Assembléia Legislativa de Goiás, em comemoração ao Dia Mundial do Cinema, homenageia 57 cineastas goianos

O CINEMA NÃO SE CALARÁ

por Eduardo Carli de Moraes

Talvez seja em tempos tão obscuros como os nossos que o Cinema seja capaz de acender suas tochas para que brilhem com uma luz ainda mais refulgente em meio à escuridão reinante. De um lado, o desgoverno neofascista e obscurantista de Bolsonaro impôs duros golpes a todo o campo da cultura, impondo a extinção do MinC (saiba mais em Brasil de Fato) e tentando de instalar “filtros ideológicos” que fedem a Censura em órgãos como a Ancine (como noticiado por Jornal GGN).

Por outro lado vivemos tempos gloriosos na sétima arte com a consagração do cinema brasileiro em nosso território e também no exterior. Filmes como Bacurau, A Vida Invisível, Espero Tua (Re)Volta e Marighella entram para a história do Cinema do globo terrestre neste 2019. Um ano em que no Brasil a governança neoliberal-fascista prosseguiu suas truculentas “guerras morais”, como diz Eliane Brum, mirando também na produção cultural estigmatizada por eles como “esquerdista” ou “subversiva”.

O Bolsonarismo quer de fato uma monocultura totalitária que os pluridiversos Brasis jamais vão aceitar. Pois assim como não é possível enfiar o Oceano dentro de uma garrafa de vidro, as vozes da diversidade que pulsa no Brasil não serão silenciadas e afastaremos de nossos lábios todos os cálices venenosos ofertados pelos novos censores.

Apesar de ainda não oficializada como política de Estado, a Censura já está entre nós (e ninguém vai conseguir assistir a Marighella no Dia da Consciência Negra – e alguém crê de fato que isso se deve a meros problemas com a tramitação burocrática do filme dirigido por Wagner Moura?). Cálices amargos de “calem-se!”, impostos pelo desgoverno neofascista, são forçados goela abaixo de “peças, filmes e mostras” (como mostra a reportagem da BBC).

A liberdade expressiva das artes no Brasil atual sofre com a tentativa de silenciamento e subfinanciamento de tudo que cheire à “subversão esquerdista” aos narizes dos novos censores da extrema-direita tanatopolítica, miliciana e altericida. Um painel do drama foi publicado na Folha de S. Paulo: No STF, Caetano e outros artistas dizem que governo criou nova forma de censura –  “Guimarães Rosa não poderia desenvolver a maior obra-prima brasileira se dependesse do governo de hoje”, disse Caio Blat.

Nesta conjuntura, é significativo e louvável que a Assembléia Legislativa de Goiás (ALEGO), em atitude inédita na história da Casa, tenha realizado uma sessão especial dedicada ao reconhecimento de alguns trabalhadores do audiovisual que vem desenvolvendo trabalhos significativos em solo goiano. A iniciativa partiu do mandato de Adriana Accorsi, deputada estadual do PT – Partido dos Trabalhadores, que “em seu discurso de homenagem a cineastas criticou a postura do Governo Federal em relação à categoria”:

– Em mais uma ofensiva contra a Agência Nacional do Cinema (Ancine), o presidente Jair Bolsonaro (PSL) decidiu atacar a principal fonte de fomento de produções audiovisuais no País. Recentemente, encaminhou ao Poder Legislativo um projeto de lei que prevê para 2020 um corte de quase 43% do orçamento do fundo setorial do audiovisual, reduzindo-o para R$ 415,3 milhões. É a menor dotação nominal para o fundo desde 2012.

