BOB MARLEY: Guerreiro Rasta

Daniel Pereira

Um dos muitos méritos desta graphic novel dos argentinos Diego Agrimbau (roteiro) e Dante Ginevra (desenhos) está em sua capacidade de revelar a enorme dimensão social, espiritual e artística de Bob Marley. Nascido em 1945, numa Jamaica que lutava para se libertar do domínio colonial inglês, Bob Marley viveu apenas 36 anos, mas tornou-se uma figura de notoriedade e relevância mundial, a ponto de produzir milhões de seguidores. Isto não se deve somente ao seu talento como cantor, compositor e músico, mas à força e à resiliência de sua mensagem à humanidade.

Estátua no Estádio Nacional de Kingston

Reggae’s most transcendent and iconic figure, Bob Marley was the first Jamaican artist to achieve international superstardom, in the process introducing the music of his native island nation to the far-flung corners of the globe. Marley’s music gave voice to the day-to-day struggles of the Jamaican experience, vividly capturing not only the plight of the country’s impoverished and oppressed but also the devout spirituality that remains their source of strength. His songs of faith, devotion, and revolution created a legacy that continues to live on not only through the music of his extended family but also through generations of artists the world over touched by his genius. – Jason Ankeny

Guerreiro Rasta não começa ao som de ska ou reggae, mas em chave mais trágica, evocando a África, onde as caravelas invasoras do imperialismo europeu vieram sequestrar milhões de seres humanos para o destino horrendo de escravizados. Filhos da diáspora, os afrodescendentes da Jamaica lutavam por independência e autonomia enquanto Bob Marley crescia: é no período entre 1958 e 1962 que a onda descolonizadora do Caribe ganha força e triunfa contra o império inglês, não só na Jamaica, mas também em Trinidad e Tobago.

Na capital da Jamaica, Kingston, os autores evocam de modo impressionante a presença da África, seja através do mega evento cívico que foi  a visita do imperador da Etiópia, Hailê Selassiê, em abril de 1966, seja no próprio cotidiano dos cultuadores de Jah, os rastafáris da sagrada ganja, tão perseguidos pela elite branca e que com tanta frequência tinham seus dreadlocks cortados e tomavam cruéis baculejos policiais.

Bob Marley até tentou migrar para os EUA – onde trabalhou em Delaware como operário da indústria automobilística em uma fábrica da Chrysler – mas retomou o caminho de Trenchtown: em uma das imagens mais memoráveis de Dante Ginevra, o avião de Marley decola nos Estados Unidos, ascendendo rumo a um céu onde paira, cheio de garbo e poder, desenhado pelas nuvens em interação com os raios de sol, um gigantesco Leão de Judá

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 Bob Marley permitiu que a criatividade de um país periférico conquistasse o globo e tornou-se um dos luminares não só da música reggae ou da religião rastafári, mas um ídolo popular em todas as latitudes onde há luta contra a opressão e em prol da paz e do amor. Filho de uma afro-jamaicana com um branco inglês, Bob Marley foi um mulato afroamericano de profundo enraizamento na cultura africana e no sonho de um retorno à África mãe, seja na Etiópia ou na Libéria (este é um ethos ou uma constelação afetiva que assemelha Bob Marley a Nina Simone).

Apesar de estar longe de ser uma figura teórica ou acadêmica, Marley tinha postura política convicta e aliou-se ao movimento do pan-africanismo propugnado por Marcus Garvey, evidente em uma canção como “Africa Unite”. Em sua meteórica carreira musical foi um porta-voz libertário cujo teor ideológico e raio de influência sobre as massas pode ser equiparado ao de figuras como Patrice Lumumba, Malcolm X, Martin Luther King, Fela Kuti etc.

