TURISTA ESPACIAL: Quando a ficção científica abraça a Ecologia – Sobre o filme “La Belle Verte” de Coline Serreau (França, 1996) #CinephiliaCompulsiva #SciFi

Turista Espacial é um sci-fi fascinante e inovador. É capaz de unir os temas já bem batidos, como a viagem intergaláctica e o contato entre inteligências de diferentes planetas, com uma crítica social arguta de nossa civilização atual, ecocida e catastrófica. É uma obra em que a ficção científica abraça a ecologia, comentando de modo sagaz os dilemas e incógnitas do Antropoceno, ainda que o tom seja mais leve do que aquele dark mood que marca obras cruciais que depois explorariam sendas semelhantes: Filhos da Esperança (Children of Men), de Alfonso Cuarón, e Expresso do Amanhã (Snowpiercer), de Bong Joon-ho.

Assim que o filme se inicia, somos lançados a uma imersão em uma sociedade estranha, onde ocorre um ritual raro, difícil de decifrar: em meio aos verdes prados acariciados pela brisa, um matriarcado hippie realiza assembléias bucólicas onde debate-se, entre outros temas, a iniciativa de mandar representantes ao planeta Terra.

Logo o espectador percebe estar no seio de um filme de ficção científica dos mais espantosos, com aliens dos mais benignos e sábios, nada nojentos e fatais como aqueles construídos pelo clássico de Ridley Scott (Alien – O Oitavo Passageiro) e depois levado adiante nas obras de James Cameron e David Fincher.

Em La Belle Verte, de Coline Serreau, esses ETs humanóides têm anciãos que chegam a viver quase 300 anos. Esta longevidade toda foi alcançada bem longe do escarcéu terrestre de carros, bombas nucleares, guerras colossais, devastação ecosistêmica e extinção em massa da diversidade biológica e cultural. Longevos são os seres sábios que souberam acordar para a importância quintessencial do Verde, símbolo de uma união holística do organismo com o meio natural.

Na assembléia, um senhor pede a palavra e relembra os tempos em que esteve em Paris, na época turbulenta das Revoluções: lembra dos burgueses querendo guilhotinar a cabeça do rei, dos proletários querendo as cabeças de burgueses na bandeja, dos imperadores genocidas que se apropriam da república como se esta fosse sua propriedade e o instrumento dócil de seu imperialismo agressivo… O caos dos assuntos humanos é pintado em meio ao idílio extraterreno, onde Napoleão Bonaparte e Robespierre despontam com a aura tenebrosa de vilões, desprovido de halos heróicos. La Belle Verte tem a comunicar um outro ideal, anti-napoleônico, contrário às dominações imperiais mas também ao domínio humano excessivo sobre a Natureza, que nos leva a despencar na húbris e no ecocídio.

coline-serreau-06O filme, que além de dirigido, foi escrito e estrelado por Coline Serreau, abre com chave cômica: o retrato dos terrestes que nos é ofertado, se não chega a ser misantrópico, é pelo menos uma bem-dada caçoada risonha pra cima dos humanos da Terra. Somos risíveis criaturas estúpidas, ainda atreladas a carros que queimam energias fósseis e vomitam poluição; ainda cindidos em assassinas rivalidades patrióticas, étnicas ou tribais; tão pouco sábios que criaram uma situação planetária tão desgraçada e instável que nenhum dos ETs de inteligência média deseja entrar em contato conosco.

Na assembléia, não há quem se manifeste como voluntário para visitar a Terra; ninguém acredita na eficácia de uma intervenção humanitária alienígena; em suma, aos olhos da imensa maioria da assembléia de extraterráqueos, os earthlings são um caso sem esperança… O que lembra uma tirinha de Calvin e Haroldo que cai como uma luva neste contexto:

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A protagonista do filme é única alien corajosa o bastante para vir nos visitar. Pousa na Terra e é subitamente fica maravilhada pelas grandes árvores de um parque de Paris, porém sente-se agredida e insultada em suas narinas pela atmosfera tóxica, mega-poluída, da megalópole francesa. O filme vai delineando suas barricadas no conflito ideológico, fincando sua fidelidade a figuras como Rachel Carson, autora de Silent Spring, que vociferou contra o DDT e os descalabros da indústria petroquímica em uma das obras fundamentais da ecologia no século XX.