Accorsi, na sessão especial que homenageou 57 trabalhadores do cinema em Goiás, louvou os artistas e produtores culturais que a ALEGO reconheceu e valorizou:

– É uma honra prestar homenagem a diversos cineastas, produtoras goianas e produtores goianos. São mulheres e homens, profissionais talentosos que desempenham sua função com grande maestria e perfeição. Produzem belas obras, as quais têm o poder de nos proporcionar o sentimento de diversas emoções, entreter, alegrar, refletir e despertar uma consciência crítica sobre os mais diversos temas. (Adriana Accorsi)

A cerimônia na ALEGO aconteceu um dia depois da prova do ENEM que teve como tema A Democratização do Acesso ao Cinema no Brasil. Diante disso, o diretor, roteirista e produtor audiovisual Cristiano de Oliveira Sousa provocou: “Como chamar milhões de jovens a pensar a democratização do acesso ao cinema se já estamos vivendo uma época de censura velada neste país?”, questionou. “Centenas de projetos no Estado são excluídos sem resposta, na forma de uma censura velada. Pessoas que passam pelos processos legais e burocráticos estão sendo deixadas de lado sem explicações e motivos. Não queria defender o obvio aqui, mas passamos por tempos escuros e malcheirosos, que deveriam ter sido excluídos da nossa história.”

Os 57 produtores cinematográficos condecorados com o certificado do mérito legislativo foram: Aldene José, Alice de Fatima Muniz, Almir Pereira de Amorim, André Luiz Machado, Ângelo Lima, Boanerges Filho, Carmelita Gomes, Cirlene Pereira de Jesus, Cristiano de Oliveira Sousa, Danilo Milhomem Kamenach, Daya Laryssa, Déborah Tomaselli, Diogo Diniz, Dustan Oeven, Edson Barbosa, Edson Luís de Almeida, Eduardo Carli de Moraes, Ellen Stephany, Erick Eli, Eudaldo Guimaraes, Fabiana Assis, Francisco Lillo, Hugo Batista da Luz, Isaac Brum, Itamar Borges, Itamar Gonçalves, Jacob Alexandrino, Júlio Motta, Kassio Kran, Lázaro Ribeiro de Lima, Lidiana Reis de Oliveira, Luiz Eduardo Rosa Silva, Luzia Mello, Marcelo Costa, Marly Mendanha, Martins Muniz, Mel Gonçalves, Naira Rosana, Noe Luís da Mota, Pedro Afonso Allyen, Pedro Augusto de Brito, Pedro de Diniz, Pedro Novaes, Rafael Sepúlvera, Raphael Gustavo Silva, Rochane Torres, Rooberchay Rocha, Rosa Berardo, Ruyter Fernandes, Samuel Peregrino, Silvana Belini Teixeira, Silvana Maria Silva, Úrsula Ramos, Vanessa Goveia, Weber Ferreira Santana, Weslle Fellippe de Araujo, Willian Alves dos Santos.

Deixo aqui meus agradecimentos à Carmelita Gomes, produtora cultural do Curta Canedo, que me incluiu entre os fazedores-de-filmes celebrados nesta “Homenagem aos Cineastas Goianos”. Em sua fala na tribuna, Carmelita fez um “conclame para continuação da criação cinematográfica em Goiás”:

– É uma noite memorável, a primeira vez que o cinema goiano é homenageado em Goiás pela Assembleia Legislativa. Vejo  aqueles que fomentam a arte e a cultura, neste País, como guerreiros resistentes. E vamos continuar produzindo, vamos acordar e lutar contra censuras e ditaduras. As dificuldades vêm para levantar guerreiros. (Carmelita Gomes)

A noite contou ainda com um pocket show de um dos artistas goianos mais geniais, o Diego de Moraes, hoje conhecido pelo seu codinome Diego Mascate. O cantor e compositor acaba de lançar seu novo álbum Na Estrada Antes da Curva, destacado em reportagem recente da Carta Capital, e nesta ocasião apresentou as canções “Bicho Urbano” (da banda que integra, a Pó de Ser) e “Todo Dia” (presente no clássico álbum Parte de Nós, lançado por Diego e o Sindicato).

Foi uma rara felicidade poder estar pela primeira vez nas entranhas da Assembléia Legislativa, um espaço que em Goiás é dominado por políticos de centro e de direita, ou seja, com alta preponderância reacionária, e sentir que ao menos excepcionalmente se passa ali algo de valioso – como o reconhecimento dos trabalhadores e guerreiros da cultura que batalham dia-a-dia para a criação de obras artísticas que expandam nossos horizontes e instiguem debates públicos importantes.

