“ACABOU A PAZ – ISTO AQUI VAI VIRAR O CHILE”: a saga dos estudantes secundaristas de São Paulo no documentário de Carlos Pronzato (assista na íntegra)

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Acabou a Paz – Isto aqui vai virar o Chile

Um filme de Carlos Pronzato. Documentário, 2016, 60 min.

A obra de Carlos Pronzato ganha, na atualidade, uma relevância extraordinária, que demonstra a potência do documentário como veículo de informação emancipatória e de auxílios imprescindíveis à nossa reflexão e ação. Em Outubro de 2016, quando em repúdio à PEC 241/55 e a Reforma do Ensino Médio, mais de 1.000 escolas e universidades públicas foram ocupadas, evento sem nenhum precedente histórico, a velha mídia vendida lançou sobre isto o breu de seu apagão, mas o documentário revelou-se então como muito mais que um gênero cinematográfico: revelou-se como abrigo e salvaguarda do jornalismo genuíno, do jornalismo digno desse nome. Os nossos melhores documentários servem como ferramenta para civilizar um pouco a barbárie desse nosso capitalismo ultraliberal fascistóide e repressor,que lucra com a alienação e quer obstaculizar o pensamento crítico com Escolas Sem Partido que só nos amordaçam. A arte documentário, como provam os filmes de Pronzato, é capaz de ser o antídoto necessário ao veneno asqueroso daqueles que vêem aluno politizado e mobilizado somente como arruaceiro, baderneiro e inimigo público – digno somente do cacete da polícia, da bronca dos pais, quem sabe de uma temporada no hospício… Quando, na real, é nas ocupas que a juventude brasileira têm demonstrado todo o seu imenso valor e todo o maravilhoso ímpeto de sua justa revolta. Alguns alunos querem passar de ano, outros preferem passar à História. Assistamos, juntos, com atenção e diálogo intensos e fecundos, aos filmes “Acabou a Paz – Isto Aqui Vai Virar o Chile”, “A Revolta dos Pinguins”, “A Partir de Agora – As Jornadas de Junho”, “Por Uma Vida Sem Catracas”, dentre outros, pois o cinema de Carlos Pronzato tem um bocado a ensinar-nos nestes urgentes momentos de que somos contemporâneos. (Carli, 22-10-16)
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“Argentino radicado no Brasil desde os anos 1980, Carlos Pronzato transita pela literatura, teatro e cinema. Mas é como documentarista que obtém maior reconhecimento. Seu documentário sobre as Madres de Plaza de Mayo na Argentina foi premiado internacionalmente.
Para quem acompanha os movimentos sociais e suas revoltas, sabe que Pronzato ‘está em todas’: Pinheirinho, MTST, Passe Livre. Sempre atento, é autor do filme sobre a ‘Revolta do Buzu’ que em 2003 parou Salvador contra o aumento da tarifa do transporte público. De lá pra cá o tema o aproximou do MPL, de quem já fez outros tantos documentários, como o ótimo ‘A partir de agora – as jornadas de junho’.
Em 2006 fez o registro das ocupações das escolas pelos estudantes chilenos. O material rendeu o famoso documentário ‘A Rebelião dos Pinguins’ que serviu de inspiração para os estudantes brasileiros no ano passado. E é sobre as ocupações dos alunos paulistas que trata seu mais recente filme: ‘Acabou a paz, isto aqui vai virar o Chile – Escolas ocupadas em São Paulo’.

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DIÁRIO DO CENTRO DO MUNDO:
Entrevista com Pronzato

DCM: O que o motivou a realizar o documentário?

O que me trouxe é o percurso que venho fazendo com o tema estudantil, que venho fazendo há muito tempo. Algo que começou com a Revolta do Buzu em Salvador em 2003, que impulsionou a criação do Movimento Passe Livre, e também em 2006 quando tem a Rebelião do Pinguins, material que foi muito utilizado pelos estudantes daqui assim como uma cartilha feita pelos estudantes chilenos para as ocupações.

É inevitável a comparação com o Chile. Que paralelo você faz?

