TURISTA ESPACIAL: Quando a ficção científica abraça a Ecologia – Sobre o filme “La Belle Verte” de Coline Serreau (França, 1996) #CinephiliaCompulsiva #SciFi

Turista Espacial é um sci-fi fascinante e inovador. É capaz de unir os temas já bem batidos, como a viagem intergaláctica e o contato entre inteligências de diferentes planetas, com uma crítica social arguta de nossa civilização atual, ecocida e catastrófica. É uma obra em que a ficção científica abraça a ecologia, comentando de modo sagaz os dilemas e incógnitas do Antropoceno, ainda que o tom seja mais leve do que aquele dark mood que marca obras cruciais que depois explorariam sendas semelhantes: Filhos da Esperança (Children of Men), de Alfonso Cuarón, e Expresso do Amanhã (Snowpiercer), de Bong Joon-ho.

Assim que o filme se inicia, somos lançados a uma imersão em uma sociedade estranha, onde ocorre um ritual raro, difícil de decifrar: em meio aos verdes prados acariciados pela brisa, um matriarcado hippie realiza assembléias bucólicas onde debate-se, entre outros temas, a iniciativa de mandar representantes ao planeta Terra.

Logo o espectador percebe estar no seio de um filme de ficção científica dos mais espantosos, com aliens dos mais benignos e sábios, nada nojentos e fatais como aqueles construídos pelo clássico de Ridley Scott (Alien – O Oitavo Passageiro) e depois levado adiante nas obras de James Cameron e David Fincher.

Em La Belle Verte, de Coline Serreau, esses ETs humanóides têm anciãos que chegam a viver quase 300 anos. Esta longevidade toda foi alcançada bem longe do escarcéu terrestre de carros, bombas nucleares, guerras colossais, devastação ecosistêmica e extinção em massa da diversidade biológica e cultural. Longevos são os seres sábios que souberam acordar para a importância quintessencial do Verde, símbolo de uma união holística do organismo com o meio natural.

Na assembléia, um senhor pede a palavra e relembra os tempos em que esteve em Paris, na época turbulenta das Revoluções: lembra dos burgueses querendo guilhotinar a cabeça do rei, dos proletários querendo as cabeças de burgueses na bandeja, dos imperadores genocidas que se apropriam da república como se esta fosse sua propriedade e o instrumento dócil de seu imperialismo agressivo… O caos dos assuntos humanos é pintado em meio ao idílio extraterreno, onde Napoleão Bonaparte e Robespierre despontam com a aura tenebrosa de vilões, desprovido de halos heróicos. La Belle Verte tem a comunicar um outro ideal, anti-napoleônico, contrário às dominações imperiais mas também ao domínio humano excessivo sobre a Natureza, que nos leva a despencar na húbris e no ecocídio.

coline-serreau-06O filme, que além de dirigido, foi escrito e estrelado por Coline Serreau, abre com chave cômica: o retrato dos terrestes que nos é ofertado, se não chega a ser misantrópico, é pelo menos uma bem-dada caçoada risonha pra cima dos humanos da Terra. Somos risíveis criaturas estúpidas, ainda atreladas a carros que queimam energias fósseis e vomitam poluição; ainda cindidos em assassinas rivalidades patrióticas, étnicas ou tribais; tão pouco sábios que criaram uma situação planetária tão desgraçada e instável que nenhum dos ETs de inteligência média deseja entrar em contato conosco.

Na assembléia, não há quem se manifeste como voluntário para visitar a Terra; ninguém acredita na eficácia de uma intervenção humanitária alienígena; em suma, aos olhos da imensa maioria da assembléia de extraterráqueos, os earthlings são um caso sem esperança… O que lembra uma tirinha de Calvin e Haroldo que cai como uma luva neste contexto:

etcalvin

A protagonista do filme é única alien corajosa o bastante para vir nos visitar. Pousa na Terra e é subitamente fica maravilhada pelas grandes árvores de um parque de Paris, porém sente-se agredida e insultada em suas narinas pela atmosfera tóxica, mega-poluída, da megalópole francesa. O filme vai delineando suas barricadas no conflito ideológico, fincando sua fidelidade a figuras como Rachel Carson, autora de Silent Spring, que vociferou contra o DDT e os descalabros da indústria petroquímica em uma das obras fundamentais da ecologia no século XX.

