VULGO GRACE: Os indecifráveis mistérios de uma psiquê-esfinge na minisérie baseada no romance de Margaret Atwood

Aos 16 anos de idade, em 1843, Grace Marks foi condenada pelo duplo assassinato de seu patrão, Mr. Thomas Kinnear, e Nancy Montgomery, governanta da casa onde trabalhava. Nas 500 páginas do romance baseado em fatos reais Alias Grace, a escritora Margaret Atwood decidiu explorar todos os misteriosos meandros de Grace, “uma das mais notórias mulheres canadenses da década de 1840”.

Inicialmente condenada à prisão perpétua, depois favorecida pela clemência da justiça – sorte que não teve seu suposto cúmplice no crime, McDermott, que morreu na forca – Grace Marks serve agora como um ícone artístico para alimentar debates sobre a condição feminina e o embate entre feminismo e patriarcado.

Assim como seu romance de 1984, O Conto da Aia (The Handmaid’s Tale), Alias Grace também foi adaptada com maestria para a linguagem audiovisual e tornou-se uma mini-série de 6 episódios da Netflix em parceria com a CBC (Canadian Broadcasting Company).

Desvelando com sua fina ironia toda a complexa ambiguidade da condição feminina, Atwood tem uma obra que torna muito difícil o simplismo reducionista daqueles que querem dividir o mundo entre vilãs e mocinhas: sua Grace é uma esfinge em forma de mulher, que se esquiva aos esforços de compreensão que o psicólogo Simon Jordan empreende para desvendá-la, permanecendo indecidível se ela é algoz ou vítima.

Para além de todos os estigmas que a sociedade de sua época grudou sobre ela – assassina, louca, femme fatale, histérica etc. – o que testemunhamos nesta obra é o pormenorizado retrato de uma pessoa enigmática, labiríntica. Atwood não parece ter nenhum desejo de dar solução simples para esta incógnita, como se quisesse nos dizer que uma mulher é mil vezes mais difícil de resolver do que a mais cabeluda das equações matemáticas.

Grace Marks é uma sedutora esfinge que, tal qual a mítica fera derrotada por Édipo, acaba propondo ao Dr. Jordan um “decifra-me ou devoro-te!” Ele é devorado.

Não há proto-psicanálise (a ciência psicológica ainda estava em estado rústico), nem hipnotismos recheados com obscurantismo, que possam servir para que o doutor decifre a contento esta mulher-quebra-cabeça que acaba por devorá-lo como a Esfinge fez com boa parte da população de Tebas.

Incapaz de crer que encontrou a verdade sobre Grace, o doutor soçobra em uma confusão torturante e desce a escadaria fatal ao abismo: de médico a doido. Perde-se no labirinto desta psiquê e não encontra o fio de Ariadne que o liberte de estar face a face com o Minotauro indecifrável desta alma feminina torturada.

No episódio 6, em uma cena magistral, o advogado que defendeu Grace evoca a semelhança dela com a Sherazade das 1.001 Noites: ambas teceriam seus contos sem preocupação excessiva com as categorias Verdade e Mentira. Enquanto conta sua história ao médico, ela vai tecendo com a agulha os mantos com figuras simbólicas e que vão servir, ao fim da obra, como novas adições ao puzzle. 

Longe de querer dissolver esta sensação de estarmos diante de um quebra-cabeça com peças faltantes, ou mesmo peças excessivas,  a obra de Atwood parece se esforçar por transmitir uma resiliente carga afetiva de perplexidade sem solução – it leaves us puzzled. 

Grace Marks é originária da Irlanda e sua posição subalterna no Canadá talvez tenha relação com seu status de migrante. Seus traumas vem desde cedo: a morte de sua mãe ocorre em alto mar, na longa viagem do Reino Unido até Toronto, e a mãe é sepultada na travessia.

O pai de Grace é truculento, grosseirão, abusador. Os nexos entre os traumas infantis e sua futura condenação não são estabelecidos de modo claro, mas torna-se óbvio que a obra se engaja numa denúncia de um sistema que usa presídios e hospícios para uma espécie de tortura legalizada. “Há gente que se deleita com o sofrimento de seu fellow mortal, em especial se acredita que se trata de um pecador” – ouve-se no primeiro episódio.