Faltou apenas um item para serem idênticas. Claro, não se pode dimensionar identicamente Chile com Brasil, mas Alckmin é o ‘presidente’ deste país chamado São Paulo. Lá houve o recuo da presidente Bachelet, aqui houve o recuo de Alckmin. O Secretário de Educação caiu lá e o daqui também. Portanto o que faltou aqui, por ser muito complicado, por estar fortemente instalado, foi a queda do Secretário de Segurança. Lá caiu, aqui não. Quem promoveu a repressão contra os estudantes foi exonerado no Chile, mas aqui ninguém toca.

A vitória dos estudantes no Chile tem reflexos até hoje. Aqui elas foram temporárias e tudo indica que o governador inclusive esteja atuando de modo a burlar o próprio cancelamento, por quê?

A duração dos dois eventos é muito diferente. Aqui não chegou a sessenta dias enquanto no Chile a revolta durou mais de sete meses. E também tem o calendário, infelizmente pegou o final do ano. Mas tem um aspecto importante que precisa ser considerado que é a possibilidade de o movimento não ter acabado. No Chile, depois de 5 ou 6 anos da revolta houve uma refervura em 2011, e daí vieram essas outras conquistas a que você se referiu. E sobre isso é muito interessante saber que os secundaristas daqui possuem mais referências do que aconteceu no Chile em 2011, mas o filme que serviu de ‘inspiração’ é o que fiz em 2003. Foi uma soma dos dois episódios.

Então isso leva uma outra questão: não é arriscado realizar um documentário sobre algo tão recente e talvez inconcluso, que pode estar apenas em um momento de pausa?

Mas a palavra é essa mesma, eu vi que tinha uma pausa. Esse é o recorte dado até este momento, dá para fechar uma narrativa. Pode ser que as ocupações voltem, mas quando? No Chile levou quase 6 anos. Aqui, tudo depende de quando o governador irá tentar novamente. A intenção é que a divulgação deste material estimule a possibilidade de uma continuidade imediata da luta.

Documentário é uma forma de ativismo ou jornalismo?

Ativismo total. Eu não sou jornalista, estou no campo das artes. Venho do teatro, da literatura. Minha inserção no documentário é um recorte muito subjetivo. A mídia influi e molda o senso comum, contra o qual a gente luta. Porque quando se está na rua e se vê a polícia jogar bombas em estudantes, é revoltante saber que tem gente que é induzida a aplaudir isso.

Minha intenção é manter viva a memória da luta dos secundaristas.

Você está há muitos anos documentando revoltas sociais. No seu documentário sobre a revolta do Buzu em 2003, em determinado momento o então prefeito Antonio Imbassahi afirma que estava acompanhando tudo atentamente pela TV. Em junho de 2013, Dilma disse a mesma coisa. O poder público está sempre tão distante da realidade a ponto de só saber do que ocorre através da mídia?

É por isso que aconteceu o que aconteceu. À medida que movimentos sociais, mesmo os de esquerda, se inserem numa estrutura institucional, vão se perdendo. A grande armadilha é você entrar na insituição e passar a viver diariamente com ela. E esse distanciamento é que cria as revoltas populares. O que aconteceu em 2013 é preciso colocar num contexto mundial, sem dúvida, mas há uma leitura hipócrita sobre isso por parte dos governistas. Dizer que as pessoas haviam conquistado um status econômico e que estavam indo às ruas para exigir mais, é ridículo, não sei de onde surgem elucubrações sociológicas que dizem coisas como essas. O que eu vi, particularmente, foi uma recusa do Estado como uma estrutura de repressão contínua, independentemente dos gestores do capital.

Para aqueles que ainda não compreenderam a questão (como o atual Secretário de Educação que em entrevista na data de ontem demonstrou estar em dúvida ‘se’ os alunos aceitam a reorganização), o filme está disponível no canal Youtube e ao longo da semana apresentações públicas serão realizadas com a presença do diretor.

ASSISTA OS FILMES DE PRONZATO:

A REBELIÃO DOS PINGUINS – Documentário de Carlos Pronzato sobre o movimento estudantil chileno


a-revolta-pinguinaA REBELIÃO DOS PINGUINS

Doc de Carlos Pronzato sobre o movimento estudantil chileno


Wikipedia

SINOPSE: O documentário de Carlos Pronzato é o registro da luta dos estudantes secundaristas chilenos contra o sistema. Em maio de 2006, o Chile presenciou o surgimento e o amadurecimento do movimento de estudantes secundaristas, que configuraram um processo bastante original de luta, com mais de um milhão de estudantes mobilizados em todo o território nacional. Com protestos de rua e principalmente ocupações de colégios, exigindo não só melhoras na educação, mas também mudanças estruturais no país, os “pinguins”, como são conhecidos os estudantes secundaristas no Chile, se tornaram a nova força mobilizadora da nação. Filme do diretor Carlos Pronzato, ganhador do Prêmio Especial do Juri na XXXVI Jornada Internacional de Cinema da Bahia (2009) e do Premio Internacional Roberto Rossellini, no Festival de Maiori, na Itália (2009).