A visitante do Além-do-Humano, desacostumada com aquilo que o hábito ensinou-nos que é natural, sai andando pelas calçadas de Paris, onde ela é intensamente consciente de que pisa sobre cimento que foi esparramado sobre a terra nua, o que impede o solo de ser espaço de uma florescência vegetal luxuriante. Nas calçadas, lotadas de bostas de animais que o poder público ainda não havia podido limpar através de seus lixeiros assalariados, ela não descobre muito espaço onde flores pudessem desabrochar do chão uniformizado pelo concreto. Cof, cof! – ela tosse enquanto desvia dos cagalhões dos totós de madame e viralatas de punks.

A ideia principal que impulsiona o enredo de La Belle Verte é a do planeta e seus habitantes humanos vistos a partir da perspectiva de alguém que chega provindo de uma civilização mais sábia. Mas aqui não se trata de viagem no tempo, rumo ao passado: nesta sci-fi, não há gente do futuro entrando em máquinas-do-tempo como as célebres parafernálias de Back Into The Future, a trilogia de Robert Zemeckis. Trata-se de viagem pelo espaço que conecta entes de diferentes graus de evolução da inteligência – sendo que os humanos perdem de lavada neste quesito. Somos os estúpidos do cosmos, ainda que, neste planetinha, alguns se gabem de serem os sabichões da Terra.

Enredos semelhantes impulsionam obras sci-fi como K-Pax (de Iain Softley) e Hombre Mirando A Sudoeste (de Eliseo Subiela), pois em ambos os filmes os visitantes do espaço sideral são tratados como loucos, internados em hospícios, alvos de hipnoses ou lobotomias. Em ambos se estabelece um contraste entre a sabedoria do forasteiro e a estupidez dos terráqueos, estratégia narrativa que frisa a possibilidade de criaturas mais inteligentes que nós existirem na pluralidade de mundos que constitui o Universo – para relembrar o título do livro clássico de Fontenelle.

A Bela Verde, neste caso, está experimentando pela primeira vez a poluição atmosférica, a barulheira estridentíssima e dissonante, de uma metrópolis humana no mundo dito Ocidental, civilizado, capitalista, consumista, auto-proclamado modelo supremo de como devem viver os povos. A Bela Verde é mais intensamente sensível a tudo o que os humanos tem de bizarro: com seu olhar limpo de interesses humanos, ela observa as mulheres fúteis que desfilam embonecadas pelos bairros comerciais e shopping centers, e pergunta-se, fitando os brincos espalhafatosos grudados às suas orelhas, se não seriam aqueles alguns símbolos religiosos de um culto bastante primitivo…

Uma das cenas mais significativas se dá quando ela pára diante de uma açougue e pela primeira vez depara com o espantoso espetáculo daquela “a exibição de cadáveres”. A Bela Verde, em sua ingenuidade, fica chocada por encontrar uma vitrine por detrás da qual estavam expostos partes dos corpos-sem-vida de animais recentemente sacrificados; as autoridades responsáveis pela construção e sustentação de tal sistema talvez explicariam à forasteira, do alto de suas presunções olímpicas, que aquilo que ela via no açougue era nada mais, nada menos, do que… mercadoria. “Deixemos de sentimentalismos quando se trata de incrementar nossos benefício$$$!”, poderiam dizer-lhe, ofertando-lhe um espetinho de vaca engordada à força, empanturra de antibióticos, criada em cativeiro absoluto, em meio à lotação desagradante de abatedouros que, se tivessem paredes de vidro, fariam vomitar a quase todos aqueles que hoje deleitam-se com salsichas e filés de frango…

Além da mercantilização em massa da carne animal, a Bela Verde também fica estarrecida com os carros, intermináveis, invasivos, que dominam a cidade como se fossem de fato seus imperadores, como se merecessem todos os privilégios. Onde outrora havia um pomar transbordante de frutas, ou um parque repleto de coqueiros, ou uma floresta abrigadora de miríades de diversas espécies de seres vivos, agora o que há… é um estacionamento! E este cobra preços abusivos. Em cada esquina, um posto de gasolina que vende petróleo roubado do Oriente Médio, provavelmenmte após invasão imperialista genocida justificada como “Cruzada Anti-Terrorista”.

