Lula é a prova viva de que não se pode encarcerar sonhos

Sinto e confesso que, diante de uma figura como Lula, sinto todo o peso de minha pequenez e insignificância. Pois Lula é um daqueles raros seres humanos que agigantou-se a ponto de transformar-se em figura histórica. Transcendeu as limitações da carne e ascendeu ao reino dos mitos. É hoje o que merece ser chamado pelo adorável clichê: uma lenda viva. 

Nesta ano de 2018, Lula evidenciou novamente sua imensa grandeza – que contrasta de modo gritante com a pequenez e a baixeza do presidente eleito Jair Bolsonaro, que é uma encarnação do que este país produziu de pior e de mais monstruoso em sua história. Vão acusar-me de maniqueísta e fanático ideológico, mas falo a partir de jorros afetivos do coração: estou plenamente convicto que Bolsonaro, que idolatra Ustra e Duque de Caxias, que defende a tortura e enaltece a ditadura, é de fato um monstro em comparação com este sábio que Lula tornou-se. 

As adversidades da vida ensinam muito mais que sucessos e glórias. E foi nas adversidades, desde o berço pernambucano até a migração para terras paulistas, que forjou-se este mito de carne-e-osso que atende por Lula e que, como a História do futuro dirá, merecerá estar inscrito na aventura do caminhar desta nação em posição equiparável a Tiradentes, a Lampião, a Antonio Conselheiro, a Prestes, a Marighella. Comparável, lá fora, a Mandela, a Gandhi, a Luther King. Sem deixar de ser absolutamente singular, idiossincrático, inimitável – um cara que poderia perfeitamente cantar “só eu sou eu” com toda a razão deste mundo. Não há personalidade pública que rebrilhe no Brasil da atualidade com tamanha singularidade. 

Só em dias extraordinários é oferecido a alguém a experiência de ver a cidade em que cresceu transformar-se no epicentro de um drama nacional e planetário. Foi o que ocorreu em Abril de 2018, quando a São Bernardo do Campo de minha infância e adolescência estava bombando em todas as mídias. Os olhos do mundo estavam focados no épico que se desenrolava no ABC paulista enquanto o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva reagia à iminência de seu encarceramento.

Nascido em 1984, eu não estava ainda entre os vivos quando explodiram, no fim dos anos 1970, aquelas colossais greves operárias que colocariam o governo ditatorial brasileiro em xeque. Acredito, porém, que as ressonâncias daqueles eventos me atingiram na infância, crescendo no ABC dos anos 1980 em meio aos antagonismos sociais violentos desta país que, desde que me entendo por gente, reconheço como uma tragédia de dimensões continentais. Um barril-de-pólvora em formato de país, onde a injustiça triunfa, a violência se alastra e “quem não presta fica vivo, quem é bom mandam matar” (para lembrar os versos de Cecília Meireles que Chico Buarque musicou).

No vídeo incrível da Mídia Ninja (assista a seguir), temos acesso a um condensado audiovisual de alto calibre com algumas das palavras históricas de Lula, em 07 de Abril de 2018, diante da multidão que estava diante do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, antes de ser encarcerado injustamente. Naquela ocasião, segundo Rosane Borges, professora da ECA-USP, “ouvimos um discurso fundador que se inscreveu irrevogavelmente na lápide da História”:


“Seja pela vocação que têm para suscitar outros / novos modos de existência, seja por instituírem novas configurações da política, seja por inventarem novas bússolas para a travessia de nossas vidas, alguns discursos se consagraram na História como prenúncio ou advento de um novo tempo, apesar dos perigos.

Num amplo arco, recordemos, entre tantas, algumas falas de repercussão sísmica, como o audacioso discurso ‘E eu não sou uma mulher?’, da estadunidense Sojourner Truth, ex-escravizada que demoliu a Women’s Rights Convention, em Ohio. Na ocasião, 1851, Truth questionou por que as mulheres brancas eram privilegiadas e as mulheres negras vistas como inferiores, intelectual e fisicamente, úteis somente para o trabalho braçal.

Menção obrigatória deve ser feita também ao discurso de posse de Nelson Mandela. No mesmo diapasão, está o discurso memorável de Martin Luther King (“Eu tenho um sonho”).

O celebrado “Saio da vida para entrar na História”, redigido na última linha da carta-testamento de Getúlio Vargas, é outro fragmento discursivo com desdobramentos importantes (…), escrito horas antes dele [Vargas] se matar, em 24 de agosto de 1954.

(…) Reafirmando que é dono do seu destino, Lula fez um discurso antológico em 7 de Abril de 2018. Um discurso indutor de esperanças várias, como um rio com múltiplos afluentes. Lula provocou estímulos inabarcavelmente amplos. (…) Quando Moro anuncia que ‘já era’ para Lula, eis o que o ex-presidente inverte, com seu pronunciamento, os elementos dessa equação, e anuncia que na verdade tudo só está começando. ‘A partir de agora minhas ideias vão se misturar com as ideias de vocês’.

Rosane Borges arremata: “Foram necessárias apenas 48 horas de nossas vidas – entre 5 e 7 de Abril de 2018, em São Bernardo do Campo/SP – para que testemunhássemos, em meio à politização do Judiciário, ao triunfo do Estado de exceção, um gesto de altíssima envergadura, vocalizado por um discurso emancipatório, o que fez desses 2 dias um marco temporal com potência para desbloquear o amanhã, interceptado que está pela política destruidora do presente que avança na velocidade da luz.” (BORGES, 2018, pg. 82 a 88)

Já a psicanalista Maria Rita Kehl pode dizer que testemunhou as duas prisões de Lula: enquanto repórter do jornal Movimento (de oposição à ditadura militar e ligado ao PC do B), ela conheceu o jovem líder operário Lula em 1978, quando o futuro presidente “foi o negociador entre operários e patrões na greve da Scania – a primeira greve operária desde o famigerado AI-5”.

Como rememora Kehl: “No ano seguinte, 1979, o movimento grevista se estendeu para um número grande de fábricas , em todo o ABC. No dia 1º de Maio de 1979, tive a sorte de ir, com amigos, à festa dos metalúrgicos. Ouvi Lula falar para 80 mil operários em greve, reunidos no estádio da Vila Euclides. Explicou, com clareza científica, as razões da greve. Não apostava na ‘condução das massas’ e sim na politização esclarecedora. O trabalhador que entende por que luta sabe o que reivindica e luta melhor…

Em agosto daquele ano, a lei da anistia permitiria a volta dos exilados e a liberdade dos presos políticos que ainda permaneciam encarcerados. Foi o começo do fim da ditadura. O movimento operário do ABC teve papel importante para que isso acontecesse.

Em 1980, Lula fundou o PT – Partido dos Trabalhadores, ao lado de outras lideranças operárias e um time de intelectuais progressistas de primeira linha: Antonio Candido, Sérgio Buarque de Holanda, Francisco de Oliveira, Marilena Chauí, Paulo Freire, Mário Pedrosa, Hélio Pellegrino, Lélia Abramo, Perseu Abramo. Intelectuais que não se pretendiam ‘condutores do povo’; ao contrário, apoiavam a criação de um partido que nascia de dentro da luta de classes.

Foi preciso esperar mais de 20 anos para que o país elegesse o melhor presidente de sua história.” (KEHL, pg. 39 e 40)

Neste ano de 1980 em que nasce o PT, ocorreu algo fenomenal no mês de Abril: no estádio municipal da Vila Euclides, em São Bernardo, uma “greve de metalúrgicos, dezenas de milhares de operários presentes à assembléia num campo de futebol”. Camilo Vanucchi relembra: “No alto, dois helicópteros riscavam o céu. Eram helicópteros do Exército. Nas portas, soldados empunhavam metralhadoras apontadas para a massa. Opressão contra resistência pacífica. Se um único disparo fosse feito, o que poderia acontecer? (…)

Um dos filhos de Lula, Marcos Cláudio, aos 9 anos de idade, voltou para casa impressionado e desenhou um daqueles helicópteros do Exército. A IstoÉ de Mino Carta publicou. Marisa contava com tristeza do impacto da prisão de Lula na vida de Marcos, o primogênito. Sofreu bullying na escola, duas décadas antes da popularização da palavra bullying: ‘Teu pai está preso porque é bandido. Se fosse honesto, não estava preso.’ Marcos ficou quase dois meses sem ir à escola e precisou repetir o ano.


38 anos depois, saquei o smartphone e registrei os helicópteros de 2018. Havia pouca diferença entre aquelas imagens tão distantes no tempo entre si. Do alto, a transmissão feita pela Globonews e reproduzida no Jornal Nacional nos atingia a todos com a mesma violência das metralhadoras apontadas para a multidão no estádio da Vila Euclides – hoje Estádio Primeiro de Maio, sede do São Bernardo Futebol Clube. A qualquer momento, as câmeras suspensas deflagariam tiros letais, como os tantos disparados contra nós ao longo de todos esses anos. Bastaria ajustar o calibre-diafragma, definir o gatilho-obturador, escolher a teleobjetiva mais adequada para os tiros de longo alcance. O bombardeio entraria ao vivo, em horário nobre. Sem silenciador.” (VANNUCHI, p. 65)

O bombardeio midiático antipetista preparou o terreno para a 2ª prisão de Luiz Inácio, 38 anos após ele ter ido parar no DOPS em 1980. O clima de fascismo se acirrou desde o processo contra Dilma Rousseff, que derrubou-a do poder em 2016, e o encarceramento de Lula era o telos de todo esse processo, a cereja do bolo golpista, a “consumação do golpe”. E assim foi.