O reconhecimento e a valorização são essenciais para que nós não nos deixemos dominar pelo desânimo nestes tempos de tratores obscurantistas que trucidam direitos sociais duramente conquistados – mas isto não substitui o devido fomento estatal à cultura, hoje em frangalhos, nem o respeito à liberdade de expressão, hoje igualmente em ruínas. De todo modo, a condecoração é sentida, por aqui, como bem-vinda pela demonstração, por parte da ALEGO, de que enxerga nossos esforços criativos e nosso suor derramado na lida difícil de fazer cinema independente nas ruas, praças e escolas.

Exemplo disso é que em 2019, no IFG câmpus Anápolis, em um projeto integrador transdisciplinar que uniu as áreas de Filosofia (Prof. Eduardo Carli), Sociologia (Profa. Francine Rebelo) e História (Prof. Jacques de Carvalho), nós conseguimos produzir junto com a estudantada nada menos que 14 curtas-metragens, fortalecendo assim o cenário do Cinema nas Escolas. Não apenas o Cinema como algo a ser assistido passivamente pelos estudantes, mas sim o Cinema como algo que a estudantada faz! Assista alguns dos filmes produzidos pelos alunos anapolinos do 3º ano do Ensino Médio Técnico Integrado: Ordem e Progresso, Alucinações, Até Quando?, Ocultadas, A Voz dos Surdos, Isso Não É Um Curta Feminista.

Além disso, o reconhecimento, no meu caso, é bem-vindo também para estimular a continuidade de um trabalho intenso, nos últimos anos, de documentarismo sobre os agitos cívicos e culturais que venho realizando. Esclareço que, apesar de não ser goiano de nascença (sou nascido no ABC paulista), nesta década em que estive vivendo aqui produzi muito audiovisual midiativista e a imensa maioria dos documentários independentes da minha filmografia foram realizados em Goiás – dentre os quais destaco e disponibilizo os seguintes:


FILMOGRAFIA GOIANA DE EDUARDO CARLI DE MORAES


* TSUNAMI DA BALBÚRDIA #1, #2, #3 e #4 (Goiânia, 2019):



* MULHERES COMPORTADAS NÃO FAZEM HISTÓRIA (Goiânia, Março de 2019):

* BRISAS LIBERTÁRIAS (Marcha da Maconha Goiânia, 2019):

* O FUTURO NOS FRUTOS: AS SEMEADURAS DO ENCONTRO DE CULTURAS (Chapada dos Veadeiros, 2018):

* AFINANDO O CORO DOS DESCONTENTES (Goiânia, 2018):

* ELENÃO.DOC – PRIMAVERA ANTIFASCISTA (Goiânia, 2018):

* A MULHER MOVE O MUNDO (8M, 2018):

* EXU NAS ESCOLAS – V Seminário da Educação das Relações Étnico-Raciais do IFG (Uruaçu, 2018):

* PÔ!ÉTICA – XIV Festival de Artes de Goiás do IFG (Cidade de Goiás, 2017):

* NEVOEIRO SALUTAR: A Marcha da Maconha de Goiânia 2017:

* FERMENTO PRA MASSA – Greve Geral em Goiânia: 28 de Abril de 2017:

* PRIMAVERA SECUNDARISTA – (Goiânia, Novembro de 2016):

* ABRE ALAS – Vislumbres da Primavera Secundarista (Goiânia, Outubro de 2016):

* TRANSMUTANDO DOR EM LUTA – Insurgências Feministas (Goiânia, 2016):

* A IRRUPÇÃO – Assembléia na UFG (2016)

* DESTRUA O FASCISMO ANTES QUE ELE DESTRUA VOCÊ (Goiânia, 2016, 18 min):

* PALESTINOS DA PASSAGEM: Frente De Luta Pelo Transporte Público (Goiânia, 2015):

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TAMBÉM PARTICIPEI DA EQUIPE DE PRODUÇÃO DOS FILMES:
* Novos Goianos, de Isaac Brum;
* Gastrite, de Hugo Brandão;
* O Tempo de Clarice, de Dayane Viana Castro.

