[Encontro de Culturas Txt 16] Sabenças da Infância: as ensinanças lúdicas da oficina de Thâmile Vidiz no XVI ECTCV

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A X Aldeia Multiétnica e o XVI Encontro de Culturas também são espaço de congregação lúdica e união cirandeira no entrelaçamento das culturas. Foto: Santiago Asef.

INFÂNCIA QUE REVIVE

Como parte integrante do XVI ECTCV, a oficina “Sabenças da Infância” de Thâmile Vidiz explorou o universo do lúdico, suas práticas e saberes, suas graças e charmes, numa jornada de reconexão com as raízes

por Eduardo Carli de Moraes para o XVI Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros

A oficina “Sabenças da Infância”, com Thâmile Vidiz, animou o Espaço Petrobrás na quarta-feira, 27 de julho, como parte da programação do XVI Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros. O projeto tem como um de seus objetivos possibilitar que a diversidade das tradições e culturas de infância se revelem na criação e recriação de brincadeiras, num espaço lúdico onde os jeitos-de-jogar se entremesclam. Por que não misturar os modos de brincar tão conhecidos dos brasileiros (como as cobras-cegas ou os jogos de “o que é, o que é?”) com jogos vindos de outras civilizações (como a confecção artesanal das bonequinhas quitapenas da Guatemala)?

Brincadeiras, mímicas, canções, narrativas, trava-línguas, cabras-cegas, unidunitês, jogos de adivinhar, dentre outros elementos, deram o tom desta vivência que foi destinada a todas as idades, inclusive as que desejam uma reconexão com o frescor perdido da infância. Durante a oficina, uma maioria de adultos e adolescentes, acompanhados por três crianças, buscaram reencontrar-se com uma espontaneidade e uma graça que o correr dos anos às vezes trata de aniquilar. Como disse Carl Gustav Jung, infelizmente temos a tendência a “nascer como originais e morrer como cópias”.

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Apesar do clima de leveza e descontração, de jovialidade e muitos risos, a oficina de Thâmile Vidiz deu muito o que pensar sobre o valor do lúdico no processo de aprendizado: um trava-língua é excelente instrumento para desenvolver habilidades linguísticas, virtuosismo no trato com o verbo falado, podendo servir como primeiros passos no processo de desenvolvimento de futuros rappers, repentistas, radialistas, rapsodos.

Os jogos-de-adivinhar também tem a serventia de aguçar a curiosidade e botar os miolos para funcionar. Diante de um “o que é, o que é”, a mente sai em busca da resposta para o mistério de decifrar e nisto se exercita alegremente, desenvolvendo aptidões novas e colocando em movimento uma espécie de divertida vasculhação do mundo e seus mistérios: “Quem é que vive com os pés na cabeça? É o piolho! Quem é que dá muitas voltas e não sai do lugar? É o relógio! Quem é que cai de pé e corre deitado? É a chuva! Quem é que tem mais de 10 cabeças e não sabe pensar? A caixa de fósforos! Quem é que corre a casa e vai dormir no canto? A vassoura!”.

Quitapenas pelos pequenos e crescidos no Vilarejo de São Jorge, Chapada dos Veadeiros, em um encontro do Sabenças da Infância... Bonequinhas que surgiram na Guatemala, por mães indígenas para acalentar coração de crianças com medo...  SAIBA MAIS

Quitapenas criadas pelos pequenos e crescidos no Vilarejo de São Jorge, Chapada dos Veadeiros, em um encontro do Sabenças da Infância. Bonequinhas que surgiram na Guatemala, por mães indígenas para acalentar coração de crianças com medo… SAIBA MAIS!

Um dos auges da oficina de Thâmile Vidiz foi a confecção das quitapenas, pequeninas bonecas de origem nos povos indígenas da Guatemala. De fácil fabricação artesanal – você não precisa de muito mais do que palitos de fósforo, linhas para costura e muita criatividade para enfeites –, as pequenuchas quitapenas são brinquedos que cabem na palma da mão.

Como explicou Thâmile, o folclore conta que quando você não consegue pegar no sono, pois está aflito com preocupações, pode contar os teus problemas para a quitapena, depois guardá-la debaixo do travesseiro, e pronto: a pena se mandou. Segundo as lendas muito populares na cultura guatemalteca, a insônia será enxotada e as angústias serão aliviadas pelo simples fato de narrarmos nossos males para a microboneca. Eis um ótimo substituto – e muito econômico! – para o divã do psicanalista e os dispendiosos ouvidos de aluguel que são os praticantes do ofício psicanalítico.

