Questionar veracidade da teoria da origem das espécies, desculpem, é ignorância – Por Dráuzio Varella

Criacionismo outra vez

Questionar veracidade da teoria da origem das espécies, desculpem, é ignorância

por Dráuzio Varella em Folha de São Paulo (9.dez.2018)

Voltamos a falar no ensino do criacionismo nas escolas. A mania de andar para trás teima em nos perseguir.

Até 1859, quando Charles Darwin publicou o livro sobre a origem das espécies, todos acreditavam que Deus as havia criado num único dia.

Essa crença começou a ser questionada no século 19, época em que os museus ingleses passaram a exibir plantas e esqueletos de animais já extintos. Como justificar o desaparecimento de tantas espécies tão semelhantes às que ainda povoavam a Terra?

A explicação corrente era a de que a ira divina exterminava periodicamente algumas espécies para criar outras, parecidas com as anteriores.

Darwin entendeu que a ciência devia estudar a grande variabilidade existente entre os indivíduos da mesma espécie, característica que não era levada em consideração pelos naturalistas da época.

Suas observações sobre os pássaros das ilhas que visitou a bordo do Beagle, bem como a leitura dos trabalhos de Malthus a respeito da finitude dos recursos naturais, levaram Darwin a concluir que a vida é uma eterna competição pelo acesso a eles, na qual os indivíduos que não se adaptaram às exigências do ambiente foram eliminados por seleção natural.

Como consequência, todos os seres vivos deviam ter ancestrais comuns. O homem, por exemplo, seria descendente do mesmo ancestral que deu origem aos demais primatas.

Imaginem o furor que essa ideia provocou na Inglaterra vitoriana e no mundo religioso. Negar que fôramos criados à imagem e semelhança de Deus era uma blasfêmia inaceitável (ainda hoje considerada como tal por muitos religiosos).

Desde então, a teoria que Darwin enunciou naquele tempo foi exaustivamente testada e confirmada. O conceito de mutação gênica, a descrição da molécula de DNA e as descobertas da genética e da biologia molecular nos séculos 20 e 21 demonstraram que a seleção natural está presente até nos mecanismos moleculares das funções fisiológicas das células.
Theodosius Dobzhanski, um dos maiores geneticistas do século passado, afirmou: “Nada em biologia faz sentido senão à luz da evolução”.

A seleção natural é um mecanismo universal que explica a evolução da vida na Terra e em qualquer planeta em que venha a ser encontrada.

Ao contrário do pensamento científico, o religioso está alicerçado na fé. Como não preciso de experimentos para provar que Deus existe, que Jesus Cristo foi seu filho e que a vida eterna é o nosso destino, posso crer que a Terra tem 10 mil anos e que Eva foi criada a partir de uma costela de Adão.

Nada contra os crentes, a ciência não é a única forma de entender o mundo, as religiões procuram fazê-lo por outros caminhos. No entanto, assim como os cientistas têm obrigação de respeitar crenças alheias, os religiosos não devem se opor ao conhecimento científico.

O problema não está no ensino do criacionismo como pensamento religioso que ainda influencia muitas pessoas, mas em apresentá-lo como alternativa em pé de igualdade à evolução das espécies por seleção natural.

Questionar a veracidade da teoria da origem das espécies enunciada por Darwin e Wallace há mais de 150 anos, desculpem, é ignorância. É o mesmo do que duvidar da gravitação universal de Newton, colocar outra vez a Terra no centro do universo sem levar em conta Copérnico e Galileu, negar a relatividade enunciada por Einstein ou a teoria quântica de Max Planck.

A Terra não tem 10 mil anos, mas 4,5 bilhões. A vida surgiu a partir das moléculas primordiais de RNA que se formaram há uns 4 bilhões, assim que o planeta esfriou. Chimpanzés e bonobos compartilham conosco mais de 95% dos genes que herdamos de nosso ancestral comum. Não fosse um meteorito cair na península de Yucatán, no México, há 65 milhões de anos, os dinossauros ainda dominariam a Terra e, nós, dificilmente estaríamos por aqui.

Há os que preferem crer que a mão de Deus deu origem ao homem e a todos os seres vivos. Alguns não negam as evidências da evolução, mas propõem que Ele está por trás de todas as mutações gênicas adaptativas que selecionaram as espécies. Para eles, admitir que surgimos como resultado dos acasos envolvidos na seleção natural não faz sentido.

Para mim, imaginar que um ser superior criou tudo num passe de mágica reduz a complexidade da biologia que através de mecanismos seletivos chegou ao único animal que se atreveu a desvendar os mistérios da criação da vida.

Drauzio Varella
Médico cancerologista, autor de “Estação Carandiru”.

CERRADO VIVO OU BARBÁRIE – O cinema como arma de conscientização em massa. Sobre “Ser Tão Velho Cerrado”, de André D’Élia.

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ARMA DE CONSCIENTIZAÇÃO EM MASSA
por Eduardo Carli de Moraes para A Casa de Vidro

Não é catastrofismo delirante, é puro senso de realidade e atenção aos fatos empíricos: o Cerrado e toda sua estonteante diversidade está indo pro ralo, e nós com ele.

No país que é líder global no uso de agrotóxicos, onde cada cidadão consome 5 litros de veneno ao ano, estamos trucidando biodiversidade para substituí-la por monoculturas focadas no mercado estrangeiro.

Estamos deixando áreas de preservação ambiental serem invadidas pelos interesses de mineradoras, empreiteiras e hidrelétricas. Estamos testemunhando incêndios criminosos que alastram um fogo destruidor como represália pela expansão de parques devotados ao ecoturismo e à ampliação da consciência ambiental.

Estamos diante de uma alternativa similar à proposta por Rosa Luxemburgo (e Castoriadis) entre socialismo ou barbárieou mantemos o Cerrado vivo, ou tempos muito bárbaros virão, com água escassa, solos desérticos, migrações em massa, climate wars…

Um exemplo é a estrada que liga Brasília à Chapada dos Veadeiros: ela está tomada pelos mega-empreendimentos do agronegócio, e esses fazendeiros endinheirados são especialistas em ecocídio.

O extermínio da vida original do território é muitas vezes um crime sem volta, uma dilapidação de um bem que deveria, caso não fôssemos tão irresponsáveis, ser legado aos que ainda não nasceram (são preceitos básicos daquele livro de filosofia ainda tão pouco estudado, compreendido e praticado por nós: O Princípio Responsabilidade de Hans Jonas).

A riqueza inestimável da fauna e flora do Cerrado brasileiro é sacrificada para que possamos vender soja transgênica que alimentará porcos e vacas na China. Bichos escravos da indústria da carne (assistam Meat the Truth, Cowspiracy Earthlings), ainda necessitados daquela Libertação Animal de que fala o filósofo Peter Singer, animais cujas existências repletas de horror, sofrimento e agonia são tratados como commodities, produtos a serem consumida pelas centenas de milhões de carnívoros do planeta (enquanto isso, o vegetarianismo segue menos disseminado do que precisaríamos para salvar o planeta das hecatombes que já não podemos evitar).

Os lordes do agrobiz, especialistas em desmatamento, mestres da cegueira imediatista, fascinados com lucros a curto prazo mas desatentos em relação às necessidades de futuras gerações, estão fabricando a encarnação da distopia: um mundo onde este Ser tão velho, o Cerrado com seus mais de 40 milhões de anos nas costas, é irreversivelmente tratorado pelo avanço inclemente do “Progresso Modernizador”.

Ou seja, uma avalanche de latifúndios monocultores, que empregam pouquíssima gente, proliferam pesticidas cancerígenos, estimulam sementes transgênicas que só funcionam em conjunção com os produtos fertilizantes e mata-pragas fabricados por mega-corporações transnacionais, tomam o cenário de assalto.

E isto justo na época histórica onde formam-se monstros corporativos como a fusão entre Bayer e Monsanto. Num tempo onde a conjuntura política é desesperadora, com a ascensão ao poder de figuras como Donald Trump, inimigo número 1 de quaisquer práticas sustentáveis e quaisquer discursos ecologistas – e que saltou fora do Acordo de Paris sobre o aquecimento global, praticamente inviabilizando uma solução para o aumento vertiginoso das temperaturas planetárias, pois o maior poluidor atmosférico sobre a face da Terra diz, desde a Casa Branca, que está cagando e andando pra isso. O que interessa é a bufunfa, o clima que se exploda. Diante disso, ensina Naomi Klein, não basta dizer não!

Neste contexto, Goiás caminha no sentido de coloca um revólver tamanho família em sua própria cabeça e dar um tiro suicida em seu cérebro: o Caiado (DEM) é líder em todas as pesquisas de intenção de voto e deve tornar-se o novo governador do Estado após décadas de hegemonia do PSDB de Marconi Perillo. É uma conjuntura que nos leva a pensar na Lei de Murphy que enuncia: nada é tão ruim que não possa piorar. Pior que tá, fica sim.

É nossa tarefa trampar por um mundo melhor, decerto, mas às vezes também estamos obrigados a unir forças para evitar que a situação degringole para algo ainda mais catastrófico do que aquilo que já vivemos. De modo que os discursos e práticas favoráveis à conservação natural não necessariamente vinculam-se ao campo conservador do espectro político: podemos ser como ecosocialistas que defendem um modelo de intercâmbio entre Humanidade e Natureza que não seja predatório nem loucamente extrativista, apostando num modelo que privilegie a agrofloresta, a agricultura familiar e orgânica, a permacultura, a celebração da sociobiodiversidade em nossa cultura.

Neste contexto é que o cinema – como não cesso de descobrir em jornadas de intensa cinefilia! – tem poderes impressionantes de mobilização e conscientização. A chegada entre nós de Ser Tão Velho Cerrado é crucial para mostrar que esses poderes do cinema não servem somente para entreter e alienar, para gerar lucros estratosféricos com ingressos, para movimentar uma pujante indústria cultural massificada. Os poderes do cinema – em expansão espantosa deste a época dos primórdios, com os Irmãos Lumière e o mago Mèslies – podem ser mobilizados para iluminar e expandir horizontes, como ferramentas para a educação cívica, como armas de conscientização em massa.

O cinema pode ser uma via de sabedoria, uma escola itinerante cujos ensinamentos viajam na mídia leve da imagem-e-som digitalizados. Um meio de comunicação disseminável através das fronteiras, que vai onde um professor de carne-e-osso não pode ir, devido à proliferação das cópias e a divulgação na Internet, que rompe com o isolamento físico do educador que só pode estar em um único ponto do espaço-tempo de cada vez. Um filme pode ser, sintetizado em 90 minutos, todo um tratado de física, de filosofia, de biologia, de ambientalismo, de espiritualidade, de geografia, de história, de astronomia. Pode ser um chamado à união, ou mesmo à insurreição. Pode disparar os alarmes para que os adormecidos despertem para catástrofes iminentes – mas evitáveis.

Esta ambição de ensinar, somada ao ímpeto de denunciar os maus rumos que na atualidade estamos tomando, anima este filme co-movedor de André D’Élia. Sinto que nós todos, que de alguma maneira estamos visceralmente envolvidos com o métier do documentarismo e do audiovisual, sentimos bem, durante a sessão do documentário de produção e pesquisa primorosas, o quanto Ser Tão Velho Cerrado chega em boa hora e é uma obra-prima do gênero. É um documentário extremamente relevante e que precisa ser disseminado.

A aula que o filme proporciona é rica em ensinamentos cruciais: nos fala sobre o maior território quilombola da América Latina, o sítio histórico do povo Kalunga, e retrata a resistência deste povo contra o avanço trucidador dos poderes do ecocídio lucrativo; nos fala sobre a crise hídrica que nos ameaça e sobre a importância do Cerrado, como berço das águas, para todos os biomas que o circunda no território deste país de dimensões continentais; nos fala da desgraça política que é a falta de representação, nas instituições pseudo-democráticas, daqueles que defendem os interesses das populações tradicionais, dos agricultores familiares, dos produtores que não usam transgênicos; nos fala também das benesses de um ecoturismo em expansão e que, apesar de seus perigos (a gourmetização e a gentrificação), parece ser mesmo a solução imediata mais sábia para uma ocupação cívica construtiva da Chapada dos Veadeiros.

É um filme que sonda com coragem os problemas mais urgentes e cruciais de nossa época: fala das mudanças climáticas, da interconexão entre os biomas, da importância inestimável da preocupação com sustentabilidade, mas sem vender róseas soluções prontas. Ao contrário, Ser Tão Velho Cerrados pinta um retrato bastante distópico de nossa realidade atual, em que os retrocessos sócio-ambientais são chocantes e imensos. Vide a catástrofe gigantesca que matou o Rio Doce na “Tragédia de Mariana” (e que ameaça se repetir com as novas ofensivas das mineradoras sobre áreas outrora protegidas).

Este é também o primeiro filme brasileiro que faz a crônica e o registro histórico das proporções assustadoras do incêndio que devorou uma imensa fatia da fauna e flora da Chapada dos Veadeiros em 2017, chamas que muito provavelmente foram criminosamente provocadas em represália à expansão da área do Parque Nacional. Fiapos de esperança são os mutirões e as brigadas de combate ao fogo que puderam conter a tragédia através de uma solidariedade nascida das urgências do instante.

O fogo consumiu vorazmente cerca de 66 mil hectares – o equivalente a 28% da unidade de conservação – da rica flora e fauna do Cerrado em um dos piores desastres sócio-ambientais ocorridos no Brasil depois da hecatombe do Rio Doce. A Chapada dos Veadeiros viu-se lançada a um estado de emergência que exigiu solidariedade construída às pressas: ativistas e cidadãos conscientes se mobilizaram em brigadas para apagar o fogo e triunfaram após 20 dias de intensos e fatigantes trabalhos (leia mais minúcias nesta reportagem da Mídia Ninja): 

“Segundo Christian Berlinck, coordenador de combate ao fogo do Instituto Chico Mendes de Biodiversidade, o Governo Federal gastou aproximadamente um milhão de reais na operação. Da sociedade civil, foram quase 200 voluntários envolvidos nas funções da operação e quase 600 mil reais arrecadados em um exitoso financiamento coletivo, que continuará a ser feito, na criação de brigadas voluntárias permanentes, que atuariam anualmente.” – Ninja

Esse Ser tão antigo do nosso planeta, o Cerrado de ancestralidade que deveríamos reverenciar, hoje está envolvido no cerne de uma contextura desesperadora, onde comparecem elementos como a escassez hídrica, a extinção acelerada da biodiversidade, a iminência de uma catástrofe ambiental global com o descontrole do clima terrestre etc. Tudo isso somado aos mega-projetos da mineração, do agrobiz, da hidreletricidade, fortemente amparados no poder político plutocrático. Contra tudo isso, precisamos sim, e muito, de educação – desde que ela seja mobilizadora, ativista, colocando o aluno na posição daquele que precisa ser posto em movimento e retirado de sua passividade de esponja, rumo à atividade de co-laborador no partejar de um outro mundo possível.

Este documentário é capaz de acordar no espectador uma consciência ampliada do tempo. É um fenômeno cinematográfico que merece ser estudado pelos filósofos, em especial os que se interessam pelo tema da temporalidade, já que veicula uma visão do tempo que rompe completamente com o imediatismo, com a cegueira mental daqueles que põe lucros imediatos na frente da preservação das riquezas concretas e reais do planeta, aquelas que temos a responsabilidade inalienável de legar intacta para as gerações que virão.

40 milhões de anos cabem em 90 minutos? A pergunta pode parecer absurda, mas a resposta é sim – e Ser Tão Velho Cerrado, o filme de André D’Élia, realiza este aparente milagre. É um documentário altamente didático, uma ferramenta de conscientização em massa que chega para marcar época naquilo que eu chamaria de pedagogia audiovisual. Somando denúncia e anúncio, como aconselhava Paulo Freire, a obra chega em boa hora para nos alertar sobre a preciosidade do Cerrado, sua reverenciável ancestralidade, e o perigo imenso que hoje corre.

