“Nietzsche em Turim – O Fim do Futuro”, de Lesley Chamberlain

book-cover-nietzsche-turinLESLEY CHAMBERLAIN
“Nietzsche in Turin: An Intimate Biography”
Editora Picador USA, 1999

(Publicado no Brasil pela Ed. Difel em 2000.
Disponível para compra na Estante Virtual.)

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O NAUFRÁGIO DE NIETZSCHE EM TURIM

“The year-in year-out lack of a really refreshing and healing human love, the absurd loneliness that it brings with it, to the degree that almost every remaining connection with people becomes only a cause of injury; all that is the worst possible business and has only one justification in itself, the justification of being necessary.” – Carta de Nietzsche a Overbeck, 3.2.88

Ano após ano, a ausência de um “refrescante e terapêutico amor humano” abisma o filósofo Nietzsche em um estado de “solidão absurda”, como ele confessa ao amigo Overbeck em carta de 1888.

Apesar de já ter publicado quase toda a sua obra obra consagrada (Além de Bem e Mal, Genealogia da Moral, Humano Demasiado Humano, Zaratustra, A Origem da Tragédia, Aurora, A Gaia Ciência…), Nietzsche chega ao fim dos anos 1880 e descobre-se mais isolado do que nunca. Na Alemanha, seus livros são ignorados por quase todos, ou incompreendidos pelos poucos que os lêem: o verdadeiro “sucesso” editorial, na época, são os panfletos anti-semitas que se propagam pelo Reich de Bismarck e que Nietzsche abomina com toda a força de seu nojo.

Enquanto vão surgindo os primeiros sinais de que sua obra repercute pela Europa – o professor judeu George Brandes começa seu curso sobre Nietzsche na Universidade de Copenhagen, por exemplo – ao redor do homem Nietzsche se adensam as nuvens pesadas de uma solidão cada vez mais densa.

“Alguns homens nascem póstumos”, escreverá Nietzsche, tentando consolar-se com a idéia de que só espíritos livres do futuro o compreenderiam e que ainda estava por nascer uma época que tivesse ouvidos para suas mensagens. A solidão ao seu redor era quase absoluta: após toda uma série de rupturas com aqueles que haviam sido importantes em sua vida (Wagner e Cosima, Paul Rée e Lou-Salomé…), Nietzsche se encontrava, como diz Lesley Chamberlain, em um “deserto emocional”.

Por mais que tenha vociferado contra o ideal ascético, de que eram adeptos tantos eremitas e anacoretas, Nietzsche também se encontrava em uma espécie de eremitério em Turim: não sabia falar grande coisa de italiano, o que decerto dificultava encetar amizade com os estranhos ao seu redor, e sua melhor companhia era a música, em especial a de Bizet, cuja ópera Carmen o filósofo irá assistir por duas de vezes e depois celebrará como uma obra-prima nas antípodas do wagnerianismo.

No geral, Nietzsche vivia só, quase sempre desacompanhado, um andarilho que caminha com sua sombra, lidando sem auxílio externo com sua doença, seus dilemas, suas turbulentas reflexões. Desde que havia se demitido, por razões de saúde, de seu posto como professor de Filologia na Universidade da Basiléia (Suíça), Nietzsche havia perambulado pela Europa como cigano peripatético, um caminhante introspectivo, sem amarras com nenhum emprego, nenhuma instituição, nenhuma “causa” de militância social. Tampouco tinha qualquer relacionamento amoroso que lhe acalentasse os dias com os imprescindíveis calores da convivência.

Só encontrava um grão de diálogo humano através das cartas que escrevia e recebia. Entre seus correspondentes havia figuras eminentes da cultura européia daqueles tempos – como o historiador Jacob Burckhardt, o dramaturgo August Strindberg, o compositor Peter Gast (Koselitz)... – mas todos eles vivendo a grande distância física de Nietzsche.

Imagino às vezes o tamanho da inconfessável fome de abraço que ele deveria sentir: o filósofo que redimiu o corpo tão massacrado pela tradição idealista da filosofia ocidental era um pensador sofria nas próprias vísceras a falta de sentir seu próprio corpo agasalhado pelo afeto humano. Além do mais, este mesmo corpo, que reconhecia como fonte de seu pensamento, de sua criatividade, da vida em seu inteireza, era massacrado pela doença. Diante dos açoites do destino, recomendava o amor fati, uma trágica aceitação jubilosa de tudo aquilo que a existência tem de mais problemático e angustioso.

O que ocorreu com Nietzsche em Turim é um mistério que não cessa de instigar a curiosidade daqueles que se interessam pelo filósofo, já que foi o “palco” do colapso psíquico que o fez mergulhar de vez, sem volta, na insanidade. Era o começo de 1889 quando, nas ruas da cidade italiana, um certo sábio-louco alemão,  professor de comportamento  tão extravagante e de tão longos bigodes, abraçou um cavalo que estava sendo maltratado em via-pública e depois desfaleceu. Nunca mais pôde reaver toda a potência de seu prodigioso cérebro: em breve estaria de cama, sob cuidado de seus familiares, quase um “vegetal”, incapacitado de ler e escrever. Não reconhecia mais ninguém. Na aurora do século 20, em 1900, iria enfim tornar-se banquete para os vermes.

ecce homoNos meses que antecederam seu desmoronamento psico-somático, Nietzsche havia produzido algumas de suas obras de maior impacto: O Caso Wagner, O Crepúsculo dos Ídolos, Anticristo e Ecce Homo são todos livros desta última fase, em que sua pena mordaz não teme chocar, provocar, polemizar.

