INFILTRADO NA KLAN – Espremido entre os Panteras Negras e a KKK, um policial negro protagoniza o novo filmaço de Spike Lee

“BlacKkKlansman – Infiltrado na Klan”, um filme de Spike Lee (2018, 130 min)

Leia em BBC News Brasil: a extraordinária história do policial negro que se infiltrou na Ku Klux Klan.

Assista também a entrevista do cineasta à BBC sobre Donald Trump e a ascensão da Direita:

SUPREMACISMO BRANCO: UMA ESTUPIDEZ QUE AINDA RELINCHA

Assim que Trump assumiu a presidência dos EUA em 2016, os caras da Ku Klux Klan já foram saindo dos armários e reacendendo suas tochas. Um supremacista branco dentro da Casa Branca era tudo o que a KKK queria para se sentir autorizada a voltar a tocar o terror com suas práticas racistas, xenofóbicas e fundamentalistas. Na cidade de Charlottesville, no Estado da Virgínia, os ânimos se acirraram em Agosto de 2017:

O caos se apoderou neste sábado (13) de Charlottesville, uma pacata cidade de 45 mil habitantes na Virgínia, nos Estados Unidos. A maior marcha dos supremacistas brancos nos últimos anos nos EUA  levou a confrontos com manifestantes contrários aos racistas e deixou três mortos, uma mulher de 32 anos e dois policiais, pelo menos 34 feridos e um número indeterminado de pessoas presas. A mulher morreu depois que um carro foi jogado contra manifestantes críticos aos grupos racistas. Foi um crime “premeditado”, disse a polícia. [LEIA A REPORTAGEM DO EL PAÍS]

Este é o pano-de-fundo para um dos maiores cineastas vivos, Spike Lee, expressar com sua maestria costumeira os conflitos étnico-raciais na nação que, após 8 anos sendo governada por Barack Obama, o primeiro afroamericano a ocupar tal posição na história do país, hoje convive com a “governança” ultra-liberal de um empresário bilionário, racista e de extrema-direita. Que aplica à risca a Shock Doctrine conceituada por Naomi Klein, e que é também a plataforma “Pinochetista” de Bolsonaro para o Brasil.

A Era Trump é aquilo que emerge na tela, no fim de BlacKkKlansman, em cenas documentais que mostram todo o caos e violência que saíram de controle em Charlottesville – inclusive a mais chocante de todas as ocorrências: um carro, dirigido por alguém que só pode ser corretamente descrito como um psicopata fascista, acelera contra a multidão de pessoas que protesta contra o racismo e que defende Black Lives Matter (Vidas Negras Importam). São dezenas de pessoas atropeladas, que tem seus ossos fraturados, que perdem seus dentes, ou que ficam banhadas em sangue e mutiladas para a vida. Uma delas, Heather Heyer, morreu. E à ela o filme dedica seu réquiem.

White nationalists carry torches on the grounds of the University of Virginia, on the eve of a planned Unite The Right rally in Charlottesville, Virginia, U.S. August 11, 2017. Picture taken August 11, 2017. Alejandro Alvarez/News2Share via REUTERS.

 

A demonstrator holds signs during a rally in response to the Charlottesville, Virginia car attack on counter-protesters after the “Unite the Right” rally organized by white nationalists, in Oakland, California, U.S., August 12, 2017. Picture taken August 12, 2017. REUTERS/Stephen Lam

 

A photograph of Charlottesville victim Heather Heyer is seen amongst flowers left at the scene of the car attack on a group of counter-protesters that took her life during the “Unite the Right” rally as people continue to react to the weekend violence in Charlottesville, Virginia, U.S. August 14, 2017. REUTERS/Justin Ide/File Photo

Os filmes de Spike Lee queimam no incêndio de uma urgência que anima este irrequieto artista, consciente da missão histórica do cinema, sobretudo quando ele é uma arma nas mãos dos oprimidos em processo de libertação. Não são apenas os seus filmes mais explicitamente históricos – como a biografia de Malcolm X ou os documentários sobre New Orleans após o Furacão Katrina (When The Levees Broke) – que revelam densidade histórica.

É toda a filmografia de Spike Lee, mesmo em seus filmes mais delirantes e lúdicos (como Bamboozzled), expressa a visão de um artista que deseja ensinar à América aquilo que ela esqueceu: to love again. Amar para aléns das falsas fronteiras e injustas segregações produzidas pelas opressões de classe, raça, gênero, religião.

Infiltrado na Klan, ainda que tenha uma dose suficiente de humor e aventura para entreter e divertir o público, numa sessão de cinema deliciosamente excitante, no fundo é bastante sério em suas apologias – do Black Power, dos Panteras Negras, das oratórias e das práxis de líderes históricos como Angela Davis e Stokely Carmichael, mas também em suas críticas – que envolve até mesmo uma crítica cinematográfica embutida na própria obra e que incide sobre o filme O Nascimento de Uma Nação de D. W. Griffiths (1915).

É espantoso o brilhantismo com que Spike Lee, em um filme de 2018, é capaz de inserir em seu enredo as cenas de um filme de 1915, de modo a provar que há uma espécie de força genética dos produtos culturais audiovisuais que fizeram história. O épico de Griffiths foi primeiro filme a ser exibido na Casa Branca e o presidente Woodrow Wilson teria dito que o filme é “a história escrita em relâmpagos”. Spike Lee não concorda que o filme seja história, pois na verdade é ideologia. Em O Nascimento de Uma Nação, vemos o cinema transformado em um artefato de doutrinação ideológica de imenso poderio – digno das análises de um Slavoj Zizek.

 Na gênesis de muitos dos ritos e cerimônias, das práticas de morticínios e linchamentos praticados pela KKK, está a inspiração deste filme que Griffiths fez em 1915 descrevendo um passado que já ia ficando distante: a Guerra Civil (1861 a 1865). Esta, também conhecida como Guerra de Secessão (entre o Norte industrializando-se e o Sul agrário-escravocrata), é o pano-de-fundo de Griffiths. Como nos relata a sinopse do filme,  a guerra civil “divide amigos e destrói famílias, como a dos Stoneman e dos Cameron. O filme retrata a história dessas duas famílias em meio aos conflitos da Guerra da Secessão, o assassinato de Abraham Lincoln e o nascimento da Ku Klux Klan.”

Jornal da KKK, Julho de 1926

Para Spike Lee, um mesmo fluxo histórico de racismo, supremacismo e eugenia parece atravessar as épocas, desde a Guerra Civil até 2018, com Trump na Casa Branca. A Ku Klux Klan permanece ativa, tendo vivido até mesmo um re-ascenso que integra este horrendo ciclo de ascensão da extrema-direita xenófoba pelo mundo afora.

Assistir a Infiltrado na Klan no Brasil, ao fim de 2018, ganha sentidos novos: na tela, um dos personagens é o líder da KKK, David Duke, que recentemente declarou à BBC, em entrevista, que “Jair Bolsonaro soa como nós”.

Bolsonaro é o típico líder de extrema-direita, que não entende bulhufas sobre políticas públicas, mas quer cagar regra de modo ditatorial para cima das classes oprimidas e subalternizadas. Bolsonaro é a encarnação da Barbárie, a nova versão do bandeirante genocida, do senhor de escravos, do cara pálida ignorantão e cruel; é, de novo, a repetição do supremacista da branquitute, que adere a uma ideologia muito semelhante ao arianismo dos nazistas.