Seu título em inglês é Old Lord Savanna, um nome que me parece problemático: invoca o Lord dos monoteísmos patriarcais, ao invés de entrar em sintonia com a espiritualidade muito mais matriarcal que o filme sugere e propaga. Precisamos mais do que nunca de um Matriarcado de Pindorama, de uma cultura mais Pachamâmica, de uma espiritualidade com mais pendores para Oxum e Iemanjá do que para o enfurecido deus pintudo de Sodoma e Gomorra. Abaixo Jeová e seus clone, queremos que todos sejam co-partícipes do panteísmo que enxerga-nos como grudados à Matriz do Planeta Mãe. Estamos todos na mesma barca Gaia. 

Foi tocante descobrir que o filme integra a seu material de conscientização em massa a obra de artistas como a da talentosa fotógrafa Mel Melissa Maurer, do projeto O Caminho do Cerrado. A arte como instrumento de sensibilização é algo que se explicita nas fotos da Mel – que já expusemos em Goiânia durante uma das edições do Confluências: Festival de Artes Integradas, evento que contou com a presença da modelo Moara, que nos concedeu uma entrevista enquanto passeava pela exposição (veja abaixo).

As fotografias põe em cena a beleza exuberante e a fragilidade constitucional do corpo humano nu, vestido apenas com botas, máscara anti-gás e fitas pretas nos mamilos, em meio à devastação ambiental acarretada pelo avanço das monoculturas de soja, pelos pesticidas e transgênicos, pelos mega-projetos de barragens, pelas mega-mineradoras e seus braços na indústria da construção civil.

O filme Ser Tão Velho Cerrado também dá voz e vez a outras figuras da cultura, como a Mãe da Lua, o Caio (da Turma Que Faz) etc. Assim obrando, o documentário congrega artistas e intelectuais para somarem numa mensagem direcionada não somente aos cérebros, mas às sensibilidades.

O lucro de mineradoras, latifundiários, empreiteiras e políticos a elas vinculados representa a devastação de nosso patrimônio ancestral somada à aniquilação de nossa possibilidade de termos um futuro vivível. O mínimo que se espera é que possamos legar aos que ainda nascerão um futuro com ar limpo para respirar, água potável em fartura, espaço comum para conviver e celebrar. Tudo sob ameaça. Os defensores da terra, ameaçados com a mordaça e as balas. O sangue de milhares de Chicos Mendes é derrubado aos borbotões, enquanto os rios são barrados. E os risos são abafados pelo vampirismo de Temers e Caiados, de Sarneys e de Marconis, de Maggis e Kátias Abreus. Velhos sanguessugas escrotos, contaminados por ganância, contaminadores de tudo com sua poluição e estupidez.

Sei que o cinema não pode tudo, mas tampouco é negligenciável seu poder de transformação. No escuro daquela sala em que estamos todos sozinhos-acompanhados, alone together, podemos ser impactados de modo transformador por aquele veloz e caleidoscópio desfile de imagens e sons. Portal de luz que conduz a que possamos mergulhar em locais onde não estivemos, permite que ouçamos pessoas que não conhecíamos, aprendendo lições com aqueles que nos comunicam o que sabem de melhor.

São filmes como Ser Tão Velho Cerrado que reativam a consciência da importância do documentário para a civilização. Pois o cinema-do-real é um espetáculo à parte. À margem da Sociedade do Espetáculo, com seus blockbusters e seus rentáveis ficções a serem consumidas com muita pipoca e refrigerante, quase sempre dentro de shopping centers, o cinema documental representa uma vertente essencial desta arte: seu poderio cívico, sua capacidade de informar, formar e mobilizar um público que não é visto apenas como espectador, mas como co-partícipe e co-laborador.

Co-laboremos, pois, para que o Cerrado viva e sobreviva – pois é também nossa sobrevivência que está em jogo, nosso futuro o que está na balança. São nossos amanhãs que estão com o pescoço na guilhotina. Impeçamos a descida brutal da espada de Dâmocles que nós mesmos deixamos que ali se colocasse. Levantemos para salvar nossas goelas, nossos pulmões, nossas vidas-em-teia. Para ajudar-nos, o filme dá voz e amplifica a potência de pesquisadores e intelectuais (como Altair Sales – blog), de ONGs e instituições da sociedade civil (como a Fundação Mais Cerrado), de órgãos públicos (como o ICMBio) e comunidades tradicionais (como os Kalunga, do sítio histórico quilombola localizado em Cavalcante). Mas exige que a gente entre nessa ciranda, junte a voz a este coro.

UM PUNHADO DE CRÍTICA CONSTRUTIVA

“Nem tudo que é torto é errado, veja as pernas do Garrincha e as árvores do Cerrado.” – Nicholas Behr

Pelo que ficou dito acima, fica evidente que adorei o documentário, reconheço seu imenso mérito e farei o possível para disseminá-lo. Quero utilizá-lo em sala de aula no IFG e tentarei persuadir colegas professores a espalharem por aí os cine-debates que ponham em circulação os ensinamentos de Ser Tão Velho Cerrado. Mas gostaria de, antes de encerrar, tentar um pouco de crítica construtiva, aquele tipo de procedimento que não tem a mínima intenção de tacar pedras ou de diminuir o valor da obra em questão, mas visa somar com o processo de discussão ao apontar uma espécie de déficit.

Um aspecto que poderia ter deixado o filme ainda mais interessante, mas que teria o agravante de deixá-lo mais longo em sua duração e mais amplo em seu espectro de problemas considerados, seria uma abordagem mais minuciosa do tema da Cultura. É muito neste sentido que venho tentando colaborar, recentemente, com a produção audiovisual – propondo, em O Futuro nos Frutos mas também em Afinando o Coro dos Descontentesque há uma imensa diversidade de manifestações artísticas de teor transformador, questionador, sincrético, celebrador da diversidade, rolando em Goiás. É uma produção cultural em que as manifestações artísticas de modo algum estão alheias às problemáticas ecológicas, políticas, socioambientais, éticas etc.

Sertão Velho Cerrado nem menciona que algumas das mais expressivas bandas do cenário goiano, como Carne Doce, Boogarins, Pó de Ser, Ave Eva, Umbando, Passarinhos do Cerrado, Turma Que Faz, dentre outras, vem focando suas atenções sobre a Chapada dos Veadeiros há tempos. Este tema está lá no slogan viralizável “o progresso é mato”, que Salma Jô canta na canção-manifesto “Sertão Urbano”, uma das canções mais politizadas e mais relevantes do Carne Doce, e um dos mais belos clipes já realizados em território goiano. Este tema está lá na sapiência comunicada nas belas vozes de Flávia Carolina Almeida e Paula de Paula, que com o Ave Eva estão invocando Oyá para criticar “os humanos seres da terra” que “pagam a ela com ingratidão”.

Está lá também no rap-folk de Doroty Marques, entoada pelo coro polifônico da Turma Que Faz, que fala assim: “deixe o meu Cerrado que ele não está errado!”. Está lá em “Benzin” dos Boogarins, cujo videoclipe celebra, em belas imagens, a imensidão do Cerrado através da qual Salma Jô trafega como uma transeunte do infinito. Está lá na proposta estética de vertente mais “makulelê”, em coletivos como Coró de Pau e Ninho Cultural, na música das finadas (e maravilhosas) bandas Umbando e Cega Machado, além de rebrilhar em muitos pontos da obra magistral de Juraildes da Cruz. Está lá, também, nos mais de 20 anos de trabalhos da Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge, que realiza o Encontro de Culturas e a Aldeia Multiétnica.

É uma gente que merecia ao menos menção no esforço documental de André D’Élia. A cultura – ainda que representada pelo lindo trabalho da Mel, pelas falas do Caio, pela Mãe da Lua – ficou um tanto menosprezada. De todo modo, assistir a Ser Tão Velho Cerrado me inspirou a continuar o trabalho que venho realizando como documentarista e agente cultural, com foco neste tema das manifestações artísticas de viés político. O filme de D’Élia, com todos os seus inúmeros méritos, extremamente elogiáveis, deixou escapar essa chance de tematizar, por exemplo, o quanto o cenário musical independente, em Goiás, está em estado de razoável sintonia (que merece ser expandida) com o eixo central que estrutura este meu discuro: a alternativa Cerrado Vivo ou Barbárie.

Esse menosprezo da Cultura impede o espectador de pôr questões importantes: o que precisamos para sair do buraco não é de uma autêntica revolução cultural? Ela não teria que estar conexa a uma transformação midiática que nos empodere diante dos velhos barões da mídia)?Não precisamos acelerar rumo ao Ponto de Mutação de que nos falava Fritjof Capra? E não é uma metamorfose cultural, em direção a uma sociedade com hegemonia de uma cultura mais consciente das interconexões e interdependências que constituem a Teia da Vida neste planeta, aquilo que poderá salvar tudo da ganância e da hýbris do homo sapiens, em toda sua estúpida e ultra-disseminada falta de sabedoria? E esta cultura transformada, com suas cegueiras curadas, com sua estupidez transcendida, também não será necessariamente uma obra dos artistas, esses disseminadores de uma nova sensibilidade, de uma consciência renovada?

Em “Gota Miúda”, o “sol se escondeu atrás de um edifício” e o eu-lírico, lindamente vocalizado pela Paula de Paula, lamenta-se: “amor, como é difícil perdê-lo na construção!”. É uma imagem impressionante do quanto a natureza acaba eclipsada pelos edifícios da urbe, que arranham os céus mas servem de obstáculo à nossa visão do horizonte. Uma imagem lírica similar e análoga anima “Avalanche”, dos Boogarins, onde o eco dos amplificadores e o ataque conjugado de guitarras, baixo e batuques (todos devidamente psicodelizados), é a ferramenta imaginada como capaz de transformação de um cenário urbano que pratica um apagão da natureza e nos prende num “labirinto de tédio”. “A maior demonstração de propagação do ser é o eco. Com ele meu grito tem força para derrubar todos os prédios que não nos deixam ver o sol.”

Para que o berço das águas não se torne o túmulo da vida ao ficar seco, desértico e distópico, para que a imensa biodiversidade que é riqueza viva e inestimável não seja imolada no altar retardado do capitalismo predatório, precisaremos sim de muita arte. De uma arte que ensine e ilumine, que expanda horizontes, que chova sobre nós estas gotas miúdas que re-ativam constantemente “o milagre do pão”.

Eduardo Carli de Moraes
Goiânia, 14/08/2018

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SIGA VIAGEM:

Repórter Eco da TV Cultura

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O diretor André D’elia apresenta seu projeto “Ser Tão Velho Cerrado”, um filme que mostra a importância do bioma cerrado para a sociedade brasileira e é um exemplo do Cinema Pedrada:

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NA IMPRENSA:

FOLHA DE SÃO PAULO >>> Documentário corajoso de André D’Elia denuncia devastação do cerrado

“Este documentário do diretor e roteirista André D’Elia —afeito às causas ambientais, como demonstram os longas “A Lei da Água” (2015) e “Belo Monte – Anúncio de uma Guerra” (2012)— procura sensibilizar o grande público sobre a situação da savana brasileira, que está em avançado processo de extinção.”

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LEIA TAMBÉM EM A CASA DE VIDRO:

  • A DANÇA DA CHUVA – RIOS VOADORES E MANANCIAIS SUBTERRÂNEOS: A escassez de água que alarma o país tem relação íntima com as florestas (Reportagem e Vídeos por Revista da FAPESP): https://wp.me/pNVMz-1qW

TURISTA ESPACIAL: Quando a ficção científica abraça a Ecologia – Sobre o filme “La Belle Verte” de Coline Serreau (França, 1996) #CinephiliaCompulsiva #SciFi

Turista Espacial é um sci-fi fascinante e inovador. É capaz de unir os temas já bem batidos, como a viagem intergaláctica e o contato entre inteligências de diferentes planetas, com uma crítica social arguta de nossa civilização atual, ecocida e catastrófica. É uma obra em que a ficção científica abraça a ecologia, comentando de modo sagaz os dilemas e incógnitas do Antropoceno, ainda que o tom seja mais leve do que aquele dark mood que marca obras cruciais que depois explorariam sendas semelhantes: Filhos da Esperança (Children of Men), de Alfonso Cuarón, e Expresso do Amanhã (Snowpiercer), de Bong Joon-ho.

Assim que o filme se inicia, somos lançados a uma imersão em uma sociedade estranha, onde ocorre um ritual raro, difícil de decifrar: em meio aos verdes prados acariciados pela brisa, um matriarcado hippie realiza assembléias bucólicas onde debate-se, entre outros temas, a iniciativa de mandar representantes ao planeta Terra.

Logo o espectador percebe estar no seio de um filme de ficção científica dos mais espantosos, com aliens dos mais benignos e sábios, nada nojentos e fatais como aqueles construídos pelo clássico de Ridley Scott (Alien – O Oitavo Passageiro) e depois levado adiante nas obras de James Cameron e David Fincher.

Em La Belle Verte, de Coline Serreau, esses ETs humanóides têm anciãos que chegam a viver quase 300 anos. Esta longevidade toda foi alcançada bem longe do escarcéu terrestre de carros, bombas nucleares, guerras colossais, devastação ecosistêmica e extinção em massa da diversidade biológica e cultural. Longevos são os seres sábios que souberam acordar para a importância quintessencial do Verde, símbolo de uma união holística do organismo com o meio natural.

Na assembléia, um senhor pede a palavra e relembra os tempos em que esteve em Paris, na época turbulenta das Revoluções: lembra dos burgueses querendo guilhotinar a cabeça do rei, dos proletários querendo as cabeças de burgueses na bandeja, dos imperadores genocidas que se apropriam da república como se esta fosse sua propriedade e o instrumento dócil de seu imperialismo agressivo… O caos dos assuntos humanos é pintado em meio ao idílio extraterreno, onde Napoleão Bonaparte e Robespierre despontam com a aura tenebrosa de vilões, desprovido de halos heróicos. La Belle Verte tem a comunicar um outro ideal, anti-napoleônico, contrário às dominações imperiais mas também ao domínio humano excessivo sobre a Natureza, que nos leva a despencar na húbris e no ecocídio.

coline-serreau-06O filme, que além de dirigido, foi escrito e estrelado por Coline Serreau, abre com chave cômica: o retrato dos terrestes que nos é ofertado, se não chega a ser misantrópico, é pelo menos uma bem-dada caçoada risonha pra cima dos humanos da Terra. Somos risíveis criaturas estúpidas, ainda atreladas a carros que queimam energias fósseis e vomitam poluição; ainda cindidos em assassinas rivalidades patrióticas, étnicas ou tribais; tão pouco sábios que criaram uma situação planetária tão desgraçada e instável que nenhum dos ETs de inteligência média deseja entrar em contato conosco.

Na assembléia, não há quem se manifeste como voluntário para visitar a Terra; ninguém acredita na eficácia de uma intervenção humanitária alienígena; em suma, aos olhos da imensa maioria da assembléia de extraterráqueos, os earthlings são um caso sem esperança… O que lembra uma tirinha de Calvin e Haroldo que cai como uma luva neste contexto:

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A protagonista do filme é única alien corajosa o bastante para vir nos visitar. Pousa na Terra e é subitamente fica maravilhada pelas grandes árvores de um parque de Paris, porém sente-se agredida e insultada em suas narinas pela atmosfera tóxica, mega-poluída, da megalópole francesa. O filme vai delineando suas barricadas no conflito ideológico, fincando sua fidelidade a figuras como Rachel Carson, autora de Silent Spring, que vociferou contra o DDT e os descalabros da indústria petroquímica em uma das obras fundamentais da ecologia no século XX.