A visitante do Além-do-Humano, desacostumada com aquilo que o hábito ensinou-nos que é natural, sai andando pelas calçadas de Paris, onde ela é intensamente consciente de que pisa sobre cimento que foi esparramado sobre a terra nua, o que impede o solo de ser espaço de uma florescência vegetal luxuriante. Nas calçadas, lotadas de bostas de animais que o poder público ainda não havia podido limpar através de seus lixeiros assalariados, ela não descobre muito espaço onde flores pudessem desabrochar do chão uniformizado pelo concreto. Cof, cof! – ela tosse enquanto desvia dos cagalhões dos totós de madame e viralatas de punks.

A ideia principal que impulsiona o enredo de La Belle Verte é a do planeta e seus habitantes humanos vistos a partir da perspectiva de alguém que chega provindo de uma civilização mais sábia. Mas aqui não se trata de viagem no tempo, rumo ao passado: nesta sci-fi, não há gente do futuro entrando em máquinas-do-tempo como as célebres parafernálias de Back Into The Future, a trilogia de Robert Zemeckis. Trata-se de viagem pelo espaço que conecta entes de diferentes graus de evolução da inteligência – sendo que os humanos perdem de lavada neste quesito. Somos os estúpidos do cosmos, ainda que, neste planetinha, alguns se gabem de serem os sabichões da Terra.

Enredos semelhantes impulsionam obras sci-fi como K-Pax (de Iain Softley) e Hombre Mirando A Sudoeste (de Eliseo Subiela), pois em ambos os filmes os visitantes do espaço sideral são tratados como loucos, internados em hospícios, alvos de hipnoses ou lobotomias. Em ambos se estabelece um contraste entre a sabedoria do forasteiro e a estupidez dos terráqueos, estratégia narrativa que frisa a possibilidade de criaturas mais inteligentes que nós existirem na pluralidade de mundos que constitui o Universo – para relembrar o título do livro clássico de Fontenelle.

A Bela Verde, neste caso, está experimentando pela primeira vez a poluição atmosférica, a barulheira estridentíssima e dissonante, de uma metrópolis humana no mundo dito Ocidental, civilizado, capitalista, consumista, auto-proclamado modelo supremo de como devem viver os povos. A Bela Verde é mais intensamente sensível a tudo o que os humanos tem de bizarro: com seu olhar limpo de interesses humanos, ela observa as mulheres fúteis que desfilam embonecadas pelos bairros comerciais e shopping centers, e pergunta-se, fitando os brincos espalhafatosos grudados às suas orelhas, se não seriam aqueles alguns símbolos religiosos de um culto bastante primitivo…

Uma das cenas mais significativas se dá quando ela pára diante de uma açougue e pela primeira vez depara com o espantoso espetáculo daquela “a exibição de cadáveres”. A Bela Verde, em sua ingenuidade, fica chocada por encontrar uma vitrine por detrás da qual estavam expostos partes dos corpos-sem-vida de animais recentemente sacrificados; as autoridades responsáveis pela construção e sustentação de tal sistema talvez explicariam à forasteira, do alto de suas presunções olímpicas, que aquilo que ela via no açougue era nada mais, nada menos, do que… mercadoria. “Deixemos de sentimentalismos quando se trata de incrementar nossos benefício$$$!”, poderiam dizer-lhe, ofertando-lhe um espetinho de vaca engordada à força, empanturra de antibióticos, criada em cativeiro absoluto, em meio à lotação desagradante de abatedouros que, se tivessem paredes de vidro, fariam vomitar a quase todos aqueles que hoje deleitam-se com salsichas e filés de frango…

Além da mercantilização em massa da carne animal, a Bela Verde também fica estarrecida com os carros, intermináveis, invasivos, que dominam a cidade como se fossem de fato seus imperadores, como se merecessem todos os privilégios. Onde outrora havia um pomar transbordante de frutas, ou um parque repleto de coqueiros, ou uma floresta abrigadora de miríades de diversas espécies de seres vivos, agora o que há… é um estacionamento! E este cobra preços abusivos. Em cada esquina, um posto de gasolina que vende petróleo roubado do Oriente Médio, provavelmenmte após invasão imperialista genocida justificada como “Cruzada Anti-Terrorista”.