Vivenciar a oficina “Sabenças da Infância” leva a pensar que, apesar da leveza e da graça com que faz e acontece, o lúdico é coisa séria na história. Em um estudo muito interessante, publicado em 1938, Johan Huizinga propôs que seria mais adequado que mudássemos o nome da espécie de homo sapiens para homo ludens. Afinal de contas, nada no percurso pregresso da humanidade, nem nada no nosso presente, referenda a avaliação de que sejamos sábios (sapiens). E tudo no nosso passado e no nosso presente indica que em toda parte, em qualquer latitude onde haja gente, culturas jogam, brincam, cantam, dançam. Em suma, congregam as pessoas com os cimentos invisíveis do lúdico.

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Em seu livro (acesse o ebook em PDF), Huizinga argumenta, de modo bem convincente, que o jogo é algo comum a todas as culturas, o traço de união que as congrega, uma espécie de universal concreto. Há quem jogue capoeira, há quem prefira o futebol; há quem toque violão, há quem prefira ficar no faz-de-conta ou no air guitar; tem quem prefira correrias e atletismos, e há os que são mais de um xadrez cerebral. De todo modo, não existe povo sem jogo, todo tipo de gente inventa sua ludicidade. E as artes, em sua raiz, também estão conectadas ao jogar, a ponto de Huizinga diagnosticar que a cultura, num sentido amplo, tem no lúdico, no “jogo”, um de seus nascedouros e uma de suas fontes mais importantes.

“O jogo é uma atividade ou ocupação voluntária exercida dentro de certos e determinados limites de tempo e de espaço, segundo regras livremente consentidas, mas absolutamente obrigatórias, dotado de um fim em si mesmo, acompanhado de um sentimento de tensão e de alegria e de uma consciência de ser diferente da ‘vida cotidiana'” (Huizinga, “Homo Ludens”, 1980, p.33).

Vale notar que seria difícil quantificar a magnitude da riqueza cultural brasileira que emerge do âmbito do lúdico: não faltam artistas brincalhões e geniais por meio da história de nossas artes: lembremos somente, de modo sumário, d’Os Mutantes, de Tom Zé, do Patu Fu, de Oswald de Andrade, Manoel de Barros, Stanislaw Ponte Preta, de Henfil, Millôr Fernandes, Laerte, Angeli etc.

Quem acha que sabedoria é coisa de velhos e só existe em gente de cabelos brancos, pôde repensar este dogma a partir da oficina de Thâmile Vidiz. Ela nos revelou a amplidão das “sabenças da infância”, práticas e jogos que servem para congregar, transpondo os abismos da alteridade numa ciranda onde o eu transcende seu isolamento rumo a ser parte-de-nós. E o melhor: através do lúdico, empreendemos este processo de construção de pontes na companhia de risos e sorrisos. É também a sabença de Cartola: “A sorrir eu pretendo levar a vida / Pois chorando eu vi a mocidade… perdida.”

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Fotos: Pedro Henriques no XVI ECTCV

PAULINHO DA VIOLA: Ouça 8 discos completos do sambista e assista ao documentário “Meu Mundo É Hoje”

 

Foi um rio que passou em minha vida [1970]

Paulinho da Viola [1971]

Paulinho da Viola [1971]

A Dança da Solidão [1972]

PAULINHO-DA-VIOLA-E-CARTOLA

Nervos de Aço [1973]

Paulinho da Viola [1978]

Prisma Luminoso [1983]

Eu Canto Samba [1988]

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VÍDEOS SELECIONADOS:

DOCUMENTÁRIO: “MEU MUNDO É HOJE”

RODA VIVA – 1989 (TV CULTURA)

VEJA TAMBÉM: DOCUMENTÁRIO SOBRE A PORTELA

AS MÚSICAS PREDILETAS DE PAULINHO DA VIOLA

MAKING OFF DO ACÚSTICO MTV


EM EXCELENTE COMPANHIA: PAULINHO E CLARA NUNES


(“Sinal Fechado” começa aos 16 min)


(“Coração Leviano” – ao vivo)

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Leia: Tárik de Souza.