Declarações de Bolsonaro sobre povos indígenas e quilombolas são de revirar o estômago e prenunciam práticas de extermínio e genocídio que ele sempre defendeu. A cada vez que abre a boca para falar sobre o tema, só vomita desrespeito aos povos originários, sendo ele mesmo um descendente de italianos, um seja, um xenófobo com mentalidade de colonizador… É uma vergonha que 57 milhões de eleitores, imbecilizados pela propaganda fascista nas mídias sociais e pelas fraudes eleitorais (caixa 2 e abuso de poder econômico, além de conluio com o Judiciário Golpista e com Sérgio Moro), tenham dado seu voto a esse fuhrerzinho do nazifascismo teocrático à brasileira. É vergonhoso para o Brasil ter uma figura tão medíocre e nefasta como chefe de estado.

Infiltrado na Klan, neste contexto, é um filme essencial para dar ânimo à resistência, à qual será essencial o Black Power, o Black Lives Matter, em suas versões afrotupiniquins, com intensa participação do Hip Hop e do Feminismo Negro. É que, para resistir à enxurrada de regressões e retrocessos que a ditadura neoliberal do Bolsonarismo fascista virá nos impor com tanques, tropas e fuzis, faremos bem em aprender com Spike Lee, mas também com Emicida, com Djamila, com Conceição Evaristo, com Mano Brown, com Bia Ferreira, com… todos e todas que querem um mundo onde caibam todas as vidas.

Que as adversidades sejam estímulos para a solidariedade e que os mártires que entre nós tombem, injustamente assassinados pelos algozes dentre nossos adversários, possam ser as sementes do que um dia serão as árvores frutíferas de nosso mundo novo.

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A REVOLUÇÃO NÃO VAI PASSAR NA TELEVISÃO: GIL SCOTT-HERON (1949 – 2011): Discografia para download

TV Gil Scott Heron

Gil Scott-Heron

A REVOLUÇÃO NÃO VAI PASSAR NA TELEVISÃO…
por Eduardo Carli de Moraes para A Casa de Vidro 

 

“Gil Scott-Heron, O artista afro-americano, é simplesmente uma das figuras mais cativantes e importantes do pop mundial”, dispara Alex Antunes no prefácio ao romance Abutre (Ed. Conrad). Continua: “Se você não conhece Gil Scott-Heron, ou até conhece mas nunca ouviu isto posto com tanta convicção, não se acanhe. Nem você nem este escriba estarão errados. O fato é que o exuberante talento do cantor, compositor, poeta, pianista, ficcionista veio embalado em um contexto histórico e político convulsionado e nunca completamente, digamos, ‘dichavado’. Foi a passagem dos anos 60 para os 70, com a radicalização exponencial dos grupos negros, dos estudantes, dos ativistas antiguerra do Vietnã, das feministas…” (p. 9)

A revolução não vai passar na televisão. Nem virá com intervalos comerciais e replays. A revolução, irmão, vai ser ao vivo. Com estas palavras, declamadas no maior pique, Gil Scott-Heron marcou época com o hino de protesto setentista “The Revolution Will Not Be Televised”, perfeita síntese de sua carreira e que demonstra bem sua importância histórica, ao lado do grupo The Last Poets, como pioneiro na história do movimento hip hop.

Ele foi um MC antes de existir o rap; foi como Malcolm X cantando um soul; foi o poeta da Revolução Negra na era pós-Woodstock; foi a encarnação do espírito de confluências e subversões do Hip Hop, antes deste existir “oficialmente” como movimento cultural reconhecido e abocanhador de amplas fatias do mercado musical e audiovisual.

Gil é nativo de Chicago, terra musicalmente marcada pelo blues. Seu mamadeira, aposto, foi turbinada desde cedo com litros de Muddy Waters, B. B. King, John Lee Hooker, Lightnin’ Hopkins – e talvez mais bourbon do que leite. Inspirou-se também na fonte jorrante do jazz e do funkraiz – Roy Ayers, Isaac Hayes, Ray Charles, Smokey Robinson, Curtis Mayfield, Aretha Franklin, Nina Simone, The Coasters, eram algumas de suas “estrelas-guia” e bandas-irmãs.

Já crescido, mudou-se  para New York, mas não aquela dos cartões-postais ou dos filmes de Woody Allen. Aquela N.Y.C. dos guetos e becos flagrados pela lente de Spike Lee, onde porto-riquenhos, dealers, cafetões, putas, tiras corruptos, brancos cuzões, gangues narcotraficantes, artistas contraculturais, comerciantes e camelôs se bicam e se estropiam num cenário urbano caótico e tenso.

BLAXPLOITATION CINEMATOGRÁFICA: Um dos filmes pioneiros, de Melvin Van Peebles

Segundo Antunes, o livro Abutre (The Vulture), que o jovem poeta-MC Scott-Heron publica em 1970, “dá voz ao dilema do negro urbano imobilizado entre ir da emancipação à pacificação – na integração racial – ou à ruptura revolucionária.” (p. 10) Um dos fundadores do movimento blaxploitation, que explodiria no cinema com o filme de 1971 Sweet Sweetback’s Baadassss Song, de Melvin Van Peebles, Gil Scott-Heron prenuncia em sua arte também o cinema de Spike Lee, talvez o cineasta que melhor captou a tensão inerente aos discursos antagônicos do doutor Martin Luther King e do brother Malcolm X.

Era o fim dos anos 1960 quando o que viria a ser conhecido como rap começou a nascer: Scott-Heron e os Last Poets faziam da declamação de poesia sobre uma base percussiva a fundação estética de sua arte inovadora, puro rhythm and poethy. O Black Power não era somente um penteado afro classudo, mas todo um efervescente movimento social, com significativa mobilização sob a forma dos Panteras Negras e de ativistas como Angela Davis e Huey P. Newton.

Impulsionados pelos exemplo de Malcolm X, Martin Luther King, Franz Fanon, Marcus Garvey, dentre outros inspirados, a população afroamericana “se organizava para desorganizar”. Em protesto contra a segregação racial, o preconceito supremacista, o fascismo e o imperialismo, Nixon e a Guerra do Vietnã, dentre outras pragas sociais que eles combatiam inventando um novo som e uma nova poesia, adequadas aos combates dos tempos.

Pouco tempo antes de Scott-Heron “decolar” com o lançamento de seus primeiros álbuns — o spoken word “Small Talk at 125th and Lennox” e o soul-funk “Pieces of a Man” – Jimi Hendrix havia blasfemado lindamente contra o Hino Nacional Americano em frente a 500 mil almas embasbacadas em Woodstock. Enfiando distorção e discórdia no discurso oficial, pintando de negro ou afundando na psicodelia a “Star Spangled Banner”, Hendrix impôs sua figura icônica ao zeitgeist. Scott-Heron, menos piromaníaco, seria também Hendrixiano, voodoo child, e  é hoje reconhecido como uma presença cultural de estatura equiparável a de um Curtis Mayfield, um James Brown, um Jimi Hendrix.

Gil Scott-Heron, junto com seu truta Brian Jackson, gravaram um punhado de discos brilhantes anos 70 e 80 afora. Ao mesmo tempo louvando seus heróis culturais do passado (John Coltrane, Aretha Franklin, Isaac Hayes, Billie Holliday, Al Green…) e com os pés fincados nas problemáticas sócio-políticas da era (em que a “canção de protesto” tinha voltado aos holofotes pelos esforços de Bob Dylan nos anos 60 e a Geração Folk que seguiu seus passos), fizeram pérolas das mais preciosas daquilo que hoje chamamos black music ou rhythm’n’blues (R&B).

