Uma história de amor, rock e liberdade – Sobre “Lua em Sagitário”, um filme de Márcia Paraiso

LUA EM SAGITÁRIO

por Eduardo Carli de Moraes || Cinephilia Compulsiva @ A Casa de Vidro

Tudo conspirava para que este cinéfilo, por puro preconceito, passasse bem longe de Lua em Sagitário. De cara, tive uma enganosa primeira impressão do filme como uma comédia romântica possivelmente bem clichêzenta, com pitadas de astrologia barata para mistificar as massas, voltada ao público infanto-juvenil e adolescente, destinada apenas ao sucesso em insossas Sessões da Tarde na Rede Goebbels

Havia algo no aspecto exterior do projeto que instigava uma repulsa instintiva por suspeita de que se tratasse de um caça-níqueis, de mais um exemplar daquela lamentável legião de filmes comerciais vendidos aos parâmetros estéticos e ideológicos de uma besta-fera chamada Mercado. E estou cada vez menos afim de mergulhar de cabeça nas águas rasas de um cinema mesquinhamente mercadológico, mercador de mentiras confortáveis e babaquices açúcaradas.

Com um pouco de pé atrás, avancei até a sinopse, refletindo que valia a pena perder 1 minuto lendo o resumo da ópera para que eu enfim confirmasse que não valia a pena perder 2 horas de vida assistindo o treco. Mas a sinopse me fisgou,  abaixei a guarda das aversões apressadas e dei uma chance a um filme que pretendia tematizar, de modo neo-realista e cheio de empatia, um dos maiores e mais importantes movimentos sociais do continente americano, o MST.

Afinal de contas, talvez houvesse uma boa dose de entretenimento passável e algumas interessantes abordagens de temáticas sócio-políticas nesta obra que pretendia ser uma espécie de Romeu e Julieta em Santa Catarina, misturando o enredo mil-vezes requentado da tragédia Shakespeareana com um plot de road movie sobre 2 rodas. Dei o play e logo pintou a psicodelia dos Boogarins em “Lucifernandis”, dando o tom para o início de uma jornada cinematográfica destinada a “abrir a cabeça” e que superou, e muito, minhas parcas expectativas iniciais.

Os dois protagonistas são os pombinhos apaixonados Ana (Manuela Campagna) e Murilo (Fagundes Emanuel), que moram em pequenas cidades catarinenses próximas à fronteira com a Argentina. São cidades mortas repletas de vidas chatas, onde o sinal de celular e a conexão à Internet são difíceis de conquistar, onde todos parecem morar em sua paróquia e não em cosmópolis. 

No filme, o rock, a web e a motocicleta aparecem como as rotas de fuga em direção a um mundão mais amplo e aberto do que a sufocante estreiteza reinante. A vibe do Easy Rider de Dennis Hopper marca presença, relembrando-nos o incotornável clássico do cinema-hippie.

O elemento de antagonismo, evocando a rixa sangrenta entre Capuletos e Montechios na Verona de Romeu e Julieta, está no fato de que a família de Ana é visceralmente contrária aos sem-terra. Como escreveu Eleonora de Lucena, em crítica para a Ilustrada da Folha de São Paulo,

os pais dela detestam o pessoal do assentamento; defendem a pequena propriedade familiar, a meritocracia. Ele vem de um grupo de luta por conquista de terra, que prega o coletivismo. O embate desses mundos e suas contradições está em Lua em Sagitário”, de Marcia Paraiso. (…) Como em “Terra Cabocla” (2015), Paraiso vai buscar histórias do Brasil profundo. Naquele filme, a diretora tratou da guerra do Contestado (1912-16), conflito sangrento que há cem anos opôs caboclos e uma madeireira multinacional.

Agora, em “Lua em Sagitário”, a mesma tensão está nas entrelinhas. Nessa ficção com atmosfera juvenil e muito rock, os confrontos são levados de forma mais suave e romântica. De certa forma, os personagens da ficção são descendentes do confronto camponês relatado no documentário. Quase na mesma geografia, os caboclos, filhos de escravos, índios, peões, ressurgem no assentamento dos sem-terra –agora pequenos proprietários rurais mobilizados pela política– e no acampamento do MST, com barracas de lona, cantorias e escolas improvisadas. O enfrentamento é com os pequenos senhores de classe média que se sentem superiores e que carregam o processo de “europeização” da região, cevando o ódio aos pobres.