CONSIDERANDO TAMBÉM AS OBRAS FILMADAS EM BRASÍLIA (DF), DESTACO TAMBÉM:
* O Céu e o Condor (2016)
* A Babilônia Vai Cair (2016)
* Ponte Para o Abismo (2016)
* Levantem-se! (2016)
* Não Temos Tempo a Temer (2017)
* Não Matem Nosso Futuro (2019)

As tragédias sociais causadas pelo Supremacismo Branco são o foco de “Skin”, filme vencedor do Oscar de melhor curta-metragem de 2019

O filme “Skin” (Pele), de Guy Nattiv  [DOWNLOAD / TORRENT], venceu o Oscar de melhor curta-metragem (live action) de 2019 ao propor, em 20 minutos de narrativa intensa, uma fábula que desce com a delicadeza de um dedo infectado pousando sobre uma ferida aberta.

Em foco, “o ciclo vicioso da perpetuação do ódio”, como aponta a resenha em Plano Crítico. É cinema-provocação de primeira e mostra-se em sintonia com as obras recentes de Jordan Peele (Corra / Nós) e Spike Lee (Infiltrado na Klan), que também não temem confrontar tabus e escancarar feridas que muitos desejam relegar às sombras.

Skin vem para mexer na ferida do Supremacismo Branco tão em voga no EUA desgovernado pelo bilionário D. Trump – e que também dá marcas macabras de sua ascensão aqui no Brasil de Bolsonaro (teleguiado“intelectualmente” por Olavo desde Richmond, Virginia, também conhecida como a cidade-sede do Exército Escravocrata sulista durante a Guera Civil de 1861-1865). Há mais em comum entre o “ideólogo do conservadorismo paranóico” e os supremacistas brancos que praticam atos de morticínio-em-massa do que sonha nossa vã filosofia… 


É fato sociológico amplamente divulgado que segregação racista está longe de estar morta no país onde está vigente, como argumenta Michelle Alexander, um New Jim Crow – lei de apartheid que esteve vigente nos EUA e que na atualidade sobrevive no Estado Policial-Carcerário, the prison-industrial complex. E sabemos muito bem que David Duke, um dos cabeças da organização racista-supremacista Ku Klux Klan, reconheceu no “Coiso” uma espécie de irmão-em-ideologia – e obviamente isto se aplica não só ao Sr. Jair, como também ao Guru do Bolsonarismo, aquele astrólogo charlatanesco, fanático por cus e rifles.

O Bolsonarismo, portanto, expressa a re-ascensão no mundo ocidental de uma ideologia que já causou imensas catástrofes, a começar pelo nazismo alemão e seu mito do “arianismo”. Qualquer análise das frases de Bolsonaro sobre os povos indígenas e quilombolas é evidência farta de que se trata de um doentio supremacista branco.

“Skin” é um filme que mereceria ser exibido nas escolas do Brasil para alertar sobre os desrumos de nossa pátria quando se coloca subserviente e à sombra dos EUA da Era Trump – aquela terrinha boa, “land of the free and home of the brave”, onde tem massacres em massa cometidos por supremacistas brancos quase que toda semana (e às vezes, uns três por semana).

Infelizmente, por aqui as tropas do Escola Sem Partido, altamente infectadas com fanatismo ideológico-partidário, encrencariam com os professores que quisessem debater este filme com os estudantes… Falar de “racismo estrutural” e dos horrores produzidos pelo supremacismo branco significaria, na percepção destes defensores da Escola Com Mordaça, uma inaceitável prova de “doutrinação ideológica”, perpetrada por professores esquerdistas e petralhas, afastando a juventude contra os sacrossantos dogmas raciais que hoje tão sabiamente nos governam…


Uma cena boa para debate mostra o pequeno Troy, filho de um casal de supremacistas brancos, acompanhando as “diversões” da gangue branquela de seu pai. Um pai, aliás, todo tatuadão com suásticas, todo fã da SS nazista. Um pai que instiga no filhão a postura bélica que pode capacitá-lo para, crescido, ser um soldado do Exército norte-americano, invadindo com pose heróica algum rincão deste planeta rico em petróleo…

O pequeno Troy torna-se um emblema cinematográfico do processo de inculcação ideológica perpetrada pelo supremacismo branco conexo à seu parceiro ancestral: o militarismo briguento calcado num racismo visceral. O menino é ensinado a atirar com armas de fogo, e quando consegue explodir uma melancia com um tiro é celebrado como herói. O paizão vai ao delírio e ainda embolsa polpudos dólares que tinha apostado com seus camaradas.