Bob Marley & the Wailers
“Concrete Jungle”
The Old Grey Whistle Test, 1973

Suas letras repletas de crítica social transcenderiam o gueto e iriam muito além das fronteiras do reggae: iriam inspirar artistas do folk, do rock, do punk, da MPB, da world music etc. Não é possível imaginar nem o The Clash, nem Gilberto Gil, nem Manu Chao, sem a seminal influência de Bob Marley. O poder de sua arte é tamanho pois conjuga o anúncio e a denúncia, para lembrar Paulo Freire: Marley fala sobre one love em vibe similar à de John Lennon imaginando a brotherhood of men, mas também denuncia a “selva de concreto” (assista a “Concrete Jungle” assista) e os mais de “400 Years” de opressão imperialista sobre aqueles que foram roubados de sua terra nos “merchant ships” evocados por “Redemption Song”:

“Velhos piratas, sim, eles me roubaram.
Me venderam para os navios mercantes, 
Minutos depois me atiraram
Num buraco sem fundo…”

Guerreiro Rasta é uma leitura rápida mas que deixa rastros na memória; uma biografia em formato graphic novel de 60 e poucas páginas, mas que ensina uma imensidão neste curto intervalo de tempo e espaço. Ganham expressão nestas páginas toda a violência política nas ruas de Kingston e todo o esforço pacifista-diplomático de Marley; toda a trajetória dos Wailers, tendo como coadjuvantes importantes Peter Tosh e Lee Perry, de estrelas musicais locais a popstars idolatrados por Eric Clapton, Mick Jagger, Joe Strummer; toda a epopéia da diáspora, todos os horrores impostos pelo imperialismo racista e supremacista, em contraste com a sabedoria naturalista, cannábica, rasta-pacifista, desse liberador de mentes e encantatório musicista que foi Bob Marley.

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No cinema, sua vida e obra já ganharam belos retratos em filmes como Rebel Music ou na biopic documental de Kevin MacDonald. Porém a linguagem dos quadrinhos, aqui utilizada com maestria pelos hermanos argentinos, fornece uma impressionante oportunidade de imersão no microcosmo Marleyano. Na página 53, por exemplo, evocam-se em 5 míseros quadrinhos e um punhado de frases pungentes o dia em que a Jamaica enterrou Bob Marley. É uma página que não se esquece mais.

Era um “funeral de chefe de estado, com uma cerimônia que misturava as tradições rastafári e católica ortodoxa etíope. O caixão seguiu  um longo trajeto até sua terra natal, Nine Mile. Toda a Jamaica chorou a partida de seu filho pródigo. Em seu túmulo, foram colocados quatro objetos que representavam o que sempre foi importante para ele… o futebol, a música, a fé rastafári e a maconha. Nessa noite, toda a ilha cantou e dançou celebrando sua vida. Foi a melhor festa funerária que um rasta poderia esperar.”

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SIGA VIAGEM:

OUÇA…

burninBURNIN’ (1973)

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“SURVIVAL” (1979)

“Containing what is considered Marley’s most defiant and politically charged statement to date, Survival concerns itself with the expressed solidarity of not only Africa, but of humanity at large. The album was controversial right down to the jacket, which contains a crude schematic of the stowage compartment of a typical transatlantic slave ship. Survival is intended as a wake-up call for everyman to resist and fight oppression in all of its insidious forms. From Tyrone Downie’s opening synthesizer strains on “So Much Trouble in the World” to the keyboard accents emerging throughout “Zimbabwe,” the sounds of Survival are notably modern. The overwhelming influence of contemporary African music is also cited with the incorporation of brass, á la Fela Kuti and his horn-driven Africa ’70. While “Top Rankin’,” “Ride Natty Ride,” and “Wake Up and Live” are the most obvious to benefit from this influence, there are other and often more subtle inspirations scattered throughout. Survival could rightly be considered a concept album. Marley had rarely been so pointed and persistent in his content. The days of the musical parable are more or less replaced by direct and confrontational lyrics. From the subversive “Zimbabwe” — which affirms the calls for the revolution and ultimate liberation of the South African country — to the somewhat more introspective and optimistic “Africa Unite,” the message of this album is clearly a call to arms for those wanting to abolish the subjugation and tyranny of not only Africans, but all humankind. Likewise, Survival reinforces the image of Marley as a folk hero to those suffering from oppression.” – Lindsay Planer, AllMusic [http://www.allmusic.com/album/survival-mw0000194795]

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ASSISTA:

“A GUERRA ÀS DROGAS TÁ MATANDO GERAL!” – Transcendendo hipocrisias na Marcha da Maconha Goiânia 2016

— Chega de hipocrisia: a Guerra às Drogas mata pobre todo dia”; “Ei, polícia, maconha é uma delícia!”; “Dilma Rousseff, legaliza o beck!”; “Mais Conha, menos Cunha!”;  “Uh, legaliza! Uh, legaliza!”; “E se legalizar, ôlê olê olá! Eu vou plantar!” Estas e outras bandeiras e brados deram o tom dos agitos cívicos da #MarchaDaMaconha 2016, em Goiânia, tema de meu mais recente experimento na arte do Mídia Ninjismo (assista abaixo).