(LUCENA, Folha de S. Paulo)

O cinema de Marcia Paraiso evoca a estética e a ética dos melhores filmes de Jorge Furtado: O Homem Que Copiava, Meu Tio Matou Um Cara, Saneamento Básico etc. Como Furtado é mestre em fazer, Paraiso também sabe unir a leveza e o humor, por um lado, com uma abordagem crítica dos conflitos sociais. Já o caráter road movie de Lua em Sagitário evoca também toda uma série de obras onde foras-da-lei buscam fugir de suas vidinhas chatas em busca de intensos thrills (Thelma e Louise, Bonnie e Clyde, Badlands são alguns dos clássicos…), sendo sensível talvez uma influência do Walter Salles de Diários de Motocicleta (baseado nos diários de viagem de Che Guevara) e On The Road (do romance beatnik de Jack Kerouac).

No caso, Ana embarca com Murilo numa espécie de viagem iniciática em que transcenderá os limites estreitos de sua vida cotidiana de filha única, superprotegida, obrigada a ouvir ladainhas paternas raivosas de ataque aos “vagabundos do MST”. Um discurso de ódio, patriarcal e elitista, que ela, com seus fones-de-ouvido, submerge debaixo das cataratas de distorção e peso dos Black Drawing Chalks e outras bandas indie brasileiras. Ana descobrirá junto de Murilo a falsidade das opiniões atucanadas de seu pai, encontrando nos assentamentos do MST um modo-de-vida onde solidariedade, fraternidade e comunitarismo não são pálidos ideais mas vívidas realidades do convívio diário.

Os dois encontrarão, pela estrada, alguns personagens secundários que encarnam aquela estupidez relinchante de certas elites rurais do Brasil que, ao falarem sobre o MST, usam nossos pobres ouvidos como privadas. A certo momento, Ana revolta-se contra a prepotência de uma mulher que gaba-se de ser filha do prefeito e que, posuda advogada, vomita impropérios contra o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra.

Ana demonstra neste momento que seu convívio amoroso com Murilo serviu também como pedagogia política, como modo de acercar-se dos oprimidos, e ela mostra-se indignada “com gente que fala tanta bosta” e não tem a mínima capacidade sensível ou intelectual de dizer algo decente sobre o tema da reforma agrária. Sobre isto, a diretora Marcia Paraiso revelou, de modo bem didático:

“Reforma Agrária é redistribuir de forma justa a terra, reparando um processo antigo onde prevalecem os grandes latifúndios e uma legião de trabalhadores rurais sem terra para produzir. O instrumento jurídico para a reforma agrária é a desapropriação das grandes terras improdutivas, feita pelo Estado. Mesmo com os governos de Lula e Dilma Rousseff caminhamos muito pouco. A bancada ruralista se mantém forte nas decisões políticas, garantindo a manutenção do modelo colonial, substituindo o trabalho escravo pelo uso de máquinas e agrotóxicos – mesmo assim, até os dias de hoje, ainda há o uso de trabalhadores escravizados nos latifúndios. Com o momento político que vivemos, a reforma agrária é um sonho. Um sonho que permanece vivo nos movimentos sociais organizados no campo e que se concretiza nos assentamentos com novos modelos produtivos, exemplos de sucesso da agroecologia e na formação de uma nova geração rural.” – Marcia Paraiso. Leia a matéria completa da qual foi extraída a seleção acima.

 


No poster do filme, o slogan propala que Lua em Sagitário é um filme sobre “amor, rock e liberdade”. Não é propaganda enganosa. O casal Ana e Murilo conhece-se e inicia o romance sob os auspícios do argentino LP, uma espécie de velho hippie, que adora Sui Generis e Charly Garcia e empresta livros bacanas para os frequentadores de sua lan-house, A Caverna. Ele atua no filme como uma espécie de guru da contracultura, que abre os horizontes dos jovens tanto para clássicos da cultura latino-americana (de suas mãos Ana recebe Histórias de Cronópios e Famas, de Cortázar), tanto para comportamentos mais libertários vinculados ao amor livre e à vida nômade-boêmia.