Se a obra deste artistaço é tão desconhecida entre nós, brasileiros, isto se deve um pouco à estupidez da “Indústria Cultural”, que não se dava muito bem com o radicalismo ideológico e a riqueza sônica da arte de Scott-Heron. No meio dos anos 70, a black music de conteúdo político-crítico-lúdico-provocativo, que tinha ainda seus paladinos no Funkadelic e no Sly & The Family Stone, viu-se lançada nas sombras pela explosão da discow e da modinha yuppie. O funk Funkadélico e rap à Scott-Heron tomaram um nocaute das vertentes mais comerciais da popdisco, tudo chefiado por um redemoinho chamado Michael Jackson.  “Gil viu sua carreira ser progressivamente eclipsada com a aproximação e a passagem dos anos 80, época em que a caretice yuppie grassou e desgraçou a cultura pop”, escreve  Alex Antunes.

Como o próprio Gil Scott-Heron diz, a galerinha da discow perdeu completamente a noção de que havia uma distinção entre a ferramenta e o objetivo — “the tool and the goal”, como ele diz. A “black music”, cooptada pelas grandes gravadoras, cessou de ser uma tool nas mãos de artistas-ativistas lutando pelo goal da transformação social e comportamental, ou até mesmo da ruptura revolucionária emancipadora, para chafurdar num hedonismo vazio e consumista. A “balada” foi sendo despolitizada e foi virando cada vez mais uma curtição frívola e sem consequências, quase um mecanismo de fuga, e demoraria alguns anos até que o Punk nascesse para chutar o rabo da Geração Discotèque e trazer de volta o inconformismo e a rebelião para o centro do quadro… O que queriam rappers e punks, é claro, é que as baladas voltassem a ser perigosas…


Gil Scott-Heron, apesar do ostracismo em que caiu por grande parte dos anos 90 e 00, principalmente por ter sido enjaulado pelos tiras duas vezes por posse de “substâncias controladas”, continuou ativo e operante até o início da década de 2010, quando lançou seu canto-do-cisne, o álbum “I’m New Here”. Suas palavras e discos ecoam dos anos 70 até hoje e “Gil sobreviveu nos samples – de Professor Griff, PM Dawn, Warren G, Chubb Rock, A Tribe Called Quest, KRS-One – para vir, finalmente, a ser entronizado como um dos pais do rap, apenas um passo atrás do coletivo nova-iorquino dos Last Poets”, diz o Antunes.

Pois é: não é à toa que Gil Scott-Heron é reconhecido por grandes figuras do Movimento Hip Hop mundial — como Chuck D ou Mos Def — como um dos Pais da Matéria, “The Godfather of Rap”. Sem ele, talvez não tivessem surgido o Public Enemy e o Outkast, a Lauryn Hill e o Ben Harper, o Rappa e o Planet Hemp. Sem falar que Gil, sendo um maconheirão prá-lá-de-gente-fina, continua sendo uma referência para todos os que curtem os efeitos de expansão da consciência, do senso-de-humor e da percepção estética gerados pela sagrada cannabis…

Pra quem curte literatura, vale frisar ainda que Gil Scott-Heron, poeta de mão cheia, escreveu ainda dois romances: The Nigger Factory e Abutre, e este último foi lançado no Brasil via Conrad e vale cada centavo. Narra a via-crúcis de um traficante de drogas de New York que não para de tretar com os porto-riquenhos e vê sua vida sempre ameaçada pelos becos escuros do Harlem, Chelsea e redondezas. Lê-se com o prazer que se tem vendo um bom filme de Spike Lee ou um clássico da blaxpoitation (tendência que Tarantino “homenageou” em Jackie Brown).

Devorem abaixo, pois, um bocado de discos deste grande Mestre do rhythm and poetry (R.A.P.!), Gil Scott-Heron – a discografia completa que aqui contrabandeamos pode ser baixada gratuitamente, mas não comercializada; o download está liberado pelo mérito cultural desta obra ainda inacessível em sua inteireza no Brasil, de modo que recomendamos aos usuários que queimem este Beck sônico no espírito do compartilhamento livre e da instrução mútua. Voilà!

DOWNLOAD DA DISCOGRAFIA COMPLETA



LIVE


BLACK WAX – 1h 41 min


Gil Scott-Heron and His Amnesia Express – Tales Of Gil (1990)
1. Three Miles Down
2. We Almost Lost Detroit
3. Angel Dust
4. Winter In America
5. Johannesburg
6. The Bottle

NO PEACE, NO PUSSY! >>> “A Greve do Sexo” segundo Spike Lee: “Chi-Raq” traz Aristófanes ressuscitado na Chicago contemporânea [#CinephiliaCompulsiva2017]

 

“NO PEACE, NO PUSSY!”

Este picante e provocativo joint do Spike Lee é uma adaptação livre da peça satírica do dramaturgo grego Aristófanes (447 a.C. — 385 a.C.), “Lisístrata”, obra também conhecida como “A Greve do Sexo” ou “A Revolução das Mulheres” (Saiba mais sobre a edição em português da Ed. Zahar, RJ, 1996).

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673841O cineasta transpôs o enredo da Grécia Antiga em tempos de Guerra do Peloponeso para a Chicago contemporânea, onde as guerras de gangues causam mais mortes do que as baixas de soldados norte-americanos no Iraque e no Afeganistão.

O resultado prova que segue repleta de vivacidade e atualidade a dramaturgia grega clássica, em especial autores trágicos, como Ésquilo, Sófocles e Eurípides, e clássicos cômicos, como o Aristófanes que Spike Lee decidiu ressuscitar – um autor célebre também pela chacota contra Sócrates em As Nuvens.

O filme descreve um levante feminista que busca estancar a sangria e a carnificina através de um pussy-strike, uma greve das bocetas, que transforma-se em fenômeno mundial que enlouquece os machos do planeta (até a Marcha das Vadias Sampa faz uma participação especial no filme cantando seu slogan: “sem paz, sem xana!”).

Humorístico e sagaz, o filme se desenrola como uma espécie de musical black ou ópera-rap, em que Spike Lee demonstra não só sua maestria no domínio irrestrito da linguagem cinematográfica, mas também arrasa na capacidade de escrever um roteiro verbalmente esperto, repleto de gírias e referências à atualidade, dos riots de Ferguson ao movimento #BlackLivesMatter.

É um dos filmes mais cômicos da carreira do diretor e carrega uma sensualidade sadiamente desavergonhada que traz à lembrança uma obra magistral do passado de Spike Lee como “Jungle Fever”.

Ainda que seja carregado de conteúdo político e propostas libertárias, e ainda que prossiga discutindo os legados de Malcolm X, Martin Luther King e outras lideranças afroamericanas, o filme traz Spike Lee investindo numa estética mais leve, de chacota, beirando às vezes a vibe Sacha Baron Coen.

Realiza uma espécie de manifesto lúdico-pacifista, conexo ao feminismo negro que ele parece venera e que auxilia turbinar com sua criatividade exuberante. “Chi-Raq” demole a golpes de sarcasmo o militarismo, o machismo, o patriarcado, com várias alfinetadas nos machomen que utilizam canhões e trabucos como se fossem instrumentos fálicos. Em uma cena bacana, enquanto um endiabrado Samuel L. Jackson narra, Spike Lee exibe um tanque de guerra onde se lê “penis envy”. O filme oferece este e muitos outros ensejos para uma psicanálise crítica da psicose militarista.

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A heroína black, líder do levante, Lisístrata, comanda o lockdown dos acessos e entradas ao gozo, exigindo dos homens o cessar-fogo, caso queiram retornar ao rock and roll costumeiro. Re-significando o cinto de castidade, esta velha imposição da dominação masculina em tempos de tirania eclesiástica, elas viram o tabuleiro de jogo: a dominação masculina torna-se submissão ao poderio muito maior da mulherada em greve de sexo.