O mínimo que se pode dizer destas obras é que seu autor não se preocupa em ser polido e delicado: expressa suas opiniões radicais como se desejasse que cada frase tivesse o efeito de uma banana de dinamite. Estava convencido de que algo de melhor podia ser construído sobre os escombros da Europa que ele enxergava, desde o fim do século 19, no caminho desgraçado do nacionalismo militarista, do racismo, do anti-semitismo, do continuado fanatismo religioso conjugado a um moralismo autoritário. Até o fim de sua vida, escreveu livros que prosseguem sendo pura Dinamietzsche.

Compreender as razões que levaram Nietzsche a terminar sua vida criativa em Turim é tarefa dificílima, que já foi tentada por muitos pesquisadores e biógrafos, mas sem que nunca se tenha chegado ao desvendamento final do enigma. Penso que a solidão, o isolamento social, é uma das chaves para entender o crepúsculo nietzschiano. Pois estou convencido que até um grande artista, um gênio criador, um filósofo brilhante, não é nunca completamente “auto-suficiente” em matéria de afeto, que precisa da estima alheia para ter um chão sólido sobre o qual caminhar com passo firme, e que a saúde do corpo e da mente é inalcançável sem o intercâmbio com os outros.

“Nenhum homem é uma ilha”, diz o poeta John Donne. E aqueles que acabam ilhados na solidão, rodeados por todos os lados pelas gélidas águas da indiferença, ou pela hostilidade dos tubarões, não raro terminam também loucos. E o que há de mais enlouquecedor do que a sina de Robinson Crusoé após o naufrágio?

Em seu livro mais recente, Nietzsche – O Humano Como Memória e Promessa, Oswaldo Giacoia reflete, pegando carona nas reflexões de Hannah Arendt sobre a condição humana, que uma das explicações para o colapso psíquico de Nietzsche foi a progressiva perda de participação em um “mundo comum”. Em outras palavras: para Nietzsche, que se considerava “extemporâneo”, um peixe fora d’água em sua própria época, não havia nenhuma comunidade real que ele integrasse.

A própria megalomania que se manifesta em Ecce Homo parece um sintoma da vida no deserto que Nietzsche então levava: é como se ele tentasse elogiar a si mesmo na falta de qualquer ser humano que o elogiasse. É a falta do apoio do outro que o leva a buscar apoio em si mesmo, e de maneira que soa tão “narcisista”, a julgar pelos títulos de alguns dos capítulos deste seu escrito auto-biográfico e auto-glorificante (“por que escrevo livros tão bons”, “por que sou tão sábio” etc.).

É claro que muitos outros comentadores, biógrafos e pesquisadores destacam que causas puramente orgânicas levaram Nietzsche a naufragar em Turim no início de 1889 – alguns apostam na hipótese de que ele havia contraído sífilis na juventude em algum prostíbulo; outros, que seu estado de saúde tão debilitado devia-se aos ferimentos que sofreu no campo de batalha, durante a Guerra franco-prussiana de 1870, na qual Nietzsche serviu como enfermeiro e onde contraiu difteria e disenteria; outros ainda destacam que devia haver alguma predisposição genética para a doença cerebral correndo no sangue da família, já que o pai de Nietzsche, pastor luterano, havia morrido precocemente aos 35 anos de idade. Impossível bater o martelo e apontar a “verdade das verdades” sobre um tema tão complexo.

Dias_De_Nietzsche_Em_TurimDe todo modo, o tema “Nietzsche em Turim” é instigante e suscita muitas obras que se debruçam sobre o “caso”, tentando decifrar o enigma – inclusive o cinema brasileiro realizou um experimento de compreensão com Dias de Nietzsche em Turim, filme de Julio Bressane, roteirizado por sua esposa Rosa Dias.

Na sequência, compartilho alguns trechos da “biografia íntima” escrita por Lesley Chamberlain, Nietzsche em Turim, em que a autora realiza uma interessante jornada pela vida e pelo pensamento de Nietzsche – o qual, nas palavras de Alain de Bottom, “emerges as a kind, awkward man with an immense, unsatisfied hunger for love” (Los Angeles Times Book Review).

A autora – que também participa do documentário da BBC Humano, Demasiado Humano – não procura dar respostas definitivas ou resolver de vez o enigma da esfinge. Ao contrário, convida-nos a conhecer em minúcias as circunstâncias existenciais que precederam o naufrágio e assim nos convida a indagar das razões que conduziram o barco nietzschiano a pique.

Para Lesley Chamberlain, Nietzsche lutou com a doença como Laocoonte batalhando contra as serpentes na clássica escultura; ao abraçar o cavalo nas ruas de Turim, encenou na vida real um sonho de Raskolnikov em Crime e Castigo, e manifestou, segundo a interpretação de Milan Kundera, horror diante da crueldade humana diante dos animais; ao celebrar o deus Dioniso e seus ditirambos, quis cantar um hino de júbilo à existência em sua absurdidade, irracionalidade e inexplicável deleite, ao mesmo tempo que lamentou por uma comunidade bacântica que não chegou a vivenciar…

O filósofo, que na juventude havia ficado tão impressionado pela música de Wagner, em especial Tristão e Isolda, viveu em Turim o último ato da tragicomédia de sua existência consciente. Parece-me que não entenderemos seu naufrágio se não levarmos em conta que este homem solitário, apaixonado pela música e pela vida, não encontrou para sua voz um lugar no humano coral.