O cogumelo atômico é a coroa na cabeça desta Sociedade Burguesa Globalizada, provando que sua estupidez, longe de ser negligenciável, é pra lá de perigosa. A extinção de espécies que o diga.

Quando nos auto-proclamamos os fodões da Criação, os filhos prediletos de Deus-Pai Todo-Poderoso, e partimos para a dominação e exploração generalizada da Natureza, produzindo escarros colossais de substâncias tóxicas e gases de efeito estufa no ambiente que sustêm a Vida em suas múltiplas formas, tornamo-nos os inimigos de nós mesmos, carrascos da mãe nutriz, aqueles que põe fogo em seu próprio lar (como sugere o mother! de Darren Aronofsky).

E assim nos tornamos os devastadores de boa parte daquilo que vive conosco. A miríade de organismos vivos que, só pelo fato de possuir a vida como propriedade comum e destino compartilhado, já mereceria ser tratado por nós como algo de mais digno do que estoque de bacon ou recheio de McNuggets e McChickens. Neste globo infestado por junk food e agrotóxicos, epidemias corporativas disparadoras de imensas crises de saúde pública, é bom lembrar: nos EUA de hoje, por exemplo, explodiram os índices de obesidade e diabetes, o que está intimamente conectado ao sistema de alimentação que eles deixaram tornar-se hegemônico.

Por essas e outras, considero Turista Espacial um filme digno de louvores e atenções, ainda que muitos espectadores possam torcer o nariz para um certo “didatismo” que transforma este filme de ficção científica em algo parecido com uma aula de ecologia. Junto com Ponto de Mutação (Mindwalk), filme baseado na obra homônima de Fritjof Capra, a obra de Coline Serreau tem muito a nos ensinar sobre como viver e conviver melhor neste planeta que a cada dia se parece mais com uma terra devastada.

A ideologia veiculada com o filme conecta-se com aquela dos teóricos do decrescimento, como Serge Latouche; com os ensinamentos de Alan Watts sobre O Que Está Errado Com Nossa Cultura; com os ensinamenos de Small Is Beautiful de Schumacher; com as obras de pensadores contemporâneos cruciais como Vandana Shina, Raj Patel, David Suzuki, Arundhati Roy, Davi Kopenawa. Que o cinema possa ser uma força de transformação social, ou mesmo de inseminação utópica, é algo óbvio para quem conhece iniciativas como a Films For Action e para quem já assistiu Dirt!, DisruptionThe Age Of Stupid, The Secret of the Seven Sistersdentre outros. Turista Espacial está aí para somar forças a esta eco-legião.

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Por Eduardo Carli de Moraes
A Casa de Vidro – http://www.acasadevidro.com

CINEPHILIA COMPULSIVA 2018: A Lagosta; Guerra do Paraguay; Viver e Outras Ficções; A Vida Secreta dos Hipopótamos

GUERRA DO PARAGUAY (2015), um filme de Luiz Rosemberg Filho. Baixe a obra completa (em torrent): http://bit.ly/2jF3UBT.

ENTREVISTA COM O CINEASTA

1 – Como e por que um filme sobre a guerra do Paraguay, já que sabemos que foi uma guerra criminosa, como aliás todas as guerras de ontem e de hoje?