O cinema já focou suas lentes muitas vezes sobre os descalabros e descaminhos da ditadura militar chilena instaurada pelo golpe de Estado de 11 de Setembro de 1973. Há filmes que revelam a realidade nos cárceres instalados pelo regime Pinochet, como Dawson Ilha 10 (de Miguel Littin) ou Colonia – Amor e Revolução (de Florian Gallenberger, 2015); Costa-Gravas realizou em 1982 um thriller, Desaparecido (Missing), com Jack Lemmon e Sissy Spacek nos papéis principais, descrevendo o estranho sumiço do jovem escritor e jornalista estadunidense Charles Horman, que vivia em Santiago; já a realidade escolar em tempos ditatoriais recebeu uma crônica interessante em Machuca, de Andrés Wood (2004). Recentemente, o excelente No, de Pablo Larraín, estrelado por Gael Garcia Bernal, revelou as mobilizações cidadãs e batalhas midiáticas/publicitárias do Plebiscito Popular de 1988, que terminou com a vitória do “Não” à continuidade do regime Pinochet.

A estes filmes de ficção, baseados em histórias verídicas, podemos citar importantes documentários que nos oferecem a oportunidade de compreender melhor o protagonismo do movimento estudantil do Chile na contestação do autoritarismo neo-liberal Pinochetista (o que Naomi Klein chamou de Doutrina do Choque), caso de Actores Secundarios (de Pachi Bustos e Jorge Leiva, 2004) e de A Rebelião dos Pinguins (de Pronzato). 

actoresA primeira ocupa estudantil de que se tem notícia na América Latina ocorreu em Santiago do Chile, em 1984, quando cerca de 400 alunos tomaram o Liceu Valentín Letelier.  Outras escolas e liceus seriam “tomados”, grandes assembléias estudantis e marchas públicas ocorreriam, fundamentais para a desestabilização do regime ditatorial. As passeatas que tentavam chegar a pontos-chave da capital federal, a repressão não era somente com os canhões d’água, mas também com munição letal. Nascem aí instituições como a FUDEM (Frente Unitario Democrático de Enseñanza Média), a UES (Union de Estudiantes Secundarios), a MED (Movimiento de Estudiantes Democraticos), dentre outras, coordenadas pela COEM – a Coordenação das Organizações do Ensino Médio, com apoio dos partidos de esquerda, seja os socialistas, a izquierda cristiana ou o MIR. Surge o Comitê Pro Feses.

Um dos principais debates era o quanto a luta dos secundaristas podia contribuir no processo de (re)construção do socialismo. Não que o movimento tivesse os olhos voltados somente para o passado, numa tentativa de reatar com os ideais e práticas de Salvador Allende. O levante secundarista buscava ser uma “bofetada na ditadura”, e nestas batalhas, como diz José Sabat, dirigente da ASEC (Associação dos Estudantes Cristãos), “tolerava-se os molotovs, mas nunca contra seres humanos” (’18”15). A Ditadura respondia sem gentilezas, sem respeito ao princípio da não-violência contra seres sencientes: em março de 1985, três profissionais, comunistas, são degolados por serviços de “segurança” do regime militar (’21 ”25). Mesmo com o triunfo do Não no plebiscito de 88, a verdade é que a direita não é alijada do poder e segue controlando o Parlamento…

Marcha de Estudantes no Chile em 14 de Julho de 2011. Saiba mais em Wikipédia.

Marcha de Estudantes no Chile em 14 de Julho de 2011. Saiba mais em Wikipédia.

Corte para o ano 2006 e a Rebelião dos Pinguins, uma nova insurreição estudantil que reata com o movimento iniciado nos anos 1980 e reivindica o enterro do sistema Pinochetista-neoliberal que segue dando as cartas na educação.

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