200 CLÁSSICOS DA MÚSICA POPULAR BRASILEIRA NAS DÉCADAS DE 1960, 1970 E 1980 (EM ORDEM CRONOLÓGICA) [PARTE I]

MPB

200 CLÁSSICOS DA MÚSICA BRASILEIRA
NAS DÉCADAS DE 1960, 1970 E 1980
(EM ORDEM CRONOLÓGICA)

Link para esta página: https://acasadevidro.com/?p=5593

Uma das maravilhas que a Internet nos proporciona é o acesso a uma imensa biblioteca musical. Este baú de tesouros – não somente guardados mas compartilhados – está acessível a qualquer um que se conecte à grande rede, mas as pepitas estão dispersas por toda parte e a compilação da fina flor deste gigante acervo exige todo um trampo de garimpagem e coleta. Na intenção de organizar um pouco todo este vasto material musical, A Casa de Vidro apresenta aqui uma seleção com 200 álbuns da MPB nas décadas de 60, 70 e 80, todos eles disponíveis para audição na íntegra no YouTube. Obras cruciais na história cultural brasileira estão aí reunidas para degustação livre. A lista vai ser expandida constantemente e as sugestões de vocês são muito bem-vindas. Subam o volume e boa viagem!

Tem João Gilberto, Jorge Ben, Nara Leão, Sambalanço Trio, Chico Buarque, Vinicius de Moraes e Baden Powell, Tom Jobim, Caetano Veloso, Gal Costa, Os Mutantes, Paulinho da Viola, Tom Zé, Ronnie Von, Egberto Gismonti, Erasmo Carlos, Som Imaginário, Rita Lee, Dom Salvador e a Abolição, Clube da Esquina, Tim Maia, Eumir Deodato, Novos Baianos, Jards Macalé, Clube da Esquina, Secos e Molhados, Gilberto Gil, Luiz Melodia, Walter Franco, Luiz Bonfá, Marcos Valle, Rogério Duprat, Arnaldo Baptista, Hermeto Pascoal, Lula Côrtez e Zé Ramalho, Adoniran Barbosa, Cartola, Clara Nunes, Belchior, Raul Seixas, Elis Regina, Sergio Sampaio, Taiguara, Odair José, Banda Black Rio, Itamar Assumpção, Arrigo Barnabé, Paulo Vanzolini, Titãs, Paralamas do Sucesso, Ultraje a Rigor, Legião Urbana… e muito mais!

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Acesse o post 2 com outros 100 álbuns!