A visitante do Além-do-Humano, desacostumada com aquilo que o hábito ensinou-nos que é natural, sai andando pelas calçadas de Paris, onde ela é intensamente consciente de que pisa sobre cimento que foi esparramado sobre a terra nua, o que impede o solo de ser espaço de uma florescência vegetal luxuriante. Nas calçadas, lotadas de bostas de animais que o poder público ainda não havia podido limpar através de seus lixeiros assalariados, ela não descobre muito espaço onde flores pudessem desabrochar do chão uniformizado pelo concreto. Cof, cof! – ela tosse enquanto desvia dos cagalhões dos totós de madame e viralatas de punks.

A ideia principal que impulsiona o enredo de La Belle Verte é a do planeta e seus habitantes humanos vistos a partir da perspectiva de alguém que chega provindo de uma civilização mais sábia. Mas aqui não se trata de viagem no tempo, rumo ao passado: nesta sci-fi, não há gente do futuro entrando em máquinas-do-tempo como as célebres parafernálias de Back Into The Future, a trilogia de Robert Zemeckis. Trata-se de viagem pelo espaço que conecta entes de diferentes graus de evolução da inteligência – sendo que os humanos perdem de lavada neste quesito. Somos os estúpidos do cosmos, ainda que, neste planetinha, alguns se gabem de serem os sabichões da Terra.

Enredos semelhantes impulsionam obras sci-fi como K-Pax (de Iain Softley) e Hombre Mirando A Sudoeste (de Eliseo Subiela), pois em ambos os filmes os visitantes do espaço sideral são tratados como loucos, internados em hospícios, alvos de hipnoses ou lobotomias. Em ambos se estabelece um contraste entre a sabedoria do forasteiro e a estupidez dos terráqueos, estratégia narrativa que frisa a possibilidade de criaturas mais inteligentes que nós existirem na pluralidade de mundos que constitui o Universo – para relembrar o título do livro clássico de Fontenelle.

A Bela Verde, neste caso, está experimentando pela primeira vez a poluição atmosférica, a barulheira estridentíssima e dissonante, de uma metrópolis humana no mundo dito Ocidental, civilizado, capitalista, consumista, auto-proclamado modelo supremo de como devem viver os povos. A Bela Verde é mais intensamente sensível a tudo o que os humanos tem de bizarro: com seu olhar limpo de interesses humanos, ela observa as mulheres fúteis que desfilam embonecadas pelos bairros comerciais e shopping centers, e pergunta-se, fitando os brincos espalhafatosos grudados às suas orelhas, se não seriam aqueles alguns símbolos religiosos de um culto bastante primitivo…

Uma das cenas mais significativas se dá quando ela pára diante de uma açougue e pela primeira vez depara com o espantoso espetáculo daquela “a exibição de cadáveres”. A Bela Verde, em sua ingenuidade, fica chocada por encontrar uma vitrine por detrás da qual estavam expostos partes dos corpos-sem-vida de animais recentemente sacrificados; as autoridades responsáveis pela construção e sustentação de tal sistema talvez explicariam à forasteira, do alto de suas presunções olímpicas, que aquilo que ela via no açougue era nada mais, nada menos, do que… mercadoria. “Deixemos de sentimentalismos quando se trata de incrementar nossos benefício$$$!”, poderiam dizer-lhe, ofertando-lhe um espetinho de vaca engordada à força, empanturra de antibióticos, criada em cativeiro absoluto, em meio à lotação desagradante de abatedouros que, se tivessem paredes de vidro, fariam vomitar a quase todos aqueles que hoje deleitam-se com salsichas e filés de frango…

Além da mercantilização em massa da carne animal, a Bela Verde também fica estarrecida com os carros, intermináveis, invasivos, que dominam a cidade como se fossem de fato seus imperadores, como se merecessem todos os privilégios. Onde outrora havia um pomar transbordante de frutas, ou um parque repleto de coqueiros, ou uma floresta abrigadora de miríades de diversas espécies de seres vivos, agora o que há… é um estacionamento! E este cobra preços abusivos. Em cada esquina, um posto de gasolina que vende petróleo roubado do Oriente Médio, provavelmenmte após invasão imperialista genocida justificada como “Cruzada Anti-Terrorista”.

O cogumelo atômico é a coroa na cabeça desta Sociedade Burguesa Globalizada, provando que sua estupidez, longe de ser negligenciável, é pra lá de perigosa. A extinção de espécies que o diga.

Quando nos auto-proclamamos os fodões da Criação, os filhos prediletos de Deus-Pai Todo-Poderoso, e partimos para a dominação e exploração generalizada da Natureza, produzindo escarros colossais de substâncias tóxicas e gases de efeito estufa no ambiente que sustêm a Vida em suas múltiplas formas, tornamo-nos os inimigos de nós mesmos, carrascos da mãe nutriz, aqueles que põe fogo em seu próprio lar (como sugere o mother! de Darren Aronofsky).

E assim nos tornamos os devastadores de boa parte daquilo que vive conosco. A miríade de organismos vivos que, só pelo fato de possuir a vida como propriedade comum e destino compartilhado, já mereceria ser tratado por nós como algo de mais digno do que estoque de bacon ou recheio de McNuggets e McChickens. Neste globo infestado por junk food e agrotóxicos, epidemias corporativas disparadoras de imensas crises de saúde pública, é bom lembrar: nos EUA de hoje, por exemplo, explodiram os índices de obesidade e diabetes, o que está intimamente conectado ao sistema de alimentação que eles deixaram tornar-se hegemônico.

Por essas e outras, considero Turista Espacial um filme digno de louvores e atenções, ainda que muitos espectadores possam torcer o nariz para um certo “didatismo” que transforma este filme de ficção científica em algo parecido com uma aula de ecologia. Junto com Ponto de Mutação (Mindwalk), filme baseado na obra homônima de Fritjof Capra, a obra de Coline Serreau tem muito a nos ensinar sobre como viver e conviver melhor neste planeta que a cada dia se parece mais com uma terra devastada.

A ideologia veiculada com o filme conecta-se com aquela dos teóricos do decrescimento, como Serge Latouche; com os ensinamentos de Alan Watts sobre O Que Está Errado Com Nossa Cultura; com os ensinamenos de Small Is Beautiful de Schumacher; com as obras de pensadores contemporâneos cruciais como Vandana Shina, Raj Patel, David Suzuki, Arundhati Roy, Davi Kopenawa. Que o cinema possa ser uma força de transformação social, ou mesmo de inseminação utópica, é algo óbvio para quem conhece iniciativas como a Films For Action e para quem já assistiu Dirt!, DisruptionThe Age Of Stupid, The Secret of the Seven Sistersdentre outros. Turista Espacial está aí para somar forças a esta eco-legião.

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Por Eduardo Carli de Moraes
A Casa de Vidro – http://www.acasadevidro.com

A ÁRVORE DA VIDA NA VIAGEM DO TEMPO – Sobre Ética e Responsabilidade Pela Vida Vindoura

A ÁRVORE DA VIDA NA VIAGEM DO TEMPO

“We did not weave the web of life, we are merely strands in it. Whatever we do to the web we do to ourselves.”
― Chief Seattle

Que a Vida emergiu no seio da Natureza, que inúmeros organismos animados incandescem no pulsante coração da Phýsis, isto é o irrefutável – é o que Hans Jonas chama de o “testemunho do Ser” e que é difícil para qualquer vivente conseguir negar. Mesmo o mais empedernido niilista, o mais pessimista dos misantropos, não conseguiriam negar que a vida existe – podem negar somente que ela tenha algum valor, que seja digna de ser preservada, mas o fato ontológico de seu Ser é aquilo que agarra qualquer indivíduo em seu seio com o abraço magnético das verdades irrefutáveis. Nem mesmo os suicidas conseguem negar o fato vital, ainda que apaguem o élan vital deste minúscula parte do cosmos que é um indivíduo. Mas matar-se é sempre afirmar que a vida, indubitavelmente, existia, e que sobrevivem vidas às mancheias a qualquer cadáver. Todo suicida é sobrevivido por uma profusão de vivos que insistem e resistem.

Respiro, resisto, provo que existo. Para além do racionalismo cartesiano, a evidência irrecusável de que há Vida.

Quer a descrevamos como Árvore, quer como Teia, a Vida é aquilo de que não se pode duvidar sem absurdo: qualquer vivo é prova viva de que não existe, nem atualmente nem nos milhões de anos do passado mais recente, Natureza desprovida de vida. Está ao nosso redor em toda a exuberância que alucinava Williams Blakes e Lucrécios, it’s plain to see and it doesn’t need Belief. 

A Vida, fenômeno dinâmico e mutável, inclui entre as suas potencialidades uma diversidade de formas cambiante, uma biodiversidade que pode ir do mínimo (imaginemos um mundo onde só existem organismos unicelulares) a uma exuberante cornucópia de milhões de espécies diversas. Este colorido da Árvore da Vida, o número de “frutos” diferentes que esta grande árvore consegue nutrir com sua seiva, varia enormemente conforme corre o rio do tempo em sua infindável viagem. Espécies podem ser extintas em massa devido a eventos cataclísmicos como aquele que, há cerca de 65 milhões de anos atrás, varreu os dinossauros da face da Terra. Não temos que enxergar como nossa responsabilidade coletiva, enquanto seres humanos capazes de impactar tremendamente esta Árvore a qual pertencemos, a preservação das condições não só de nossa própria existência específica, mas de algo mais vasto, de todo o conjunto da pluridiversa teia da Vida? E o que fazemos hoje senão, irresponsavelmente, serrar o galho sobre o qual estamos sentados?

O aquecimento global causado pelas excessivas emissões carbônicas que empestam a nossa atmosfera e produzem o Efeito Estufa, os 9 milhões de mortes prematuras causadas pela poluição e a crescente acidificação dos oceanos são algumas das causas atuantes na contemporaneidade que vem causando uma extinção em massa da biodiversidade terrestre que está entre os processos globais mais assustadores hoje em curso. A ética e a política necessitam dar o salto percepcional – vivemos, como diz Fritjof Capra em Ponto de Mutação – uma crise sócio-ambiental global que decorre também de uma disseminada e nefasta crisis of perception.

Ainda há muitos que não perceberam que a Humanidade, com o conjunto de seus meios de produção, tem transformado tão radicalmente toda a biosfera que hoje tornou-se o perigo suprem para a própria Teia da Vida sobre a face da Terra. No Antropoceno, uma forma de vida pode estar causando a extinção de milhares e milhares de espécies vivas, agindo de uma maneira que justifica plenamente as preocupações da Mafaldita, a guria-filósofa de Quino. Muito esperta e afinada com a filosofia de Hans Jonas, Malfada um dia grudou ao mapamúndi o dito: “CUIDADO! IRRESPONSÁVEIS TRABALHANDO!”



É para transcender a irresponsabilidade hoje hegemônica – e que leva, p. ex., fazendeiros acéfalos, cheios de bufunfa mas nulos de sabedoria, a botarem fogo de maneira criminosa na Chapada dos Veadeiros, como fizeram em Outubro de 2017 –  que podemos encontrar muita serventia na filosofia de Hans Jonas. Desde que a conectemos a mais de 25 séculos de reflexão sobre a Phýsis, desde os primeiros pré-socráticos (Tales de Mileto, Empédocles, Xenófanes, Heráclito etc.) até a constituição da primeira teoria científica de explicação da Natureza –  a teoria atômica.

O materialismo, em suas primeiras encarnações históricas, com Demócrito de Abdera, Epicuro de Samos, Lucrécio de Roma, faz a aposta ontológica em uma Natureza integralmente composta de átomos e vazio. Em outros termos: tudo que há compõe-se de Matéria a interagir de maneira dinâmica no interior e na imanência de um espaço imenso. No salão de danças do cosmos, sóis e planetas entretecem suas matérias no fluxo sem fim do Tempo, viagem sem arremate, percurso sem repouso. Everything forever flows.

Como a vida pôde emergir deste fluxo? Como a Natureza foi capaz de parir a primeira centelha de vida? Que forças e contextos fizeram eclodir, em meio à matéria inanimada, a vida animada? Isto faltava ao precursor histórico do materialismo: a filosofia de Demócrito, tal como chegou até nós – mutilada pelo Tempo, censurada pelos adversários… – não parece realizar as devidas distinções entre a matéria animada (viva) e a matéria inanimada (ou inorgânica). Darwin e sua Teoria da Evolução pressupõe uma continuidade entre estes dois “reinos”: eles teriam bem mais do que pontes os conectando, seriam ontologicamente unos, unidos no seio do Ser, irmanados pela matéria comum. Demócrito, sobre isso, calou-se.

O esplendor da diversidade da vida seria algo que o materialismo só saberia cantar com o devido esplendor alguns séculos depois, com Lucrécio, poeta-pagão de verbo incandescente, que legou à Humanidade seu “De Rerum Natura – Da Natureza das Coisas”, obra de amplíssima repercussão histórica (como demonstrado por Greeenblatt em “A Virada”), livro que ajudou a parir o Mundo Moderno e enterrar a Idade das Trevas (Saiba mais:http://wp.me/pNVMz-1QY).

Estamos hoje em pleno Antropoceno – nome da nova era geológica que os antropobichos encontraram para designar isto que estamos vivendo, ou seja, o Planeta Terra sequestrado aos desígnios colonizadores de uma Humanidade com mais de 7 bilhões de membros, endoidecida em seus processos de devastação da Natureza e de destruição da Teia (ou Árvore) da Vida.

Nesta encruzilhada urgente e fatal onde a Humanidade se encontra, a maioria de seus membros talvez ainda não tenha acordado para a plena consciência do que significa o homo sapiens ter se convertido em agente de extinção em massa. Que nós, humanos, possamos estar sendo, aos viventes com quem convivemos, algo equivalente a um cometa cataclísmico capaz de varrer os dinossauros para sempre de estarem “among the living”, é uma notícia que muito humano ainda não teve. Ou preferiu recebê-la fingindo-se de avestruz.



O mito de Narciso, que Freud aplicou à Humanidade como um todo em sua célebre preleção sobre as Três Feridas Narcísicas (o Heliocentrismo, o Evolucionismo, a Psicanálise…), merece ser re-ativado para pensarmos os porquês desta lamentável situação em que nos encontramos enquanto “raça humana” (como se diz na expressão infeliz…).

A Humanidade – o conjunto de todas as pessoas que existem em dado momento da história – ainda prefere o seu velho conhecido, o narcisismo antropocêntrico, àquela desagradável tarefa de honestidade consigo mesma que também é um dos alvos inglórios da Filosofia promover. A Humanidade-Narcisa, a Humanidade-avestruz, no geral apenas se esquiva dos conhecimentos que podem ferir sua auto-imagem positiva e brilhosa.

Os membros da Humanidade com síndrome narcísica não querem nem mesmo pensar na possibilidade de que possamos estar agindo como “espécie daninha” e produzindo alguns dos mais hediondos desequilíbrios ecosistêmicos já perpetrados por qualquer espécie de seres vivos…

É o momento, urgente e inadiável, de refletirmos a fundo sobre a Natureza e sobre a emergência, nela, de nós, que somos a natureza em processo de conscientizar-se sobre si mesma (para lembrar uma bela idéia do geógrafo anarquista Elisée RECLUS).

Gosto de pensar a Vida como uma Árvore que cresce por um período imensamente superior no tempo em comparação com as árvores normais que conhecemos: a Árvore da Vida persevera no ser por bilhões de anos, apesar de cataclismos e extinções, o que traz à mente os poetas que lindamente nos ensinaram, como Pablo Neruda, que “pode-se cortar todas as flores, mas não se pode deter a primavera.” Porém, espécies extintas são perdas irrecuperáveis. São primaveras que foram de fato detidas. O que a Natureza forjou em milhões e milhões de anos de evolução, aniquilamos para sempre.

