Jesus Cristo segundo Paulo Leminski

“Ecce Homo”, de Caravaggio

 JESUS SEGUNDO LEMINSKI

Uma exploração da bio publicada em “Vida” (Cia das Letras)

por Eduardo Carli de Moraes

O signo Jesus é um dos mais polissêmicos da História humana: sobre o crucificado empilham-se interpretações inumeráveis. Leminski, quando produz sua biografia, publicada em 1984, procura apresentar sua perspectiva de Jesus como um “subversor da ordem vigente, negador do elenco dos valores de sua época e proponente de uma utopia“. Também deseja “revelar o poeta” por trás do profeta (p. 159). A obra inicia-se brincando de noticiário e relatando feito imprensa marrom um factóide ocorrido em Jerusalém:

Pintura de Rembrandt: Jesus expulsa os vendilhões do Templo.

Pintura de Rembrandt: Jesus expulsa os vendilhões do Templo.

“Alguém que atende pelo nome de Jesus invadiu as dependências do Templo, agredindo e expulsando toda a casta de vendedores que ali exercia seu ofício. O lunático, galileu pelo sotaque, entrou, subitamente, chutando as mesas dos mercadores de pombas e outros animais destinados ao sacrifício. Na confusão que se seguiu ao incidente, entre as moedas que rolavam pelas escadas, gaiolas quebradas, pombas que voavam, acorreram os guardas, que não conseguiram deitar mãos no facínora. O tal Jesus desapareceu no meio da multidão. A reportagem apurou que o referido é natural de Nazaré, na Galileia, filho de um carpinteiro. Arrebanhou inúmeros seguidores entre os pescadores do mar da Galileia. Dizem que opera milagres. E descende, por linha direta, do rei Davi.” (p. 160)

O Jesus de Leminski raia no céu do livro com certos arroubos anarquistas, enfurecido contra os adoradores do vil metal, movido pelo desejo de dilacerar os idólatras do bezerro de ouro. Este gesto radical interessa intensamente a Leminski, que sabe muito bem que um poeta não precisa traficar somente com palavras escritas, mas pode expressar-se com seus atos, através de seus ditos e feitos. Como Sócrates e Sidarta Gautama (o Buda) antes dele, Jesus não deixou nada escrito de próprio punho; no entanto, “mudou o mundo como poucos” (p. 165).

Para compreender as raízes e o contexto sócio-cultural de onde emergiu Jesus de Nazaré, Leminski faz-se historiador e pondera:

“O Oriente Médio era o lugar culturalmente mais rico da Antiguidade. (…) Essa parte do globo, afinal, foi berço do judaísmo, do cristianismo e do Islã, as religiões de Moisés, Jesus e Maomé. Não nos deixemos iludir pelas aparentes diferenças entre essas três confissões religiosas, nem por seus conflitos históricos. Com variantes de detalhes, as três afirmam, no fundo, os mesmos princípios: o tribal monoteísmo patriarcalista, o moralismo fundado em regras estritas, a tendência ao proselitismo expansionista, a intransigência. ‘Não haverá outros deuses diante de ti’, parecem dizer as três, afirmando Javé, Jesus e Alá.”

Jesus insere-se numa longa tradição de profetas que anunciam o advento futuro de um certo Reino de Deus, “a começar por esse extraordinário Isaías, que Jesus, superpoeta, gostava de citar. (…) Pela extrema criatividade imagética, voos quase surrealistas de fantasia, vigor e pujança de expressão e formulação, Isaías tem de ser contado entre os grandes poetas da humanidade, no time de Homero, Virgílio, Dante, Shakespeare, Bashô, Goethe.” (p. 167)

Leminski também sabe muito bem que o ofício dos profetas do Antigo Testamento desenvolve-se “no auge das agruras que afligiram o povo hebreu, estraçalhado entre os poderes do Egito e da Babilônia-Assíria. (…) Nesse quadro, os profetas exerceram agudo papel político, como assessores e conselheiros dos reis de Judá e Israel. Alguns pagaram com a vida esse envolvimento direto com a História. Quer a lenda que Isaías, aos cem anos de idade, por intrigas de cortesãos, foi acusado de alta traição, condenado à morte e serrado ao meio. (…) A profecia sempre foi uma profissão perigosa.” (p. 168-169)

Jesus, antes de mais nada, é um judeu, que traz em seu próprio corpo a marca de sua pertença aos hebreus: “era circuncidado”. Já adulto, aos 30, Jesus será batizado por João no Rio Jordão, um rito “articulado com a confissão dos pecados, com a categoria ascética da penitência. (…) Entre os judeus, esse rito parece que começou a competir com o da circuncisão, a ablação do prepúcio, que sempre foi, desde Abrão, a marca distintiva do Ham Israel. A história dos conflitos originais entre o judaísmo e o cristianismo poderia ser, liturgicamente, entendida como uma luta entre os ritos da circuncisão e do batismo.” (p. 171-172)

Entre Moisés e Jesus, há um abismo de tempo, cerca de um milênio. Segundo Leminski, “Jesus veio para exagerar a pureza da doutrina de Moisés” (p. 174):

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Moisés

“Entre Moisés e Jesus, há, pelo menos, um bom milênio. Natural que, em mil anos, a religiosidade judaica tenha evoluído para exigências mais sofisticadas e formas mais complexas e abstratas de expressão. Afinal, quando Moisés formulou a Lei, os hebreus eram um povo de beduínos nômades, recém-fugido do cativeiro no Egito, onde os faraós da XXIII Dinastia os empregavam, como escravos, entre dezenas de outros povos, na edificação dos templos e palácios que fizeram a glória do país do Nilo. Depois disso, o povo hebreu passou por uma extraordinária peripécia histórica, conquistando Canaã, constituindo-se em Estado, triunfando com o rei Davi, prosperando com seu filho Salomão, vivendo, enfim, toda a complexidade política e militar dos reinos semitas do Oriente Médio, primeiro, estraçalhado entre as superpotências egípcia e assíria, depois, invadido por persas, gregos macedônios e, enfim, romanos. Por bem ou por mal, a Palestina e o povo hebreu se viram envolvidos pela imensa onda de helenismo que desabou sobre a Ásia com a invasão de Alexandre. A doutrina de Jesus representa uma resposta criativa aos novos tempos que o povo judeu vivia.” (p. 176)

Pieter Brueghel, O Jovem - Cristo e a Adúltera (1600)

Pieter Brueghel, O Jovem – Cristo e a Adúltera (1600)

Jesus não respeita com ortodoxia perfeita os rituais mosaicos, como prova o episódio célebre da adúltera. Uma mulher foi pega no flagra traindo seu marido e “conforme a lei mosaica, a adúltera deveria ser apedrejada pelo povo até a morte” (p. 177). Um sintoma evidente de que estamos diante de uma religião patriarcal e, portanto, machista, é o fato de que o homem que pratica o adultério não é de modo algum sujeito a tais rigores punitivos. Dois pesos, duas medidas. Diante do iminente apedrejamento da adúltera, Jesus lança a provocação:

Quem não tiver pecado
Atire a primeira pedra.

