SATIRIZANDO TEMER: Poemas-escracho de Daniel Ramos, do perfil fake @temerpoeta, mostram a potência do escracho cáustico e criativo

Nada obriga a contracultura a ser tão sisuda e truculenta quanto seus adversários, os epígonos da cultura oficial, quase sempre moralista e autoritária. A sátira é uma das armas mais afiadas que as forças libertárias, ditas “contraculturais”, podem usar para destronar aqueles que só sobem aos tronos através de “tenebrosas transações”, para relembrar Chico Buarque (ele mesmo tão capaz de brilhar os cale-se com cálices de suingado lirismo e malandra esperteza).

No Brasil, em 2016, um exemplo muito interessante, instrutivo, criativo e potente de prática cultural, a um só tempo crítica e lúdica, são os trabalhos de escracho-arte do Daniel Ramos. Criador do perfil fake @temerpoeta, que rapidamente logrou atingir certo hype na cibercultura, ainda que não ao ponto de viralizar como clipes-só-de-nudes-da-Clarice Falcão, o Daniel Ramos é o criador da revista Caroço (disponível na livraria A Casa de Vidro por R$12) e autor de alguns dos petardos mais bem atirados à testa do usurpador que ora nos desgoverna lá do Palácio do Planalto.

Brasília(DF), 27/04/2016 - Michel Temer e Aécio Neves visitam Renan Calheiros - Foto: Michael Melo/Metrópoles

Brasília(DF), 27/04/2016 – Michel Temer e Aécio Neves visitam Renan Calheiros – Foto: Michael Melo/Metrópoles

 O deboche também é uma arma do levante popular antigolpista e nisto iniciativas como a de Daniel Ramos ganham uma dimensão que vai além do humor de entretenimento. Ainda não conheço pensadores e artigos que tenham se debruçado sobre este fenômeno social efervescente que é o escracho como forma de manifestação política, algo que tem decerto uma contundente tradição no Brasil (como o Pasquim em sua cruzada anti-careta e anti-canhões, antagonizando a ditadura militar do Brasil a golpes de charges e anedotas), mas que ganha novos contornos hoje com a cultura dos memes e com uma cibercultura infestada pelo fenômeno da trollagem. 

É minha aposta, provocativa, de que para além das gangues e hordas de trolls fascistas que, na internet, deixam extravasar todo seu repugnante racismo e elitismo, pedindo Bolsonaro como presidente ou exigindo intervenção militar seguida de fuzilamentos de veados tipo o Jean Wyllys, existe também no âmbito da esquerda uma insurreição sócio-política que sabe utilizar-se das armas do humor e que – eis minha provocação – sabe trollar as pessoas certas (os opressores, os golpistas, os plutocratas, os tiranos em conluio com juntas financeiras…).

A esquerda também trolla, e isto se torna bem evidente diante de fenômenos recentes, como aqueles protagonizados pelo Levante Popular da Juventude, que realizou escrachos na frente da mansão do interino-inelegível em São Paulo, ou da Frente Povo Sem Medo e MTST que estrondosamente manifestaram com fogos de artifício seu repúdio ao papel da Fiesp (sediada na Av. Paulista e presidida por Skaf) no golpe de Estado. Artistas como Laerte, Angeli, Latuff, Dahmer, Aroeira, Vitor Teixeira, Rafucko, também demonstraram neste 2016, através da criação de espantosa e prolífica obra, que no Brasil temos pelo menos o consolo, após este ano tenebroso de tantos retrocessos, de que por aqui o senso crítico não morre tão fácil e segue super alerta e operante em nossos melhores comediantes e cartunistas – cáusticos e espertos agentes de um escracho libertário, aos quais se junta uma legião de nomes menos conhecidos, mas também atuantes na criação de uma cultura brasileira contestatória.

Também percebo enquanto cinéfilo que alguns dos filmes que mais me impressionaram por sua capacidade crítica e por sua contundência de denúncia são obras como A Ditadura Perfeita, do mexicano Luis Estrada, e O Ditador, de Sacha Baron Cohen, duas comédias que demonstram o quanto o escracho e a trollagem estão sendo mobilizadas de modo construtivo-crítico bastante instigante, incidindo sobre fenômenos como a manipulação de massas induzida pelos consórcios midiáticos e partidos políticos hegemônicos, revelados a golpes de piadas como uma pantomima grotesca de democracia, uma democracia falsa e de fachada que encobre a tragicomédia obscena de uma plutocracia ultracapitalista, desmiolada e rasa, que apenas constrói Pontes Para o Abismo da austeridade e do apartheid social.

Uma boa matéria em Hypeness destaca o trabalho do Daniel Ramos nos seguintes termos:

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temer-poetaQue o presidente interino Michel Temer é poeta, já vazou na internet. Mesmo tendo publicado o livro Anônima Intimidade, em 2012, foi só depois que chegou ao poder que a fama dos seus versos viralizou de vez – principalmente após a reportagem da Veja sobre a Marcela bela-recatada-e-do-lar Temer, em que uma de suas poesias é usada para ilustrar a relação dos dois.

Agora, a veia poética do presidente ganhou sua primeira paródia na rede: o perfil do Twitter @TemerPoeta, que brinca com diversos aspectos da política nacional, além de fazer piada com a possível relação de Temer com o satanismo. Segundo a Época, o criador da conta é Daniel Ramos, um funcionário público de Brasília, também poeta. A data de nascimento que aparece no perfil falso é de 8 de maio de 1896 – seria a mais antiga permitida pela rede social.

As seguintes sátiras saíram na segunda edição da revista Caroço:

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SONETO DE BESTIALIDADE

Releitura do ‘Soneto de Fidelidade’ de Vinícius de Moraes

De tudo a Belzebu serei atento, antes
e com tal zelo, e sempre, e tanto
que mesmo a alface no sorriso branco
seja na sua boca ornamento

quero invocá-lo em cada pé-de-vento
e em seu louvor hei de investir no banco
metade dólar, meta franco
ou o que sobrar depois do parlamento

e assim quando mais tarde me procure
quem sabe a sorte (angústia de ser vice)
quem sabe a lava-jato (fim de quem dança)

eu possa me dizer do brasil (que tive)
que não seja europeu, posto que é bamba
mas que seja lucrativo enquanto dure

* * * *pecunia

Para mais pérolas, siga Daniel Ramos, o @temerpoeta, lá no Twitter.


SIGA VIAGEM:

ALGUMAS OBRAS DA ESCRACHO-ART BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA

5 DOSES DE VITOR TEIXEIRA:
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5 DOSES DE AROEIRA:


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PUNHALADA – ZINE MANIFESTO CONTRA O GOLPE

punhaPUNHALADA é uma publicação que visa à mobilização política, e a promover discussões sobre nossa democracia e nossos direitos, com o fim de buscar fortalecer a resistência diante dos desatinos do atual momento político. O zine reúne pensadores e ativistas de áreas diversas, incluindo artistas, filósofos, psicanalistas e políticos, que gentilmente colaboraram com o projeto. Serão publicados inicialmente 1000 exemplares e os valores que excederem os custos da execução do projeto serão convertidos em verba para apoiar entidades de ativismo sociopolítico. Organização: Objeto Encontrado – Brasília/DF.

Os colaboradores são Adriano Correia, Augusto Botelho, Carla Damião, Chico Monteiro, Coletivo Transverso, Erika Kokay, Espaço AVI, Fabio Felix, Gustavo Silvamaral, Jandira Feghali, José de Deus, Jul Pagul, Luis Felipe Miguel, Luisa Günther, Lussifer Silveira, Marcia Tiburi, Oscar Fortunato, Paulo Pimenta, Pedro Sangeon, Rodrigo Koshino, Stenio Freitas, Tatiana Lionço e Léo Pimental, Thessa Guimarães, Thiago Petra, a quem muitíssimo agradecemos!

punhalada

NO GOLPE MISÓGINO, OS DIREITOS DAS MULHERES VÃO PRIMEIRO A LEILÃO

Centro Feminista de Estudos e Assessoria (CFEMEA) – “A lição urgente que deve ser aprendida é que em situações de crise política e econômica, nós mulheres e tod@s que estamos subrrepresentad@s nos espaços de poder e decisão somos @s primeir@s prejudicad@s e temos os direitos vendidos e negociados em primeiríssimo turno.” [Saiba mais @ Facebook]

“Na lista das piores ações do Michel Temer depois de consolidar o golpe parlamentar, a aprovação da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 241/55 (2016) atinge em cheio os direitos das mulheres. A PEC da Maldade limita os gastos federais ao índice de inflação do ano anterior; desvincula os benefícios do salário mínimo; e congela em 20 anos os gastos públicos, como os em saúde e educação. A proposta é a principal meta do atual governo para destruir as políticas públicas em curso.

O congelamento dos investimentos inviabiliza a execução de políticas fundamentais para a sociedade e que não podem ser medidas pelos índices de inflação ou de mercado financeiro. A Previdência Social, junto com a Assistência Social e a Saúde, representam o nosso sistema de Seguridade Social. O tripé das políticas públicas mais redistributivas de renda foram comemoradas pelos movimentos sociais e pela sociedade brasileira à época da formulação da nossa Constituição Cidadã de 1988. O desmonte desse sistema representa o abandono da população por parte do Estado.

O desmonte das políticas públicas causam um grande impacto na vida cotidiana das brasileiras. Com a precarização das políticas de saúde e educação, é sobre elas que recai o aumento das jornadas de trabalho e os maiores empecilhos da conciliação entre vida familiar e trabalho assalariado. A realidade das brasileiras caminha no sentido oposto ao proposto pela PEC. São mais e mais mulheres chefes de família, com salários defasados em relação aos homens, trabalhos mais precarizados e com maiores chances de desemprego. O que as mulheres brasileiras precisam é de políticas públicas efetivas…

A primeira presidenta eleita foi afastada do seu cargo num golpe parlamentar e midiático que destituiu concreta e simbolicamente o poder do voto, de eleição e de governo de milhões de brasileiras. Um ataque violento que reverbera no imaginário social, liberando e estimulando a violência machista reinante em nossa sociedade, não só contra a presidenta Dilma Rousseff, mas contra as mulheres em geral. Não por acaso, durante o primeiro semestre de 2016, o número de denúncias de violência contra a mulher recebidas pelo Disque 180 aumentou em mais de 100%…

A lição urgente que deve ser aprendida é que em situações de crise política e econômica, nós mulheres e tod@s que estamos subrrepresentad@s nos espaços de poder e decisão somos @s primeir@s prejudicad@s e temos os direitos vendidos e negociados em primeiríssimo turno.

A arena política da representação partidária é virulenta contra nós mulheres. Somente um novo sistema político, provido de mecanismos para enfrentar o poder patriarcal e o poder econômico, pode avançar para a democratização do poder com a participação das mulheres. As estruturas patrimonialistas mantidas por esses poderes sustentam a corrupção, privilégios raciais e diversas formas de exploração do nosso trabalho produtivo e reprodutivo, bem como de apropriação privada de bens comuns.” (CONTINUA)

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ALLEN GINSBERG [1926-1997] – “Mente Espontânea – Entrevistas 1958 a 1996” #LivrariaACasaDeVidro

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ALLEN GINSBERG“Mente Espontânea – Entrevistas 1958 – 1996”
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ginsbergMente Espontânea reúne uma série de entrevistas, concedidas entre 1958 e 1996, do poeta beatnik e pensador da cultura, Allen Ginsberg, autor daquele formidável Uivo, em larga medida composto sob o efeito psicodelizante do peiote, que tantos de nós – me incluo na lista – consideram um magnum opus na história da poesia contemporânea. Estes bate-papos – alguns deles antes considerados impublicáveis – foram organizados cronologicamente e fornecem um excelente painel sobre a visão de mundo deste luminar da contracultura no século XX.

Ginsberg, mais do que o autor de um one hit wonder literário, mais do que um ícone da Geração Beat junto com Kerouac, Burroughs, Ferlinghetti, Corso, mais do que um cara que influenciou Bob Dylan (agora reconhecido com o Nobel de Literatura 2016), foi uma espécie de sábio-místico-xamã, em busca perene de uma mente em profunda e constante expansão. “Através de suas opiniões podemos ter uma noção da grandeza, força, revolta e gratidão desse pensador que tanto respeito e admiro”, como escreve Lourenço Mutarelli na orelha desta edição publicada pela ed. Novo Século em 2013.

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Em sua introdução, Edmund White avalia que, no decorrer de suas entrevistas,  Allen Ginsberg “reafirma sua alta consideração por William Blake e Walt Whitman. Obviamente, ele ama o Blake visionário e o Whitman democrático sensualista; de fato, a sua personalidade literária pode ser interpretada como uma união dessas duas forças.” (p. 15)

Para Ginsberg, dar uma entrevista era um ato criativo e ao mesmo tempo uma ocasião para ensinar e disseminar suas idéias. Temas recorrentes em suas conversas, aponta E. White, são “a ecologia (ele já alertava sobre o aquecimento global duas décadas antes do alarme geral ter sido acionado), a expansão mental por intermédio das drogas e, mais tarde, do ioga, um engajamento ao pacifismo e à gentileza interpessoal, a homossexualidade, o papel fundamental da espontaneidade na criação artística” (p. 16).

Apologia da cannabis: Ginsberg e sua placa-poema "POT IS FUN" ("MACONHA É MASSA")

Apologia da cannabis: Ginsberg e sua placa-poema “POT IS FUN” (“MACONHA É MASSA”)

Como o próprio Ginsberg diz, em suas entrevistas e conversas ele sempre tratava os interlocutores como seres sencientes, “conversava com as pessoas como se elas fossem futuros Budas.” Costumava derramar sua gratidão sobre artistas e pensadores do presente e do passado que admirava, caso de figuras como Gregory Corso, Kenneth Rexroth, Lawrence Ferlinghetti, Gary Snyder, Jack Kerouac, William Burroughs, Lenny Bruce, Timothy Leary, Carl Solomon, Chogyam Thungpa, dentre outros.

A leitura deste precioso material permite compreender melhor o formidável Uivo, que chaqualhou o cenário poético dos anos 1950, quando publicado em San Francisco pela City Lights Books de Ferlinghetti. Julgado “obsceno e indecente”, o livro logo seria envolvido numa batalha judicial e teria 520 cópias confiscadas pelas autoridades. Hoje, apesar das polêmicas empedernidas que se seguiram à sua publicação e que são narradas no filme estrelado por James Franco, o Howl and Other Poems é tido como uma das obras-primas no cânone literário dos beatniks.

Ginsberg conta que, nesta época em que começa o bafafá em torno de seu livro, a tentativa de censura ao Uivo, ele havia passado pela vivência local de morar junto com Burroughs e Gregory Corso, por 8 meses, em Paris. As diversões da trupe incluíam visitar escritores malditos como Louis-Ferdinand Céline (Viagem ao Fim da Noite Morte a Crédito). Não tenham dúvida de que nesta micro república beat, as vitrolas tocavam muito free jazz bebop, enquanto os moradores viajavam e criavam sob a influência de substâncias das mais variadas.

Retornando a Nova York, em 1960, Ginsberg conclui o poema “Kaddish” – “em parte graças a pílulas de dexedrina” (como revela Ernie Barry, p. 27). No mesmo ano de 1960, sob supervisão do Dr. de Harvard, Timothy Leary, tomou LSD e, voltando da trip, começou a fazer planos sobre a Revolução Psicodélica.

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Cosmonauta da galáxia interior e exterior, Allen Ginsberg uivou diante do dínamo estrelado da noite. Em suas viagens mais pé-no-chão, suas trips no sentido literal do termo, o poeta foi excêntrico e aventureiro em suas explorações do planeta Terra. Esteve em Tel Aviv, onde conheceu Martin Buber e Gershom Scholem. Passou longa temporada na Índia, fase relatada em seus Indian Journals, o que talvez tenha contribuído para torná-lo fissurado em sabedoria oriental e “cofundador da Escola de Poesia Desencarnada no Instituto Naropa, o primeiro renomado colégio budista do mundo ocidental”, segundo a minibiografia incluída neste livro.

Em 1963, sua escolha de turismo foi o Vietnã: foi a Saigon para ver as ruínas de Angkor Wat e ali “se informou com jornalistas e pessoas próximas acerca da situação daquele país e sobre o papel dos norte-americanos em solo vietnamita.” (BARRY, p. 28) Em 1964, em entrevista ao periódico da livraria e editora City Lights (de Ferlinghetti), Allen Ginsberg já falava como ativista de um movimento social dissidente, pacifista, crítico da presença dos EUA no Vietnã – e protestava “vestido” com placas repletas de versos como “man is naked without secrets, armed men lack this joy” “(o homem está nu sem segredos / homens armados carecem dessa alegria). Escrevia clamando – às vezes até mesmo profetizando! – “no more hell in Vietnam” (p. 29).