Neste contexto é que o Festival Psicodália ganha os contornos de uma espécie de Eldorado, idealizado por Ana e Murilo, que partem em busca deste Graal de modo similar àqueles jovens dos anos 1960 que encaravam centenas de milhas de viagem para chegar a Monterey ou Woodstock. Todo o filme é embalado por uma trilha sonora primorosa onde o rock serve não apenas como trilha-sonora decorativa na vida dos protagonistas, mas como algo mais potente e fecundo: como força viva de contestação e rebeldia, inspiração que convida a quebrar com os velhos dogmas de comportamento e a arriscar saudáveis desobediências às correntes infames da subserviência.

Lua em Sagitário acaba, por isso, soando como uma versão brasileira do adorável filme de Ang Lee, Aconteceu em Woodstock. Até pintam participações especiais bem bizarras de ícones da esquisitice como Elke Maravilha e Serguei (este, vestindo uma camiseta onde se lê “Eu Comi A Janis Joplin”), o que aproxima ainda mais o filme do universo que os detratores chamariam de riponguice. A verdade é que poucos filmes do cinema brasileiro contemporâneos são ripongas com tanto estilo e inspiração quanto este.

Comecei este texto evocando meus preconceitos infundados diante do filme e comentando que as expectativas baixas acabaram por gerar uma experiência fílmica surpreendentemente positiva. Agora devo dizer – alertando antes que aí vem spoiler – que tudo em Lua de Sagitário conspirava para uma espécie de gran finale: eu já estava aguardando ansiosamente que, após muitas adversidades e percalços no caminho, o casal em sua motoca surrada enfim curtiria a glória do amor, do rock e da liberdade em meio à efervescência das artes integradas em confluência lá no Psicodália. Porém o que Marcia Paraiso preparou para nós foi um tremendo dum anti-clímax.

Depois de muito refletir sobre isso, cheguei à conclusão de que o desfecho anti-clímax – avesso e antônimo do deux ex machina – só melhora o filme como obra-de-arte. Deste modo, ele fica mais fiel à vida, ainda que frustre as expectativas do espectador. Quando esperávamos uma conclusão epifânica, uma apoteose de beijos em meio à multidão em ritual hippie-celebrativo no Psicodália, o filme dá um súbito rewind que conduz os viajantes de volta ao ponto de origem. Eles nunca chegam ao Eldorado, envolvidos pela teia da vigilância familiar e da tentativa de captura policial, reconduzidos à paróquia após os sonhos de abraçar cosmópolis.

Se atingir o Psicodélia era o télos desta jornada, dela só poderíamos dizer que fracassou. Mas não. A jornada foi em si mesma a recompensa: pelos encontros e aprendizados que estavam polvilhados pela poeira dos caminhos, pelos beijos e transas que abriram a Ana e Murilo a fonte jorrante dos orgasmos, pelas imersões em realidades menos paroquiais e opressivas, Lua em Sagitário evoca a busca por libertação como sistemático esforço de aniquilação do medo.


Veja o Trailer:

Da mesma cineasta:

P.S. – Estou convicto de que este filme pode ser utilizado com excelentes frutos em sala-de-aula, em especial com turmas do ensino-médio, para uma discussão mais digna e profunda do MST do que aquela que é costumeira em nossa mídia. Sabemos que o MST sofre há décadas com as calúnias e difamações movidas pela imprensa corporativa; este adora papaguear uma enxurrada de termos depreciativos como “invasões” e “vândalos”, utilizados ao invés dos muitos mais apropriados “acampamentos/assentamentos” e “trabalhadores-ativistas”.

Em seu texto “Jornalismo de Verdade”, um prefácio a um dos livros mais importantes já publicados sobre o tema – o livro-reportagem de Sue Branford e Jan Rocha (Ed. Casa Amarela), Rompendo a Cerca, vencedor do Prêmio Vladimir Herzog 2004 [http://bit.ly/2pfbfpt] – José Arbex Jr. diz:

“O MST é total e abertamente demonizado pelos maiores veículos da imprensa escrita, televisionada e radiofônica. Basta que o leitor compare o capítulo do livro Rompendo a Cerca dedicado a descrever o esforço feito pelo MST para educar suas crianças e idosos, que nunca tiveram oportunidade de frequentar uma escola, com as descrições do movimento feitas pela mídia em geral. O brilhante, exaustivo e minucioso trabalho de reportagem feito por Jan Rocha e Sue Branford, para além daquilo que representa em termos de contribuição para que a verdadeira história do MST não passe ao esquecimento, é também um daqueles momentos brilhantes que resgatam o sentido mais profundo da atividade jornalística. Se interessa sempre ao poder passar uma borracha na memória, a obrigação do jornalismo, ao contrário, é fazer aflorar as vozes que foram intimidadas e sufocadas, pois é aí – e não na versão oficial – que se encontra a notícia.