R – Não é exatamente um filme preciso sobre essa guerra trágica, vergonhosa e ainda hoje oculta ao saber. O roteiro e o filme partem do Paraguay para chegarmos às guerras de hoje. É uma metáfora poética e pensei em dedicá-lo ao “Dr. Fantástico” do Kubrick e aos “Carabineiros” do Godard. Tento levantar uma discussão ética-criativa sobre essa eterna doença da morte programada hoje por computadores, drones e bombas. Como é possível, em pleno Século XXI, esse massacre entre homens e nações? É pra isso que nos serviu o progresso e a política? É para isso que servem as palavras e os discursos? Por acaso nosso Império estava certo em manchar de sangue a nossa história? Não consigo entender ou aceitar nenhum tipo de guerra, já que somos vendidos como civilizados. Será? Por mais que se ache uma quantidade de heróis aqui e ali, não passam de bufões fantasiados de nobres! Ora, como justificar massacres, mortes de inocentes, medalhas por atos vendidos como heróicos, destruição, intimidação, medos… E tudo banhado de sangue! “O que foi que os Paraguayos nos fizeram?” Esta pergunta está no filme, e todos precisam ver a resposta voltando aos cinemas! E como diria Kafka: “No fundo sou um chinês”. E tendo como única paisagem o silêncio! O silêncio que tenta fazer calar a falta de lucidez, a vulgaridade política e a arrogância que de certo modo reterritorializa a caminhada para o fascismo. Fascismo que odeia todo tipo de saber. Daí as tantas e tantas convulsões e incertezas no atual sistema. Sistema onde o agenciamento das guerras é sempre um bom negócio! Mas para poucos!

PROSSIGA NA LEITURA DA ENTREVISTA: http://zagaiaemrevista.com.br/article/guerra-do-paraguay-de-luiz-rosemberg-filho/

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CRÍTICA – Por Fernando Oriente

https://tudovaibem.com/2017/03/07/guerra-do-paraguay-de-luiz-rosemberg-filho/




O LAGOSTA (The Lobster, 2015, 128 min),

um filme de Yorgos Lanthimos.

Com Colin FarrellRachel WeiszLéa Seydoux

#CinephiliaCompulsiva2018

IMDbhttp://www.imdb.com/title/tt3464902/?ref_=ttawd_awd_tt

SINOPSE – Em um futuro próximo, uma lei proíbe que as pessoas fiquem solteiras. Qualquer homem ou mulher que não estiver em um relacionamento é preso e enviado ao Hotel, onde terá 45 dias para encontrar um(a) parceiro(a). Caso não encontrem ninguém, eles são transformados em um animal de sua preferência e soltos no meio da Floresta. Neste contexto, um homem se apaixona em plena floresta – algo proibido, de acordo com o sistema.

CRÍTICAS:

Cinematograficamente Falandohttp://cinematograficamentefalando.blogs.sapo.pt/the-lobster-2015-1583422

Disponível no Fórum Makingoff (só para membros)




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VIVER E OUTRAS FICÇÕES (Vivir y Otras Ficciones) – Um filme de Jo Sol (Espanha, 2016). Torrent: http://bit.ly/2pMiiLt, Legenda em português:http://bit.ly/2zqIlfD.

Resenha de Claudio Alves: http://www.magazine-hd.com/apps/wp/artekino-vivir-y-otras-ficciones-critica/

O corpo enquanto objeto político tem sido um dos temas mais curiosamente prevalentes no panorama do cinema dos últimos dois anos. Mesmo no contexto do festival online ARTE Kino, podemos contar, pelo menos, quatro filmes onde pessoas com deficiências ou enfermidades mentais, motoras e anatómicas veem os seus corpos tornarem-se em símbolos vivos de crises sociais que transcendem a carne do indivíduo. Em “Scarred Hearts”, o realizador romeno Radu Jude perscrutou as sombras da Europa pré-Holocausto através do retrato de um jovem poeta paralisado. No caso de “Godless”, idosos senis e negligenciados e abusados por uma enfermeira toxicodependente tornam-se em sinédoques de toda uma nação num processo de apodrecimento pós-soviético. “The Giant” conta a história de um homem autista e gravemente deformado, traçando, a partir daí, uma dissecação da crueldade e dos limites do estado social sueco.