De Walt Whitman, o poeta das Leaves of Grass, libertador da poesia em relação às correntes do cânone, Allen Ginsberg aprendeu muito, mas sobretudo a coragem da ternura. Ao afirmar o valor da ternura, e a necessidade de coragem para ser termo, de certo soma a sua voz à de Ernesto Che Guevara (“hay que endurecer, pero sin perder la ternura jamás”) e prenuncia Morissey e a vibe do verso dos Smiths: “it takes strenght to be gentle and kind”. Ginsberg, grato e devotado a um dos maiores poetas estadunidenses ever, diz que para Whitman

“foi preciso muita coragem para demonstrar ternura livremente, e pela primeira vez, nos EUA; isto está na base inconsciente de nossa democracia, não é? (…) Só através do afeto e da ternura é que teremos um mundo mais seguro para a prática da democracia. Seja gentil com os policiais; eles não são policiais, são apenas pessoas disfarçadas que foram enganadas pelos próprios disfarces.” (GINSBERG, 1964, San Francisco’s City Lights, p. 31-34)

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CONFIRA TAMBÉM:

SINOPSE: “Uivo” (1956), de Allen Ginsberg, um dos poemas mais importantes da Geração Beat, é um épico irado contra a sociedade desumanizante, que venceu ações de censura e acusações de obscenidade para se tornar um dos poemas mais lidos do século. Admirado por figuras como Bob Dylan e Patti Smith, Allen Ginsberg é um dos mais importantes poetas estadunidenses do século XX e sua obra recebeu nova propulsão com este livro, ilustrado pelo artista Eric Drooker. As ilustrações de Drooker também marcam presença em cenas do filme “Howl”, protagonizado por James Franco (veja o trailer: https://youtu.be/m5U3f-g4WPk). Confira esta graphic novel deslumbrante, inteiramente colorida, 222 pgs. Livro gráfico novo, em perfeito estado. Acesse na Estante Virtual.

O GOLPE É UM ROBIN HOOD ÀS AVESSAS: Roubando dos pobres para dar aos ricos, PEC 241 propõe uma era glacial para Saúde, Educação e Assistência Social no Brasil

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“O BRASIL DE VOLTA À SENZALA”
Por Guilherme Boulos

Não se viu nada igual nos últimos 30 anos. A PEC 241 é o mais ousado ataque ao povo brasileiro desde a ditadura militar, violando a Constituição de 1988 precisamente naquilo em que ela pôde ser chamada de “cidadã”. É uma verdadeira “desconstituinte”, uma ode à desigualdade social.

Aprovada em primeiro turno na Câmara e festejada com brindes de champanhe no jantar do Alvorada, a PEC determina o congelamento dos investimentos públicos pelos próximos 20 anos, até 2036.

Os efeitos disso para os serviços públicos e os salários dos trabalhadores serão fatais. Estimativa dos gastos em saúde e educação nos últimos dez anos, caso a PEC valesse desde 2006, é ilustrativa: o orçamento da saúde em 2016 foi de R$102 bilhões; com a PEC seria de R$65 bilhões. Na educação, ainda pior, o atual orçamento de R$103 bilhões seria de R$31 bilhões, um terço.

No caso dos salários, estudo realizado pela FGV (Fundação Getúlio Vargas) aponta que, se a PEC valesse desde 1998, o salário mínimo seria hoje de R$400, menos da metade do seu valor de R$880. Basta fazer os cálculos de como será daqui a 20 anos, período de vigência da lei proposta. A política de reajuste do salário mínimo, instrumento de distribuição de renda no último período, será sepultada.

O artigo 104 da PEC, apresentado como emenda, prevê expressamente o veto a aumentos salariais acima da inflação, além do congelamento do salário de servidores, em circunstâncias do não cumprimento do teto. Um verdadeiro descalabro.

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O argumento utilizado por Temer – repetido à exaustão na mídia por gente como Miriam Leitão, Carlos Alberto Sardenberg e outros do mesmo clube – é que é preciso conter a dívida pública, tratada como o grande problema nacional. A proporção da dívida em relação ao PIB, crescente no Brasil desde 2014, é hoje de 66,2%.

Nos Estados Unidos, esta proporção é de 104%, na União Européia de 90% e, mesmo na austera Alemanha alcança 71%, acima da brasileira. Nenhum desses países e regiões resolveu congelar investimentos por 20 anos. Não há notícia no mundo de uma medida draconiana desta natureza, ainda menos como cláusula constitucional.

Só num país totalmente capturado pelos bancos e rentistas uma medida como essa seria possível. A relação da PEC com os interesses da casa grande é bem simples de compreender. Vejamos.

É de se supor a retomada do crescimento econômico no país em algum momento durante os próximos 20 anos. Com o crescimento, aumenta a arrecadação. Mas, como o orçamento estará obrigatoriamente congelado pela PEC, esse aumento não poderá ser destinado a investimentos sociais. Para onde irá, então? Para a parte da despesa não afetada pelo teto: o pagamento de juros da dívida pública ao capital financeiro. Ou seja, toda receita pública resultante do crescimento da economia será apropriada para remunerar bancos e demais detentores dos títulos do Estado, com o argumento de redução da dívida pública.

O “Novo Regime Fiscal”, apelido da PEC, é na verdade um novo apartheid social. O abismo da concentração de renda vai se ampliar. Os trabalhadores que ousaram melhorar de vida e exigir o acesso a serviços públicos serão atirados de volta à senzala. Como disse sem pudores o deputado Nelson Marquezelli (PTB-SP): “Quem não tem dinheiro, não faz universidade”. E emendou: “os meus filhos têm e vão fazer”.

Assim será pelos próximos 20 anos, independentemente de quem esteja no governo. Nas próximas quatro eleições presidenciais, se aprovada a lei, os brasileiros não poderão escolher outro projeto, a não ser que três quintos do Congresso o resolvam. Um presidente que não foi eleito define a política econômica para os próximos quatro que o povo venha a eleger. E o voto de mais 50 milhões de pessoas terá de ser homologado por 308 deputados. Alguém ainda se atreverá a chamar isso de democracia?

Aos paneleiros dos Jardins, meus parabéns. Chegaram aonde queriam. Quem nas periferias aplaudiu ou permaneceu em sua indiferença, é hora de acordar, não? E antes que seja tarde demais.

A PEC terá segunda votação na Câmara e depois irá ao Senado. Se não for barrada por ampla mobilização popular, o sonho de milhões de brasileiros ficará congelado pelos próximos 20 anos.

VÍDEOS RECOMENDADOS:


Saiba mais: 10 perguntas e respostas sobre a PEC 241, por Laura de Carvalho

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ROBIN HOOD ÀS AVESSAS
por Eduardo Carli para A Casa de Vidro

Imagine um candidato à presidência da república que, em sua campanha eleitoral, apresentasse à população um programa de governo em que Saúde e Educação fossem apresentados como áreas tão secundárias, tão desimportantes, tão sacrificáveis, que merecessem ter os recursos públicos a elas dedicados – atualmente já bastante escassos, consideradas as autênticas necessidades da população – “congelados” por 20 anos. O hipotético candidato que se apresentasse à população como exterminador confesso de um futuro melhor para a Saúde e a Educação públicas quase certamente seria repudiado pelas urnas e não conseguiria ser eleito.

Mas, como se sabe, quem não tem voto… caça com golpe. O usurpador Michel Temer (PMDB), triunfante após o golpe de Estado perpetrado pelo conluio parlamentar-empresarial-midiático, pretende agora implantar  ditatorialmente uma “reforma” na Constituição de 1988 que jamais teria o aval das urnas.

A PEC 241 pretende instaurar uma era glacial para os direitos sociais mais elementares da população brasileira, uma verdadeira Doutrina do Choque que lembra as políticas de Pinochet, no Chile, após a derrubada do regime de Salvador Allende, quando a doutrina ultraliberal de Milton Friedman e dos Chicago Boys foi enfiada goela abaixo dos chilenos por um governo terrorista, torturador e genocida.

 Recentemente, o golpista-engravatado Michel Temer cometeu sincericídio diante de empresários ao confessar que a derrubada de Dilma Rousseff se deu pela recusa desta em implantar o programa “Ponte Para o Futuro” (do PMDB) – o célebre atalho para o abismo que está sendo proposto como salvação nacional. A Ponte Para o Abismo do PMDBismo golpista e seus sócios da elite endinheirada pretende instaurar um regime de Austeridade e Retrocesso, praticando um Robin Hood às avessas: tirar dos pobres para dar aos ricos; aniquilar saúde, educação e assistência social para continuar pagando centenas de bilhões de reais aos banqueiros em juros. O nome real disso que pelo Golpe está sendo proposto é Genocídio. Ninguém “tesoura” a Saúde Pública sem acarretar sofrimento em cataratas e mortes às mancheias. Caminhamos rumo à distopia yankee documentada por Sicko, o doc de Michael Moore.

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Em seu texto “PEC 241: de volta à terapia de choque”, Rejane Carolina Hoeveler, no Blog de Junho, faz um link oportuno entre a nossa situação atual e os cenários distópicos revelados pela obra “da jornalista Naomi Klein, que em seu livro de 2008 mostrou como a adoção das políticas neoliberais na maior parte do mundo esteve indispensavelmente associada a um aumento exponencial da repressão estatal, ou a governos ilegítimos. A Proposta de Emenda Constitucional número 241, que tramita em regime especial na Câmara dos Deputados, é a mais recente arma de choque da terapia administrada em quase todas as partes do globo que viveram crises capitalistas nas últimas décadas. Talvez não seja casual que ela esteja em vias de ser aprovada por um governo ilegítimo, desobrigado de aplauso popular para se manter no poder. A PEC 241 determina explicitamente a proibição de qualquer aumento real nos investimentos estatais em direitos sociais, políticas públicas e seguridade social por vinte anos no Brasil…” (PROSSIGA A LEITURA: http://blogjunho.com.br/pec-241-de-volta-a-terapia-de-choque/)

 Pois bem: duas décadas sem aumento de investimento estatal em escolas e hospitais é o que propõem estes senhores da “Ordem e do Progresso” – e já se vê que o slogan “Pátria Educadora”, do governo Dilma, foi lançado à lata de lixo da História. Esta Doutrina do Choque, afinada ao credo ultraliberal do Estado Mínimo, ronda-nos agora como um abutre palpável sob a figura sinistra da PEC 241/2016, uma das primeiras propostas que serão votadas naquele mesmo Parlamento que deu o putsch no governo Dilma.

Os prognósticos são péssimos, pois a PEC será votado naquele mesmo Parlamento todo dominado pelas bancadas BBBB (Banco, Bala, Boi, Bíblia… Brrrrasil-sil-sil!), naquele mesmo Parlamento tão infestado de ratos interesseiros e canalhocratas de profissão que, para além de um Golpe de Estado contra a presidenta eleita, também aprovaram medidas como o fim do licenciamento ambiental de obras com potencial impacto socioambiental negativo (ou mesmo devastador). O mar de lama tóxica que assassinou o Rio Doce, além do oceano de torpeza e crueldade dos parlamentares golpistas, vai empurrando o país para uma crise civilizacional que alguns já prevêem similar à da Grécia. O descalabro e a barbárie são tamanhos que, dias depois de consumado o golpeachment, na calada da noite, o sindicato de ladrões quis anistiar os crimes de “caixa 2” de que são culpados tantos dos senhores que votaram pela condenação de Dilma. Diante de tal cenário, o pesadelo da aprovação da PEC 241 é real.

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O atentado aos direitos humanos mais básicos que está a nos ameaçar com a PEC 241 é uma barbaridade tão imensa que é difícil compreender como algum governante tem a pachorra de propor algo do tipo em um contexto de conflagração e polarização sociais tão intensas (terá que encarar agora não somente as manifestações de ruas, mas as greves e as ocupações de escolas, numa perspectiva de acirramento dos enfrentamentos entre o governo federal usurpador e ilegítimo com os movimentos sociais, estudantis, sindicais etc). O Brasil é um barril de pólvora sem escassez de faíscas e fagulhas.

Quando dizemos que o fascismo saiu do armário, é um pouco por causa destas desumanidades escancaradas, por estas propostas de uma Direita que se explicita como tal ao cuspir e escarrar sobre aquilo que deveria ser uma das funções mais quintessenciais do Estado como gestor do bem público e do mundo comum. Nada de fala, no discurso dos golpistas, sobre o combate aos sonegadores de impostos, sobre a tributação das grandes fortunas, sobre a auditoria da dívida pública, sobre os obscenos lucros dos banqueiros, tudo isto deve permanecer intacto para que nosso modelo de Capitalismo Selvagem possa prosseguir seu rumo (que é, evidente, o rumo da Barbárie). Ao invés de aprimorar hospitais e escolas, expandir a rede pública de atendimento via SUS, prosseguir a construção de novas universidades federais e I.F.s, melhorar condições de trabalho de professores, médicos, enfermeiras, ou seja, aumentar os recursos investidos em áreas tão quintessenciais para a qualidade de vida e para o futuro digno de qualquer país, os golpistas que assaltaram o Estado pretendem cometer uma espécie de atentado terrorista contra a Educação e a Saúde.

Ademais, a medida equivale a um genocídio gradualizado, já que a tendência demográfica brasileira é de aumento populacional, e por isso o termo “congelamento” é enganador, eufemístico, pois de fato estamos falando de recursos que serão bem mais escassos para atender a uma população que será maior. Como aponta matéria do Justificando:

“Segundo o IBGE, no ano 2000 o Brasil tinha pouco mais de 173 milhões de habitantes, encontrando-se atualmente com 206 milhões, com uma perspectiva de atingir a marca de 220 milhões em 2027 (dez anos após a vigência da PEC 241), significando que o Estado precisará aumentar os gastos com a prestação de serviços públicos.

Aléem disso foi escolhido o orçamento do ano de 2016 como parâmetro. Ora, esse ano é trágico, marcado por um agressivo corte orçamentário, atingindo as áreas de Educação, Saúde e Judiciário. O Ministério da Saúde sofreu um corte de R$ 2,5 bilhões, em um orçamento bastante semelhante ao ano anterior, enquanto que a Justiça Federal teve um corte de quase 40% e a Justiça do Trabalho de cerca de 45%. Já o Ministério da Educação teve um bloqueio de R$ 1,3 bilhão. Definir um ano deficitário como paradigma do congelamento não é nada razoável!

O Governo se defende. Pretende, com a PEC 241, diminuir os gastos públicos, para fins de gerar superávit primário, permitindo o pagamento dos juros da dívida e melhorando a letra de crédito do Brasil. Mas como diminuir as despesas públicas de educação, saúde e outros serviços em um país com tamanha concentração de renda? No Brasil, 1% dos mais ricos detém 27% de toda a renda, um dos maiores índices de concentração do mundo. Isso tem consequências: aumento da pobreza e, por isso, também da necessidade de criação de políticas públicas, implicando em crescimento das despesas do Estado. Conforme a Agência Nacional de Saúde, 75% dos brasileiros são usuários do SUS. Além disso, a atual crise econômica e o desemprego aumentarão esse número, visto que outros brasileiros cancelarão seus planos de saúde.

(…) Não se está aqui a advogar a desnecessidade de um ajuste fiscal nas contas públicas, porém a forma escolhida pelo Governo Temer pretende amputar direitos, penalizando uma população numerosa e necessitada, ao invés de colocar a conta para as elites do país. Por que não priorizar a cobrança da dívida dos devedores com o Governo federal que, aliás, ultrapassou R$ 1 trilhão? Um dos diretores da Fiesp, por exemplo, possui uma dívida de cerca de R$ 6,9 bilhões. Por que não taxar as grandes fortunas do país?