Organizada pelo coletivo antiproibicionista MenteSativa, a marcha dos diambeiros chegou à sua 6ª edição na capital de Goiás com significativa manifestação. Neste curta-metragem, de 10 minutos, confira um pouco do que rolou nas ruas neste dia em que a galera, cheia de rastaman vibrations, queimando tudo até a última ponta, com a cabeça ativa e a mente aguçada pelo influxo da cannabis sativa, voltou a demandar a legalização da erva em uma pacífica procissão anarco-democrática.

A GUERRA ÀS DROGAS TÁ MATANDO GERAL (2016, 10 min, #VideoJoint)

Semanas atrás, milhares de Cheechs e Chongs estiveram lá celebrando o redivivo Planet Hemp, que chaqualhou o Centro Cultural Oscar Niemeyer em estrondoso show no Bananada, mostrando toda a força quase Rage Against Machiníca desta banda que sem dúvida está entre o que o rock brasileiro produziu de mais maravilhosamente insurgente, subversivo e sagazmente informado. Acredito que um pouco da vibe de união maconheira que teve status de headliner no festival produzido pel’A Construtora Música e Cultura acabou transbordando para as ruas, emprestando vigor e ímpeto à marcha, bastante espontaneísta e imprevisível, mas sempre contundente e contestatória.

PLANET HEMP – “A Culpa é de Quem?” Live at BANANADA

Os manifestantes reuniram-se na Praça Cívica às 16h20, para oficina de cartazes e outros leros, e depois mandaram seu recado itinerante até a Praça Cívica e arredores, gritando #ForaTemer, criticando o novo ministro-proibicionista do regime Golpista (Osmar Terra) e reclamando pela desmilitarização da polícia. “Sem hipocrisia! A guerra às drogas mata pobre todo dia!” – ribombou o clamor popular pelas ruas do Centro. Na Devastolândia do regime instaurado pelo coup d’état parlamentar-empresarial-midiático em curso, o (des)governo do Mr Biônico e seu Sinistério dos Machos Mofados, as notícias são péssimas também para os maconheiros (e para quem quer que defenda uma política pública sobre drogas menos estúpida, contraproducente e genocida do que a vigente):

Ministro

OSMAR TERRA E O RETROCESSO NA POLÍTICA DE DROGAS:
Crítico ferrenho da descriminalização do uso de entorpecentes, ministro do Desenvolvimento Social e Agrário usa seu poder para frear avanços

Leia em CartaCapital – por Débora Melo

“Embora não ocupe uma posição de liderança no debate sobre a política de drogas brasileira, o ministro do Desenvolvimento Social e Agrário (MDS) do governo interino, Osmar Terra (PMDB-RS), já usa o poder do cargo para impor suas convicções a respeito do tema. Crítico contumaz da descriminalização do consumo de drogas, o médico, que estava no quinto mandato como deputado federal pelo Rio Grande do Sul, é autor de um projeto de lei que prevê aumento da pena para tráfico e internação compulsória de dependentes químicos.” SAIBA MAIS

Um dos maiores méritos do movimento social maconheiro é expressar discórdia em relação a uma lei vigente de modo criativo, construtivo, a um só tempo combativo e festivo. Na Marcha da Maconha ouve-se aquele coro poderoso de vozes, levantando-se em comum para em alto e bom som criticar o desvario do proibicionismo autoritário, demandar o direito à informação verídica sobre os efeitos psicosomáticos e bioquímicos propiciados pelo THC, apontar os possíveis benefícios terapêuticos e econômicos duma eventual regulamentação do plantio e comércio do cânhamo, entre outras pautas conexas.