O nome do filme, neologismo que funde Chicago com Iraq, serve como emblema para aquelas regiões da América do Norte onde há matança generalizada que rivaliza com o que de pior ocorre no Oriente Médio em decorrência do imperialismo Yankee. Philadelphia vira Killadelfia, Illinois vira Drillinois… não há limites para a irreverência de spiky Spike!

John Cusack brilha no papel de um padre indignado que discursa ferozmente diante do caixão da pequena Patti, criança assassinada por uma bala perdida. Em cena memorável, o personagem de Cusack serve como veículo para Spike Lee criticar com veemência o encarceramento em massa, a segregação racial, as novas leis no molde “Jim Crow”, o frenesi armamentista, a estupidez da política proibicionista, dentre outros alvos.

Divertido e instigante, este filme altamente encenado, quase operístico, abre também novos horizontes para o movimento hip hop em sua expressão audiovisual. Com “Chi-Raq”, Spike Lee mostra estar em plena forma e segue adicionando excelentes obras à sua filmografia, explorando um cinema que brinca com os limites entre ficção e documentário, invenção e realidade.

Na Era da Shock Doctrine, no país onde a devastação do Katrina é bem menos que as cotidianas atrocidades da mentalidade e da práxis “KKK”, é o Spike Lee decerto um dos artistas mais relevantes em atividade no país que agora afunda na barbárie ultracapitalista e neofascista de Donald Trump.

Em um mundo onde o cinema comercial às vezes parece agir como fábrica de alienação, vendedor de sonhos vãos e mercador de mentiras lucrativas, é revitalizante e entusiasmante ver que há artistas do cinema que se percebem como intelectuais públicos e ativistas de causas sociais justas, que com resiliência e audácia permanentes seguem em frente inventando uma obra de relevância muito além da mercadológica. Mais do que nunca, precisamos de mais Spike Lee joints, somando-se às obras de seus contemporâneos, igualmente imprescindíveis, como Angela Davis, Cornel West, Alice Walker etc.

Quando já havia posto o ponto final nestes apressados escritos acima, descobri em Susan Sontag a informação de que Virginia Woolf, às vésperas da conflagração da carnificina da 2ª Guerra Mundial e já contemporânea da Guerra Civil Espanhola deflagrada pelo golpe de Estado fascista de Franco (conflito que se estende de 1936-1939), fez-se Lisístrata de 25 séculos depois: sustentou a tese que o fenômeno da guerra, na História, é de responsabilidade majoritariamente masculina – que a belicosidade, enfim, é uma espécie de doença da testosterona com elefantíase (com o perdão da expressão nada Woolfiana…).

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“In June 1938 Virginia Woolf published ‘Three Guineas’, her brave, unwelcomed reflections on the roots of war. Written during the preceding two years, while she and most of her intimates and fellow writers were rapt by the advancing fascist insurrection in Spain, the book was couched as the very tardy reply to a letter from an eminent lawyer in London who had asked, “How in your opinion are we to prevent war?” Woolf begins by observing tartly that a truthful dialogue between them may not be possible. For though they belong to the same class, “the educated class,” a vast gulf separates them: the lawyer is a man and she is a woman. Men make war. Men (most men) like war, since for men there is “some glory, some necessity, some satisfaction in fighting” that women (most women) do not feel or enjoy.” – SUSAN SONTAG, Regarding the Pain of Others

A mitologia vinculada à epopéia homérica, presença forte e hegemônica naquela cultura em que Aristófanes viveu e na qual agiu como cômico cáustico e corrosivo (a encarnação da contracultura, da cultura contra-hegemônica…), carrega o ranço do machismo glorificador dos feitos de guerra e das carnificinas que supostamente devem ser eternizadas pelo canto do poeta. Através de Chi-Raq, Spike Lee alinhou-se à Virginia Woolf, assinou embaixo de Aristófanes, pôs Homero em maus lençóis e legou-nos um ótimo material de debate sobre as raízes de nossa permanente psicose patriarcal guerreira – aquilo que, cada vez mais explícito torna-se, é um dos principais alvos que os movimentos de transformação social radical devem ter como télos revolucionar.

Por Eduardo Carli de Moraes || A Casa de Vidro – Série #CinephiliaCompulsiva2017.

SAIBA MAIS: https://pt.wikipedia.org/wiki/Lisístrata
http://www.imdb.com/title/tt4594834/

 

[Encontro de Culturas – Txt 11] Corpo a corpo com a ancestralidade: os segredos da musicalidade afrobrasileira segundo Nego Ativo, do Berimbrown

Corpo a corpo com a ancestralidade: os segredos da musicalidade afrobrasileira segundo Nego Ativo, do Berimbrown

Oficina de Musicalização, com o mestre Nego Ativo do Berimbrown, revela muitos segredos da musicalidade afrobrasileira e do potencial artístico de berimbaus e capoeiras

por Eduardo Carli de Moraes para o XVI Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros

O XVI Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros ofereceu aos interessados uma ótima oportunidade de vivência sobre a musicalidade afrobrasileira através da “Oficina de Musicalização na Capoeira”, que ocorreu na manhã de Domingo, 24 de Julho, no espaço Petrobras.  A vivência foi conduzida pelo mestre Nego Ativo, um dos fundadores e líderes do grupo mineiro Berimbrown, banda que já tem 20 anos de trajetória e realizou 2 shows durante o Encontrão deste ano.

O berimbau é um dos instrumentos musicais mais representativos da cultura afrobrasileira e um elemento essencial da capoeira. O ritmo e a vibe que animam as interações corporais acrobáticas dos capoeiristas estão umbilicalmente conectados à peculiar sonoridade do berimbau. Este instrumento musical, originário de Angola, foi trazido ao Brasil por aqueles que foram sequestrados no continente africano pelo imperialismo escravagista e que, mesmo a duras penas, sob o jugo tenebroso da escravidão, no Novo Mundo mantiveram viva a chama de sua cultura nativa.

O berimbau, por isso, soa como o som da resistência e da resiliência de uma cultura milenar que, longe de ter sido dizimada pelas atrocidades dos imperialistas europeus, sobreviveu após atravessar aquilo que o historiador e antropólogo Paul Gilroy batizou, em seu clássico estudo, de Atlântico Negro.

Durante a oficina pudemos conhecer em minúcias alguns detalhes e curiosidades sobre o berimbau. Poucos sabem, por exemplo, que existem pelo menos 3 subtipos de berimbau: o gunga ou berra-boi, de tom mais grave; o berimbau médio; e o viola, de tom mais agudo. Cada berimbau é simultaneamente um instrumento percussivo e harmônico, o que foi exemplificado na prática durante a oficina através de 3 berimbaus, de diferentes tonalidades, que foram tocados juntos, criando um campo harmônico convidativo para que um coro de vozes desenhasse sua melodia sobre eles.

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Nego Ativo, mestre de capoeira e grande conhecedor de nossa MPB, realizou junto aos presentes uma série de dinâmicas de grupo destinadas a ensinar algumas noções básicas de ritmo, harmonia e melodia. Mas não foram lições de teor teórico, pois o intento era conseguir, junto aos presentes, uma criação coletiva e improvisada, numa espécie de jam session de afrobrasilidade. Dito e feito.

Ele explicou brevemente o funcionamento dos compassos musicais com um linguajar acessível e saboroso: para explicar o compasso quaternário, de quatro tempos, destacou a importância do primeiro tempo, “a cabeça do compasso”, “aquilo que nos sustenta”, e com auxílio das batidas geradas pelas palmas ou pelos pés no chão mostrou na prática como funcionam os mecanismos de acentuação rítmica (pedindo, por exemplo, palmas no segundo e no quarto tempo do compasso quaternário).