Mas sua voz de solidão prossegue ecoando, séculos depois de sua morte, assombrando-nos e iluminando-nos, instigando-nos e provocando-nos, cheia de luzes e sombras, cantos e lamentos, choros e risos, sabedoria e insanidade… Tudo mesclado e cambiante, como a própria chama da vida que dança ao sabor dos ventos do fado, lutando contra a morte enquanto mantêm queimando sua ânsia insaciável por alegria e potência… Para citar o poeta Quintana: “que importa restar em cinzas se a chama foi bela e alta?”

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Friedrich-Nietzsche

Passo a palavra à Lesley Chamberlain:

“Nietzsche’s readiness to espouse the Dionysian was there even in 1870. He believed that there could be, as there once had been, an art form capable of embracing life’s horrors and irrationalities without needing to explain them or sublimate them or lessen the furious pace of their attack. In this sense pain could be directly confronted and celebrated without loss of present vitality and without what we would surely call today ‘repression’…” (pg. 39)

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“Three things high mountains signified for Nietzsche: aesthetic beauty, moral courage and intellectual clarity. (…) The high vantage point gave him not a sense of the world below being inferior to some higher realm, but a sense of the sheer relativity of its judgements. The paradox was that the realization of limitation was liberating. The Upper Engadine’s 5.500 feet above sea level stood for the most desirable capacity in human beings to see far over the heads of individual nations and people and creeds, the ability to survive by rising above the fray, and the need to go beyond the familiar world in order to see the arbitrariness of its values…” (99)

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“Nietzsche’s famous rejection of pity demonstrates how pity diminishes the integrity of the other. If I flood another person with pity I may dull his or her ability to find strenght within, for pity is a crippling kind of sympathy which confirms misfortune and woe, expressing the idea: ‘Yes, hasn’t life treated you badly, you deserve to feel sorry for yourself.’ At issue for Nietzsche the psychologist is the way people manipulate each other, often making others feel weak in order to enhance their own power. It is the manipulativeness that Zarathustra and Nietzsche reject as being beneath love…” (103)

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“Spinoza had said the act of knowing involved an act of laughter, an act of mourning and and act of cursing. Nietzsche homed in on those subconscious processes For him the act of knowledge embraced subconsciously that mixture of moods he consciously favoured as a working method. Knowledge – and love – emerged out of a confrontation on the battlefield of the subconscious, which engages our powers to spurn and to ridicule, to welcome, cherish and mourn… (cf. The Gay Science 179)”

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“Nietzsche loathed the repression of the sensual as a supposed moral value, hence much of his invective against the Church. The achievement of ‘The Genealogy of Morals’ was to see this institutionaized repression, practised by the Church, in political terms. Nietzsche’s ascetic priest and his ‘ideals’ spoke of totalitarianism in all but name nearly 50 years before the 20th century invented it, and impressively anticipated Wilhelm Reich’s criticism of the ‘mass psychology of Fascism…” (151)

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“Nietzsche fought a tremendous battle with sickness. He was like the outcast Trojan priest Laocoon, resisting the punishing sea serpents to the last breath. Thinking of the meaning of that classical statue, depicting terror and resignation, Nietzsche considered Laocoon’s fate showed the Apollonian forces of life yielding to Dionysus. The statue could have worn his face.” (182)

laocoonte

Uma das mais célebres esculturas da Antiguidade, “Laocoonte

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“A dithyramb originally described the song of Dionysus. It was an expression of intoxication and community, with Dionysus leading others in choral song. The choral element was what first inspired Nietzsche to see in Wagner’s music a rebirth of the Dionysian. (…) The dithyramb also bore, in its modern meaning of a poetic tone more than a form, a much closer personal significance for Nietzsche. It betokened wild howling, vehement expression. Nothing could have been more apt for a poet in love with the masks of self-intoxication and madness. What a way to rebel against being made chaste and virtuous by misfortune! The medium itself expressed a desire to be sensually out of control. Had Nietzsche used the form to greater artistic effect his poems might have become iconic for the modern condition, like Munch’s ‘The Scream‘, because they are a kind of howling after lost community. All of Nietzche’s writing where the pictorial and the musical dominate over the discursive could be called Dionysian and dithyrambic. They sing, they laugh, the flash colour, they luxuriate in texture…” (191)

"O Grito" de Edvard Munch (1863-1944)

“O Grito” de Edvard Munch (1863-1944)

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“On 3 January 1889 he tearfully embraced a mistreated nag in the street. The horse under duress was pulling a public conveyance. (…) In his embracing the horse several writers through the 20th century have seen a human being commiserating with an abused soul. Nietzsche rebelled against human cruelty and crudeness by hugging this horse who was his partner in metaphysical abjectness.

It is possible too that he had read the passage in Dostoievsky’s ‘Crime and Punishment‘ where Raskolnikov dreamed of throwing his arms around a mistreated horse. When Nietzsche dreamed of the mistreated horse he felt pity; he wanted to weep. Now in reality some ultimate autobiographical urge made him embrace a real hose…

kunderaThe Czech novelist Milan Kundera wondered in ‘The Unbearable Lightness of Being‘ if Nietzsche did not beg this wonderful equine specimen to forgive Descartes for believing animals do not have souls. Kundera found Nietzsche’s to be a symbolic gesture against the dominance, the arrogance of the human mind over nature, against blind worship of progress…” (p. 210)

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Na sequência, assista na íntegra aos filmes Dias de Nietzsche em Turim, de Julio Bressane e Rosa Dias, e Humano Demasiado Humano, documentário da BBC inglesa (que também inclui episódios sobre Heidegger e Sartre). Boa viagem!

