SATIRIZANDO TEMER: Poemas-escracho de Daniel Ramos, do perfil fake @temerpoeta, mostram a potência do escracho cáustico e criativo

Nada obriga a contracultura a ser tão sisuda e truculenta quanto seus adversários, os epígonos da cultura oficial, quase sempre moralista e autoritária. A sátira é uma das armas mais afiadas que as forças libertárias, ditas “contraculturais”, podem usar para destronar aqueles que só sobem aos tronos através de “tenebrosas transações”, para relembrar Chico Buarque (ele mesmo tão capaz de brilhar os cale-se com cálices de suingado lirismo e malandra esperteza).

No Brasil, em 2016, um exemplo muito interessante, instrutivo, criativo e potente de prática cultural, a um só tempo crítica e lúdica, são os trabalhos de escracho-arte do Daniel Ramos. Criador do perfil fake @temerpoeta, que rapidamente logrou atingir certo hype na cibercultura, ainda que não ao ponto de viralizar como clipes-só-de-nudes-da-Clarice Falcão, o Daniel Ramos é o criador da revista Caroço (disponível na livraria A Casa de Vidro por R$12) e autor de alguns dos petardos mais bem atirados à testa do usurpador que ora nos desgoverna lá do Palácio do Planalto.

Brasília(DF), 27/04/2016 - Michel Temer e Aécio Neves visitam Renan Calheiros - Foto: Michael Melo/Metrópoles

Brasília(DF), 27/04/2016 – Michel Temer e Aécio Neves visitam Renan Calheiros – Foto: Michael Melo/Metrópoles

 O deboche também é uma arma do levante popular antigolpista e nisto iniciativas como a de Daniel Ramos ganham uma dimensão que vai além do humor de entretenimento. Ainda não conheço pensadores e artigos que tenham se debruçado sobre este fenômeno social efervescente que é o escracho como forma de manifestação política, algo que tem decerto uma contundente tradição no Brasil (como o Pasquim em sua cruzada anti-careta e anti-canhões, antagonizando a ditadura militar do Brasil a golpes de charges e anedotas), mas que ganha novos contornos hoje com a cultura dos memes e com uma cibercultura infestada pelo fenômeno da trollagem. 

É minha aposta, provocativa, de que para além das gangues e hordas de trolls fascistas que, na internet, deixam extravasar todo seu repugnante racismo e elitismo, pedindo Bolsonaro como presidente ou exigindo intervenção militar seguida de fuzilamentos de veados tipo o Jean Wyllys, existe também no âmbito da esquerda uma insurreição sócio-política que sabe utilizar-se das armas do humor e que – eis minha provocação – sabe trollar as pessoas certas (os opressores, os golpistas, os plutocratas, os tiranos em conluio com juntas financeiras…).

A esquerda também trolla, e isto se torna bem evidente diante de fenômenos recentes, como aqueles protagonizados pelo Levante Popular da Juventude, que realizou escrachos na frente da mansão do interino-inelegível em São Paulo, ou da Frente Povo Sem Medo e MTST que estrondosamente manifestaram com fogos de artifício seu repúdio ao papel da Fiesp (sediada na Av. Paulista e presidida por Skaf) no golpe de Estado. Artistas como Laerte, Angeli, Latuff, Dahmer, Aroeira, Vitor Teixeira, Rafucko, também demonstraram neste 2016, através da criação de espantosa e prolífica obra, que no Brasil temos pelo menos o consolo, após este ano tenebroso de tantos retrocessos, de que por aqui o senso crítico não morre tão fácil e segue super alerta e operante em nossos melhores comediantes e cartunistas – cáusticos e espertos agentes de um escracho libertário, aos quais se junta uma legião de nomes menos conhecidos, mas também atuantes na criação de uma cultura brasileira contestatória.

Também percebo enquanto cinéfilo que alguns dos filmes que mais me impressionaram por sua capacidade crítica e por sua contundência de denúncia são obras como A Ditadura Perfeita, do mexicano Luis Estrada, e O Ditador, de Sacha Baron Cohen, duas comédias que demonstram o quanto o escracho e a trollagem estão sendo mobilizadas de modo construtivo-crítico bastante instigante, incidindo sobre fenômenos como a manipulação de massas induzida pelos consórcios midiáticos e partidos políticos hegemônicos, revelados a golpes de piadas como uma pantomima grotesca de democracia, uma democracia falsa e de fachada que encobre a tragicomédia obscena de uma plutocracia ultracapitalista, desmiolada e rasa, que apenas constrói Pontes Para o Abismo da austeridade e do apartheid social.