A vocação ética do jornalista, nesse sentido, deve se espelhar no anjo descrito por Walter Benjamin, em sua tese 9 sobre a história: sua ambição maior é deter o tempo, para permitir que fale a legião dos que foram atropelados pelos rumos implacáveis daquilo que se convenciona chamar “progresso”. Jan e Sue fazem isso, com notável conhecimento de causa. Demonstram, sobretudo, uma grande capacidade de entender, ouvir e estabelecer uma relação de empatia com um povo que não fala sua língua natal, não se alimenta e não se veste como os de sua terra, nem adora os mesmos deuses. Eis aí outro componente fundamental do fazer jornalístico tão bem resgatado pelas autoras: a capacidade de traduzir o estrangeiro, de ser, por assim dizer, um correspondente, no sentido mais radical e profundo do termo.

Em uma época histórica tão fortemente marcada pela promiscuidade entre o poder de Estado e os órgãos da mídia, e em que se multiplicam ao infinito os casos de jornalistas que aceitam o papel de escribas oficiais da corte em troca de um punhado de reais ou dólares, é reconfortante saber que existem profissionais como Jan Rocha e Sue Branford.” – (ARBEX – LEIA MAIS)

Se o livro Rompendo a Cerca é um dos mais meritórios trabalhos de jornalismo-de-verdade já realizados sobre o MST, arrisco-me a dizer que Lua em Sagitário, guardadas as devidas proporções, também merece ser considerado como um dos filmes brasileiros que fornece uma compreensão mais empática-simpática dos ativismos, em terra brasilis, em prol de justiça social e reforma agrária, confrontando a velha estrutura patriarcal e latifundiária que faz do Brasil um dos países com pior distribuição de renda e de terra em todo o globo.

Fotografia: Sebastião Salgado

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P.S. II – Ciente da dificuldade que muitos terão para assistir este filme na TV ou nos cinemas, estou disponibilizando por aqui o torrent para baixá-lo que circula no fórum Making Off; de maneira alguma desejamos com isso violar direitos autorais ou prejudicar a produção, apenas visamos democratizar o acesso à obra pra que seja degustada; quem gostar do filme, aproveite para dar apoio, fazendo propaganda boca-a-boca ou pelas redes, comprando o DVD ou solicitando sessões em cineclubes locais.

PÓ DE SER: “A DANÇA DA CANÇÃO INCERTA” – Conheça um dos álbuns de estréia mais incríveis da música brasileira em 2015

A DANÇA DA CANÇÃO INCERTA

por Eduardo Carli de Moraes

“A vida é mais bela quando a surpresa a espreita.”
PÓ DE SER

Do pó viemos e ao pó retornaremos, não há escapatória. Porém, nesse meio tempo, estes seres incandescentes que provisoriamente somos têm na ARTE uma das aliadas mais preciosas para que o viver, ainda que efêmero e repleto de incertezas, valha a pena. Neste ano de 2015, repleto de sensacionais lançamentos na música brasileira (Elza Soares, Bixiga 70, Cidadão Instigado, Lenine, Karina Buhr, Emicida, Siba, Mari Aydar, Rodrigo Campos, Boogarins, BNegão, Los Porongas, dentre outros) – uma bandaça de Goiânia, o Pó De Ser, lançou um belíssimo disco de estréia, A Dança da Canção Incerta (2015, 54 minutos, baixe já). Abrir-se ao influxo destas canções tão cheias de vida, deixar-se penetras por estas músicas que parecem ter sangue quente correndo em suas veias de som, leva a dar razão a Nietzsche: de fato, “sem música a vida seria um erro!” 