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“Para atrair muitos para fora do rebanho – vim para isso!” – Zaratustra

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A FIDELIDADE À TERRA
Estudos sobre Assim Falou Zaratustra
(Cia das Letras, 2011, trad. Paulo César de Souza)
por Eduardo Carli de Moraes

  1. CONTRA OS QUE PREGAM NA CRUZ OS HUMANOS!

zara1Podemos considerar Assim Falou Zaratustra como um escrito religioso? Estamos diante de uma tentativa nietzschiana de compor uma nova bíblia ou algo a ser reverenciado como sagrado? A estas questões podemos seguramente responder negativamente: em sua autobiografia, Ecce Homo, Nietzsche é explícito em afirmar que ali não fala nenhum fundador de religião e que seu autor prefere ser considerado mais um sátiro do que um santo. Ademais, a filosofia do autor de O Anticristo e O Crepúsculo dos Ídolos inclui um vasto empreendimento de desmistificação e crítica da religião: o conjunto da obra nietzschiana está repleta de dinamitações das idolatrias e das superstições, sendo evidente que Nietzsche jamais pretendeu escrever algo a ser sacralizado ou solidificado em dogma.

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Heinrich Heine, um dos poetas que Nietzsche mais admirava

 A edição brasileira da Companhia das Letras traz em sua contra-capa, por exemplo, a ideia de que “o profeta Zaratustra deixa seu esconderijo nas montanhas para pregar aos homens um novo evangelho”, formulação equívoca e que certamente desagradaria ao próprio Nietzsche, que jamais se mostrou desejoso de escrever um “novo evangelho”. E nada lhe causava mais horror do que a perspectiva de um dia ser canonizado!  Preferimos considerar o Zaratustra como uma obra-de-arte, um livro onde as fronteiras entre a filosofia e a literatura, o pensamento racional e a poesia lírica, o misticismo e a música, são dissolvidas. Uma obra em que aparecem unidas a crítica social, a busca pelo conhecimento e a ânsia de criar beleza. Um monumento da criatividade humana onde a ética e a estética dão as mãos. Nietzsche compôs um livro impregnado de lirismo e eloquência poética, cheio de elementos lúdicos e satíricos, que revela muitos traços da influência exercida sobre ele por alguns de seus autores prediletos – como Hölderlin, Heine, Byron e Goethe. Ademais, o livro carrega um alto grau de musicalidade, podendo ser designado como um “poema sinfônico”, como frisa Paulo César de Souza:

 “Nietzsche tinha uma preocupação extrema com a sonoridade das frases, e sempre recordava que ler, para os antigos gregos, significava ler em voz alta. (…) A arquitetura de Assim falou Zaratustra tem alguma afinidade com obras musicais. Não tanto porque as quatro partes corresponderiam aos movimentos de uma sinfonia, mas pelo empenho em dar expressão a muitos tons e sentimentos. (…) O compositor Gustav Mahler, por exemplo, disse que o Zaratustra ‘nasceu completamente dentro do espírito da música’. O que não chega a surpreender, sendo Nietzsche o filósofo que mais intensamente se envolveu com música e tendo sido ele próprio um (modesto) compositor.” (SOUZA, P.C. Posfácio à “Assim Falou Zaratustra”. São Paulo: Ed. Cia das Letras, 2011. Pg. 345.)

Vale lembrar que a obra de Nietzsche também inspirou a composição homônima de Richard Strauss, composta em 1896 e cujas 9 partes são todas batizadas com nomes de capítulos do Zaratustra; a abertura, que representa o nascer do Sol, tornou-se célebre ao ser utilizada por Stanley Kubrick em 2001: Uma Odisséia Espacial (1968).

Compreendido no contexto das outras obras de Nietzsche, marcadas por uma hostilidade escancarada em relação ao cristianismo e por uma crítica feroz de toda “moralidade de rebanho”, torna-se evidente que Assim Falou Zaratustra é uma obra que destoa dos escritos ditos “sagrados” pela profusão de conteúdos ímpios, blasfematórios e heréticos que povoam suas páginas. O Livro I, por exemplo, termina com uma máxima claramente atéia, na qual o crepúsculo dos deuses e a aurora de uma nova humanidade são anunciados como fenômenos consecutivos: “Mortos estão todos os deuses: agora queremos que viva o super-homem!”

Se os profetas das mais variadas tradições religiosas exigem de seus seguidores a fidelidade absoluta e a obediência completa, Zaratustra, pelo contrário, é aquele que recomenda a suspeita e a desconfiança em relação a todos os profetas, a começar por ele próprio: “afastai-vos de mim e defendei-vos de Zaratustra! (…) Retribuímos mal a um professor, se continuamos apenas alunos. E por que não quereis arrancar louros da minha coroa?” (Livro I, Da Virtude Dadivosa, #3). Palavras escritas por um filósofo que se auto-denominava um “mestre da suspeita” e que dizia que todo autêntico pensador tem o “dever da desconfiança”!

camelo

Vê-se claramente que não estamos diante de um mestre que exija subserviência e submissão, mas sim de alguém que convida seus alunos ao pensamento independente e à vontade própria. Isto se torna ainda mais claro na parábola sobre o camelo, o leão e a criança (“Das Três Metamorfoses”): nela, o camelo é símbolo de uma reverência servil, de quem “se ajoelha e quer ser bem carregado” (Livro I, Das Três Metamorfoses, p. 27). Esta besta-de-carga, que renuncia à sua vontade própria e deixa que seu lombo seja carregado com pesados fardos, este triste camelo resignado e sofredor, é o que Zaratustra nos exorta a enxotar de nosso espírito com um rugido leonino!