“Vivir y Otras Ficciones” do espanhol Jo Sol é um exemplo com importantes diferenças no que diz respeito à sua abordagem a este tema, sendo que, para começar, o filme é um documentário. Verdade seja dita, este trata-se de um híbrido um tanto ou quanto simbiótico entre documentário e ficção, construindo-se quase inteiramente a partir de cenas claramente encenadas em que os intervenientes se estão a interpretar a si mesmos. No contexto atual, a membrana porosa que delineia as diferenças entre estes dois tipos de cinema está a ser cada vez mais porosa e irrelevante, mas convém denotar os elementos não fictícios desta obra pois, aquando da sua passagem pelo Queer Lisboa, o filme ganhou uma menção honrosa na competição de documentários.

Independentemente de tais questões de género, “Vivir y Otras Ficciones” é, de facto, um poderoso documento sobre o corpo enquanto objeto político, podendo também ser caracterizado como um grito revolucionário pelo direito ao orgasmo. Pelo menos, presume-se que é assim que o seu protagonista gostaria de se referir ao objeto fílmico. Ele é Antonio, um escritor tetraplégico que decide contratar uma prostituta para poder ter alguma gratificação sexual apesar da sua condição, acabando por agir como um facilitador do mesmo serviço para outros seus conhecidos com problemas físicos semelhantes. A mulher que trabalha para Antonio como empregada e enfermeira mostra-se extremamente ofendida com tais ações, uma reação que é refletida nos amigos não deficientes do escritor.

O mais importante destes amigos é Pepe, uma espécie de coprotagonista do filme e um espelho da solidão e isolamento social sentidos por Antonio. Acabado de sair da prisão e de uma instituição psiquiátrica, ele é um velho cheio de ressentimentos para com a sociedade em geral. Um filho ausente que recentemente voltou a entrar na vida de Pepe serve de talismã humano à solidão venenosa desse homem, cuja moral é, apesar de tudo, ainda muito definida pelas tradições e normas sociais da Espanha católica. Segundo a retórica de Pepe, cada ato de masturbação é um pedaço de inferno e a luta por direitos, se não for feita com o seu ideal de seriedade respeitosa, é somente uma brincadeira.

Muito do filme vive das discussões entre estes dois homens, mas é claro que Jo Sol está do lado de Antonio, mesmo que permita ao espetador encontrar algumas hipocrisias no seu discurso, especialmente nos seus diálogos com a mulher que tanto cuida das suas necessidades. Para o escritor, é difícil para as pessoas “normais” discutirem os problemas da sexualidade dos deficientes pois isso normalizaria demasiado a vida desses doentes. É fácil sentir-se pena pelo outro, mas realmente aceitar as semelhanças, incluindo ao nível de desejos e necessidades, é algo mais difícil. Nas palavras de Antonio, tais ponderações forçam a pessoa “normal” a ver-se a si mesma na posição do necessitado, a interiorizarem mentalmente a fragilidade da sua própria carne. Para os privilegiados que podem escolher ignorar tais realidades, é mais fácil condenar a sexualidade destas pessoas a algo abstrato.

O próprio cinema é culpado desta sistemática assexualização de corpos tidos como imperfeitos. Afinal, qual foi a última vez que se viu um filme lidar com os desejos de pessoas feias, de idosos, de obesos, ou mesmo de pessoas de etnias discriminadas? Nesse sentido, “Vivir Y Otras Ficciones” é um choque tremendo, um filme que tenta espantar e até repugnar o espetador até que dessa estranheza floresça empatia. Quando, perto do final, um clube noturno se torna num cabaret de corpos “anormais” a reclamarem o seu direito a serem vistos como desejáveis e sexuais, sentimos uma genuína vontade de celebrar e participar nas festividades orgásticas. Infelizmente, como modo de calibrar a perspetiva da audiência, o filme acompanha os seus jogos de choque com grandes monólogos, negligenciando o seu esqueleto rítmico.