Em uma cena-chave, num supermercado, o pequeno Troy, em toda a inocência de sua tenra idade, deixa-se entreter por um homem que seu pai considera como portador de um “defeito de cor” e que costuma tratar com a “N-word” (nigger). O supremacista branco tem um reação de brutalidade e boçalidade inconteníveis ao descobrir que seu filhão está sorrindo para as gracinhas que aquele “nigger” está fazendo com um bonequinho em mãos. Um episódio cotidiano dos mais insignificantes torna-se o estopim de uma enxurrada de sangue.

O comportamento de gangue dos supremacistas brancos que espancam o “negão” no estacionamento, enquanto a família deste assiste em desespero e engasgando nas lágrimas, expressa bem tanto o irracionalismo quanto a covardia desse pessoal (os Bolsominions da Yankeelândia).

O recurso à violência grupal contra um indivíduo isolado, por mera implicância com a cor de sua pele, faz do pai de Troy um arquétipo de uma figura infelizmente disseminada demais: o “covardão” que se acha macho pra cacete. A nossa tragédia social consiste na ideologia hegemônica tentar nos convencer que teríamos de fato um mundo mais seguro, mais livre da “delinquência”, caso permitíssemos a disseminação de armas-de-fogo nas mãos desses “covardões” que só atacam em bando e que são reféns da patologia conhecida como “masculinidade tóxica”. Um excelente documentário sobre isto, aliás, é The Mask You Live In:

É óbvio que o filme “Skin” não pode se furtar de penetrar então no ambiente temático já tão repisado da Vingança. Após ser a vítima de uma tão brutal injustiça, de uma arbitrariedade sádica, o rapaz espancado terá suas dores assumidas pelos “seus”. Entraremos no terreno conhecido: o agressor venenoso vai sentir um pouco de seu próprio veneno descendo por sua goela. Ou melhor, esparramado por sua pele.

Ao fazer a crônica da “revanche dos negros” contra este supremacista branco em específico, o filme “Skin” explora de maneira muito interessante os vínculos entre a pele e a identidade, mas puxando para o centro do foco a questão da tatuagem.


A revanche envolve, é claro, um intento de apagar as tatuagens nazistas que o agressor traz em seu corpo (similares àquelas portadas pelo personagem de Edward Norton em “American History X – A Outra História Americana”, filmaço de Tony Kaye que explora temáticas semelhantes).

Mas a revanche vai além – e é uma espécie de “revanche pedagógica”. Eles tatuam o corpo do branquelo tóxico-agressor com muita tinta negra. Fazem com ele uma espécie de Operação Michael Jackson às avessas. Uma espécie de ação performativa que leva à risca a canção “Paint It Black” dos Stones. Sem pedir sua permissão, obviamente, pegam este branquelo e o pintam de negro. E o lançam de volta ao mundo.

Uma violência, é claro, mas que não é análoga à violência brutal cometida pelos supremacistas brancos em gangue. Esta violência revanchista tem algo de “pedagógica” pois, ao invés de impor algo como a tortura ou a pena-de-morte (métodos adorados por branquelos ricos e com poder), impõe a um sujeito desacordado uma mudança-de-sua-aparência. Ele volta ao mundo com outra aparência sensível. Sentirá na pele o que significa, em uma sociedade racista, governada por um supremacista branco, com re-ascensão da KKK e grupos semelhantes, “ser” um negro.

O filme chega mesmo a sugerir que o plano revanchista-pedagógico possa ter sido urdido por uma criança, ou seja, pelo garoto que viu seu pai ser covardemente espancado e que, no poster do filme, tem metade de seu rosto dividido com Troy.