O que o processo eleitoral nos ensinou através de sua amarga escola foi o nível bestial a que podem descer alguns de nossos condidadãos, ainda que se auto-intitulem “cidadãos-de-bem”: ao se entregar à polícia, Lula voou numa aeronave onde ouviram-se frases como “manda este lixo janela abaixo aí”. Um dito em consonância com a personalidade autoritária atroz de Bolsonaro, que quer condecorar com medalhas aqueles fardados que praticarem chacinas nas favelas ou nas manifestações populares, afinal não passam de marginais vermelhos e matáveis terroristas toda essa corja do PT, do MST, da UNE, do MTST…. 

Recusando o discurso do ódio, Lula falou ecoando Pablo Neruda, e Salvador Allende, e Che Guevara: “eles podem cortar todas as flores, mas não vão deter a primavera.” É preciso aprender com a primavera, que a cada mudança de estação vê-se despida e outonal, só para retornar plena e viçosa na próxima temporada. Aos juízes que agem como algozes e enforcam a Justiça em praça pública, ao presidente eleito com fraudes e calúnias e seu Ministério de Bandidos, à parcela da população que abraçou o fascismo e a intolerância, é preciso gritar em alto e bom som: ainda que vocês realmente façam como Bolsonaro pregou e deixem o Lula para “apodrecer na cadeia”, com o beneplácito do Batman dos Coxinhas (o Sr. Moro), cedo ou tarde descobrirão que os nossos sonhos não são encarceráveis. Se o inverno é de vocês, a primavera será nossa.

“Eu sou um construtor de sonhos. Eu há muito tempo atrás sonhei que era possível governar esse país envolvendo milhões e milhões de pessoas pobres na economia, envolvendo milhões de pessoas nas universidades, criando milhões e milhões de empregos nesse país. Eu sonhei que era possível um metalúrgico, sem diploma universitário, cuidar mais da educação que os diplomados e concursados que governaram esse país. Eu sonhei que era possível a gente diminuir a mortalidade infantil levando leite feijão e arroz para que as crianças pudessem comer todo dia. Eu sonhei que era possível pegar os estudantes da periferia e colocá-los nas melhores universidades desse país para que a gente não tenha juiz e procuradores só da elite. Daqui a pouco vamos ter juízes e procuradores nascidos na favela de Heliópolis, nascidos em Itaquera, nascidos na periferia. Nós vamos ter muita gente dos Sem Terra, do MTST, da CUT formados. 

Esse crime eu cometi.

Eu cometi esse crime e eles não querem que eu cometa mais. É por conta desse crime que já tem uns dez processos contra mim. E se for por esses crimes, de colocar pobre na universidade, negro na universidade, pobre comer carne, pobre comprar carro, pobre viajar de avião, pobre fazer sua pequena agricultura, ser microempreendedor, ter sua casa própria. Se esse é o crime que eu cometi eu quero dizer que vou continuar sendo criminoso nesse país porque vou fazer muito mais. Vou fazer muito mais.” – LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA. Leia a íntegra do Discurso de 7 de Abril de 2018.

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BIBLIOGRAFIA
“LUIZ INÁCIO LUTA DA SILVA”, Ed. Contracorrente. São Paulo, 2018.

1968: A MÚSICA CANTA A HISTÓRIA – Movimento Estudantil vs Ditadura Militar, do Calabouço ao AI-5 (Por Eduardo Carli de Moraes)

1968: A MÚSICA CANTA A HISTÓRIA

“A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega o destino pra lá…”
Chico Buarque de Hollanda

Neste turbulento ano 2018, relembrar 1968 torna-se urgente e inadiável. Não apenas pois meio século transcorreu desde então, e a redondeza deste marco – “50 anos depois…” – convida a lembrança a se exercitar, fornecendo pautas memorialistísticas aos jornalistas, documentaristas e historiadores.

Por uma razão melhor que esta, acredito, é que devemos nos debruçar sobre este passado específico: quem não conhece sua História, e não aprende com ela, tende a repetir os equívocos de gerações passadas. Neste sentido, a música pode ser excelente professora, caso saibamos abrir as portas da percepção e da cognição para ouvir seus ensinamentos, melodiosos e rítmicos, cheios de feitiço, com alto potencial de nos conceder benefícios que vão muito além dos deleites estéticos.

Re-ouvindo e re-decodificando aquelas antológicas canções – de Chico Buarque, de Gilberto Gil, de Geraldo Vandré, dos Mutantes, de Caetano Veloso, de Gonzagão e Gonzaguinha, de Milton Nascimento, de Elza Soares, de Tom Zé, de Jards Macalé, de Itamar Assumpção, de Clara Nunes, de Aldir Blanc e João Bosco, de Edu Lobo, de Gal e de Bethânia etc. – temos acesso ao nosso pretérito tal qual foi vivenciado e expressado por nossos maiores e melhores artistas, os mais sensíveis e criativos dentre os cidadãos ativos que sentiram na pele as fúrias e as esperanças da época.

Eles continuam nos ensinando sobre o tamanho do erro grotesco que seria permitir a re-emergência de um regime político autoritário e ditatorial, após tantos horrendos horrores que nos feriram desde o Golpe do 1º de Abril de 1964, início daqueles 21 anos de trevas (1964 – 1985) que até hoje lançam suas sombras sobre nosso presente.

Com a candidatura fascista do boçal Bolsonaro, encarnação do entulho militarista e truculento entre nós, figurando em 2º lugar nas pesquisas de intenção de voto para a presidência da república, só atrás de Lula (que está preso e provavelmente será impedido de disputar o pleito, apesar de ONUs e Papas, apesar de festivais e greves de fome, apesar de manifestações e protestos!), urge que a gente aprenda sobre as cagadas pretéritas. Para que possamos perceber, a tempo, o tamanho obsceno da cagada iminente que talvez façamos em breve, como sociedade, cometendo um crime de lesa-povo que só mesmo poderia perpetrar um bando demasiado vasto de amnésicos.

“1968 foi um ano marcado por grandes protestos estudantis contra a ditadura, por importantes greves operárias e pela rearticulação das forças de oposição”, escreve Franklin Martins. “O ano ficou marcado também pelo recrudescimento da repressão, pelo desencadeamento de atentados terroristas pelo Comando de Caça aos Comunistas (CCC) e pelo contínuo fortalecimento da linha-dura nos altos comandos das Forças Armadas.” (MARTINS, Quem Foi Que Inventou o Brasil, vol. 2, 2015, pg. 35)

No dia 28 de Março, “estudantes organizaram uma passeata para protestar contra a baixa qualidade das refeições e as péssimas condições de funcionamento do Restaurante Central dos Estudantes, conhecido como Calabouço. A Polícia Militar (PM) já chegou disparando. Vários comensais – assim eram chamados os estudantes que usavam o restaurante, em sua maioria secundaristas pobres – foram feridos à bala. Um deles, o paraense Edson Luís de Lima Souto, de 18 anos, morreu no local.”  (pg. 82)

Milton Nascimento e Ronaldo Bastos: “Menino”

“Quem cala sobre teu corpo
Consente na tua morte
Talhada a ferro e fogo
Nas profundezas do corte
Que a bala riscou no peito
Quem cala morre contigo
Mais morto que estás agora
Relógio no chão da praça
Batendo, avisando a hora
Que a raiva traçou no tempo
No incêndio repetido
O brilho do teu cabelo
Quem grita vive contigo.”

A canção “Menino”, fruto dos acontecimentos de Março de 1968, só seria gravada muitos anos depois e lançada em Geraes, álbum de 1976. Como lembra Ridenti, “a lembrança do enterro de Edson Luís também inspirou Milton Nascimento e Wagner Tiso na composição de “Coração de Estudante”, em 1983, para a trilha sonora do filme Jango, de Silvio Tendler.” (RIDENTI, Em Busca do Povo Brasileiro, p. 56)

“Antes do golpe militar de 1964, o Calabouço – nos tempos do Império, o local havia abrigado uma antiga prisão de escravos – era administrado pela União Metropolitana dos Estudantes (UME). Instaurada a ditadura, o refeitório foi fechado pelas autoridades. Reaberto três meses depois, continuou na mira dos órgãos de segurança, que viam com maus olhos as frequentes assembleias realizadas no local.

Em 1967, o governo demoliu o restaurante sob o pretexto de que era necessário reurbanizar a área para uma reunião do Fundo Monetário Internacional (FMI) a ser realizada no Museu de Arte Moderna (MAM), situado nas proximidades. A pressão estudantil, entretanto, obrigou as autoridades a construir às pressas outro Calabouço, a cerca de 2km do local.

A mudança, porém, foi um desastre. Logo começaram as mobilizações comandadas pela Frente Unida dos Estudantes do Calabouço (Fuec) contra a péssima estrutura do novo restaurante. A resposta da polícia foi imediata: sentou praça no local com o objetivo de intimidar os jovens. Nem bem o ano letivo começou, o restaurante foi invadido pela PM na operação em que Edson Luís morreu com um tiro no peito, dado à queima-roupa.

Temendo que a polícia desaparecesse com o estudante morto, as lideranças do Calabouço levaram o corpo para a Assembleia Legislativa do então estado da Guanabara, na Cinelândia, onde Edson Luís foi velado. Durante toda a noite e a manhã, milhares de estudantes e populares acorreram ao local, que se tornou palco de um prolongado comício contra a ditadura. Na tarde do dia seguinte, dezenas de milhares de pessoas acompanharam o cortejo da Cinelândia ao cemitério São João Batista, onde Edson Luis foi enterrado. No trajeto, a palavra de ordem mais gritada foi MATARAM UM ESTUDANTE, PODIA SER SEU FILHO. O Rio de Janeiro, chocado com a brutalidade policial, parou e vestiu luto.