Uma boa matéria em Hypeness destaca o trabalho do Daniel Ramos nos seguintes termos:

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temer-poetaQue o presidente interino Michel Temer é poeta, já vazou na internet. Mesmo tendo publicado o livro Anônima Intimidade, em 2012, foi só depois que chegou ao poder que a fama dos seus versos viralizou de vez – principalmente após a reportagem da Veja sobre a Marcela bela-recatada-e-do-lar Temer, em que uma de suas poesias é usada para ilustrar a relação dos dois.

Agora, a veia poética do presidente ganhou sua primeira paródia na rede: o perfil do Twitter @TemerPoeta, que brinca com diversos aspectos da política nacional, além de fazer piada com a possível relação de Temer com o satanismo. Segundo a Época, o criador da conta é Daniel Ramos, um funcionário público de Brasília, também poeta. A data de nascimento que aparece no perfil falso é de 8 de maio de 1896 – seria a mais antiga permitida pela rede social.

As seguintes sátiras saíram na segunda edição da revista Caroço:

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SONETO DE BESTIALIDADE

Releitura do ‘Soneto de Fidelidade’ de Vinícius de Moraes

De tudo a Belzebu serei atento, antes
e com tal zelo, e sempre, e tanto
que mesmo a alface no sorriso branco
seja na sua boca ornamento

quero invocá-lo em cada pé-de-vento
e em seu louvor hei de investir no banco
metade dólar, meta franco
ou o que sobrar depois do parlamento

e assim quando mais tarde me procure
quem sabe a sorte (angústia de ser vice)
quem sabe a lava-jato (fim de quem dança)

eu possa me dizer do brasil (que tive)
que não seja europeu, posto que é bamba
mas que seja lucrativo enquanto dure

* * * *pecunia

Para mais pérolas, siga Daniel Ramos, o @temerpoeta, lá no Twitter.


SIGA VIAGEM:

ALGUMAS OBRAS DA ESCRACHO-ART BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA

5 DOSES DE VITOR TEIXEIRA:
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5 DOSES DE AROEIRA:


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RESISTIR É PRECISO: A imprensa alternativa e clandestina durante a ditadura – Um projeto do Instituto Vladimir Herzog

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Em 1º de abril de 1964, as forças que se opunham ao aprofundamento da democracia social e econômica em curso no Brasil consumaram sua cartada mais radical, a tomada do poder pelas armas. Um mês depois, o jornalista Millôr Fernandes  lançava a revista PifPaf e indagava, na capa de um dos primeiros exemplares: “Mas afinal, o que é a liberdade?”

A pergunta pairou no ar nos vinte anos que se seguiram. Na busca por respostas, milhares de jornalistas, intelectuais e ativistas políticos acabaram por fazer da palavra impressa uma das armas mais poderosas de combate à ditadura militar, à desigualdade social, à opressão, ao discurso moralista que mascarava a hipocrisia e o autoritarismo dos que assaltaram o Estado em nome da velha ordem.

Entre 1964 e 1979, o ano em que as forças democráticas conquistaram a anistia, centenas de publicações produzidas à margem dos aparatos institucionais de comunicação deram voz à resistência política e cultural no Brasil. Disputaram palmo a palmo o campo simbólico em que os donos do poder tentavam legitimar a dominação pela força. Enfrentaram a truculência da censura e da perseguição policial. E conseguiram se impor graças à capacidade de inovar não apenas a agenda temática, mas a própria linguagem e os códigos formais com que se expressava o debate público no país.

A história dos jornais alternativos, clandestinos  e produzidos no exílio nesse período está sendo reconstruída pelos pesquisadores e jornalistas do Instituto Vladimir Herzog, no projeto “Resistir é preciso”. Aqui neste site, ela é contada pelos próprios protagonistas, em dezenas de depoimentos registrados em vídeo. E é ilustrada pelas capas das edições mais significativas de cada uma dessas publicações, acompanhadas por textos que resumem suas trajetórias.

Reunimos aqui também uma coleção de cartazes produzidos por artistas gráficos que colaboraram intensamente com a imprensa da resistência. Resgatamos ainda exemplos precursores de jornalismo combativo, como os pasquins do século 19, os jornais libertários do início do século 20, as publicações de partidos e organizações que influenciaram pela esquerda o processo político no período anterior ao golpe militar.

O que tudo isso tem em comum? A inscrição no DNA de uma convicção expressa por Millôr Fernandes, com quem abrimos e fechamos esta apresentação: “jornalismo é oposição; o resto é armazém de secos e molhados”.