  1. JOÃO GILBERTO
    O Amor, o Sorriso e a Flor (1960)
  2. BOSSA NOVA AT CARNEGIE HALL (1962)
  3. TAMBA TRIO (1962)
  4. JORGE BEN
    Samba Esquema Novo (1963)
  5. STAN GETZ E JOÃO GILBERTO (1963)
  6. SAMBALANÇO TRIO (1964)
  7. FLORA PURIM
    Flora é M.P.M. (1964)
  8. LENNIE DALE E SAMBALANÇO TRIO (1965)
  9. BADEN POWELL,
    AfroSambas (1966)
  10. BADEN POWELL, VINICIUS DE MORAES, QUARTETO EM CY
    Afrosambas (1966)
  11. CHICO BUARQUE (1966)
  12. CHICO BUARQUE
    Vol. 2 (1967)
  13. TOM JOBIM
    Wave (1967)
  14. CAETANO VELOSO E GAL COSTA
    Domingou (1967)
  15. QUARTETO NOVO (1967)
  16. OS MUTANTES (1968)
  17. GIL, CAÊ, DUPRAT, OS MUTANTES & CIA
    Tropicalia ou Panis et Circencis (1968)
  18. CHICO BUARQUE
    Vol. 3 (1968)
  19. TOM ZÉ
    Grande Liquidação (1968)
  20. PEDRO SANTOS KRISHNANDA (1968)
  21. RONNIE VON (1968)
  22. RONNIE VON
    A Misteriosa Luta Do Reino De Parassempre Contra O Império Nuncamais (1969)
  23. JORGE BEN (1969)
  24. GAL COSTA
    Gal (1969)
  25. EGBERTO GISMONTI (1969)
  26. OS MUTANTES
    II (1969)
  27. OS MUTANTES
    A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado (1970)
  28. TOM JOBIM
    Tide (1970)
  29. ERASMO CARLOS
    E Os Tremendões (1970)
  30. SOM IMAGINÁRIO (1970)
  31. CHICO BUARQUE,
    Construção (1971)
  32. DOM SALVADOR E A ABOLIÇÃO,
    Som, Sangue E Raça (1971)
  33. AIRTO MOREIRA
    Seeds on the Ground (1971)
  34. RAUL SEIXAS, SERGIO SAMPAIO, EDY STAR E MIRIAM BATUCADA
    Sociedade da Grã Ordem Kavernista (1971)
  35. CAETANO VELOSO,
    Transa (1972)
  36. EUMIR DEODATO
    Also Sprach Zarathustra (1972)
  37. TIM MAIA (1972)
  38. JORGE MAUTNER,
    Para Iluminar a Cidade (1972)
  39. NOVOS BAIANOS
    Acabou Chorare (1972)
  40. ALCEU VALENÇA E GERALDO AZEVEDO
    Quadrafônico (1972)
  41. QUINTETO VIOLADO (1972)
  42. JARDS MACALÉ (1972)
  43. LÔ BORGES (1972)
  44. RAUL SEIXAS
    Krig Ha, Bandolo! (1973)
  45. SECOS E MOLHADOS (1973)
  46. GILBERTO GIL
    Ao Vivo na Poli USP (1973)
  47. NOVOS BAIANOS F.C. (1973)
  48. SOM IMAGINÁRIO
    Matança do Porco (1973)
  49. TOM ZÉ
    Todos os Olhos (1973)
  50. LUIZ MELODIA
    Pérola Negra (1973)
  51. GUILHERME LAMOUNIER (1973)
  52. WALTER FRANCO
    Ou Não (1973)
  53.  SERGIO SAMPAIO
    Eu Quero É Botar Meu Bloco Na Rua (1973)
  54. RAUL SEIXAS
    Gita (1974)
  55. JOÃO DONATO E EUMIR DEODATO
    Donato / Deodato (1973)
  56. MARCOS VALLE E AZYMUTH
    Previsão do Tempo (1973)
  57. O PESO
    Em Busca do Tempo Perdido (1974)
  58. TIM MAIA,
    Racional (1974)
  59. WILSON SIMONAL
    Vinil Mexicano da Philips (1974)
  60. ARNALDO BAPTISTA
    Lóki? (1974)
  61. ROGÉRIO DUPRAT
    Brasil com S (1974)
  62. O BANQUETE DOS MENDIGOS (1974)
  63. RITA LEE & TUTTI FRUTTI
    Fruto Proibido (1975)
  64. EMÍLIO SANTIAGO (1975)
  65. LULA CÔRTES E ZÉ RAMALHO
    Paêbirú (1975)
  66. O TERÇO,
    Criaturas da Noite (1975)
  67. DI MELO (1975)
  68. ADONIRAN BARBOSA (1975)
  69. EDUARDO GUDIN, MÁRCIA E PAULO CÉSAR PINHEIRO
    O Importante é que Nossa Emoção Sobreviva (1975-1976)
  70. RAUL SEIXAS,
    Eu Nasci Há 10 Mil Anos Atrás (1976)
  71. BELCHIOR
    Alucinação (1976)
  72. TOM ZÉ
    Estudando o Samba (1976)
  73. CARTOLA (1976)
  74. DOCES BÁRBAROS (1976)
  75. ELIS REGINA
    Falso Brilhante (1976)
  76. CHICO BUARQUE
    Meu Caro Amigo (1976)
  77. SERGIO SAMPAIO
    Tem Que Acontecer (1976)
  78. CARTOLA (1976)
  79. TAIGUARA
    Imyra, Tayra, Ipy, Taiguara (1976)
  80. ALCEU VALENÇA,
    Espelho Cristalino (1977)
  81. HERMETO PASCOAL,
    Slaves Mass (1977)
  82. MILTON NASCIMENTO E CLUBE DA ESQUINA,
    II (1978)
  83. CLARA NUNES,
    Guerreira (1978)
  84. TOM ZÉ
    Correio da Estação do Brás (1978)
  85. BANDA BLACK RIO (1978)
  86. HERMETO PASCOAL,
    Zabumbê-bum-á (1979)
  87. CÁTIA DE FRANÇA,
    20 Palavras ao Redor do Sol
  88. MPB4
    Bons Tempos, Hein?!?
  89. ITAMAR ASSUMPÇÃO, 
    Beleléu, Leléu, Eu (1980)
  90. EGBERTO GISMONTI
    Circense (1980)
  91. ARRIGO BARNABÉ
    Clara Crocodilo (1980)
  92. PAULO VANZOLINI
    Por Ele Mesmo (1981)
  93. EDU LOBO E CHICO BUARQUE
    O Grande Circo Místico (1982)
  94. ARNALDO BAPTISTA
    Singin’ Alone (1982)
  95. PARALAMAS DO SUCESSO
    O Passo do Lui (1984)
  96. ULTRAGE A RIGOR
    Nós Vamos Invadir Sua Praia (1985)
  97. LEGIÃO URBANA
    Dois (1986)
  98. TITÃS
    Cabela Dinossauro (1986)
  99. PATIFE BAND
    Corredor Polonês (1987)
  100. LEGIÃO URBANA
    Quatro Estações (1989)