Pó de Ser

Gravado no Rocklab Produções Fonográficas e produzido pelo “Mestre” Gustavo Vazquez (responsável por premiados trabalhos com Macaco Bong, Black Drawing Chalks, Violins, Overfuzz, dentre outros), o disco da Pó de Ser é uma viagem estética exuberante, que expande os horizontes da Canção ao explorar suas múltiplas potencialidades sonoras e poéticas. Segundo a libertária concepção do Pó De Ser, a canção tem vocação pra ser de tudo: reflexão filosófica, confissão existencial, crítica social, crônica do cotidiano, retrato da metrópole, balada erótica, lisergia surreal, exercício de ufologia… Em suma: “tudo pode ser”.

Por ser uma banda sem ortodoxia e que não se agarra a nenhum gênero específico, a Pó de Ser escapa de ser capturada por qualquer rótulo. Tanto que a tarefa de encontrar uma etiqueta se torna uma divertida pilhéria: “Pó de Ser é vintage futurista, vanguarda ‘dodecafona’, pop experimental, cultbrega, regional intergaláctico”, arrisca Kleuber Garcez.

As letras por Diego de Moraes e Kleuber Garcez – dupla de parceiros responsáveis pelas composições – são repletas de referências e citações, mas nem por isso deixam de soar originais e autênticas, mesmo quando a tática posta em prática é a do pot-pourri. Em “Cuidado”, por exemplo, eles amarram as idéias através de menções a clássicos da música popular brasileira: “Iracema”, de Adoniran Barbosa; “Chão de Estrelas”, de Silvio Caldas e Orestes Barbosa (já gravada pelos Mutantes); “Na Terra Como No Céu”, de Geraldo Vandré; e “Nego Dito”, de Itamar Assumpção (uma figura idolatrada pelos integrantes da banda e que mereceu ainda uma releitura de sua canção “Leonor”).

Uma das virtudes mais evidentes da banda está em seu esmero poético e em seu lirismo multifacetado. Da utopia antropofágica de Oswald de Andrade às renovações estéticas do Tropicalismo, dos poetas marginais da geração mimeógrafo (Torquato Neto, Waly Salomão, Capinan, Leminski, Nicolas Behr etc.) aos compositores-cantores “malditos” (Sérgio Sampaio, Jards Macalé, Itamar Assumpção…), tudo entra no liquidificador linguístico da banda, onde as palavras pegam fogo e ganham inusitados sentidos. “Afina a viola e vai tocar o seu destino!”, cantam logo nos primeiros minutos do disco, na ousada “Pode Apostar”, que conta com participação guitarrística de Fernando Catatau, do Cidadão Instigado, que toca também na faixa de encerramento, “Pó de Ser”.

Fernando Catatau, do Cidadão Instigado, é um dos convidados especiais do Pó de Ser: o músico toca guitarra na primeira e na última faixa de "A Dança da Canção Incerta"

Fernando Catatau, do Cidadão Instigado, é um dos convidados especiais do Pó de Ser: o músico toca guitarra na primeira e na última faixa de “A Dança da Canção Incerta”

A brasilidade é explícita pelo disco afora – que por vezes remete também à obra de Raul Seixas, Luiz Tatit, Odair José ou André Abujamra – mas isso não impede o Pó de Ser de dialogar também com a (contra)cultura gringa, em especial hippies, beatniks e gurus da psicodelia. Em “Venha Ver O Sol”, por exemplo, eles saúdam os Beatles com uma canção que parece misturar a vibe de “Here Comes The Sun” (de George HarrisonAbbey Road) e “Lucy In The Sky With Diamonds” (de Lennon e McCartney @ Sgt. Peppers), mas que acolhe também menções ao clássico de Bob Dylan (“Like a Rolling Stone”), ao James Dean de Juventude Transviada, ao romance de Kerouac On The Road, e por aí vai.

O disco estabelece uma densa teia sônica e poética que enreda o ouvinte, carregando-o numa montanha-russa que mais parece uma viagem de LSD por uma Goiânia Cósmica e Alucinógena. Somando forças a Diego e Kleuber estão as guitarras certeiras de Fernando Cipó, os batuques groovados de Danilo Rosolem (com participação de Fred Valle), além de belos teclados e flautas por Hermes Soares: com intrincado entrosamento, os músicos constroem um lindo sonho delirante, um fluxo musical delicioso, que recompensa repetidas audições. Essa é uma daquelas raras “bolachas” já que vai revelando novos encantos a cada nova “orelhada”.