Teceu ainda comentários sobre tempo e contratempo, explanou sobre a sustentação de notas e sobre as notas mais breves (os chamados stacattos). Recomendou aos presentes que querem fazer boa música: “vocês não podem sair correndo, com tudo descompassado.” Segundo Nego Ativo, a ritmicidade genuína não tem nada a ver com a pressa ou correria que caracteriza boa parte das atitudes daqueles que vivem em grandes centros urbanos e submetidos às disciplinas do mercado de trabalho.

“A gente ser lento no mundo moderno é uma dificuldade”, refletiu. Complementou, de modo a um só tempo brincalhão e sério: “temos que dar uma banana para a velocidade!” Para desenvolver um ouvido musical, é preciso dedicar tempo a não somente ouvir música, mas realmente tentar compreendê-la, em todos os seus elementos. “Temos que limpar os ouvidos, mas não tô falando de cotonetes”, brincou.

  Mano Ativo forneceu uma série de dicas para desenvolver o que ele chamou de “consciência rítmica”, dentre eles um exercício simples mas eficaz: atentar para a própria batida deste tambor incansável que cada um de nós carrega no peito (uma excitante canção recente do indie-rock internacional resume a ópera: “The Heart Is A Beating Drum”). O coração, com suas sístoles e diástoles, é o percussionista do nosso organismo. E não há músico que dê conta de realizar algo de ritmo interessante sem estar em sintonia com o pulsar do próprio corpo. O segredo da boa música, sugere Nego Ativo, consiste numa reconexão com o corpo ancestral.

Ao final da vivência, ponderou: “Hoje, nesta manhã, conseguimos fazer esta conexão com o nosso corpo ancestral, com o nosso coração rítmico, pois nos permitimos este intercâmbio. Oficinas assim podem nos ajudar a ganhar uma sabedoria para que a gente aprenda a combater este sistema veloz que nos é imposto o tempo todo. É preciso termos um controle maior da nossa velocidade.”

Foi assim que Nego Ativo compartilhou um pouco de seus ricos saberes, incentivando os participantes a realizarem junto com ele, através de batuques e palmas, de cantos e danças, uma imersão no âmbito da musicalidade afro. Ele também abordou temas como a educação do ouvido musical, o desenvolvimento de uma consciência rítmica, além de temas conectados à alienação política e sua possível superação (que só se dará, segundo ele, se criarmos as condições para o florescimento de cidadãos pensantes e atentos, conectados à ancestralidade e autônomos, autodeterminados).

Nossa música popular brasileira foi profundamente marcada por amplas influências afro, sem as quais, por exemplo, não teria nascido o samba. Um instrumento de corda como o berimbau – que é constituído não só por uma vara com um fio de arame tensionado, mas também por uma cabaça dotada de caixa de ressonância, além de outros elementos – teve entre os músicos brasileiros alguns de seus maiores virtuoses (como Naná Vasconcelos), inspirou algumas de nossas mais inesquecíveis canções (como o afrosamba de Baden Powell e Vinicius de Moraes) e chegou até mesmo a ser representado nas artes plásticas por Jean-Baptiste Debret. Nego Ativo forneceu um ótimo painel disto no contexto da música brasileira, abrindo horizontes para que os presentes depois conhecessem de modo mais aprofundado alguns artistas que ele mencionou e recomendou (como Waldemar Liberdade).

 A oficina também contribuiu para incrementar nos conviventes a apreciação estética das performances da banda mineira Berimbrown, uma das grandes atrações musicais do XVI ECT. O grupo tem uma proposta estética e política de reconexão com as raízes ancestrais, em especial as africanas e suas descendências musicais americanas (via funk, soul, hip hop etc.). Este enraizamento se dá sem perder de vista o que há de mais contemporâneo, não há problema em mesclar os beats eletrônicos do DJ com a percussividade ancestral do berimbau – algo explícito no novo álbum deles, Lamparina. Além disso, o Berimbrown lida em suas letras com temas conectados às populações periféricas, quilombolas, subalternizadas, numa perpectiva que tem semelhanças com aquela que anima o projeto artístico de Manu Chao, Mundo Livre S.A ou Anita Tijoux.

 Algumas pessoas descrevem o som do Berimbrown como uma mistura de O Rappa com James Brown. Eles evocam no palco também outras figuras emblemáticas e inspiradoras, como Bob Marley, e revelam inspirações não somente artísticas,  mas intelectuais e cívicas, como Milton Santos. O Berimbrown convoca a galera para acender a lamparina e levantar-se por seus direitos (tocam uma versão peculiar de “Get Up Stand Up” do rasta-rei do ragga, por exemplo), transitando por estilos com desenvoltura, sempre na luta por por uma outra globalização, que inclua a diversidade ao invés de prosseguir na rota atual de um capitalismo perverso e excludente.

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Fotos: Bruna Brandão

ASSISTA AO CLIPE COM ALGUNS DOS MELHORES MOMENTOS DO SHOW DO BERIMBROWN:

Simon Critchley and Cornel West in Conversation [VIDEO – 75 min]

Da Escravidão à Emancipação: a Jornada Libertária de Frederick Douglass (1818-1895)

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Frederick Douglass (1818-1895)

12 YearsSeria razão para comemoração se a escravidão tivesse ficado para a História, confinada ao passado, mero item de museu, a ser eventualmente revivida e relembrada em obras de historiadores ou em épicos cinematográficos (como o clássico de Stanley Kubrick Spartacus).

Execravelmente, no entanto, a escravidão prossegue fortemente presente no mundo atual: segundo dados da ONU, citados pelo cineasta Steve McQueen ao receber o Oscar de Melhor Filme por 12 Years a Slave (premiada adaptação do livro de Solomon Northup), existem cerca de 21 milhões de pessoas que hoje vivem em regime de escravidão (leia a reportagem da BBC). China, Nigéria, Paquistão e Índia são os 4 países com maior número de pessoas oprimidas sob regimes de trabalho forçado.

Engana-se quem pensa que no Brasil este problema não existe. Basta assistir ao perturbador documentário Nas Terras do Bem-Virá (2007, 110 min), de Alexandre Rampazzo, para descobrir a chocante realidade da escravidão na Amazônia: ali, “anualmente são destruídos centenas de milhares de hectares de floresta. Para realizar este desmatamento, são utilizados milhares de trabalhadores em regime de escravidão, aliciados principalmente nas cidades pobres do nordeste.”

Uma das mais memoráveis teses de Walter Benjamin afirma que “todo monumento da civilização é um monumento da barbárie”. Para compreender o que Benjamin queria dizer com esta provocativa e profunda formulação, é só pensar, por exemplo, na conexão umbilical entre o florescimento artístico e intelectual do mundo greco-romano e o sistema econômico calcado no escravismo. Todas as elevadíssimas e grandiosas construções culturais – como estátuas lindamente esculpidas, edifícios belamente arquitetados, obras de filosofia e poesia compostas com todo o esmero… – vinham à luz em uma sociedade escravocrata e elitista, cujo status quo era defendido desavergonhadamente até por filósofos, poetas e literatos que hoje carregam auras de reputação gloriosa. O próprio Platão, por exemplo, era dono de escravos; e Aristóteles, preceptor de Alexandre o Grande, já inicia seu livro dedicado à Política em um tom escravocrata, machista e patriarcal:

“Alguns seres, ao nascer, se veem destinados a obedecer; outros, a mandar. (…) O macho é mais perfeito e governa; a fêmea o é menos, e obedece. (…) Há na espécie humana indivíduos tão inferiores a outros como o corpo o é em relação à alma, ou a fera ao homem; são os homens no qual o emprego da força física é o melhor que deles se obtém. Partindo dos nossos princípios, tais indivíduos são destinados, por natureza, à escravidão; porque, para eles, nada é mais fácil do que obedecer. (…) A utilidade dos escravos é mais ou menos a mesma dos animais domésticos: ajudam-nos com sua força física em nossas necessidades cotidianas. (…) O escravo é completamente privado da faculdade de querer; a mulher a tem, mas fraca; a do filho é incompleta…”

ARISTÓTELES. Política.
Trad. Nestor Silveira Chaves.
Ed. Saraiva de Bolso, Livro I, Capítulo 2 e 4, pgs. 26, 27 e 42.