Estes dois personagens, numa espécie de reativação de belas obras de cineastas como Larry Clark ou Gus Van Sant, mostram a infância e a puberdade no meio do torvelinho dos confrontos ideológicos e raciais.

Quando Troy volta a utilizar a arma que seu pai lhe ensinara a utilizar, seu alvo não será mais uma melancia. Troy aprendeu bem demais as lições de seu paizão e talvez, ao apertar o gatilho contra aquele invasor de pele escura que se embrenhou em seu lar na calada da noite, esperava depois ser novamente alçado a status heróico e comemorado pelos seus como um grande sujeito por ter cometido a proeza de matar um “nigger”.

Na história dos parricídios, “Skin” agora merece ter um capítulo escrito em sua homenagem: Troy dá a seu pai uma lição que ele nem tem tempo de apreciar, já que sua vida se esvai, resumível naquela velha sentença moral que propõe: quem envenena o mundo com o ódio, quem perpetra o ódio como algoz, deste mesmo ódio que ajudou a disseminar pode acabar padecendo como vítima. Os gregos diriam que toda hýbris fatalmente encontra sua nêmesis.

Impossível não lembrar, ao ver este filme impressionante, do gesto que Jair Bolsonaro repetiu nos palanques do Brasil em sua campanha eleitoral repleta de apologia à violência alterofóbica: ao ensinar uma criança loirinha a fazer com as mãos o gesto de um revólver que atira, o governante neofascista do Brasil não fazia apenas um showzinho obsceno para o deleite sádico de seu gado amestrado que lhe trata como mito. Estava fornecendo um emblema de como a ideologia bélica, troglodita e supremacista busca apossar-se da infância para transformar crianças em máquinas de ódio e intolerância. Esta é a “educação” que o calhorda propõe: ensinar “arminha” pra criançada crescer sendo tão troglodita quanto ele.

Não seria lúcido esperar qualquer coisa melhor deste sujeito boçal e neanderthal que falou em rasgar o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) e jogá-lo na latrina, e que recomendou ao Ministro da Educação que usasse contra Paulo Freire um extermínio com o “lança-chamas”.

Quando falamos que Bolsonaro e Trump são os exterminadores-do-futuro, não estamos de brincadeira, só inventando distopias com fraseados apocalípticos. É só atentar para o que ocorre com as crianças sob a tirania de sua estupidez militarista e supremacista para chegar à conclusão de que o extermínio do futuro se faz justamente pela inculcação de tais ideologias tóxicas naqueles que são os recém-ingressados na condição humana.

TRAILER

CURTA COMPLETO E LEGENDADO

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(VIA FÓRUM MAKING OFF)

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A Casa de Vidro – Por Eduardo Carli de Moraes. Goiânia, 04 de Agosto de 2018.

OS 100 MELHORES CURTAS-METRAGENS DA HISTÓRIA DO CINEMA BRASILEIRO – Assista às obras selecionadas pela Abbracine

A ABBRACINE – Associação Brasileira de Críticos de Cinema realizou um levantamento sobre os 100 melhores curtas-metragens da história do cinema brasileiro, com obras que abrangem o período entre 1913 a 2018. A pesquisa servirá de base para livro “Curta Brasileiro – 100 Filmes Essenciais”, realizado em parceria com Canal Brasil e Editora Letramento (organizado por Gabriel Carneiro e Paulo Henrique Silva).

O filme gaúcho “Ilha das Flores”, de Jorge Furtado, foi eleito o melhor curta-metragem brasileiro de todos os tempos; esta obra foi a vencedora do Urso de Prata do 40º Festival de Berlim, em 1990.

Em segundo lugar na votação promovida pela Abraccine com críticos, professores e pesquisadores de todo o país, aparece “Di” (1977), de Glauber Rocha, ganhador do Prêmio Especial do Júri no Festival de Cannes, seguido por “Blábláblá” (1968), de Andrea Tonacci, “A Velha a Fiar” (1964), de Humberto Mauro, e “Couro de Gato” (1962), de Joaquim Pedro de Andrade.