“Estamos em guerra contra a natureza. Se vencermos, estamos perdidos” – Hubert Reeves


Um dos meus maiores interesses na obra do Hans Jonas, “O Princípio Responsabilidade”, livro magistral e que me vejo tão atraído a estudar mais a fundo, está na capacidade deste autor de filosofar com um enraizamento profundo no solo vital da Vida em Árvore, em seu processo infindável de acontecer.

Hans Jonas sabe que o presente da Vida inclui necessariamente, como testemunhado por nós mesmos, a vida consciente, a vida animada por subjetividade. Esta consciência, esta subjetividade, caso queiramos nos manter em solo monista, na companhia de Réclus e de Spinoza, de Deleuze e de Nietzsche, de Darwin e de Marx, esta vida capaz de consciência e que se qualifica como sujeito do conhecimento e da percepção, tem necessariamente que ter emergido do próprio seio da Matéria natural. A Vida emerge da própria imanência material em certo ponto de sua caminhada histórica. Isto não é apenas fato – impõe certos valores. O que é, por ser, implica-nos num dever-ser.

O axioma de Jonas – não muito distante de um vitalismo Nietzschiano – afirma que a Vida exige que a Vida continue. A Vida é um valor e um fim para a Vida. É o que Hans Jonas vai procurar provar através dos meandros de sua prosa filosófica densa e bem argumentada.

A Vida não está aí à-toa. A Vida trabalha. Rumo ao quê? Qual o alvo que a Vida busca em seus labores milenários? Qual o sentido de haver uma Árvore da Vida nascendo e perseverando no jardim terrestre, na espaçonave Terra? Segundo Hans Jonas, em seu ímpeto de tentar dar resposta a questões filosóficas tão antigas e tão sempiternas, a Vida nos dá como testemunho aquilo que não podemos legitimamente recusar: a Natureza tem sim seus fins, seus objetivos, suas vontades, seus télos, e entre eles está certamente a própria vida.

“A subjetividade é, em certo sentido, uma manifestação superficial da natureza – a ponta visível de um iceberg muito maior -, ela fala também em nome do seu interior mudo. Ou: o fruto revela algo da raiz e do caule dos quais ele proveio. (…) A ciência natural não nos diz tudo sobre a natureza: disso é testemunha mais cabal a sua incapacidade de dar conta do caso mais elementar do sentir (e, portanto, do fenômeno mais bem comprovado de todo o universo!) – exatamente a ponta do iceberg. Essa é uma incapacidade essencial, e não provisória. Um efeito colateral e paradoxal dessa incapacidade é o fato de que a própria ciência natural, como um evento no universo a ser explicado, permanece eternamente excluída daquilo que ela pode explicar.

De todo modo, repetimos, da mesma forma como a subjetividade manifesta (que também é sempre particular) é algo assim como um fenômeno que emerge na superfície da natureza, ela se encontra enraizada nessa natureza e em continuidade essencial com ela, de modo que ambas participam do ‘fim’. À luz do testemunho da vida (que nós, rebentos que nos tornamos capazes de compreender a nós mesmos, deveríamos ser os últimos a negar), afirmamos, portanto, que o fim, de modo geral, tem domicílio na natureza. E podemos dizer algo mais quanto ao conteúdo: ao gerar a vida, a natureza manifesta pelo menos um determinado fim, exatamente a própria vida… Evitamos dizer que a vida seja ‘o’ fim, ou mesmo o principal fim da natureza, pois não temos elementos para fazer tal tipo de suposição; basta dizer: um fim.”

[HANS JONAS, “O Princípio Responsabilidade – Ensaio de uma Ética para a Civilização Tecnológica ” (Das Prinzip Verantwortung – Versuch einer Ethic für die Technologische Zivisilation). Publicado em alemão em 1979 e em inglês em 1984. Rio de Janeiro: PUC-Rio, 2006. P. 136-139.]


Ora, se a Natureza tem por um de seus alvos a Vida, e a Vida está aqui como testemunho da resiliência da Natureza na persecução incansável de seus planos, quem somos nós enquanto Humanidade para violar esta lei natural e rompermos com nossa ação conjunta todo o tecido vital? Isso é modo de tratar nossos con-viventes? O desprezo e a negligência, que manifestam muitos de nossos líderes políticos em posição de poder e decisão no topo de hierarquias econômicas e políticas, pelo FUTURO DA VIDA SOBRE A FACE DA TERRA é algo que deveria nos estarrecer, indignar e revoltar. A leitura de Hans Jonas, acredito, possui um certo potencial inflamável: lê-lo poderia nos ajudar a aumentar a temperatura de nossa ação comum contra todos aqueles que violam a vontade natural de que siga existindo Vida em diversidade e em evolução no seio da Natureza imediata – onde estamos mergulhados e enraizados.

“A natureza cultiva valores”, escreve Jonas, e a expressão me faz pensa no Jardim de Epicuro. Ali, cultivava-se a amizade, ali as flores que se queriam colher tinham o perfume delicioso da amorosidade entre pessoas que buscam sinceramente a verdade e a felicidade. Como propor que a Natureza é “neutra de valores” se temos a prova do contrário em nós mesmos, se temos a evidência suprema em nosso próprio coração, na pulsância mesma de nossas viscerais vontades? Se nós, que estamos na Natureza e somos Natureza, perseguimos fins, temos metas, somos impulsionados por desejos por aquilo que encontra-se ainda no horizonte do possível e do realizável, por que a Natureza seria diferente? É o que Jonas chama de “a imanência dos fins no Ser”.

Seríamos, nós humanos, corpóreos espíritos que manifestam por sua própria existência que o Ser em sua totalidade não poderia jamais ser considerado como isento de fins. A Natureza encontra na Vida seu sentido e não teríamos nós, humanos, o direito de tudo destroçar.

“O mais forte argumento do materialismo”, segundo Jonas, é que “em conformidade com toda experiência humana, existe matéria sem espírito, mas não espírito sem matéria: não se conhece qualquer exemplo de espírito incorpóreo.” Ora, esta união corpo-espírito, que atravessa a história da filosofia, de Demócrito e Epicuro, de Lucrécio e Spinoza, de Bergson a Jonas, é aquilo que justifica a noção de felicidade como fim imanente irrecusável de qualquer ética monista-materialista.

É aí que Jonas e Epicuro podem se unir, através dos abismos do tempo histórico, para dançarem uma ciranda muito solidária sobre a canção entoada pela Felicidade – musa-Vênus que, como élan, em nossos peitos irrefutavelmente pulsa:

“Todos os homens, diz-se, almejam a felicidade. Não se diz isso em virtude de uma comprovação estatística, pois ao dizê-lo acrescentamos a afirmação de que tal busca da felicidade se encontra na sua própria natureza; portanto, fazemos uma constatação sobre sua essência. A universalidade do objetivo de ser feliz, definida dessa forma, a princípio não é mais do que um fato: não parece que seja necessário concordar com o consequente esforço de buscá-la; pode-se desdenhá-lo ou rejeitá-lo.

É preciso reconhecer que a busca da felicidade não é fruto de escolhas voluntárias, e o fato de que ela se encontre enraizada de modo tão universal em nossa natureza provoca no mínimo uma forte presunção de que esta seja uma busca legítima. Se ela não indica uma obrigação, pelo menos indica um direito: se não temos a obrigação, pelo menos temos o direito de buscar a felicidade (desde que respeitemos um certo número de condições). Mas daí, por sua vez, resultaria então a obrigação – ou seja, um dever – de respeitar no outro esse direito, de não impedi-lo, e talvez até de promovê-lo.” (JONAS, p. 143)


O que não temos o direito de fazer, argumenta Jonas, é aniquilar a possibilidade do surgimento de novos seres que, como nós, têm a capacidade da finalidade, o desejo de dignamente buscarem serem felizes. Ser responsável – pôr em prática o Princípio Responsabilidade! – é olhar em direção ao futuro e enxergar que aqueles que não nasceram ainda não podem ser por nós condenados à não-existência sem que com isso nós cometamos o mais tolo, o mais vil, o mais suicida de todos os crimes: o crime contra a Natureza, que equivale a serrarmos o galho onde nós mesmos estamos sentados.

Urge acordarmos para o fato de que não temos nenhum direito a depredar a Árvore da Vida, de meter fogo nela como fazem ruralistas do agrobiz no Cerrado brasileiro, e que ao fazê-lo nos expomos à pérfida posição de inimigos da vida, agentes da morte, laboradores pela extinção – feia e triste coisa de se ser…

Estou com os que afirmam e defendem a Vida, irrefutável não só por sua beleza e diversidade, mas por ser, no seio da Natureza, uma das produções imanentes mais complexas e resilientes que Pachamama já pariu de seu incansável útero grávido de estrelas e células.

Temos o direito de condenar futuras gerações de viventes a uma miséria de vida em meio a um ecosistema desequilibrado, caótico, contaminado? Não é irresponsável legar aos vindouros que viverão um dia uma situação tão desgraçada que eles estejam condenados ao fracasso naquela busca pela felicidade que a Natureza solidamente implantou em suas vísceras e nos recônditos de seus cérebros perpassados pela Pulsão, pelo Impulso, pela Vontade?

“O interesse do Outro, que eu devo respeitar, poderia ter como consequência indireta para mim o dever de também promover a minha própria felicidade, cuja limitação poderia perturbar a felicidade comum…” (JONAS: p. 143)

O Princípio Responsabilidade não é exatamente uma doutrina ética que pregue o ascetismo individual, nem exatamente uma pregação moralista que exige o sacrifício da geração presente em prol da futura. Essencialmente um pensador ético-político, Hans Jonas propõe uma nova governança e uma nova legalidade coletivas para os novos tempos – que ele ainda não chamava de Antropoceno, como será batizado por Paul Crutzen . A ética da responsabilidade pela vida vindoura que Hans Jonas propõe postula a posição de primazia que aquele que ainda vai nascer pede de nós, os hoje-vivos, dada a magnitude da potencialidade humana de aniquilar tecnicamente as condições para a continuação da vida sobre a face da Terra.

Esses vindouros que um dia ainda vão nascer neste nosso Mundo Comum, superando o Outro sempre-contemporâneo das éticas tradicionais, devem ganhar mais espaço em nosso radar moral, os viventes vindouros devem se torna o Outro pelo qual nos responsabilizamos. E quando dizemos vivemos vindouros, queremos incluir aí todas as vidas não-humanas, inserir na ética e logo na responsabilização inclusive este estranho Outro, este Outro que ignoramos tanto e tão irresponsavelmente, que é o Futuro Ser Vivo Não-Humano, que desde já estamos aniquilando em vastíssima escala (conferir Elizabeth Kolbert e seu livro premiado com o Pulitzer, “A Sexta Extinção”: http://wp.me/pNVMz-470).

Novos imperativos categóricos daí decorrem. Aja sempre de modo a não aniquilar a possibilidade de continuação da aventura da Vida na viagem do Tempo. Jamais ponha em risco a capacidade da Natureza em prosseguir produzindo a Vida em sua diversidade e em sua capacidade de diversificação, mutação, inovação.

Procure sempre olhar para além do umbigo do instante imediato e enxergue que Mundo Comum, como ensina Hannah Arendt, é aquilo que adentramos ao nascer, que deixamos ao morrer, que precede em bilhões de anos nossa entrada, que sobreviverá por bilhões de anos após a nossa saída.

A dita Mãe-Natureza, a Espaçonave em que estamos todos embarcados, obriga-nos a percebermos, caso queiramos ser sábios e colaboradores de seus astrofísicos projetos, que “diante dos nossos desejos e opiniões particulares ela detém os privilégios do todo diante das partes, do duradouro diante do transitório, do poderoso diante do ínfimo.” (HANS JONAS, p. 144)

* * * *

A UTOPIA COMUNISTA EM QUESTÃO: Hans Jonas comenta a herança marxista

Poderíamos legitimamente atribuir a degradação ambiental do planeta toda ao capitalismo? Como a utopia comunista se coloca, no campo de debates e conflitos, em relação à gestão ambiental? O que o marxismo e as revoluções por ele inspiradas propõe diante da perspectiva da Terra, no Antropoceno, vivenciar algumas das piores catástrofes e crises humanitárias já vivenciadas por qualquer geração humana? Precisamos de fato de uma utopia, como a comunista, para guiar nossas ações rumo a um futuro melhor, ou devemos ser mais modestos e, como propõe Hans Jonas, abandonar utopias para focar na tarefa urgente de tornar este mundo um pouco menos hediondo?

Vejamos, por exemplo, no capítulo V de O Princípio Responsabilidade, o que diz Jonas sobre “os efeitos desmoralizantes da exploração econômica”. Ele parte do “mote da crítica marxista ao capitalismo, segundo a qual as relações de exploração são imorais como tal, sendo seus efeitos igualmente desmoralizantes, tanto para os ganhadores quanto para os perdedores. Os exploradores são culpados pelo simples fato de sê-lo e, além disso, como ninguém é capaz de suportar por muito tempo a consciência da culpa, eles sofrem com a deformação moral da insensibilização e da consciência mentirosa, sem as quais não poderiam continuar a desemprenhar seu papel. (…) A sentença socrática, de que o injusto antes de tudo prejudica a si mesmo, cabe aqui também ao ‘explorador’… o sistema é moralmente prejudicial até para os seus beneficiários.” (p. 275)

O capitalismo só tem perdedores – mesmo aqueles que pensam estar ganhando, ou seja, aqueles que comemoram seus privilégios nos topos de pirâmides econômicas, estão moralmente na lama, no lodaçal da injustiça praticada cotidianamente e recalcada através das invenções psíquicas alienantes e perigosas produzidas pela hipocrisia. O bilionário hipócrita irá colocar a máscara de cidadão caridoso ao doar alguns milhões para uma ONG de combate à desnutrição infantil, mas jamais ousará questionar que a própria fonte de seu capital bilhardário seja de fato um sistema que condena milhões a morrer de fome.

O explorador, ao empobrecer o Outro, ao desrespeitar as dignidades mais básicas que seriam de direito de todos. E isso de acordo não apenas com os Direitos Humanos universais mas de acordo também com muitas pregações religiosas, como as do catolicismo, palavra que literalmente quer dizer universal e que jamais previu um deus como Jeová, particularista em sua escolha do povo eleito; no catolicismo, não há povo eleito senão a humanidade como um todo… ao (menos em teoria, ou melhor em teologia, na prática a coisa sempre foi outra e católicos não conseguiram estender aos partidários de Alá os princípios de seu ímpeto kathólico…).

“Os primeiros tempos do capitalismo industrial nos ensinaram sobre o resultado duradouro e objetivo da exploração econômica: a distribuição injusta dos bens (ou seja, não conforme ao trabalho despendido), que pode conduzir um grande número de despossuídos à degradação da sobrevivência mais elementar, que não deixa espaço para mais nada. Sobre isso, vejam o livro de Friedrich Engels, A situação da classe trabalhadora na Inglaterra. É óbvio que tal situação amesquinha o homem como tal: a pobreza conduz ao empobrecimento também do ponto de vista moral. O que se obtém no despotismo, por meio da violência e do medo, obtém-se aqui pela miséria material e a necessidade bruta… Ecoam as palavras de Bertolt Brecht em nossos ouvidos: ‘Primeiro vem a comida, depois a moral’, ‘mas as circunstâncias não o permitem’.” (Ópera dos Três Vinténs) 

Quando Brecht escreve esta famosa frase, quer dizer de fato que há uma relação de primazia do pão (primeiro a comida!) em relação à moral. O que queremos não é uma sociedade onde riquíssimos senhores, detentores de capitais provenientes da exploração em massa de seus próximos, fiquem em cima de púlpitos, cátedras ou parlamentos fazendo pregações morais sobre a importância da caridade, ou seja, das esmolas. O que queremos é uma sociedade onde a miséria de muitos não sirva de trampolim os privilégios injustos de poucos. Comentando o mote Brechtiano, Hans Jonas diz: “isso significa que os famintos (ameaçados de morrer de fome), bem como aqueles que estão sendo sufocados, são privados das necessidades das necessidades mais básicas da vida e, por isso, mantidos em um estado pré-moral; mas, em seguida, efetivamente vem a moral, que reivindica seu quinhão.” (p. 256)

A teoria ética de Jonas prevê um “dever moral para com terceiros” que consiste em “ajudar a superar uma condição que inviabiliza a moral”, o que significa construir uma “situação justa” que “abriria as portas para a libertação do potencial humano propriamente dito, que até agora estaria obstruído pelas relações injustas de ambos os lados da divisão em classes.” (p. 257) Parece-nos, pois, que Hans Jonas sonda a sério a possibilidade de que a utopia comunista possa participar da solução de nossos problemas, que envolvem também a tarefa monumental de formular novos paradigmas para a ética e para a política com a perspectiva da responsabilidade expandida, que deve abarcar também os que viverão um dia e não só os que vivem agora.