A corda está arrebentando do lado mais fraco, como sempre!”pec-241-3

No texto da Rejane no Blog de Junho, também está muito bem explicado porque a PEC 241 representa algo que arrebenta com os mais vulneráveis, enquanto permite benesses e privilégios aos peixes-grandes (banqueiros, investidores da Bolsa, grandes capitalistas que jogam com a economia como se esta fosse um cassino etc.):

“Sintomaticamente, a PEC não prevê limite algum para o maior gasto público atualmente vigente no Brasil: o pagamento da dívida externa e interna, que já consome atualmente quase metade do orçamento federal. Na justificativa da PEC, a prioridade no pagamento da dívida é de fato ressaltada em diversos trechos. Esse ponto deixa claro que o objetivo central não é exatamente o equilíbrio fiscal – o qual poderia ser alcançado por meio de outras vias, como através de uma reforma tributária com imposto progressivo – mas sim, o bolso dos rentistas brasileiros e estrangeiros que aplicam nos títulos da dívida.

(…) Ao contrário do que pregam os defensores do eufemístico “ajuste fiscal”, o resultado dessa PEC não será apenas um “congelamento” dos serviços tal como eles se encontram, como se tudo fosse continuar mais ou menos como está. Isso porque, como a demanda pelos serviços públicos só tende a aumentar, o não-aumento do financiamento implicará numa queda drástica de sua oferta e qualidade.

Tomemos como exemplo o serviço público de saúde, do qual dependem, de maneira exclusiva, oito em cada dez brasileiros. Segundo os números atuais do IBGE, nos próximos vinte anos a população idosa brasileira vai dobrar, sem contar o crescimento populacional vegetativo normal, calculado em 9%. Isso exigiria um aumento real do valor per capita destinado para a saúde pelo menos proporcional ao gasto de hoje – o qual já está bem aquém do suficiente. Se a PEC 241 for aprovada, daqui a vinte anos, em 2037, o SUS estará recebendo o mesmo volume de recursos aplicado hoje, em 2017, com apenas uma correção monetária, calculada de acordo com o índice de inflação do ano anterior.

Segundo estimativas do Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems) e do Conselho Nacional de Secretarias Estaduais de Saúde (Conass), a PEC representará retração de R$ 654 bilhões nos recursos para a saúde, representando um golpe de morte de um SUS que praticamente já respira por aparelhos. A projeção desses órgãos é que, pela regra da PEC, a saúde receberá R$ 2,82 bilhões a menos já em 2017, R$ 31 bilhões a menos em 2026, chegando a R$ 59 bilhões em 2036. No período, a redução ano a ano em relação à regra atual acumularia R$ 654 bilhões.”

Por essas e outras, é preciso construir uma grande mobilização nacional, com greve geral, ocupações de escolas, manifestações contundentes, pressões sobre parlamentares e ministérios, numa urgente e inadiável frente para barrar esta PEC da Maldade e todo o resto do tsunami de retrocessos.

As questões e as conclusões de Vladimir Safatle impõe-se como cruciais: “já que estamos em crise, que tal exigir que donos de jatos, helicópteros e iates paguem IPVA, que igrejas paguem IPTU, que grandes fortunas paguem imposto, que bancos com lucros exorbitantes tenham limitações de ganho, que aqueles que mais movimentam contas bancárias paguem CPMF?

É claro que nada disso será feito, pois o Brasil não tem mais governo, não tem mais presidente e tem uma democracia de fachada. O que o Brasil tem atualmente é um regime de exceção econômica comandado por uma junta financeira.” (SAFATLE)

Os temerários assaltantes do poder pretendem impor esta barbárie ordenada pela junta financeira que ora nos (des)governa, à margem das urnas, num estupro da democracia e da Constituição cujo estrago será pago pelas próximas gerações. Agora é a hora de confrontar, inclusive com as armas da desobediência civil, da guerrilha midiática e da contracultura inventiva e combativa aqueles que enxergam o Estado como mero balcão de negócios de um capitalismo perverso e excludente – aqueles que agora dominam o leme do Estado após a fraude grotesca do golpeachment. A luta vai ser longa, dura e cheia de reveses. Mas a apatia e o conformismo, numa situação histórica dessas, equivaleria a uma cumplicidade com o genocídio do futuro que está sendo patrocinado pelos pontas-de-lança do golpe de Estado. Resistamos!


LEIA TAMBÉM: VLADIMIR SAFATLELUIS FELIPE MIGUEL

A ARTE VISIONÁRIA DE SERGIO SAMPAIO (1947-1994): Labirintos negros de um “doido que não se situa” [OUÇA A DISCOGRAFIA COMPLETA]

"Cada lugar na sua coisa"(Sérgio Sampaio), por Carlus Campos

OS LABIRINTOS NEGROS DE UM DOIDO QUE NÃO SE SITUA: EXPLORAÇÕES DA OBRA VISIONÁRIA DE SERGIO SAMPAIO (1947 – 1994)

 por Eduardo Carli de Moraes para A Casa de Vidro

Talvez o adjetivo mais usado para definir o indefinível Sergio Sampaio seja visionário. Outro termo que costuma pintar para dar conta do trampo difícil de rotulá-lo é maldito. Auto-definido como “um doido que não se situa”, Sérgio Sampaio parecia seguir os passos de Torquato Neto e estava aí para “desafinar o coro dos contentes”. Chamá-lo de visionário e de maldito o inclui numa tradição artística que atravessa a História – tanto que na chamada “Grécia Antiga” já atuava esta figura do visionário, 

“aquele que elaborava em seu corpo as angústias de seu tempo, daí ser simultaneamente adorado e excluído, mitificado e marginalizado, sintoma e remédio das doenças e mazelas sociais. Sem precisar ir às pulsões de vida e de morte estudadas por Freud, suspeito que talvez seja o convívio radical, por dentro, com o fracasso e o sucesso, com o paraíso e o inferno, com a criação e a destruição, que faz com que nos sintamos meio órfãos desses heróicos marginais que, parece, viveram intensamente por nós nossos desejos recalcados. Recordá-los, como agora a Sérgio Sampaio, que quis procurar “viver além de mim”, não deveria ser um alimentar-se de ingênuas nostalgias e heroicizações, mas um ter na mente que o tempo é este agora eterno. Evoé.” (SALGUEIRO, Wilbert. “Poesia e Vida, Enfim”. Ed. UFES, Vitória-ES, 2007, p. 27)


“Fui tratado como um louco, enganado feito um bobo
Devorado pelos lobos, derrotado sim
Fui posto de lado e fui um marginal enfim
O pior dos temporais aduba o jardim
Como um rato de bueiro, como um gato de calçada
Velho mendigo da rua, cão de butiquim
Disse adeus e fui embora, nada é mais ruim
O pior dos temporais aduba o jardim

E eu, boêmio cantor da lua
Doido que não se situa
Fui procurar viver além de mim
E eu, simples cantor solitário
Entre malandros e otários
Vivo o que sou, ninguém vive por mim

Tudo tem seu preço exato, ninguém vai pagar barato
Tudo tem seu peso certo, tudo tem seu fim
Escapei da armadilha, agora estou aqui
O pior dos temporais aduba o jardim
Fui pro mato sem cachorro, numa de “ou mato ou morro”
Enfrentei um osso duro, duro de roer
Escapei dessa quadrilha, agora estou aqui
O pior dos temporais aduba o jardim.”

Em uma canção como “Ninguém Vive Por Mim”, Sérgio Sampaio revela-se como um dos maiores poetas malditos na história do cancioneiro brasileiro, um rebelde avesso a todas as catalogações, um “boêmio cantor da lua”, um  “simples cantor solitário / entre malandros e otários / vivo o que sou / ninguém vive por mim.” Diante de figuras assim, que flertam com a loucura Rimbaudiana do “desregramento de todos os sentidos”, ficamos tentados a enxergar o grande artista como aquele que tem a capacidade de experimentar céu e inferno, delícia e fossa, ordem e caos, Apolo e Dionísio, para depois expressarem suas complexas experiências vividas enquanto criadores contra a corrente. Tal rebeldia é salutar, e uma sabedoria que aceite as borrascas e temporais por aquilo que podem legar de aprendizado (“o pior dos temporais aduba o jardim) é inequívoca evidência de que estamos diante de um espírito livre Nietzschiano:

“Mesmo guiando carro na contramão esses quase-loucos legaram às gerações seguintes o desejo sadio da rebeldia criativa, sobretudo em tempos de nhenhenhém como os que vivemos. Rebeldia, diga-se pela justiça, rejuvenescida em vozes como as de Cazuza e Cássia Eller, por exemplos.” (SALGUEIRO, W. op cit, p. 19)


Estas últimas palavras que evocam a salutar e sadia rebeldia criativa são de um dos melhores artigos já escritos sobre a obra de Sérgio Sampaio, no qual Wilberth Salgueiro inspira-se no pensamento de José Miguel Wisnik para refletir sobre o legado artístico deste visionário de nossa música e poesia que foi Sampaio. Salgueiro faz “aproximações entre a obra musical do compositor capixaba Sergio Sampaio e a Poesia Marginal, em especial a partir de aspectos temáticos comuns a ambos, como as drogas, a loucura, a morte, a repressão ditatorial, o amor e a solidão.” (op cit, p. 11)

Alguns poemas florescidos na sarjeta, nascidos da pena imunda dos poetas ditos “marginais”, servem para expressar um pouco do ambiente literário tão libertário com o qual podemos nos deliciar em nossos encontros com a obra de Sergio Sampaio. O poeminha (e também poemaço, pois tamanho não é documento!) de Guilherme Mandaro, aquele que diz “que não seja o medo da loucura / que nos obrigue a baixar / a bandeira da imaginação”, pode dialogar perfeitamente com o clima um tanto beatnik-hippie-carioca de “Que Loucura”, canção-de-hospício do Sérgio Sampaio. Uma canção, aliás, que também parece ter pitadas daquele mood que anima Um Estranho no Ninho, romance de Ken Kesey adaptado ao cinema por Milos Forman e estrelado por Jack Nicholson, que deu voz eloquente ao movimento da “anti-psiquiatria” e propôs caminhos para os defensores da psicodelia místico-terapêutica.

Sérgio-Sampaio

“Fui internado ontem na cabine cento e três
Do hospício do Engenho de Dentro
Só comigo tinham dez
Eu tô doente do peito, eu tô doente do coração
A minha cama já virou leito, disseram que eu perdi a razão

Eu tô maluco da idéia, guiando o carro na contramão
Saí do palco e fui pra platéia, saí da sala e fui pro porão.”

Diante de figuras seminais na história de nossa cultura como Sérgio Sampaio e Raul Seixas, é incontornável colocar o tema da relação entre genialidade, loucura e consumo de drogas. Em outros termos: como é que alguém se torna “artista visionário”, uma chama viva de “rebeldia criativa”, senão através de uma experimentação, que pode beirar a temeridade, com a própria consciência, numa busca de expansão dos horizontes sensíveis e intelectuais? E que preço paga, em seu corpo e em sua mente, por metamorfosear-se nisto, neste médium que “elabora em seu corpo as angústias de seu tempo” (como diz Salgueiro)?

O efeito da escuta atenta e prolongada das músicas de Sérgio Sampaio, alguém que “guia o carro na contramão” (“Que Loucura”), um “doido que não se situa” (“Ninguém Vive Por Mim”), é fazer-nos mais abertos à possibilidade que o gênio artístico muitas vezes avizinha-se do que a normopatia reinante concebe como loucura, a-normalidade. Mas o que seria da música brasileira sem nossos sublimes doidos, nossos deliciosos malucos beleza?


“Enquanto você se esforça pra ser
Um sujeito normal e fazer tudo igual
Eu do meu lado, aprendendo a ser louco
Um maluco total, na loucura real
Controlando a minha maluquez
Misturada com minha lucidez
Vou ficar, ficar com certeza
Maluco beleza!”
Raul Seixas


“Eu juro que é melhor
Não ser o normal
Se eu posso pensar que Deus sou eu e brrrrr…
Se eles têm três carros, eu posso voar
Se eles rezam muito, eu já estou no céu
Mas louco é quem me diz
Que não é feliz, não é feliz!”
Os Mutantes

Enlouquecer, para o poeta visionário, vira “enloucrescer” (para emprestar um neologismo cunhado por Drummond), ou seja, crescer para além dos muros da normalidade, para um grau superior de percepção do espaço-tempo: não faltam “malucos-beleza” tupiniquins, como Raul Seixas e Arnaldo Baptista, ou Syd Barrett e Skip Spence (entre outros artistas gringos), que apostam na via lóki de libertação da criatividade, e Sérgio Sampaio. Com isso, questionam a validade e o mérito dos atuais modelos de representação do normal e do patológico, onde verdadeiros gênios da arte (de Van Gogh a Artaud, de Nietzsche a Genet) podem ser depreciados por detratores como meros doidos e junkies. Uma má apreciação que muitas vezes provêm dos demasiado apagados aos modelos de sanidade vigentes, como aqueles “cidadãos normais e respeitáveis” como foram os Eichmann, os Pinochets, os Fleurys… Que holocaustos, que chacinas do Carandiru, que Ditaduras sanguinárias e Pinochetescas, já não cometeram homens que se achavam “normais” – e mais que isso, dotados da missão celestial de impor aos outros os esteréotipos de normalidade com que foram nutridos e dos quais eram crédulos defensores!

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“Em brilhante ensaio intitulado Iluminações Profanas  – poetas, profetas, drogados, José Miguel Wisnik vincula ao ‘olhar visionário’, como experiência concreta, um radical deslocamento da noção temporal. Do estar sob a ação da droga ao discursar sobre os efeitos dela, em especial no campo da dicção poética, um caminho complexo caminho se percorre. O que aproximaria poetas, videntes e drogados seria exatamente esta visão diferenciada do tempo e do espaço: ‘toda distância ou nenhuma’. Remontando à Grécia antiga, Wisnik recorda que o visionário, “enquanto canalizador (e formulador) da angústia e da violência social” (p. 285), é adorado e excluído, mitificado e marginalizado, sintoma e remédio das doenças e mazelas sociais. (…) Historicamente, no entanto, o neo-romantismo hippie (herdeiro da geração beat) alimenta a vontade contracultural dos anos 1960 e 70, avessa à regularidade e à ordenação do tempo capitalista, firmado numa ideologia que soma desempenho e produtividade. Hoje, em suma, verificamos uma quase completa banalização do mundo da droga, já desinvestida de aura e transcendência, e tornada um rentável negócio pelos conglomerados do tráfico globalizado e bélico. Os belos paraísos artificiais de Baudelaire viraram paraísos financeiros para uns, e infernos sem saída para uns outros.” (SALGUEIRO, op cit, p. 13-14)

Qualquer discussão lúcida e aprofundada sobre a função social da arte precisa abordar de modo livre-de-tabus a questão dos phármakons, das substâncias de alteração da percepção, dos expansores de consciência que instauram “uma visão diferenciada do tempo e do espaço” – uma droga, para além dos discursos policialescos que pretendem criminalizar todos os usuários de entorpecentes ilegais (favor consumir somente drogas legais, ou seja, àqueles que sirvam aos interessas de mega-corporações farmacêuticas; dê dinheiro, por favor, à Bayer-Monsanto e não ao brother que planta cannabis no quintal). 

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Raul Seixas e Sérgio Sampaio

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Talentos imensos como os de Sérgio Sampaio ou de Raul Seixas são uma afronta “patológica” aos cabrestos e dogmas reinantes, inclusive aqueles que querem confinar nossas personalidades nos estreitos moldes de nacionalismos, patriarcados, racismos, sectarismos e outros ismos limitantes. E colocam em debate a questão da qual não se pode desviar se quisermos alguma compreensão de que como foi possível o nascimento de obras tão inacreditáveis, tão magníficas: até que ponto estas obras nunca teriam acontecido a não ser em dependência relativa das experiências com drogas de seus cantautores? O quão “visionários” poderíamos nos tornar caso nos fosse dado o direito de sermos psiconautas em cosmológica exploração nas asas dos vegetais acachapantes e dos psicodélicos sintéticos?