Marco do acirramento da luta dos estudantes contra a ditadura, a morte de Edson Luis inspirou duas canções importantes – ambas proibidas pela censura: “Menino”, de Milton Nascimento, e “Calabouço” de Sergio Ricardo. Esta última foi proibida em 1968, mas a música circulou entre os estudantes em gravações clandestinas. Nos anos seguintes, foi cantada em shows nas universidades em desafio às autoridades. “Em cada lugar que a apresentava, curiosa e inesperadamente, o refrão de “Calabouço” era repetido efusivamente pela plateia”, contou Sérgio Ricardo. A canção somente foi gravada comercialmente em 1973, graças a um cochilo da turma da tesoura.

Quando as autoridades se deram conta de que tinham levado um frango por debaixo das pernas, convocaram o compositor para prestar depoimento no DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), mas já era tarde demais: o LP com a canção estava esgotado. Também em 1973, Sérgio Ricardo cantaria Calabouço na Catedral da Sé, durante a missa de 7ª dua em homenagem a outro jovem assassinado pela ditadura – Alexandre Vannucchi Leme, estudante da USP, torturado e morto pelos órgãos da repressão nas dependências da Oban (Operação Bandeirantes).” (MARTINS, p. 82-83)

Sérgio Ricardo: “Calabouço”

Olho aberto, ouvido atento
E a cabeça no lugar
Cala a boca moço, cala a boca moço
Do canto da boca escorre
Metade do meu cantar
Cala a boca moço, cala a boca moço
Eis o lixo do meu canto
Que é permitido escutar
Cala a boca moço. Fala!

Olha o vazio nas almas
Olha um violeiro de alma vazia

Cerradas portas do mundo
Cala a boca moço
E decepada a canção
Cala a boca moço
Metade com sete chaves
Cala a boca moço
Nas grades do meu porão
Cala a boca moço
A outra se gangrenando

 Cala a boca moço
Na chaga do meu refrão
Cala a boca moço
Cala o peito, cala o beiço
Calabouço, calabouço

Olha o vazio nas almas
Olha um violeiro de alma vazia

Mulata mula mulambo
Milícia morte e mourão
Cala a boca moço, cala a boca moço
Onde amarro a meia espera
Cercada de assombração
Cala a boca moço, cala a boca moço
Seu meio corpo apoiado
Na muleta da canção
Cala a boca moço. Fala!

Olha o vazio nas almas
Olha um violeiro de alma vazia

Meia dor, meia alegria
Cala a boca moço
Nem rosa nem flor, botão
Cala a boca moço
Meio pavor, meia euforia
Cala a boca moço
Meia cama, meio caixão
Cala a boca moço
Da cana caiana eu canto
Cala a boca moço
Só o bagaço da canção
Cala a boca moço
Cala o peito, cala o beiço
Calabouço, calabouço

Olha o vazio nas almas
Olha um violeiro de alma vazia

As paredes de um inseto
Me vestem como a um cabide
Cala a boca moço, cala a boca moço
E na lama de seu corpo
Vou por onde ele decide
Cala a boca moço, cala a boca moço
Metade se esverdeando
No limbo do meu revide
Cala o boca moço. Fala!

Olha o vazio nas almas
Olha um violeiro de alma vazia

Quem canta traz um motivo
Cala a boca moço
Que se explica no cantar
Cala a boca moço
Meu canto é filho de Aquiles
Cala a boca moço
Também tem seu calcanhar
Cala a boca moço
Por isso o verso é a bílis
Cala a boca moço
Do que eu queria explicar
Cala a boca moço
Cala o peito, cala o beiço
Calabouço, calabouço

Olha o vazio nas almas
Olha um brasileiro de alma vazia.

O assassinato de Edson Luis, perpetrado pela PM, foi “um tiro no coração do Brasil”, como tão bem expressa o título do documentário de Carlos Pronzatohttps://youtu.be/ZNRxpfUMwQw (assista na íntegra, 58 min). Poucos dias depois do crime perpetrado pelo terrorismo de Estado, o jornal Correio da Manhã, em 07 de Abril de 1968, publicava um potente texto de Hélio Pellegrino:

“Tombou morto um jovem estudante brasileiro, varado pela bala assassina que o matou… o tempo de sua vida, ao qual tinha direito e do qual foi miseravelmente roubado, ergue-se de súbito diante da nação como uma imensa catedral sagrada, sob cujas abóbadas milhões de vozes deflagraram sua revolta. O tempo de Edson Luís, dilacerado e destruído pela bala homicida que o cortou, tornou-se de repente tempo histórico, tempo brasileiro, tempo de cólera e consciência, tempo de gritar: BASTA! Há instantes privilegiados em que um destino pessoal se dissolve no movimento da história. Nesses instantes, a formidável alquimia da história faz refulgir, com luz imperecível, o destino no qual toca. Edson Luís, assassinado pela polícia, cujos clarões varreram de ponta a ponta a noite reacionária que o poder militar fez desabar sobre o país.” (Citado do livro de Maria Ribeiro do Valle: “1968 – O Diálogo é a Violência – Movimento Estudantil e Ditadura Militar no Brasil”, 2ª ed., Editora UNICAMP, 2016)

É neste contexto que explode a renovação estético-cultural subversiva do Tropicalismo. A novidade tinha a potência de um movimento que, ainda que profundamente inovador, estava bem enraizado no passado: a Antropofagia de Oswald de Andrade, que remetia ao caldeirão do Modernismo dos anos 1920, inspirava ativamente o trampo dos tropicalistas.

Mas era um Oswald que os tropicalistas não respeitavam como um ente sagrado, que não faziam de ídolo intocável: era um Oswald devorado e vomitado pelo Teatro Oficina, onde Zé Celso Martinez Côrrea e sua trupe encenavam O Rei da Vela em meio aos transtornos sócio-políticos daqueles anos danados, de chumbo-grosso e mordaças impostas a todas as canções de protesto contra o regime ilegítimo nascido da derrubada militar do governo João Goulart.

Neste contexto é que surgem três das mais emblemáticas canções de Caetano Veloso – que admitiu sentir-se profundamente transtornado pela experiência estética que teve com a ressurreição de Oswald através do Teatro Oficina. Presente no disco-manifesto Tropicália ou Panis et Circensis (1968), “Enquanto Seu Lobo Não Vem” é um retrato daquele país que havia entrado em erupção após a morte de Edson Luís, com comícios-relâmpago e protestos estudantis, culminando com grandes manifestações cívicas como a Passeata dos Cem Mil, em Junho. Era uma época em que o movimento estudantil e os trabalhadores organizados puderam sentir muitos artistas e intelectuais aliando-se à luta contra a ditadura.

Que lobo seria este que está para vir, na canção de Caetano? Hoje, com nosso olhar retrospectivo, a canção pode soar profética, como se previsse a chegada do AI-5 e da fase mais brutal do terrorismo de estado. “A canção misturava símbolos da guerrilha – florestas, veredas, cordilheiras – com o dia a dia das manifestações estudantis – passeatas, desfiles, ruas, avenidas, bombas, botas e bandeiras. O lobo, claro, era a repressão policial, com suas garras cada vez mais afiadas e ameaçadoras.

Em breve, advertia Caetano, seria necessário esconder-se debaixo da cama para não ser comido por ele. Para deixar claro de onde vinha o perigo, em boa parte da canção Gal Costa repetia em contraponto o estribilho “os clarins da banda militar”. (MARTINS, pg. 86)

Vamos passear na floresta escondida, meu amor
Vamos passear na avenida
Vamos passear nas veredas, no alto meu amor
Há uma cordilheira sob o asfalto

(Os clarins da banda militar…)
A Estação Primeira da Mangueira passa em ruas largas
(Os clarins da banda militar…)
Passa por debaixo da Avenida Presidente Vargas
(Os clarins da banda militar…)
Presidente Vargas, Presidente Vargas, Presidente Vargas
(Os clarins da banda militar…)

Vamos passear nos Estados Unidos do Brasil
Vamos passear escondidos
Vamos desfilar pela rua onde Mangueira passou
Vamos por debaixo das ruas

(Os clarins da banda militar…)
Debaixo das bombas, das bandeiras
(Os clarins da banda militar…)
Debaixo das botas
(Os clarins da banda militar…)
Debaixo das rosas, dos jardins
(Os clarins da banda militar…)
Debaixo da lama
(Os clarins da banda militar…)
Debaixo da cama

O lobo já havia devorado muitos companheiros, mundo afora, que haviam se engajado na construção de um mundo menos injusto. Não se compreende as canções de 1968 sem lembrar que ainda era recente, naquele ano, o assassinato de Ernesto Che Guevara ocorrido na Bolívia em 1967. Ocorrência que inspirou pelo menos duas composições: em “Aleluia”, Sérgio Ricardo fez um deslavado panegírico ao médico-guerrilheiro: “Che Guevara não morreu, aleluia!” Celebrando Che como uma espécie de santo laico, dizendo claramente o nome de seu herói, Ricardo se colocava de modo explícito no lado dos apologistas de Guevara e dos que se punham na órbita de influência da Revolução Cubana que triunfara em 1959.

Este procedimento de explicitação da mensagem e de louvor ao revolucionário não foi a escolha de Caetano em sua “Soy Loco Por Ti América”. Nela, em ritmo de mambo cubano, em clima altamente festivo, ele incluiu uma menção à censura, ironizando a turma da tesoura que então amordaçava a arte de protesto e subversão no Brasil: “o nome do homem morto não se pode dizer”.


Antenado com o tempo histórico fora do Brasil, o movimento tropicalista, que seria “abatido em pleno vôo pelo AI-5” (para emprestar uma expressão de Tárik de Souza), trouxe ao país, em 1968, um pouco do clima insurrecional que havia tomado conta de Paris em Maio.