No Livro III, Nietzsche retoma o tema quando versa sobre seu arqui-inimigo, o “espírito de gravidade”, frisando que a batalha de Zaratustra é contra tudo o que é imposto – como cruz! – às costas dos humanos, tornando-os vergados, corcundas, forçando-os a cair de joelhos. A rebeldia do leão que diz “não!” é, portanto, uma etapa essencial na metamorfose do espírito em sua caminhada rumo à possibilidade de se transformar num genuíno criador.

“Quase no berço já nos dão pesados valores e palavras: ‘bem’ e ‘mal’ – é como se chama esse dote. (…) E nós – carregamos fielmente o que nos dão em dote, em duros ombros e por ásperas montanhas! E, se suamos, nos dizem: ‘Sim, a vida é um fardo!’ Mas apenas o homem é um fardo para si mesmo! Isso porque carrega nos ombros muitas coisas alheias. Tal como o camelo, põe-se de joelhos e deixa que o carreguem bastante. Em especial… o homem no qual é inerente a veneração: demasiados valores e palavras pesados alheios põe ele sobre si – e então a vida lhe parece um deserto!” (Livro III, Do Espírito de Gravidade,  #2, p. 184).

zara2Claramente se vê que a reverência acrítica, a obediência à figuras de autoridade, a servidão voluntária, parecem abomináveis a Nietzsche, um dos filósofos que mais ardor pôs em denunciar a tendência a obedecer-sem-pensar. São inumeráveis as ocasiões em que Zaratustra critica a covardia de seguir-o-fluxo, indo onde o rebanho vai: nada mais detestável do que uma pessoa que, em tudo que faz, é uma mariazinha-vai-com-as-outras ou uma obediente seguidora de ordens que descem da boca do opressor, do governante, do sacerdote. O que Zaratustra busca não são crentes, papagaios de sua doutrina, repetidores de dogmas, disseminadores de uma decoreba, veneradores imbecis de autoridades transformadas em estátuas:

“Vós me venerais; mas e se um dia vossa veneração tombar? Cuidai para que não vos esmague uma estátua! Dizeis que acreditais em Zaratustra? Mas que importa Zaratustra? Sois os meus crentes: mas que importam todos os crentes? Ainda não havíeis procurado a vós mesmos: então me encontrastes. Assim fazem todos os crentes; por isso valem tão pouco todas as crenças. Agora vos digo para me perder e vos achar; e somente quando todos vós me tiverdes negado eu retornarei a vós.” (Livro I, Da Virtude Dadivosa, #3)

Seria pois legítimo chamar de profeta uma figura que detesta os crentes, que não deseja ser o pastor de um rebanho uniforme e que recomenda a cada um que siga a trilha da independência? Zaratustra não seria muito mais o anti-profeta, hostil a todos os pastores, arredio ao autoritarismo daqueles que desejam ser seguidos, obedecidos e venerados? De fato, Zaratustra veicula críticas severas àqueles que agem sempre por “instinto de rebanho”, motivados por um impulso gregário que os leva se unirem em seitas para fugirem de si mesmos. Só julgam insuportável a solidão aqueles que não suportam a companhia de si mesmos – e estes jamais conquistarão nenhuma sabedoria. “Todo isolamento é culpa: assim fala o rebanho…” (Livro I, Do Caminho do Criador, pg. 60)

O fato de Zaratustra ter escolhido o isolamento voluntário nas montanhas, onde viveu como um eremita por 10 anos, explicita que se trata de uma figura que, como outras na história religiosa, buscou a iluminação através da meditação solitária – de modo semelhante, por exemplo, a Sidarta Gautama (o Buda). Contra a tendência de pastores e pregadores a culpabilizarem aqueles que se desgarram do rebanho, Zaratustra afirma que a sabedoria só é possível para aquele que tem a ousadia desse desgarramento. “De companheiros vivos necessito, que me sigam porque querem seguir a si mesmos… Zaratustra não deve se tornar pastor e cão de um rebanho! Para atrair muitos para fora do rebanho – vim para isso. Povo e rebanho se enfurecerão comigo: Zaratustra quer ser chamado de ladrão pelos pastores.” (Prólogo, #9, pg. 23)

A essência dos ensinamentos zaratustrianos vão num sentido radicalmente contrário à mensagem de quase todos os profetas religiosos: Zaratustra não exige fé nem esperanças supraterrenas; afirma que não existem transcendentes paraísos nem infernos; nega que exista vida após a morte do corpo; afirma que Deus está completamente morto e se auto-denomina o “sem-deus”… Em suma: se Zaratustra pudesse ser chamado de profeta, teríamos que compreendê-lo como uma espécie revolucionária de profeta ateu, que jamais fala sobre um vindouro Reino de Deus, nem de qualquer Redenção dos Pecados. Se há a presença forte do futuro nos ditos de Zaratustra, trata-se sempre do futuro da Terra e da Humanidade, jamais de um suposto Além-Mundo post mortem.