Joaquim Pedro tem quatro filmes selecionados entre os 25 primeiros colocados – além de “Couro de Gato”, estão “Vereda Tropical” (15ª colocação), “O Poeta do Castelo” (21ª) e “Brasília, Contradições de uma Cidade Nova” (22ª).

O cineasta com mais produções na lista, no entanto, é Aloysio Raulino, que, como diretor, construiu um corpo de obra muito mais prolífico e marcante no curta-metragem. Cinco de seus filmes foram destacados: “O Porto de Santos”, “O Tigre e a Gazela”, “Jardim Nova Bahia”, “Lacrimosa”, este codirigido com Luna Alkalay, e “Teremos Infância”.

Também ganha destaque na votação a filmografia de Ivan Cardoso no formato, com quatro títulos: “À Meia-noite com Glauber”, “Nosferato no Brasil”, “HO” e “Moreira da Silva”. Da produção mais recente, chamam a atenção Kleber Mendonça Filho (“Vinil Verde”, “Recife Frio” e “Eletrodoméstica”) e André Novais Oliveira (“Fantasmas”, “Quintal” e “Pouco Mais de um Mês”), cada um com três filmes. – ABBRACINE

Para colaborar com o acesso do público a este rico tesouro cinematográfico, que faz parte da história da cultura audiovisual brasileira, A Casa de Vidro fez um mapeamento de todos os filmes disponíveis no Youtube e disponibilizou-os na playlist abaixo. Confira abaixo, a lista completa com os 100 melhores curtas-metragens eleitos pela Abraccine, seguidos por outros curtas-metragens recomendados:

Ilha das Flores (1989), de Jorge Furtado


Di (1977), de Glauber Rocha


Blábláblá (1968), de Andrea Tonacci


A velha a fiar (1964), de Humberto Mauro


Couro de gato (1962), de Joaquim Pedro de Andrade


Aruanda (1960), de Linduarte Noronha


SuperOutro (1989), de Edgard Navarro


Maioria Absoluta (1964), de Leon Hirszman


A entrevista (1966), de Helena Solberg


Arraial do Cabo (1959), de Paulo Cezar Saraceni e Mário Carneiro


Alma no Olho (1973), de Zózimo Bulbul


Viramundo (1965), de Geraldo Sarno


Vinil verde (2004), de Kleber Mendonça Filho


Documentário (1966), de Rogério Sganzerla


Vereda tropical (1977), de Joaquim Pedro de Andrade


Recife frio (2009), de Kleber Mendonça Filho


Nelson Cavaquinho (1969), de Leon Hirszman


Zezero (1974), de Ozualdo Candeias


Sangue corsário (1980), de Carlos Reichenbach


O dia em que Dorival encarou a guarda (1986), de Jorge Furtado e José Pedro Goulart