Tal displicência estrutural resulta num filme que, ocasionalmente, cai em momentos mortos e numa geral falta de energia. Com isso dito, as ambições e retórica política da obra muito compensam essas fragilidades e proporcionam momentos que transcendem mesmo o investimento intelectual do espetador e conseguem ativamente comover. Uma interação entre Antonio e a sua prostituta de eleição torna-se num dos momentos mais belos do filme e os interlúdios musicais são algo do outro mundo, propondo um diálogo entre o verso cantado e as ideias ativistas do escritor ao mesmo tempo que embalam o público com a beleza da voz e melodia em comunhão dançada.”Vivir y Otras Ficciones” é assim um filme importante, inteligente, frágil e portador de ideias incrivelmente urgentes sobre como, quando o nosso corpo é um objeto político, o próprio ato de existir se torna numa manifestação militante.

Cláudio Alves




A VIDA PRIVADA DOS HIPOPÓTAMOS

Gênero: Documentário | Biografia

Diretor: Maíra Bühler, Matias Mariani
Duração: 1h 31 minutos
Ano de Lançamento: 2014
País de Origem: Brasil
Idioma do Áudio: Inglês | Espanhol | Português

O mergulho na escuridão

“A resignação é necessária para quem está à porta do paraíso; não afrontemos o destino que é tão bom connosco (…) Depois… depois querida, queimaremos o Mundo, porque só é verdadeiramente senhor do Mundo quem está acima das suas glórias fofas e das suas ambições estéreis.” (Machado de Assis, em ‘Carta a Carolina de Novais’, 1869)

Logo no início, há o testemunho de que Christopher Kirk, um técnico de informática que possivelmente vislumbrava o mundo por demais virtualmente (e quem sabe, até por isso), tem a ingenuidade de um Pinóquio. O enquadramento de sua entrevista impõe um contraste: pelo quadro negro ao fundo, poderia ser uma escola, mas o figurino indica a certeza de uma penitenciária. Kirk fora engolido pelo sistema-baleia ou, malandramente, retorceu as aparências? Seria o caso de um homem se insurgindo dentro de sua aparente e rotineira docilidade?

Essa pergunta queda em banho-maria durante quase todo o corpo do filme, desviando o problema central para sua namorada nipo-colombiana. Fica a impressão de que a suposta culpa necessária para a sua presença na prisão vai ser dela e da ingenuidade do amor que leva à derrocada. A narrativa poderia ser essa, se não fosse, no fundo, a própria idéia de se ater ao gesto de narrar. Maira Bühler e Matias Mariani tinham a idéia de fazer um filme sobre presos no exterior. Acharam um personagem que superou as expectativas e então a coisa se transformou. A princípio, poderia ainda ser um filme sobre um preso (americano) no exterior (Brasil), mas isso já não mais o define. A Vida Privada… é sobre um exímio contador de estórias e sua vontade de expressar um sentido maior para cada conjunção de palavra reverberada; sobre a capacidade de criar uma imersão narrativa a partir de elementos simples e brutos: a palavra falada de Kirk, a escrita proveniente dos chats e as fotos que mais escondem do que mostram para desenvolver um suspense. Kirk cria climas, gera suspense e o filme sabiamente o acompanha. A montagem, não à toa, é conjunta – muito se dá a partir do HD do próprio personagem.

Enquanto absortos nos mistérios de uma Capitu pixelizada, aos poucos entende-se que Kirk, por mais que diga que não aceita fazer parte daquele tipo de casal prenhe de jogos, acaba entrando por curtir desvendar o mistério e, ainda mais profundamente, por estar fazendo parte de uma cadeia de mistérios. O enigma, que sempre fora o de descobrir quem é aquela mulher sem face em meio a tantas viagens, passa, ao fim, meio de supetão, para o eixo que interessa: a partir da relação com a colombiana denominada “V”, desvenda-se a real faceta de um Pinóquio que decidiu conhecer o mundo fora dos limites que seu demiurgo Gepeto havia lhe incumbido.