Porém, aquilo que torna Hans Jonas um crítico contundente do marxismo e das utopias políticas a ele vinculadas é o “culto da técnica”. Marxistas seriam idólatras da tecnologia, estariam de joelhos diante do mesmo deus de muitos capitalistas, ou seja, o chamado “progresso técnico-científico”.

“O marxismo é um dos frutos do pensamento baconiano. Ele se compreende, fundamentalmente, como aquele que foi escolhido para ser o seu executor testamentário. Desde o início o marxismo celebrou o poder da técnica, acreditando que a salvação dependesse da união desta com a socialização. Para ele, não se trata de controlar a técnica, mas de liberá-la dos grilhões da propriedade capitalista, pondo-a a serviço da felicidade humana. (…) Aqueles que são bastante idosos para terem testemunhado os primórdios da Rússia soviética se recordam do lema ‘socialismo e eletrificação’, do livro chamado Concreto, do filme de Eisenstein narrando a heroica construção de uma estrada de ferro, da glorificação dos tratores, da comemoração da instalação de cada nova fábrica e de cada progresso na engenharia, saudados como contribuições ao socialismo. Podemos hoje sorrir dessa fase infantil…” (p. 254-255)

A crítica de Jonas ao marxismo dirige-se, pois, à dominação da natureza pelos meios de produção coletivizados, de modo que mesmo na utópica sociedade em classes os humanos seguiriam impondo excessivas espoliações à Phýsis. Não tenho conhecimento suficiente sobre a obra de Francis Bacon para julgar se Jonas tem razão em vincular o pensamento de Marx e Engels a ele. Parece-me estranho, porém, que O Princípio Responsabilidade trace este vínculo Marx-Bacon e nem sequer mencione um vínculo muito mais sólido, firme, explícito, aquele que une Marx ao materialismo filosófico inaugurado por Demócrito e Epicuro. O próprio jovem Marx, em seu doutorado, devotou-se a analisar as filosofias da natureza destes dois filósofos, de modo que a visão Marxiana da Phýsis parece-me muito mais próxima das percepções materialistas (reavivadas no Iluminismo francês, que Marx tão bem conhecia, por Helvétius, Diderot, D’Holbach etc.) do que da tradição Baconiana… Contestável, a tese de Jonas afirma:

“Pode-se dizer que o marxismo, que integra a ingênua fórmula baconiana da dominação da natureza e a transformação radical da sociedade, pode ser hoje considerado seriamente como fonte de uma ética que oriente a ação predominantemente para o futuro, daí extraindo suas normas para o presente. Pode-se dizer que o marxismo pretende colocar os frutos da herança baconiana à disposição da humanidade, realizando a promessa original de um gênero humano superior, promessa que se encontrava em má situação nas mãos do capitalismo. Por isso, podemos dizer que o marxismo é uma escatologia ativa, da qual tanto a previsão quando a vontade são elementos equitativos, e cuja busca se impõe como um dever irrecusável, posta inteiramente sob o signo da esperança.” (p. 239)

Sabe-se que a série de livros de Ernst Bloch, O Princípio Esperança, é aquilo que Hans Jonas busca refutar em seu O Princípio Responsabilidade. Digamos, de modo simplista, que Hans Jonas prefere uma ética do medo a uma ética da esperança. Jonas acha que o medo da catástrofe deve servir como motivação para o nosso agir presente de modo mais determinante do que a esperança de uma mundo melhor. Ao utopismo, ao “melhorismo”, ao progressismo, ele opõe a noção, supostamente realista, de que o melhor que temos a fazer é combater a vinda do pior. Nosso dever é criar obstáculos à barbárie, é resistir aos destruidores de ecosistemas, é evitar que o pior se concretize. Hans Jonas olha para o futuro com olhos cheios de terror e pânico, e depois nos pede: renunciem à utopia! Só precisamos, no real distópico em que estamos afundados, de responsabilidade, não de delírios quiméricos de comunas perfeitas prometidas no futuro radiante…

“A abundância material, produzida pela tecnologia moderna, constitui um elemento essencial do ideal socialista. De fato, em todas as partes onde o socialismo conquistou o poder, acelerar a industrialização foi a marca da sua política efetiva e resoluta. Assim, é válido seguir dizendo que o marxismo ‘progressista’ na origem,nascido sob o signo do ‘princípio da esperança’ e não sobre o ‘princípio do medo’, é tão tributário do ideal baconiano quanto a sua contra-parte capitalista, com a qual ele compete: a lógica que comanda o projeto socialista é igualar e depois ultrapassar o capitalismo na coleta dos frutos obtidos graças à técnica.  Em suma, o marxismo é, quanto à sua origem, um herdeiro da revolução baconiana, compreendendo-se como seu testamenteiro – aliás, como melhor testamenteiro do que o capitalismo, pois mais eficiente.

Resta provar se ele poderá ser superior ao mestre. Nossa resposta é a de que ele só poderá sê-lo caso modifique a forma como interpreta a si mesmo, deixando de ser aquele que traz a salvação para tornar-se aquele que protege do mal, renunciando, portanto, ao seu sopro vital, a utopia. Esse seria um marxismo muito diferente, quase irreconhecível…. Estaria perdido o ideal que o animava (não sabemos se a dor da perda seria ou não salutar). A sociedade sem classes não mais apareceria como a realização do sonho da humanidade, mas, de forma muito sóbria, como a condição para preservar a humanidade diante da era crítica que se anuncia.” (p. 241)

Ora, Hans Jonas insiste que sua obra é escrita na pressuposição de que “vivemos em uma situação apocalíptica, às vésperas de uma catástrofe, caso deixemos que as coisas sigam o curso atual. O perigo decorre da dimensão excessiva da civilização técnico-industrial, baseada nas ciências naturais. O que chamamos de programa baconiano – ou seja, colocar o saber a serviço da dominação da natureza e utilizá-la para melhorar a sorte da humanidade – não contou desde as origens, na sua execução capitalista, com a racionalidade e a retidão que lhe seriam adequadas….” (p. 235) Os excessos de produção e consumo, com as consequentes emissões de poluentes e lixo, trazem para cima de nossas cabeças as nuvens carregadas de tempestade.




Fotografias por Edward Burtynsky – Saiba mais

O Antropoceno é justamente a fase histórica conde estamos “sob perigo do esgotamento dos recursos naturais” que ocorre devido “a um crescimento enorme do intercâmbio metabólico entre o corpo social e o ambiente natural”, somado ao “aumento numérico desse mesmo corpo coletivo metabolizante, ou seja, o crescimento exponencial da população na esfera de influência da civilização técnica, estendendo-se recentemente por todo o planeta.” (p. 235) Esta globalização da civilização técnica-científica-industrial impactou toda a biosfera, e analisando o marxismo Hans Jonas conclui que ele também é, de certa maneira, cúmplice no culto “Baconiano”. Ficamos tentados a dizer que ele fornece arsenal para aqueles que, dissidentes do marxismo até certo ponto, inventam vertentes ecosocialistas e anarcoecologismos. Filia-se também às teses sobre a necessidade de decrescimento, como as de Serge Latouche.

Decerto Hans Jonas se filia àqueles pensadores que criticam severamente a noção de crescimento econômico, tecnológico e industrial infinitos, uma quimera das mais nefastas e que decorre da incapacidade de enxergar que estamos em um mundo finito e que este dito “progresso” vem se dando às custas da dilapidação de recursos naturais não-renováveis. Nossa situação é tão catastrófica pois o aumento da população humana é uma tendência real, a população humana em ascensão é uma verdadeira bomba demográfica que não tarda a inviabilizar a sustentabilidade da biosfera – em breve seremos, segundo as estimativas, cerca de 9 bilhões de humanos.

“Uma população estática poderia em determinado momento dizer “BASTA!”, mas uma população crescente obriga-se a dizer “MAIS!”. Hoje começa a se tornar assustadoramente evidente que o êxito biológico não só coloca em questão o êxito econômico, reconduzindo-nos do efêmero banquete da abundância para o quotidiano crônico da miséria, mas ameaça levar-nos a uma catástrofe aguda da humanidade e da natureza, de proporções gigantescas. A explosão demográfica, compreendida como problema metabólico do planeta, rouba as rédeas da busca de uma melhora no nível de vida, forçando uma humanidade que empobrece, na luta pela sobrevivência mais crua, àquilo que ela poderia fazer ou deixar de fazer em função de sua felicidade: a uma pilhagem cada vez mais brutal do planeta, até que este diga a última palavra, não mais consentindo em sua superexploração. É com pavor que imaginaríamos as mortes e os assassinatos em massa que acompanhariam uma situação como essa. Mantidas por longo tempo fora do jogo, graças à técnica, as leis de equilíbrio da ecologia, que impediam o crescimento excessivo de uma única espécie, se imporão de forma assustadora, na mesma proporção em que se atingiram os limites de sua tolerância. É um grande desafio especular como será possível que aquela parte da humanidade, que restará, seguirá vivendo em uma Terra devastada.” (p. 236)

“PROMETEU ACORRENTADO”, de JORDAENS, Jacob. 1640.

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Eduardo Carli de Moraes, professor de Filosofia do Instituto Federal de Goiás (IFG) – oficial. A comunicação sobre estes temas será realizada durante o III Seminário Nupefil e VII Encontro de Filosofia – IFG, na Segunda-Feira, 30 de Outubro, no câmpus Goiânia, às 13:30. Estão todos convidados.

https://www.facebook.com/pg/blogacasadevidro/photos/?tab=album&album_id=2165251576834489

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Saiba mais em A Casa de Vidro:

  • A CORNUCÓPIA DAS CRISES E AS TAREFAS DA FILOSOFIA – Reflexões após o III Seminário NUPEFIL e VII Encontro de Filosofia no IFG Goiânia >>> https://wp.me/pNVMz-49v.

  • PROMETEU DESACORRENTADO – A responsabilidade pelos viventes vindouros na filosofia de Hans Jonas (1903 – 1993) >>> http://wp.me/pNVMz-2dY

  • NÓS SOMOS A CATÁSTROFE: A Humanidade Como Força Geológica Cataclísmica na obra “A Sexta Extinção” de Elizabeth Kolbert >>>http://wp.me/pNVMz-470

  • O CINEMA COMO HINO A GAIA: Terrence Malick e “A Viagem do Tempo: Jornada da Vida” (2016, 90 min) >>> http://wp.me/pNVMz-43s

  • BLISSFUL IMPERMANENCE – A impermanência não é um argumento contra a vida, mas é parte essencial de seu esplendor: um tributo a Alan Watts>>> http://wp.me/pNVMz-43U.

  • AS BACANTES SEMPITERNAS – Sobre a atualidade perene da celebração comunal e do êxtase coletivo na obra de Barbara Ehrenreich >>>http://wp.me/pNVMz-3zQ

NÓS SOMOS A CATÁSTROFE: A Humanidade Como Força Geológica Cataclísmica na obra “A Sexta Extinção” de Elizabeth Kolbert

“Ao longo dos últimos 500 milhões de anos, o mundo foi assolado por 5 grandes extinções em massa, nas quais a biodiversidade diminuiu de maneira drástica e violenta. Atualmente, a sexta extinção vem sendo monitorada por cientistas, que a consideram a mais potencialmente devastadora desde a que pôs fim aos dinossauros. E, desta vez, nós somos a catástrofe. Elizabeth Kolbert mostra que a sexta extinção corre o risco de ser o legado final da humanidade e nos convida a repensar uma questão fundamental: o que significa ser humano?” (Texto da apresentação da editora)

Poucos livros publicados na atualidade revelam de maneira mais inquietante e estarrecedora a atual crise sócio-ambiental global do que A Sexta Extinção (Ed. Intrínseca, 2015, 336 páginas, acesse na Amazon). A autora Elizabeth Kolbert escreve na revista The New Yorker desde 1999 e venceu o Prêmio Pulitzer de Não-Ficção em 2015 por esta obra.

Crucial para a compreensão da magnitude alarmante das transformações impostas pelas atividades humanas ao Planeta Terra, o livro é uma daquelas obras-primas do jornalismo científico. Uma leitura que é das mais cruciais e urgentes para a Humanidade, afinal, como pergunta a autora, “após sermos alertados sobre as maneiras como estamos pondo outras espécies em risco, não podemos tomar uma atitude para protegê-las? Afinal, o objetivo de espreitar o futuro não é conseguir mudar de curso e evitar os perigos à frente?” (p. 271)

“A Marcha do Progresso”, obra de Mark Henson

Elizabeth Kolbert é uma intelectual que atua como uma inestimável agente de conscientização – semelhante nisto à Edmund O. Wilson, Carl Sagan, David Attenborough etc. No entanto, pelo menos no Brasil, ela permanece bem longe das listas de best-sellers.  A Sexta Extinção tende, ao contrário, a ser um daqueles livros que vai parar no saldão pois encalha nos estoques das livrarias. Talvez esteja aí uma das raízes do problemão em escala planetária: a maioria dos seres humanos não se interessa por saber dos impactos que os 7 bilhões de homo sapiens estão gerando na bioesfera; não estão afim de mudarem seus hábitos diários de consumo em prol da sustentabilidade da teia da vida sobre a face da Terra; e contam-se às centenas de milhões aqueles que estão medicando seus pavores e angústias com a noção de que, quando o clima ficar ainda mais caótico do que está, podemos correr todos para as igrejas e fazer nossas preces ao Senhor, que há de vir nos resgatar com uma nova Arca de Noé…

Ao invés de terem a coragem de encarar a verdade, boa parte dos humanos preferem a tática do avestruz que esconde a cabeça na areia e prefere não enxergar nada que não sejam boas notícias e finais felizes. Até que o cataclismo que nos tornamos venha, com a força de mil furacões, expulsar todos os humanos com cabeça de avestruz de seus precários refúgios. A ecologia é desprezada demais no mainstream midiático e político, considerada a relevância extrema que possui o que Rachel Carson, autora de Primavera Silenciosa (Silent Spring), de “o problema em partilhar nossa Terra com outras criaturas” (p. 271).

A ecologia precisaria sair do gueto, explodir os limites de nichos universitários, transcender as jaulas dos cursos de biologia e ciências exatas, ganhar as ruas e as redes, tornar-se força intelectual e material capaz de mobilização e transformação social, caso contrário o legado do homo sapiens ao futuro será o de uma vilania imperdoável. As criaturas que herdarem a Terra após a Sexta Extinção em Massa da vida sobre o planeta, caso desenvolvam um dia a capacidade de consciência, hão de olhar para trás enfurecidas para este tal de Humanidade, que hoje atua com o poder cataclísmico do asteróide que causou a Quinta Extinção (aquela sobre a qual ficamos sabendo, em nossas infâncias, não a partir de campanhas científicas de conscientização, mas por espetáculos da Indústria Cultural como o Jurassic Park, blockbuster de Steven Spielberg baseado no romance de Michael Crichton, ou o programa de TV de imenso sucesso, Família Dinossauro). Nosso abissal desconhecimento, ignorância e desinformação sobre um tema tão imensamente importante como a Extinção de Espécies Vivas é algo que Elizabeth Kolbert nos ajuda a sanar:

Hoje em dia, qualquer criança aprende na escola, desde cedo, desde as aulas mais básicas de biologia, sobre a extinção de espécies – um fenômeno que a teoria da evolução, formulada por Charles Darwin, também prevê e explica. Kolbert lembra que

“a extinção talvez seja a primeira ideia científica com a qual as crianças de hoje em dia precisam lidar. Com um ano, elas ganham dinossauros de brinquedo e, aos dois anos, entendem, pelo menos de maneira vaga, que aquelas pequenas criaturas de plástico representam animais enormes. Se forem rápidas no aprendizado, crianças ainda de fraldas conseguem explicar que já existiram vários tipos de dinossauro no mundo e que todos eles foram extintos muito tempo atrás… Tudo isso para dizer que a extinção nos parece uma ideia óbvia. Não é.