Grace, diante do Dr. Jordan, depois de tão sofridos anos de silenciamento, após ser esmagada pelas micro-torturas do sistema prisional e psiquiátrico, encontra alguém que lhe fornece a escuta atenta e interessada. Ela embarca nesta talking cure como fez Anna O (1859 – 1936) nos primórdios da psicanálise, quando apelidou o processo como chimney sweeping, limpeza de chaminés.

Grace Marks vai lançar muita fumaça neblinosa por esta chaminé, a ponto de envolver o doutor num clima etéreo de apaixonamento. Diante do lápis do doutor que escreve o que ela conta, há em Grace o despertar de um ímpeto narrativo em que torna-se difícil distinguir entre fato e ficção.

Ela inventa seu próprio passado ou relata com realismo o vivido? Estaria ela relatando memórias inventadas, ou pelo menos retocadas? Relembra o que de fato vivenciou, ou tece o passado que lhe serve melhor? Tendo a crer que Grace é a ficcionista de sua própria biografia e faz aquilo que enuncia o título de uma das mais belas canções da banda escocesa The Delgados, escolhe “the past that suits you best”.

Dirigida pela proeminente cineasta Mary Harron (Psicopata Americano, Eu Atirei Em Andy Warhol, Wonderwoman), a série foi co-roteirizada pela própria Atwood e pela Sarah Polley. Um dos méritos maiores da obra está em frustrar as expectativas daqueles que buscam bater o martelo com juízos sumários e unívocos sobre a culpa ou inocência de Grace Marks (interpretada pela atriz Sarah Gadon).

Somos lançados a uma zona cinzenta, repleta de ambiguidades, em que esta mulher oscila entre as posições de vítima e algoz, amiga e traíra, o que só torna a personagem mais fascinante e a faz com que a obra ressoe mais tempo em nossa sensibilidade após os créditos finais.

Com sua amiga e colega-de-trabalho Mary Whitney (que tem notáveis similaridades com a personagem Moira de The Handmaid’s Tale), Grace aprende, por osmose e empatia, uma atitude iconoclasta e rebeldes. Mary Whitney se recusa àquela dócil subserviência que o Patriarcado costuma exigir do sexo dito frágil. Mary reverencia heróis rebeldes como William Lyon McKenzie (1795 – 1861), que foi prefeito de Toronto (Ontario) e atuou como um dos líderes da Upper Canada Rebellion.

Mary é a empregada politizada, a proletária com consciência de classe, que adora citar de cor os discursos de McKenzie destinados aos canadenses que odeiam a opressão. Impertinente e irreverente, Mary ensina a Grace a arte da chacota contra as patroas. Mary é também o primeiro contato de Grace com o radicalismo rebelde de uma garota mestiça, que tem avó índia (isto é, pertencente aos povos originários, às First Nations canadenses). Mary, brincalhona mas resoluta, expressa para a amiga os seus ímpetos de escalpeladora de patrões. Adora dizer:

– Os rebeldes não perderam; só não ganharam ainda.

A morte prematura de Mary, após seu aborto em uma clínica clandestina, é um choque traumático para a Grace adolescente, tão apegada afetivamente à sua melhor amiga. Grace tem pungente ciência de que aquilo explica de fato a tragédia é a conduta do macho, do patrãozinho – George Parkinson – que engravidou Mary e depois quis atirá-la fora como quem lança uma rosa murcha no lixo. Ainda que não se afirme ou se explicite que Mary tenha sido estuprada ou abusada, dificilmente se poderia dizer do filho em gestação que ele seria fruto do consentimento dos amantes, quando é muito mais plausível que seja fruto dos abusos patronais sobre sua empregadinha.