Se existe um paralelismo entre Gepeto e a vida de Kirk, esta associação não cabe a Deus, mas a uma certa rotina aprisionadora, ao trabalho que nos move, define e restringe, ao labor castrador que nos impele à repetição de atos, afugentando pensamentos rebeldes que se embrutecem e evaporam como feixes de luz numa distante nuvem de mormaço. Se existe um perigo de se esmorecer na barriga da baleia, ficar lá para sempre velho e esquálido, esse esfacelamento vem do ato chapliniano de apertar os parafusos de uma engrenagem mundial sem qualquer inspiração para fazê-lo a não ser a necessidade. Independente dessa sobrevivência persistir necessária, continuamos apertando parafusos sem pensar, no embalo, para o resto de nossa vida útil – termo que associa o tempo de proveito justamente ao tempo de trabalho, da juventude à aposentadoria – e esse ato contínuo gera um automatismo impregnante à ingerência de nossas vidas privadas (o “quit stalling!” gritado pelo chefe no banheiro é justamente a interdição de um momento quando Chaplin poderia parar e pensar sobre seus próprios atos).

O termo “breaking bad” é uma gíria sulista que significa desviar-se do caminho correto. Muitas vezes, esse correto não é o teleologicamente certo a se fazer, mas, paradoxalmente, apenas o carente de correção. Um rumo sem desvios, balizado por um sistema, aquela velha palavrinha imaterial. Segundo o Wikipédia, sistema é um “conjunto de elementos interconectados, de modo a formar um todo organizado”, que, nesse caso, na sua própria formação, também organiza e delimita um norte aos novos elementos que se integram ao sistema. No primeiro episódio da série homônima americana – que adotou a gíria como título, transparecendo a trajetória de seu protagonista – Walter White recebe a notícia de que tem câncer e sua vida passa a ser contada ao avesso, de forma regressiva. A partir desse fato, resolve mudar os parâmetros que sempre o guiaram. Christopher Kirk enxerga o aprisionamento de uma rotina de condutas – regulado primariamente por um sistema de trabalho – que regula sua vida, e assim resolve, como Walter White, quebrar o pacto com o destino premeditado.

Enquanto White vai empreender o que sabe fazer de melhor – ser químico, independente das afeições morais – Kirk se joga no escuro, renegando seu aparente talento em informática em busca de algo ainda mais radical que ainda está para ser desvelado. Vai à Colômbia em busca de uma palpabilidade etérea, de uma transcendência mundana, de experiências concretas ressignificantes, remodeladoras de um olhar, de uma perspectiva, de uma visão de mundo conscientemente claustrofóbica, petrificada pelo seu dia a dia americano. Vai para lá por causa de Pablo Escobar, o grande traficante que, até certa altura da virada dos anos 1980 para os 1990, era um dos homens mais influentes, poderosos e perigosos do mundo e tinha em mãos um exército de soldados e criminosos, mansões por toda a Colômbia e até um zoológico aberto à visitação de toda a população local (para chegar até o zôo, ônibus escolares lotados passavam por debaixo da réplica do avião que carregou o primeiro carregamento de cocaína para os EUA).

Depois de sua morte, tudo foi confiscado, inclusive os animais de seu Jurassic Park privado, com exceção dos hipopótamos, que não cabiam mais em outros zoológicos e acabaram se adaptando perfeitamente ao ambiente local, que era propício à sua perpetuação. Hipopótamos, apesar de parecerem fofinhos e de muitos na região quererem adotá-los, são dos animais mais perigosos trazidos da selva africana. Escobar deixara de legado um novo ecossistema à sua semelhança. Ninguém, na pequena cidade perto de Bogotá onde habitam os hipopótamos, sabe até hoje como lidar com eles – uma mistura de sentimentos que reflete a ambígua relação que os colombianos tinham com o traficante. A faceta de Pinóquio se dissipa na viagem pela América: Kirk parece mesmo um hipopótamo, com um lado meigo que esconde o risco iminente. Mas, muito além da banalização de uma incorporação do mal, Christopher Kirk é o adágio de uma lembrança continuamente perdida: é preciso tomar as próprias rédeas para sentir-se dono de seu caminho. Para o bem ou para o mal.

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