Acompanhado dos Mutantes, Caetano agia sem medo de psicodelizar a MPB de maneira extremada, sem temor da guitarra elétrica e distorcida. Como lembra Martins, Caetano fez É Proibido Proibir inspirado em uma

“frase pichada numa parede de Paris, ao lado de tantas outras palavras de ordem que exigiam o impossível: IL EST INTERDIT D’INTERDIRE. A tradução literal deu nome à composição que ele apresentou no III Festival Internacional da Canção (FIC), em Setembro de 1968.

Com uma montagem quase cinematográfica, semelhante à Alegria, Alegria, a música resgatava a explosão dos movimentos estudantis de 1968 em todo o mundo. Era preciso dizer não ao não, simbolizado pela mãe da virgem, pelo anúncio da televisão, pelo mestre e pelo porteiro, e também derrubar prateleiras, estantes, estátuas, vidraças, louças e livros.

Por sua temática, É Proibido Proibir tinha tudo para fazer sucesso no festival, mas Caetano não estava lá para agradar. Queria mesmo era protestar. Subiu ao palco do Teatro da PUC-SP (Tuca) vestindo um protesto em forma de roupa: camisa de plástico verde, colares de fios elétricos, correntes metálicas com dentes de animais. Entrou em cena rebolando e simulando um ato sexual. Boa parte do público não gostou e reagiu com vaias e gritos de ‘bicha’. Mesmo assim a música se classificou para a rodada decisiva.

Na final, a performance de Caetano – ainda mais forte que a da fase classificatória – foi recebida com vaias e uma saraivada de objetos da plateia. O cantor baiano não conseguiu ir até o fim. Revoltado, explodiu num discurso antológico, sintetizado na pergunta inicial que dirigiu ao público: ‘Mas é isso que é a juventude que diz que quer tomar o poder?'” (FRANKLIN MARTINS, pg. 88)

A mãe da virgem diz que não
E o anúncio da televisão
Estava escrito no portão
E o maestro ergueu o dedo
E além da porta
Há o porteiro, sim…

E eu digo não
E eu digo não ao não
Eu digo:
É! — proibido proibir
É proibido proibir
É proibido proibir
É proibido proibir…

Me dê um beijo, meu amor
Eles estão nos esperando
Os automóveis ardem em chamas
Derrubar as prateleiras
As estantes, as estátuas
As vidraças, louças, livros, sim…

E eu digo sim
E eu digo não ao não
E eu digo:
É! — proibido proibir
É proibido proibir
É proibido proibir
É proibido proibir
É proibido proibir…
(falado)
Caí no areal na hora adversa que Deus concede aos seus
para o intervalo em que esteja a alma imersa em sonhos
que são Deus.
Que importa o areal, a morte, a desventura, se com Deus
me guardei
É o que me sonhei, que eterno dura
É esse que regressarei.

Me dê um beijo meu amor
Eles estão nos esperando
Os automóveis ardem em chamas
Derrubar as prateleiras
As estátuas, as estantes
As vidraças, louças, livros, sim…

E eu digo sim
E eu digo não ao não
E eu digo: É!
Proibido proibir
É proibido proibir
É proibido proibir
É proibido proibir
É proibido proibir…

Nos palcos do Brasil, em 1968, o regime dos milicos não só mandava proibir, mas fazia vista grossa ou apoio implícito a grupos paramilitares que utilizavam-se da força bruta para silenciar artistas. A canção Roda Viva, de Chico Buarque, composta em 1967, “ganhou nova conotação política ao subir aos palcos em 1968 na peça homônima. O protagonista – um cantor popular chamado Benedito Silva, logo transformado em Ben Silver – era obrigado a mudar constantemente de personalidade para sobreviver na selva dos espetáculos.

A montagem inovadora de Zé Celso provocou muita polêmica. A peça estreou no início de 1968 no Rio. Meses depois chegou a São Paulo. Na noite de 17 de Julho, o Teatro Ruth Escobar, onde a peça era encenada, foi invadido pelo CCC, organização terrorista de extrema-direita. Os agressores destruíram cenários e espancaram atores e técnicos. Chico Buarque, mais tarde, levantou a hipótese de que o CCC, ao atacar Roda Viva, teria errado de alvo. Seu objetivo seria atingir o espetáculo Feira Paulista de Opinião, dirigido por Augusto Boal, apresentado em outra sala do mesmo teatro. Numa das cenas, um capacete militar era usado como penico, o que teria despertado a ira dos terroristas.

Chico Buarque e MPB4: “Roda Viva”

Se o CCC errou de alvo em São Paulo, insistiu no erro em Porto Alegre. No início de outubro, o grupo de extrema-direita atacou o Teatro Leopoldina, onde a peça estava sendo apresentada na capital do Rio Grande do Sul. Atores e atrizes foram agredidos e depois enfiados num ônibus, com ordens expressas para não voltar a pisar em terras gaúchas. O espetáculo, é claro, saiu imediatamente de cartaz.

A violência contra Roda Viva não era um fato isolado – e sim mais um episódio na escalada de violência protagonizada pelo CCC contra estudantes, artistas e intelectuais de oposição. Bombas foram jogadas no Teatro Opinião, na Associação Brasileira de Imprensa, no Correio da Manhã e na editora Civilização Brasileira. Também em outubro, membros do CCC, infiltrados entre os estudantes de direita da Universidade Mackenzie, atacaram a tiros a Faculdade de Filosofia da USO, onde funcionava a União Estadual de Estudantes. Na chamada Batalha da (Rua) Maria Antônia, foi morto com um tiro na cabeça o secundarista José Guimarães, de 20 anos, que defendia a Filosofia.

Trailer do documentário de Renato Tapajós

Atuando em estreita dobradinha com os órgãos de repressão e multiplicando suas ações, o CCC ajudou a preparar o clima para a instauração da ditadura terrorista aberta que viria ao mundo com a edição do AI-5, em 13 de Dezembro de 1968. Mas o CCC não passava de uma linha auxiliar, um grupo de paus-mandados. Era no núcleo do regime militar, cada dia mais dominado pela linha-dura, que o coração da violência batia forte e marcava o ritmo da radicalização.

No segundo semestre, o país assistiu a uma escalada de arbitrariedades e provocações, que desembocaria no AI-5. Em agosto, a UnB foi invadida por tropas. Em outubro, a polícia prendeu cerca de 700 líderes estudantis no XXX Congresso da UNE, em Ibiúna (SP). Em todo o país, os estudantes saíram às ruas pedindo a libertação de seus dirigentes. No Rio, uma manifestação em frente à Faculdade de Ciências Médicas foi dissolvida à bala. Na ação da polícia, o estudante de medicina Luiz Paulo Nunes morreu com um tiro na cabeça.” (Martins, p. 96)

Não há dúvida de que no turbilhão de 1968, artistas fizeram história com sua participação política e com suas canções engajadas (acima, Chico Buarque e Gilberto Gil marcam presença na Passeata dos 100 Mil… 50 anos depois, estariam novamente reunidos no showmício Lula Livre, nos Arcos da Lapa/RJ, que reuniu mais de 50 mil pessoas).

Muito antes do AI-5 ser promulgado em Dezembro, a brutalidade dos milicos já havia se tornado explícita – e o mês de Junho não nos deixa mentir. Na chamada Sexta-Feira Sangrenta, 28 estudantes e trabalhadores foram assassinados nos conflitos de rua entre manifestantes e policiais; centenas de pessoas ficaram feridas; pelo menos 15 viaturas foram incendiadas. Foi esse massacre perpetrado pelos militares que gerou a onda de comoção que culminaria na Passeata dos 100 Mil, quando a maré de participação cívica intimidou a repressão, que permitiu a manifestação sem dissolvê-la no porrete e na escopeta como era de praxe.

Pra Não Dizer Que Não Falei de Flores, de Geraldo Vandré, também conhecida como Caminhando e Cantando, foi composta em meio a esta tormenta e tornou-se uma das canções mais significativas da história da MPB. Estreou em Setembro no III FIC, onde acabou derrotada por “Sabiá”, de Tom Jobim e Chico Buarque, “o que valeu sonoras vaias ao júri. Ao subir ao palco para receber a medalha de prata, Vandré foi saudado aos gritos de “é marmelada”. (…) Em dezembro, quando o AI-5 desabou sobre o Brasil, o compositor teria de deixar o país e partir para o exílio.” (Martins, p. 93)

Que esta canção tão emblemática não tenha vencido o III FIC, apesar do imenso sucesso de público (estava, literalmente, na boca do povo), revela também que as músicas politizadas e engajadas, consideradas pela ditadura como panfletos subversivos e estopins para agitação transgressora, estavam longe de ser unanimidade. O status quo preferia laurear canções mais inofensivas, como “Sabiá”, e compositores como Luiz Gonzaga chegaram a compor canções de protesto contra as canções de protesto (a postura um tanto pró-milico do Rei do Baião é, aliás, uma das muitas razões de atrito entre pai e filho reveladas no filme de Breno Silveira sobre Gonzagão e Gonzaguinha).