Um dos ápices da crueldade masculina em Alias Grace ocorre quando Mary revela sua gravidez a George e ele lhe entrega 5 dólares como contribuição para o aborto e lhe diz: “Se você quer uma solução mais rápida para seus problemas, vá e se afogue!” Ela escolhe o aborto e não o suicídio – e Grace não consegue censurá-la por esta escolha onde Mary julgou preferiu 1 cadáver (de feto) ao invés de 2 cadáveres (mãe e filho em gestação). A família de George depois irá tecer toda uma rede de mentiras, propinas e chantagens a fim de acobertar George e permanecer que o macho fique impune, ainda que tenha responsabilidade direta pela morte na juventude de Mary Whitney.

A figura do patrão abusivo, aproveitador, que se utiliza sexualmente das mulheres da classe trabalhadora, é um tema recorrente em Alias Grace – os próprios assassinados, Kinnear e Nacy, estavam envolvidos numa espécie de relação não propriamente amorosa, mas de abuso naturalizado, como se a posição de gentleman fornecesse ao macho as prerrogativas do usufruto (abusivo) das mulheres-serviçais, reduzidas a pouco mais que brinquedos sexuais a serviço da casta patriarcal.

Atwood, porém, não é simplista: não descreve apenas mulheres que são vítimas da opressão masculina / machista / patriarcal, há mulheres que oprimem mulheres devido às respectivas posições na hierarquia das classes sociais. Em The Handmaid’s Tale, algumas das piores vilanias são cometidas por mulheres – como a Tia Lídia, encarnação do puritanismo autoritário e torturador que reina em Gilead, ou Serena Joy, cujo nome sereno e alegre é fachada para uma persona amarga, cruel e dominadora. Estas são mulheres servis ao sistema teocrático instaurado em Gilead e que se enxergam como superiores às mulheres reduzidas à condição de aias ou coisa pior (pois há castas ainda mais degradadas e que se assemelham aos intocáveis indianos).

Um dos slogans de divulgação de The Handmaid’s Tale diz que o futuro é uma porra de um pesadelo (the future is a fucking nightmare); Alias Grace parece perguntar: e quem disse que o passado também não foi? Talvez todo presente seja um pesadelo esmagado entre os pesadelos pretéritos e os pesadelos ainda porvir?

Atwood não compreende o feminismo como tendo que conter uma nova versão do velho maniqueísmo: seria tosco e grosseiro fazer dos homens demônios e das mulheres santas, e por isso ela se esforça tanto para que Grace Marks seja repleta de ambiguidade, entremescla de fascínio e perdição, de doçura e de perigo. Uma mulher assombrada por suas memórias, mas que tem uma fortaleza interior que a permite atravessar viva, amadurecendo, as tempestades de uma vida que inclui não poucas provações.

Nas intrincadas relações de Grace com o Dr. Simon Jordan se desenha a figura de um “conhecimento proibido” (forbidden knowledge) que o homem de ciência e médico da alma busca atingir sobre a condição feminina. Profética, Grace Marks diz que a jornada do médico que adentra o labirinto psíquico desta mulher-esfinge equivale a uma descida ao abismo (a descent into the pit), onde o doutor desejaria segurar em suas mãos o coração feminino pulsante, enfim decifrado.

Mas este coração-esfinge permanecerá para ele esquivo, escorregando como água corrente entre os dedos, como a lhe ensinar, enquanto ele desce rumo à insanidade, que é sem esperança tentar compreender por inteiro uma mulher que se esforça para que o véu de mistério, tecido por sua arte de Sherazade, tremule sem fim sobre seus indevassáveis mistérios.

“One need not be a chamber to be haunted,
One need not be a house;
The brain has corridors surpassing
Material place…”

Emily Dickinson

Retratos de Marks e McDermott feitos no julgamento. Via Toronto Public Library.

Eduardo Carli De Moraes
A Casa De Vidro: http://www.acasadevidro.com

 

 



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“ELA DESATINOU, DESATOU NÓS, VAI VIVER SÓ…” – Experiências em Confluências: Camille Claudel via Não Me Kahlo + Francisco El Hombre

Camille Claudel (1864 —1943)


Coletivo Não Me Kahlo: “Por séculos, mulheres que não se encaixavam no ideal de docilidade foram diagnosticadas com uma condição chamada histeria feminina.