No capítulo Dos Sacerdotes, do Livro II, torna-se explícita a antipatia que Zaratustra sente por seus “inimigos”, os sacerdotes, que “lhe causam pena e também ofendem seu gosto”:

rio de janeiro

“Para mim, são prisioneiros… Aquele a quem chamam Redentor lhes pôs correntes – cadeias de falsos valores e palavras ilusórias! Ah, se alguém os redimisse de seu Redentor! (…) Canções melhores eles teriam de me cantar, para que eu aprendesse a acreditar em seu Redentor: os discípulos deste teriam de me parecer mais redimidos! (…) Em verdade, seus redentores mesmos não vieram da liberdade e do sétimo céu da liberdade! Em verdade, eles mesmos nunca andaram sobre os tapetes do conhecimento! O espírito desses redentores era feito de lacunas; mas em cada lacuna haviam posto sua ilusão, seu tapa-buraco, que chamavam de Deus.” (Livro II, Dos Sacerdotes, p. 87)

As crenças religiosas, como é tão recorrente na obra de Nietzsche, são explicadas a partir da psicologia, ou seja, a partir de “carências” humanas que estas crenças nascem para remediar – em linguagem zaratustriana, portanto, Deus é a invenção de homens que o criaram como “tapa-buraco” para suas lacunas. Uma perspectiva semelhante sobre a gênese das idéias religiosas, consideradas como fruto das fraquezas e insuficiências humanas, encontra-se em muitos autores contemporâneos ou posteriores a Nietzsche – como, por exemplo, Feuerbach, Max Stirner, Karl Marx e José Saramago.

No Livro IV, quando Zaratustra encontra o personagem do “Último Papa”, uma espécie de figura crepuscular de uma religião moribunda, explicita-se ainda mais o que Nietzsche rejeita no monoteísmo e na divindade como a imagina a tradição judaico-cristã. A ideia de um deus colérico, vingativo, que age através de dilúvios e bolas de fogo, que comete os mais gigantescos genocídios, que ameaça com punições infernais e seduz com recompensas celestiais, tudo isso parece abominável aos olhos de Zaratustra: “Quem o exalta como deus do amor não tem o amor em alta conta. Não pretendia também ser juiz esse deus? Mas quem ama, ama acima do prêmio e do castigo. Quando ele era jovem, esse deus do Oriente, era duro e vingativo, e construiu um inferno para o gozo de seus favoritos…” (Livro IV, Aposentado, p. 247).

Em uma carta da época em que redigiu Assim Falou Zaratustra, endereçada a seu amigo Franz Overbeck, Nietzsche descreve “o espanto que sentiu ao presenciar, em Roma, devotos que subiam de joelhos a escadaria de São Pedro (carta de 20 de maio de 1883)” [Nota de Paulo César de Souza, pg. 322]. Inspirado por este assombro diante dos penitentes, Nietzsche põe na boca de Zaratustra uma série de diatribes contra aqueles que “não souberam amar seu Deus de outra forma senão pregando na cruz o ser humano!” (Livro II, Dos Sacerdotes, pg. 88). As igrejas construídas pelos sacerdotes são descritas como “cavernas” de “luz falseada” e “ar abafado” onde os sacerdotes exigem os atos mais indignos: a submissão e o auto-rebaixamento.

“Sua fé ordena: ‘Subi de joelhos, ó pecadores!’ Quem criou tais cavernas e degraus de penitência? Não foram aqueles que queriam se esconder e se envergonhavam diante do céu puro?“ (p. 87) Claramente, Zaratustra fala contra a pregação sacerdotal que inculca a vergonha, a culpa, a necessidade de penitência e subserviência. Zaratustra não cessa de expressar seu nojo e seu desgosto com uma humanidade que dobra os joelhos diante de falsos profetas e ídolos monstruosos. Zaratustra quer, antes de tudo, retirar o homem de sua cruz, aliviar o camelo do fardo em seu lombo, devolver aos humanos o canto, o riso e a alegria terrestre.

Zaratustra não possui igrejas ou templos onde deseja ver congregados seus seguidores; pelo contrário, aprecia as caminhadas ao ar livre, o cume das montanhas, a paisagem ampla contemplada com brisa no rosto. Poderíamos dizer que nenhum templo de pedra o satisfaria e que, como Dionísio, ele só aprecia cultos a céu aberto. Nietzsche, filósofo  demolidor de ídolos, procura dessacralizar e parodiar a imagem solene do Cristo martirizado e crucificado: ao invés da coroa de espinhos, Zaratustra usa uma coroa de flores e se diz  discípulo deste “deus carnavalizador” que é Dionísio.

Para Nietzsche, a tradição judaico-cristão acarretou uma terrível decadência para a humanidade, que passou a cultuar o martírio, a auto-renúncia, o sacrifício-de-si, como se a mensagem de Jesus Cristo fosse esta: “carregue resignado a cruz do teu sofrer na esperança de uma recompensa por vir!” Zaratustra é inimigo da cruz, este instrumento de pena capital usado pelos romanos contra milhares de pessoas assassinadas pelo Império! E é uma estranha perversão transformar a mensagem de Jesus de Nazaré, eivada de exortação ao amor ao próximo e à caridade terráquea entre mortais, numa apologia do sofrimento voluntário e do ressentimento impotente que se contenta com a imaginação de outros-mundos! Zaratustra, longe de cultuar o sofrimento redentor, é uma figura dionisíaca, firmemente plantado no jardim terrestre, que não acredita em nenhum mundo transcendente. Como lembra Maria Cristina Ferraz, recuperando as divindades gregas Apolo e Dionísio que tanta importância tiveram na obra de Nietzsche sobre A Origem da Tragédia,

“Dionísio difere de seu irmão Apolo, o deus arquiteto do panteão, fundador de grandes cidades, pois sua morada preferida será sempre um templo ao ar livre, um belo antro sempre verde; e, para os iniciados, um lugar onde cantar o evoé.” (FERRAZ: O Bufão dos Deuses, p. 87) É neste contexto que se deve compreender a fala de Zaratustra (Livro III, Os 7 Selos, # 2), quando este diz “amar até mesmo as igrejas e os túmulos de deuses, quando o olho puro do céu atravessa os tetos em ruína; gosto de me sentar sobre igrejas em ruína.” Como sintetiza Ferraz, “sobre as ruínas do cristianismo senta-se, triunfante, o antigo deus nômade; sobre os escombros da tradição judaico-cristã Dionísio se reapropria dos velhos templos…” (FERRAZ: op cit, p. 88).