Jorge Luis do Nascimento, doutor em literatura pela UFRJ, pontua que Sergio Sampaio tem como de seus traços marcantes uma poética caracterizada por um “lirismo existencial e possibilidades utópicas aparecem compondo um retrato interessante do homem contemporâneo. (…) A paisagem urbana em geral, e a carioca em particular, na poética de Sérgio Sampaio possui a fúria modernista, porém o espelho futurista já é um retrovisor, e o que o presente reflete é a impossibilidade de assimilação de todos os índices / ícones da paisagem urbana contemporânea.”  (NASCIMENTO, p. 32)

Quando Sampaio escreve sobre “Brasília”, a capital federal, em canção presente no disco póstumo Cruel, evoca “o olho do amor” que “desconhece a armadilha” – “assim ver Brasília”. Enxerga a cidade modernista, o monumento de Niemeyer e Lúcio Costa, monumento arquitetônico e urbanístico dos Anos JK, emblema daqueles  50 anos supostamente condensados em 5, cidade-avião com suas asas abertas no território, através de um viés muito peculiar: “esse olho do amor, desejoso de outridade, percebe algo – vislumbrado na natureza da lua, do sol, da noite, ou mesmo na artificialidade do lago fabricado, atrás das quadras, as quadrilhas que infestam aquela cidade futurista do Planalto Central, que tão bem simboliza a busca da modernidade desenvolvimentista perdida. E que tão bem representava – e representa – o poder das quadrilhas oficiais que tomaram o poder no Brasil ditatorial, e que continuam formadas e impunes a governar nossas vidas…” (NASCIMENTO, op cit, p. 40)

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“Quase que ando sozinho por todos os bares
Freqüento lugares, Namoro suas filhas, Brasília.
E posso dizer que começo a voar sossegado em seu avião,
E mesmo com o ar desse jeito, tão seco, consigo cantar no seu chão.
Quase que me sinto em casa em meio a suas asas
E “Ws” e “Ls” e eixos e ilhas, Brasília!

Cidade que um dia eu falei que era fria, sem alma, nem era Brasil,
Que não se tomava café numa esquina
Num papo com quem nunca viu.

Sei que preciso aprender, quero viver pra saber, e conhecer, Brasília.

Ver o que há, Paranoá
Lago de sol, noite, lua.
O olho do amor desconhece a armadilha .
Assim vim ver Brasília…

Quase que me sinto bem distraído em suas quadras,
tão bem arrumadas, c
om suas quadrilhas, Brasília.
Concreto plantado no asfalto do alto, o céu do planalto onde estou
Aqui na cidade dos planos conheço um cigano que não se enganou.
Sei que preciso aprender, quero viver pra saber, e conhecer, Brasília…” 

Sobre a “Cidade Maravilhosa”, para onde mudou-se em 1967, em busca de uma carreira como radialista e músico, Sérgio Sampaio também nos legou interessantes retratos, caso daquele Rio de Janeiro que aparece em “Filme de Terror” ou “Pavio do Destino”. Na primeira, Sérgio Sampaio passa o clima dos anos 70, no Brasil que vive sob o jugo do AI-5 decretado em 1968 no “golpe dentro do golpe” que fez recrudescer a ditadura militar-empresarial instituída pelos tanques em 1964:

“Filme de Terror” traz “dados pontuais da Cidade Maravilhosa” que estão “potencialmente vinculados ao momento histórico, quando o terror de Estado estava em seu ápice no Brasil”, destaca Nascimento. “O refrão, além de ser foneticamente muito rico, trata de dois lugares específicos: o cemitério do Caju (bairro pobre da zona portuária) e o Cine Império da Tijuca (cinema do bairro de classe média da zona norte da cidade). A mim a alusão me parece clara: no bairro da Tijuca também situado o quartel da Polícia do Exército, na Rua Barão de Mesquita, para onde os suspeitos e inimigos do Estado eram levados para serem interrogados, torturados e/ou mortos. Assim, notamos que o filme de terror que ‘passava’ no Cine Império da Tijuca ‘se passava’ também no quartel da P.E…” (NASCIMENTO, op cit, p. 43)

Já Silvio Essinger, que citaremos na sequência em extensão, discute muitas coisas interessantes, a começar pela atribuição do selo de maldito à Sérgio Sampaio e seu antagonismo em relação ao mundo do pop-stardom de que é emblemática a Jovem Guarda e (seu conterrâneo) Roberto Carlos:

“Integrante de um grupo de artistas que, à revelia (principalmente) deles próprios, acabariam sendo rotulados de “malditos” ao longo dos anos 70 (Jards Macalé, Jorge Mautner, Luiz Melodia, Tom Zé e Walter Franco incluídos), Sampaio não teve tempo de esperar a redenção, por mais secreta que fosse. O disco que planejava lançar em 1994, depois de 12 anos sem gravar, esbarrou num problema: a morte do artista, no dia 15 de maio, após uma crise de pancreatite, previsível diante das angústias e abusos alcoólicos cometidos ao longo de 47 anos de vida. Foram necessários mais 12 anos para que as derradeiras (e incompletas) gravações chegassem ao CD “Cruel”, empreitada de um aplicado discípulo, o cantor e compositor maranhense Zeca Baleiro, que com esse lançamento inaugura seu selo independente Saravá Discos.

Sérgio Sampaio nasceu em Cachoeiro de Itapemirim, Espírito Santo. Como lembra Essinger,  “esta cidade que entraria para a história da música brasileira por causa de um primo do cantor, Raul Sampaio Crocco (que compôs “Meu Pequeno Cachoeiro”, sucesso na era de ouro do rádio), e principalmente, claro, de Roberto Carlos (que, inclusive, regravou o “Cachoeiro”). Sérgio se beneficiou bastante da discoteca do primo, onde podia complementar a sua dieta de Orlando Silva e Sílvio Caldas que crescera ouvindo no rádio.

Ao mesmo tempo, acompanhava o crescimento artístico de Roberto a uma certa distância – inicialmente, a sua pretensão não era a de ser cantor, mas locutor de rádio, e assim poder viver toda a boemia que Cachoeiro (e mais tarde o Rio de Janeiro) pudessem lhe proporcionar. Quando veio o sucesso com “Eu Quero Botar Meu Bloco na Rua”, vieram também as comparações com o conterrâneo – Sampaio seria “o sucessor de Roberto”, segundo uma revista popular. Não poderiam ser mais antagônicos os dois personagens.

Sergio

O ANTI ROBERTO CARLOS – “Nunca imaginei uma coisa dessas, porque o que Roberto canta é totalmente diferente do que eu canto. Inclusive, acredito que os objetivos de Roberto na canção sejam totalmente diferentes dos meus”, diria Sérgio Sampaio em 1989. “No entanto”, pontua Essinger, “ele não deixou de alimentar o desejo de ter uma música gravada pelo Rei, com quem poucas vezes cruzou, mas que mandara a ele um pedido de canção por meio de um assessor, no calor do sucesso do disco Eu quero é botar meu bloco na Rua (1973)”

O PRIMO, RAUL SAMPAIO, CANTA CACHOEIRO DE ITAPEMIRIM:

O “REI” MIDIÁTICO E POP STAR, ROBERTO CARLOS:

O CANTAUTOR “MALDITO” E SEU “POBRE BLUES” – SÉRGIO SAMPAIO ENDEREÇA-SE AO “REI”:

Essinger prossegue: “De uma conversa com Odair José (o “cantor das empregadas”, maldito da MPB por diferentes razões, que também sonhava em ser gravado por Roberto) veio a Sérgio a idéia de “Meu Pobre Blues”, uma canção amarga, feita não para o astro gravar – mas para ele ouvir e botar a mão na consciência. “E agora que esses detalhes/ já estão pequenos demais /e até o nosso calhambeque não te reconhece mais/ eu escrevi um blues/ com cheiro de uns dez anos atrás/ que penso ouvir você cantar”, cantava ele, reconhecendo a impossibilidade de compor para o Rei.

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Mas se Roberto Carlos era o antípoda, um futuro nome de sucesso da MPB seria a alma gêmea de Sérgio Sampaio: Raul Seixas. Em 1971, época em que o capixaba vivia como mendigo-hippie no Rio, em busca do sustento e de alguma chance como músico, ele esbarrou com o roqueiro baiano, dois anos mais velho que ele, à época empregado na CBS como produtor de artistas do núcleo comercial da gravadora: Jerry Adriani, Renato & Seus Blue Caps…

“Eu fui à gravadora apenas acompanhar no violão um rapaz que ia fazer teste para cantor e compositor [Odibar, parceiro de Paulo Diniz]”, contou Sérgio em entrevista de 1973. “Senti que Raulzito não gostou da composição do cara. Realmente, era fraca. Mais do que depressa, apresentei uns trabalhos meus. Ele gostou e eu fiquei.” Tornaram-se amigos imediatamente. Promoviam insólitos concursos de magreza (que Sérgio vencia) e influenciavam-se mutuamente, com Raul mostrando o rock a Sérgio e este tentando lhe mostrar o samba (consta que deu ao amigo um disco de Paulinho da Viola que o baiano tirou da vitrola logo no primeiro chiado da agulha). Sampaio seria o cúmplice de Raul numa traquinagem perpetrada por ele enquanto o diretor da CBS viajava: o disco “Sessão das 10”, de uma tal Sociedade da Grã-Ordem Kavernista, composta pelos dois, a sambista paulistana Miriam Batucada e o baiano desbundadíssimo (e assumidamente homossexual) Edivaldo dos Santos Araújo, o Edy Star.

Esse disco, que a matriz da CBS mandou de volta ao Brasil com um telegrama perguntando “what is this?”, acabou sendo a estréia de Sérgio Sampaio em LP. Uma colagem anárquica, influenciada tanto pelo tropicalismo quanto por Frank Zappa e os Mothers of Invention, trouxe o “Chorinho Inconseqüente”, “Todo Mundo Está Feliz” e “Eu Não Quero Dizer Nada”, algumas das mais sarcásticas músicas do compositor (ao menos, as que conseguiram passar pela Censura).

Compreensivelmente, o disco foi recolhido e tanto ele quanto Raul logo estariam fora da gravadora. Sampaio tinha uma música nova, “Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua”, um grito surdo contra o estado de coisas na ditadura, que inscrevera no Festival Internacional da Canção de 1972, junto com “Let Me Sing, Let Me Sing” e “Eu Sou Eu, Nicuri é o Diabo”, de Raul. “Fiz a canção num momento de angústia bastante grande, eu sozinho comigo cantando, e sentia que ela tinha um poder. Depois, mostrei para Raul e ele mesmo disse: ‘Pomba, é isso aí, dá pé, esse negócio aí é legal’”, disse Sérgio, que gradualmente a viu se transformar num sucesso. O “Bloco” abriu as portas da Philips para a gravação de um compacto (que vendeu mais de 500 mil cópias) e de um LP, produzido por Raul Seixas (que já estava lá por causa do “Let Me Sing”), a ser batizado com o título da música. “A grande importância dessa canção é ter sido lançada numa época em que as pessoas estavam muito amordaçadas e bastante medrosas de abrirem a boca para falar qualquer coisa”, dizia o artista, que viu sua vida mudar de uma hora para outra. De repente, virara um astro, com toda a tietagem, espaço absurdo de mídia e dinheiro a que tinha direito.

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Quanto ao LP, um dos mais surpreendentes da MPB daquele 1973 (ano em que também estrearam no bolachão nomes como Raul, Secos & Molhados, Luiz Melodia e Walter Franco), nada aconteceu. Mesmo com músicas do quilate de “Filme de Terror”, “Cala a Boca, Zebedeu” (samba do maestro Raul G. Sampaio, pai de Sérgio), “Pobre Meu Pai” (depois da homenagem, uma crítica ao autoritarismo do progenitor), “Viajei de Trem” e “Raulzito Seixas”, a adversidade da crítica (que o comparou a Caetano), a irritação com as cobranças por um novo “Bloco”, o cansaço do artista com a fama e a simples falta de vontade de promover o lançamento (o que foi agravado pelo fato de Sérgio viver seu momento mais tresloucado, em noites viradas de pó e bebida) acabaram por sabotar o trabalho. “Esse disco fez um estrago danado lá em casa. Ele tem uma mágica, até hoje eu ouço e me emociono, ele me remete à infância, aquele ambiente familiar, dos meus irmãos tocando ‘Cala a Boca, Zebedeu’, o ‘Bloco na Rua’… É um daqueles discos da vida”, conta Zeca Baleiro, um dos poucos (mas felizes) a quem o disco atingiu na época. Anos mais tarde, Sampaio deu sua explicação para o fracasso: “O que pode ter existido, talvez, tenha sido a minha proposta de vida, de não ser aquela pessoa que me deixasse levar, profissionalmente falando, pela estrutura da máquina. Mas eu não fazia isso conscientemente, era apenas uma postura de vida”.

Daí em diante, ele e Raul Seixas seguiriam caminhos distintos, mas paralelos. O roqueiro viveria alguns anos de estrondoso sucesso nacional (com “Ouro de Tolo”, “Mosca na Sopa”, “Metamorfose Ambulante”, “Eu Nasci Há Dez Mil Anos Atrás”) e em seguida o ostracismo, a morte (em 1989, pelos mesmos excessos de bebida, drogas e paixão de Sérgio) e a posterior ressurreição, como uma lenda ainda maior do que era em vida. Já o amigo… “Essa história de margem, acho que sempre vou correr por aí, até o fim da minha vida”, dizia Sampaio. Inspirado pelo poeta suicida Torquato Neto, ele compôs logo em seguida “Que Loucura”. Apesar do que se dizia, dado que Sérgio jamais abdicara da boemia selvagem, transferida em meados dos anos 70 para o Baixo Leblon, ele se considerava absolutamente são. “Se um dia acontecer de eu ser internado num hospício, uma coisa certa, bastante certa, é que é uma tramóia, é uma armação”, disse.

17-de-maio-sergio-sampaio-em-1981-um-ano-antes-de-lancar-sinceramente-foto-4Um confesso não-músico (“toco no violão como quem toca o corpo de uma mulher sem saber as zonas erógenas”) que buscava inspiração nas vidas alheias, mais que na sua (“As intrigas, as cafajestadas, as manifestações de hombridade, de generosidade, carinho, gosto de tudo o que vem do ser humano, do pior ao melhor, do mais gostoso ao mais tétrico…”), Sérgio saiu da sala e foi para o porão: encontrou seu espaço nos centros culturais da Zona Norte e Baixada Fluminense, onde seguiu fazendo shows enquanto as casas nobres da MPB o desprezavam. Gravou, pela Continental, em 1976, o disco “Tem Que Acontecer” (mais voltado para o samba, com clássicos como o “Que Loucura”, “Velho Bandido” e a faixa-título) que também não aconteceu em sua época. Mas ele foi adiante. Teve música gravada por Erasmo Carlos (“Feminino Coração de Deus”), conheceu novos parceiros, como Sérgio Natureza (que o definiu como “um peixe muito vivo, nadando contra a correnteza”) e a arquiteta Angela Breitschaft, mãe de seu único filho, João (nascido em 1983) e grande batalhadora para que ele lançasse seu último disco em vida, o independente “Sinceramente” (1982), que conseguiu vender poucas de suas 4 mil cópias devido à falta de divulgação.

Mesmo desanimado com sua situação e a da música popular brasileira em geral (em 1989, dizia: “eu gosto muito de Lobão, de Cazuza… Mas a música de hoje é muito mais para chatura do que pra interessante”), Sérgio continuava compondo e chegou a gravar em Salvador, com voz e violão, algumas das músicas para aquele que seria seu disco de 1994, a ser lançado pelo selo paulista Baratos Afins, de Luz Calanca. A essa altura, Zeca Baleiro deixara de ser o garoto fã e se tornara cantor e compositor – quatro anos depois, faria bastante sucesso com a regravação de “Tem Que Acontecer”, lançada no disco-tributo “Balaio do Sampaio”, organizado pelo parceiro (e grande amigo) Sérgio Natureza. Zeca conhecera Sérgio em 1989 num show no Rio de Janeiro. “A gente tomou umas cervejas e, na época, eu e mais quatro amigos estávamos editando uma revista cultural lá no Maranhão que se chamaria ‘Umdegrau’”, conta. “E a gente queria um entrevistado, um nome nacional. Fiz o convite e ele topou. A gente mandou as perguntas e ele levou tanto tempo para responder que quando ele mandou as respostas a revista já tinha saído (risos). No fim da fita com a entrevista, ele gravou uma música, sem que a gente pedisse. Uma amostra do que ele estava fazendo. É uma canção linda, uma espécie de samba-canção meio Cartola, mas com uma letra moderna.”

Era “Maiúsculo”, música que encerra “Cruel”, o disco que o maranhense acaba de lançar depois de recuperar eletronicamente as gravações originais de Sérgio e vesti-las com um instrumental contemporâneo, mas sóbrio. Os sambas “Roda Morta (Reflexões de um Executivo)”, “Polícia Bandido Cachorro Dentista” e “Rosa Púrpura de Cubatão” (que João Bosco tirara do ineditismo no “Balaio”) vieram da gravação de boa qualidade da Bahia. Os registros de outras como “Pavio do Destino” (dolorosa reflexão sobre as vidas dos meninos das favelas) e “Quem é do Amor”, por sua vez, vieram de uma fita cassete, já que as matrizes haviam se perdido. Já a faixa-título (que o amigo Luiz Melodia transformara em sucesso no disco “Acústico”, de 1999 – o primeiro de sua carreira a vender mais de 100 mil cópias) teve voz e violão extraídos de uma gravação caseira de qualidade ainda pior. Zeca optou por organizar as músicas no disco de forma a que os registros de Sérgio mais precários – meio como se ele fosse sumindo – ficassem para o final. Coube a “Maiúsculo”, cheia de barulhos da rua e de portas batendo ao fundo, encerrar “Cruel”, com um pungente efeito de despedida.