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CONHEÇA OS PROTAGONISTAS DESTA HISTÓRIA

Protagonistas
A História narrada na primeira pessoa, por quem a fez e viveu com intensidade um dos períodos mais ricos e conturbados da imprensa brasileira. O projeto “Resistir é Preciso…” recolheu sessenta depoimentos de jornalistas e militantes políticos que combateram a ditadura militar armados de máquinas de escrever, mimeógrafos e impressoras offset. De quebra, ajudaram a revolucionar a linguagem, os métodos e as práticas do nosso jornalismo. Nesta página, você encontra uma breve biografia de cada um dos protagonistas. E ao clicar nos links embutidos nas fotos, você navegará por um mar de histórias saborosas, divertidas e dramáticas que registramos em vídeo. Boa viagem!

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Da ideia inicial de elaborar um livro diferenciado e pioneiro até o envio para a gráfica foram 90 dias de trabalho incansável de uma equipe que se comportou como se estivesse numa alegre e saudável linha de montagem, tal o entrosamento entre a pesquisa, as possibilidades do texto, a direção de arte e os cuidados de cada escolha para o encaixe perfeito, nas páginas duplas, das 340 ilustrações escolhidas com base em dois critérios aparentemente contraditórios: o rigor histórico e a liberdade jornalística.

Participaram diretamente desta aventura de final feliz: o editor de contexto, José Luiz Del Roio, o editor de pesquisa, Vladimir Sacchetta, o editor de texto, José Mauricio de Oliveira e o jornalista Carlos Azevedo, como consultor, Kiko Farkas e sua sofisticada direção de arte, junto com Mateus Valadares, a historiadora Juliana Sartori, a jovem jornalista Paula Sacchetta e o pesquisador Luis Zimbarg, sob a coordenação da minha eterna curiosidade.

São quatro capítulos que obedecem a uma linha editorial muito clara. É dado o justo destaque a uma publicação historicamente importante e, na página espelhada, encaixamos as capas dos jornais ou revistas que ajudam a compor um formidável caleidoscópio, suficiente para explicar aquela fração de realidade, sempre do ponto de vista do jornalismo. Ao lançar uma publicação alternativa, de oposição, no exílio ou mesmo clandestina, o jornalista cria também um caldo de cultura fundamental para entender a história recente do Brasil, sem os filtros da análise mais tradicional.

Temos até a ousadia de dizer que está todo mundo aqui, como joias raras que finalmente ganham o palco e o reconhecimento. Uma delas é o Jornal do Subiroff, editado em 1920 por um filho dileto da burguesia paulista, que surpreende em todos os quesitos: criatividade, atrevimento e humor.

Dá gosto abrir o capítulo Imprensa Alternativa com o PifPaf, ousadia de Millôr Fernandes, que colocou nas bancas a sua revista semanas depois do golpe de 64 e deu no que deu.

O capítulo sobre a imprensa clandestina deixa claro, pelos fac-similes apresentados, a enorme dificuldade de fazer e distribuir publicações que, em muitos casos, eram o único oxigênio possível para o contato entre militantes de organizações estraçalhadas pela ditadura.

No capítulo Imprensa no Exílio estão as publicações que, feitas por brasileiros exilados, correram mundo denunciando os desmandos do golpe militar.

Este material foi reunido em 34 anos de paciente trabalho de José Luiz Del Roio e é, pela primeira vez, mostrado.

E mais. A cada início de capítulo, você terá o prazer de ler uma introdução que o coloca dentro das várias histórias.

Portanto, aguce o olhar, prepare o espírito, porque chegou a hora de ter um grande prazer intelectual.

Ricardo Carvalho – Editor

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“Os Cartazes desta História” é um livro que reúne manifestações políticas da América Latina em prol dos Direitos Humanos

A obra é parte do projeto “Resistir é Preciso…”, que resgata a memória da resistência contra a ditadura no Brasil (1964-1984) e a rearticulação da sociedade civil depois da Anistia de 1979, os cartazes retratam denúncias e solidariedade dos brasileiros em face da situação no País e também nas nações vizinhas que viviam sob a intervenção militar. A obra é divida em seis capítulos: Resistências, Anistia, Movimentos, Mulheres, Trabalhadores e Estudantes, Solidariedade e Mortos e Desaparecidos.

Organizada pelo jornalista Vladimir Sacchetta e com projeto gráfico de Kiko Farkas, a edição conta com um ensaio de Chico Homem de Melo, professor da FAU-USP e autor de artigos e livros sobre design gráfico. A publicação tem o patrocínio da Sabesp, por meio da Secretaria da Cultura do Governo do Estado de São Paulo.