O cogumelo atômico é a coroa na cabeça desta Sociedade Burguesa Globalizada, provando que sua estupidez, longe de ser negligenciável, é pra lá de perigosa. A extinção de espécies que o diga.

Quando nos auto-proclamamos os fodões da Criação, os filhos prediletos de Deus-Pai Todo-Poderoso, e partimos para a dominação e exploração generalizada da Natureza, produzindo escarros colossais de substâncias tóxicas e gases de efeito estufa no ambiente que sustêm a Vida em suas múltiplas formas, tornamo-nos os inimigos de nós mesmos, carrascos da mãe nutriz, aqueles que põe fogo em seu próprio lar (como sugere o mother! de Darren Aronofsky).

E assim nos tornamos os devastadores de boa parte daquilo que vive conosco. A miríade de organismos vivos que, só pelo fato de possuir a vida como propriedade comum e destino compartilhado, já mereceria ser tratado por nós como algo de mais digno do que estoque de bacon ou recheio de McNuggets e McChickens. Neste globo infestado por junk food e agrotóxicos, epidemias corporativas disparadoras de imensas crises de saúde pública, é bom lembrar: nos EUA de hoje, por exemplo, explodiram os índices de obesidade e diabetes, o que está intimamente conectado ao sistema de alimentação que eles deixaram tornar-se hegemônico.

Por essas e outras, considero Turista Espacial um filme digno de louvores e atenções, ainda que muitos espectadores possam torcer o nariz para um certo “didatismo” que transforma este filme de ficção científica em algo parecido com uma aula de ecologia. Junto com Ponto de Mutação (Mindwalk), filme baseado na obra homônima de Fritjof Capra, a obra de Coline Serreau tem muito a nos ensinar sobre como viver e conviver melhor neste planeta que a cada dia se parece mais com uma terra devastada.

A ideologia veiculada com o filme conecta-se com aquela dos teóricos do decrescimento, como Serge Latouche; com os ensinamentos de Alan Watts sobre O Que Está Errado Com Nossa Cultura; com os ensinamenos de Small Is Beautiful de Schumacher; com as obras de pensadores contemporâneos cruciais como Vandana Shina, Raj Patel, David Suzuki, Arundhati Roy, Davi Kopenawa. Que o cinema possa ser uma força de transformação social, ou mesmo de inseminação utópica, é algo óbvio para quem conhece iniciativas como a Films For Action e para quem já assistiu Dirt!, DisruptionThe Age Of Stupid, The Secret of the Seven Sistersdentre outros. Turista Espacial está aí para somar forças a esta eco-legião.

41b49041eb8eb239bfb76e637254ddd3_jpg_290x478_upscale_q90

 

Por Eduardo Carli de Moraes
A Casa de Vidro – http://www.acasadevidro.com

Primeiras impressões do visitante extraterrestre sobre o bicho humano! Do filósofo espanhol Fernando Savater em “As Perguntas da Vida” (Ed. Martin Fontes, 2011)

Calvin

– Às vezes penso que o sinal mais seguro de que vida inteligente existe em algum outro lugar do Universo é que ninguém tentou nos contatar. (Calvin & Haroldo)

AS PERGUNTAS DA VIDA
por Fernando Savater

Suponhamos que um extraterrestre venha a nosso mundo e comece a nos estudar, a você e a mim. Tem à sua frente um ser vivo, talvez até o considere inteligente (sejamos otimistas!), mas uma das primeiras perguntas que se fará é: onde começa e onde acaba esse bicho?

A pergunta não é absurda… não é fácil determinar, por exemplo, se o casulo da crisálida também deve ser considerado crisálida como o resto do animal que o segregou. Do mesmo modo, o extraterrestre pode achar que eu também sou minha casa e que acabo na porta da rua, ou que pelo menos minha poltrona favorita e meu avental fazem parte de mim, ou que o cigarro que estou fumando é um de meus apêndices e a fumaça constitui minha respiração malemolente. Você, que tem carro e passa o dia dentro dele, certamente seria classificado pelo marciano entre os terrícolas de quatro rodas.