9781598533514Como antídoto contra argumentos tão vis, em defesa do escravagismo, quanto estes que Aristóteles sustenta em sua Política, é crucial ler a obra e conhecer a vida desta figura histórica tão significativa que foi Frederick Douglass (1818-1895). Para um retrato autêntico da experiência-de-vida concreta de escravos e senhores, de escravizados e escravizadores, o discurso frequentemente abstrato, generalista e descarnado dos filósofos faz bem em deixar-se informar e iluminar por obras que carregam e comunicam a vida em carne-e-osso: caso de Os Danados Da Terra (The Wretched of The Earth), de Franz Fanon, Os Jacobinos Negros – Toussaint L’Ouverture e a revolução de São Domingos, de C. L. R. James, ou os escritos de Frederick Douglass.

Publicado em 1845, a clássica autobiografia Narrative of the Life of Frederick Douglass, An American Slave retrata de modo vívido e memorável a situação dos escravos nos EUA na época que precedeu à Guerra Civil (1861-1865). O livro exala a autenticidade que só é capaz de atingir alguém que narra algo que vivenciou em sua carne torturada pelo labor, pelo cansaço, pela fome, pelo desconforto, pela constante opressão. Douglass conta-nos sobre experiências que carrega marcadas indelevelmente em sua memória pois são indissociáveis das cicatrizes deixadas em seu corpo pelo chicote de seus senhores. Sua prosa derrama-se na página como que inflamada pelo fervor da indignação. A eloquência de Douglass empresta boa parte de sua chama de uma revolta contra esta instituição abominável da escravidão, que reduz uma parcela da humanidade ao status de bestas-de-carga. Os comerciantes de carne humana são descritos em toda a diversidade de suas ações desumanas, cruéis e sádicas pela pena libertária de Frederick Douglass, cujo discurso tem um teor e um sabor bem assemelhado àquele que posteriormente teriam figuras como Malcolm X, Martin Luther King e Angela Davis.

Douglass nasceu escravo no estado sulista de Maryland, filho de uma escrava negra e um senhor branco. Logo no primeiro capítulo, descreve uma das desumanizações impostas à criança nascida em regime de escravidão: o recém-nascido é logo separado de sua mãe e Douglass relata que a convivência afetuosa entre a mãe e sua cria não era permitida aos escravos. Ele só encontrou-se com a mãe 4 ou 5 vezes durante a vida; ao tornar-se órfão aos sete anos de idade, Douglass relembra com impressionante sinceridade seus sentimentos diante do falecimento desta mulher que os senhores haviam-no impedido de conhecer e amar como seria natural: “I was not allowed to be present during her illness, at her death, or burial. She was gone long before I knew any thing about it. Never having enjoyed, to any considerable extent, her soothing presence, her tender and watchful care, I received the tidings of her death with much the same emotions I should have probably felt at the death of a stranger.” (CHAPTER I, p. 19)

Descrevendo o trabalho nas plantações, Douglass relembra da abundância de frutas nos pomares, constantes tentações para aqueles obrigados a trabalhar esfomeados e subnutridos na colheita. Com frequência, não podendo resistir à tentação, os escravos devoravam uma maçã aqui, uma laranja acolá, crime pelo qual eram severamente punidos pelos senhores-chicoteadores: “Scarcely a day passed, during the summer, but that some slave had to take the lash for stealing fruit.” (III, p. 29)

WAR AND CONFLICT BOOK ERA:  CIVIL WAR/BACKGROUND: SLAVERY & ABOLITIONISM

Um dos maiores líderes do movimento Abolicionista dos EUA no séc. XIX, o escravo libertado e militante dos direitos humanos Frederick Douglass

Em um episódio perturbador do livro, Douglass descreve os tormentos sofridos em comum pelos escravos sob o jugo de um certo Mr. Gore (que nome apropriado!). Este branquelo sangue-nos-olhos trabalha na função de overseer, ou seja, é o responsável pela vigilância e pela imposição da disciplinada à “negada” que labuta nos campos. Na hierarquia social, Mr. Gore não é nem elite, nem base – é classe média. Mas é aquele tipo de classe média que quer subir na pirâmide social, galgar degraus na escada do poder, e por isto é servil aos interesses da elite – no caso, os latifundiários escravocratas e lords do agrobusiness. Enfim, Mr. Gore é aquele tipo de fascista torturador que justifica seus crimes dizendo: “eu estava somente seguindo ordens”. O III Reich alemão estava repleto destas figuras: funcionários e burocratas que participam de atrocidades e defendem-se depois com o argumento da servilidade, como o Eichmann tão bem descrito pelo livro-reportagem Hannah Arendt sobre o julgamento do nazista em Jerusalém (Eichmann em Jerusalém).

Mr. Gore aparece aos olhos dos negros que foram sequestrados e roubados de seus lares da África, para serem escravizados nos Estados Unidos da América, como um demônio tão abominável quanto eram para os judeus, vítimas do Holocausto hitlerista, figuras como Himmler ou Goebbels ou Hitler. Douglass, quando descreve Mr. Gore, atinge tal gênio literário que lembrei-me de experiências estéticas semelhantes vivenciadas com Shakespeare e seu Macbeth, Conrad e o Coronel Kurtz de Coração das Trevas, Milton e seu Satã (anjo caído e rebelde) em Paraíso Perdido. Frederick Douglass escreveu páginas clássicas nos anais da descrição verbal da Vilania (aqui representada pelos vícios da gravidade, do autoritarismo, da crueldade, do sadismo), incluindo uma descrição de homicídio que está entre as mais impressionantes de toda a literatura norte-americana:

Fotografia de 1863 revela as cicatrizes de flagelação portadas por homens escravizados na Louisiana. Imagens assim foram eram distribuídas nas campanhas de militância do movimento Abolicionista que Frederick Douglass integrou e iluminou com suas ações e obras..

Fotografia de 1863 revela as cicatrizes de flagelação portadas por homens escravizados na Louisiana. Imagens assim foram eram distribuídas nas campanhas de militância do movimento Abolicionista que Frederick Douglass integrou e iluminou com suas ações e obras. Fonte da fotografia: Wikipédia.