“Acho que se o Sérgio tivesse sobrevivido, hoje ele estaria num lugar muito mais confortável, como aconteceu com o Tom Zé e com o próprio [Jards] Macalé. Sem aquela ilusão do grande sucesso”, acredita Zeca Baleiro. “Um lugar confortável, um lugar minimamente justo. Porque o Sérgio amargou um ostracismo muito grande nos anos 80. O trabalho que ele fazia, apesar de ter informações do rock e do pop, era muito out para aquela época. Quando veio um tempo de maior tolerância e respeito, de uma coexistência possível entre os gêneros, que foi a partir dos anos 90, seria o momento de ele se estabelecer.” No entanto, Sérgio Sampaio era o primeiro a exprimir a impressão, típica do poeta romântico, de que o seu sucesso poderia ser póstumo: “O importante é fazer, é estar feito, estar registrado. O próprio Fernando Pessoa, em vida, ninguém lia. E hoje Fernando Pessoa é o que nós sabemos”. Mas Zeca sonhava com um pouco mais de generosidade do pavio curto do destino: “Sérgio não parecia ter vocação para o sucesso, porque era um cara muito temperamental, irascível. Mas talvez agora a idade trouxesse para ele uma serenidade”. ” – SILVIO ESSINGER, “O mais maldito dos malditos”

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Em seu artigo Nos Trilhos Sonoros de Sérgio Sampaio (Jornal Opção), o Diego de Moraes, cantor e compositor muito influenciado pela obra e pela persona de Sampaio, destaca a canção “Viajei de trem”, “com seus versos angustiados e sintomáticos de um período histórico obscuro” e onde o eu lírico lastima: “minha lucidez nem me trouxe o futuro”. Nos três álbuns já lançados pelo Diego – Parte de Nós, da banda Diego e o Sindicato; Diego Mascate; A Dança da Canção Incerta, da Pó de Ser; – fica evidente a intensa influência exercida pelo lirismo Sampaiano sobre uma das obras mais geniais já gravadas em Goiás. Através das gerações, Sergio Sampaio segue sendo semente – e, como escreve Diego, “o sucesso do Bloco permanece, agradando a gregos e troianos e divulgando esse gênio, poeta do riso e da dor”.

Como prova de que um artista é fecundo e imorredouro está a possibilidade de múltiplas e renovadas interpretações de sua obra. Sérgio Sampaio passa folgado neste teste, pois suas canções seguem capazes de despertar em nós uma ampla gama de reações, diferentes daquelas que evocavam na época em que pintaram na praça e tomaram de assalto as ruas. Emblemática não só de uma carreira, mas também de uma época, é a canção-título do classicaço Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua (1973)é uma daquelas músicas que merece que nos demoremos nela e enxerguemos seus detalhes, suas sutilezas, suas aberturas à nossa contribuição, seu caráter de obra aberta. Sérgio da Fonseca Amaral, professor de teoria literária da UFES, escreveu um bom roteiro de exploração da canção.

“Partindo em definitivo para o Rio em 1967, Sérgio Sampaio procurava iniciar uma carreira de locutor de rádio, mas o que prevaleceu foi o músico em busca de sua chance. Esse ano ainda não conhecia o AI5, marco do recrudescimento da ditadura militar. A carreira efetiva do cantor/compositor seria de fato iniciada na fase mais implacável da ditadura do governo Emílio Garrastazu Médici. Época de perseguições, torturas e assassinatos de opositores em escalada progressiva. No Brasil, naquele momento em que a juventude dos países mais industrializados vivia o sonho do desbunde, do flower-power, do faça amor não faça a guerra, do maio de 68, do I’m Going To San Francisco, dos Beatles, entraríamos numa atmosfera cinza de um mundo em que a desconfiança, a vigilância, a perseguição e a violência lhe eram imputadas antecipadamente pelos aparelhos repressivos. O Estado olhava o sujeito de esguelha. Era-se culpado por suspeita.” (AMARAL, p. 54)

Há quem diga que eu dormi de touca
Que eu perdi a boca, que eu fugi da briga
Que eu caí do galho e que não vi saída
Que eu morri de medo quando o pau quebrou

Há quem diga que eu não sei de nada
Que eu não sou de nada e não peço desculpas
Que eu não tenho culpa, mas que eu dei bobeira
E que Durango Kid quase me pegou

Eu quero é botar meu bloco na rua
Brincar, botar pra gemer
Eu quero é botar meu bloco na rua
Gingar pra dar e vender

Eu, por mim, queria isso e aquilo
Um quilo mais daquilo, um grilo menos nisso
É disso que eu preciso ou não é nada disso
Eu quero todo mundo nesse carnaval…
Eu quero é botar meu bloco na rua

Brincar, botar pra gemer
Eu quero é botar meu bloco na rua
Gingar pra dar e vender

Quando Sampaio finca esta pérola no imaginário artístico dos anos 1970, botar o bloco na rua, no caso, não era mera celebração festiva do carnaval. Estávamos em um cenário cultural que havia sido efervescido pela irrupção do Tropicalismo, pela “era dos festivais” e pelos fenômenos midiáticos como os pop stars da Jovem Guarda, e é neste contexto que “Bloco Na Rua” explode como uma espécie de samba-dinamite, crônica de seu tempo, em que manifesta-se, segundo Amaral, a terceira das “três vertentes ou caminhos tomados por alguns nomes da música brasileira naquele momento: 1) o da simples inserção no chamado sistema comercial, sem veleidades críticas; 2) o do combate, direto ou alegórico, com músicas denunciando o ambiente de sufoco; e 3) o do desbunde, desapontando caminhos. Arrisco a enquadrar Sérgio Sampaio àquele terceiro grupo em que o desbunde foi o caminho encontrado para, de um lado, desprezar tanto a ditadura quanto a guerrilha política ou cultural, e, de outro, procurar uma saída pela música e por um comportamento no qual o espectro da contracultura dinamizava a ação.

É nessa interseção que uma sociedade alternativa se revelava como uma idéia a ser conquistada: no fora de tudo que cercava aquele contexto sócio-cultural. Dessa maneira, gerava-se uma contradição gritante: recusava-se o aparato da lógica empresarial, mas os arautos de uma nova ordem só ultrapassariam as fronteiras do mundo constituído pela reprodutibilidade técnica implantada pela indústria fonográfica. É dentro de tal lógica que Sérgio Sampaio foi para o Rio de Janeiro batalhar por uma carreira artística, mas, ao conseguir o feito, em seguida driblava e fugia da pompa circense que a indústria requeria: quer dizer, o artista se recusava a ceder aos holofotes espetaculares da indústria cultural e da embalagem que envolve toda e qualquer obra ao ser transformada em mercadoria. (…) O refrão da música se apresenta como um desbunde, estar pronto para a entrega do corpo ao erótico, ao lúdico, à alegria da festa popular. No entanto, pode-se também ler a estrofe sob o signo da conotação política, do grito de guerra solto no ar, conclamando que a rua é o lugar de encontro e ajuntamento e ação.” (AMARAL, op cit, p. 58)

O carnaval, nesse sentido, não é mera fuga de um cotidiano asfixiante, efêmera folia que depois nos deixa o amargor de ver “tudo se acabar na quarta-feira”; o carnaval tem potencial político, algo que Wilson das Neves escancarou em um dos sambas mais revolucionários da história, “O Dia Em Que O Morro Descer E Não For Carnaval” (parceria com Paulo César Pinheiro). Em seu artigo, Amaral destaca, sobre a canção de Sergio, que

“sendo o carnaval uma festa popular e a única atividade que movimenta uma quantidade grandiosa de gente num espaço aberto, colocar o bloco na rua pode significar que a força popular se faz, primeiro, no encontro, depois na multiplicação e na inteligência de um grupo com suficiente química para fazer o bloco passar e perseguir um objetivo comum: gingar, para dar e vender. A rua, de qualquer maneira, seria o único lugar para se resgatar e construir a liberdade de expressão. (…) Há uma proposta de transformação radical misturada com uma alegria arrebatadora que só a festa pode dar, pois ali é onde todos costumam se desarmar. (…) Não é uma louvação da pura rebeldia, mas de um mundo anárquico cujo poder seria horizontal e serpenteante como a evolução de um bloco.” (AMARAL, op cit, p. 58)

Quando Sergio Sampaio conclama “eu quero é todo mundo neste carnaval” – em radical contraste ao futuro Bloco do Eu Sozinho dos Los Hermanos – está desfraldando as bandeiras de uma utopia radical-democrática, horizontalizada, em que o lúdico é visto em todo seu potencial libertário. Parece-me que isso faz uma provocação àquelas vertentes da esquerda que são mais ascéticas sérias; Sérgio Sampaio parece assinar embaixo do que dizia Emma Goldman (1869 – 1940): “Se não posso dançar, não é minha revolução.” Através da canção, através da série de “há quem digas”, Sérgio Sampaio debate com as vertentes de ação política que, durante a ditadura, pregavam a guerrilha armada. “Há quem diga que eu fugi da briga / Que eu caí do galho / E que não vi saída / Que eu morri de medo / Quando o pau quebrou.” Segundo a interpretação de Amaral, o apelo para “botar o bloco na rua” também tem um significado de contestação da própria mensagem guerrilheira – Sérgio Sampaio parece mais próximo a Garrincha do que de Marighella!

“Colocar o bloco na rua passa a significar me deixem em paz! Quero seguir meu próprio caminho. Tal escolha num momento que qualquer laivo de preocupação consigo mesmo corria o risco de ser taxado, com desprezo, de pequeno-burguês é agressivamente libertado, pois a ação política requeria encerrar fileiras num projeto de demanda coletiva contra a violência do Estado. Pelo lado oposto, não havia um maior interesse de se dar bem na boquiaberta boca do milagre da euforia econômica do Brasil Grande da ditadura. Qualquer mundo ofertado dentro do esquema tradicional de poder constituído e de quem queria derrubá-lo não era aceito como uma verdade incontestável. Por isso, maldito, por isso, porra louca, por isso, marginal. A inalcançável terceira margem.

Creio que se pode afirmar, a partir de tal composição, que para uma situação alvoroçada como aquela, só mesmo ficando perturbado da idéia para encontrar um ponto de fuga onde se firmar para bem longe das certezas que petrificavam tanto uns, quanto outros postos em cada margem do naufrágio. (…) A letra traz, como um caleidoscópio, todos os lados envolvidos naquele conflito: do existencial ao político, do partidário ao econômico.” (AMARAL, op cit, p. 61-62)

Disseminador de poesia libertária, este gênio criativo que se auto-entitulou ironicamente “Velho Bandido”, este sábio-louco que vivia por si (“Ninguém Vive Por Mim”), parece-me também um tanto similar em espírito a Leminski (o bandido que sabia latim) na profundeza de seu amor fati e sua vivência fiel ao “não discuto com o destino / o que pintar / eu assino”. Sérgio Sampaio também é alguém que sempre ajuda-nos a aliviar os fardos das barras pesadas que esta vida insiste em nos aprontar (“o que pintar pintou / no que pintar eu tô, minha nêga / mesmo que a barra pesou”). Num país que teve tantos poetas-da-música brilhantes-refulgentes (Chico Buarque, Vinícius de Moraes, Renato Russo, Cazuza, Gilberto Gil etc.), Sérgio Sampaio até mereceria um lugar neste panteão caso ele não tivesse, ao que parece, um pouco de asco pelo pop-stardom, pela canonização. Foi um artista em estado de selvageria e efervescência, alguém em busca permanente e avesso a todas as petrificações, um compositor popular que sabia da solidão (“ninguém vive por mim”), da morte (“não ligue que a morte é certa”), das aflições e delícias do amor e seu périplo de dor – e que viveu botando nas ruas e nas rádios os blocos utópicos com os quais pretendeu estabelecer o nexo, o abraço, o laço, a confluência cotidiana de Poesia e Vida. Indissociáveis.


“Não fui eu nem Deus
Não foi você nem foi ninguém
Tudo o que se ganha nessa vida
É pra perder
Tem que acontecer, tem que ser assim
Nada permanece inalterado até o fim
Se ninguém tem culpa
Não se tem condenação
Se o que ficou do grande amor
É solidão
Se um vai perder
Outro vai ganhar
É assim que eu vejo a vida
E ninguém vai mudar…”

Eduardo Carli de Moraes
Goiânia, Setembro de 2016

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AMARAL, Sérgio da FonsesaFugir (pras veredas). In: Eu Sou Aquele Que Disse – Estudos e Impressões Sobre a Obra e a Vida de Sergio Sampaio, org. João Moraes. Vitória: Ufes, 2007.

ESSINGER, SilvioO Mais Maldito Dos Malditos.

MORAES, Diego. A sinceridade de Sérgio Sampaio (Senhor F) Nos trilhos sonoros de Sérgio Sampaio (Jornal Opção).

MOREIRA, Rodrigo. Biografia em Viva Sampaio.  Ele é o autor da biografia Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua – Edições Muiraquitã, 2000.

NASCIMENTO, Jorge LuizLugares suspeitos, terras de ninguém: alguns territórios de Sérgio Sampaio. In: Eu Sou Aquele Que Disse – Estudos e Impressões Sobre a Obra e a Vida de Sergio Sampaio, org. João Moraes. Vitória: Ufes, 2007.

SALGUEIRO, Wilbert. Notas: Tentando ouvir-me em Sérgio Sampaio nos anos 70. Revista Contexto, #11 – Vitória: UFES, 2004. In: Eu Sou Aquele Que Disse – Estudos e Impressões Sobre a Obra e a Vida de Sergio Sampaio, org. João Moraes. Vitória: Ufes, 2007.

WISNIK, José Miguel.Iluminações Profanas  – poetas, profetas, drogados”In: O Olhar, Cia das Letras, org. Adauto Novaes.

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SERGIO SAMPAIO >>> DISCOGRAFIA
OUÇA / BAIXE:

SOCIEDADE DA GRÃ-ORDEM KAVERNISTA (1971), COM RAUL SEIXAS [DOWNLOAD]

EU QUERO É BOTAR MEU BLOCO NA RUA (1973) [DOWNLOAD]

TEM QUE ACONTECER (1976) [DOWNLOAD]

AO VIVO (1991)

AO VIVO (1992)

sinceramentecapaSINCERAMENTE (1982)
[DOWNLOAD]

CRUEL (2006, póstumo, prod. Zeca Baleiro) [DOWNLOAD]

CACHOEIRO EM TRÊS TONS (DOCUMENTÁRIO)

Querida Janis: uma carta para um sol que brilha do além-túmulo (sob a influência do doc “Little Girl Blue”, de Amy Berg)

Janis Joplin 1967

Querida Janis,

Não tenho em mim as crenças místicas necessárias para te crer viva, ainda, em alguma transcendental dimensão da imensidão cósmica. Não te atribuo ouvidos capazes de decifrar as palavras que te falarei, nem olhos que decriptem estes garranchos que te escrevo. Suponho que te tenhas acabado, em carne-e-osso, por inteiro, sem deixar subsistir o fantasma de um espírito imorredouro. No entanto, o teu esplendor enche meu coração ateu de convicções sobre a perspectiva concreta de sobrevida após a morte pois tua música é nada menos que isso: um vivificador tônico, um Biotônico Fontoura artístico, um fortalecedor do ânimo, o que faz do teu legado algo que está para além da possibilidade de servir de repasto aos abutres ou aos vermes.

És uma voz que transcende a morte, uma voz que condensa um destino que em 27 anos brilhou mais do que a maioria dos terráqueos consegue no triplo ou no quádruplo deste tempo. Inspira-nos, até mesmo a nós que nascemos quando você já estava morta, a sensação intensa de que é possível “viver sem tempos mortos”, para emprestar a expressão de Simone de Beauvoir. Querida Janis, você mostra que é possível existir no compromisso com a autenticidade extrema. Você não escondia tua verdade detrás das máscaras da conveniência, nem se calava diante da massa caótica e confusa de afetos que em ti conviviam criando nós que era preciso desatar. Teus nós eram cantáveis em libertárias catarses. Assim libertavas-nos a todos, teus contemporâneos e teus pósteros, ao dar às mancheias e sem avareza tantas lindas lições de tua liberdade.