A demanda é por conhecimento, e pelo direito a conhecer através dos métodos, arcaicos e para muitos povos sagrados, que incluem a ingestão de substância psicodelizantes e expansoras da consciência. A demanda é pelo respeito às toneladas de conhecimento científico que já se acumulou sobre os numerosos benefícios à saúde que esta medicina natural de milênios propicia tempos afora (são milênios de usufruto, apenas décadas de proibição). A demanda é por um poder público menos tacanho e truculento em sua sanha de brucutu policialesco, por uma atitude mais lúcida e sábia que tem como ícones Pepe Mujica, no Uruguai, ou o sistema de Portugal (que mereceu até as atenções de Michael Moore em seu novo documentário, Where To Invade Next, em que o documentarista fanfarrão brinca de invadir outros países a fim de roubar boas ideias que deveriam ser aplicadas back home). 

Renato Malcher-Lopes e Sidarta Ribeiro escreveram um livro extremamente meritório, a despeito de seu tamanho miúdo, para o debate público e a revolução de costumes que urge instaurar em nossa sociedade a respeito do cânhamo e um de seus produtos, a maconha. Maconha, Cérebro e Saúde tem todas as qualidades de um trabalho científico compenetrado, bem-informado, em que os dados empíricos e estatísticos são sempre refletidos em profundidade. Mas a preciosidade da obra está também no esforço de conscientização da opinião pública, um ímpeto que me convenceu que há um lume quase iluminista em muitas das mentes que hoje buscam dissipar as trevas da ignorância que mantêm tantos corações e mentes ainda presos ao obscurantismo da repressão absoluta e truculenta, do não brutal e autoritário, em relação a esta que é uma das espécies vegetais mais essenciais à história da Humanidade e às aventuras da Modernidade (que o digam as cordas de cânhamo sem as quais as caravelas dos Grandes Descobrimentos – na verdade gigantescas genocidas conquistas – não teriam vencido o oceano).

“Nunca foi tão oportuna quanto agora a discussão sobre os efeitos cerebrais e fisiológicos da Cannabis, popularmente conhecida como maconha. Se por um lado uma parcela da sociedade começa a questionar a pertinência das políticas públicas que criminalizam seu uso, por outro a ciência avança a passos largos para decifrar a enorme variedade de efeitos fisiológicos e psicológicos induzidos por seus princípios ativos. […] A maconha é uma das drogas recreativas mais usadas no mundo e está entre as mais antigas plantas domesticadas pelo homem. Esteve presente nos primórdios da agricultura, tecnologia, religiões e medicina. Testemunhos eloqüentes de seu impacto na civilização estão presentes nas escrituras sagradas e nos mais antigos documentos médicos das mais diversas culturas.

O número de artigos científicos publicados sobre o sistema canabinóide cresce linearmente a cada ano, de forma que a maconha protagoniza uma verdadeira revolução, representando uma das mais promissoras fronteiras no desenvolvimento da neurobiologia e da medicina. A descoberta dos endocanabinóides, ou seja, moléculas análogas aos princípios ativos da maconha, mas produzidas pelo próprio cérebro, é a grande novidade por trás dessa guinada científica. Neste início de século XXI, acredita-se que os canabinóides possam estar envolvidos na remodelação de circuitos neuronais, na extinção de memórias traumáticas, na formação de novas memórias e na proteção de neurônios. […] A desregulação do sistema canabinóide pode estar envolvida nas causas da depressão, dependência psicológica, epilepsia, esquizofrenia e doença de Parkinson.” (MALCHER-LOPES & SIDARTA RIBEIRO – Click para ler outros trechos de Maconha, Cérebro e Saúde)

 

Este é o segundo documentário que faço registrando uma Marcha da Maconha: alguns anos atrás, no ano que passamos em Toronto, registrei em 15 minutos os agitos da Global Marijuana March pelas ruas da metrópole canadense no documentário Cannabian Carnaval, publicado pela Mídia Ninja. Foi um dia memorável de experiência direta com o ativismo cannábico em um país que já possui uma legislação bem mais sábia do que a brasileira, sinal de que a militância pode ser cotidianizada e enxergar-se como tarefa do dia-a-dia, como se a exuberância dos sentidos e da razão propiciada pela cannabis sativa pudesse inspirar também a política a superar os cabrestos de suas ortodoxias estúpidas e ousar rumos melhores.