O poeta do castelo (1959), de Joaquim Pedro de Andrade


Brasília, contradições de uma cidade nova (1967), de Joaquim Pedro de Andrade


Maranhão 66 (1966), de Glauber Rocha


O som ou tratado de harmonia (1984), de Arthur Omar


Subterrâneos do futebol (1965), de Maurice Capovilla


Mato eles? (1983), de Sérgio Bianchi


Guaxuma (2018), de Nara Normande


Meow! (1981), de Marcos Magalhães


Eletrodoméstica (2005), de Kleber Mendonça Filho


O rei do cagaço (1977), de Edgard Navarro


Fantasmas (2010), de André Novais Oliveira


Socorro Nobre (1995), de Walter Salles


À meia noite com Glauber (1997), de Ivan Cardoso


Dias de greve (2009), de Adirley Queirós


A pedra da riqueza (1975), de Vladimir Carvalho


Memória do cangaço (1965), de Paulo Gil Soares


O duplo (2012), de Juliana Rojas


Quintal (2015), de André Novais Oliveira


Fala Brasília (1966), de Nelson Pereira dos Santos


O porto de Santos (1978), de Aloysio Raulino


Horror Palace Hotel (1978), de Jairo Ferreira


Esta rua tão Augusta (1968), de Carlos Reichenbach


Muro (2008), de Tião


Manhã cinzenta (1969), de Olney São Paulo


O tigre e a gazela (1977), de Aloysio Raulino


Cinema inocente (1980), de Julio Bressane


…a rua chamada Triumpho 969/70 (1971), de Ozualdo Candeias


Carro de bois (1974), de Humberto Mauro


Olho por olho (1966), de Andrea Tonacci


Praça Walt Disney (2011), de Renata Pinheiro e Sergio Oliveira


Chapeleiros (1983), de Adrian Cooper


Juvenília (1994), de Paulo Sacramento


Os óculos do vovô (1913), de Francisco Santos


Dossiê Rê Bordosa (2008), de Cesar Cabral


Lampião, o rei do cangaço (1937), de Benjamin Abrahão


Animando (1983), de Marcos Magalhães


Jardim Nova Bahia (1971), de Aloysio Raulino


Partido alto (1982), de Leon Hirszman


Torre (2017), de Nádia Mangolini


Mauro, Humberto (1975), de David Neves


Ver ouvir (1966), de Antônio Carlos Fontoura


Congo (1972), de Arthur Omar


Caramujo-flor (1988), de Joel Pizzini


Lacrimosa (1970), de Aloysio Raulino e Luna Alkalay


Palíndromo (2001), de Philippe Barcinski


Um sol alaranjado (2002), de Eduardo Valente


Cantos de trabalho (1955), de Humberto Mauro


O guru e os guris (1973), de Jairo Ferreira


Nosferato no Brasil (1970), de Ivan Cardoso


Mulheres de cinema (1976), de Ana Maria Magalhães


Kbela (2015), de Yasmin Thayná


A voz e o vazio: a vez de Vassourinha (1998), de Carlos Adriano


Libertários (1976), de Lauro Escorel


Meu compadre Zé Ketti (2001), de Nelson Pereira dos Santos


Seams (1993), de Karim Aïnouz


Céu sobre água (1978), de José Agrippino de Paula


Dov’è Meneghetti? (1989), de Beto Brant


Teremos infância (1974), de Aloysio Raulino


Texas Hotel (1999), de Cláudio Assis


Rituais e festas Bororo (1917), de Major Thomaz Reis


Integração Racial (1964), de Paulo Cezar Saraceni


HO (1979), de Ivan Cardoso


Kyrie ou o início do caos (1998), de Debora Waldman


Pouco mais de um mês (2013), de André Novais Oliveira


Cartão vermelho (1994), de Laís Bodanzky


Um dia na rampa (1960), de Luiz Paulino dos Santos


Moreira da Silva (1973), de Ivan Cardoso


Nada (2017), de Gabriel Martins


Nada levarei quando morrer aqueles que mim deve cobrarei no inferno (1981), de Miguel Rio Branco


O ataque das araras (1975), de Jairo Ferreira


Enigma de um dia (1996), de Joel Pizzini


Amor! (1994), de José Roberto Torero


Menino da calça branca (1961), de Sérgio Ricardo


Estado itinerante (2016), de Ana Carolina Soares


Amor só de mãe (2002), de Dennison Ramalho


Carolina (2003), de Jeferson De


Contestação (1969), de João Silvério Trevisan


Guida (2014), de Rosana Urbes


Exemplo regenerador (1919), de José Medina


Frankstein punk (1986), de Cao Hamburger e Eliana Fonseca




OUTROS CURTAS QUE VALEM A PENA

UMA HISTÓRIA SEVERINA (2005) || Eliane Brum & Débora Diniz

HABEAS CORPUS (2005) || Débora Diniz

À MARGEM DO CORPO (2006) || Débora Diniz

QUEM SÃO ELAS? (2006) || Débora Diniz

SOLITÁRIO ANÔNIMO (2007) || Débora Diniz

A CASA DOS MORTOS (2009) || Débora Diniz

ZIKA (2016) || Débora Diniz

HOTEL LAIDE (2017) || Débora Diniz

CLANDESTINAS || Fadhia Salomão

O FLORESCER DA VOZ || Jaime Leigh Gianopoulos