Luiz Gonzaga: “Canto Sem Protesto”

Geraldo Vandré: “Caminhando” (Para Não Dizer Que Não Falei De Flores)

Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Somos todos iguais
Braços dados ou não
Nas escolas, nas ruas
Campos, construções
Caminhando e cantando
E seguindo a canção

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

Pelos campos há fome
Em grandes plantações
Pelas ruas marchando
Indecisos cordões
Ainda fazem da flor
Seu mais forte refrão
E acreditam nas flores
Vencendo o canhão

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

Há soldados armados
Amados ou não
Quase todos perdidos
De armas na mão
Nos quartéis lhes ensinam
Uma antiga lição
De morrer pela pátria
E viver sem razão

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

Nas escolas, nas ruas
Campos, construções
Somos todos soldados
Armados ou não
Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Somos todos iguais
Braços dados ou não

Os amores na mente
As flores no chão
A certeza na frente
A história na mão
Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Aprendendo e ensinando
Uma nova lição

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

1968 termina com uma brutalização da ditadura, o triunfo da linha-dura, a fúria impiedosa do AI-5 (que duraria entre 1968 e 1978): “o Congresso foi fechado por tempo indeterminado. Nas semanas seguintes, foram cassados os mandatos de 55 deputados e 6 senadores. Três ministros do STF foram afastados e perderam seus direitos políticos. Deixou de existir habeas corpus no Brasil. Uma enorme soma de poderes foi concentrada nas mãos do presidente da República. Milhares de opositores foram presos: estudantes, intelectuais, trabalhadores, parlamentares, religiosos, juízes. Para evitar prisões e maus-tratos, muitos foram obrigados a passar para a clandestinidade. Outros buscaram o exílio.

A partir daí, durante os 10 anos seguintes, o Brasil viveria sob o terrorismo de Estado. Abertas as jaulas, os tigres saíram à caça, com passe livre para prender, perseguir, torturar e matar. Todo aquele que não concordasse com as ideias do regime era encarado como uma ameaça à segurança nacional.” (Martins, p. 102)

Logo após a decretação do AI-5, Caetano e GIl são presos. Tiveram seus cabelos raspados. No xilindró, Gil ouvia os soldados se saudarem com a expressão “aquele abraço”, bordão muito popular na época. Após algumas semanas em cana, receberam autorização para deixar o país e se prepararam para rumar na direção de Londres. A canção de Gil é uma “despedida do Brasil”, escreve Martins, e “a primeira das canções de exílio depois do AI-5, escrita ainda terras brasileiras – um sinal de que por um bom tempo nosso povo viveria exilado em seu próprio país. Em meio ao clima de caça às bruxas – o regime via subversivos por toda parte – muitos compositores e cantores, além de Gil e Caetano, partiram para o exterior.” (Martins, p. 102)

Mas não há tirania que dê conta de calar no peito humano a ânsia pela liberdade. Não há ditadura que tenha tanques e tropas suficientes para que impeça um povo de celebrar os “Heróis da Liberdade”, como ocorreu no primeiro carnaval após o AI-5. O samba-enredo da Império Serrano, maior sucesso na avenida no Carnaval de 1969, “foi cantado pelo povo como um hino contra a ditadura militar.”

Dias antes do desfile, a censura da Ditadura Militar havia proibido terminantemente que a letra mencionasse a palavra “Revolução”. Os milicos exigiram que ela fosse substituída por “Evolução”. “Fechado o acordo, o samba foi para a avenida, onde o povo, a plenos pulmões, botou tudo nos devidos lugares e cantou revolução ao invés de evolução.” (Martins, p. 105)

Passava a noite, vinha dia
O sangue do negro corria
Dia a dia
De lamento em lamento
De agonia em agonia
Ele pedia
O fim da tirania
Lá em Vila Rica
Junto ao Largo da Bica
Local da opressão
A fiel maçonaria
Com sabedoria
Deu sua decisão lá, rá, rá
Com flores e alegria veio a abolição
A Independência laureando o seu brasão
Ao longe soldados e tambores
Alunos e professores
Acompanhados de clarim
Cantavam assim:
Já raiou a liberdade
A liberdade já raiou
Esta brisa que ajuventude afaga
Esta chama que o ódio não apaga pelo Universo
É a evolução em sua legítima razão
Samba, oh samba
Tem a sua primazia
De gozar da felicidade
Samba, meu samba
Presta esta homenagem
Aos “Heróis da Liberdade”

Por Eduardo Carli de Moraes para A Casa de Vidro

 

 

BIBLIOGRAFIA BÁSICA

MARTINS, FranklinQuem Foi Que Inventou o Brasil, vol. 2, Ed. Nova Fronteira, 2015.

RIDENTI, Marcelo. Em Busca do Povo Brasileiro. Ed. Unesp, 2016.

VALLE, Maria Ribeiro do. 1968 – O Diálogo é a Violência – Movimento Estudantil e Ditadura Militar no Brasil. 2ª ed., Editora UNICAMP, 2016.

 

TUA AUSÊNCIA É BEM REAL – Retrato poético de Ernesto ‘Che’ Guevara (1928 – 1967) com versos de Neruda, Galeano, Casaldáliga, Benedetti, dentre outros

PRELÚDIO BIOGRÁFICO:

CHE MORREU COMO QUERIA: LUTANDO
por Analdino Rodrigues Paulino

El Che – Ernesto Guevara de la Serna – filho de Ernesto Guevara Lynch e Célia de la Serna, nasceu em Rosário, Argentina, a 14 de junho de 1928 e foi assassinado no dia 9 de outubro de 1967, no povoado boliviano de Higueras, aos 39 anos de idade.

Desde jovem, foi grande leitor de literatura (Baudelaire, Lorca, Antonio Machado, Pablo Neruda, tendo este último o influenciado muito) e também de política e filosofia. Ainda adolescente, Che percorreu de bicicleta todo o Norte e Oeste da Argentina, num total de 4.700 km.

Quando já era universitário, viajou por quase toda a América Latina, usando de motocicletas a balsas, ao lado de seu amigo Alberto Granados. Para pagar as despesas de viagem, trabalharam como carregadores, lavadores de prato, marinheiros e médicos, o que já revelava sua coragem, espírito de independência e desprezo pelo perigo.

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Foi a partir dessa viagem que começou a sentir e se expressar como um latino-americano, e não apenas como argentino, quando viu o desamparo, a exploração e a miséria como traço característico do nosso continente. Em 1953, quando concluiu o doutorado em Medicina, rumou para a Venezuela, onde ficara seu amigo Granados, para trabalhar na pesquisa da lepra.

Quando conheceu o advogado argentino Ricardo Rojo (autor do livro Meu Amigo Che), este lhe fez um convite decisivo: “Vem comigo à Guatemala, porque ali vai ter lugar uma verdadeira Revolução Social!” Che desembarcou na Guatemala a 24 de dezembro de 1953, acompanhado por Rojo e do Dr. Eduardo Garcia. Na Guatemala, o presidente Jacobo Arbenz Guzmán desenvolvia um governo Revolucionário do qual Che participou através do Instituto Nacional da Reforma Agrária (Folha de S. Paulo, 25/01/80)

488611c55943bc33a3c45f6187d833c1Em 1954, um golpe militar, organizado pelos Estados Unidos e dirigido pelo coronel Castillo Armas, derrubou o governo de Arbenz. Todas as tentativas de resistência fracassaram, inclusive as de Che. Ernesto Guevara foi, então, para o México, onde desempenhou diversos trabalhos, como fotógrafo ambulante nas praças públicas e vendedor de livros da Editora Fondo de Cultura Económica.

Através de concurso, passou a trabalhar no maior hospital do país, como médico de doenças alérgicas, chegando a pensar em uma cátedra universitária. Foi nesse hospital que conheceu o paciente Raúl Castro. Em 1955, Raúl o leva ao apartamento de Maria Antônia, uma espécie de albergue dos cubanos refugiados, para conhecer Fidel Castro.

É o próprio Che quem relata: “Conheci Fidel em uma daquelas frias noites mexicanas e recordo que nossa primeira discussão versou sobre política internacional. Conversamos toda a noite e, ao amanhecer, já era o médico de sua futura expedição.”

Com Fidel

* * * *

5 POEMAS SOBRE CHE GUEVARA [EXCERTOS]

“Matar crianças, assassinar mineiros,
Caçar índios, disparar os fuzis
contra aqueles que levantam vozes
e braços
em protesto
talvez fosse fácil, e também semear a morte
a torto e a direito de aviões
como a fome a semeia lá embaixo.

Mas não é fácil atirar no coração
do Guerrilheiro ferido
que se agiganta.
É difícil atirar assim,
no largo peito estremecido
como que por marés de multidões clamorosas…

As vozes
que ordenaram o crime
já sabem que emudecerão
em lenta podridão.
E não mata o disparo
O coração.
O Guerrilheiro morto vive.

Dos Andes desce seu sangue em labaredas,
vulcânica lava redentora
que acende os territórios da fome da injustiça
e corre pelas veias de novos guerrilheiros
com seu ardente apelo que não cessa.

Che vive.

Em vão os carrascos
seqüestram assustados o corpo morto
do Guerrilheiro vivo,
e o sepultam em matagais ignorados;
suas barbas florescem incansáveis
em muitos rostos jovens.
A pele brota em muitos corpos generosos
que desafiam o sol, o vento,
as montanhas, as balas.

E não haverá rocha que consiga deter
esses ossos, inquietos,
enquanto houver uma única injustiça
a combater na terra.”

Angel Augier

* * * *

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* * * * *

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CONSTERNADOS, FURIOSOS
de Mário Benedetti

Assim estamos
consternados
furiosos
embora esta morte seja
mais um desses absurdos previsíveis.

Envergonha olhar
os quadros
as poltronas
os tapetes
tirar uma garrafa da geladeira
batucar as três letras mundiais de teu nome
nesta rígida máquina
que nunca
nunca esteve
com a fita tão pálida…
envergonha sentir frio
e chegar-se à lareira como sempre
sentir fome e comer
essa coisa tão simples
ou ligar a vitrola e escutar em silêncio
especialmente se for um quarteto de Mozart
envergonha o conforto
até a asma envergonha
quando você comandante está caindo
metralhado
fabuloso
nítido
você é a nossa consciência arrebentada.

