronenberg focuses in his attention on an attempt at vountary change of identity. The man we get acquainted with at the beggining of the film, Tom Stall, we’ll soon discover to be a fabrication of Joey Cusack, who wanted to shed his skin like a serpent and abandon his own past behind.

Tom Stall is an idealization of the real flesh-and-bones man, Joey Cusack, who, after too much bloodshed in gangster environment during his life in his native Philadelphia, decides he’s gonna leave a life of crime behind and become a model citizen and family-man. When Cronenberg’s film starts, it seems he has suceeded: he has a beautiful wife, and they engage in very sexy affective playfulness; their two kids seem to be doing quite allright, despite the bullies at scholl and some baseball fights. But when something is going allright in a Cronenberg film, prepare yourself: it’s a clear sign that we’re headed for disaster.

Joey Cusack tried to transform his identity, tried to impersonate his fabrication of an ideal personality, but forgot something: everyone who knew in his past would lot easily permit his sliping away unto other identities. There’s a phrase in P. T. Anderson’s Magnolia that seems to be a description of his situation that fits like a hand in a glove: “We might be through with the past, but the past ain’t through with us.”

Ed Harris’ character, in the film, seems like a scary monster that sticks his head out of the abyss of the Past. Joey Cusack may have felt he had enough of his past, but well… his past hadn’t had enough of him. He’s bound to experience a dark re-awakening of the past who he mistakingly supposed he had buried. A History of Violence, despite being a very exciting thriller to watch, reveals a lot about the human condition. A man wants to throw away who he was and re-shape himself, becoming someone else: who among us haven’t felt a similar desire at some point in our lives? But the past is embodied in ourselves in such ways that we’ll never be able to discard it like a serpent does with its skin.

To sum things up, I would argue that Cronenberg’s artistic merit lies in his ability to portray and discuss humanity as a dynamic entity, changing through time, and not merely an instrument of outside forces (like a leaf in a river stream), but also in attempts at self-reshaping and self-transcendence. Throughout the history of Western philosophy in the last three millenia, some great thinkers have stressed the mutability of Nature: Heraclitus, for example, said that “everything flows” and that it’s impossible to bathe two times in the same river; his 19th century disciple, Friedrich Nietzsche, would also suggest in his visionary philosophical poem Zarathustra, the changeability of Man, depicted as a tight-rope walker that traverses the abyss whose margins are the beasts (behind us) and the Übbermensch (ahead us).

The impression I get after having travelled along with Cronenberg’s creations is that he deserves to be seem as a philosopher of cinema who’s deeply concerned in understanding mutations. Humans, for Cronenberg, never were and never will be fixed creatures: we’ll wander through Earth sheding our skin like serpents and trying to transcend out present through re-shapings both of our natural environments and our bodies and minds. In Cronenberg’s oeuvre, we get acquainted with the idea of Humanity as a mutant entity whose future glory is far from guaranteed: it may happen, his films seem to say, that History turns out to be a nightmare from which we won’t be able to awake. And simply because of this: the nightmare is real, and we ourselves are monsters of our own creation.

TO BE CONTINUED…

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 Here’s a selection of Cronenberg’s greatest works: