OS ÚLTIMOS DIAS E PALAVRAS DE PAULO FREIRE (1921 – 1997): em Abril de 1997, um pataxó incinerado e uma Marcha do MST em Brasília são testemunhados pelo criador da Pedagogia do Oprimido

Em 02 de Maio de 1997, no Hospital Albert Einstein em São Paulo, faleceu Paulo Freire, fulminado por um “infarto agudo do miocárdio” (acesse: cronologia no Projeto Memória). Em seus últimos dias entre os vivos, ele havia testemunhado um Brasil cravejado por contradições, a um só tempo profundamente indignante e promissor.

No mês anterior ao falecimento de Freire, em Abril de 2017, uma imensa Marcha do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) fez Freire vibrar e pulsar com seu ânimo revivificado. O MST descruzava os braços para a construção coletiva de um mundo menos opressivo e anunciava um outro Brasil, que tivesse vencido a “agressiva injustiça que caracteriza a posse da terra entre nós” – e por isso fez por merecer as palavras celebratórias do mestre:

“O MST, tão ético e pedagógico quanto cheio de boniteza, não começou agora, nem há 10 ou 15 ou 20 anos. Suas raízes mais remotas se acham na rebeldia dos quilombos e, mais recentemente, na bravura de seus companheiros das Ligas Camponesas que há 40 anos foram esmagados pelas mesmas forças retrógadas do imobilismo reacionário, colonial e perverso. (…) A luta pela reforma agrária representa o avanço necessário a que se opõe o atraso imobilizador do conservadorismo.

Exemplo histórico de retrocesso é a luta perversa contra a reforma agrária, em que os poderosos donos de terras e que querem continuar donos das gentes também, mentem e matam impunemente. Matam camponeses como se fossem bichos danados e fazem declarações de um cinismo estarrecedor: ‘Não foram os nossos seguranças que atiraram nos invasores, mas caçadores que andavam pelas redondezas.’ O menosprezo pela opinião pública revelado neste discurso fala do arbítrio dos poderosos e da segurança de sua impunidade. E isto no fim do segundo milênio… E ainda se acusam os Sem Terra de arruaceiros e baderneiros porque assumem o risco de concretamente denunciar e anunciar. Denunciar a realidade imoral da posse da terra entre nós e de anunciar um país diferente.

Com a experiência histórica os Sem Terra sabem muito bem que, se não fosse por suas ocupações, a reforma agrária pouco ou quase nada teria andado.” (FREIRE, P. Pedagogia da Indignação. P. 69-62-35)

E por falar em matar gente como se fosse bicho, vale lembrar o que ocorreria, neste Abril de 2017, poucos dias depois do MST colocar cerca de 100.000 pessoas na Esplanada dos Ministérios, acirrando a pressão sobre o governo FHC, no ano seguinte ao massacre de Eldorado dos Carajás. Na mesma Brasília que havia sido palco da grande manifestação dos Sem Terra, seria incinerado vivo o índio pataxó Galdino Jesus dos Santos. É sobre este tema que Paulo Freire escreve suas últimas palavras públicas, em uma carta pedagógica toda encharcada da emoção que tanto o caracterizou e o comoveu: a indignação ardente diante das opressões injustas e das “trágicas transgressões da ética”:

Galdino Jesus dos Santos, da etnia pataxó, na ala dos queimados do Hospital de Brasília. Ele foi queimado por cinco jovens enquanto dormia no dia 20 de abril de 1997. No dia seguinte, dia 21, Galdino morreu. (Brasília, DF, 20.04.1997. Foto de Leopoldo Silva/Folhapress). SAIBA MAIS: Memorial da Democracia

“Cinco adolescentes mataram hoje, barbaramente, um índio pataxó, que dormia tranquilo, numa estação de ônibus, em Brasília. Disseram à polícia que estavam brincando. Que coisa estranha. Brincando de matar. Tocaram fogo no corpo do índio como quem queima uma inutilidade. Um trapo imprestável. Para sua crueldade e seu gosto da morte, o índio não era um tu ou um ele. Era aquilo, aquela coisa ali. Uma espécie de sombra inferior no mundo. Inferior e incômoda, incômoda e ofensiva.

É possível que, na infância, esses malvados adolescentes tenham brincado, felizes e risonhos, de estrangular pintinhos, de atear fogo no rabo de gatos pachorrentos só para vê-los aos pulos e ouvir seus miados desesperados, e se tenham também divertido esmigalhando botões de rosa nos jardins públicos com a mesma desenvoltura com que rasgavam, com afiados canivetes, os tampos das mesas de sua escola. E isso tudo com a possível complacência quando não com o estímulo irresponsável de seus pais.

Que coisa estranha, brincar de matar índio, de matar gente. Fico a pensar, mergulhado no abismo de uma profunda perplexidade, espantado diante da perversidade intolerável desses moços desgentificando-se, no ambiente em que decresceram em lugar de crescer.

Penso em suas casas, em sua classe social, em sua vizinhança, em sua escola. Penso, entre outras coisas, no testemunho que lhes deram de pensar e de como pensar. A posição do pobre, do mendigo, do negro, da mulher, do camponês, do operário, do índio neste pensar. Penso na mentalidade materialista da posse das coisas, no descaso pela decência, na fixação do prazer, no desrespeito pelas coisas do espírito, consideradas de menor ou de nenhuma valia. Adivinho o reforço deste pensar em muitos momentos da experiência escolar em que o índio continua minimizado. Registro o todopoderosismo de suas liberdades, isentas de qualquer limite, liberdades virando licenciosidade, zombando de tudo e de todos.

Imagino a importância do viver fácil na escala de seus valores em que a ética maior, a que rege as relações no cotidiano das pessoas, terá inexistido quase por completo. Em seu lugar, a ética do mercado, do lucro. As pessoas valendo pelo que ganham em dinheiro por mês. O acatamento ao outro, o respeito ao mais fraco, a reverência à vida não só humana mas vegetal e animal, o cuidado com as coisas, o gosto da boniteza, a valoração dos sentimentos, tudo isso reduzido a nenhuma ou quase nenhuma importância.

Se nada disso, a meu juízo, diminui a responsabilidade desses agentes da crueldade, o fato em si de mais esta trágica transgressão da ética nos adverte de como urge que assumamos o dever de lutar pelos princípios éticos mais fundamentais como do respeito à vida dos seres humanos, à vida dos outros animais, à vida dos pássaros, à vida dos rios e das florestas. Não creio na amorosidade entre mulheres e homens, entre os seres humanos, se não nos tornamos capazes de amar o mundo. A ecologia ganha uma importância fundamental neste fim de século. Ela tem de estar presente em qualquer prática educativa de caráter radical, crítico ou libertador.

Não é possível refazer este país, democratizá-lo, humanizá-lo, torná-lo sério, com adolescentes brincando de matar gente, ofendendo a vida, destruindo o sonho, inviabilizando o amor.

Se a educação sozinha não transforma a realidade, sem ela tampouco a sociedade muda.

Se a nossa opção é progressista, se estamos a favor da vida e não da morte, da equidade e não da injustiça, do direito e não do arbítrio, da convivência com o diferente e não de sua negação, não temos outros caminho senão viver plenamente a nossa opção. Encarná-la, diminuindo assim a distância entre o que fizemos e o que fazemos.

Desrespeitando os fracos, enganando os incautos, ofendendo a vida, explorando os outros, discriminando o índio, o negro, a mulher não estarei ajudando meus filhos a ser sérios, justos e amorosos da vida e dos outros.” (FREIRE, Paulo. PI. P. 76)

Segundo Nita, estas foram as últimas palavras escritas por Paulo, em 21 de Abril de 1997, e servem como emblema para os últimos dias vivenciados pelo autor da Pedagogia do Oprimido: “Paulo mostrava sua alegria incontida ao ler em voz alta as passagens que escrevera sobre a Marcha do MST e indignado alguns esboços que então tinha feito, naquele mesmo dia, sobre o atentado criminoso contra Galdino”, relembra Nita (p. 79).

“As notícias da mídia estiveram voltadas para a dramática história que acontecera na madrugada de Brasília, irônica ou propositadamente (?) no Dia do Índio… Ao ter a notícia de que o nosso índio pataxó não resistira à ‘dor indizível de seu corpo em chamas’, Paulo escreveu então essas palavras derradeiras. Mais contundentes e mais cheias de indignação… Testemunharam a energia emanada de sua indignação e de seu amor; a vontade de trabalhar e de participar, criticamente, da vida de seu país; e o gosto de viver que Paulo levou consigo na madrugada de 2 de Maio de 1997.” (ANA MARIA ARAÚJO FREIRE, P.I., p. 79)

Segunda esposa de Paulo Freire, Ana Maria Araújo Freire escreveu uma das mais completas biografias dele: Paulo Freire – Uma História de Vida, lançado em 2005 e premiado com o 2º lugar do Prêmio Jabuti daquele ano (em 2017, a Paz & Terra o relançou em luxuosa edição, com capa dura, com quase 600 páginas e recheada de fotos).  

Ali Nita relembra os últimos momentos entre os vivos de Paulo e seus planos para o futuro imediato (que nunca se realizariam). Ele estava prestes dar início a um curso que lecionaria na Universidade de Harvard, em parceria com Donaldo Macedo, e após ter acertado o contrato estava imerso em reflexões sobre como seria sua prática docente em uma universidade que, apesar de tão prestigiosa, era “tão elitista e conservadora”; além disso, Paulo Freire preparava-se para viajar para Cuba, onde receberia das mãos de Fidel Castro o título de Doutor Honoris Causa da Universidade de Havana. A indesejada das gentes, porém, veio fulminar o mestre enquanto este plantava suas couves (para relembrar um ensaio inesquecível de Montaigne). Escreve Nita (2017, p. 556):

“Paulo morreu da única coisa que o poderia matar: do coração. Seu coração dadivoso nunca tinha se poupado em oferecer-se aos que dele precisavam. Seu coração amoroso não suportou a malvadez e os desrespeitos praticados pelos invejosos e perversos sobre os fracos e oprimidos. Seu coração generoso não aguentou as dores do mundo. Paulo desgastou-se no amor. Por tanto amar. De muito e intensamente amar. Por sua valentia de tanto amar.

Lembro-me de que, ainda no Hospital Albert Einstein, Frei Betto foi abraçar-me… Escreveu esta carta de despedida intitulada A Leitura do Mundo:

«Ivo viu a uva», ensinavam os manuais de alfabetização. Mas o professor Paulo Freire, com o seu método de alfabetizar conscientizando, fez adultos e crianças, no Brasil e na Guiné-Bissau, na Índia e na Nicarágua, descobrirem que Ivo não viu apenas com os olhos. Viu também com a mente e se perguntou se uva é natureza ou cultura.

Ivo viu que a fruta não resulta do trabalho humano. É criação, é natureza. Paulo Freire ensinou que semear uva é ação humana e sobre a natureza. É a mão, multiferramenta, despertando as potencialidades do fruto. Assim como o próprio ser humano foi semeado pela natureza em anos e anos de evolução do Cosmo.

Colher a uva, esmagá-la e transformá-la em vinho é cultura, assinalou Paulo Freire. O trabalho humaniza a natureza e, ao realizá-lo, o homem e a mulher se humanizam. Trabalho que instaura o nó de relações, a vida social. Graças ao professor, que iniciou sua pedagogia revolucionária com operários do SENAI de Pernambuco, Ivo viu também que a uva é colhida por bóias-frias, que ganham pouco, e comercializada por atravessadores, que ganham melhor.

Ivo aprendeu com Paulo que, mesmo sem ainda saber ler, ele não é uma pessoa ignorante. Antes de aprender as letras, Ivo sabia erguer uma casa, tijolo a tijolo. O médico, o advogado ou o dentista, com todo o seu estudo, não era capaz de construir como Pedro. Paulo Freire ensinou a Ivo que não existe ninguém mais culto do que outro, existem culturas paralelas, distintas, que se complementam na vida social.

Ivo viu a uva e Paulo Freire mostrou-lhes os cachos, a parreira, a plantação inteira. Ensinou a Ivoque a leitura de um texto é tanto melhor compreendida quanto mais se insere o texto no contexto do autor e do leitor. É dessa relação dialógica entre texto e contexto que Pedro extrai o pretexto para agir. No início e no fim do aprendizado é a práxis de Ivo que importa. Práxis-teoria-práxis, num processo indutivo que torna o educando sujeito histórico.

Ivo viu a uva e não viu a ave que, de cima, enxerga a parreira e não vê a uva. O que Ivo vê é diferente do que vê a ave. Assim, Paulo Freire ensinou a Ivo um princípio fundamental da epistemologia: a cabeça pensa onde os pés pisam. O mundo desigual pode ser lido pela ótica do opressor ou pela ótica do oprimido. Resulta uma leitura tão diferente uma da outra como entre a visão de Ptolomeu, ao imaginar-se com os pés no sol.

Agora Ivo vê a uva, a parreira e todas as relações sociais que fazem do fruto festa no cálice do vinho, mas já não vê Paulo Freire, que mergulhou no Amor na manhã de 2 de maio. Deixa-nos uma obra inestimável e um testemunho admirável de competência e coerência.

Paulo deveria estar em Cuba, onde receberia o título de Doutor Honoris Causa, da Universidade de Havana. Ao sentir dolorido seu coração que tanto amou, pediu que eu fosse representá-lo. De passagem marcada para Israel, não me foi possível atendê-lo. Contudo, antes de embarcar fui rezar com Nita, sua mulher, e os filhos, em torno de seu semblante tranqüilo: Paulo via Deus.

Frei Betto

 

Que importância teria para nós, no Brasil de 2017, há 20 anos já separados da morte de Paulo Freire, relembrar as circunstâncias em que ele se foi? Para nós, acossados pelo avanço reacionário também na educação, com o projeto Escola Sem Partido mascarando a cavalgada dos neo-censores, com Mendoncinha do DEM(ônio) à frente do MEC e consultando Alexandre Frota sobre políticas públicas educacionais? Neste fundo-de-poço em que afundamos no período pós-democrático que se seguiu ao Golpe Parlamentar de 2016, de que multiformes maneiras pode a vida e a obra do criador da Pedagogia do Oprimido nos inspirar e iluminar?

Em primeiro lugar, eu diria que a importância é extrema pois ele é um daqueles poucos intelectuais públicos de impacto histórico que mantêm muita viva sua capacidade de nos comover. De nos acordar para uma vida ativa, de intervenção no mundo, e não de acomodação covarde a um mundo visto como imutável ou fatalmente determinado. Capaz de nos colocar na senda da prática coletiva que é a única que jamais trilharam os transformadores sociais que puseram mãos à obra na construção de um alter-mundo.

Em segundo lugar, relembrar e reavivar a chama de Paulo Freire é também essencial para pensarmos nossa utopia, aquilo que lá do horizonte distante guia os nossos passos presentes. Concretizar totalmente a utopia de um mundo menos opressivo e mais justo do que descalabro de mundo atual talvez seja impossível, talvez até mesmo indesejável, mas abdicar totalmente de utopia nos faz chafurdar na apatia dos que não se mobilizam, ou mesmo no conservadorismo imobilista dos reacionários, apegados demais às tradições passadas – por mais perversas e injustas que sejam – para ousarem inventar um amanhã melhor. Paulo Freire está aí, no presente e no futuro, para nos ensinar a “pensar o amanhã”.

Paulo Freire ensina-nos, a todos, sobre o “direito que tem o ser humano de comparecer à História não apenas como seu objeto, mas também como sujeito. O ser humano é, naturalmente, um ser da intervenção no mundo… Inacabado como todo ser vivo – a inconclusão faz parte da experiência vital -, o ser humano se tornou, contudo, capaz de reconhecer-se como tal. A consciência do inacabamento o insere num permanente movimento de busca… Só o ser inacabado, mas que chega a saber-se inacabado, faz a história em que socialmente se faz e se refaz. (…) Aí radicam, de um lado, a sua educabilidade, de outro, a esperança como estado de espírito que lhe é natural.” (p. 139)

Frases assim – que fazem Freire merecer figuras nas páginas de O Princípio Esperança de Ernst Bloch – fazem de Freire uma espécie de profeta. Sua dialética da denúncia e do anúncio revela pensador atento àquilo que o filósofo marxista Karel Kosík chamada de A Dialética do Concreto. Somos seres vivos condenados à finitude, à inconclusão, e os únicos cientes de seu inacabamento que os move à permanente busca em que se radica o processo educativo – que também não pode ser concebido senão como processo permanentemente recomeçado, nunca acabado.

Nossa educação não acaba nunca, e nossas lutas contra a opressão tampouco. Recusar-se a participar do mundo comum, cruzar os braços e nada fazer, é uma ofensa que realiza-se contra nossa vocação ontológica de ser-mais. Juntos, coligados, nas lutas contra a multiplicidade de opressões que nos esmagam, solidários no ímpeto de rebeldia criativa contra um mundo caduco, é que mais fazermos rebrilhar o ser-mais que está entre os nossos possíveis. Freire, sábio do in: intervenção, inserção, interação, inconclusão na ciência de si mesma e que sai então em busca de uma inter-educação, dialógica e mutuamente instrutiva.

Em sua “radical recusa à ordem desumanizante” (p. 49), Paulo Freire afirma a necessidade do pensamento e da práxis utópicos. Em Pedagogia da Indignação, lemos Paulo Freire confessar ao leitor, com sua costumeira sinceridade desabrida, que suas cartas “devem se achar ‘ensopadas’ de fortes convicções ora explícitas, ora sugeridas. A convicção, por exemplo, de que a superação das injustiças que demanda a transformação das estruturas iníquas da sociedade implica o exercício articulado da imaginação de um mundo menos feio, menos cruel. A imaginação de um mundo com que sonhamos, de um mundo que ainda não é, de um mundo diferente do que aí está e ao qual precisamos dar forma… Gosto de ser gente porque o mudar o mundo é tão difícil quanto possível.” (PAULO FREIRE, op cit, p. 43)

O que o mundo exige de nós, como Marx já o dizia, não é apenas sua compreensão, mas sua transformação. E para cumprirmos esta meta, o mestre sempre ensinou, é preciso que tenhamos a coragem de sempre denunciar e anunciar. A unidade dialética entre a denúncia da realidade conspurcada por opressões multiformes e o anúncio de um outro mundo possível que não é somente sonhado, mas criado pela coletividade em conjunto em trabalho de parto de um alter-real, é um dos legados mais preciosos deste sábio que foi Paulo Freire. Relembrar como foram seus últimos dias e palavras entre os vivos – com o impacto que ele sofreu das mega-marchas do MST e do crime hediondo contra Galdino – é também reavivar a chama de um pensador da práxis que insistiu sempre: o que a vida exige de nós é a valentia de amar.

Eduardo Carli de Moraes
21 de Novembro de 2017

 

LEITURA RECOMENDADA:


TRILHA SONORA SUGERIDA:

“Índio”
Autores: Gabriel Moura, Seu Jorge e Sergio Granha
Intérprete: Farofa Carioca
Ano de lançamento: 1998
Ouça o álbum completo Moro no Brasil

“Hoje são 250 mil, mataram milhões
De tristeza e solidão
Na bala, no chicote, na humilhação
Índio foi queimado vivo quando dormiu
Índio comeu peixe poluído do rio
Índio quer saber se chega ao ano dois mil
Índio veio morar numa favela do Rio.”


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R.I.P. – OLIVER SACKS (Londres, 9 de julho de 1933 – Nova Iorque, 30 de agosto de 2015)

In this 2007 photo provided by the BBC, Neurologist Oliver Sacks poses at a piano while holding a model of a brain at the Chemistry Auditorium, University College London in London. Noted neurologist Oliver Sacks has found common ground with the pastor of Harlem's Abyssinian Baptist Church: Both men believe in the healing power of music. Sacks, the best-selling author of

O Neurologista Oliver Sacks, em 2007, no  Chemistry Auditorium, University College, em London/UK (AP Photo/BBC, Adam Scourfield)

R.I.P. – OLIVER SACKS (Londres, 9 de julho de 1933 – Nova Iorque, 30 de agosto de 2015)

A seguir:

Texto de Oliver Sacks quando descobriu que tinha câncer terminal

Este texto foi publicado originalmente no New York Times em 19 de fevereiro de 2015. A tradução é da Karin Hueck. Via Glück Project:
http://www.gluckproject.com.br/oliver-sacks-minha-propria-vida/

Há um mês, eu sentia que estava em boas condições de saúde, robusto até. Aos 81 anos, ainda nado uma milha por dia. Mas a minha sorte acabou – há algumas semanas, descobri que tenho diversas metástases no fígado. Nove anos atrás, encontraram um tumor raro no meu olho, um melanoma ocular. Apesar de a radiação e os lasers que removeram o tumor terem me deixado cego deste olho, apenas em casos raríssimos esse tipo de câncer entra em metástase. Faço parte dos 2% azarados.

Sinto-me grato por ter recebido nove anos de boa saúde e produtividade desde o diagnóstico original, mas agora estou cara a cara com a morte. O câncer ocupa um terço do meu fígado e, apesar de ser possível desacelerar seu avanço, esse tipo específico não pode ser destruído.

Depende de mim agora escolher como levar os meses que me restam. Tenho de viver da maneira mais rica, profunda e produtiva que conseguir. Nisso, sou encorajado pelas palavras de um dos meus filósofos favoritos, David Hume, que, ao saber que estava terminalmente doente aos 65 anos, escreveu uma curta autobiografia em um único dia de abril de 1776. Ele chamou-a de “Minha Própria Vida”.

“Estou agora com uma rápida deterioração. Sofro muito pouca dor com a minha doença; e, o que é mais estranho, nunca sofri um abatimento de ânimo. Possuo o mesmo ardor para o estudo, e a mesma alegre companhia de sempre.”

Tive sorte de passar dos oitenta anos. E os 15 anos que me foram dados além da idade de Hume foram igualmente ricos em trabalho e amor. Nesse tempo, publiquei cinco livros e completei uma autobiografia (um pouco mais longa do que as poucas páginas de Hume) que será publicada nesta primavera; tenho diversos outros livros quase terminados.

Hume continua: “Eu sou… um homem de disposição moderada, de temperamento controlado, de um humor alegre, social e aberto, afeito a relacionamentos, mas muito pouco propenso a inimizades, e de grande moderação em todas as minhas paixões.”

Aqui eu me distancio de Hume. Apesar de desfrutar de relações amorosas e amizades e não ter verdadeiros inimigos, eu não posso dizer (e ninguém que me conhece diria) que sou um homem de disposições moderadas. Pelo contrário, sou um homem de disposições veementes, com entusiasmos violentos e extrema imoderação em minhas paixões.

E ainda assim, uma linha do ensaio de Hume me toca como especialmente verdadeira: “É difícil”, ele escreveu, “estar mais separado da vida do que eu estou no presente.”

Nos últimos dias, consegui ver a minha vida como a partir de uma grande altura, como um tipo de paisagem, e com uma sensação cada vez mais profunda de conexão entre todas suas partes. Isso não quer dizer que terminei de viver.

Pelo contrário, eu me sinto intensamente vivo, e quero e espero, nesse tempo que me resta, aprofundar minhas amizades, dizer adeus àqueles que amo, escrever mais, viajar se eu tiver a força, e alcançar novos níveis de entendimento e discernimento.

Isso vai envolver audácia, claridade e, dizendo sinceramente: tentar passar as coisas a limpo com o mundo. Mas vai haver tempo, também, para um pouco de diversão (e até um pouco de tolice).

Sinto um repentino foco e perspectiva nova. Não há tempo para nada que não seja essencial. Preciso focar em mim mesmo, no meu trabalho e nos meus amigos. Não devo mais assistir ao telejornal toda noite. Não posso mais prestar atenção à política ou discussões sobre o aquecimento global.

Isso não é indiferença, mas desprendimento – eu ainda me importo profundamente com o Oriente Médio, com o aquecimento global, com a crescente desigualdade social, mas isso não é mais assunto meu; pertence ao futuro. Alegro-me quando encontro jovens talentosos – até mesmo aquele que me fez a biópsia e chegou ao diagnóstico de minha metástase. Sinto que o futuro está em boas mãos.

Nos últimos dez anos mais ou menos, tenho ficado cada vez mais consciente das mortes dos meus contemporâneos. Minha geração está de saída, e sinto cada morte como uma ruptura, como se dilacerasse um pedaço de mim mesmo. Não vai haver ninguém igual a nós quando partirmos, assim como não há ninguém igual a nenhuma outra pessoa. Quando as pessoas morrem, não podem ser substituídas. Elas deixam buracos que não podem ser preenchidos, porque é o destino – o destino genético e neural – de cada ser humano ser um indivíduo único, achar seu próprio caminho, viver sua própria vida, morrer sua própria morte.

Não posso fingir que não estou com medo. Mas meu sentimento predominante é de gratidão. Amei e fui amado; recebi muito e dei algo em troca; li, viajei, pensei e escrevi. Tive uma relação com o mundo, a relação especial do escritor e leitor.

Acima de tudo, fui um ser sensível, um animal pensante nesse planeta maravilhoso e isso, por si só, tem sido um enorme privilégio e aventura.

* * * * *

1

P.S. – Um dos livros de Sacks que A Casa de Vidro recomenda é “MUSICOPHILIA – TALES OF MUSIC AND THE BRAIN” [eis o ebook, em formato epub, disponível pra baixar via Google Drive: http://bit.ly/1LMxlIM]. Começa assim:

“What an odd thing it is to see an entire species— billions of people— playing with, listening to, meaningless tonal patterns, occupied and preoccupied for much of their time by what they call “music.” This, at least, was one of the things about human beings that puzzled the highly cerebral alien beings, the Overlords, in Arthur C. Clarke’s novel Childhood’s End. Curiosity brings them down to the Earth’s surface to attend a concert, they listen politely, and at the end, congratulate the composer on his “great ingenuity”— while still finding the entire business unintelligible. They cannot think what goes on in human beings when they make or listen to music, because nothing goes on with them. They themselves, as a species, lack music.

We may imagine the Overlords ruminating further, back in their spaceships. This thing called “music,” they would have to concede, is in some way efficacious to humans, central to human life. Yet it has no concepts, makes no propositions; it lacks images, symbols, the stuff of language. It has no power of representation. It has no necessary relation to the world.

There are rare humans who, like the Overlords, may lack the neural apparatus for appreciating tones or melodies. But for virtually all of us, music has great power, whether or not we seek it out or think of ourselves as particularly “musical.” This propensity to music shows itself in infancy, is manifest and central in every culture, and probably goes back to the very beginnings of our species. Such “musicophilia” is a given in human nature. It may be developed or shaped by the cultures we live in, by the circumstances of life, or by the particular gifts or weaknesses we have as individuals— but it lies so deep in human nature that one must think of it as innate, much as E. O. Wilson regards “biophilia,” our feeling for living things. (Perhaps musicophilia is a form of biophilia, since music itself feels almost like a living thing.)”

Oliver Sacks

Musico

O Útero dos Deuses e outras reflexões gratuitas…

“Joie de Vivre” de Matisse

Os Trabalhos da Eternidade

O que mais me espanta neles, os trabalhos da eternidade, é que eles prosseguem na ativa, mesmo depois da labuta de incontáveis milênios. É como se o tempo, o incansável, jamais se fatigasse de passar. Passa o tempo, e passa o tempo, e passa mais um pouquinho e mais um poucão, sem que haja como retê-lo. Construir uma montanha em seu caminho? Inútil! O tempo pisoteia todas as barricadas. E nada fará com que o amanhã não venha!

Por acaso resolve pedir em oração para que os deuses intervenham e nos retirem desta sina de impermanência e nos instaurem no duradouro? Nada disso adianta: é o tempo quem nos carrega, é ele quem manda, e cada um de nós é um lampejo de consciência, um ente temporário que brota do mundo e que dura por tempo limitado em meio à ilimitação infinita do Tempo… Neste Universo, ao que me parece, não existe a tecla pause. Estamos em play perpétuo. Corre o rio do Tempo sem freeze.

Há quanto tempo já gira a Terra em torno do Sol? E a Lua em torno da Terra? Eu, péssimo em matemática, não faço a mínima ideia. Minha mente fica confusa diante de quantias tão estratosféricas… Consigo contar com facilidade uma dúzia de bananas, mas quando começo a subir para domínios mais aéreos, quando vou, fogueteiro, subindo rumo às nuvens… aí me ferro. São incontáveis, meu caro, absolutamente arredias às aritméticas humanas estas miríades de estrelas enxameando na noite!

* * * * *

Se oca de índio, iglu de esquimó e apê de metrópolis já me espantam, prodígios da engenhosidade humana que são, o que dizer da estupefação de meus míseros miolos diante das estrelas e das constelações?

“Amai para entendê-las”, aconselhava o poeta Bilau Bilac. Amei e não entendi porcaria nenhuma – a não ser isto: que quando se ama, o entender perde a importância. E que o amor não é questão de aritmética: se concordo com Santo Agostinho em algo, é nisso – “a única medida do amor é amar desmedidamente”.

“Será mendigo todo amor capaz de ser medido”, derrama-se em amores por Cleópatra o Antônio de Shakespeare. E digo eu: são pobres as coisas que podem ser descritas! Não nasci para ser mensurador da eternidade: minha incompetência nesta matemática é crassa. Ah!… como sou ruim de número quando me pedem para dizer a soma da luminosidade, o produto da multiplicação da água pelo éter!

 Ainda assim, barco que sou, descendo rio sem saber em que cachoeiras hei de ser lançado, sem poder prever em que dia serei estraçalhado contra as rochas, procuro como remédio do viver… o escrever e o amar. Têm me bastado para um tipo todo meu de plenitude, toda polvilhada de buracos e imperfeições.

 Palavras, palavras! Com elas esculpimos o vento, introduzimos afeto nos ares, trombeteamos nossos corações fora de suas jaulas toráxicas! Palavras: tanto… e tão pouco! Tanto e tão pouco. São muralhas que erguemos contra as marés montantes do esquecimento? São confissões de nossas carências, nossas ânsias por aplauso, nosso inconfessado desejo de comunhão?

 Quiçá as igrejas, estas bagaças de matéria que mãos humanas ergueram com tijolos no solo da Terra, sejam instituições a confessarem um segredo da humanidade: nossa vontade de comungar. Comungar é estar enlaçado, para além da solidão.Ler Durkheim me impregnou com essa impressão de que o segredo da religião é “sociológico” ou “antropológico”.  Feuerbach dá às mãos à Durkheim e eles celebram na mata suas saturnálias: os deuses não passam, pois, de rebentos de peitos humanos, frutos de nossas angústias, remédios inventados contra nosso medo da morte e nosso pavor da insignificância, servindo às comunidades como instrumentos para o estabelecimento de laços.

 Inventamos Deus pois éramos muito sós. Prosseguimos sendo sós, no melhor dos casos, e fratricidas e genocidas, no pior. Criamos o divino como cola para nossos enlaces, mas ela só nos separou. A fé trouxe a guerra e a promessa de comunhão ficou frustrada: lá nas terras de Jerusalém as bombas, os mártires, os terroristas suicidas, os ódios furibundos, prosseguem nos campos de batalha da “terra sagrada”, aparentemente condenada pelos deuses ao conflito eterno…

 A pergunta que não quer calar é: precisamos necessariamente de deuses para comungar? Não há amores e amizades que são comunhões que, apesar de plenamente atéias, são consumados triunfos do Enlace? Para que possamos nos reunir, para que vençamos cada um e todos os tormentos infindos das solidões inúmeras, precisamos realmente ter as mesmas crenças sobre os mesmos seres sobrenaturais? Tanto sangue merece ser derramado em nome de uma quimérica concordância universal em matéria de religião? Por que não deixar subsistir e coexistir miríades de diferentes religiões, cultos, seitas, clubes, sociedades secretas, comunas de interesses comuns e o caralho a quatro?

 Fede à tirania tudo aquilo que deseja uniformizar a sociedade. Tirano é quem quer que todo mundo pense igual – no caso, igual a ele, tirano. Nesse sentido, todo Papa é um tirano. E o único ato digno de um Papa que quisesse se levantar contra a Tirania seria a renúncia, a abdicação, o adeus à batina.

 Abaixo com todos os papas, creiam eles em deuses ou não! É mais do que quimérica – é fabulosa – a utopia de alguns de fazer com que a humanidade inteira (7 bilhões de criaturas!) sigam todas a mesmíssima doutrina. Isso jamais houve, jamais houverá, e continuar tentando é continuar a sina de guerra que polui a História…

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 Quem sou eu para estar aqui, jorrando sobre a brancura que a folha defende estes verbalismos arrebatados e essas heresias impudicas? Juro: só falo pois calar seria mais terrível. Tento ir direto ao ponto, sem cirlunlóquios, mas a complexidade desnorteante do real me envolve de volta no caos. Não escrevo conhecendo todas as respostas: escrevo aos tateios, em busca. Sem saber o que o futuro reserva. Que tesouros? Que cansaços? Que epifanias? Que quedas? Que versos? Que lágrimas? Que beijos? Que nadas? Escrevendo como quem sopra para o ar as bolhas de sabão: voam pelos ares, alados, esses pontos-de-interrogação nômades e dúvidas ambulantes, propagando pelo mundo o ácido corrosivo das certezas!

 Ah! O terrorismo lírico bombardeando as certezas! Soa a meus ouvidos como um bom emblema poético. Bandeiras em riste contra os tiranos! Serei eu formiga diante do elefante, clamando no deserto, destinado a ser esmagado pelos poderes contra os quais me levanto? Não sei, mas dane-se!

 Pois quem não tem coragem de ser amaldiçoado, ah!… este permanecerá inofensivo feito um santo. Já os criadores, os renovadores, os revolucionários, estes, me parece, têm a coragem de ser ofensivos, e não por qualquer ímpeto destrutivo gratuito ou sadismo terrorista. Eles não são coniventes com a mediocridade de consciência dos que vivem com a mente encarcerada nas estreitezas do cabresto dogmático. Cabresto não é comigo! E também não gosto que cabresteiem os outros com intenções de maracutaia.

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 A vida: não é preciso compreendê-la para desejá-la. O desejo é mais forte que o saber: fomos desejantes antes de nos tornarmos racionais (ao menos parcialmente racionais, é claro…). Aliás, a Razão, me parece, precisa ser considerada mais à maneira bergsoniana: como algo que, a princípio, tinha como função servir às necessidades vitais dos organismos. Ela nasce serva e depois pretende emancipar-se: lacaia que pretende-se rainha.

 A Razão, quando se faz presunçosa, gera rebentos como este: a ideia de que um ser humano tem um valor moral superior aos outros caso consiga sufocar e reprimir seus desejos naturais espontâneos, impondo ao seu querer uma rígida disciplina repleta de severidades ascéticas. O platonismo é um dos resultados da Razão quando esta se faz tirana e volta-se contra o próprio prosperar fisiológico dos corpos humanos.

 Sobre o assunto, Cioran soube encontrar, em seus Silogismos da Amargura, uma expressão poética eloquente o suficiente para sugerir a imensidão do que está em jogo: “O Espírito é o grande favorecido com as derrotas da carne. Enriquece-se à sua custa, a saqueia, regozija-se com suas misérias; vive do banditismo. A civilização deve seu êxito às proezas de um bandido.” (pg. 18)

 Já eu, graduei-me com o Doutor Conatus, passeei pelos Jardins de Epicuro e mandei o Imperador Pimpão sair da frente do meu Sol. Fiz extensão no Instituto Wilhelm Reich de Libertação Sexual, teoria e prática, ambas com imenso prazer. Retirei todas as cruzes e crucifixos de minhas paredes e pescoço, e fiz-me spinozista – destes que amam o amor, isto é, as alegrias causadas em outros e por outros causadas em nós, únicos êxtases certos desta vida.