Dizem que incineraram
toda a tua vocação
menos um dedo.

Basta para apontar-nos o caminho,
para acusar o monstro e suas brasas,
basta para apertar novamente os gatilhos…

Você está morto
vivo
está caindo
está nuvem
está chuva
está estrela
onde você estiver
e se você estiver quando você chegar
Aproveite afinal
e respire tranquilo
encha de céus os seus pulmões.

Onde você estiver
e se você estiver
quando você chegar
vai ser bem triste que não haja Deus
mas haverá outros
é claro que haverá outros
dignos de receber-te
comandante.

* * * * *

TRISTEZA NA MORTE DE UM HERÓI
De Pablo Neruda (Prêmio Nobel de Literatura)

Nós que vivemos esta história
esta morte e ressureição
de nossa esperança enlutada,
os que escolhemos o combate
e vimos crescer as bandeiras
soubemos que os mais calados
foram os nossos únicos heróis
e que depois das vitórias
chegaram vociferantes
a boca cheia de jactância
e de proezas salivares.

O povo moveu a cabeça;
e voltou o herói ao seu silêncio
Mas o silêncio se cobriu de luto
até afogar-nos nesse luto
quando morria nas montanhas
o fogo ilustre de Guevara.
O comandante terminou
assassinado num barranco.
Ninguém abriu a boca.
Ninguém chorou nos povoados índios.
Ninguém subiu às torres das igrejas.
Ninguém levantou fuzis,
e cobraram a recompensa
aqueles a quem veio salvar
o comandante assassinado.

O que houve, medita o pesaroso,
com estes acontecimentos?

E não se diz a verdade
Porém se cobre com papel
esta desgraça de metal.
Mal se abrira o roteiro
quando chegou a derrota
como um machado que caiu
na cisterna do silêncio.

Bolívia voltou ao seu rancor,
a seus enferrujados gorilas,
à sua miséria intransigente,
e como bruxos assustados
os sargentos da desonra,
os generaizinhos do crime
esconderam com eficiência
o cadáver do guerrilheiro.

Como se o morto os queimasse.

A selva amarga engoliu
os movimentos, os caminhos,
e onde passaram os pés
da milícia exterminada
hoje os cipós aconselharam
uma voz verde de raízes
e o veado selvagem voltou
à folhagem sem estampidos.

* * * * *

Alberto Korda

Fotografia de Alberto Korda.

CHE GUEVARA
por Dom Pedro Casaldáliga

Eu, Che, prossigo crendo
na violência do amor:
tu próprio dizias que
é preciso endurecer
sem perder nunca a ternura.”

(…)
Escuto, no transistor, como te canta
a juventude rebelde
enquanto o Araguaia pulsa a meus pés,
como uma artéria viva,
transito pela lua quase cheia.
Apaga-se toda luz. E é só noite.
Rodeiam-me os amigos distantes vindouros
(“Pelo menos tua ausência é bem real”,
geme outra canção…)

Descansa em paz. E aguarda, já seguro,
Com o peito curado
Da asma do cansaço;
Limpo de ódio o olhar agonizante;
Sem mais armas, amigo,
que a espada despida de tua morte.
(morrer sempre é vencer desde que um dia
Alguém morreu por todos, como todos,
Matado, como muitos…)

Nem os “bons”-de um lado-,
Nem os “maus”- do outro-,
Entenderão meu canto.
Dirão que sou apenas um poeta.
Pensarão que a moda me ganhou.
Recordarão que sou apenas um padre “novo”.
Nada disso me importa!
Somos amigos
E falo contigo agora
Através da morte que nos une;
Estendendo-te um ramo de esperança,
Todo um bosque florido
De ibero-americanos jacarandás perenes,
Querido CHE GUEVARA!!

* * * *

Che, un hombre nuevo (Ernesto Guevara con Aleida March y sus hijos)

O NASCEDOR
(Eduardo Galeano, Uruguai, 1940-2015)

Por que será que o Che
tem esse perigoso costume
de seguir sempre
nascendo?
Quanto mais o insultam,
o manipulam,
o traem, mais nasce.
Ele é o mais nascedor de todos!
Não será porque o Che
dizia o que pensava,
e fazia o que dizia?
Não será por isso que segue
sendo tão extraordinário,
num mundo em que
as palavras e os atos
raramente se encontram?
E, quando se encontram,
não se saúdam,
porque não se
reconhecem?

(trad. de Jeff Vasques | www.eupassarin.wordpress.com)

 * * * * *

CHE GUEVARA, POETA

VELHA MARIA, VAIS MORRER
(Che Guevara, 1928-1967)
Velha Maria, vais morrer:
Quero falar contigo seriamente.Tua vida foi um rosário completo de agonias,
não houve homem amado nem saúde nem dinheiro,
apenas a fome para ser compartilhada.
Mas quero faler-te da tua esperança,
das três diversas esperanças
que tua filha fabricou sem saber como.Toma esta mão de homem que parece de menino
nas tuas mãos, polidas pelo sabão amarelo.
Abriga teus calos duros e teus nós puros dos dedos
na suave vergonha de minhas mãos de médico.

Escuta, avó proletária:
crê no homem que chega,
crê no futuro que nunca verás.

Não rezes ao deus inclemente
que toda uma vida desmentiu tua esperança;
não peças clemência à morte
para ver crescer tuas pardas carícias;
os céus são surdos e o escuro manda em ti.
Mas terás uma vermelha vingança sobre tudo,
juro pela exata dimensão de meus ideais:
todos os teus netos viverão a aurora.
Morre em paz, velha lutadora.

Vais morrer, velha Maria:
trinta projetos de mortalha
dirão adeus com o olhar
num destes dias em que te vais.

Vais morrer, velha Maria:
ficarão mudas as paredes da sala
quando a morte conjugar-te com a asma
e copularem seu amor na tua garganta.

Essas três carícias construidas de bronze
(a única luz que alivia a tua noite),
esses três netos vestidos de fome
chorarão os nós destes dedos velhos
onde sempre encontravam um sorriso.
E isso será tudo, velha Maria.

Tua vida foi um rosário de magras agonias,
não houve homem amado, saúde, alegria
apenas a fome para ser compartilhada.
Tua vida foi triste, velha Maria.

Quando o anúncio do descanso eterno
suaviza a dor de tuas pupilas
e quando a tua mão de perpétua borralheira
absorve a última e ingênua carícia,
pensas neles… e choras,
pobre velha Maria!

Não, não o faças!
Não rezes ao deus indolente
que toda uma vida desmentiu a tua esperança,
nem peças clemência à morte,
que tua vida foi horrivelmednte vestida de fome
e acaba vestida de asma.

Mas quero anunciar-te,
na voz baixa e viril das esperanças,
a mais vermelha e viril das vinganças.
Quero jurá-lo pela exata
dimensão de meus ideais.

Toma esta mão de homem que parece de menino
nas tuas mãos, polidas pelo sabão amarelo.
Abriga teus calos duros e teus nós puros dos dedos
na suave vergonha de minhas mãos de médico.

Descansa em paz, velha Maria,
descansa em paz, velha lutadora:
todos os teus netos viverão a aurora.
EU JURO!

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JAMAIS PODERÃO APRISIONAR NOSSOS SONHOS – Sobre o imperativo da união em torno da bandeira #LulaLivre

EDITORIAL A CASA DE VIDRO – “Acho que a coisa mais gostosa da nossa passagem pela Terra é a convivência fraternal na diversidade”, diz Lula em seu livro “A Verdade Vencerá” (Boitempo, 2018, p. 105). O elogio da democracia, por parte de um dos estadistas mais populares da terra, é também a apologia da Política, antídoto contra a guerra, campo de diálogos e deliberações no espaço público, polvilhado de contradições:

“Em vez de ter um sem-terra e um ruralista se matando no campo de batalha, é muito mais bonito vê-los digladiando no Congresso Nacional, argumentando, provando tudo, votando… E vença aquele que tem melhor argumento. Eu acredito nisso. Acho que no Brasil, lamentavelmente, a democracia não é a regra, é exceção.

E isso é triste, porque eu jamais imaginei, depois de 1988, que a gente teria outro golpe. Eles civilizaram o golpe, agora não precisa ter guerra civil. Não precisa de golpe militar. Você faz dentro da lei: constrói a maioria, consegue ganhar a opinião pública, tem a imprensa para prestar o serviço. A imprensa presta o serviço, você então cria uma maioria da sociedade contra o governo, cria uma maioria dos parlamentares contra o governo e dá legalidade a tudo. E acontece o que estamos vendo no Brasil.”

O Golpe de Estado que se processa no Brasil desde 2016 teve no impeachment sem crime de responsabilidade, perpetrado contra Dilma Rousseff, apenas o seu primeiro episódio: naquela ocasião, os mais de 54 milhões de votos da presidenta re-eleita foram jogados no lixo, com o pretexto espúrio das “pedaladas fiscais” (que nunca foram nem nunca serão motivo para considerar um governante como criminosamente irresponsável).

A Aliança Golpista, sem precisar de tanques, pôde congregar ao seu redor uma maioria parlamentar (essencialmente ligada à Bancada BBB), um respaldo midiático fornecido pelo empresariado da comunicação de massas (com especial protagonismo daquele ovo da serpente que a Ditadura chochou e protegeu em seu ninho, a Rede Globo), além do apoio de setores da sociedade civil que foram cooptados por movimentos como MBL e Vem Pra Rua, servindo de úteis manifestoches da intentona putschista.