Um certo tom satírico e humorístico marca presença em canções como “Refrão dos Diabos” – comentário irônico sobre os refrões que, por piores que sejam, grudam na memória feito chiclete – e “Captou?” – um lúdico e ca(p)tivante experimento que lembra o trabalho magistral de Diego & o Sindicato, Parte de Nós. Várias das músicas do Pó de Ser tem uma irreverência e uma jovialidade que têm tudo para agradar aos que curtem “etc.

Já em “Fantasia ao Pé do Ouvido” é uma balada erótica que enraíza o amor na corporalidade (“gosto do seu gosto e do seu cheiro, gosto do seu gozo por inteiro”) e traz o Pó de Ser mostrando que também sabe ser sexy, com a ajuda dos vocais de Bebel Roriz. Outra cantora goiana formidável, Cristiane Perné, faz dueto com Diego na faixa-título, “A Dança da Canção Incerta”, um verdadeiro tratado existencialista em formato canção.

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“O risco é a conta que eu pago por ser vivo”, cantam eles nesta canção que parece ecoar Guimarães Rosa e seu “viver é perigoso”. Assumir os riscos todos que a vida nos lança ao caminho, e abrir-se às surpresas que estão à nossa espreita, é a parte essencial da filosofia de vida de uma banda que, a golpes de batuques e melodias, demole qualquer tendência inércia e conformismo. Por isso é tão inspirador deixar-se influenciar por esta atitude exploratória e nômade destes humanos que encaram, tendo instrumentos e vozes como armas, todos os riscos – da bala perdida ao rastro de cobra no mato.

Já “Bicho Urbano” merece decerto o troféu de uma das obras-primas musicais já escritas sobre Goiânia. O eu-lírico assume uma postura ambivalente diante de uma cidade que percebe como “bela e medonha”, como mescla de rural e de urbano, como coexistência de cosmopolitismo e provincianismo. Longe do tom celebratório, o eu-lírico canta a partir de uma posição marginal (“ninguém me socorre nessa capital / que me deixa à margem… marginal!”), descrevendo-se como “mais um louco na multidão” que inclui putas, camelôs, hippies, fiéis; é um “mosaico de nós a se desatar”.

Goiânia atravessa um prisma poético e reaparece mais exuberante e bizarra do que nunca. Com “Bicho Urbano”, a Pó de Ser alçou-se ao nível do comentário sociológico de alto nível, proeza também realizada pelo Carne Doce em “Sertão Urbano”. Na canção do Pó de Ser, alguns dos locais mais célebres da capital de Goiás são evocados por alguém que “rumina a cidade em seu pensamento”, numa atitude de “antropofagia” com o Eixo Anhanguera, o Cererê, a Praça Tamandaré… Soma-se a isso a peraltice da menção aos onipresentes propagandistas  ambulantes de pamonha (“quentinha, caseira, é o puro creme do milho verde!”), tudo misturado, sem pudor, a referências à contaminação radioativa com Césio 137, que tornou a cidade uma espécie de “Chernobyl Brasileira” em 1987.

Encarte 1

Sem pudor de botar viola no rock and roll, de tecer elos entre brasilidade e estrangeirismo, de aliar o trágico e o cômico, o Pó De Ser consegue a proeza de ser, a um só tempo, altamente experimental e saborosamente palatável. Há todo um “microcosmo” escondido dentro dessa minigaláxia chamada “A Dança Da Canção Incerta”, uma obra-de-arte que chega com força para fazer parte do “cânone” da MPB goiana, merecendo até ser caracterizado por aquele delicioso paradoxo: o do “clássico instantâneo”. Figuras como Juraildes da Cruz, Umbando, Cristiane Perné, Carlos Brandão, Gustavo Veiga Jardim, dentre outros artistas seminais do cenário, devem estar felizes, saudando a aterrissagem entre nós desta preciosa música, que vem para deixar nossas vidas mais belas e poéticas, mais surpreendentes e pulsantes, mais delirantes e diferentes…

Como escreveu Cristiano Bastos, o disco é “uma poção sonora cuja alquimia vai além da música e derrama-se em fartas doses de cinema, literatura, poesia, cultura popular e tantas outras linguagens artísticas presentes na louca infusão sonora.” Eis uma banda que, mesmo tropeçando nos astros, siderada por estar de olhos postos nos OVNIs, não perde nunca a harmonia, o ritmo, o groove, o lirismo, o ímpeto aventureiro e exploratório. Mergulhe de cabeça na dança da canção incerta sem medo de overdose: esta música é, para lembrar Manoel de Barros, um baita “esticador de horizontes”. Corra o risco! 