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“Únicos êxtases”? Sinto muito por ter dito isto: desconsiderem esta palavrinha incômoda, “únicos”. Prefiro re-invocar o múltiplo e fazer valer os direitos da Diversidade. Também de êxtases, afirmemos, há uma enorme diversidade! Tristes as épocas, e tristes as civilizações, que são tão estreitas em seu horizonte que só enxergam o êxtase… no consumir, no comprar, no possuir. Que êxtase mais medíocre! Será digno de ser chamado de “êxtase”, ou devemos reservar essa palavra para algo mais condigno?

 Hoje em dia, forças colossais ao nosso redor tentam reduzir-nos ao status de “consumidores”. Deixamos de ser “cidadãos”, de ser “compatriotas”, de ser “conterrâneos”, de ser “camaradas”, e passamos a ser tratados como nada mais que carteiras e bolsas das quais é conveniente arrancar um troco… Ou mesmo uma fortuna.

 A fúria anti-consumista de um Tyler Durden, essa frase que assombra nossos tempos feito um fantasma errante, “the things you own end up owning you”, tudo isso é sintoma de uma irritação crescente, de um protesto cada vez mais veemente, contra esta civilização que tenta nos reduzir o homos economicus, pisoteando o sapiens e o ludens em prol do business e do free-market…

 Thoreau, em seu poderoso livro Walden, soltava seu fel contra a laborosidade de muitos de seus contemporâneos. Critica os que trabalham freneticamente, o que no mundo empresarial de hoje se chama de workhalics, cujo fervor existencial está todo voltado para isso: ganhar dinheiro, poupar dinheiro, administrar dinheiro. É o que meu querido punk Johnny Thunders chama de uma “one-track mind”, ou “mente de uma faixa só”: sempre toca o mesmo hit irritante, e sempre “Money, Money, Money” (cançãozinha fajutíssima perto de uma “Smells Like Teen Spirit”, de uma “Take the Power Back” ou uma “Do The Evolution”…).

 Thoreau parece dizer: vivemos no tempo e a sabedoria não é nada além de saber como bem empregá-lo, não desperdiçar o tempo limitado que temos de vida com algo que consideramos vil, aviltante, envilecedor. Ele é tanto um crítico da laborosidade workaholic quanto do ócio entediado: não prega nem o “fim do trabalho”, nem o “ficar de papos pro ar”. Mas alfineta, com poesia afiada, aqueles que, na vida, perdem o tempo ou matam o tempo: “as if you could kill time without injuring Eternity…” (THOREAU, Walden)

 Qualquer leitor de Thoreau que abra os olhos para a realidade de hoje, com o olhar do eremita de Walden Pold, não pode deixar de notar: ainda há multidões que nunca param para contemplar os trabalhos da eternidade. E é pois estão muito ocupados laborando duramente atrás de salários – e através, é claro, de durezas, sacrifícios, fadigas, suores… Em nome do quê? Em nome do dinheiro que é poder, do poder que permite atingir, através da compra, este alvo supremo, o Conforto, deus venerado pelo neoliberalismo consumista. Pobres as épocas que só sabem dizer da Felicidade que ela é um “estado confortável”! Nietzsche e McCandless, para ficar em dois exemplos que me tocam mais intimamente, discordam. “Destoam do coro dos contentes”, para usar o lindo verso do des-toante Torquato.

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Um erro muito comum, um preconceito tenaz nutrido por muitos humanos que nunca viveram fora da fé, é crer que descrer em Deus significa perder todo tipo de transcendência. Da maneira como fui ensinado nos catecismos que segui, na escola dos monoteísmos, Deus é propagado como algo de alheio, de estrangeiro, de fora-deste-mundo. Se não posso crer num Deus que esteja assim tão alonjado de nós, que transcenda-nos de modo a permanecer alheio como a Lua para nossas mãos, não é somente por ter frequentado a escola de Spinoza, que nos convida a pensar na brisa que bate em nosso rosto como um “atributo de Deus” pois parte da natureza. É também pois me parece um tanto absurda esta noção de exterioridade radical de um deus em relação ao mundo.

Descrer no Deus transcendente, aquele cuja casa parece ser tão distante que tendemos a descrevê-lo como algo fora do mundo, não significa perder tudo – significa, bem ao contrário, TUDO GANHAR.

O que muitos não entendem é que há a possibilidade de conciliar ateísmo com êxtase. Um dos mais tenazes preconceitos humanos é aquele de acreditar que ateísmo rima com tristeza, com desespero suicida, que é ideia “perigosa” de quem acaba por cortar os pulsos…

Minha recorrente descoberta, ao contrário, é a de que existe, sim, ateus felizes, ateus sábios, ateus serenos, ateus éticos, ateus que são, sob todos os parâmetros, “ótimos sujeitos”: André Comte-Sponville é prova vivíssima disso, e o será ainda, depois de sua morte. Isso mostra, pelo menos, que um ateu pode ter aspirações éticas tão elevadas quanto qualquer homem-de-fé – que, em outras palavras, não é pela fé que se julga o caráter. Por exemplo?

 Foram homens-de-fé, muitos deles que se consideravam pios cristãos, que saíram das caravelas, servos das Majestades portuguesas e catalãs, para realizar este ato – a Conquista da América – cuja capacidade de morticínio em massa não conhece muitos símiles na História: só no México, como apontam em suas obras autores como Todorov e Clastres, haviam 25 milhões de índios antes da chegada dos europeus; cinquenta anos depois, restavam cerca de… 1 milhão.

Não consigo não voltar a este assunto: ele desperta em mim uma atração quase obsessiva. Rodeado por religiões que se vendem como uma maravilha, sou aquele que gostaria sempre de apontar os podres destas presunçosas senhoras. As vovós religiosas não param de evocar os séculos passados, as tradições veneradas, temerosas das novidades que lançam o Tempo rumo a novos amanhãs. Gostariam que os Hojes se repetissem, idênticos, seguindo a mesma toada, conforme o ritmo de que, de cima dos púlpitos, lhe ditam os sacerdotes.

Descrer significa também perder a confiança nestas figuras de autoridade que nos mantêm no terror, que lucram com nosso medo, que nos querem de joelhos e acatando ordens. Se antes éramos ovelhas, respeitosas e submissas, fazendo tudo o que dizia o patrão, seguidoras fiéis das ordens do pastor, passamos a rugir leoninamente. É disso que Zaratustra, me parece, está falando: o camelo, aquele que carrega nas costas o duro fardo que ali foi colocado por outrem, que é a besta de carga de conteúdos que uns folgados quiseram obrigar-nos a transportar, deve libertar-se de sua submissão e fazer-se leão. O leão é aquele que se debate com fúria, que se recusa com violência, quando tentamos algema-lo, pô-lo numa jaula, mantê-lo de joelhos. Ele é expressão da força física exuberante, da recusa tenaz da vontade em submeter-se aos fardos impostos por autoridades.