Leminski comenta:

“Homem assim não ia ter vida longa nem morrer na cama. Ia ter um fim como João, seu ‘guru’ e batista, que teve a cabeça cortada por Herodes. Isaías, serrado ao meio. Jeremias, exilado no Egito… A vida de um nabi não era muito segura. Não se brinca, impunemente, com os poderes deste mundo. Jesus chegou a tocar no sacrossanto repouso do sábado, talvez, com a circuncisão, os dois ritos fundamentais do judaísmo. É extraordinariamente minucioso o elenco de proibições, interditos e tabus do sábado judaico, o dia em que se repete, ritualmente, o descanso de Javé, no sétimo dia, depois de criar o universo. No sábado judeu, as atividades são reduzidas a um mínimo. Rabinos extremamente meticulosos, ao longo dos séculos, foram legislando os gestos que violam o sábado, indo do trabalho à alimentação da vida diária à sexual, limitando até o número de passos lícitos, nesse dia de não fazer nada. Ora, sucedeu que, num sábado, discípulos de Jesus passavam ao lado de um campo de trigo. Estavam com fome, agarraram espigas e as comeram. Fariseus estavam presentes e, escandalizados, interpelaram Jesus: ‘Teus discípulos violam o sábado’. É proibido colher nesse dia. Jesus arrasou: ‘O sábado foi feito para o homem, não o homem para o sábado’.” (p. 178)

Agindo menos como teólogo e mais como historiador, Leminski prefere retratar Jesus em seu contexto social e político, em suas interações intersubjetivas, não se aventurando muito a comentar ou criticar as lendas transformadas em dogmas – como a concepção imaculada ou a ressurreição no terceiro dia após a execução. Jesus é essencialmente uma figura subversiva aos olhos do status quo imperial romano, essencialmente um inovador perigoso que é visto com desconfiança pelas autoridades judaicas instituídas. Por isso a biografia leminskiana tem um certo sabor realista, similar àquele que anima o filme de Pier Paolo Pasolini, O Evangelho Segundo Mateus. Podemos polemizar o quanto quisermos sobre os supostos super-poderes milagreiros do nazareno, mas o inegável é que, como figura histórica, Jesus torna explícitos os conflitos, no Oriente Médio, entre Roma e as populações pelo império oprimidas:

“Na teocracia semita, o líder religioso é sempre chefe político. E vice-versa. Basta ver o caso do Irã do Ayatolah Khomeyni. Descendente do rei David, Jesus era o líder carismático do povo numa guerra de libertação contra o imperialismo romano. Sua condenação final diante do poder de Roma, encarnada na pessoa do procônsul Pôncio Pilatos, é significativa: o povo o aclamava, abertamente, como rei. Ao colocar sobre a cruz onde o supliciavam uma placa com a inscrição ‘Jesus de Nazareth, Rei dos Judeus’, os romanos mostravam que não estavam brincando em serviço.

Deixemos de lado as lendas messiânicas sobre o nascimento em Belém. Jesus sempre é chamado de ‘nazareno’, natural de Nazaré. E os primeiros cristãos eram chamados de ‘galileus’. A fábula da fuga ao Egito deu margem a muitas outras lendas. Está em Mateus. Jesus nasce, os magos vêm visitá-lo, o rei Herodes fica sabendo, consulta os sábios para saber onde nasceria o Messias. Citando Miquéias, os sábios apontam Beth-Lehem: Herodes ordena o massacre de todas as crianças com menos de um ano de idade. Avisado por um anjo, José pega a mulher e o filho e foge para o Egito, donde só volta depois que o mesmo anjo, pontual funcionário do Senhor, lhe avisa, em sonho, que dá para voltar, tudo está limpo. Daí, José volta.

A fábula é inverossímil. Só ver a distância a percorrer entre a Galiléia e o Egito, numa época quando as estradas da Ásia viviam infestadas de assaltantes e ainda havia grande quantidade de leões, depois extintos pela caça contínua e sistemática. Não é assim, no entanto, que se trata uma fábula: uma lenda vale por seus significados simbólicos. A fuga da família de Jesus para o Egito era uma volta às origens. Afinal, foi lá que o povo hebreu viveu escravo dos faraós. De lá, Moisés o tirou, para a liberdade, a plenitude, a maioridade, depois da invasão de Canaã (a Palestina), realizada com implacáveis hecatombes, massacres e aniquilação, ao estilo assírio, de cidades inteiras, como conta o Livro de Josué.” (p. 182)

Pintura de Alexander Ivanov (1806 - 1858): Cristo aparece a Maria Madalena após a Ressurreição

Pintura de Alexander Ivanov (1806 – 1858): Cristo aparece a Maria Madalena após a Ressurreição

Frequentador assíduo da obra dos linguistas e estudiosos de semiótica, de Propp a Jakobson, de Peirce a Bakhtin, Leminski enxerga também em Jesus um emissor de linguagem que tem suas peculiaridades: “Talvez, à luz de uma estética da recepção, adequasse seu discurso ao universo dos pequenos lavradores e pescadores dentre os quais arrebanhou seus primeiros seguidores. (…) Jesus parece ter sido muito livre na escolha de suas companhias. Os evangelhos estão cheios das queixas dos fariseus pelo fato de Jesus frequentar pecadores, estrangeiros, publicanos (coletores de impostos para Roma), meretrizes e até gente pior.” (p.  188-189)

Jesus não inventou a parábola destinada a provocar epifania: este já era um “gênero linguístico” praticado por uma antiga tradição oriental, praticada por Confúcio na China, pelos gurus da Índia, pelos sufis do Islã etc. (p. 195). A idolatria a textos considerados sagrados também não foi criação de Cristo, que participa de uma cultura onde livros-ídolos, como a Torá, são comuníssimos. De todo modo, os relatos sobre Jesus, em especial as lendas sobre seus poderes prodigiosos e milagreiros, não perderam sua capacidade de encantar uma vasta fração dos humanos, mesmo após dois milênios já transcorridos:

“Nos evangelhos, Jesus vive fazendo milagres, signa, prodígios, que demonstram sua força sobrenatural. São, na maior parte, milagres médicos ou econômicos: cura de doenças (cegueira, surdez, paralisia) ou multiplicação de alimentos (pão, peixe, vinho), o que bem situa Jesus em seu universo de gente miúda, sempre às voltas com a penúria ou a moléstia. De qualquer forma, os signos foram dados. E, quase dois mil anos depois, estão longe de parar de rolar. De desistir de sua capacidade de serem interpretados.” (p. 198)

Tanto é assim que a literatura não cessa de produzir novas variações sobre este tema aparentemente inesgotável: mesmo um livro altamente experimental e vanguardista como o Finnegans Wake de James Joyce dialoga com os evangelhos, e no século XX tivemos muitos romances importantes publicados e que re-interpretaram o mito, caso de Nikos Kazantzakis com A Última Tentação de Cristo ou José Saramago com O Evangelho Segundo Jesus Cristo.

Em artigo publicado na Revista Cult, o crítico literário Manoel Ricardo de Lima afirma que, com Vida, Leminski elegeu quatro vidas que estariam “posicionadas radicalmente contra algo que mais atinge o homem moderno: o dinheiro… Essas quatro figuras surgem contra o capital”, considera Manoel. Ora, no caso da biografia sobre Jesus, é explícito um retrato de um profeta-poeta anti-capitalista, como exemplificado pelo episódio no Templo de Jerusalém ou pelo Sermão da Montanha, que enuncia que é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus.

“Quando Jesus viveu, a economia de todo o mundo mediterrâneo já era monetária. Nas mãos de egípcios, gregos, gauleses, ibéricos, judeus, circulavam sestércios e asses, cunhados por Roma, pequenos círculos de metal trazendo o perfil e o nome do Imperador, onipresença de Roma. No mundo em que Jesus vivia, o dinheiro era a evidência da presença do dominador: o povo de Israel estava nas mãos do goiim, os pagãos, idólatras, politeístas, que não reconhecem o poder de Jeová, que não sabem que só há um Deus e que esse Deus escolheu um povo para crer nele e só nele. Na Judéia, a mais ínfima moeda era um índice da humilhação nacional.” (p. 203)

O César de então cobrava seus tributos através de todo o Império Romano, acumulando capital às custas de multidões espoliadas, de modo que este ímpeto capitalizador acaba identificado por Jesus com o domínio satânico de Mammon. Conta-se que Jesus e seus doze discípulos inclusive puseram seus bens em comum, vivendo efetivamente em um micro-regime comunista, característica que também marcou a seita de Pitágoras cerca de 500 anos antes. De todo modo, “entre os doze principais [discípulos] que o seguiam, a administração do dinheiro comum estava a cargo de Judas Iscariotes. Pois foi Judas, o homem do dinheiro, quem traiu Jesus, apontando-o às autoridades. Por exatamente trinta dinheiros. Trinta belas moedas de prata, com a imagem do Imperador de Roma.” (p. 206)

O contexto sócio-político que engloba a figura de Jesus é portanto dominado por um Império monetarizado e patriarcal, contra o qual ele realiza uma espécie de levante de escravos. Há mais de Spartacus em Jesus do que sonha a nossa vã historiografia. E Nietzsche, no século 19, saberá ler com clareza o quanto a moral do cristianismo representa uma inversão de valores, uma afirmação dos valores contrários aos vigentes nas classes dominantes, numa espécie de revolução moral preconizada pelos escravos contra a moral de seus senhores. Os últimos serão os primeiros, e se não for na Terra… será no Céu.