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2. O ZARATUSTRA HISTÓRICO SEGUNDO MIRCEA ELIADE

O ataque virulento contra as autoridades sacerdotais, os valores transcendentes e as esperanças supraterrenas, marcas tanto da filosofia nietzschiana quanto dos discursos de Zaratustra, não impedem que muitos considerem o “tom” da obra muito aparentado com o de outros escritos “sagrados”. O tradutor brasileiro de Nietzsche, Paulo César de Souza, pondera sobre as “manifestações de um sentimento profundamente religioso” em Assim Falou Zaratustra nos seguintes termos:

“A reverência ante os problemas fundamentais da vida, a intensidade da indagação, a proposta de redenção da humanidade, os conceitos de “sobre-humanidade” e de eterno retorno das coisas, e ainda mais o tom em que tudo isso é expresso, são manifestações de um sentimento profundamente religioso, e remetem a um tempo em que religião, poesia e pensamento mal se distinguiam um do outro, ao período pré-clássico da Antiguidade, tão estimado por Nietzsche.” (pg. 346)

De fato, Assim Falou Zaratustra traz muitas referências e alusões aos livros sagrados das mais variadas culturas. Múltiplas alusões à Bíblia, muitas vezes paródicas, povoam a obra.  Como Souza soube tão bem notar, marcam presença também muitos elementos da tradição religiosa oriental, que Nietzsche decerto conhecia e estudava há tempos, a ponto de ter escolhido um verso do Rig Veda hinduísta como epígrafe de Aurora (“há tantas auroras que ainda não nasceram…”).

Como leitor atento da obra de Schopenhauer, Nietzsche decerto adquiriu muito conhecimento sobre a “espiritualidade” oriental que tanto influenciou o autor de O Mundo Como Vontade e Representação. Já Paul Deussen, com quem Nietzsche estudou filologia na juventude e que foi um de seus amigos mais próximos e fiéis, chegou a escrever grandes e minuciosas obras sobre o tema, com destaque para O Sistema dos Vedanta, que Nietzsche certamente leu, como indicam sua correspondência com este camarada. De modo que o autor do Zaratustra possuía um amplo leque de leituras e saberes a respeito das crenças, mitos, ritos e profetas das mais variadas vertentes religiosas, algo essencial de se manter em mente na decifração de Assim Falou Zaratustra, texto tecido a partir de uma rica inter-textualidade. Por exemplo: os discursos do Buda normalmente terminavam com um “assim falou o sublime”, o que pode ter influenciado o recorrente desfecho das falas zaratustrianas.

eliadeSabe-se ainda que o personagem principal da obra de Nietzsche se baseia numa personalidade histórica, Zaratustra ou Zoroastro, um profeta-poeta que viveu na antiga Pérsia (atual Irã), aproximadamente entre 628 e 551 a.C. Suas doutrinas integram o Zend-Avesta, reunião dos textos sagrados do zoroastrismo. Segundo o historiador das religiões Mircea Eliade, os gathas (hinos) de Zaratustra estão repletos de “poemas enigmáticos suscetíveis de fascinar o não especialista” e “inscrevem-se numa velha tradição indo-europeia de poesia sagrada” (ELIADE: História das Crenças e das Ideias Religiosas, Volume I: Da Idade da Pedra aos Mistérios de Elêusis, Ed. Jorge Zahar, p. 289 e 291).

 Quanto ao problema da “historicidade de Zaratustra”, Eliade pondera: “Depois de algumas gerações, a memória coletiva já não consegue conservar a biografia autêntica de uma personagem eminente; esta acaba por se tornar um arquétipo, no sentido de exprimir unicamente as virtudes de sua vocação, ilustrada por acontecimentos paradigmáticos específicos ao modelo que ela encarna. Isso é verdadeiro não só para Gautama Buda ou Jesus Cristo, mas também para personagens de menor envergadura… Os gathas, considerados pela maioria dos eruditos como obra de Zaratustra, contêm alguns detalhes autobiográficos que confirmam a historicidade de seu autor. Aliás, eles são as únicas referências de que dispomos sobre sua vida.” (ELIADE, op cit, p. 290).

De acordo com a reconstituição de Eliade, Zaratustra pertencia a um clã de criadores de cavalo e era extremamente pobre; “segundo a tradição, Zaratustra veio ao mundo rindo” (p. 293); adorava uma divindade chamada Aúra-Masda e foi uma das figuras mais importantes da religião masdeísta; “a comunidade a que ele dirigiu sua mensagem era constituída de pastores sedentários”. Zaratustra é um crítico feroz dos sacerdotes “sacrificantes”, “ataca violentamente as pessoas que sacrificam bovinos” e “incita seus companheiros a rechaçar pelas armas os inimigos, o ‘mau’…” (p. 291).