 Um desses fardos, segundo Nietzsche, é certamente a moralidade – que seria uma espécie de algema psíquica, uma camisa-de-força. A moralidade é coisa ensinada desde o berço: e vocês sabem bem por quais lindíssimos métodos! Todo mundo já tomou um tapa, um xingo, uma chinelada, um espanco… Nos prometem um bombom ou um brinquedo se formos “bons mocinhos”, e algum doloroso castigo caso fracassemos a agradar, com nosso comportamento, os parâmetros deles. Muita da moldagem que nos impõe é realizada através de coerção, violência, ameaça, promessa. O sistema utilizado de praxe para transformar o bestinha do pivete em um sujeiro moral é a promessa de torrão de açúcar e a ameaça do chicote. Isso é que cria os camelos carregadores de fardos, que de cabeça baixa, adoradores da cruz, vão choramingando pelos áridos caminhos terrestres, bestas-de-carga, tristes e pesadas.

 Perder Deus é desvencilhar-se desse fardo: é possibilitar-se a chance de volver a ser criança, e não um velho camelo carregador de pesos. Infelizmente, a palavra ateísmo carrega um grave inconveniente: este “a”, indicativo de negação, parece carregar demais de negatividade o sentido, como se ateísmo fosse somente uma ausência, uma falta, um buraco na alma. O preconceito tenaz a que me refiro, em outras palavras, consiste em crer que o ateu é um ser que sofre mais que os outros pois lhe falta algo de importante, como se não passasse de um aleijão religioso, cambaleando de muletas.

 Na perspectiva do ateu, ao contrário, é o crente quem é o aleijão, cambaleante, de muletas. Ateísmo, longe de ser negação, é para ele afirmação: deste mundo, desta realidade, destas pessoas. O religioso é apressado em condenar; crê em infernos onde seres humanos “maus” vão arder por toda a eternidade; concebe o mundo “rachado”, cindido, entre dois grandes grupos, e somente dois: os eleitos e os danados… Se isso não é uma miopia do olhar, eu não sei o que é!

 A perda da autoridade transcendente que outros nos convenceram a adorar implica, para o homem, em um aumento de sua liberdade. Ele fica de pé após ter permanecido por séculos de joelhos: e de pé, vocês sabem, há muito mais a ser feito. Qualquer um sabe, é lição elementar de biologia, que um fato seminal em nossa evolução foi termos podido nos erguer e adotar a posição ereta. Não somos mais quadrúpudes: somos criaturas eretas. Por que deveríamos, pois, cair de joelhos nas igrejas?

 Sei bem: saber cair de joelhos é dar prova de humildade. O homem não pode ser arrogante, diz a sabedoria dos séculos, se não quiser atrair a desgraça – se quiser escapar às garras de Nêmesis, a deusa que os gregos imaginavam como punidora das arrogâncias dos mortais. A religião seria, pois, esta humildade diante da grandeza? Sim, acredito que sim! Mas a questão a ser colocada é: grandeza do quê? Da autoridade do papa? Do prestígio dos sacerdotes? Do ouro que refulge nas igrejas? A humildade que as religiões exigem de seus fiéis, que querem convencer-nos a tomar por uma das virtudes cardeais, não será um estratagema para conquistar a submissão? Pois, pensem bem: poucas doutrinas são menos humildes que as religiosas. Eu diria até que as religiões fabricam justamente as ideias mais presunçosas já formuladas por seres humanos: elas beiram a megalomania desvairada, às vezes, elevando o humano ao um tal status de grandeza que não há bomba enchedora de ego mais poderosa.

 Descrer em Deus decerto não anula a transcendência, nem no tempo, nem no espaço. O passado imenso que pre-existiu ao nascimento de cada um de nós é uma transcendência temporal inegável; tanto quanto o futuro ainda não vivido e aquele que transcorrerá, também imenso-imensurável, depois que estivermos mortos. Também não nego que meu corpo, que o corpo de cada um de nós, encontra-se limitado no espaço, que está sempre necessariamente localizado, e com uma perspectiva limitada: há sempre uma única paisagem à frente dos olhos, e bilhões de outras que a transcendem. A finitude humana, a limitação da nossa perspectiva, a exiguidade de nosso corpo, nos obriga a estar sempre num estado existencial onde exorbita tudo aquilo que nos transcende. O ateísmo não nega isso mas, pelo contrário, tal como o concebo, procura expandir a consciência humana para o que eu chamaria, sem medo do paradoxo, de transcendência imanente.

 “ÃãÃãÃhhhnnn?!?!?”, levanta-se a confusão na mente de quase todos. Eu explico! – ou tento. Julgamos que algo é transcendente sempre em relação a algo: é uma relação de exterioridade que presume sempre dois termos. A casca do ovo é exterior à gema e à clara que contêm dentro de si: é só por isso que seria possível dizer que, da perspectiva da clara e da gema, o mundo lá fora é transcendente.

 Mas, quebrada a casca, avança a gema sobre o mundo, mistura-se com ele, até perceber, ovo sábio e clarividente, que o suposto transcendente não era o absolutamente alheio, mas uma imanência que aceita a transa. Em outras palavras: o mundo aceita a mescla. A matéria gosta mesmo é duma transa. Portanto, o transcendente como o intransável, o remoto, o distantíssimo, o intocável, o alheio estrangeiríssimo, ao ser descrido – é essa uma das revoluções operadas na mente pelo ateísmo – conduz à percepção de um mundo que nos rodeia muitíssimo apreciador duma mistureba.

 Somos feitos, todos e cada um, de matéria mesclável: e isso já é uma lição de amor. O ateísmo conduz à noção de que este mundo, onde já estamos, e esta vida, que estamos vivendo, são o verdadeiro lugar. Antes, ficávamos sonhando, de olhos perdidos em horizontes distantes, com Deuses e Paraísos que ficavam lá nas brumas distantíssimas do remotíssimo alhures… A felicidade era coisa pra mais tarde, bem mais tarde: coisa pra depois da morte. Enfim: a felicidade era promessa, algo que se espera, mas não algo vivido na pele, em carne-e-osso. Deus: algo como um parente que mora muito longe, que não conhecemos muito bem, que nos disseram ser poderoso, e a quem suplicamos por bens, muitas vezes em vão.

 Em suma: quem crê no transcendente periga ficar em relações com o distante, esquecendo-se do próximo. Só que o próximo é o local ínfimo e minúsculo onde está o nosso corpo: e uma imensidão transcende de fato, no interior da imanência, as limitadas capacidades de nossa percepção! Concebo a imanência como o todo do conjunto cósmico e a transcendência como algo típico da consciência, que é fenômeno englobado dentro da imanência. Enfim: o círculo da transcendência está encerrado dentro do círculo da imanência de modo análogo ao círculo da consciência, que está encerrado dentro do “círculo cósmico”, se é que assim posso me expressar na aventura fadada ao fracasso de explicar o inefável…

 O ateísmo não impede a sensação de infinito. Da praia, observo a grandiosidade do mar que se perde de vista. As montanhas mais distantes, já meio escondidas pela bruma, me são outro testemunho de que há muito mais além daquilo que consigo ver. A estrada vai além, muito além do que se vê. A transcendência é o conjunto de todas as estradas que vão além do que se vê. Se víssemos mais longe, a transcendência seria menor. Ela é, pois, um efeito da limitação e da finitude de nosso humano viver. Transcende-nos somente pois somos consciências finitas, fora das quais exorbita uma imanência polvilhada de consciências. A exorbitância da imensidão cósmica – a imanência – quando entra-nos consciências finitas adentro… acaba diminuída. Ninguém tem olho na nuca e ninguém enxerga a outra margem do oceano. Nossa finitude é o berço de todos os deuses; e a morte dos deuses equivale a uma nova abertura para a imensidão transável do exorbitante cosmos que nos inclui e nos rodeia.