Aristóteles escreveu a História dos Animais em 10 livros, sem jamais levar em conta a possibilidade de que os animais tivessem de fato uma história. A História Natural de Plínio inclui descrições de animais verdadeiros e também de animais míticos, mas nenhuma descrição dos animais extintos. A ideia não floresceu na Idade Média nem durante o Renascimento… No Iluminismo, a visão preponderante era de que todas as espécies estivessem ligadas a uma imensa e indestrutível ‘cadeia de seres’. No século XVIII, ossadas de mamutes começaram a aparecer da Europa à Sibéria. Esse caso também foi encaixado à força dentro do sistema. Os ossos pareciam bastante com os dos elefantes. Como claramente não existiam elefantes na Rússia daquele tempo, concluiu-se que aquelas ossadas deviam pertencer a bichos que foram arrastados para o norte pelo dilúvio do Gênesis.

A extinção só surgiu como um conceito na França revolucionária – e não deve ter sido coincidência. Isso aconteceu em grande parte graças a um animal, a criatura hoje em dia chamada de mastodonte-americano, ou Mammut americanum, e um homem – o naturalista Jean Léopold Nicolas Frédéric Cuvier (1769 – 1832).” (p. 32-33)

O que está causando a Sexta Extinção da Vida sobre o planeta é um conjunto de causas antropogênicas, muito bem desvendada por Kolbert, e que eu ando gostando de chamar de Antropocalipse. Este Apocalipse ambiental causado pelas ações humanas tem várias faces – desmatamento de florestas, queima de combustíveis fósseis, vastidão da agropecuária industrial e da dieta carnívora, poluição atmosférica e hídrica, uso excessivo de pesticidas e agrotóxicos, manipulação genética, dentre outros. No seguinte trecho, Kolbert revela o tamanho colossal do problema:

“Desde o início da Revolução Industrial, os seres humanos queimaram combustíveis fósseis – carvão, petróleo e gás natural – o suficiente para adicionar 365 bilhões de toneladas de carbono na atmosfera. O desmatamento contribuiu com mais 180 bilhões de toneladas. A cada ano, despejamos outros cerca de 9 bilhões de toneladas de carbono, uma quantidade que tem aumentado até 6% ao ano. Em consequência de tudo isso, a concentração de dióxido de carbono no ar hoje – um pouco mais de 400 partículas por milhão – é superior à dos últimos 800.000 anos. É bem provável que seja maior do que em qualquer momento nos últimos milhões de anos. Se essa tendência continuar, em 2050 as concentrações de CO2 atingirão 500 partículas por milhão, mais ou menos o dobro dos níveis encontrados na era pré-industrial.

Espera-se que tal aumento produza um crescimento da temperatura global média entre 1,9 e 3,8º C, o que desencadeará diversos eventos capazes de alterar o mundo, inclusive o desaparecimento da maioria das geleiras restantes, a inundação de ilhas rasas e cidades litorâneas e o derretimento da calota de gelo do Ártico. Mas isso é só metade da história…

Os oceanos cobrem 70% da superfície terrestre… Só em 2014, os oceanos absorveram 2,5 bilhões de toneladas de carbono. (…) A acidificação dos oceanos desempenhou um papel em pelo menos duas das Cinco Grandes Extinções (no fim do Permiano e no fim do Triássico) e é bem possível que tenha sido um dos fatores primordiais numa terceira (o fim do Cretáceo). Por que a acidificação dos oceanos é tão perigosa? Dependendo da firmeza com que os organismos são capazes de regular suas químicas internas, a acidificação pode afetar processos básicos como o metabolismo, a atividade enzimática e a função proteica. Como a acidez maior muda a composição das comunidades microbiológicas, ela vai alterar a disponibilidade de nutrientes essenciais…

Cerca de um terço do CO2 que os seres humanos já lançaram no ar foi absorvido pelos oceanos. Isso alcança espantosos 150 bilhões de toneladas. No entanto, como é o caso da maior parte das características do Antropoceno, não se trata apenas da quantidade, mas também da velocidade com que isso ocorre. Uma comparação útil (embora imperfeita) pode ser feita com o álcool. Assim como é bem diferente para o seu sangue se você consumir 6 latas de cerveja em uma hora ou em um mês, para a química marinha faz uma enorme diferença se o dióxido de carbono é acrescentado ao longo de milhões de anos ou numa centena. Para os oceanos, assim como para o fígado humano, essa proporção é importante…” (KOLBERT, 2015, p. 122 – 132)



 

A nova época geológica em que agora estamos foi batizada de Antropoceno por Paul Crutzen, “químico holandês que compartilhou o Prêmio Nobel pela descoberta dos efeitos das substâncias depletivas de ozônio (ODS). A importância dessa descoberta não é um exagero. Se ela não tivesse ocorrido – e se continuássemos utilizando os produtos químicos com a mesma difusão – o ‘buraco’ na camada de ozônio que se abre todas as primaveras sobre a Antártida teria se expandido até circundar toda a Terra.” (KOLBERT, p. 116)

A revista Piseagrama publicou a tradução artigo de 2000 de Crutzen, em parceria com Eugene Stoermer, texto que é uma espécie de Marco Zero da proposta, hoje vastamente aceita e disseminada, de que o planeta entrou em uma nova era em virtude da ação conjunta da espécie humana. O embarque da espaçonave Terra na era do Antropoceno está diretamente vinculada com a ação conjugada dos mais de 7 bilhões de seres humanos, em especial dos países ditos “ricos” e suas escolhas econômicas tresloucadas, pois altamente poluentes e insustentáveis:

“Em poucas gerações, a humanidade está exaurindo os combustíveis fósseis que foram gerados ao longo de centenas de milhões de anos. (…) A atividade humana aumentou a taxa de extinção de espécies entre mil e dez mil vezes nas florestas tropicais, e vários gases estufa importantes em termos climáticos aumentaram substancialmente na atmosfera: o CO2 aumentou mais que 30% e o CH4 mais de 100%. (…) Considerando esses e vários outros crescentes impactos das atividades humanas na terra e na atmosfera, que acontecem em todas as escalas possíveis – inclusive global –, parece-nos mais do que apropriado enfatizar o papel central da humanidade na geologia e na ecologia propondo o uso do termo Antropoceno para a época geológica atual. Os impactos das atividades humanas vão continuar por longos períodos. Segundo um estudo de Berger e Loutre, devido às emissões de CO2 antropogênicas, o clima pode se afastar significativamente de seu comportamento natural ao longo dos próximos 50 000 anos.

(…) A não ser que ocorram grandes catástrofes como uma enorme erupção vulcânica, uma epidemia inesperada, uma guerra nuclear em larga escala, um impacto de asteroide, uma nova idade do gelo ou o contínuo saqueamento dos recursos da Terra por tecnologias ainda primitivas (os últimos quatro perigos podem, no entanto, ser prevenidos em uma noosfera em funcionamento), a humanidade vai continuar sendo uma importante força geológica por muitos milênios, talvez por milhões de anos. Uma das principais tarefas futuras dos homens será desenvolver uma estratégia mundialmente aceita que leve à sustentabilidade de ecossistemas contra estresses induzidos por humanos, e isso vai requerer pesquisa intensiva e aplicação inteligente do conhecimento até aqui adquirido na noosfera, mais conhecida como sociedade do conhecimento ou da informação. Uma tarefa empolgante, mas também difícil e assustadora, se coloca para a comunidade mundial de pesquisa e engenharia, para que lidere a humanidade em direção a um gerenciamento ambiental que seja global e sustentável.” (CRUTZEN; STOERMER – Leia na íntegra)

A noção assustadora de que a Humanidade possa ser extinta por completo em decorrência dos próprios processos geofísicos que ela desencadeou reativa-se com cada vez maior frequência.  Os jornais se enchem de notícias sobre mega-furacões devastadores, como o Katrina que golpeou o Golfo do México em 2005, e catástrofes de vazamento de petróleo ou de rejeitos de mineração, como a hecatombe que devastou o Rio Doce nos estados brasileiros de Minas Gerais e Espírito Santo em novembro de 2015. Diante de um cenário tão alarmante, fantasias apocalípticas e distópicas marcam cada vez mais a produção artística contemporânea. Na sala de cinema, a destruição do planeta ou de toda a teia-da-vida que nele existe foram temas de impressionantes obras recentes como o Melancholia de Lars Von Trier e Expresso do Amanhã (Snowpiercer) de Joon-Ho Bong.

Com Cuvier e os fósseis de mastodonte, desperta enfim na Humanidade a noção de que ocorrem de fato na história da vida no planeta a extinção de espécies – as “espèces perdues”. Com Cuvier – celebrado por autores da época como Balzac – intensifica-se o interesse por pesquisar as causas para os cataclismos e catástrofes que pudessem explicar os períodos críticos, na história do planeta, onde ocorrem as grandes extinções em massa.


“Cuvier insinuou que conhecia a força motriz por trás da extinção, quiçá seu mecanismo exato”, escreve Kolbert. “Haviam sido todos extintos por algum tipo de catástrofe… Nem mesmo os eventos mais devastadores conhecidos no mundo contemporâneo – erupções vulcânicas, digamos, ou incêndios florestais – eram suficientes para explicar a extinção… Portanto, as mudanças que causaram as extinções deviam ter atingido magnitudes muito maiores – tão imensas que os animais não tinham sido capazes de se adaptar a elas. O fato de tais eventos tão extremos nunca terem sido observados por Cuvier ou qualquer outro naturalista era outra indicação da mutabilidade da natureza: no passado, ela operara de modo diferente – mais intenso e mais selvagem – do atual. (…) Cuvier observou que muitos mitos e textos antigos, incluindo o Antigo Testamento, aludiam a algum tipo de crise – em geral, um dilúvio – que precedeu a ordem atual.” (KOLBERT, p. 55)

Um dos méritos maiores do livro de Kolbert está em destacar o ineditismo da situação atual: o processo que estamos vivenciando, a Sexta Extinção, é a primeira em que uma espécie animal (o homo sapiens) é o agente cataclísmico que causa a gigantesca queda de biodiversidade hoje em curso e em processo de aceleração. Nunca antes na história desse planeta houve um animal que pudesse colocar em risco a Vida como um todo. No Antropoceno, o asteróide somos nós mesmos. O piloto tresloucado deste sistema suicida é o capitalismo globalizado e a desregulação dos mercados propugnada pelo neoliberalismo – este que, se houver alguém vivo para contar esta história daqui uns séculos, será reconhecido como a Ideologia do Apocalipse Sócio-ambiental.

O mais alarmante de tudo talvez seja o abismo gigantesco entre o conhecimento científico que já possuímos sobre o estrago que a Humanidade vem causando ao planeta, por um lado, e as miúdas e insuficientes ações sócio-políticas concretas que estamos realizando no sentido de pelo menos amenizar os impactos catastróficos que já causamos e as tragédias futuras e iminentes que já não podemos evitar. Nada parece minimamente suficiente para que a Humanidade acorde de seu torpor e sua apatia a tempo de salvar-se do cataclismo que ela tornou-se.



Nem os clamores do Papa Francisco, nem os livros brilhantes de Naomi Klein, nem os encontros internacionais como a Rio 92 e a Rio +20, nem os acordos como o Protocolo de Kyoto ou o Pacto de Paris (COP 21), tem o poder para impor uma mudança de rumos e paradigmas. Para evitar a catástrofe completa, seria preciso não queimar a imensa maioria das reservas de combustíveis fósseis que temos no planeta. Pisando no acelerador de um mecanismo suicida e causador de extinção em massa, boa parte daqueles que hoje tem o poder político de decisão (Donald Trumps e outros retardados similares) hoje tomam a decisão escrota e babaca de colocar vendas sobre os próprios olhos. Vendas compostas por notas de 100 dólares… Seguindo adiante com o projeto capitalista, extrativista, crescimentista, baseado no delírio nefasto de que é possível o crescimento contínuo de capital no seio de um mundo finito e onde em breve teremos 9 milhões de estômagos para alimentar e saciar, vamos com tudo na direção do Antropocalipse.

A loucura hoje hegemônica e dominadora, o capitalismo neoliberal ecocida, praticante impune das piores hecatombes sócio-ambientais, conduz os mais pessimistas de nós a pensar que o deus Capital é aquele tipo de divindade cultuada pelo tipo de estrutura orgânica que se auto-destrói e lega ao futuro apenas o exemplo grotesco de sua própria estupidez suicida. Ao invés de acordar para a necessidade de escolha entre uma nova alternativa – parafraseando Rosa Luxembrugo, a alternativa é: ecossocialismo ou barbárie! – seguimos em larga medida adotando a técnica do avestruz: escondemos nossas cabeças na areia para não enxergar o tamanho da encrenca em que nos metemos. Mas isso não tem como durar muito tempo: os miolos dos avestruzes logo serão torrados pelo calor escaldante de um planeta em chamas.

Raj Patel, author of Stuffed and Starved and The Value of Nothing

Em seus livros altamente relevantes, o ativista e pesquisador Raj Patel também nos fornece um quadro estarrecedor de um sistema econômico que está em guerra contra o mundo natural – “se vencermos”, como diria Hubert Reeves, “estamos perdidos”. Este é o tipo de Guerra Mundial – como a apelidou o filósofo Michel Serres em sua obra homônima – que não deixa de evocar um velho lema pacifista: ninguém vencerá esta guerra, só haverá perdedores. Em O Valor de Nada, Patel busca demolir os mitos da doutrina neoliberal e escreve que

“A Sociedade de Mercado está incrustada no mundo natural, coisa que o mito do mercado autorregulado também procura negar. A civilização humana depende da ecologia da Terra, embora a estejamos explorando até sua morte – segundo algumas estimativas, a atividade humana aumentou a taxa de extinção de outras espécies em cerca de 1000 vezes (Cf. Millenium Ecosystem Assessment). No cercamento implacável do mundo natural, destruímos nosso planeta e, caso os sussurros ouvidos entre cientistas do clima devam ser levados a sério, talvez já seja tarde demais para fazer alguma coisa. A eterna busca por crescimento econômico transformou a humanidade num agente de extinção, por meio da contínua desvalorização dos serviços ecossistêmicos que mantêm nossa Terra viva.” (PATEL, Ed. Zahar, 2009, p. 25)

Não faltarão os milhões que buscarão refúgio nas igrejas, que constituirão rebanhos de fiéis desejosos de salvar suas almas do Apocalipse e que adotarão a tática perfeitamente inútil de rezar – o que é o contrário de agir. Não faltarão também aqueles que estarão mobilizados, nas ruas, nas redes, nas barricadas, buscando a somatória de forças coletivas em prol de um outro mundo possível – como temos exemplos nos Fóruns Sociais Mundiais e em eventos impressionantes como a People’s Climate March de 2014.