Os Cartazes desta História é mais uma iniciativa do Instituto Vladimir Herzog no âmbito do projeto Resistir é Preciso…, idealizado pela entidade, que tem por objetivo manter viva na memória dos brasileiros a luta da imprensa contra a ditadura, período em que inúmeros profissionais do meio jornalístico foram presos, torturados e assassinados. A obra segue os padrões do livro As Capas desta História (2011), patrocinado pelo BNDES, em que o destaque foram as publicações da imprensa alternativa e clandestina brasileira, produzidas por jornalistas (muitos deles exilados) entre 1964 e 1979. Integra também o projeto a coletânea de 12 DVDs Os Protagonistas desta História, patrocinada pela Petrobras, com depoimentos de 60 jornalistas e “fazedores de jornais” que vivenciaram e enfrentaram as dificuldades da época.

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SÉRIE TV BRASIL

No primeiro episódio de Resistir é Preciso, a série recua no tempo para contar como tudo começou, dos primórdios, em 1808, até a década de 1920, quando entra em cena o Barão de Itararé.

Foram muitos jornalistas punidos, naquela época, pelos poderosos de plantão a começar com Cypriano Barata que foi, a partir de 1832, preso várias vezes e em diferentes lugares, por conta do seu implacável “Sentinela da Liberdade”.

A série ainda mostra as perseguições e mortes de Frei Caneca, em Pernambuco e Libero Badaró, em São Paulo.

Neste episódio, a série fala da Semana De Arte Moderna de 1922 e da revista “Klaxon”, porta-voz do movimento.










 

“Velha Maria, Vais Morrer” – Um poema do Dr. Ernesto Che Guevara (1928-1967)

VELHA MARIA, VAIS MORRER
(Che Guevara, 1928-1967)
* * * * *
Velha Maria, vais morrer:
Quero falar contigo seriamente.

Tua vida foi um rosário completo de agonias,
não houve homem amado nem saúde nem dinheiro,
apenas a fome para ser compartilhada.
Mas quero faler-te da tua esperança,
das três diversas esperanças
que tua filha fabricou sem saber como.

Toma esta mão de homem que parece de menino
nas tuas mãos, polidas pelo sabão amarelo.
Abriga teus calos duros e teus nós puros dos dedos
na suave vergonha de minhas mãos de médico.

Escuta, avó proletária:
crê no homem que chega,
crê no futuro que nunca verás.

Não rezes ao deus inclemente
que toda uma vida desmentiu tua esperança;
não peças clemência à morte
para ver crescer tuas pardas carícias;
os céus são surdos e o escuro manda em ti.
Mas terás uma vermelha vingança sobre tudo,
juro pela exata dimensão de meus ideais:
todos os teus netos viverão a aurora.
Morre em paz, velha lutadora.

Vais morrer, velha Maria:
trinta projetos de mortalha
dirão adeus com o olhar
num destes dias em que te vais.

Vais morrer, velha Maria:
ficarão mudas as paredes da sala
quando a morte conjugar-te com a asma
e copularem seu amor na tua garganta.

Essas três carícias construidas de bronze
(a única luz que alivia a tua noite),
esses três netos vestidos de fome
chorarão os nós destes dedos velhos
onde sempre encontravam um sorriso.
E isso será tudo, velha Maria.

Tua vida foi um rosário de magras agonias,
não houve homem amado, saúde, alegria
apenas a fome para ser compartilhada.
Tua vida foi triste, velha Maria.

Quando o anúncio do descanso eterno
suaviza a dor de tuas pupilas
e quando a tua mão de perpétua borralheira
absorve a última e ingênua carícia,
pensas neles… e choras,
pobre velha Maria!

Não, não o faças!
Não rezes ao deus indolente
que toda uma vida desmentiu a tua esperança,
nem peças clemência à morte,
que tua vida foi horrivelmednte vestida de fome
e acaba vestida de asma.

Mas quero anunciar-te,
na voz baixa e viril das esperanças,
a mais vermelha e viril das vinganças.
Quero jurá-lo pela exata
dimensão de meus ideais.

Toma esta mão de homem que parece de menino
nas tuas mãos, polidas pelo sabão amarelo.
Abriga teus calos duros e teus nós puros dos dedos
na suave vergonha de minhas mãos de médico.

Descansa em paz, velha Maria,
descansa em paz, velha lutadora:
todos os teus netos viverão a aurora.
EU JURO!

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