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Por muito tempo este leitor de Nietzsche tentou encontrar exemplos concretos, históricos, de quem seriam os tais dos “espíritos livres”, dionisíacos e em êxtase diante da existência, e encontro poucas encarnações melhores desta liberdade-de-espírito do que você. Você e Jimi. Vocês, cometas que atravessaram com pressa o céu da existência, faiscando pelo cosmo com vidas incendiadas e que a gente não esquece mais, tão necessitados somos destas tempestades de beleza com que vocês nos agraciaram. A guitarra de Jimi em chamas evoca-me a imagem símile da tua voz rasgada, que não temia desafinar pois ascendia para uma região para além de todos os medos, um âmbito onde reina a expressão intensa de afetos verdadeiros, com o ímpeto e a verve, com a vibe e o groove, de uma divina bacante, maravilhosamente indomável.

Ainda assim, mesmo que fizesses “amor com milhares de pessoas” durante os shows, voltavas sempre sozinha pra casa. Janis, entendo teu blues tão bem pois não pusestes máscara em teu sofrer. Soubestes cantar o abandono e a carência como ninguém, na singularíssima irradiação do teu ser incatalogável, e vejo nesta tua frase – “On stage, I make love to 25,000 different people, then I go home alone” – uma espécie de emblema do teu ânimo e cerne do teu blues.

3007-janis-joplin-620x372“BALL AND CHAIN” (AO VIVO NO MONTEREY POP):

Querida Janis, tu gritavas a tua solidão de um modo que nos faz sentir que uma solidão só é horrenda se mantida secreta e presa, nas catacumbas mau-iluminadas de nosso tórax. Tu gritavas a tua solidão dando a entender que uma solidão gritada poderia virar alguma porra semelhante a um orgasmo estético vivenciável em comum por um bando de hippies loucos em Nirvana conjunto… O Big Brother & The Holding Company que me perdoe – eram uma bandaça, afinal, tão timbrada quanto um Steppenwolf ou um Grateful Dead! – mas eras de fato o astro mais brilhante daquela constelação humana. E não tenho a pretensão de saber explicar as razões do teu esplendor, só sei que a aura de liberdade é essencial a isto que irradiava de ti e que te fez, de fato, um astro. Não uma pop star, mas um astro iluminante de fato, daqueles que se consome no próprio incêndio, um pouco como aquele monge budista que está em pleno processo de virar cinzas na capa do álbum de estréia do Rage Against the Machie.

A tua “astridade” era legítima – pois esplendias como um sol – mas cedo também fizestes a descoberta do quão tão trágico é ser astro. Como Kurt Cobain um dia também compreenderia, outro que entrou para o mítico time dos 27. Há quem vá dizer que vocês foram estúpidos, imprudentes, que vocês desperdiçaram a vida jogando-a fora por causa do vício às drogas, e inclusive não faltaram jornais e revistas para grudarem em vocês os rótulos depreciativos de junkies. Vocês não foram só junkies, Janis, não do modo como esta palavra é mobilizada pelos detratores, pois vocês foram o inefável, o indefinível, o irrotulável esplendor da Arte, aquilo que está para além das capacidades dos críticos de verbalizar.

Ocorre-me à mente uma belíssima cena de A Liberdade é Azul, de Kieslowski, em que a personagem de Juliette Binoche está de olhos fechados sentindo os raios de sol em sua face: tua música é assim, pra ser ouvida de olhos fechados, como quem se banha no esplendor irradiante de um sol que aquece, derretendo a frieza que é em nós prenúncio e parente do rigor mortis. Querida Janis, mesmo que nunca venhas a saber disso, digo na gratidão intensa de quem não cessa de te ouvir e ser beneficiado ao teu contato: amo a tua irradiância. Tua ética, tua estética, era a mesma do sol.


Vejo-te em Monterey, pela primeira vez diante de um público de tal gigantismo que é de atemorizar qualquer reles mortal com o mais paralisante stage fright. Você, não: como um heroína que retira suas forças de mananciais secretos que nem Carl Jung saberia decifrar onde se encontram, você sabia se desnudar diante de uma platéia imensa, abrir a sua caixa toráxica e exibir um coração sangrento e pulsante, daqueles que não via nada melhor a se fazer na vida do que cantar e cantar. Cantar de verdade, a tua verdade, de modo a derreter até o mais empedernido dos sujeitos apáticos e convencionais. Diante de ti, ficamos boquiabertos com uma capacidade rara, que poucos de nós de fato chegamos a desenvolver, esta generosa entrega de si ao mundo, através de uma expressão, arrojada e ousada, do teu oceano de afetos.

Te vejo no Rio de Janeiro e tua liberdade ali esplende nos bicos dos teus seios, na displicência anti-chic com que bebes um goró e curtes a maravilha transitória de um pouco de anonimato. Mas a câmera fotográfica te flagra, e talvez você sentisse que viver momentos tão mágicos sem ter deles registro talvez fosse sentido como perda, desperdício; você queria, do seu percurso, carregar vestígios. Você tinha a ambição de ser amada, não a medíocre ambição do lucro que é epidemia. Ambicionava derreter corações ao sol da tua expressão hipérbole das verdades sentidas e vividas.

Teu foto-diário, que no documentário de Amy Berg ganha vida na voz de Cat Power, serve como janelas abertas para uma pessoa que tinha lá seus segredos, apesar do escancarado dos teus cantos. Segredos de sofrimentos antigos, de ter sido molestada por canalhas da Klu Klax Klan em Port Artur ou por ter sido maltratada por algum cowboy escroto de Austin. Segredos de uma adolescência repleta da sensação de ser um freak e estar apart em relação à ordem careta.

Te imagino livre demais para enquadrar-se nos quadrados pré-preparados pelo poder. Ao invés de murchar na depressão ao sentir-se pertencente à estirpe da freakidade, você soube se conectar a algo de coletivo, à corrente da contracultura e sua ética do desapego ao lucro monetário, tivestes  apegos à utopia de uma sociedade alternativa que Raul Seixas cantaria por aqui, no Brasil, mas que vocês também encarnavam naquele trem de doidos sublimes e músicos geniais que espraiou magia pelos trilhos da América na trip do Festival Express.

Que seria daquela cena sem a tua inestimável contribuição, que seria de San Francisco nos anos 1960 se você não estivesse impactado todo o cenário com a tua irrupção esplendorosa? E no entanto tua vida dá a impressão clara de que você disse a verdade quando te perguntaram se você foi ao Rio como turista, e você respondeu: “i’m a beatnik on the road.” 

Cara Janis, não sou mongolóide de achar que minha carta achará teu endereço, tu que não és mais deste mundo, mas eu não saberia me expressar sobre ti senão me endereçando ao teu fantasma tão presente, à tua presença em mim através destas canções que tu cantavas como se fossem cartas. Cartas daquelas tão sinceras que são de rasgar o coração, como em “Cry Baby”, quando você a cantou em Toronto, em 1970, mandando notícias para seu “lost love” na África. Uma carta endereçada àquele que, após as maravilhas do convívio e da intimidade te abandonou para ir em busca de algo, em busca de si, em busca de sei lá o quê, em Casablanca ou sabe-se-lá-onde.

Você diz a ele, no teu blues, algumas lições que são ao mesmo tempo seduções: “You’re lookin’ for your life over there, honey! Do you wanna know where your life is? You’re life’s waiting like a god-damned fool, right here, for you man!” Você, que não era fácil, faz recurso até a ameaças: “um dia, meu caro, você vai acordar em Casablanca e vai estar congelando-até-a-morte [freezing to death], cara! E você vai se perguntar, que diabo estou fazendo em Casablanca?”

Você canta no ímpeto da esperança de um reencontro, você imagina o retorno do amor perdido, no teu abandono você o chama com come on, come on, come on, e não conhece sedução alguma melhor do que dar-lhe permissão para chorar. Teu romantismo não era a idealização de um convívio perfeito, mas a mútua entrega à expressão de sentimentos, mesmo os mais negativos e pesarosos: amar é ter um ombro onde chorar tanto quanto é ter alguém com quem rir; amar é dividir com alguém os malefícios e crueldades da existência tanto quanto é uma festa do êxtase em conjunto; amar era, pra ti, Janis, mais que mero sonho ou fantasia, era aquilo que tu fazias com a naturalidade do vulcão que entra em erupção.

Teus afetos falavam a língua do fogo. Teu calor humano é aquilo em ti que é imorredouro. Tua voz é deste calor o veículo, teu coração fez-se indestrutível pela decomposição já que aqueces os vivos mesmo não estando mais entre eles. És uma força vivificante que emana do túmulo, ou melhor, os vestígios da tua vida são vivificantes a ponto de serem pouco distinguíveis do incêndio solar que apresenta-se para seu concerto diuturno a cada aurora e se põe a cada crepúsculo.

“CRY BABY” (AO VIVO EM TORONTO, 1970):

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Talvez, querida Janis, tenhas inventado um novo namastê, um culto solar, algo como “o sol que há em mim saúda o sol que há em ti”. És um emblema do que se chamou, por comodidade de classificação, a “Geração Hippie”. Vocês eram a mais esplendorosa das belezas nascidas de um país e de uma época chafurdados nos horrores da guerra e do genocídio imperialista. Você, Janis, nasceu em meio às carnificinas da 2a Guerra Mundial, em 1943, e as tuas faces de criança talvez tenham sido iluminadas, através da TV, pelas hecatombes nucleares de Hiroshima e Nagasaki. Você deve ter visto aqueles cogumelos hediondos: teu blues não era somente cósmico, era também histórico. Você nasceu – alguém não nasce? – em tempos sombrios. E em Woodstock você deves ter sentido que algo se galvanizava e imantava num imenso evento que, para além do hedonismo, da libertação sexual, da experimentação com novas vivências intersubjetivas e estéticas, era também congregação daqueles que queriam encontrar as vias de co-construção de um mundo menos sangrento e cruel do que aquele do napalm despejado sobre as pessoas do Vietnã e do Camboja, do que aquele dos warmongers que teu ídolo Bob Dylan denunciara em “Masters of War” e outros folk-hinos.

Woodstock Music Festival (1969)

Woodstock Music Festival (1969)

 Tua beleza ensinava algo de precioso aos poderes ensandecidos pelas feiúras bélicas e pelos feitos de macheza destruidora e imperialismo agressivo. Tu eras desejo intenso de felicidade – “Jesus fucking Christ, I want to be happy so fucking bad!”, ainda te ouço dizer. Os caretas jamais vão compreender que tua relação com as drogas nada tinha de auto-destruição niilista ou fuga dos desafios da existência, era sim um desejo de intensidade e de viver sem tempos mortos, de sondar aquela sabedoria que só se encontra no excesso (segundo William Blake e seus Provérbios do Inferno). Você era um pouco como Jim Morrison, queria break on through to the other side. Depois, Patti Smith seria animada pelo que tu fizeras e diria: there’s a million membranes to break through.


Minha querida Janis, adoro-te pois você não se resignava a uma vidinha besta e sem thrills, você queria que viver fosse groovy, algo cheio de ritmo e paixão, cheio de dança extática e eloquência cantada, você queria a música que conduz ao transe, você queria ser para o público aquele médium de transfiguração que conduz um coletivo à congregação. Como faziam Otis Redding ou Aretha Franklin, você era xamã de um cerimonial pagão, bacântico, dionisíaco, onde as fronteiras delimitantes da chatura instituída eram lançadas por terra. Cantar te dava asas a ponto de não existir gaiola nesse mundo em que coubesses. Mas só eras este vulcão pela densidade de sofrimento que carregavas, tu te conectavas com os afetos que foram tão magistralmente expressados por algumas das melhores cantoras de blues da história: Billie Holliday, Bessie Smith, Odetta, Ma Rainey.

Odetta

Odetta

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Billie Holiday

Em 27 anos, você impôs-se neste panteão, você fez algo de tão extraordinário que as pessoas, te ouvindo, mal conseguiam acreditar que você não fosse negra. E dizer que Janis Joplin cantava como uma negona não é mero chiste ou brincadeira, é reconhecer tanto a tua capacidade de aprender com as blueseiras negras todas as técnicas, truques e feelings que você tão bem empregou, quanto a tua capacidade de transfigurar os sofrimentos e dúvidas que sentias em algo de tamanha intensidade e carga emocional que parece apenas ser possível só para quem passou por traumas muito severos e humilhações muito profundas – exatamente o caso do povo afro-americano que vivenciou as sequelas e as sobrevivências da escravatura.

Dirão alguns que tu cantavas dores pessoais, de relações intersubjetivas que tendemos a confinar hoje no âmbito do privado, e que para encontrar os gênios do canto de um sofrimento coletivo, grupal, histórico, a obra de uma Nina Simone ou de um Gil-Scott Heron é mais significativa. Já eu acho que teu canto é profundamente político pois carrega uma ética, um ideal de relacionamento humano, uma espécie de pregação laica, lindamente musicada, em que tu celebravas – tinhas sim algo de Aretha Franklin em seus trance-gospels – algo que talvez seja menos deus que valor: honestidade de expressão. É o ético é indissociável do político.

Aretha Franklin

Aretha Franklin

Tu eras, Janis, maravilhosamente capaz de pôr teus sentimentos numa linguagem que comandava a empatia com a força de imantação que o planeta Saturno acarreta à matéria que forma seus anéis circundantes. Tu talvez sentias o cosmic blues, semelhante ao de Pascal ao olhar para o “silêncio eterno dos espaços infinitos”, tinhas talvez o frisson melancólico daqueles que suspeitam que o céu é surdo a nossos apelos e que não há deus que nos salve de nosso abandono. Tinhas talvez a percepção visceral de que temos só uns aos outros, e aprendestes no amargor que humanos não são assim tão bons de entrega, de generosidade, de conexão. Precisamos de pedagogos do amor, e nisto fostes uma imensa fonte de luz, assim como Rita Lee, segundo Tom Zé, foi a educadora erótica de toda uma geração, você nos ajudou a aprender a arte difícil de amar – e oferecestes tudo o que tinhas àquilo que amavas mais que tudo, tua música e as teias de conexão que, por esta via, você estabelecia.

Você celebrava o potencial de congregação da música – aquilo que a anima há milênios, aquilo que transcende os contextos culturais específicos, aquilo que decerto já faziam os hominídeos e neandertais de gerações e gerações antes da História escrita começar.

Tua música é um sol que resplende e não cessamos de trepidar às bordas da tua fogueira, ao mesmo tempo aquecidos e estarrecidos, incapazes de compreender como é possível alguém compreender que a vida é isso: queimar. It’s better to burn out than to fade away. Como diria aquele outro membro do Clube dos 27 que, citando Neil Young, despediu-se do mundo em sua carta de suicídio, talvez sem suspeitar de que também viveríamos, nós, seus pósteros, à sombra fascinante da catarse de sua angústia. Eventos como você ou o Nirvana, na história da música, são raríssimos: são vocês que estabelecem os auges, são vocês que fazem os termômetros da cultura explodirem por excesso de temperatura, por explosão do vidro que contêm os mercúrios.

Ensinas a viver mesmo no teu fracasso, dás a lição da fragilidade e da beleza da vida enquanto deixas o ânimo vital cair no nada por causa de um estúpido pico de heroína num hotel qualquer de teu percurso que ainda era tão grávido de futuros.

Janis, escrevo para dizer que o futuro ainda se aquece à luz do teu calor e ainda se encanta com o esplendor da tua voz; sei que não me ouves, mas não posso ouvir-te sem querer este absurdo infazível de agradecer-te. Rock on, sis! Shine on your glowing light!