O livro de Kolbert, se é assustador, também é salutar. Eles nos sacode do torpor e nos diz claramente que “a extinção em curso tem sua própria causa original – não é um asteróide ou uma erupção vulcânica maciça, mas uma ‘espécie daninha’.” (p. 276) A maioria de nós não gosta de pensar sobre a Humanidade nestes termos: faz parte do narcisismo de todo indivíduo a estratégia de manutenção da auto-estima que consiste em acreditar-se pertencente a algo de muito maravilhoso, a Humanidade, ápice da Evolução, senhora da Natureza, cume do orgânico. Às Três Feridas Narcísicas de Freud teremos que adicionar uma quarta: no Antropoceno, a Humanidade vai precisar a se acostumar com a noção de que estamos sendo, neste planeta, uma “espécie daninha” e um agente de extinção da biodiversidade que nos assemelha a um cataclismo.

Segundo o antropólogo Richard Leakey, “o homo sapiens pode ser não apenas o agente da Sexta Extinção, mas corre o risco de ser uma de suas vítimas” (p. 278). É o que sintetiza de forma brilhante o ecologista Paul Ehrlich, em uma frase que está no Salão da Biodiversidade em Stanford:

AO PRESSIONAR OUTRAS ESPÉCIES PARA A EXTINÇÃO, A HUMANIDADE ESTÁ SERRANDO O GALHO SOBRE O QUAL ESTÁ SENTADA.

 

Eduardo Carli de Moraes – A Casa de Vidro
Goiânia, 18 de Outubro de 2017

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VÍDEOS

A incontornável evidência do sofrimento animal: Safran Foer, Jacques Derrida, Isaac Bashevis Singer, Peter Singer etc.

A incontornável evidência
do sofrimento animal


“Para que este estufado indivíduo degustasse seu presunto, uma criatura viva teve de ser criada, arrastada para sua morte, esfaqueada, torturada e escaldada em água quente. O homem não dava um segundo de pensamento ao fato de que o porco era feito do mesmo material e que este tinha de pagar com sofrimento e morte para que ele pudesse saborear sua carne. Pensei mais uma vez que, quando se trata de animais, todo homem é um nazista.” –
 ISAAC BASHEVIS SINGER (1904-1991), Prêmio Nobel de Literatura.

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 Um pertinaz e impertinente antropocentrismo (ou, dito melhor, narcismo-de-espécie!) parece ter sobrevivido às 3 feridas narcísicas que, segundo Freud, foram infligidas à humanidade: não mais acreditamos que a Terra é o centro do Universo e o Sol gira a nosso redor, nem esperneamos escandalizados contra Darwin e a teoria da evolução das espécies, tampouco recusamos o peso e a importância de motivos inconscientes e desejos sexuais em nossa Psique; o problema é que ainda tendemos a enxergar a Humanidade como pico de uma pirâmide hierárquica, como algo de essencialmente distinto e superior à Animalidade, como se fôssemos o legítimo “rei” da Natureza e destinados ao domínio, como queria Francis Bacon (1561-1626) – que, imagino, não veria problema  ético algum em organizarmos um sistema de pecuária industrial destinado a transformar porcos em bacon

Nosso narcisismo ferido procura defender-se na trincheira daquela posição cartesiana – demolida por O Ponto de Mutação, de Fritjof Capra – que vê nos animais apenas “bestas desalmadas” e que concede ao ser humano o privilégio de ser o animal supremo e divino, a ponte entre o bicho e o anjo, o supra-sumo biológico sobre a face da Terra… Porém, pesemos as consequências planetárias de agirmos na base de fábulas auto-congratulatórias e racionalizações do nosso poderio sobre os viventes extra-humanos.

French Philosopher Jacques Derrida Holding His Cat

Um vínculo que une filósofos como Peter Singer e Jacques Derrida, ambos defensores de uma revolucionária mudança de paradigmas conhecida como Libertação Animal, é algo de muito simples: o reconhecimento de que o sofrimento solidariza-nos. Podemos negar que os outros animais possuam Razão e Linguagem, porém é bem mais difícil que alguém possa sustentar de modo crível que os animais não sofrem. O sofrimento animal, do qual existem tantas avalanches de provas empíricas (for those who care to look through the walls of factory farms), é de incontornável, de inegável, constituindo um problema ético e político de alta relevância e urgência.

 À questão “os animais sofrem?”, a resposta incontornável de qualquer mente lúcida é o reconhecimento, que têm necessariamente de fazer qualquer testemunha de boa-fé, do fato bruto enunciado por Derrida: “ninguém pode negar o sofrimento, o medo ou o pânico, o terror ou o pavor que podem se apossar de certos animais e que nós, os homens, podemos testemunhar.” (p. 56)

derrida

JACQUES DERRIDA

É uma ousada crítica contra a filosofia “logocêntrica” (“que se mantêm de Aristóteles a Heidegger, de Descartes a Kant, de Levinas a Lacan…” – pg. 54) o que Jacques Derrida empreende em O Animal Que Logo Sou (Ed. Unesp). A acusação que Derrida lança contra os “fanáticos da lógica” (aqueles que, segundo Nietzsche, “são insuportáveis como vespas”), é a de ter posto a questão errada: os filósofos logocêntricos se perguntam “os animais têm razão, têm linguagem, têm lógos?”, porém o principal, o fundamental, o mais essencial a se perguntar, “a questão prévia e decisiva seria a de saber se os animais podem sofrer. Can they suffer?” (p. 54)

Galinhas no Brasil

 A questão é urgente e colossal pois o sofrimento animal, longe de diminuir, parece estar em aumento exponencial nos últimos séculos: “além da caça, da pesca, da domesticação, do adestramento ou da exploração tradicional da energia animal” (animais de tração escravizados aos fins humanos, por exemplo), Derrida destaca:

“No decurso dos últimos 2 séculos estas formas tradicionais de tratamento do animal foram subvertidas pelos desenvolvimentos conjuntos de saberes zoológicos, etológicos, biológicos e genéticos, (…) pela criação e adestramento a uma escala demográfica sem nenhuma comparação com o passado, pela experimentação genética, pela industrialização do que se pode chamar a produção alimentar da carne animal, pela inseminação artificial maciça, pelas manipulações cada vez mais audaciosas do genoma…” (DERRIDA, p. 51)

 Exemplos dentre muitos deste empreendimento humano colossal de exploração e escravização dos viventes animais, ainda silenciado e pouco percebido, em especial em suas gigantescas proporções: a violência do “assujeitamento do animal” atingiu, segundo Derrida, “proporções sem precedentes.” (p. 51) Será tão absurda assim a ideia, que Isaac Bashevis Singer propagava, de que aos olhos de um animal “todo homem é um nazista”? Em outros termos: será que nossos sistemas econômicos, políticos, culturais, morais e jurídicos não conduzem a tratarmos os animais de uma maneira similar ao tratamento imposto pelo III Reich aos viventes que encerrou e dizimou nos campos de concentração?

 “Os homens fazem tudo o que podem para dissimular ou para se dissimular essa crueldade, para organizar em escala mundial o esquecimento ou o desconhecimento dessa violência que alguns poderiam comparar aos piores genocídios. Existem também os genocídios animais: o número de espécies em via de desaparecimento por causa do homem é de tirar o fôlego. (…) Todo mundo sabe que terríveis e insuportáveis quadros uma pintura realista poderia fazer da violência industrial, mecânica, química, hormonal, genética, a qual o homem submete há dois séculos a vida animal.” (DERRIDA, pg. 53)

 Não se trata, pois, de fazer qualquer apelo sentimentalóide e patético às consciências humanas para que “sintam pena” dos pobres bichinhos. O que se pede é bem mais que mera compaixão: o pensamento de Derrida é tão ousado e demandante pois ele nos exige uma completa subversão dos paradigmas logocêntricos e antropocêntricos que infestam nosso modo de pensar. A presunção humana de uma superioridade inata que decorria da humanidade possuir o Lógos, ser capaz de linguagem, ser dotada de racionalidade: eis o que está em questão.

O animal que se auto-denomina “racional”, e que presume-se superior às “bestas privadas de razão”, dá-se o privilégio de poder escravizar e subjugar todos os outros viventes. Os animais não são reconhecidos como Outros dotados de interesses e sentimentos, viventes finitos e vulneráveis como nós, dotados de senciência e de automotricidadem, organismos com sensibilidade, palco complexo de afetos, capazes não só de ser vistos mas de nos verem. A racionalidade instrumental dos humanos, rejeitando a animalidade en masse, acabe por eles reduzir – como mostram as atitudes de alguns entusiastas das churrascarias e dos açougues, a presunto, bacon, frango-assado…

A questão é: seria possível a existência das churrascarias sem os matadouros ou há um vínculo necessário que os une? A demanda do consumidor de carne não é aquilo que faz “brotarem” no mundo estas gigantescas “fábricas de opressão animal”, onde milhões de vidas são reduzidas ao status manipulável e explorável de mercadoria? Nestes locais, protegidos do nosso olhar pelos muros (“se os abatedouros tivessem paredes de vidro”, diz Paul McCartney, “todo mundo seria vegetariano), bilhões de viventes, que compartilham conosco o destino de serem sensíveis-sofrentes, são expostos aos mais intensos e prolongados sofrimentos existenciais, do parto ao abate, infligidos por nós. A isto Pete Singer chama “especismo”, uma espécie de fascismo aplicado por uma espécie (a nossa) sobre outras.

 Temos o direito de impor uma vida de terríveis sofrimentos a bilhões e bilhões de criaturas viventes, em quem reconhecemos ao menos a capacidade de sofrer, ainda que neguemos a elas a posse de faculdades racionais, e só porque tendemos a gostar do gosto de sua carne? O “aprecio muito o sabor da linguiça” justifica que tratemos seres vivos como meios e que se imponha a eles a prisão, o engordamento forçado, o abate impiedoso? Quem é que acredita, ainda hoje, que o presunto “brota” no supermercado como “produto industrializado”? Quem é que ignora que as fatias do presunto são partes de um cadáver que a Indústria tratou de matar e cortar em pedacinhos, devidamente refrigerados, para o conforto e bem-estar do consumidor? E quem é que se ilude pensando que este vivente morreu de velho? Não nos esqueçamos que nós impomos a morte: não nos contentamos em esperar que aconteça. Nem mesmo a fome é nossa desculpa: muitos animais são mortos, não por causa da humana fome, mas da humana gula.

 “Diante da negação organizada dessa tortura, algumas vozes de levantam (minoritárias, fracas, marginais…) para protestar, para apelar ao que se apresenta ainda de maneira tão problemática como os direitos do animal.” (pg. 53). E é de se notar que nos últimos anos o cenário filosófico têm se preocupado mais com estes ainda incipientes e frágeis Direitos Animais, por exemplo através da obra de Peter Singer, autor de Libertação Animal e Ética Prática, e do Eating Animals, de Jonathan Safran Foer, dentre outros livros. Inserem-se, talvez, no quadro das tentativas de “nos acordar para nossas responsabilidades e nossas obrigações em relação ao vivente em geral, e precisamente a essa compaixão fundamental que, se fosse tomada a sério, deveria mudar até os alicerces da problemática filosófica do animal.” (pg. 53)

 * * * * *

A relação dos animais humanos com aqueles que eles, os homens, chamam de “animais”, quase sempre tentando diferenciar-se deles, abrir um abismo que os separa, esteve marcada, através da História, pela violência. A violência da caça e da pesca, é claro: é inimaginável, de tão colossal, a quantidade de flechas e de balas que destroçaram vidas de animais na história deste animal genocida que somos – o animal que atira, que constrói bombas, que põe sua tecnologia no fabrico de matadouros high-tech. Estes viventes que os homens gostam de chamar de “animais” foram escravizados, oprimidos, mal-tratados, forçados ao trabalho, abatidos sem piedade, na presunção de que fossem “inferiores” e na presunção de que foram criados para “servirem” a nós, os auto-proclamados Senhores da Terra.

 É óbvio que isso não surpreenderá muito àqueles que conhecem os modos como os homens tratam-se uns aos outros: os europeus que invadiram a América a partir de 1492, por exemplo, adoravam agarrar-se àquelas doutrinas que diziam, dos africanos e dos indígenas, que eram “desprovidos de alma” e “não passavam de animais”, o que era justificativa suficiente para acorrentá-los, deportá-los em massa, enfiá-los em navios superlotados, levá-los para trabalhar até a morte longe de suas casas, debaixo do chicote e do sol inclemente. A justificativa do genocídio frequentemente passa por uma presunção de superioridade. Se o homem pôde cometer tamanhos horrores contra outros homens, realmente não surpreende que tenha podido agir diante dos chamados “animais” com um grau de violência inaudito no mundo humano.

 A filosofia, até hoje, pelo menos em suas “correntes dominantes”, desde Aristóteles e Agostinho, desde Sócrates e Platão a Descartes e Kant, chegando em Lévinas, Lacan e Heidegger, é marcada por um logocentrismo antropocêntrico que trata os viventes ditos “animais” como inferiores, já que são desprovidos de tudo aquilo que julga-se privilégio e glória do humano. São seres sem Razão, sem Lógica, sem Intelecto, sem Lógos, sem télos…

 Uma das muitas originalidades que Nietzsche trouxe à filosofia, como aponta Derrida, consiste numa “reanimalização” do pensamento: Zaratustra fala, em suas parábolas e paródias, do camelo, do leão e da criança – e um transmuta-se no outro! Há também a águia e a serpente povoando de animalidades os cenários do filosofopoema zaratustriano. O perspectivismo ameríndio não está distante destas epifanias místico-poéticas do autor d’A Gaia Ciência. Em sua solidão e isolamento de montanhês apaixonado pelas alturas, Nietzsche povoou seus arredores com figuras animais, até o colapso em Turim, episódio-esfinge de difícil decifração mas que parece essencial na compreensão deste destino singularíssimo do animal Nietzsche, ele “que foi suficientemente louco para chorar junto de um animal, sob o olhar ou contra a face de um cavalo. Por vezes, creio vê-lo tomar esse cavalo por testemunha, e sobretudo para tomá-lo como testemunha de sua compaixão, pegar sua cabeça entre as mãos…” (DERRIDA: 1999, pg. 67)

 O homem inventou a palavra “animal” – é esta uma das hipóteses derridianas – para se referir a “todos os viventes que o homem não reconheceria como seus semelhantes, seus próximos ou seus irmãos.” (p. 65). Os filósofos adoram enumerar as privações dos ditos animais, tudo o que lhes falta para serem como nós: eles são desprovidos de linguagem, não sabem dar respostas, não se comunicam em nossa língua, não conheciam ritos de luto nem têm a potencialidade de dar risada. Por essas e outras são tidos por inferiores, escravizáveis, transformáveis em bacon.

 O termo “animal”, que “dispõe um grande número de viventes sob esse único conceito” (p. 61), é algo que desagrada a Derrida, sempre tão “atento à diferença, às diferenças, à heterogeneidades e às rupturas abissais” (p. 58). Colocar todos os viventes não-humanos debaixo do guarda-chuva conceitual “animal”, como se fossem farinha do mesmo saco, é uma grosseira falsificação de uma realidade onde “espaços infinitos separam o lagarto do cão, o protozoário do golfinho, o tubarão do carneiro, o papagaio do chimpanzé, o camelo da águia, o esquilo do tigre, ou o elefante do gato… Interrompo minha nomenclatura e peço socorro a Noé para não esquecer ninguém na arca.” (p. 65)

 Os limites, traçados por humanos, entre homens e animais, são no mínimo suspeitos de serem artificiosas criações linguísticas que agem em causa própria. Um animal quis contar-se a confortadora fábula de que ele não era um animal. O animal homem sofre, pensa e sente tão pouco sobre os sofrimentos em geral, os sofrimentos dos viventes que não lhe assemelham, os sofrimentos que não são seus, a ponto de escamotear, reprimir e se esquivar do que Derrida não teme chamar, peremptório, de inegável. A filosofia é fiel à sua missão de busca da Verdade se não admitir e se não se predispor a enxergar esta incontornável evidência do sofrimento animal?