O Canadá foi o primeiro país do mundo a legalizar a maconha medicinal em 2001. O país também já regulamentou o plantio industrial de cânhamo (hemp), que desde 1998 é uma realidade na economia canadense. Mesmo com uma legislação relativamente avançada e tolerante, as vozes das ruas ainda são explícitas em gritar: ainda há muito chão pela frente. A política de Guerra às Drogas prossegue perseguindo e encarcerando usuários e cultivadores que não possuem prescrições médicas ou alvarás federais. Por essas e outras, mais de 10 mil pessoas tomaram as ruas da mais populosa cidade canadense no dia 03 de Maio de 2014. Mesmo debaixo de chuva e ventania, milhares se manifestaram em massa na 17ª edição anual da Marcha da Maconha de Toronto (Global Marijuana March).

Neste documentário curta-metragem, acompanhe alguns dos melhores momentos da Marcha, que concentrou-se no Queen’s Park e depois desfilou pelas ruas Bloor e Yonge, duas das mais importantes vias da metrópole. Toronto parou para ver o carnaval cannábico passar. O filme inclui entrevistas exclusivas com um ativista da organização internacional Dads for Marijuana; com uma trabalhadora de um Clube da Cannabis Medicinal (que auxilia pacientes no processo de conseguir prescrições médicas); com um cadeirante que se vale do uso da cannabis para melhorar sua condição de saúde; entre outras “figuras” que deram as caras neste mega-evento. 

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II. HISTÓRIA DA MACONHA NO BRASIL

Uma das características mais recorrentes de um proibicionista bronco, truculentaço, é a ignorância histórica quanto ao papel que jogou o cânhamo na história da humanidade nos últimos 10.000 anos ou mais. E é justamente de um historiador brasileiro uma das obras mais interessantes publicadas nos últimos anos no país sobre o tema:  falo de A História da Maconha no Brasil, de Jean Marcel Carvalho França.


FAPESP TV – Piratas: Além do Butim, por Jean Marcel Carvalho França

Jean MarcelProfessor de História do Brasil na Unesp (câmpus Franca-SP), Jean Marcel Carvalho França é autor de Piratas No Brasilde A Construção do Brasil na literatura de viagem dos séculos XVI, XVII e XVIII (José Olympio, 2012) e coautor de Três Vezes Zumbi: a construção de um herói brasileiro (Três Estrelas, 2012).

Nesta sua breve mas brilhante “biografia” da maconha em terra brasilis, ele realizou um “amplo e fascinante painel sobre o canabismo no Brasil – da Colônia ao século XXI -, composto a partir de detalhada pesquisa documental”, como destaca o texto da Editora Três Estrelas (saiba mais):

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“Considerada no século XVIII uma planta de promissor futuro comercial, por causa da qualidade das suas fibras, a cannabis não vingou aqui como matéria-prima de cordas e tecidos, mas, sim, como um meio de relaxamento e devaneio. Associada, porém, aos hábitos dos escravos e aos vícios das ‘franjas da sociedade’, passou a ser atacada por médicos, juristas e políticos. Ópio dos pobres, veneno verde, cocaína do caboclo, erva maldita… Foram muitos os nomes pejorativos que a maconha recebeu ao longo da história brasileira até que, nos anos 1970, se iniciasse uma progressiva disposição para discriminalizar o seu uso e esvaziar o estigma que paira sobre seus consumidores.”

O livro traz curiosidades saborosas, como o fato de que a inovadora aventura de conhecimento coletivo que foi a Enciclopédia (1751 – 80) dos iluministas franceses, com editores-chefe em Diderot e D’Alembert, “consagra dois verbetes à cannabis” (FRANÇA: 2014, p. 23); que escreveram sobre experiências com haxixe figuras como Charles Baudelaire e Walter Benjamin; que a literatura de François Rabelais, autor de Gangântua e Pantagruel, inclui capítulos inteiros marcados pela presença do cânhamo, planta que é batizada pelo narrador de pantagruelion e é marcante na 3ª parte das narrações sobre os feitos de Pantagruel; que a palavra maconha surge como anagrama de cânhamo, uma origem etimológica  muito graciosamente lúdica! (OBS: anagrama = transposição de letras de palavra ou frase para formar outra palavra ou frase diferente – Natércia, de Caterina; amor, de Roma ; Célia, de Alice etc. Na literatura brasileira um exemplo célebre é Iracema, de José de Alencar, anagrama de América.); dentre outros curiosos achados, fruto da pesquisa sagaz do autor.