Mas, se o forasteiro interplanetário chegar a se comunicar conosco, explicaremos a ele que está enganado, que nossas fronteiras são estabelecidas por nosso tecido celular e que – por mais que amemos nossas posses e nosso alojamento urbano – nosso eu vivente só chega até onde abrange a nossa pele. Ou seja, nosso corpo. Ao que o marciano poderia nos responder: “Tudo bem, e isso, como vocês chegaram a saber?”

Responder-lhe adequadamente não é tão óbvio como parece. Não poderíamos explicar-lhe que quando falo em corpo estou me referindo àquilo que sempre vai comigo, diferentemente de outras possessões, pois meu cabelo, minhas unhas, meus dentes, minha saliva, minha urina, meu apêndice etc. são partes do meu corpo, muito minhas, mas apenas transitoriamente. Cedo ou tarde deixam de ser eu sem que eu deixe de ser eu, tal como a serpente se desfaz na primavera da roupa velha que é sua pele usada.

Nem sequer poderíamos afirmar para o curioso interplanetário que o corpo é tudo aquilo de que não podemos prescindir para continuar vivos, uma vez que às vezes é preciso trocar meu coração por outro para eu não morrer, e certos doentes dependem dos aparelhos de diálise que substituem seus rins, para não falar no ar ou no alimento, que me são corporalmente imprescindíveis quanto os pulmões ou o estômago e no entanto não fazem parte do meu eu.

Se o extraterrestre estivesse estudando uma mulher grávida, o problema se complicaria mais ainda, pois não é facil resolver se o feto é simplesmente uma parte de seu corpo ou algo distinto dele. Quanta complicação! O perspicaz Lichtenberg, no final do século XVIII, disse em um de seus aforismos que “meu corpo é a parte do mundo que meus pensamentos podem mudar”. Uma ideia engenhosa, porque para realizar a maioria das modificações da realidade – mudar uma poltrona de lugar, fazer um carro arrancar, trocar de roupa – preciso agir através de meu corpo, ao passo que me basta desejar ou pensar para levantar o braço ou abrir a boca.

E, no entanto, não parece ser meu pensamento que me faz respirar ou digerir, tampouco minha vontade pode me devolver o cabelo e os dentes erdidos… para não falar em mudar a cor de minha pele ou meu sexo! As metamorfoses de Michael Jackson ou dos transexuais necessitam de intervenções externas para serem realizadas. Francamente, satisfazer à curiosidade do extraterrestre pode nos colocar numa situação comprometedora…

No entanto, minha convicção profunda é a de que eu começo e acabo em meu corpo, sejam quais forem os embrulhos teóricos que essa certeza me traga. Talvez, vendo meu nervosismo, o amável marciano aceite esse ponto para não me irritar mais; então, ele poderia me fazer a pergunta do milhão: “De acordo, você começa e acaba em seu corpo, mas… devo assumir que você tem um corpo ou que você é um corpo?” Uma tal interrogação poderia ser causa justificada para uma guerra interplanetária!

Provavelmente Descartes, que supunha que a alma fosse um espírito e o corpo uma espécie de máquina (segundo ele, os animais – que não têm alma – são meras máquinas… que nem sequer podem experimentar dor ou prazer!), responderia que eu – o espírito – tenho um corpo e me arranjo com ele o melhor que posso. Segundo uma certa visão popular, estamos dentro do nosso corpo à maneira de fantasmas encerrados em uma espécie de robôs que devemos dirigir e mover. Até há místicos que acham que o corpo é quase tão ruim quanto um cárcere e que sem ele nós nos moveríamos com muito maior ligeireza.

Sócrates talvez tenha se referido a isso em suas últimas palavras, conforme nos são citadas por Platão, em Fédon, quando ao notar que o efeito da cicuta estava chegando a seu coração, disse a seus discípulos: “Devemos um galo a Esculápio!”

Havia o costume de oferecer um animal como sacrifício de gratidão a Esculápio, deus da medicina, quando alguém se curava de uma doença.

Talvez Sócrates achasse que o veneno assassino estava prestes a livrá-lo da doença da alma que consiste em suportar um corpo. A verdade é que, com um sujeito tão irônico, nunca se sabe…” 

Fernando-Savater

Fernando Savater

FERNANDO SAVATER
No livro As Perguntas da Vida
Ed. Martins Fontes, 2001, pgs. 56 a 58
Disponível na biblioteca do IFG/Goiânia