Leminski também é magistral ao destacar o caráter machista e falocêntrico das instituições sociais e das mitologias culturais dos monoteísmos nascidos no Oriente Médio. É só lembrar que o mito do Gênesis, “fundamento metafísico do patriarcalismo semita”, conta que Eva nasceu depois de Adão e foi edificada a partir de uma reles costela do macho. “Notável na estrutura do mito da origem de Eva é que ele constitui uma inversão da realidade: biologicamente, é o homem que sai da mulher, não a mulher do homem.” (p. 207)

Ló e suas filhas com a destruição de Sodoma e Gomorra ao fundo. Pintura de Lucas van Leyden (1520).

Ló e suas filhas com a destruição de Sodoma e Gomorra ao fundo. Pintura de Lucas van Leyden (1520).

“O patriarcalismo falocrático, próprio dos pastores nômades, que eram todos os semitas em sua origem, encontrou sua tradução mais literal na poligamia, regime no qual a mulher desaparece enquanto pessoa, reduzida a uma fração de um harém. Os antigos hebreus e o judaísmo posterior são fundamentalmente patriarcalistas, bem como o cristianismo e o Islã, derivados diretos da fé de Moisés. Nesses três credos (no fundo, um só), a mulher não tem acesso às funções sacerdotais: os intermediários entre o sacro e a humanidade são rabinos, padres, ulemás. Isso vem de muito longe. No livro do Gênesis, os primeiros grandes patriarcas hebreus (Abrão, Isaac, Jacó) têm muitas mulheres, como cabe a um próspero sheik do deserto. Como distinguir o esplendor do reino de Salomão, sem lembrar das setecentas mulheres do seu harém, entre as quais brilhava, inclusive, uma filha do faraó do Egito? Nesse universo patriarcal, falocrático, poligâmico, a mulher só pode ter uma existência, uma condição ontológica rarefeita, essencialmente subalterna, secundária, menor, algo entre os camelos e rebanhos e os humanos plenos, que são os machos. Daí, os rigores da lei mosaica contra o homossexualismo e a sodomia, instâncias de aguda feminilização do homem, punidos com a morte.” (p. 207 – 208)

Leminski, nietzschianamente, pondera: “religião de escravos, em seus primórdios, o cristianismo passou por um processo de ascensão social até chegar ao palácio dos imperadores romanos. Nessas altíssimas rodas, os primeiros convertidos foram imperatrizes e grandes damas da família imperial.” (p. 210) Apesar de muitos episódios da saga de Jesus envolverem mulheres, seria exagero fazer dele um feminista. Ademais, “não há traços da vida sexual de Jesus… um homem abstinente dos prazeres da bela aparência e do desfrute de fêmeas.” (p. 211) Aquilo que Nietzsche chamará de ideal ascético manifesta-se em toda a pureza em Jesus, negador da carne e da matéria, influência sobre inúmeras gerações de repressores da sensualidade e da sexualidade: “Para nós, geração permissiva, que viemos depois de Freud e Reich, é incompreensível um mundo em que o sexo é negado. Mas isso é possível. Milhões de monges e monjas, padres e freiras, disseram não ao mais imperioso desejo.” (p. 211)

Em um de seus capítulos mais ousados, Jesus Jacobino, Leminski compara o projeto social de Jesus com o de Robespierre. Este último, cognominado “o incorruptível”, liderou a revolução burguesa na França e, como sabemos, “milhares de cabeças rolaram na guilhotina, condenadas pela sumária justiça revolucionária (revoluções não costumam primar pela gentileza nem pelas boas maneiras).” (p. 216) Se Jesus e Robespierre tem algo em comum, sugere Leminski, é isto: “Eles querem o exagero, a pureza de um princípio. (…) Erro pensar que Jesus veio abrandar os rigores farisaicos da religião de Israel. Ele veio para tornar mais agudas as exigências dessa fé. (…) Ninguém, porém, que conheça os evangelhos pode deixar de ver o caráter violentamente utópico, negador (utopias são negações da ordem vigente: o imaginário é subversivo), prospectivo, des-regrado (r) da pregação de Jesus.” (p. 218)

Profeta, poeta, utopista: Jesus aparece a Leminski como tudo isso junto e misturado. Este messias, tão incômodo quanto um Spartacus (ambos terminaram pregados na cruz pelos romanos), demandava um outro mundo e teve sua boca calada com violência. Em uma interpretação que talvez soe herética aos ouvidos daquelas seitas cristãs mais conservadoras e elitistas, Leminski reclama que a utopia de Jesus seja inserida na galeria do socialismo utópico. E denuncia os inúmeros desvios e perversões que transformam a mensagem de Jesus de Nazaré em algo capaz de produzir Cruzadas, Inquisições, Massacres.

“O Reino de Deus era a restauração da autonomia nacional do povo hebreu. Sobre isso, a autoridade romana não se equivocou, ao pregar o profeta na crux, exemplar suplício com que os latinos advertiam os rebeldes sobre os preços em dor da sua insurreição. Esse o suporte material, sócio-econômico-político, da pregação, por Jesus, de um (novo) Reino, um (outro) poder. Nessa tradução/translação do material para o ideológico, Jesus forneceu um padrão utópico para todos os séculos por vir. As duas grandes revoluções, a Francesa e a Russa, estão carregadas de traços messiânicos de extração evangélica. Ambas prometeram a justiça, a fraternidade, a igualdade, enfim, a perfeição, o ideograma da coisa-acabada projetada sobre o torvelinho das metamorfoses. Natural que seja assim. Afinal, as utopias são nostálgicas, saudades de uma shangrilá/passárgada, estado de excelência que lá se quedou no passado, Idade de Ouro, comunidade de bens na horda primitiva, antes do pecado original da divisão da sociedade em classes, plenitude primitiva, paleolítica, intra-uterina, antes do pesadelo chamado História.

A revolução é o apocalipse, o Juízo Final de uma ordem e de uma classe social: o cristianismo primitivo cresceu à sombra da expectativa da segunda vinda, quando Jesus, vitorioso sobre a morte, voltaria, apocalipticamente, para julgar, ele que foi julgado e condenado pelas autoridades: o retorno do reprimido, a vendeta, o acerto de contas entre os miseráveis da terra e seus prósperos opressores e exploradores. (…) O programa de vida proposto por Jesus é, rigorosamente, impossível. Nenhuma das igrejas que vieram depois invocando seu nome e cultuando sua doutrina o realizou. Religião saída de Jesus não poderia ter produzido Cruzadas, inquisição, pogrons e as guerras de religião entre católicos e protestantes, que ensangüentaram a Europa nos séculos XVI e XVII. O programa de Jesus é uma utopia. Curioso que, na frondosa bibliografia sobre os socialismos utópicos, nunca apareça a doutrina de Jesus como uma das mais radicais.” (p. 221)

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Depoimento de Paulo Botas

A MORTE DO GLAMOUR NA RUA DO CREPÚSCULO – Explorações sobre o clássico filme de Billy Wilder, “Sunset Boulevard – Crepúsculo dos Deuses” (1950)

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“Prédios vão se erguer
E o glamour vai colher
Corpos na multidão.”

CRIOLO. Casa de Papelão.
Do álbum Convoque Seu Buda, 2014.

Avançando pela rua do crepúsculo, envolvida por um brilho de empréstimo, roubando luz de seu passado, Norma Desmond tece – com a ajuda de seus cúmplices e serviçais – um véu de Maya diante dos próprios olhos.

O cinema já produziu inúmeros filmes em que o próprio cinema está em questão, mas poucos são tão magistrais e sublimes quanto Sunset Boulevard – Crepúsculo dos Deuses, uma das obras-primas de Billy Wilder.