Anagrama

ANAGRAMA

Mas o foco de Jean Marcel Carvalho França não é nem o enciclopedismo nem o anedotário: ele faz crítica historiográfica, de primeira linha. Foca no fato sociológico de que os maconheiros foram estigmatizados por razões classistas e racistas, já que “a erva era supostamente apreciada pelos ‘pretos’ e pela gente pobre, que precisava, digamos, relaxar, pois, afinal, eram os pés e as mãos do senhor de engenho. Da tradicional cachaça e do apreciado tabaco o passado colonial legou-nos muitas informações” (p. 24) – já sobre a maconha, nosso saber é mais ralo, o que só torna mais meritório e relevante este livro. “Os homens de letras daqui, que não viam o canabismo como um exotismo importado do Oriente, pleno de mistérios, mas como hábito caseiro e vulgar, comum entre escravos e a gente dita de má vida, julgaram-nos indigno de ser relacionado entre as práticas de um intelectual ou de um artista de respeito.” Preconceito de letrados, racismo da elite cultural e econômica, estão na raiz do estigma contra a maconha e o maconheiro.

“Foram sem dúvida os africanos e seus descendentes que consolidaram o hábito do canabismo na sociedade local. Foi a eles que os brasileiros gradativamente associaram o gosto pela ‘diamba’ (bangue, maconha, fumo de Angola, pito de pango, riamba, liamba etc.) e seu consumo regular, recreativo e relaxante; e foram eles que os ‘doutores’ (psiquiatras e juristas) do início do século XX, ao promoverem um combate feroz ao canabismo, resolveram culpar por propagar o ‘nefando vício’ pela sociedade brasileira.” (FRANÇA. op cit, p. 28)

No Brasil do século 19 já se conheciam, em certos círculos, os potenciais terapêuticos da cannabis, tanto era assim que “remédios importados à base de cânhamo abundavam nas farmácias” e “feira e boticas vendiam montes de erva para combater um sem-número de males (de soluços a impotência).” (p. 32) Até Carlota Joaquina (1775 – 1830), já cinebiografada por Carla Camurati em filme de 1995, tendo que enfrentar, como todo e qualquer mortal, a aproximação da indesejada das gentes,  recorreu à diamba, em 1830, como lenitivo no desfecho de seus dias:

“A Rainha, agonizante, chamou o seu fidelíssimo criado, o crioulo Felisbino, e lhe disse: Meu mal é de morte. Velha, doente e pobre, eu quero sucumbir com o orgulho da minha raça. Não quero morrer deitada. Uma rainha deve apresentar-se diante da morte com dignidade de soberana. Feito o desabafo, arrematou: Me traga aquele pacotinho de fibras de diamba com que mandamos para o inferno tantos inimigos. Lançando mão, então, de um chá que misturava diamba e arsênico, ‘a rainha morreu sem dor alguma’.” (p. 34) (Cf. romance histórico Os escândalos de Carlota Joaquina, de Assis Cintra.)

Eduardo Carli de Moraes – Goiânia – Junho ’16

Confira um trecho do livro História da maconha no Brasil

 LEIA TB EM A CASA DE VIDRO:
A Revolução Verde Em Marcha  (2013)

Mixtape: 12 canções que gritam “LIBERDADE!” (Hendrix, Lennon, MC5, Nina Simone, Funkadelic… e mto mais!)

No cardápio:

01) Jimi Hendrix;

02) John Lennon;

03) Neil Young;

04) Richie Havens;

05) Bob Marley;

06) Ben Harper;

07) Funkadelic;

08) MC5;

09) The DT’s;

10) Rage Against the Machine;

11) Charles Mingus;

12) Nina Simone.

Pump up the volume…
and enjoy the ride!

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cecilia

“Liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta,
não há ninguém que explique
e ninguém que não entenda.”

(Cecilia Meireles,  1901-1964)

Uma palavra que o sonho humano alimenta… musicada.

“Liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta,
não há ninguém que explique e ninguém que não entenda.”

(Cecilia Meireles, 1901-1964)

01) Jimi Hendrix; 02) John Lennon; 03) Neil Young; 04) Richie Havens; 05) Bob Marley; 06) Ben Harper; 07) Funkadelic; 08) MC5; 09) The DT’s; 10) Rage Against the Machine; 11) Charles Mingus; 12) Nina Simone.