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Escrito em 18/09/16, em Goiânia, logo após a sessão do documentário “Little Girl Blue” em sessão no Cine Cultura

SIGA VIAGEM:

SHOWS:

AO VIVO EM ESTOCOLMO, SUÉCIA (1969)

AO VIVO EM FRANKFURT, ALEMANHA:

AO VIVO EM WINTERLAND (1968) – Só áudio:

AO VIVO EM MONTEREY POP – Só áudio:

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1965 – This Is J.J.
1966 – Big Brother & The Holding Company – Light Is Faster Than Sound
1966 – Big Brother & The Holding Company – Live In San Francisco 1966
1967 – Big Brother & The Holding Company
1968 – Big Brother & The Holding Company – Cheap Thrills
1968 – Live At The Winterland ’68
1969 – At Woodstock
1969 – Filmore East 1969
1969 – Frankfurt 12Th April 1969
1969 – I Got Dem Ol’ Kozmic Blues Again Mama!
1969 – Janis Joplin & The Cosmic Blues Band – Texas International Pop Festival Vol. 3
1970 – Big Brother & The Holding Company – Be A Brother
1970 – Pearl
1970 – The Rarest Pearls
1970 – Wicked Woman
1971 – Big Brother & The Holding Company – How Hard It Is
1972 – Joplin In Concert
1973 – Janis Joplin’s Greatest Hits
1974 – Janis Original Soundtrack
1980 – Anthology
1983 – Farewell Song
1999 – Mercedes Benz (Rare Tracks – 1962-1970)
2000 – Super Hits
2001 – Love Janis
2005 – Pearl (Legacy Edition)

O ATLÂNTICO NEGRO: JUIZ DA MODERNIDADE (Reflexões descolonizadoras com Paul Gilroy, Charles Darwin, T. Todorov, Susan Buck-Morss, Toni Morrison etc.)

ìntura de Auguste François Biard

O ATLÂNTICO NEGRO, JUIZ DA MODERNIDADE

por Eduardo Carli de Moraes

Charles Darwin, muito antes de revolucionar a ciência com sua teoria da evolução, escandalizado pastores e teólogos com a publicação de seu magnum opus A Origem Das Espécies, viajou o mundo a bordo do Beagle, estudando a miríade de manifestações da Vida. No Brasil, Darwin também acabou por testemunhar os feitos e desfeitos deste primata particularmente perigoso, o homo sapiens, e diante das atrocidades cotidianas da escravidão no Rio de Janeiro o sábio naturalista deixou o seguinte relato, eivado de suspiros e lamentos:

Darwin

“Perto do Rio de Janeiro, minha vizinha da frente era uma velha senhora que tinha umas tarraxas com que esmagava os dedos de suas escravas. Em uma casa onde estive antes, um jovem criado mulato era, todos os dias e a todo momento, insultado, golpeado e perseguido com um furor capaz dedesencorajar até o mais inferior dos animais. Vi como um garotinho de seis ou sete anos de idade foi golpeado na cabeça com um chicote (antes que eu pudesse intervir) porque me havia servido um copo de água um pouco turva… E essas são coisas feitas por homens que afirmam amar ao próximo como a si mesmos, que acreditam em Deus, e que rezam para que Sua vontade seja feita na terra! O sangue ferve em nossas veias e nosso coração bate mais forte, ao pensarmos que nós, ingleses, e nossos descendentes americanos, com seu jactancioso grito em favor da liberdade, fomos e somos culpados desse enorme crime.” CHARLES DARWIN em A Viagem do Beagle. Via Brado Informativo.

Com o mesmo tom de blues que Darwin emprega diante da escravatura, poderíamos suspirar: Ah, pobre e massacrado Oceano! Quantas atrocidades já cometeram os humanos sobre as tuas ondas! Hélas! Segundo o instrutivo e estarrecedor infográfico da Slate, por cerca de 315 anos o Atlântico foi atravessado por nada menos que 20,528 viagens marítimas diretamente vinculadas ao tráfico de escravos.

O que me leva à suspeita de que a “banalidade do mal”, como fenômeno histórico, existia muito antes deste conceito ser forjado por Hannah Arendt, que o formulou após testemunhar o o julgamento de Eichmann em Jerusalém, um dos emblemas das avalanches de males que marcaram o século XX. Muito antes das fábricas-da-morte instaladas pelos nazistas, Europa afora, para extermínio dos judeus, o mal banalizado da escravatura, crucial para o desenvolvimento do capitalismo europeu, consistiu na malvadeza banal, tornada habitual, da legalidade e cotidianidade – que hoje nos parece obscena e desumana!- dos mercadores de carne humana.

Do século XVI ao XIX, o slave trade (que tanto capital nos bolsos dos europeus logrou pôr!), impôs a escravatura aos humanos da África em uma escala e extensão impressionantes:  mais de 10 milhões de seres humanos escravizados chegaram às Américas, após terem sido sequestrados e acorrentados na África, extraídos à fórceps e com violência de suas terras nativas.  De todos os “forçados” que foram trazidos ao “Novo Mundo”, apenas 4% destes foram parar no Norte do Continente; a imensa maioria aportou na América Central e do Sul. O Brasil e o Caribe foram os territórios de maior influxo: foram cerca de 1,3 milhões de pessoas carregadas à América Central Espanhola; em contraste, chegaram 4 milhões ao Caribe (às colônias inglesas, francesas, holandesas e dinamarquesas), além de 4,8 milhões ao Brasil.

From the trade’s beginning in the 16th century to its conclusion in the 19th, slave merchants brought the vast majority of enslaved Africans to two places: the Caribbean and Brazil. Of the more than 10 million enslaved Africans to eventually reach the Western Hemisphere, just 388,747—less than 4 percent of the total—came to North America. This was dwarfed by the 1.3 million brought to Spanish Central America, the 4 million brought to British, French, Dutch, and Danish holdings in the Caribbean, and the 4.8 million brought to Brazil. SLATE

É preciso, portanto, repensar e re-escrever o relato histórico oficial, que fala em uma “descoberta da América” em que a “civilização” européia teria feito o favor de trazer aos pagãos-sem-lei as maravilhas e benefícios da “modernidade”. Como já argumentei em outro artigo, em seu clássico estudo A Conquista da América o Tzetan Todorov destaca claramente a dimensão da catástrofe genocida diretamente vinculada às aventuras imperialistas e escravocratas dos europeus:

 “Em 1500, a população do globo era de aproximadamente 400 milhões, dos quais 80 milhões habitam as Américas. Em meados do século XVI, desses 80 milhões… restam 10 milhões. Se nos restringirmos somente ao México: às vésperas da conquista, sua população é de aproximadamente 25 milhões; em 1600, é de 1 milhão. (…) Se a palavra genocídio foi alguma vez aplicada com precisão a um caso, então é esse. É um recorde, parece-me, não somente em termos relativos (uma destruição da ordem de 90% ou mais), mas também absolutos, já que estamos falando de uma diminuição da população estimada em 70 milhões de seres humanos. Nenhum dos grandes massacres do século XX pode comparar-se a esta hecatombe.” (TZVETAN TODOROV, A Conquista da América, Ed. Martins Fontes, p. 191-1)

la-economia-de-la-antiguedad-moses-finley-383111-MLA20493794209_112015-FÉ bem verdade que não foram os europeus da época das grandes navegações que inventaram a escravidão enquanto instituição: ela é um legado da antiguidade, uma acompanhante recorrente mesmo daquelas civilizações que tendemos a julgar como as mais “avançadas”. A obra de Moses Finley revela de modo esclarecedor as condições econômicas, sociais e morais que permitiram o surgimento, o desenvolvimento e o declínio das sociedades escravistas da antiguidade (confiram, por exemplo, o livro Escravidão Antiga e Ideologia Modernada Ed. Graal, 1991).

O Império Romano, por exemplo, praticava abertamente a escravidão. Na época em que Jesus de Nazaré vem ao mundo, este líder hebreu surge no contexto das insurreições de escravos similares ao levante chefiado por Spartacus (tão brilhantemente narrado no filme de Stanley Kubrick).  A figura histórica do nazareno, que depois acabará seus dias, aos 33 anos de idade, pregado numa cruz, é emblemática para frisar o seguinte: a “paixão de Cristo” foi em tudo similar às martirizantes crucificações perpetradas por Roma contra os escravos revoltosos e insubmissos. Tanto que, na Genealogia da Moral, Nietzsche analisará o cristianismo primitivo como expressão de uma “revolta dos escravos na moral”.

Um trecho notável de Friedrich Engels, no Anti-Dühring, clama pela necessidade de compreensão da infâmia escravocrata, se quisermos compreender adequadamente as maiores realizações culturais e espirituais tanto da antiguidade greco-romana quanto da Europa moderna:

Friedrich Engels, 1858

Friedrich Engels, 1858

“Foi a escravidão que tornou possível, pela primeira vez, a divisão do trabalho entre agricultura e indústria em grande escala… Sem a escravidão não haveria Estado, arte ou ciência gregas; sem a escravidão, não haveria Império Romano. Sem o helenismo e o Império Romano como bases, tampouco haveria a Europa moderna… É simples atacar a escravidão em termos gerais e despejar um ódio altamente moral em tais infâmias… Mas isto em nada nos revela como surgiram tais instituições, por que existiram e que papel tiveram na história.” (ENGELS. In: Marx/Engels, Werke, 20, Berlim: 1962, p. 168)

Tendo o Atlântico Negro em mente, é fácil compreender o que Walter Benjamin quis dizer com seu diagnóstico lapidar e crucial: “Todo monumento da civilização é também um documento da barbárie.” O dualismo maniqueísta civilização barbárie cai por terra e revela-se insustentável diante das barbaridades perpetradas pelos “civilizados”. A noção de uma barbárie-civilizada tem como exemplo explícito o caso da escravatura cotidianizada que os europeus praticaram por séculos. As civilizações que se celebram como as mais “elevadas” praticam infames e cruéis barbáries de modo recorrente, e isto também se manifesta em tempos mais recentes: a Alemanha altamente “culta” dará inúmeras provas disso durante o III Reich, e também os “desenvolvidíssimos” EUA, das bombas-H despejadas sobre Hiroshima e Nagasaki às chuvas de napalm sobre o Vietnã (para não mencionar os genocídios recentes no Iraque e no Afeganistão…).

Além disso, vale frisar que até mesmo aqueles reputados como os mais sábios dentre os homens, os mais inteligentes dos seres que já viveram, puderam realizar, naturalmente com muita “civilidade” e retórica apurada, a apologia da escravatura. O etnocentrismo de Hegel já foi amplamente reconhecido como traço notório do autor da Fenomenologia do Espírito (livro que contêm a famosa reflexão sobre a “dialética do senhor e do escravo”, de reverberações e críticas incalculáveis, de Kojève a Marx). Em um texto muito revelador, a historiadora Susan Bock-Morss realiza a proeza de refletir sobre a vida e obra de Hegel tendo como foco a Revolução no Haiti (analisada em minúcias no clássico da historiografia Os Jacobinos Negros, de C.R.L. James):

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LEIA: HEGEL E HAITI, DE SUSAN BUCK-MORSS. Resumo: O paradoxo entre o discurso da liberdade e a prática da escravidão marcou a ascensão de uma série de nações ocidentais no interior da nascente economia global moderna. O artigo explora o uso da metáfora da escravidão no iluminismo filosófico europeu, e sugere que a “dialética do senhor e do escravo” hegeliana tem raízes mais na história contemporânea – particularmente, nas notícias que chegavam à Europa da Revolução Haitiana de 1791 – do que na tradição herdada pelo filósofo alemão.

“No século XVIII, a escravidão havia se tornado a metáfora fundamental da filosofia política ocidental, conotando tudo o que havia de mau nas relações de poder. A liberdade, sua antítese conceitual, era considerada pelos pensadores iluministas o valor político supremo e universal. Mas essa metáfora política começou a deitar raízes justamente no momento em que a prática econômica da escravidão – a sistemática e altamente sofisticada escravização capitalista de não europeus como mão de obra nas colônias – se expandia quantitativamente e se intensificava qualitativamente, ao ponto de, em meados do século XVIII, ter chegado a sustentar o sistema econômico do Ocidente como um todo, facilitando, paradoxalmente, a expansão global dos próprios ideais do Iluminismo que tão frontalmente a contradiziam.

Essa discrepância gritante entre pensamento e prática marcou o período de transformação do capitalismo global de sua forma mercantil para sua modalidade proto-industrial. Seria de se esperar que nenhum pensador racional e “esclarecido” deixaria de percebê-la. Contudo, não era esse o caso.

A exploração de milhões de trabalhadores escravos coloniais era aceita com naturalidade pelos próprios pensadores que proclamavam a liberdade como o estado natural do homem e seu direito inalienável. Mesmo numa época em que proclamações teóricas de liberdade se convertiam em ação revolucionária na esfera política, era possível manter nas sombras a economia colonial escravista que funcionava nos bastidores.

Se esse paradoxo não parecia incomodar a consciência lógica dos contemporâneos, talvez seja mais surpreendente que alguns autores, ainda hoje, se disponham a construir histórias do Ocidente na forma de narrativas coerentes do avanço da liberdade humana….” – SUSAN BUCK-MORSS

Já entre os filósofos gregos clássicos, encontramos escravocratas entre os maiores popstars do pensamento: Aristóteles, o discípulo de Platão e mentor do imperador Alexandre, fará a defesa explícita da escravidão em sua obra Política:

ARistoteles“Alguns seres, ao nascer, se veem destinados a obedecer; outros, a mandar. (…) O macho é mais perfeito e governa; a fêmea o é menos, e obedece. (…) Há na espécie humana indivíduos tão inferiores a outros como o corpo o é em relação à alma, ou a fera ao homem; são os homens no qual o emprego da força física é o melhor que deles se obtém. Partindo dos nossos princípios, tais indivíduos são destinados, por natureza, à escravidão; porque, para eles, nada é mais fácil do que obedecer. (…) A utilidade dos escravos é mais ou menos a mesma dos animais domésticos: ajudam-nos com sua força física em nossas necessidades cotidianas. (…) O escravo é completamente privado da faculdade de querer; a mulher a tem, mas fraca; a do filho é incompleta…” ARISTÓTELES. Política. Trad. Nestor Silveira Chaves. Ed. Saraiva de Bolso, Livro I, Capítulo 2 e 4, pgs. 26, 27 e 42.

Ideologia semelhante já era propagada em A República, onde Sócrates prega uma pólis ideal onde imperaria a escravidão, além de uma rígida censura, com o reinado elitista do “filósofo-rei” e a divisão do trabalho com base nas “aptidões naturais” (alguns, vocês sabem, nascem para a escravidão, outros para a filosofia e o poderio civil… é mais ou menos o sustentava o sujeito que Atenas mandou matar com a cicuta). Mesmo os mais consagrados dos pensadores podem afirmar valores aristocráticos e racistas (Heidegger foi membro de carteirinha do Partido Nazi…). E na Europa jamais faltaram filósofos que dão justificativas sórdidas para o apartheid social e para a manutenção do que Nietzsche chamava de “pathos da distância” (a obra de Nietzsche, aliás, também está repleta de um ethos do aristocratismo, que será fustigado sem dó pelo filósofo marxista Lúkacs em O Assalto à Razão)

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Zumbi dos Palmares, pintura de Antônio Parreiras

Porém, jamais foi sem resistência que o supremacismo militarizado dos escravocratas impôs a mercantilização brutal aos escravizados. A “Revolução dos Escravos” no Haiti é um emblema de que ideais de justiça, liberdade, igualdade e fraternidade, pregados da boca-pra-fora em uma Europa que seguia imperialista e escravocrata, pode triunfar através da insurreição popular revolucionária. No Brasil, por exemplo, também multiplicaram-se os quilombos e os heróis da liderança emancipatória, como Zumbi dos Palmares. Nas águas do Atlântico Negro, atravessado pela diáspora africana, eclodiram também muitas lutas encarniçadas entre capitalistas acorrentadores e escravizados em motim, como ocorreu no navio Amistad em 1839 (cuja crônica cinematográfica foi realizada em 1997 por Steven Spielberg).

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"Levante no Amistad", de Hale Woodruff.

“Levante no Amistad”, de Hale Woodruff.

The Mutiny on the Amistad – In 1839 on the West Coast of Africa, 53 Africans were kidnapped from Mende country (modern Sierra Leone) and sold into Spanish slave trade.  The men, women and children were shackled and loaded aboard a ship where they endured physical abuse, sickness, and death during a horrific journey to Havana, Cuba. Led by Senbeh Pieh (Cinque’), the Africans revolted, took control of the ship, which was eventually seized by an American naval vessel.  The Africans were jailed and charged with piracy and murder. – STEINHARDT/NYU

Um dos pintores ingleses mais importantes do século XIX, Turner (1775-1851), retrata em um célebre quadro a seguinte situação: um “navio negreiro lançando mortos e moribundos ao mar enquanto uma tempestade se aproxima”. A extraordinária e icônica imagem foi inspirada em eventos reais ocorridos com o navio Zong, que fez a travessia entre a África e a Jamaica em 1783, quando 132 pessoas, que eram s africanos escravizados e acometidos por uma epidemia, foram lançados à morte certa nas águas repletas de tubarões. A obra “foi exposta na Royal Academy para coincidir com a convenção mundial antiescravista realizada em Londres, em 1840” (Paul Gilroy, Atlântico Negro, Ed. 34, p. 55).