É um filme sobre filmes, em especial sobre como a megaindústria Hollywoodiana funciona e como influi nas vidas de cineastas, escritores, atores, produtores, magnatas e escroques de toda estirpe. Sem sinal do kitsch costumeiro nos filmes comerciais de Hollywood, Billy Wilder fez em Sunset Boulevard um de seus filmes mais dark e Hitchcockescos.

É também, parece-me, o inaugurador de um subgênero, que eu chamaria de cinema metalinguístico, que tem entre seus clássicos Oito e Meio, de Fellini (1963),  A Noite Americana, de François Truffaut (1973), A Rosa Púrpura do Cairo, de Woody Allen (1985), O Jogador, de Robert Altman (1992), Mulholland Drive – Cidade dos Sonhos, de David Lynch (2001), dentre outros.

O pai de todos os grandes filmes-sobre-o-cinema talvez seja esta obra de 1950 – que eu preferiria que se chamasse Crepúsculo dos Ídolos (e não Dos Deuses) – em que Wilder cria este inesquecível retrato das transformações radicais vivenciadas por uma celebridade da indústria cinematográfica, encarnada pela expressiva Gloria Swanson, atriz que sabe muito bem abraçar a insânia quase trágica, Lady Macbethiana, desta star do showbizz, Norma Desmond, retratada décadas depois de seu auge glorioso.

Como uma aranha, esta estrela caída, que há muito já não brilha nas telonas, tece uma Matrix diante de si onde seu ego continua no trono máximo. É o mito de Narciso que renasce: esta mulher vive rodeada por imagens de si mesma, prisioneira na Caverna do egocentrismo exacerbado, o que revela-se claramente tanto pelo excesso de fotos de si mesma com as quais ela abarrota com porta-retratos incalculáveis sua vasta casa, quanto por seu cinema doméstico, onde ela só assiste aos filmes em que ela própria aparece. Os limites estreitos de seu mundo parecem limitar-se a uma mansão que não passa de um gigantesco labirinto cujas paredes e chão e tetos são constituído inteiramente de espelhos.

 Billy Wilder soube retratar de modo genial todo um jogo de ilusionismo, aliás bastante próprio ao cinema como arte, que acaba transcendendo os domínios estéticos e transbordando para a existência daqueles que envolvem suas vidas demasiadamente com as engrenagens impiedosas de uma indústria do entretenimento que soube, por exemplo, conduzir Marilyn Monroe a seu suicídio e fez com que James Dean (outrora) e Heath Ledger (recentemente) se auto-aniquilassem ainda na juventude.

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Salomé com a cabeça de João Batista em uma bandeja, obra de Caravaggio (1607)

Em Sunset Boulevard, o drama da atriz decaída em sua fama atinge alturas míticas: estamos diante de uma nova Salomé. As relações de amor de Norma Desmond, longe de possibilitarem o desabrochar das jovialidades e dos deleites que preenchem as comédias alegres de Wilder como Sabrina ou Love in The Afternoon, são matéria digna de Shakespeare ou Shelley. Norma Desmond tem poder demais em suas mãos, até mesmo pelo capital que concentra e mobiliza, para que esta mulher seja banal e sem consequências – pelo contrário, ela não somente quer ser gente importante, como também sua conduta e suas práticas tem quase sempre como télos uma ambição desmesurada, uma fome de glamour que é devoradora.

Há nela algo de vampira, mas não é exatamente uma personagem vilanesca caricatural, já que Wilder sabe também mostrar a humanidade de uma mulher frágil, insegura, com fome de amor, perdida em suas reminiscências de uma glória que em seu presente queima em fogo baixo, mas que ela está disposta a re-incendiar.

O véu de Maya de sua Matrix mulheril é a miragem de fama continuada que serve para acalentar um pouco a desolação daquela mansão. Ser milionária é tão triste que ela traz os pulsos marcados por várias tentativas de suicídio. Em sua primeira visita, o visitante surpreende-se com os ritos fúnebres de um macaco: Norma Desmond estava em luto após a morte de seu pet primata. Diante disso, o visitante – que se tornará, é claro, roteirista-ajudante e logo amante-serviçal – pergunta-se melancólico e assombrado: será que a vida desta mulher é assim tão vazia que ela tenha que investir tanto afeto em um macaco, a ponto dela ir toda solene enterrá-lo com pompas fúnebres Bergmanianas?

Sim: no clássico de Billy Wilder, Sunset Boulevard, Hollywood é uma terra impiedosa com aqueles que já deixaram para trás seus 15 minutos (ou no máximo 15 anos) de fama. A protagonista vive o pesadelo do pop, para lembrar uma expressão de Marcelo D2. Ou melhor, ela vive o melodrama da perda da aura: deixou de ser pop, mas quer intensamente continuar a crer em seu renascimento como estrela, em um sonhado futuro re-brilhante no pop stardom. Rodeada por fotos de sua juventude, assistindo seus filmes em replay, tem fome de uma glória reencontrada, o que é a motivação para seus atos profundamente egocentrados.

Narciso de saias, esta atriz sedenta por holofotes e um tanto rejeitada pelo sistema (que quer as novinhas e despreza as envelhecidas), transformada em figura excêntrica demais para o gosto da indústria do entretenimento normalóide, Norma Desmond vai seguindo o declive que conduz o filme a profundezas dignas de Bergman ou Tarkovsky. Apesar de seus momentos de novelão melodramático mexicano, Sunset Boulevard é de um impacto equiparável ao de O Sétimo Selo ou A Infância de Ivan.

Norma acaba por ser uma encarnação hollywoodiana da lendária Salomé, símbolo de uma feminidade traída que acaba demandando a cabeça na bandeja ou o cadáver boiando na piscina daquele que ousou rasgar o tecido precioso da ilusão romântica. Se ela investe (afeto e dinheiro) às mancheias em seu escritor de estimação, é um pouco com a atitude mandona e megera de quem acha que a grana compra tudo. Mas descobre que o capital não compra fama eterna assim de forma tão fácil e mecânica quanto os capitalistas desejariam. Fama efêmera, capital impotente.

Esta estrela de Hollywood olha para os astros da noite murmurando: the stars are ageless (“as estrelas não envelhecem”). Mas descobre amargamente que a condição humana não comporta escapatórias: é rua de mão-única, da maternidade ao cemitério, e envelhecer é destino inelutável para aqueles que desejam seguir vivendo até encontrarem seu crepúsculo natural.

Tudo passa, até a glória.

E isso descobrem muitos dos que tornaram-se gloriosos muito cedo, de Marilyn Monroe a Kurt Cobain. Sempre me impressionou o fato de que os famosos muitas vezes acabam suicidados: é como se batessem suas cabeças até o coma cerebral contra o labirinto de espelhos onde vivem. Norma Desmond deseja as câmeras, os holofotes, as atenções, mas quer mais: deseja ser regida pelos maiores, estar em relações com os grandes criadores, de modo que investe esperanças no plano de ser estrela de um novo épico de Cecil B. De Mille. Grandes planos, imensos tombos.

No fim das contas, quando seu plano mirabolante mostra-se vão e esfacela-se no chão, como castelo de areia à beira da praia que era, aí então destrava a psicose, aflora a fúria de Salomé, ela pega um atalho para outro tipo de fama. Melhor alguma fama do que fama nenhuma. Ainda que seja a fama dos loucos, dos assassinos, dos pinéus, dos que colapsaram, dos que perderam as estribeiras e cometeram o irremediável.

São raros os momentos da história do cinema onde uma obra-de-arte chega ao grau de reflexão profunda sobre a loucura que Billy Wilder conseguiu realizar no desfecho inolvidável de Crepúsculo dos Ídolos. Um filme que acaba possibilitando um diálogo com a obra de um Artaud, um Nietzsche ou um Van Gogh. Se algum Foucaultiano um dia tivesse a ideia de mapear uma História da Loucura no Cinema, Norma Desmond teria que aparecer em uma tribuna de honra. Pois esta personagem tem a mistura de comédia e tragédia, de esperança grandiosa e fragilidade emocional, que marcou tantos dos maiores e mais atormentados artistas da história…

Wilder aproveita também para satirizar – como já havia feito de modo brilhante em The Front Page – uma indústria cultural e uma mídia de entretenimento que usam as estrelas como se fossem absorventes, estes que depois da menstruação delem ser logo lançados no lixo. Depois do spotlight, o olvido. A fila anda. Mais recentemente, Kurt Cobain e Courtney Love – casal trágico e desajustado, deveras, mas que também eram capazes de intensa empatia e conexão – souberam satirizar toda esta cultura hegemônica do “use once and destroy”. 