Mas ninguém dá um Golpe de Estado para simplesmente realizar novas eleições democráticas e justas, com o risco explícito da 5ª vitória consecutiva do PT – Partido dos Trabalhadores para a presidência da República – donde a necessidade do aprisionamento de Lula, nova fase do velho golpe que pôs Michel Temer no comando de um país que, ao invés de construir uma Ponte Para o Futuro, só está despencando no abismo.

“O mais grave, diz Lula, é a falta de capacidade de indignação da sociedade. Mas não é só com a democracia. É a falta de indignação com gente que está dormindo na rua. É a falta de indignação da sociedade quando eles acabam com investimento em ciência e tecnologia, quando querem acabar com o Fies, quando querem acabar com o Prouni, quando acham que fazer doutorado no estrangeiro é gasto desnecessário. E não é gente pobre, ão. Cadê a academia se manifestando contra a retirada de dinheiro de ciência e tecnologia?” (p. 105)

Este sentimento de indignação que inflama Lula e que o motiva à ação hoje se soma à revolta sentida pelo ex-presidente pela enxurrada de calúnias e pela perversa perseguição de que ele é alvo. O sentimento de um cara injustiçado está impregnado em todas as páginas do livro: “o sentimento de injustiça, de canalhice, da mentira mais escabrosa que se inventou neste país”, queima no peito de Lula contra esta “Elite do Atraso” de que nos fala Jessé Souza. “Eles não aceitaram a ascensão social dos oprimidos neste país.” (p. 79)

O cárcere que fez de Lula um preso político do regime nascido do golpeachment não diz respeito a um triplex no Guarujá, tem a ver com o futuro político de Lula, que trata-se de aniquilar, até mesmo porque a candidatura lulista para as Eleições de Outubro de 2018 provavelmente incluirá a proposta de uma nova Assembléia Constituinte, além de um referendo revogatório que cancele todos os atos do governo ilegítimo nascido do golpe, a começar pela Reforma Trabalhista e pela Emenda Constitucional do Congelamento de Investimentos Públicos em Saúde e Educação por 20 anos. Lula diz:

“Eu sempre tento me colocar do lado dos adversários. Eles devem ficar pensando assim: ‘A gente inventou uma fraude para dar o golpe e a gente conseguiu dar o golpe, tiramos a Dilma. E dizemos tudo isso pro Lula voltar? Correndo o risco de ele levar a Dilma de volta pro governo?’ Porque eu de fato levaria, para ela fazer coisas que sabe fazer como ninguém. Eles correriam o risco de eu montar um ministério ainda mais forte que o da primeira vez? Porra [bate na mesa], se tem uma coisa que o povo gosta é de viver bem. Ninguém se conforma de ganhar pouco, ninguém se conforma de comer mal. As pessoas gostam tanto de viver bem que o Sérgio Moro, quando acha que não ganha o que precisa, pede auxílio-moradia [risos].” (p. 69)

A crítica que se faz às práticas lulistas, ao PT no poder, de ter propiciado a inclusão de mais de 50 milhões de pessoas na economia, através de seus programas sociais, mas que o fez através de uma perspectiva que pensa o ser humano mais como consumidor do que como cidadão, Lula responde: “Eu pensei no cidadão. Porque o cidadão que não pode consumir não é porra nenhuma. O cidadão que não pode comer, não pode vestir e não pode beber é pária, não é cidadão.”

Bertolt Brecht aplaudiria.

Nos dias lendários que precederam sua prisão, Lula tornou-se um ícone histórico de estatura e magnitude similar à de um Martin Luther King, Jr. – cujo discurso “I Have a Dream” inspirou o seu próprio discurso emocionado com várias frases começando com “Eu Sonhei…”. Lula também recuperou o espírito de Che Guevara, citou Pablo Neruda, disse que “podem cortar todas as flores e não vão parar a primavera”. Lula quis nos dar um alento de esperança nestes tempos distópicos e desesperadores onde nossos direitos mais básicos estão sendo lançados no lixo da história pelo elitismo plutocrático que assaltou o poder. Lula nos disse que o problema do poder não é ele, um homem de carne-e-osso, mas o ideal que ele representa e que defendeu com sua vida. O ideal que sua morte não irá matar.

O problema do golpe não é Lula, o problema do golpe somos nós. Pois somos milhões de Lulas e não se pode encarcerar sonhos. Somos milhões de Lulas e não se pode deixar as idéias presas detrás de grades. Ainda que as forças golpistas o mantenham numa cela, incomunicável, torturado pela solidão, impedido de participar da eleição, nós aqui fora seremos Lula Livre. Ele respirará por nossos pulmões, andará por nossas pernas, gritará por nossas bocas, chorará por nossos olhos, lutará com nossos punhos. Pode ser que a gente vá perder, mas Darcy Ribeiro já disse tudo: há muitas lutas em que nós odiaríamos estar do lado dos vencedores, em especial quando eles são uma gangue perversa como esta que tem nos golpeado dia a dia.

É um tempo histórico que não nos permite o luxo da isenção. Há 3 lições de 3 grandes mestres que falam sobre isso com clareza. Desmond Tutu diz que “se você é neutro em situações de opressão, você escolheu o lado do opressor.” Florestan Fernamdes diz que “não existe neutralidade possível e o intelectual deve optar entre o compromisso com os exploradores ou com os explorados.” Paulo Freire diz que não existe neutralidade ideológica e que todos tem ideologia, resta saber: “a sua base ideológica é inclusiva ou excludente?” Por isto, diante das injustiças históricas, não vejo possibilidade de estar ao lado dos “isentões”, já que a justiça é construção coletiva que demanda nosso engajamento.

“Querem me prender? Eu falarei pela voz de vocês. Eu andarei pela perna de vocês. Eu pensarei pela cabeça de vocês.”

Agora o problema deles não é Lula, o problema deles somos nós.

#LulaLivre!

* * * * *

Eduardo Carli de Moraes para A Casa de Vidro
www.acasadevidro.com || 11 de Abril de 2018

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LULA VALE A LUTA – Editorial A Casa de Vidro

Editorial A Casa de Vidro 

Compreender o ódio que Lula desperta só é possível compreendendo o Amor que ele suscita

Aqueles que o odeiam talvez sintam uma inveja, que não confessam, que recalcam, diante do grau de veneração de que Lula é alvo.

Raros são os seres humanos que um dia chegam, nesta existência finita em que somos todos tão breves mortais, do grau de amor de que Lula tem sido receptáculo e objeto. E ele expressa nestas relações amorosas com os outros uma capacidade de empatia extraordinária, que nos levam a crer num mestre griô que detêm a maestria do Ubuntu. Lula lembra aquele iluminado que entendeu com perfeição e pratica, junto a seus apoiadores, o “Namastê”. Vi fotos recentes de muitos amigos e parentes meus com Lula, e nelas se expressa, na atitude do ex-presidente, todo o esplendor da gratidão, da generosidade de Luiz Inácio. Florescem, em meio à crise, suas amplas virtudes não só como líder político, mas como ser humano.

Tal como Pepe Mujica e Nelson Mandela, Lula é um Chefe de Estado raro: pois é sábio. Sua práxis revela a ética-em-ação de um sábio, de um portador da sophia, mas sobretudo de um ser humano de magnitude histórica.

A evidência de que Lula é de estatura histórica também suscita o ódio dos ignorantes, a fúria irracional de seus detratores: notem que quase todo mundo que taca pedras em Lula são pessoas que estão esmagadas pela sensação de anomia, de desvalor, conexa à percepção (muitas vezes recalcada) de sua própria nulidade social. Os que nada fazem em prol de uma sociedade melhor, mais justa, mais amorável, são os que mais rangem os dentes e tacam as flechas de ira contra o ex-presidente, injustiçado por uma fraude jurídica.

Penso nos ensinamentos de Zygmunt Bauman, no raio-X que este faz dos males da sociedade contemporânea, e creio que a perseguição, a condenação, a difamação, os discursos e as práticas de ódio contra o Lula provêm daqueles que são líquidos, ou sejam, efêmeros, em contraste com Lula, que apesar da sua presença em carne-e-osso ser limitada e seu prazo entre os vivos está se esgotando, já pôs um pé não só na cova, mas na História, na lembrança dos que virão…

Suspeito que muitos dos que mais odeiam Lula são aqueles que não entrarão para nenhuma História com H maiúsculo, isto é, são aqueles que, como a maioria de nós, morrendo, serão esquecidos. Pois a maneira mais fácil de morrer e ser esquecido é nada fazer pelo bem do espaço público – Arendt ensina.

Morrer e ser esquecido é destino possível para qualquer um de nós, mas o privilégio de permanecer como imorredouro na memória das gerações seguintes é para poucos, para raros. Lula é um desses raros, um ser humano que sai da vida para entrar na História, permanecendo vivo e ativo nos corações e mentes daqueles que o amam e que vão sobreviver a ele. Somos os que levam adiante a primavera após a poda de milhares de flores na Árvore dos Direitos Sociais. E Lula será semente. Assim como Marielle. São mortes que frutificarão pois foram vidas que trabalharam em prol de todos nós.

O ódio contra Lula também é porque Lula, morrendo, jamais será esquecido. Ele não estará apenas como um nome em livros de História que pegam poeira, ele estará entre nós de modo similar à presença de Martí, Fidel e Che na memória coletiva dos cubanos, ou de Salvador Allende na memória coletiva dos chilenos.

Acredito que a epidemia de ódio contra Lula é diretamente proporcionalmente à onda de amor que lhe é concomitante. Qual das duas marés vencerá? É uma pergunta que deixaria o filósofo pré-socrático Empédocles bastante perplexo. Pois ele achava que o Cosmos por inteiro era uma entidade tão dinâmica, tão fluida, tão metamorfoseante, justamente devido à dança infinda do Amor e do Ódio. O Teatro do Mundo é o mega-palco onde interagem sem fim o ímpeto de reunião e de amorosidade, em conflito com o ímpeto de Ruptura e de odiosidade.