Obra do pintor inglês, J.M.W. Turner, "O Navio Negreiro" (The Slave Ship), de 1840

Obra do pintor inglês, J.M.W. Turner, “O Navio Negreiro” (The Slave Ship), de 1840. Compartilhar.

A imagem é um emblema das tragédias vinculadas ao tráfico de escravos perpetrado pelos europeus em suas práticas de terror racial e supremacismo branco, mas “deve-se enfatizar que os navios eram os meios vivos pelos quais se uniam os pontos naquele mundo atlântico, os elementos móveis que representavam os espaços de mudança entre os lugares fixos que eles conectavam” (Gilroy, p. 60). No Atlântico, milhares de dramas, hoje apenas parcialmente conservados pela história, transcorreram em meio aos avanços impiedosos da industrialização e da modernização capitaneados pela Europa.

Para Paul Gilroy, o Atlântico Negro remete a uma “estrutura rizomórfica e fractal da formação transcultural e internacional”. O livro de Gilroy pretende focar no conceito de diáspora, sempre remetendo às rotas marítimas, intercruzadas e múltiplas, realizadas através do Oceano que conecta a África, a Europa e a América. O navio teria sido, como escreve Peter Linebaugh, “o mais importante canal de comunicação pan-africana antes do aparecimento do disco long-play.” (LINEBAUGH, “Atlantic Mountains”, p. 119, apud Gilroy, p. 54)

“Este livro é, essencialmente, um ensaio sobre a inevitável hibridez e mistura de ideias”, escreve Paul Gilroy no prefácio ao Atlântico Negro, obra em que faz um “apelo sincero contra a clausura da categorias com as quais conduzimos nossas vidas políticas” e que oferece um “vasto acervo de lições quanto à instabilidade e à mutação de identidades que estão sempre inacabadas, sempre sendo refeitas.” (p. 30) No prefácio à edição brasileira, ele torna explícito o seu desejo de contribuir para “consolidar e renovar nossas críticas da própria ideia de raça e esperançosamente prever sua morte como princípio de cálculo moral e político.” (p. 24) A utopia de Gilroy inclui a morte do racismo, a abertura alegre para a mestiçagem e a crioulização, de modo a demolir todos os absolutismos étnicos, purismos raciais e nacionalismos particularistas que tantos desastres já causaram pela História afora.

Um dos antrópologos mais conceituados da atualidade que estuda a reconstrução da identidade africana, fugindo um pouco dessa relação umbilical com a África Na foto: Paul Gilroy Foto: Walter de Carvalho, Ag. A Tarde, em 03/08/06

Paul Gilroy, autor de O Atlântico Negro. Foto: Walter de Carvalho, Ag. A Tarde, em 03/08/06.

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Falls Road, Belfast

Street Art na Irlanda destaca em seu centro Frederick Douglass. Local: Falls Road, Belfast.

O imperio da necessidadeA situação de cisão e apartheid social no Brasil, um dos lócus mais marcados pela diáspora africana que o termo Atlântico Negro pretende captar, marca nosso presente com seus nefastos legados racistas e discriminatórios até hoje (vejam, por exemplo, o documentário Abolição, de Zózimo Bulbul, lançado no centenário da Lei Áurea,). A escravatura em terra brasilis é bem retratada visualmente pelas obras de Débret, Rugendas e outros artistas menos conhecidos – como é o caso do pintor e desenhista francês François Auguste Biard (cerca 1798–1882), cuja pintura “O Tráfico de Escravos” ilustra a abertura deste post (acima) e decora a capa de livros que estudam o tema, como O Império da Necessidade – Escravatura, Liberdade e Ilusão no Novo Mundo, de Greg Grandin (Ed. Rocco).

Segundo este artigo publicado pelo Goethe Institut:

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François Auguste Biard (cerca 1798–1882), que durante um tempo trabalhou também como retratista oficial na Corte francesa, viajou ao Brasil em 1858 e percorreu amplas extensões do país. Após regressar a Paris, publicou em 1862 o livro, amplamente ilustrado, Deux années au Brésil (Dois anos no Brasil). Segundo Berthold Zilly, a ilustração do transporte do piano pode ser vista “como símbolo da cisão da sociedade brasileira, incluída a elite, entre a pretensão civilizatória e a bárbara base socioeconômica”.

the_slave_trade_by_auguste_francois_biard“O tráfico de escravos – The Slave trade”, pintura de François-Auguste Biard (1833). SAIBA MAIS.

Diante da diáspora africana, causada pela instituição da escravatura, é a modernidade ocidental como um todo que vai parar no banco dos réus. O Atlântico Negro torna-se juiz da modernidade. Segundo Gilroy, a diáspora pelo Atlântico Negro acabará por constituir poderosas contraculturas, que o autor analisará com muita perspicácia através das obras de W.E.B. Du Bois, Frederick Douglass, Toni Morrison, Richard Wright – no âmbito da cultura letrada -, focalizando também na expressão musical negra, em suas múltiplas manifestações (blues, reggae, funk, r&b etc.), de Quincy Jones e Billie Holliday à emergência do hip hop e dos grafiteiros.

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“A impossibilidade da alfabetização para os escravos e seu refinamento compensatório na arte musical não explica o compromisso obstinado e consistente da música negra com a ideia de um futuro melhor. O poder da música no desenvolvimento das lutas negras pela comunicação de informações, organização da consciência e articulação das formas de subjetividade exigidas pela atuação política, seja individual ou coletiva, defensiva ou transformadora, exige atenção tanto aos atributos formais dessa cultura expressiva como à sua base moral distintiva.” (GILROY, p. 94)

A produção cultural vinculada ao Atlântico Negro representa, na avaliação de Gilroy, uma crítica radical de todo o projeto da modernidade ocidental e seu culto à razão. Seria mesmo bizarro que as vítimas da violência escravocrata pudessem acreditar na “racionalidade” do sistema imposto pelos impérios colonizadores. Segundo Gilroy, o exuberante florescimento da arte no âmbito das contraculturas negras revela uma filosofia-de-vida que enxerga na expressão artística uma peça central das “esperanças de emancipação” e “libertação comunal”, em contraste com a tradição da “modernidade” européia, tão logocêntrica e cuja tradição se baseava em esperanças excessivas no poder redentor da “racionalidade”:

“Esta tradição havia mantido a ideia de que a vida boa para o indivíduo e o problema de uma ordem social e política melhor para a coletividade poderiam ser alcançadas por meios racionais. Embora raramente seja reconhecida ainda hoje, essa tradição perdeu seu direito exclusivo à racionalidade, em parte pelo modo como a escravidão se tornou interna à civilização ocidental e pela cumplicidade óbvia que tanto a escravidão da plantation como os regimes coloniais revelaram existir entre a racionalidade e a prática do terror racial. (…) “No pensamento crítico dos negros no Ocidente, a autocriação social por meio do trabalho não é a peça central das esperanças de emancipação. Para os descendentes de escravos, o trabalho significa apenas servidão, miséria e subordinação. A expressão artística (….) torna-se o meio tanto para a automodelagem individual como para a libertação comunal.” (GILROY – p. 98 – 100)

Um dos elementos mais interessantes desta obra-prima da historiografia e da crítica cultural que é o Atlântico Negro de Gilroy é sua abordagem da questão do “pós-modernismo”. Gilroy defende que “repensemos drasticamente” a periodização histórica vigente, que pressupõe uma ruptura radical entre modernidade e pós-modernidade. É preciso superar “versões da modernidade elaboradas pelas míopes teorias eurocêntricas”, o que Gilroy realiza de modo brilhante:

“O conceito de pós-modernismo é frequentemente introduzido para enfatizar a natureza radical ou mesmo catastrófica da ruptura entre as condições contemporâneas e a época do modernismo. Dessa forma, pouca atenção é dada à possibilidade de que grande parte do que é identificado como pós-moderno possa ter sido pressagiado ou prefigurado nos contornos da própria modernidade. Tanto os defensores como os críticos da modernidade parecem não atentar para o fato de que a história e a cultura expressivas da diáspora africana, a prática da escravidão racial ou as narrativas de conquista imperial europeia podem exigir que todas as periodizações simples do moderno e do pós-moderno sejam drasticamente repensadas.

(…) Pode-se argumentar que grande parte da suposta novidade do pós-moderno se evapora quando vista à luz histórica inexorável dos encontros brutais entre europeus e aqueles que eles conquistaram, mataram e escravizaram. (…) Um conceito de modernidade que se preze deve, por exemplo, ter algo a contribuir para uma análise de como as variantes particulares de radicalismo articuladas pelas revoltas de povos escravizados fez uso seletivo das ideologias da Era da Revolução ocidental e depois desaguou em movimentos sociais de um tipo anticolonial e decididamente anticapitalista. Por último, a superação do racismo científico (um dos produtos intelectuais mais duráveis da modernidade) e sua transmutação no pós-guerra em formas culturais mais novas, que enfatizam a diferença complexa em lugar da hierarquia biológica simples, podem fornecer um exemplo concreto e revelador do significado do ceticismo em relação às narrativas grandiosas da razão científica.

O interesse pela subordinação social e política dos negros e outros povos não europeus geralmente não se apresenta nos debates contemporâneos em torno do conteúdo filosófico, ideológico ou cultural e das consequências da modernidade. Em seu lugar, uma modernidade inocente emerge das relações sociais aparentemente felizes que agraciaram a vida pós-Iluminismo em Paris, Berlim e Londres. Esses lugares europeus são prontamente purgados de qualquer traço dos povos sem história, cujas vidas degradadas poderiam levantar questões incômodas sobre os limites do humanismo burguês. (…) O trabalho de uma série de pensadores negros será examinado adiante como parte de uma argumentação geral de que há outras bases para a ética e a estética que não as que parecem imanentes às versões da modernidade elaboradas pelas míopes teorias eurocêntricas. (…) As experiências históricas características das populações da diáspora africana criaram um corpo único de reflexões sobre a modernidade e seus dissabores, que é uma presença permanente nas lutas culturais e políticas de seus descendentes atuais.” (GILROY: 103 – 106 – 107)

Gilroy não permite que o leitor jamais se esqueça da “estreita associação entre modernidade e escravidão”, de modo a insistir numa “firme rejeição da ideia hipnótica da história como progresso” (p. 123). Para escaparmos aos míopes eurocentrismos, é preciso observar a modernidade da perspectiva de suas vítimas, é preciso enxergar as resistências e rebeliões contra uma modernidade que foi vivenciada por milhões como bárbara e opressora. É preciso dar voz, para que contem o seu quinhão da história, aqueles que resistiram bravamente contra o cortejo de atrocidades que lhe eram impostos. A própria história da filosofia precisa passar por uma revolução de modo a considerar, por exemplo, que a dialética do senhor e do escravo na Fenomenologia do Espírito de Hegel pode ser analisada à luz de eventos históricos de que o filósofo alemão foi contemporâneo, em especial “as lutas dos escravos pela emancipação e pela justiça racial, e que persistem nas lutas atuais de seus descendentes dispersos” (p. 124).

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Obras-primas da arte contemporânea tematizam os dramas e dilemas vinculados à diáspora africana e ao Atlântico Negro. É o caso do romance Beloved, de Toni Morrison, a primeira escritora negra a vencer um prêmio Nobel de Literatura. Neste romance, segundo Gilroy, Toni Morrison recria com “patente habilidade” a “assustadora história da tentativa de fuga de Margaret Garner da escravidão em Kentucky”: a mulata Garner, em 1856, em um trenó puxado a cavalo, fugiu com seu marido e seus 4 filhos, além de 9 outros escravos, em direção ao Ohio. Porém, “apanhada em casa pelo cerco de caçadores de escravos, Margaret matou sua filha de três anos com uma faca de açougueiro e tentou matar as outras crianças em lugar de deixar que fossem levadas de volta à escravidão por seu senhor” (GILROY: p. 144).

BELOVEDEm seu impressionante filme, também chamado Beloved, Jonathan Demme soube retratar bem a complexidade e densidade psicológica desta mulher que poderia ser descrita como uma Medéia Escrava e que, segundo Gilroy, na radicalidade de seu infanticídio, manifesta uma “preferência positiva pela morte em lugar da continuidade da servidão. Ela fornece uma valiosa pista para responder à pergunta de como o reino de liberdade é concebido por aqueles que nunca foram livres.” (p. 150)

Não é possível idealizar a ideologia burguesa da modernidade, supostamente humanista e iluminista, diante das cicatrizes e feridas condensados na memória vital dos escravizados. Se o Atlântico Negro merece ser considerado seriamente no “tribunal da História”, como juiz da modernidade, é também para que superemos uma tendência míope da historiografia, que é o foco nacionalista ou etnocêntrico:

“Com algumas nobres exceções, as explicações críticas da dinâmica da subordinação e resistência negra têm sido obstinadamente monoculturais, nacionais e etnocêntricas. Isso empobrece a história da cultura negra moderna, pois as estruturas transnacionais que trouxeram à existência o mundo do Atlântico Negro também se desenvolveram e agora articulam suas múltiplas formas em um sistema de comunicações globais constituído por fluxos. Este deslocamento fundamental da cultura negra é particularmente importante na história recente da música negra que, produzida a partir da escravidão racial que possibilitou a moderna civilização ocidental, agora domina suas culturas populares. (…) O O conceito crucial de diáspora é indispensável no enfoque da dinâmica política e ética da história inacabada dos negros no mundo moderno.” (GILROY: p. 170)

A obra de Gilroy é magistral em revelar uma “percepção profunda” do quanto “a modernidade se estrutura numa cumplicidade entre a racionalidade e a prática do terror supremacista branco”, algo revelado pela teoria e práxis de grandes figuras da história do ativismo negro como Frederick Douglass, Martin Luther King, Malcolm X, Nelson Mandela, Angela Davis, Toni Morrison, entre outros. A contribuição inestimável do livro de Gilroy está em fornecer-nos uma viagem transatlântica pela plural e diversificada cultura negra, em especial aquela que põe sua “ênfase no terror como traço definidor dos regimes escravos santificados tanto por Deus como pela razão” (Gilroy: p. 234).

Em um dos livros mais clássicos em toda a história da produção cultural do Atlântico Negro, The Souls of Black Folk, de W. E. B. Du Bois, sintetiza-se bem esta benjaminiana percepção da modernidade-bárbara: “Guerra, assassinato, escravidão, extermínio e devassidão: este tem sido reiteramente o resultado de se levar a civilização e o abençoado evangelho às ilhas do mar e aos pagãos sem lei.” (DuBois, apud Gilroy, p. 234)

Profundamente inspirado pelas obras de Du Bois, Douglass, R. Wright, Toni Morrison, C.L.R. James, Frantz Fanon, além de impregnado com a música múltipla produzida pela diáspora africana, Paul Gilroy produziu em O Atlântico Negro um monumento da historiografia e da crítica cultural que busca lutar contra “tradições raciais hermeticamente lacradas e culturalmente absolutas”. A aposta de Gilroy é na

“inevitabilidade e valor legítimo da mutação, hibridez e mistura em marcha rumo a memórias do racismo e da cultura política negra melhores do que aquelas até agora oferecidas por absolutistas culturais de vários matizes fenotípicos. A história dos negros no Ocidente e os movimentos sociais que têm afirmado e reescrito essa história podem fornecer uma lição que não se restringe aos negros. Existe aqui, por exemplo, uma contribuição potencialmente importante rumo à política de um novo século no qual o eixo central de conflito não será mais a linha da cor, mas o desafio do desenvolvimento justo e sustentável e as fronteiras que separarão as áreas super-desenvolvidas do mundo (internamente e no exterior) da pobreza intratável que já as circunda. Nessas circunstâncias, pode ser mais fácil considerar a utilidade de uma resposta ao racismo que não reifique o conceito de raça e premiar a sabedoria gerada pelo desenvolvimento de uma série de respostas ao poder do absolutismo étnico, que não tente fixar absolutamente a etnia mas, sim, a veja como um processo infinito de construção da identidade.” (GILROY: p. 415)

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Leia também: Harvard University Press – Africa in Words – Eufrázia (Scielo) – Critical Legal Thinking – Encyclopedia.com.