O que me leva a pensar que a colonização que o capitalismo opera sobre a indústria do cinema gera fenômenos como as estrelas descartáveis, usadas em sua juventude para adornar os filmes com belos rostinhos, e cujas vidas pessoais podem ser investigadas de modo impiedoso pelo comércio de fofocas e pelos sensacionalismos midiáticos que propulsionam a mídia marrom a esta indústria conexa. Mas vou fechar o bico quanto a outras especulações e Pierre Bourdieuísmos que talvez não venham tanto a propósito aqui.

Em suma: não é só um filmaço, é uma obra-de-arte das mais magistrais do século 20, de tanta qualidade quanto um romance de Proust ou um álbum sessentista de Bob Dylan. Sunset Boulevard é um pouco como a lendária Salomé se fosse renascida em Hollywood, com pitadas de Cleópatra e algo de Elizabeth Taylor. No filme, uma apaixonada desiludida vê desmoronar seu castelo de cartas: o filme é sobre o colapso de uma fantasia subjetiva, mas descreve este procedimento de decadência e de insânia como parte de uma teia de relações bastante complexa, analisável inclusive pelo seu aspecto sociológico e político.

Norma Desmond, em seu momento de fúria, ao notar que sua Salomélica dança dos 7 véus não havia surtido o efeito desejado sobre o mundo, perde o controle e transforma-se em criminosa. Será que seu inconsciente lhe ditou que era melhor ser famigerada do que não ter nenhuma fama? Eis a condição humana, desde Homero descrita de modo pungente através dos inesquecíveis desvarios de Aquiles na Ilíada: nós humanos não queremos somente sobreviver, e não suportamos apenas viver, queremos mais do que isto: temos vontade de significar valer. 

Debaixo da luz cósmica de estrelas silentes e enigmáticas, banhados pelas emanações cósmicas da estrela solar, não suportamos bem as sombras, as catacumbas, os porões: no isolamento sofremos e murchamos. “Nenhum homem é uma ilha”, como lembra o lapidar verso de John Donne, e o ser humano que tentar ilhar-se irá certamente violentar sua própria natureza. Isolar-se em uma mansão repleta de espelhos, habitar ali em narcísica auto-celebração que não cessa, é a receita para a catástrofe – e uma que Norma Desmond continua a nos ensinar. Sunset Boulevard: tratado sobre a tragédia do narcisismo.

De todo modo, o filme parece animado pela presença deste afeto talvez universal e que faz com que todo ser humano possua a vontade de que o outro enxergue-o, reconheça-o, valorize-o. Somos universalmente desejosos de relações com o amplo domínio da alteridade, sem o qual nosso valor próprio naufraga aos nossos próprios olhos. Só sei o quanto valho a partir do outro, do ouro ou desdouro que o outro me conceda ou me retire. Sedentos por reconhecimento, às vezes marchamos às cegas, irracionais como somos tanto e tão frequentemente, apesar de termos nos auto-proclamado, narcisinhos que somos, como “homo sapiens” (“homens sábios”? Aonde encontrá-los?).

 O glamour é só uma nova embalagem para uma velha isca que mordemos e mordemos, como peixes pescados mil vezes e que jamais aprendem. Glamour: esta mercadoria oferecida em mil anzóis por publicitários e empresários, interesseiros e oportunistas, comerciantes e políticos, e que é um dos símbolos mais fortes do quanto o capitalismo colonizou nosso espaço íntimo, invadiu nossos sonhos, reinando até sobre nossas fantasias. É verdade que o desejo de fama já existia em sociedades pré-capitalistas – e que os gregos, como Jean-Pierre Vernant tão bem argumenta, já discutiam de modo intenso sobre a questão da bela morte, da reputação póstuma, do papel do artista como aquele que transmite à posteridade um retrato imorredouro daquilo que merece ser memória. Mas hoje o capitalismo reina também sobre nossos sonhos de fama e Norma Desmond – ultra-capitalista e mega-neurótica -mostra-nos um caso paradigmático do quanto temos tendência massiva a sermos Hollywoodianescos quando sonhamos com a glória.

Nosso imaginário também precisa ser revolucionado se quisermos cuspir fora das profundezas de nossa psique este vírus ideológico que é o individualismo narcísico competitivista que hoje passa por “natureza humana” no discurso do capitalismo liberal.

Vivendo em uma cultura capitalista que é competitiva até as raias da loucura, somos convidados a pensar a glória como algo acessível a uma pequena elite; mas, apesar dos reality shows e Big Brothers Televisivos, sabemos muito bem que não há democracia autêntica na vigência de uma meritocracia aristocrática. Será que não colheremos o conflito e a violência enquanto continuarmos pondo combustível na maquinaria deste ideário que conduz cada um a querer reinar e brilhar sozinho debaixo dos holofotes de uma glória exclusivista? Pois não há glória do eu que chegue aos pés da glória do commons. Mas ao commons estamos – Saramago ensina – cegos.

Norma Desmond, depois de muito caminhar pela avenida da fama, descobre fatalmente, ao entrar na rua do crepúsculo, que sua fantasia despedaçou-se ao contato com a realidade e sua vida transformou-se nas ruínas de um ídolo destroçado. Afinal de contas, ela tinha, como todos os ídolos, pés de barro.

Eduardo Carli de Moraes
29 de Maio de 2015
A Casa de Vidro.com

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“LER É VIAJAR DE GRAÇA”, por Eduardo Carli @ A Casa de Vidro.com

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“Atlas of Wander”, de Vladimir Kush

Ler é viajar de graça, no espaço e no tempo. Viajar ao epicentro sangrento da Guerra de Tróia com Homero. Ir fazer turismo em meio aos tumultos revolucionários de 1830 a 1848 em Paris embarcando n’Os Miseráveis de Victor Hugo. É visitar o litoral da Argélia e conhecer a cidade de Oran em meio à Peste, nas páginas de lucidez pontiaguda de Albert Camus (e nas quais podemos nos relacionar com os empestados em quarentena, sem risco de contágio…).

É desperdício viajar só de carro ou avião, deixando atrofiar as asas da imaginação, se trens e bikes, livros e discos, transas e amores, filmes oníricos e substâncias psicotrópicas (para me limitar a somente alguns exemplares de um vasto reino de possíveis!) também fornecem-nos oportunidades preciosas de viagem. Com O Fauno de Mármore, passeei na Itália de modo meio feérico por uma semana, na companhia encantadora da prosa de Hawthorne, testemunhando Donatello e Miriam, casal que tem seu destino interconectado pelo sangue derramado, já que foram cúmplices na produção de um cadáver esmagado contra o chão do abismo a que foi lançado…

Quem já esteve na Itália para testemunhar um crime de tal pathos trágico como pude fazer nas asas de The Marble Faun através de alguma agência de viagem usada pela Classe A? Livro, minha gente, é que é veículo. Meio de transporte espantoso em sua capacidade de nos levar também em uma viagem pelo passado, pelo ausente, presentificado pelo verbo que permanece mesmo quando seu autor já é caveira na tumba. Ó paisagens lidas, ó lugares onde nunca estive mas pude vislumbrar através da janela dos livros, evoé!