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Confira também:
Revista Rolling Stone Brasil elege 100 melhores álbuns da MPB

Flutuando no Rio Sucuri (MS) – Diário de Bordo



deixe-me ir, preciso andar
vou por aí a procurar
sorrir pra não chorar…

cartola
“preciso me encontrar

* * * * *

O Oráculo de Delfos ostentava dois estandartes, protótipos antiqüíssimos dos slogans de auto-ajuda e dos biscoitinhos-da-sorte: “nada em demasia!” e “conhece-te a ti mesmo!”  A civilização grega aí desenhava sua tábua de valores onde a prudência, a temperança e a introspecção auto-descobrinte eram vistas como alguns dos melhores ingredientes da sabedoria, especiarias no caldo deleitoso do savoir-vivre.

Já o sambista-oráculo dos morros cariocas, Cartola, canta num velho samba sobre sua vontade de “se encontrar”, mas não concebe este encontro consigo como o efeito de um olhar para dentro de si, apolíneo e socrático, mas muito mais como uma abertura ao mundo: “quero ver o Sol nascer, ver as águas dos rios correr, ouvir os pássaros cantar… eu quero nascer, quero viver!”

Privilégio de poetas e almas cantantes: procurar-se lá fora e encontrar-se ao se perder… Estranha vontade de criaturas devaneantes: nascer depois de já ter nascido (“nascer é muito comprido”, frisa Murilo Mendes…), encontrar-se indo lançar-se em riachos e sinfonias de pássaros… Que entendam aqueles que não tem medo de poetas e paradoxos!

“Quem anda no trilho é trem de ferro. Sou água que corre entre pedras.” (Manoel de Barros)

Flutuar no rio Sucuri é mais uma experiência heraclítica do que platônica: é uma lição concreta, ministrada silentemente pela natureza, sobre o velho dito de Heráclito – “tudo flui… não se entra duas vezes no mesmo rio.” Nós, humanos, costumeiramente tão arrogantes diante da natureza, podemos enfim abandonarmo-nos a ela como folhas ao vento, sentir sua potência imensamente maior que a nossa, conduzindo-nos rumo a sabe-se-lá-que-mar…

Pra que nadar, bater perna, gastar energia? Basta o abandono. As águas fazem todo o trabalho. A correnteza nos conduz como se fôssemos barquinhos de carne, boiantes em seu ventre líquido e móvel… Os peixes, que eu, em minha expectativa, imaginava mais abundantes, formando vastos cardumes de seres gregários em espantosas marchas subquáticas, escasseavam. O guia explicou que é época de reprodução e que muitos se escondem para a desova. Ainda assim, pude, peeping tom de um elemento alheio, espiar estas vidas tão lisas e fluidas em estado… VIVO! E não como um cadáver no prato, um defunto no açougue, um pedaço de carne imóvel no mercado. Como não ganhar ainda mais convicção no vegetarianismo depois de uma experiência dessas?

A horinha e pouco que passei arrastado pelo rio Sucuri, lutando pra me familiarizar com o snorkel e a máscara, pasmo com o ineditismo da experiência, valeram por algo semelhante a uma experiência mística atéia.
Registrei alguns tecos da realidade fluvial que deslizava por baixo de minha carcaça flutuante com a máquina fotográfica à prova d’água que aluguei na Agência Ar (35 reais por um dia inteiro de uso). Um pouco da “entrega” à experiência fica arrefecida pela preocupação com o registro; mas, por outro lado, a vontade de levar para casa souvenirs de uma vivência tão única é agradavelmente suprida.