“Mr. Gore was proud enough to demand the most debasing homage of the slave, and quite servile enough to crouch, himself, at the feet of the master. (…) He was cruel enough to inflict the severest punishment, artful enough to descend to the lowest trickery, and obdurate enough to be insensible to the voice of a reproving conscience. (…) Mr. Gore was a grave man… he indulged in no jokes, said no funny words, and his looks were in perfect keeping with his words. He spoke but to command, and commanded to be obeyed; he dealt sparingly with his words, and bountifully with his whip, never using the former where the latter would answer as well. When he whipped, he seemed to do so from a sense of duty, and feared no consequences… He was, in a word, a man of the most inflexible firmness and stone-like coldness. His savage barbarity was equalled only by the consummate coolness with which he committed the grossest and most savage dees upon the slaves under his charge. Mr. Gore once undertook to whip one of Colonel Lloyd’s slaves, by the name of Demby. He had given Demby but few stripes, when, to get rid of the scourging, he ran and plunged himself into a creek, and stood there at the depth of his shoulders, refusing to come out. Mr. Gore told him that he would give him 3 calls, and that, if he did not come out at the third call, he would shoot him… The first call was given. Demby made no response, but stood his ground. The second and third calls were given with the same result. Mr. Gore […] raised his musket to his face, taking deadly aim at his standing victim, and in an instant poor Demby was no more. His mangled body sank out of sight, and blood and brains marked the water where he had stood.” – FREDERICK DOUGLASS, Chapter IV, pg. 36

Nas páginas dos filósofos raramente encontramos algo de tão intensa concretude, uma cena tão vívida que parece escrita por uma poeta trágico grego: quase como um Ésquilo mulato, Douglass pinta-nos uma cena destinada a encher-nos de piedade pelo infortúnio de “pobre Demby”, assassinado à queima-roupa por Mr. Gore. Se Mr. Gore pode cometer este morticínio é pois está prometida à impunidade toda morte perpetrada por um branco sobre um negro. O racismo institucionalizado manifestava-se na brutalidade cotidiana exercida pela elite contra aqueles coagidos por ela a trabalharem por nada e serem espoliados de tudo. Mr. Gore encarna uma mentalidade – que poderíamos até batizar de fascismo-de-branquelo-racista – que prossegue assombrando-nos: vejam o caso Ferguson e o quanto ele trouxe à tona, mais uma vez, a tragédia social ainda não superada do racismo institucionalizado. Por isso a obra de Douglass parece-me ter valor histórico não só como uma espécie de grande-reportagem, ao mesmo tempo denuncista revoltada, mas plena de grandiosas conclamações à fraternidade, à solidariedade, à liberdade – valorizadas tão intensamente por aqueles que disto estão privados, vivendo à sombra de doídas ausências.

Uma ausência que dói em Douglass é a de instrução, de conhecimento, de sabedoria: suas páginas queimam com a chama de uma vida que queria intensamente informar-se, descobrir a verdade, a despeito dos impedimentos exteriores e placas de proibido. Frederick Douglass teve a sorte de ter aprendido o ABC, o bê-á-bá da linguagem, com uma das senhoras – que desrespeitou assim a lei, então instituída, que tornava proibido alfabetizar um escravo. As instituições educativas estavam todas de portas fechadas às “pessoas de cor” e seria tratado no chicote qualquer negão que fosse pego aprendendo a ler-e-escrever. Os senhores – os fascistas branquelos como Mr. Gore – seguem a seguinte doutrina: “A nigger should know nothing but to obey his master – to do as he is told to do. Learning would spoil the best nigger in the world. If you teach a nigger how to read, there’s no keeping him. It would forever unfit him to be a slave. He would at once become unmanageable…” (VI, p. 45)

Vê-se bem que o Iluminismo ainda não raiou na mente destes branquelos escravocratas, delirantes de ganância e doentes de etnocêntrico racismo. Eles não desejam espalhar as Luzes do Saber: é mais lucrativo e mais seguro manter os escravos na ignorância. Deve-se batalhar contra qualquer tendência de busca-de-instrução por parte daqueles que estão destinados ao labor físico brutal imposto pelo chicote e pelas ameaças terroristas constantes. Ouvindo o discurso de seus senhores, Frederick Douglass aprende num insight, momento quase epifânico, que o caminho para sua libertação estava justamente em fazer aquilo que os opressores desaconselhavam. Douglass rebela-se contra os que proíbem-no de aprender e de ensinar: cria escolas clandestinas onde ensina o ABC aos companheiros-de-destino; com o aumento de suas capacidades de expressão e de seu repertório retórico, vai forjando-se um líder de massas capaz de mobilizar com seu Verbo o coração apaixonado das massas; Douglass enfim aparece ao leitor como uma figura de grandeza ética refulgente em sua batalha contra a “depravação” que há em encerrar alguém na “escuridão mental”. Frederick Douglass aparece então como um mulado iluminista afro-americano que ergue-se como potência pedagógica em seu tempo, ensinando seus compatriotas, inclusive a elite de senhores escravocratas, quão infundado e desmiolado era o racismo que presumia uma inferioridade nata dos negros, em relação ao respeito, no que diz respeito a capacidades intelectuais, artísticas, morais etc.

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“The more I read, the more I was led to abhor and detest my enslavers. I could regard them in no other light than a band of successful robbers, who had left their homes, and gone to Africa, and stolen us from our homes, and in a strange land reduced us to slavery. I loathed them as being the meanest as well as the most wicked of men. (…) I would at times feel that learning to read had been a curse rather than a blessing. It had given me a view of my wretched condition, without the remedy. It opened my eyes to the horrible pit, but no ladder upon which to get out. In moments of agony, I envied my fellow-slaves for their stupidity.  (…) It was this everlasting thinking of my condition that tormented me. There was no getting rid of it. It was pressed upon me by every object within sight or hearing, animate or inanimate. The silver trump of freedom had roused my soul to eternal wakefulness.”  DOUGLASS (VII, pg. 50)

Um Verbo assim tão poético, elevado, eloquente, quanto o de Fred Douglass em algumas de suas melhores páginas, é por si um fenômeno muito significativo e de importância histórica: os talentos de Douglass com a linguagem serviram para derrubar alguns dos preconceitos e apartheids daquela época em que você seria um fora-de-lei se ensinasse um escravo a ler-e-escrever. O professor de Harvard Kwame Anthony Appaiah aponta que esta lei tornou-se forte após algumas tentativas de insurreição das populações escravizadas, como o levante liderado por Gabriel Prosser em 1800, de modo que a obra de Frederick Douglass brota como um fruto proibido na árvore da América – republicana e independente desde a Guerra de Independência contra o Império Britânico culminada com a proclamação da república dos EUA em 1776, mas ainda escravocrata e dividida. Um escravo, na época em que Douglass ousou escrever, não tinha direito algum a expressar-se, tanto que seus senhores faziam tudo para impedi-los de alfabetizarem-se; poderia ir pro chicote qualquer nigger pego no flagra cometendo o crime terrível de ler os jornais. Eis porque são tão relevantes as obras escritas de próprio punho pelos escravos, descrevendo suas vivências, experiências, sonhos, planos, medos, traumas, raivas – enfim, toda a amplitude de sua humanidade:

“For much of the 18th century, and even during the height of the Enlightenment in Europe and America, it was widely agreed – among both opponents and defenders of slavery – that Africans, people of the Negro race, were constitutionally incapable of making contributions to arts and letters. (…) This alleged inferiority in matters intellectual was on the main weapons in the armory of those who defended slavery. How could white people treat Negroes as equals, if black people were simply incapable of comprehending the highest gifts of the human spirit?

Against this background, the slave narrative was more than a testimony to the evils of slavery; it was also evidence of the full humanity of black people. (…) The authors had experienced the horrors recounted at first hand; it also demonstrated that black people could write real literature. To achieve the first goal, it had only to be truthful, but to achieve this second goal, it had to display rhetorical brilliance. And no slave narrative achieved this double aim more successfully thatn Frederick Douglass’s Narrative of the Life of Frederick Douglass, an American Slave, Written By Himself, published in 1845.

By 1845, he was already widely known in the North as a powerful orator in the antislavery cause, a speaker whose evident rhetorical gifts were buttressed by his status as a fugitive slave. (…) He was not only a famous orator, but also a crusading journalist… He was an activist in the cause of women’s suffrage, an important voice urging the recruitment of African-Americans in the Union army, and a campaigner against lynching. He was also among the first African-Americans to hold significant Federal appointments, serving as the United States diplomat in Haiti and the Dominican Republic.