Muitos dos escritores que eu adoro eram também adoradores de viagens, deleitando-se não só em realizá-las mas também em escrevê-las: de Melville a Cervantes, de Joseph Conrad a Mark Twain, viagens de toda estirpe são legião e recheiam algumas das mais célebres páginas já produzidas por pena humana. Algumas destas viagens são sinistras: dirigem-se rumo Ao Coração das Trevas do colonialismo ou à caçada insana a uma fera mítica como Moby Dick. Lendo O Vermelho e o Negro, fui levado pela mão por Stendhal a conhecer aquela região montanhosa, entre a França e a Suíça, onde Julien Sorel têm seu mundo íntimo lançado ao caos dos ímpetos díspares: o que escolher, a ambição mundana e a ânsia por enriquecimento – idolatrar Napoleão – ou abraçar os mistérios excessivos do amor nos braços de Mademoiselle Rênal? E não há trip ao Rio de Janeiro que se compare à viajar nos contos e romances de Machado…

Às vezes convêm desconfiar do escritor, que às vezes pode estar escrevendo sobre viagens mais com a fantasia desabrida do que rigoroso em sua consulta aos mapas e aos atlas. A viagem à Amérika que Kafka descreve em seu romance de estréia não pretende ser verossímil: seu autor nunca esteve in loco nos EUA e dá-se a liberdade de subverter a realidade, como naquela cena em que a Estátua da Liberdade, na baía de Manhattan, é descrita kafkianamente empunhando uma espada (símbolo da violência, da opressão) ao invés da tocha (pretensamente iluminista… a Statue of Liberty, afinal, é presente-de-francês e deveria servir para entoar um Liberté, Egalité, Fraternité em anglo-saxonês…). 

Embarcando em livros assim, nós expandimos nossos horizontes como se tivéssemos viajado de fato pelo espaço, na companhia dos atos e destinos de Kurtz ou Ahab, Ulisses ou Quixote. Ler é viajar de graça pra conhecer gente que no mundo não há, mas que vive uma vida que atravessa as gerações através de sua proliferação temporal e espacial pelas biliotecas, livrarias, HDs repletas de ebooks. Viajar pelo tempo e pelo Espaço, pela História e pelo Cosmos, é um dos serviços maiores que a literatura pode nos prestar. Seguir o chamado e responder “sim” ao convite é o jeito melhor para seguir à risca, ainda que sob restrições orçamentárias, as injunções exploratórias tão bem expressas por Mark Twain (e dotadas de um espírito que ecoa no Walden de Thoreau ou no filme Into the Wild – Na Natureza Selvagem):

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Dito isso, posso partir para a descrição de minha última viagem gratuita, cujo bilhete custou-me a bagatela de 6 dólares (graças ao abençoado sebo de Toronto, o MBV Books da Bloor Street). Como grande admirador da prosa de Hawthorne – em especial os livraços A Letra Escarlate (publicado em 1850) e The Blithedale Romance (já resenhado por mim no blog paralelo Awestruck Wanderer), devorei em poucos dias O Fauno de Mármore. Eis o último dos grandes livros do autor, publicado em 1860, 4 anos antes da morte de Hawthorne (e que na Inglaterra saiu com outro título: Transformation). O romance é o fruto literário mais significativo que Hawthorne criou enquanto morou na Europa e é publicado em uma época em que seu país de origem (os EUA, ou “Nova Inglaterra”, cuja realidade puritana é tão belamente exposta por A Letra Escarlate) estava prestes a vivenciar as fúrias da Guerra Civil (1861-1865).

Ler O Fauno de Mármore equivale a passar uma semana intensiva de imersão na Itália. Quem nos acompanha nesta jornada é um caudaloso rio narrativo, brilhantemente tecido pelo talento de Hawthorne. É um daqueles livros que fisga o leitor com seu verbo encantador e nos força a atravessar as páginas com velocidade e voracidade, em busca da solução dos mistérios que nos são propostos (alguns deles destinados a permanecer envoltos por uma neblina indevassável, enigmas sem resposta). O livro nos carrega, como se fosse um guia turístico de lábia altamente sedutora, por uma Itália repleta de estátuas e ruínas, crimes e pecados, seduções e conflitos.

A espessura descomunal do Passado deixa o Presente com outra cara: longe de estar “desconectado” do que foi, como ocorre na experiência tão epidêmica no mundo contemporâneo e resumível no termo imediatismo, o tempo Presente de Hawthorne está a todo momento em contato com o que sobreviveu hoje das épocas já transcorridas. O palco está montado para uma reflexão ampla sobre a vida e a arte (quem imita quem?); o pecado e a redenção; o acaso e o destino; a passagem do Tempo e as caveiras e estátuas que este processo deita pelo caminho.

A Roma de Hawthorne  é um espaço no território planetário repleto das ruínas de várias civilizações; lá descansam os ossos de etruscos, romanos e cristãos; lá o poder Papal não descansa de sua rixa contra os hereges e os pagãos; lá, a multidão deleita-se com a carnificina e não cessa de agonizar o Gladiador cuja estátua tanto estarrece os personagens de O Fauno de Mármore. Na companhia dos quatro personagens principais – Miriam, Donatello, Hilda e Kenyon – o leitor tem a chance de ser levado a uma vasta exploração de alguns dos tesouros artísticos da humanidade – e isso em meio às urgências de um presente de intriga e de crise.

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Roma

As catedrais e piazzas, os museus e galerias, por onde circulam os personagens desta intricada trama, são descritas pelo narrador com tanta arte que ficamos mesmo com a impressão de que a Itália é um grande museu a céu aberto, onde estão congregadas e iluminadas pela luz do sol e das estrelas algumas das mais significativas produções artísticas já geradas pela grande (e fratricida) Família Humana. A primeira característica do livro que salta aos olhos, logo nas primeiras páginas, é a densidade temporal que a narrativa carrega; o tamanho do passado é enfaticamente exposto por Hawthorne como imenso, demasiado esmagador:

“The state of feeling which is experienced oftenest at Rome is a vague sense of ponderous remembrances; a perception of such weight and density in a by-gone life, of which this spot was the centre, that the present moment is pressed down or crowded out, and our individual affairs and interests are but half as real, here, as elsewhere. (…) Side by side with the massiveness of the Roman Past, all matters, that we handle or dream of, now-a-days, look evanescent and visionary alike.” HAWTHORNE, The Marble Faun, Oxford World Classics, Chapter I, p. 8

Diante da enormidade do passado, o presente parece oprimido por um fardo: os vivos sentem-se indignos de durar – e de criar – diante de tal grandeza dos tempos idos. É difícil, em especial, ser um artista contemporâneo em um local onde a grandeza do passado com tanta loquacidade esmaga as evanescentes pretensões dos vivos à criação de algo digno de durar. Em O Fauno de Mármore, três estrangeiros em Roma estão engajados em uma existência artística, criativa, criadora: Hilda é uma pintora que dedica-se ao estudo e à reprodução das obras dos Grandes Mestres do Passado; Kenyon é um escultor em busca do segredo para animar o mármore bruto com a chama da vida; Miriam é uma misteriosa femme fatale que carrega consigo nos subterrâneos de seu íntimo algum segredo inconfessável e trágico. Os três – Hilda, Kenyon, Miriam – estabelecem laços de amizade com um italiano misterioso, Donatello, que na primeira cena do livro é descrito por seus companheiros como quase idêntico ao Fauno esculpido por Praxíteles, na Grécia de dois milênios atrás, obra exposta no Museu do Capitólio em Roma, onde passam-se os primeiros episódios d’O Fauno de Mármore.

Em suas primeiras páginas, Hawthorne já desvela seu gênio ao situar sua narrativa simultaneamente nos terrenos histórico e mítico. O realismo estrito – como praticado pela escola naturalista de Émile Zola ou em certos romances “sociológicos” como As Vinhas da Ira de Steinbeck – é deixado para trás em prol de uma narrativa que beira o fantástico, mas que está sempre de raízes bem plantadas no solo do passado histórico da Humanidade (sobretudo o Passado que sobrevive como legado artístico).