A ascensão do ódio, este afeto fascista, só poderia ser vencida por uma maré de amor que fosse mais forte e poderosa? Talvez: mas o amor não se comanda de palácios, nem o ódio é capaz de ser controlado deles. Os amores e os ódios das massas não se controlam de cúpulas, ainda que tentem determiná-los de cima de púlpitos e de meios de comunicação em massa…

Por isso, o momento histórico é de apreensão: rondam os fantasmas assustadores da guerra civil, da intervenção militar, da repressão policial violenta, de outros horrores que se acercam, como a prisão em massa de militantes petistas (uma probabilidade já palpável…).

O que tentei expressar, nestas mal traçadas linhas, talvez inúteis mas que tive que arrancar do peito, é que o ódio anti-lulista é um inimigo complexo e duradouro. O ódio fascista expressa ressentimentos diante de Lula porque ele é um ser humano que experimenta um grau de “adoração”, por parte das massas, que a maioria dos vociferantes anti-lulistas nunca vão vivenciar.

Lula transformou São Bernardo do Campo numa espécie de epicentro da crise política brasileira em 06 e 07 de Abril de 2018, dias lendários onde congregou-se a Resistência Democrática. O “cordão humano” a proteger Lula se fez justamente no cenário de sua ascensão como líder sindicalista no fim dos anos 1970 e começo dos anos 1980, nas históricas jornadas grevistas tão bem documentadas pelos geniais cineastas Leon Hirszman (ABC da Greve, Eles Não Usam Black-Tie) e Renato Tapajós (Linha de Montagem). Foi a épica batalha do bunker do ABC contra a Ditadura Togada de Curitiba!

O momento histórico chama o MST, o MTST, a UNE, a UBES, a CUT, o Levante, o PSOL, o PC do B, uma miríade de outros movimentos e frentes (como Povo sem Medo e Frente Brasil Popular), a se alçarem à altura da tarefa histórica que lhes compete na defesa de Lula. E ele, por sua vez, vai ter que surfar com as massas que lhe apoiarão, coligado com as forças de resistência, improvisando as ações de sua Desobediência Civil ao regime ilegal e ilegítimo que hoje nos desgoverna.

Pois eu duvido muito que Lula simplesmente vá caminhar com resignação de ovelha para o matadouro dos golpistas.

Martin Luther King, assassinado há 50 anos atrás, ensinou – assim como Gandhi, Mandela, Thoreau, Sophie Scholl, e tantos outros – que às vezes estar do lado da Justiça exige que a gente pratique a Desobediência Civil. Lula deve saber com total lucidez que às vezes é justo a prática da desobediência a um Poder Judiciário corrompido, fascistóide, que pratica uma Justiça caolha e de facção. Lula não é besta de acatar em silêncio a jaula urdida pelo lawfare fascista de nossa Elite do Atraso. Por isso acho plausível vem aí uma maré alta de Desobediência Civil no campo do lulismo. Um fenômeno cuja feição histórica poderá depois ser comparada àquelas famosas aventuras desobedientes e subversivas de Gandhi ou Thoreau – resta saber quão bem Lula saberá “governar”, ainda que gradeado, as massas mobilizadas nas ruas e nas redes.

O cenário é explosivo e violento… Não sabemos se o organismo físico que sustenta Lula terá condições de sobreviver a este processo, estressante ao extremo. Parece que o fascismo entre nós está tão assanhado, a crueldade de alguns se manifesta de maneira tão despudorada, que se Lula morresse, haveriam hordas que sairiam às ruas para comemorar.

O que estão fazendo com Lula as forças golpistas, instauradoras do atual Estado de Exceção, é uma espécie de tentativa de homicídio a contagotas. Lula está ainda no luto de sua esposa Marisa, ainda impactado pelos tiros que atentaram contra sua caravana no Paraná, ainda sob as fortes impressões da perseguição jurídica e policial que culminou em sua condenação e prisão (sem provas, mas com muitas convicções). Lula, sobrevivente do câncer e da ditadura, deve estar sofrendo com um grau de pressão que poderia fazer explodir os nervos de um ser humano mais fraco. Mas este, desde suas origens pernambucanas até chegar ao status de Estadista conhecido em todo a face da Terra, sempre viveu como um guerreiro.

Nasceu, viveu e vai morrer como guerreiro.

Nestes dias, como se tivesse sido capturado pela teia de aranha de um romance de Franz Kafka, o ex-presidente sente na pele o que é ser um dos milhões de Josefs K de que nossa história e nosso presente estão repletos. Mais sábio que outrora, o Lula de 2018 deve estar voltando a sentir na pele a situação explicitada naquela fotografia antológica dele sendo fichado pelo DOPS na Ditadura em 1968. No xadrez do mundo, em cheque, o maior líder de massas do Brasil no século 21 pode até parecer acuado, mas creio que ele vive dias de uma intensidade que só vivenciaram figuras como Lênin, Che, Fidel, Chavez, no auge de crises políticas extremadas… Lula, como eles, sabe que às vezes desobedecer não só é justo: é necessário para a transformação radical de um mundo de injustiças instituídas.

O ódio nasce nos corações que sofrem de inanição e desamor, elementos que ficam cozinhado na lenha da ignorância, da alienação, do preconceito, e são engatilhadas pela mídia de massas, que adora ter os odientos, os odiadores, como seus Manifestoches (como nos iluminou a Tuiuti!).

Decerto que o amor também pode ser cego, mas o amor é capaz de ser também vidente, e altamente terapêutico, e curador das fraturas; já o ódio é sempre cego, e encegante.

Nesta encruzilhada histórica, prefiro enormemente estar entre os que amam Lula, e não entre esta gentinha medíocre, ressentida, fracassada, que o ofende, que o xinga, que o trata com aquela fúria fascista do “Homem De Bem” que está fustigando o “Homem de Mal”. Cabe lembrar: a Ku Klux Klan, entidade racista do supremacismo Yankee, publicava o jornal “The Good Citizen”, o Cidadão de Bem…

O destino de Lula explicita o quanto o Brasil está fraturado por conflitos irreconciliáveis. Situação que o termo “polarização” não transmite a contento, pois os pólos de um termômetro coexistem e colaboram, enquanto os nossos pólos estão prestes a entrar na guerra civil, ou seja, naquilo que explode o termômetro.

O que torna algumas destas cenas de Abril de 2018 exemplares de uma espécie de Messianismo Político, algum fenômeno teológico-político de tal complexidade que exigiria as capacidades reflexivas de um Spinoza, de um Freud, de um Canetti… Para muita gente, Lula é quase um Messias. Uma figura meio Antonio Conselheiro… Alguém com um halo semelhante ao do Papa Francisco… Reacende um fogo primordial que estava no PT original, a Teologia da Libertação, as comunas eclesiais de base… A missa ecumênica em memória de Marisa apontou nesta direção, como se as forças sociais tivessem investindo o episódio de um certo halo de simbolismo inclusive religioso…

Já circulam boatos de que os atos que estão ocorrendo parecem “cultos” – e são. Lula tende agora a tornar-se mártir desse culto, e a morte de Lula selará uma etapa de um processo que não acabará nem em décadas, nem em séculos. Ninguém é capaz de parar o Lula morto. Ninguém é capaz de parar o Lula preso. Ninguém é capaz de parar o Lula, nem a morte. Ela vencerá, mas ele dará o troco. Em nós viverá, suas pernas andarão por nossas pernas, suas narinas respirarão por nossos pulmões, seu cérebro pensará por nossas cabeças, seus sonhos de justiça e fraternidade queimarão em nossos corações, e os poderes instituídos hão de tremer diante da primavera no deserto.

A grande incógnita, ainda, é: que morte será esta? A morte de Lula será a morte de qual semente? O que dela nascerá? Quer esta morte seja iminente, quer ela demore ainda anos e anos para vir, ela não apagará jamais este destino. Esta existência singular estará nas memórias até mesmo daqueles que ainda não nasceram.

Os odientos, os furiosos, os que tacam pedras, os que xingam o condenado, os que desejam que Lula sofra horrores e seja torturado, estes replicadores dos ódios do Gólgota e das torturas da paixão de Jesus, vão seguir ladrando como lobos irracionais, sim, é algo esperável e preocupante: o fascismo brasileiro, de tão disseminado que está no atual cenário pós-democrático, não vai se calar tão cedo.

E só os cegos voluntários não enxergam que o alvo principal do fascismo made in Brazil é atualmente o campo do petismo. Isso se explicitou. E gerou uma situação onde será difícil, quase impossível, escaparmos de uma exacerbação dos conflitos e dos enfrentamentos. Cenário, infelizmente, mais propício para um novo Golpe de Estado do que da deflagração de um processo autenticamente revolucionário.

Tenhamos cuidado, mas sejamos resolutos em estarmos do lado da sabedoria, do amor e da justiça enquanto acompanhamos o desenrolar da prisão histórica de Lula, esta lenda viva, um dia destinada à História, mas hoje em pleno esplendor furioso de decisões e eventos que vão dar forma não só a seu destino singular, mas a de todo nosso país.

Por fim, sugiro um play no vídeo a seguir, da Mídia Ninja, e uma resposta à uma simplória enquete proposta, lá do fundo do túmulo, por Empédocles e Spinoza:

LULA: Você prefere
(1) amá-lo
ou
(2) odiá-lo?

Se preferes amá-lo, estamos juntos.

* * * * *

Eduardo Carli de Moraes
www.acasadevidro.com