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OUÇA JÁ!

PÓ DE SER
A Dança Da Canção Incerta (2015)

01. PODE APOSTAR
02. CUIDADO
03. A DANÇA DA CANÇÃO INCERTA
04. BICHO URBANO
05. FANTASIA AO PÉ DO OUVIDO
06. VOU NÃO VOU
07. REFRÃO DOS DIABOS
08. LEONOR
09. PRISMA
10. CAPTOU
11. VENHA VER O SOL
12. PÓ DE SER

Faça o download do álbum completo:
http://migre.me/siavg

Curta a fanpage do Pó de Ser :
https://www.facebook.com/podeserbanda

Ouça o primeiro EP da banda:
http://soundcloud.com/podeser

Integram a banda Pó de Ser: Diego De Moraes, Kleuber Amora GarcezFernando Assis, Hermes Soares Dos Santos, Danilo RosolemO álbum inclui ainda participações especiais de Fernando Catatau (do Cidadão Instigado), Cristiane Perné, Bebel Roriz, Frederico Valle, Leo Pereira (Terrorista da Palavra), dentre outros convidados. A arte da capa é de arte de Natália MastrelaNo vídeo abaixo, confira trechos da faixa-título e da canção “Bicho Urbano”, além de cenas das gravações do álbum no Rocklab de Pirenópolis (GO). O vídeo foi bolado para a divulgação da première do álbum, que rolou na Evoé Café Com Livros, em Goiânia.

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Confira também, na sequência, “De Repente” e “Ypsilone”, ambas canções do EP de estréia do Pó De Ser, Tudo Torto Em Linha Reta:

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Ouça também os álbuns de Diego de Moraes, Parte de Nós e Diego Mascate. Confira também seus clipes para “Dia Bonito”, “O Show Vai Continuar” e “Todo Dia”.


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P.S. A Casa de Vidro também tem a alegria de anunciar que o Diego de Moraes é o mais novo colunista do site e escreverá por aqui no ano de 2016. Aguardem!!!

“O PROGRESSO É MATO!” – COLETÂNEA DE MÚSICA GOIANA DO SÉCULO XXI (OUÇA JÁ: CARNE DOCE, BOOGARINS, PÓ DE SER, VIOLINS, DIEGO MASCATE E MUITO MAIS)

CAPA

Nesta coleta, agreguei numa cyberfita um pouco da fina flor sonora do Goyaz. São 13 canções que servem como um retrato caleidoscópico do efervescente cenário goiano de música alternativa em alguns de seus mais ilustres representantes: Carne Doce, Diego de Moraes, Boogarins, Violins, Black Drawing Chalks, Umbando, Chá de Gim, dentre outros. Do stoner chalkiano ao prog-rock do Caminhão Espacial, do comovido grito dos Vícios da Era à ironia grunge dos Violinos… Tem pra todos os gostos! Aprecie com pamonha e pequi! Ilustração da capa: Oscar Fortunato.

“O PROGRESSO É MATO!”
Coletânea de Música Goiana do Sec. XXI

01) Pó de Ser, “Bicho Urbano”
02) Carne Doce, “Sertão Urbano”
03) Boogarins, “Doce”
04) Umbando, “Olho Mágico”
05) Chá de Gim, “Zé”
06) Vícios Da Era, “Tudo Que Retrata O Amor”
07) Casa Bizantina, “Minha Liberdade”
08) Diego Mascate, “No Bastidor”
09) Orquestra Abstrata, “Scramble Pie”
10) Violins, “Grupo de Extermínio de Aberrações”
11) Black Drawing Chalks (oficial), “My Favorite Way”
12) Space Truck, “Back to Gyn”
13) Cambriana, “Sad Facts”

OUÇA JÁ

21 ÁLBUNS ESSENCIAIS DA MÚSICA BRASILEIRA NO SÉCULO 21

Dentre muitos outros mais!
Sugiram nos comentários os favoritos de vcs,
que entrarão em um próximo post, “A Escolha do Leitor” (em breve!)