Na estátua do Fauno, contemplada pelo quarteto de personagens, brilham certos mistérios que será o deleite de Hawthorne explorar através deste romance-viagem. Por exemplo: como é possível que uma matéria-prima bruta e sem vida, como o mármore, possa ser esculpida a ponto de parecer animada e a ponto de termos a ilusão de que ali habita o calor da vida? A obra-de-arte – representada aqui pelo Fauno de Mármore, que os personagens testemunham enquanto caminham e conversam pelo museu do Capitólio – parece estar

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“imbued with actual life. The whole statue conveys the idea of an amiable and sensual creature, easy, mirthful, apt for jollity, yet not incapable of being touched by pathos. (…) Perhaps it is the very lack of moral severity, of any high and heroic ingredient in the character of the Faun, that makes it so delightful an object to the human eye and to the frailty of the human heart. The being, here represented, is endowed with no principle of virtue… We should expect from him no sacrifice nor effort for an abstract cause; there is not an atom of martyr’s stuff in all that softned marble; he has a capacity for strong and warm attachment… and it is possible, too, that the Faun might be educated through the medium of his emotion. (…) Only a sculptor of the finest imagination, the most delicate taste, the sweetest feeling, and the rarest artistic skill – in a word, a sculptor and a poet too – could have first dreamed of a Faun in this guise, and then have suceeded in imprisoning the sportive and frisky thing in marble. Neither man nor animal, and yet no monster, but a being in whom both races meet, on friendly ground! If the spectator broods long over the statue, he will be conscious of its spell; all the pleasantness of sylvan life, all the genial and happy characteristics of creatures that dwell in woods and fields, will seem to be mingled and kneaded into one substance… After all, the idea may have been no dream, but rather a poet’s reminiscence of a period when man’s affinity with Nature was more strict, and his fellowship with every living thing more intimate and dear.” HAWTHORNE, The Marble Faun, Oxford World Classics, Chapter I, p. 10-11

O fauno é uma figura mítica, silvestre, mezzo homem e mezzo animal, que procura a companhia de sátiros e adoradores de Baco; costuma estar acompanhado por flautas ou outros instrumentos musicais portáteis, como grande apreciador que é das melodias, dos ritmos, das cadências, das danças; sua vida parece toda devotada às alegrias da carne e às jovialidades festivas e anárquicas. De bom humor, inspirados a dialogar de modo desembaraçado e poético, Miriam, Hilda e Kenyon, manifestam estarrecido sua impressão a Donatello de que este é parecidíssimo com a estátua do Fauno. Hawthorne tratará de sublinhar com recorrência este paralelismo, até mesmo para tornar mais intenso o contraste entre o Donatello que inicialmente conhecemos e aquele outro Donatello em que ele vai acabar se metamorfoseando como efeito de seu relacionamento com Miriam.

O que vale para o Fauno de Mármore, vale para sua encarnação Donatello. Este italiano, crescido em região pastoral e bucólica, é uma espécie de estrangeiro em sua própria pátria: Roma não é seu ambiente originário, o território familiar, para Donatello. Donatello, o fauno contemporâneo, representa a figura, sadia em sua simplicidade, sábia em sua gaia ciência, que aceita sem neura sua natureza híbrida, mescla de animal e de humano. Donatello encarna a aptidão para celebrar a existência em meio à natureza selvagem, não-domada, junto a companheiros de carnaval e bacanal. No romance, Donatello aparece como encarnação de um certo hedonismo, de uma tendência epicurista e pagã; é um caráter que não foi estragado por uma educação moralista, severa e puritana como aquela que forja a personagem Hilda, virginal mas severa, pura mas solitária, a Mulher Pomba devotada à Virgem Maria e ao ideal ascético….

Donatello é o bon vivant capaz de pôr regras morais em suspenso para cair na folia; é aquele capaz de fruição ampla de sua comunhão com a Natureza e com o outro. Fora do eixo em seu presente, Donatello é pintado pela pena de Hawthorne como representante de algo de ancestral, de arcaico, já quase perdido. Não seria despropósito relacionar Donatello, o Fauno redivivo, com o princípio dionisíaco de que fala Nietzsche e que era tão exuberante e potente nas obras-de-arte dos poetas trágicos gregos (em especial Sófocles e Ésquilo), sendo depois soterrado pela maré montante do racionalismo socrático e do moralismo judaico-cristão.

Hawthorne procura registrar as crises existenciais por que passa Donatello em suas experiências, algumas delas bem traumáticas, nesta Roma repleta de ruínas, acossada pelas malárias, perigosa pelo excesso de crimes que nela foram cometidos e que ainda se cometem. O que impele a narrativa avante, desde o começo, é o fascínio mútuo, cheio de pitfalls, entre Donatello e Miriam. Tanto é assim que O Fauno de Mármore contêm uma sublime descrição de relacionamento, em que Donatello e Miriam são descritos no fluxo de seus afetos, na correnteza de suas conexões e desconexões, nos precipícios da paixão e da violência.

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Pintura de Caravaggio, “Judith Decapitando Holofernes”

Se Donatello é comparado ao Fauno de Praxíteles, Miriam, por sua vez, é descrita como se pertencesse a uma linhagem de mulheres a um só tempo fortes e amaldiçoadas, oprimidas e vingativas. Miriam é equiparada à rainha egípcia Cleópatra, à lendária e bíblica Judith, ou à personagem histórica Beatrice de Cenci, executada em 1599 após ter participado, junto com as outras mulheres de sua família, do assassinato de seu pai abusivo, estuprador e incestuoso. Esta  última figura – Beatrice Cenci – estampa a capa do livro em sua edição da Oxford World Classics e, durante a narrativa, Hawthorne debruça-se sobre a pintura de Guido Reni para estabelecer vínculos misteriosos entre a Beatrice da pintura e a personagem Miriam. Pesquisando sobre o tema, descobri um artigo de  Charles Nicholl no London Review of Books que lança luz sobre o quadro (e a mulher nele representada):

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Pintura de Guido representando Beatrice Cenci (1577-1599), condenada a morte por parricídio.

 “Beatrice Cenci was – to take a sample of soundbites over the centuries – a ‘goddess of beauty’, a ‘fallen angel’, a ‘most pure damsel’. She was also a convicted murderer. This is a charismatic combination, not least here in Italy, and her name has lived on, especially in Rome, where she was born and where she was executed in 1599. The story as it comes down to us has the compactness of legend. It tells of a beautiful teenage girl who kills her brutal father to protect her virtue from his incestuous advances; who resists interrogation and torture with unswerving courage; and who goes to her execution unrepentant and borne along on a wave of popular sympathy. There have been many literary treatments of the story, the most famous of which is Shelley’s verse-drama, The Cenci, written in 1819. Other writers drawn to the subject include Stendhal, Dickens, Artaud and Alberto Moravia. The appeal of the story is partly lurid – a pungent mix of Renaissance sex and violence; a sense of dark deeds behind the closed doors of a prominent Roman family. It affords a glimpse, in Shelley’s words, of ‘the most dark and secret caverns of the human heart’. There is also the ethical conundrum it poses, its puzzle of legal guilt versus moral innocence….” – Charles Nicholl. Screaming in the Castle: The Case of Beatrice Cenci. Leia na íntegra

O tema pisado e repisado que apregoa “os opostos se atraem” aparece também em O Fauno de Mármore. Donatello e Miriam parecem sentir um magnetismo conduzindo-os à interconexão de seus destinos que é diretamente proporcional às suas radicais diferenças de caráter. Donatello, como o paralelo com a figura do Fauno insiste em nos contar, é alguém transbordante de energia animal, fisicamente vigoroso, surdo à moralidade, indiferente às leis, dizendo sim somente aos ímpetos de seu coração juvenil. “He made no impression of incompleteness, of maimed or stinted nature. In social intercourse, these familiar friends of his habitually and instinctively allowed for him, as for a child or some other lawless thing, exacting no strict obedience to conventional rules, and hardly noticing his eccentricities enough to pardon them. There was an indefinable characteristic about Donatello, that set him outside of rules.” (Chapter II, p. 13)

Já Miriam, talentosa pintora, é uma mulher que defende-se atrás de uma fortaleza, que esconde-se detrás de uma nuvem de mistério, que age como se não pudesse permitir a ninguém que lhe roube seus segredos inconfessáveis. “She kept people at a distance, without so much as letting them know that they were excluded from her inner circle. (…) Miriam, as fair as she looked, was plucked up out of a mystery, and had its roots still clinging to her. She was a beautiful and attractive woman, but based, as it were, upon a cloud, and all surrounded with misty substance…” (Chapter III, p. 20)

O mistério que envolve o passado de Miriam é uma das atrações que seduz o leitor a seguir virando as páginas de O Fauno de Mármore. Em um episódio magistral, que tem a força sinistra que encontramos na obra de um Edgar Allan Poe ou Hoffman, Miriam e Donatello vão em uma jornada subterrânea pela Catacumba de São Calixto. A obra de Hawthorne, nestas páginas, ganha uma dimensão arqueológica e antropológica: seus personagens estão em relação com um passado ainda mais antigo do que aquele representado pelo legado artístico que Roma abriga e defende. Penetrando nas entranhas da terra com suas pequeninas tochas em punho, descobrem a tenebrosa realidade que restou dos vivos de um outrora muito distante, agora reduzidos a ossos e caveiras, abrigados em sarcófagos e outros baús de restos.