A palavra histeria tem origem no termo grego para ‘útero’, órgão que era considerado a causa da patologia. Durante séculos, o desconhecimento sobre o corpo da mulher levou médicos a acreditarem que o útero se movimentava – em livro de 1609, Libaud escreveu até que ele chegava a subir aos pulmões e à cabeça. A histeria era chamada de ‘sufocação da matriz’ – a matriz sendo o útero -, e acreditava-se que o fato de a mulher ficar muito tempo sem ter filhos poderia ser uma de suas causas.

Como tratamento, sugeria-se a manipulação da vagina e do clitóris pelo marido da mulher diagnosticada ou, caso isso não desse certo, pelo médico, que devia masturbar a paciente até que ela atingisse o orgasmo – assim, acreditava-se, ela ficaria mais calma. O primeiro vibrador, patenteado em 1869, foi criado por um médico norte-americano com o objetivo de tratar a histeria e ‘aliviar’ os homens dessa tarefa.

Apesar da vinculação da histeria a causas biológicas, o que se observava, na verdade, era que usava-se a histeria, muitas vezes, como forma de tornar patológicos comportamentos femininos que fugissem às normais sociais da época, posturas consideradas indevidas para uma mulher.

Foi o que aconteceu com Camille Claudel, internada à força pela família em um manicômio, onde passou 29 anos. Segundo Daniela Lima, ela manchou a honra da família por não ter se casado nem tido filhos e por ter se dedicado à escultura, um ofício na época considerado masculino.

O que alegava seu atestado de internação? Basicamente que Camille era relapsa com a aparência, as roupas e os sapatos e que vivia sozinha com muitos gatos. Ela era, como diz Daniela, um mau exemplo para as mulheres à sua volta.

‘Mulheres eram internadas pelos mais variados motivos: engravidar indevidamente, gastar muito dinheiro, estar desempregada e – ainda mais violento – por um simples pedido da família. Na loucura, parecia caber tudo aquilo que era desviante à média ou à norma. (…) Quando Camille transgrediu os estereótipos de gênero de sua época, revelou mecanismos de poder que fabricam estes estereótipos. Era um exemplo perigoso para outras mulheres. Portanto, tentaram corrigir violentamente sua anormalidade. O que define o anormal é que ele constitui, em sua existência mesma, a transgressão de leis invisíveis da sociedade, leis que são naturalizadas.’ (LIMA, Daniela)

Embora hoje a medicina não mais reconheça a histeria feminina, as expressões de raiva das mulheres continuam a ser associadas a seu ciclo reprodutivo e à sua sexualidade. Não raro, nossa revolta diante de atitudes machistas, por exemplo, é atribuída à tensão pré-menstrual ou a uma suposta falta de sexo, a fim de desvalidar nossas críticas.”


Trechos do livro “#MeuAmigoSecreto – Feminismo Além Das Redes”, Edições de Janeiro, 2016, pg. 20-21.

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Leia também: http://www.hypeness.com.br/2017/04/ofuscada-por-rodin-e-pelo-machismo-finalmente-camille-claudel-ganha-seu-proprio-museu/

http://creatureandcreator.ca/?p=854



Francisco, El Hombre
Triste, Louca ou Má

Triste, louca ou má
será qualificada
ela quem recusar
seguir receita tal

a receita cultural
do marido, da família.
cuida, cuida da rotina

só mesmo rejeita
bem conhecida receita
quem não sem dores
aceita que tudo deve mudar

que um homem não te define
sua casa não te define
sua carne não te define
você é seu próprio lar

que um homem não te define
sua casa não te define
sua carne não te define

ela desatinou
desatou nós
vai viver só

eu não me vejo na palavra
fêmea: alvo de caça
conformada vítima

Prefiro queimar o mapa
traçar de novo a estrada
Ver cores nas cinzas
E a vida reinventar.

e um homem não me define
minha casa não me define
minha carne não me define
eu sou meu próprio lar

ela desatinou
desatou nós
vai viver só


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“Falo” (Salma Jô)
Do álbum Princesa (2016)