Eu descia o rio ciente (heracliticamente!) de que jamais entraria de novo no mesmo rio – se repetisse o passeio, eu já seria outro na segunda ocasião, enriquecido pela experiência ganha na primeira… – mas ao mesmo tempo a tecnologia me garantia que tudo aquilo que minhas retinas viam não estava peremptoriamente condenado à efemeridade de uma aparição fugaz. Trouxe comigo estilhaços, lembranças imagéticas, como que criando uma memória objetivada, fora de meu cérebro, inacessível às costumeiras podridões da carne…

No começo da tentativa de processo psicoterapêutico narrado pelo Anticristo, de Lars Von Trier, o maridão psicólogo interpretado por Willem Dafoe, após conduzir a esposa para uma cabana no meio da mata, enlutada com a trágica morte de seu primogênito, cria uma espécie de “experimento curativo”: ela deve pisar descalça na grama e caminhar nela, em meio a sei lá que formigas peçonhentas e minhocas asquerosas, vencendo assim alguma estranha fobia que ela parece ter contraído com o trauma de sua perda.

Em estado de stress pós-traumático, ainda incapaz de conviver com o sofrimento de ter-lhe sido arrancado seu bebê, a personagem de Charlotte Gainsbourg precisa reaprender o contato com o mundo concreto que tanto a feriu e do qual ela quis se desligar, tamanha a violência do golpe por ele infligido. Quanta neurose não se mistura às nossas noções habituais sobre a Natureza? Quanta cegueira psíquica é necessária para que frequentemos churrascarias sem nos lembrarmos dos matadouros, peixarias sem conectá-las com os genocídios animais que as possibilitam?

Talvez uma das heranças maiores destes dois milênios de cristianismo seja justamente uma certa tendência psicológica de considerar a Natureza como inimiga, como fonte do pecado, como antro de predadores, como lugar de doenças, como selvageria incontrolável, ou mesmo como algo que precisa ser inteiramente subjugado e domado pela soberania humana, já que o Homem é imaginado como filho predileto do Criador, feito à sua imagem e semelhança, o que daria imensos privilégios e direitos que nenhuma outra criatura animal ou vegetal teria…

Quando Platão inventou a idéia de que o corpo é apenas um invólucro desimportante protegendo uma alma imortal, criando as bases para a metafísica e a ética do cristianismo (religião que, segundo Nietzsche, não passa de “platonismo para o povo!”), assentou as bases para este grande mau-entendido sobre a Natureza que vive até hoje e nos habita em segredo – caso não tenhamos movimentado nossas forças críticas e nossa lucidez vigilante para fazer frente a ele. Parece-me perigoso e neurótico demais este desprezo do mundo típico do cristão ortodoxo, esta noção de que o “terreno” não tem valor perto dos deleites que os eleitos um dia poderão gozar nas campinas verdejantes do paraíso, onde corre lei e mel por rios de doçura e paz… Este ideal imaginário de futuro redentor, agindo retroativamente sobre o presente, faz com que o mundo concreto acabe sendo vilipendiado em nome de beatitudes imaginadas e ausentes…

O contrário de ser cristão é estar “em núpcias com o mundo”, para usar uma expressão de Albert Camus, que soube se fascinar e se mergulhar nas paisagens argelinas de Tipasa e Argel – que descreve com tanto lirismo e devoção em seu belo “Núpcias / O Verão” (livro de cabeceira!). Trata-se de restituir ao mundo sua inocência, conspurcada pelos dogmas que lançaram a culpa no mundo, que projetaram Satã da Natureza, que fizeram do ato de morder a maçã e sorver seu rico sumo… um crime punível pela eternidade afora!

Entregar-se à esta correnteza é, ao mesmo tempo, recusar o pecado original e morder o fruto, deleitar-se com seu sumo, deixar seu suco escorrer pelo corpo, sem neura de sujeira, sem paranóias punitivas, sem neuroses fóbicas. A natureza não é a inimiga; pode ser a aliada. Decerto que, se encontrássemos pelo percurso um jacaré ou uma jibóia, correríamos por nossas vidas: a Natureza também inclui a grotesquice escandalosa da Cadeia Alimentar; os peixões comem os peixinhos, as zebras são papadas pelos leões, os insetos são digeridos vivos pelas plantas carnívoras, os vírus invadem nossas células e nos põem em pane… Não adianta harmonizar e idealizar, como se a Natureza fosse puríssima harmonia. Mas também não se deve demonizá-la: ela também comporta a possibilidade do abraço, a vereda do deleite, a chance da contemplação eufórica, o transe místico da unificação temporária… A Natureza não está lá e nós aqui: estamos NELA; dela somos parte ao invés de dela estarmos apartados; ela nos carrega, barcos cósmicos na corrente…