The slave narrative is the first African-American literary genre: it is, like so much of African-American culture, a powerful creative response to America’s racial tragedy. Not only did these narratives contribute to the struggle for abolition, they demonstrated the power of the black imagination, the ability to rise above the level of plain narration and speak to the mind and heart of a society scarred by slavery.”

Kwame Anthony Appaiah (1954 – )

Se o livro de Frederick Douglass é tão importante historicamente com certeza isto se deve ao poder de persuasão espantoso que emanam destas palavras, repletas de vida e humanidade, e com a força de um leão que põe-se por inteiro na tarefa de quebrar as correntes de ferro e as grades da jaula que mantêm-no cativo no inferno terrestre da escravidão. O livro não é só uma auto-biografia que quer fornecer a crônica de ocorrências passadas, é também um brado orgulhoso, prenunciador do Black Power, com uma voz que imagino de blueseiro, celebrando um triunfo. Douglass descreve uma jornada da escravidão à emancipação; não recomenda a servilidade, mas a insurreição; não prega a aceitação fatalista da opressão, mas a construção coletiva de resistências e alternativas. Por tudo isso, Frederick Douglass prossegue tendo muito a nos dizer, já que apesar da escassez de diplomas, doutorou-se na Escola da Vida, através do sofrimento, a denunciar e tentar derrubar a fraudulenta, torturadora e genocida instituição histórica (infelizmente ainda longe de estar extinta) da escravatura.

A conquista da liberdade é gradativa, difícil, entravada por mil obstáculos e perigos. Mas Douglass é empurrado pelo destino à sina de jamais conformar-se com a condição desumanizada a que outros o condenaram. Sabe que, tentando fugir, arrisca-se a ser pego e barbaramente torturado. “On the one hand, there stood slavery, a stern reality, glaring frightfully upon us, its robes already crimsoned with the blood of millions, and even now feasting itself greedily upon our own flesh. On the other hand, away back in the dim distance, under the flickering light of the north star, behind some craggy hill or snow-covered mountain, stood a doubtful freedom – half frozen – beckoning us to come and share its hospitality.” (X, p. 87)

Frederick Douglass conhece muito bem a tendência dos escravos ao fatalismo e à resignação, estados de espírito tão úteis aos senhores desejosos de permanecer impunes por seus crimes de escravização, espoliação, expropriação; citando o Hamlet de Shakespeare, Douglass descreve seus irmãos de infortúnio como frequentemente mais propensos a “aguentar os males que temos mais do que voar ao encontro de males que não conhecemos”. Douglass exorta os escravos a jamais acostumarem-se com os males de que são vítimas a ponto de desistirem de demandar justiça. Afinal de contas, aquilo que mais anima estas páginas é justamente a presença forte de um afeto: solidariedade com outros que vivenciam um destino comum – em uma palavra, fraternidade. 

Daria pano para manga uma longa investigação sobre esta idéia de Família Humana, tal como ela aparece nas páginas de Frederick Douglass. Limito-me a apontar uma impressão forte que me ficou da leitura: o ideal de Fraternidade que Douglass nutre foi forjado principalmente em oposição ao crime ou pecado de fratricídio que era cometido com frequência e abundância ao seu redor; assim como seu ideal de Liberdade é construído por um homem acorrentado, privado dos direitos mais básicos; Mr. Gore tem licença para torturar e matar impunemente, mas Frederick Douglass pode ser pisoteado, espancado, chicoteado, esfolado e destroçado em carne-viva se comer uma maçã no pomar. Tão obscena é a discrepância entre o ideal da Fraternidade – aquilo que John Lennon chamará em “Imagine” de the brotherhood of man – e a realidade brutal das relações violentas e sádicas,  que Douglass sente-se compelido à revolta – e não por destrutividade niilista, mas como defensor do que acredita ser uma ordem ética superior. Neste sentido, Douglass tem algo de Gandhi ou de Thoreau.

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Detail of the masthead from William Lloyd Garrison’s abolitionist newspaper, The Liberator. Its motto was “No Union With Slaveholders.”

Depois de escapar da escravidão, rumando para a região de Nova York, Douglass tornou-se um ativista abolicionista, leitor entusiástico dos jornais e panfletos do movimento, cada vez mais borbulhante, que pedia a extinção da escravidão nos EUA. O preço a pagar pelo impasse entre Norte e Sul foi, como sabemos, uma das guerras mais fratricidas do século XIX, um dos episódios mais sanguinolentos da história universal naquela década de 1860. Douglass estava muito clara e convictamente posicionado neste debate, como é revelado por suas reações à leitura do jornal abolicionista Liberator: “Its sympathy for my brethren in bonds, its scathing denunciations of slaveholders, its faithful exposures of slavery – and its powerful attacks upon the upholders of the institution, sent a thrill of joy through my soul, such as I had never felt before! I had long been a reader of the Liberator before I got a pretty correct idea of principles, measures and spirit of the anti-slavery reform. I took right hold of the cause. I could do but little; but what I could, I did with a joyful heart, and never felt happier than when in an anti-slavery meeting. (…) From that time until now, I have been engaged in pleading the cause of my brethren.” (XI, p. 112)

É quase impossível, quando chegamos ao último ponto final, não sentir que acabou de falar um espírito livre. Que mostra-nos que livre não se nasce; livre a gente se torna. Frederick Douglass, professor de liberdade pois libertou-se, profundo conhecedor da fraternidade por ter sentido em sua carne, tantas vezes, este valor ser tripudiado e ofendido, é um destes autores cujas palavras têm o dom de influir sobre as vidas dos leitores a ponto de fazer valer o lema: os livros não fazem história, os livros fazem os homens, e estes fazem história. Sem este livro, talvez houvesse demorado ainda mais a chegar o dia da libertação coletiva (ainda que relativa),“the glad day of deliverance to the millions of my brethren in bonds” (Apêndice, pg. 119).

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Congress approves DC statue of Frederick Douglass in Capitol complex

“If there is no struggle, there is no progress. Those who profess to favor freedom, and yet depreciate agitation, are men who want crops without plowing up the ground. They want rain without thunder and lightning. They want the ocean without the awful roar of its many waters. This struggle may be a moral one; or it may be a physical one; or it may be both moral and physical; but it must be a struggle. Power concedes nothing without a demand. It never did and it never will.” Frederick Douglass, Civil Rights Activist (c. 1818–1895) [READ IT ALL]

Ensaio por Eduardo Carli de Moraes
Goiânia, 22 de Janeiro de 2015 d.C.

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BIOGRAPHY.COM: Abolitionist leader Frederick Douglass was born into slavery in Talbot County, Maryland. He became one of the most famous intellectuals of his time, advising presidents and lecturing to thousands on a range of causes, including women’s rights and Irish home rule. Among Douglass’ writings are several autobiographies eloquently describing his experiences in slavery and his life after the Civil War.

Douglass wrote and published his first autobiography, Narrative of the Life of Frederick Douglass, an American Slave, in 1845. The book was a bestseller in the United States and was translated into several European languages. Although the book garnered Douglass many fans, some critics expressed doubt that a former slave with no formal education could have produced such elegant prose. Douglass published three versions of his autobiography during his lifetime, revising and expanding on his work each time. My Bondage and My Freedom appeared in 1855. In 1881, Douglass published Life and Times of Frederick Douglass, which he revised in 1892.

Fame had its drawbacks for a runaway slave. Following the publication of his autobiography, Douglass departed for Ireland to evade recapture. Douglass set sail for Liverpool on August 16, 1845, arriving in Ireland as the Irish Potato Famine was beginning. He remained in Ireland and Britain for two years, speaking to large crowds on the evils of slavery. During this time, Douglass’ British supporters gathered funds to purchase his legal freedom. In 1847, Douglass returned to the United States a free man…” [READ ON]

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