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Sarcophagus of Junius Bassus, from Rome, Italy, ca. 359 CE. Marble, 3′ 10 1/2″ X 8′. Musei Storico del Tesoro della Basilica di San Pietro, Rome. SAIBA MAIS.

“Among all extinct dust, there might perchance be a thigh-bone, which crumbled at a touch, or possibly a skull, grinning at its own wretched plight, as is the ugly and empty habit of the thing. (…) They found two sorcophagi, one containing a skeleton, and the other a shrivelled body, which still wore the garments of its former lifetime.

“I hate it all!” – cried Donatello, with peculiar energy.  “Dear friends, let us hasten back into the blessed daylight!”

From the first, Donatello had shown little appetite for the expedition; for, like most Italians, and in especial accordance with the law of his own simple and physically happy nature, this young man had an infinite repugnance to graves and skulls, and to all that ghastliness in which the Gothic mind loves to associate with the idea of death. He shuddered, and looked fearfully round, drawing nearer to Miriam, whose attractive influence alone had enticed him into that gloomy region.” (CHAPTER III, p. 22)

Donatello é demasiado jovem para interessar-se pela morte, mas o magnetismo que emana de Miriam convoca o fauno a penetrar nos mistérios da mortalidade. O Fauno de Mármore está interessado a descrever os mecanismos do Destino que podem levar um amor a atingir tal intensidade de pathos que ele acaba dando como frutos ações criminosas. Como Otelo faz ao estrangular Desdêmona, ou como Clitemnestra vingando-se de Agamêmnon. Os ingredientes de uma tragédia estão postos: a vivacidade exuberante dos afetos de Donatello somam-se aos radicais mood swings de Miriam (personagem que um psiquiatra de nossos dias talvez diagnosticasse como vítima de transtorno bipolar) e o livro Fauno de Mármore logo é conduzido ao precipício do assassinato. A figura persecutória, saída das catacumbas, que passa a assombrar Miriam como uma sombra tenebrosa e malsã, será lançada ao abismo por este casal – Donatello e Miriam – que tornam seus destinos irremediavelmente entrelaçados através de sua cumplicidade no crime. Hawthorne não se apressa a aclarar os mistérios – pelo contrário, deleita-se em multiplicar os pontos de interrogação, conforme progredimos na leitura, pasmos diante das transformações radicais que acometem personagens que pensávamos conhecer bem…

O Fauno de Mármore relata-nos relacionamentos mutuamente transformadores: Donatello e Miriam, Kenyon e Miriam, são dois casais que servem à Hawthorne para exemplificar os complexos vínculos estabelecidos pelos humanos e de que modo estes forjam destinos e produzem fatalidades. Nem Donatello nem Miriam são figuras propriamente diabólicas ou malévolas, mas são conduzidos pelas circunstâncias e pelas relações humanas a uma situação onde um crime é cometido pelos dois, em cumplicidade, o que funciona no romance como uma espécie de clímax ou momento crítico. É a partir deste crime, deste pecado, que Hawthorne porá sua prosa altamente filosófica e reflexiva a meditar sobre “one of those fatalities which are among the most insoluble riddles propounded to moral comprehension; the fatal decree, by which every crime is made to be the agony of many innocent persons, as well as of the single guilty one.” (CHAPTER XI, p. 73) O que Hawthorne formulará mais adiante em termos ainda mais míticos: “Every crime destroys more Edens than our own!” (Chapter XXIII, pg. 165)

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Miriam e Donatello, unidos pelo sangue que derramaram (ele com as próprias mãos, ela com um olhar súplice), passam por altas reviravoltas íntimas. Um dos temas principais de Hawthorne é o quanto a experiência da transgressão, o cometimento do ato proibido, gera uma catarata de consequências, entre elas a vivência íntima de um remorso torturante. Donatello, que no começo do livro é descrito como jovial e alegre sátiro dançante, depois de seu crime parece perder toda sua joie de vivre. Isolado em sua torre, carrega em seu íntimo um segredo devastador, que afasta-lhe da comunidade antes vivenciada tão intensamente e impede-lhe a continuação das comunhões com os entes naturais e humanos. Torturado pelas angústias, sentindo o peso da culpa inconfessada, Donatello se metamorfoseia em um personagem aparentado com o Raskolnikóv de Dostoiévski em Crime e Castigo. Esta transmutação que acomete Donatello é uma das mais impressionantes ocorrências narradas por Hawthorne, que como um pintor que sabe contrastar a luz e as sombras, retrata mudanças radicais:

“In his sportive childhood, he had played among the little rustics, and been at once the wildest and the sweetest of them all; in his very infancy, he had plunged into the deep pools of the streamlets, and never been drowned, and had clambered to the topmost brances of tall trees without ever breaking his neck. No such mischance could happen to the sylvan child, because, handling all the elements of Nature so fearlessly and freely, nothing had either the power or the will to do him harm. He grew up, said there humble friends, the playmate not only of all mortal kind, but of creatures of the woods… It could be imagined that the valleys and hill-sides about him were a veritable Arcadia, and that Donatello was not merely a sylvan Faun, but the genial wine-god in his very person. (…) But Donatello was sadly changed, since he went to Rome. The village-girls now missed the merry smile with which he used to greet them…”(XXVI, p. 184)

Roma em 1860

Roma em 1860

De contrabando, Hawthorne também comunica toda uma crítica social, embutida em alguns dos pensamentos do personagem Kenyon, o escultor que dedica-se intensamente à criar um busto de seu amigo Donatello. A força do mito da Idade de Ouro, do Éden perdido, manifesta-se intensamente em Hawthorne – que não é escravo desta mitologia, mas sim emprega-a de modo idiossincrático e poético.  Kenyon julga que hoje o mundo é mais triste do que foi um dia. A Humanidade perdeu em alegria conforme cresceu em idade. Na era dos businessmen que papagueiam sem cessar seu time is money, na época de atrozes capitalistas que exploram a mais valia em sweatshops na Ásia e na África, encontramos nas páginas de Hawthorne uma singular defesa de uma vida mais lúdica, menos respeitadora de labutas cronometradas e jornadas de trabalho de 12 horas diárias. A impressão de Kenyon é a de que outrora a terra foi florida, hoje é mais uma wasteland repleta de ruínas, onde os vivos estão esmagados pelo Passado. Um hino à harmonia com a Natureza e a uma sábia hédonê ética parece-me emanar das seguintes palavras, que parecem, de certo modo, endereçadas a alguém no Olimpo… Quem sabe Gaia?

“…the once genial earth produces, in every successive generation, fewer flowers than used to gladden the preceding ones. (…) Mankind are getting so far beyond the childhood of their race, that they scorn to be happy any longer. A simple and joyous character can find no place for itself among the sage and sombre figures that would put his unsophisticated cheerfulness to shame. The entire system of Man’s affairs, as at present established, is built up purposely to exclude the careless and happy soul. The very children would upbraid the wretched indivual who should endeavour to take life and the world as (what might naturally suppose them meant for) a place and opportunity for enjoyment.

It is the iron rule in our days, to require an object and a purpose in life. It makes us all parts of a complicated scheme of progress, which can only result in our arrival at a colder and drearier region than we were born in. It insists upon everybody’s adding somewhat to an accumulated pile of usefulness, of which the only use will be, to burthen our posterity with even heavier thoughts and more inordinate labour than our own. No life now wanders like an unfettered stream; there is a mill-wheel for the tiniest rivulet to turn. We go all wrong, by too strenous a resolution to go all right.”

HAWTHORNE. The Marble Faun.
Chapter XXVI – The Pedigree of Monte Beni. Pg. 186.

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