Zarathustra 02Em sua análise dos textos litúrgicos do zoroastrismo, os Yasna, Eliade comenta que “causam espanto a urgência e a tensão existencial com que Zaratustra interroga seu Senhor: roga-lhe que o informe dos segredos cosmogônicos e que lhe revele seu futuro… Cada estrofe do célebre Yasna é introduzida com as mesmas palavras: ‘Eis o que te pergunto, Senhor – queira responder-me!’ Zaratustra deseja saber ‘quem determinou o curso do Sol e das estrelas’, ‘quem fixou a Terra embaixo, o Céu nas nuvens, de sorte que não caia?’, e suas perguntas relativas à Criação sucedem-se num ritmo cada vez mais intenso.” (p. 292) O Zaratustra persa é portanto uma figura que tenta decifrar os enigmas cosmogônicos, as esfinges das estrelas, de maneira similar às abissais reflexões do Zaratustra nietzschiano sobre a Eternidade.

Nietzsche também explica sua escolha deste personagem, em Ecce Homo, dizendo que Zaratustra foi o primeiro a estabelecer uma dicotomia radicalmente maniqueísta entre Bem e Mal: “Zaratustra foi o primeiro a ver na luta entre o bem e o mal a roda motriz na engrenagem das coisas – a transposição da moral para o plano metafísico, como força, causa, fim em si, é obra sua. (…) Ele criou esse mais fatal dos erros, a moral; em consequência, deve ser também o primeiro a reconhece-lo.” (Posfácio, pg. 339). Eliade concorda que o Zaratustra persa era alguém obcecado com a moral: “o castigo dos maus e a recompensa dos virtuosos são, para Zaratustra, obsessões. Ele não se esquece de interrogar o Senhor sobre a punição imediata de ‘quem não dá o salário a quem o mereceu’. Mostra-se impaciente diante da impunidade dos membros das ‘sociedades de homens’ que continuam a sacrificar bovinos.” (ELIADE: #101, p. 292). “O combate contra os demônios, isto é, contra as forças do mal, constitui o dever essencial de todo masdeísta.” (p. 293)

Eliade também sublinha que Zaratustra e seus primeiros seguidores são tidos por muitos estudiosos como praticantes do “êxtase característico dos xamãs centro-asiáticos” e que estava familiarizado com técnicas xamânicas indo-iranianas. “Na tradição avéstica o próprio Zaratustra gozava da fama de entregar-se ao êxtase” e é “provável que o canto desempenhasse um papel importante” na conquista do transe. Vishtaspa, um dos primeiros discípulos de Zaratustra, responsável pela disseminação de suas idéias e hinos, é descrito pela tradição como alguém que “utilizava o cânhamo (bhang) para alcançar o estado extático” (p. 294). Não é nada absurdo, portanto, supor que haja semelhanças entre este xamanismo masdeísta do Zaratustra histórico e os ritos dionisíacos que Nietzsche sublinha em sua meditação sobre a Grécia do período trágico. Eliade sublinha ainda que a “experiência mística masdeísta é o resultado de uma prática ritual iluminada pela esperança escatológica”.

A divindade adorada pelo Zaratustra persa, Aúra-Masda, “criou o mundo por meio do pensamento, o que equivale a uma creatio ex nihilo” (p. 295). Esta divindade dá ao homem a liberdade de escolher entre o bem e o mal e há uma “viagem dos mortos” a um local de julgamento, onde “cada um será julgado de acordo com a escolha que efetuou na Terra. Os justos serão admitidos no paraíso, na ‘casa do canto’; quanto aos pecadores, permanecerão ‘para sempre hóspedes da casa do mal’ (Yasna, 46:11)”. (ELIADE: p. 297). As semelhanças com a mitologia judaico-cristã que surgirá séculos depois não param por aí, já que

“o ponto de partida da predicação de Zaratustra é a revelação da onipotência, da santidade e da bondade de Aúra-Masda. Ao escolher Aúra-Masda, o masdeísta escolhe o bem contra o mal, a verdadeira religião contra aquela dos daevas. Por conseguinte, todo masdeísta deve lutar contra o mal. Nenhuma tolerância com relação às forças demoníacas… Essa tensão não tardará a solidificar-se em dualismo. O mundo será dividido em bons e maus, e acabará por assemelhar-se a uma projeção, em todos os níveis cósmicos e antropológicos, da oposição entre as virtudes e os seus contrários. Uma outra oposição é apenas indicada, mas terá um grande futuro na especulação iraniana: aquela entre o espiritual e o material, entre o pensamento e o ‘mundo ósseo’ (Yasna, 28:2)” (p. 298-299).

O personagem de Nietzsche, longe de ser construído em fidelidade a seu protótipo persa, é em muitos aspectos a subversão exata deste: se o antigo Zaratustra era um maniqueísta, o Zaratustra nietzschiano é alguém que pretende “ir além do bem e do mal”; se o antigo Zaratustra acreditava na criação a partir do nada (ex nihilo) e numa temporalidade linear, com início no ato criador do cosmos de Aúra-Masda e com desfecho num julgamento final, o Zaratustra nietzschiano concebe o tempo como um círculo ou um anel, afirmando uma eternidade cuja trilha é curva. Em suma, Nietzsche não respeita as características do profeta persa, mas o remolda e subverte até transformá-lo numa figura dionisíaca, dançarina, cantarolante, que santifica a própria risada e é inimiga de todos os camelos carregadores de cruzes.


A SER CONTINUADO…