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 “Conhece-te a ti mesmo”, convida-nos o velho Sócrates. A simplicidade da fórmula desse imperativo esconde uma complexidade imensa. Se o “quem sou eu?” é questão de tão difícil resolução, isto se deve, me parece, por várias razões – a primeira delas sendo a mobilidade perpétua deste objeto-a-conhecer que chamamos, cada um de nós, de “eu”. O eu é mais um rio do que uma montanha, mais um mutante do que uma múmia, mais uma lebre serelepe do que uma tortuga. Em outras palavras: a gente nunca é, a gente sempre está sendo.

 “Eu” é coisa mais líquida do que sólida. Que me entendam os poetas, se puderem! Que façam o experimento de conceberem-se como águas que correm e não como rochas perduráveis: vale a pena fazer, com o cérebro, destas cambalhotas. Fluidificar têm sua delícia.

 Os estar-sendos dos eus são múltiplos. Logo, Sócrates nos lança ao labirinto, à louca sala de espelhos, ao invés de resolver nossos problemas, quando nos insta à auto-inspecção auto-interrogante do “conhece-te a ti mesmo!”.

 Outra razão para a labirintite que acomete qualquer perscrutador sério de si mesmo é que o eu, por sua inclusão necessária no interior do Tempo, é sempre, não uma pura instantaneidade sem passado nem futuro, mas algo que dura e que conecta-se.

 O eu dura em sua mutabilidade, ou pelo menos é inegável termos a sensação da duração, sem a qual jamais conseguiríamos, aliás, ouvir uma sinfonia. A sinfonia do eu, cheia de suas dissonâncias e desafinos, é, ainda assim, algo que mutatis mutandis…dura.

 Não sabemos, enquanto vivemos, da data de nossa morte. Morte certa, hora incerta. Em outras palavras: não sabemos – a não ser que sejamos suicidas ou moribundos – o tamanho exato do nosso futuro, o tempo que ainda temos pela frente. E também o dia-após-a-nossa morte nos preocupa, desde hoje. Alguns são absolutamente incapazes de sequer conceber uma destruição integral do eu, e projetam fantásticos Paraísos e Redenções que supostamente decorreriam no além-túmulo. Ernest Becker nos convida a enxergar aí o verdadeiro útero dos deuses: eles nascem dentro de organismos humanos que, aterrorizados diante do fato brutal da mortalidade, fabricam símbolos e mitos destinados a provar-lhes sua suprema significância cósmica.

A morte é aquilo que põe em cheque o sentido. A morte é aquilo que nos deixa com esta pulga-atrás-da-orelha de suspeitar sempiternamente do sentido de nossas vidas. Quer parecer a criaturas tal como somos que desaparecer integralmente não é algo agradável a nosso ego: sentimos isto como uma ferida infligida sobre o nosso narcisismo. Isto explica porque Sigmund Freud e a psicanálise são tão antipáticos a tantos: pois uma tal demolição do narcisismo humano não se leva à cabo sem despertar severos reproches da parte dos narcisistas ofendidos, dos “humanistas” humilhados… Em outros termos: quem sai por aí a derrubar Narcisos de seus pedestais, a empurrar Narcisos na água gelada, onde antes deliciavam-se diante do espelho, deve esperar mesmo pelos chiliques e pelas negações dos Narcisos destronados.

 O sentimento de valor-próprio que tanto ansiamos possuir, pois ele nos dá a sensação de possuirmos também maiores chances de sobrevivência post mortem, não é algo que possamos conquistar sozinhos: o espaço social é onde cada um vai buscar, na convivência e na troca com os outros, o sentimento de valer. Os atos que decorrem dessa “ânsia por valer”, desse craving for meaning, são os mais diversos, e Ernest Becker com certeza centrou seu lúcido e penetrante foco justamente sobre os mais malévolos e destrutivos desses atos. Becker mostrou que estar “faminto por sentido” não é necessariamente coisa boa: que disso podem nascer massacres e genocídios.

 O desejo do “eu” de “sentir-se valioso” está intimamente conectado com o ato, cotidianamente repetido e reiterado, de imaginar um cosmos de tal modo “ordenado” que a criatura mais resplandecente, luminosa e relevante dentre todas (vejam só que “criação de gênio” de Narciso!) SOU EU. Como somos gabarolas sempre que criamos religiões! Elas sempre nos honram: acariciam nosso ego com promessas de que ele, Vossa Majestade, o Eu, reinará eternamente, está destinado à felicidade infinda, foi criado para ser o cume e o pináculo da criação, filho que é do Sujeito Que Manda no Cosmos. Esta breve caricatura da religião monoteísta não dá conta, porém, de transmitir a grandiosidade da invenção humana na arte da glorificação própria e do auto-engrandecimento.

O homem conta a si mesmo, através das religiões que cria, histórias que lhe dizem: “a espécie a qual eu pertenço é a espécie maior e melhor, o supra-sumo dentre os animais, tão mais refinado e très sofistiquèe, o único dotado de uma alma que não morre, sendo portanto absolutamente distinto das “bestas selvagens”… Ah, o homem! Criatura sublime! Cheia de sentido é a existência humana, acreditem, pois tão poderosas e benignas e justas são as forças que a criaram!”

O discurso religioso, quando dissecado com perspicácia beckeriana, aparece-nos como um discurso emanado dos organismos mortais humanos, rebelados contra a mortalidade a ponto de não querem reconhecê-la, fabricando como remédio às suas angústias infindáveis fantasias narcísicas auto-reconfortantes.

 O que o tempo nos ensina de mais claro é o seu fluxo: não é à toa que se compara seu ser ao das águas de um rio. Mas qual seria o leito do tempo? Que águas são essas que nele correm? Dirigem-se os dias a algum oceano, escondido por detrás dos montes, lá nos amanhãs vindouros?

O que o tempo nos ensina de mais recorrente é que sempre estamos em algum lugar do espaço, algum ponto do cosmos, alguma coordenada encontrável nos atlas terrestres por latitudes e longitudes: não é possível ser uma criatura temporal sem estar em meio à extensão movente, graveto que a correnteza arrasta.

 Quando a consciência individual se acende, ela não cria o Tempo: passa simplesmente a ser cônscia de estar nele, arrastada por ele, englobada num rio que carrega tudo numa enxurrada cósmica exorbitante e sem limites.

“Percorrendo o caminho que a natureza traçou para nós, assemelhamo-nos a nadadores forçados a seguir a corrente que os carrega. Acreditamos ser livres porque ora consentimos, ora não consentimos em seguir a maré que sempre nos arrasta. Nós nos acreditamos os senhores do nosso destino porque somos forçados a mexer os braços no temor de ir para o fundo. ‘O destino conduz aqueles que o aceitam e arrasta aqueles que resistem a ele’ (Sêneca).” (Barão de Holbach – “Sistema da Natureza” (1770) – Editora Martins Fontes)