 * * * * *

 Na mitologia judaico-cristã, a presunção narcísica do Homem atinge uma culminância que prossegue até hoje a assombrar nossa cultura, nossa filosofia, nossas convicções sobre nosso estatuto cósmico. Derrida relembra que o homem, descrito como “réplica de Deus”, criado à sua imagem e semelhança, antes do Pecado Original,

 “recebe imediatamente a ordem de sujeitar os animais. Ele deve, para obedecer, marcá-los com sua ascendência, sua dominação, (…) seu poder de domar. (…) [Deus] criou o homem à sua semelhança para que o homem sujeite, dome, domine, adestre ou domestique os animais nascidos antes dele, e assente sua autoridade sobre ele. Deus destina os animais a experimentar o poder do homem, (…) para ver o homem tomar o poder sobre todos os outros viventes.” (pg. 35 e 37)

 Não demoraram a começar os sacrifícios, as hecatombes, os bodes expiatórios: o sangue animal jorrando para agradar aos deuses inventados pelos homens. Ouçamos a própria palavra “divina”, o verbo deste Javé sanguessuga que criou os homens para que eles reinassem sobre os vivos com presunçosa violência: “Iahvé Elohim diz: ‘Que tenham autoridade sobre os peixes do mar e sobre os pássaros dos céus, sobre os animais a domesticar, sobre todas as feras selvagens e sobre todos os répteis…” (pg. 35).

 Há só um passinho da presunção judaico-cristã, referendada nos livros “sagrados”, do Homem como ápice da Criação e filho predileto de um Deus que teria criado todos os animais para que servissem e fossem usados, à presunção dos filósofos de que a presença do Lógos no humano é sinal inconteste de um abismo imensurável entre nós, nesta margem, e eles, les animots, que são doravante segregados à outra margem, reduzidos a serem subjugados por nossa augusta superioridade suposta e pouco questionada.

 Derrida parte, em sua reflexão, da experiência de estar pelado diante de seu gato. Sente vergonha de sua nudez, e vergonha de sentir vergonha, enquanto o gato que nunca vestiu roupas está em plena naturalidade em sua peladice. O gato sem pudor olha o homem, acostumado a andar vestido, e o homem cora de vergonha diante do olhar felino. Esta experiência me remete ao dito de Camus: “o homem é a única criatura que se recusa a ser o que é.” Nós vestimos roupas e “cobrimos nossas vergonhas”, coisa que nenhum outro animal faz: é de se suspeitar que a raiz desse costume seja a nossa tentativa de negar nossa similitude e nossa fraternidade em relação ao que chamamos, com ímpetos segregacionistas, de animais?

 O gato que está diante do filósofo pelado, o gato que observa com Jacques Derrida enquanto este se envergonha de estar nu diante de um olhar animal, é uma abertura para o abismo fecundo da alteridade e da diferença. O gato é um outro que me olha, e não apenas um outro olhado por mim; uma existência independente da minha, e que relaciona-se comigo de modos que, na maior parte dos casos, são ilegíveis, indevassáveis, misteriosos. “Ele [o gato] tem seu ponto de vista sobre mim. O ponto de vista do outro absoluto, e nada me terá feito pensar tanto sobre essa alteridade absoluta do vizinho ou do próximo quanto os momentos em que eu me vejo visto nu sob o olhar de um gato.” (pg. 28)

 Mas dizer “um gato” já é uma traição, já é tentar grudar uma palavra, que serve de direito a um gato qualquer, a este “vivente insubstituível”. Nenhuma onça é idêntica a outra onça: não podemos deixar que a linguagem, ou seja, o fato de utilizarmos a mesma palavra para nos referirmos a dois animais semelhantes, nos cegue para as evidências inegáveis da diferença – ou, como prefere dizer Viveiros de Castro, da diferOnça. “Nada poderá tirar de mim, nunca, a certeza de que se trata de uma existência rebelde a todo conceito.” (DERRIDA: p. 26).

 Derrida, filósofo que assinala e sublinha, sempre que pode, a “insubstituível singularidade”, convida-nos a enxergarmo-nos como animais entre animais, re-inseridos na fervilhante e complexa teia das alteridades, em relação fecunda com outras perspectivas sobre a realidade, sem impormos a nossa como absoluta. O acolhimento à diferença, a meditação junto ao Outro, inclusive um Outro-gato ou um Outro-ouriço, é um convite que Derrida nos estende: é um convite à ampliação da consciência e uma demanda de uma ética mais vasta, que supere o logocentrismo e o narcisismo que fundamentam os múltiplos genocídios animais de que os últimos milênios estiveram tão repletos. Nu diante do gato, pergunta-se um animal filosófico: “esse gato não pode ser, no fundo de seus olhos, meu primeiro espelho?” (pg. 92)

Outras vias sugeridas:

Café Filosófico: “História da Subjetividade no Ocidente”, por Jurandir Freire Costa

“História da Subjetividade no Ocidente”,
por Jurandir Freire Costa:

Fala completa

#Foucault #Agamben #Psicanálise #Cristianismo #CulturaGreco-Romana

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Leitura sugerida:

Jurandir2

“O Vestígio e Aura – Corpo e Consumismo na Moral do Espetáculo” [Compre @ Estante Virtual]

O ENSINO DA FILOSOFIA – ENTREVISTA COM EDMILSON PASCOAL NO PROGRAMA “NÓS DA EDUCAÇÃO” (TV PAULO FREIRE, 2010)

Edmilson

Antonio Edmilson Paschoal é graduado em Filosofia pela PUC-PR (1985), mestre em Filosofia pela PUC-SP (1994) e doutor em Filosofia pela UNICAMP (1999).  Realizou dois estágios de pós-doutorado, um na Universität Leipzig e outro na Ernst Moritz Arndt Universität Greifswald. Foi professor do Departamento de Filosofia da PUC do Paraná de 1987 a 2014. Atualmente é professor da cadeira de “História da Filosofia Alemã: de Kant à Teoria Crítica”, do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Paraná e pesquisador do CNPq. É autor dos livros: A genealogia de Nietzsche, Nietzsche e a auto-superação da moral e Nietzsche e o ressentimento.

TESOURO DE VIDA NA AMAZÔNIA – Tecnologia Verde a Serviço do Clima Amigo [Palestra de Antonio Nobre, 1h58min]

TESOURO DE VIDA NA AMAZÔNIA
Tecnologia Verde a Serviço do Clima Amigo
[1h58min, CPFL Cultura]

Com Antonio Nobre, PhD em Earth System Sciences pela University of New Hampshire e autor do relatório “O Futuro Climático da Amazônia”

SINOPSE CPFL – “Na grande floresta da Amazônia, a terra guarda um de seus mais espetaculares tesouros: a profusão de vida que inala gás carbônico e exala oxigênio, transpira água, emite odores mágicos, remove gases tóxicos, pulsa e regula, umedece e faz chover, propele ventos e alimenta rios aéreos, acalmando a fúria dos elementos, tornando amigo o clima próximo e também o mais distante. As sociedades abrigadas sob seu hálito doador de vida têm nela um cordão umbilical que sustém suas economias e lhes dá bem-estar. O desmatamento reduz esse parque tecnológico da natureza a gás e cinzas, levando a um clima inóspito. Por tudo isso, é necessário, desejável, viável e até lucrativo alterar o modus operandi da ocupação humana na amazônia.”

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CONFIRA TAMBÉM:

PROMETEU DESACORRENTADO – A responsabilidade pelos viventes vindouros na filosofia de Hans Jonas (1903 – 1993)

PROMETEU DESACORRENTADO

A responsabilidade pelos viventes vindouros na filosofia de Hans Jonas (1903 – 1993). Comentários sobre “O Princípio Responsabilidade – Ensaio de uma Ética para a Civilização Tecnológica” [Wikipedia]

por Eduardo Carli de Moraes / A Casa de Vidro.com

Conta a lenda que Prometeu, após ter roubado o fogo do Olimpo para presenteá-lo aos mortais, foi punido por um Zeus furibundo e vingativo. Os suplícios que Zeus aplica a seus desafetos são um manual prático de crueldade e sadismo – que o digam Sísifo, Tântalo, Íxion e as Danaides – e com Prometeu, o ladrão do fogo, a fúria divina também se manifesta em todo o esplendor de sua violência. O titã transgressor é acorrentado por Hefesto a uma rocha, para em seguida ser submetido a uma tortura infinda: uma águia almoça todos os dias o seu fígado, em carne viva, e a cada novo dia o fígado se regenera, sendo novamente devorado. Este mito grego é um daqueles que teve mais profundas repercussões na história da cultura – tendo sido material inspirador da dramaturgia grega clássica (a Prometeu era dedicada uma trilogia trágica de Ésquilo, apenas parcialmente conservada), da poesia (com destaque pros versos de Percy Shelley e Goethe), da pintura (inesquecíveis as imagens de Peter Paul Rubens e Dirck van Baburen) etc.

Hefesto acorrentando Prometeu (1623) em tela de Dirck van Baburen

Hefesto acorrentando Prometeu (1623) em tela de Dirck van Baburen

Também é Prometeu quem Hans Jonas invoca ao iniciar esta obra crucial da filosofia do século XX, O Princípio Responsabilidade: “O Prometeu definitivamente desacorrentado, ao qual a ciência confere forças antes inimagináveis e a economia o impulso infatigável, clama por uma ética que, por meio de freios voluntários, impeça o poder dos homens de se transformar em uma desgraça para eles mesmos. A tese de partida desse livro é que a promessa da tecnologia moderna se converteu em ameaça…” [1]

O fogo serve aqui como símbolo para aquilo que possibilita que a humanidade desenvolva sua tecnologia, uma espécie de estágio inicial no processo científico e criador de técnicas de intervenção e modificação da realidade natural: a domesticação do fogo seria o marco zero da tecnê (o termo grego para “saber fazer”, para todas as vertentes do conhecimento técnico). Ora, Hans Jonas, fiel neste sentido à tradição de Heidegger (desconsiderados os imensos abismos que os separam em política), reflete fundamentalmente sobre o efeito da tecnologia sobre as civilizações e com a imagem do Prometeu desacorrentado põe em evidência o perigo, o risco, a ameaça, de um poder titânico, desenfreado, que pode exagerar na dose de seu intervencionismo dominador e transfigurador. 

O filho do Prometeu desacorrentado é o Antropoceno, e Hans Jonas, ainda que mencione o efeito estufa e o aquecimento global apenas en passant, sem estar exatamente consciente do peso e da gravidade que hoje adquiriram as mudanças climáticas e as catástrofes delas decorrentes, construiu uma filosofia que tem muito a nos ensinar sobre os tempos em que vivemos – e os tempos que virão.

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O problema da humanidade atual não é a falta do fogo, isto é, a primitividade tecnológica, mas sim o fogo em excesso, ou seja, o planeta transformado em demasia pela intervenção humana, a ponto de termos entrado em uma nova era geológica, o Antropoceno. O mito antigo, que trazia Prometeu privado da liberdade, tem que ser atualizado para o contexto contemporâneo: o de Prometeu sem freios, devastando um planeta com o consumismo, o produtivismo, a queima de energias fósseis, num “poluicionismo” insano e titânico. Na wasteland do real, Prometeu passa por símbolo de uma tecnologia que saiu dos trilhos e encaminha-nos para distopias sci-fi à la Matrix, Children of Men, Snowpiercer, The Road… (Sobre as conexões múltiplas entre o cinema de ficção científica atual e a especulação sobre os efeitos da tecnociência sobre a biosfera, conferir o ótimo livro de Viveiros de Castro e Danowski, Há Mundo Por Vir?)

Exemplo contemporâneo melhor da titânica desmesura  não há do que este: sabe-se há décadas que a queima de combustíveis fósseis gera como subprodutos tóxicos a emissão de gases de efeito estufa, que tornam nossa atmosfera uma sauna com temperaturas em ascensão (as previsões do IPCC, Intergovernamental Panel on Climate Change, são de um incremento de 2º a 6º graus Celsius na temperatura da Terra ao fim do século XIX).

A era em que entramos, o Antropoceno, não deve ser comemorada acefalamente como se provasse a supremacia humana, nossa posição de domínio – pois alguns humanos narcisistas talvez sintam vontade de comemorar o Antropocen como se fosse uma vitória esportiva ou uma medalha de ouro olímpica! Na real, o Antropoceno é vivenciado como uma desgraça pela a teia da vida (cito aqui o Chief Seattle em seu discurso the web of life): para a diversidade dos viventes,  o ser humano – um dentre esta miríade de viventes – tornou-se um tão mortífero extintor-de-espécies que age hoje com o poder de um cataclismo geofísico. Deixo ao leitor a tarefa de julgar do que sofre este escriba: paranóia catastrofista ou excessiva lucidez?…

“We did not weave the web of life, we are merely strands in it. Whatever we do to the web we do to ourselves.” ― Chief Seattle

O que urge é termos “a coragem de ter medo” [2], como já recomendava Günther Anders, em 1959, diante da ameaça de uma guerra nuclear (leia, na revista Sopro, as Teses Para A Era Atômica, de 1962). Hoje, tanto as mudanças climáticas quanto a guerra nuclear devem nos pôr em estado de medo construtivo – um outro nome para a boa e velha virtude da prudência? – como argumentam tantos climatologistas, antropólogos, cientistas e outros humanos que, quanto mais esclarecidos se tornam, mais aterrorizados parecem ficar com os rumos planetários catastróficos. Essa coragem de temer é também sublinhada por Hans Jonas que, num arroubo de ironia, subverteu a tradição filosófica da dúvida cartesiana, demandando que é preciso duvidar de tudo, menos do pior.

Pire

Parece-me que o pensamento e o ativismo ecológicos da atualidade possuem uma forte tendência ao catastrofismo esclarecido, vertente que talvez se aplique a autores como Naomi Klein, George Monbiot, Eduardo Viveiros de Castro, entre outros. Trata-se sempre de estar com a mente clara e lúcida quanto às consequências de longo prazo de nossas ações presentes que, analisadas com profundidade, revelam-se de uma irracionalidade e de uma destrutividade preocupantes. De onde diabos saiu o tal do “catastrofismo esclarecido”? Até onde sei, o termo vem de Jean-Pierre Dupuy, discípulo de Ivan Illich e René Girard, que publicou no começo do século XXI seu livro Pour Un Catastrophisme Éclairé. Dupuy parece defender a tese (bastante discutível) de que “a ação política deve atualmente pensar menos na perspectiva da revolução a conseguir e mais na catástrofe que é preciso barrar se ainda houver tempo.” [3]

Segundo os catastrofistas esclarecidos – que estão no pólo oposto dos “negacionistas”, estes otimistas muito bem-pagos que recusam-se a admitir que temos um problema… (vejam o artigo de Deborah Danowski) – a ação política hoje deve estar focada numa ação de frenagem (que pode, é claro, incluir vastas ações de sabotagem do atual sistema). Devemos nos mobilizar para frear a loucura suicida do atual sistema de produção e consumo, caso contrário a biosfera sofrerá um colapso ainda mais grave do que este que já está em curso e que já vem gerando imensa devastação socioambiental, extinção de inúmeras espécies, com prognósticos de aquecimento global galopante e crise de refugiados de proporções épicas. Um cenário que o deputado federal brasileiro Chico Alencar (PSOL) descreveu em sucintas palavras: “Cada vez mais somos tripulantes de uma nave comum ameaçada que é a mãe Terra. O desastre ambiental vai nos afetar a todos, sem exceção, embora comece tirando a vida dos mais pobres por causa de nossa desordem injusta estabelecida.” [4] (Assista o vídeo em http://bit.ly/1tGGnIu)

No caso de Hans Jonas, o que está em jogo é a criação de uma nova ética, de um novo paradigma de relacionamento, de modo a agirmos com uma precaução,uma prudência, a generosidade atenta (à la Simone Weil), não somente no nosso trato uns com os outros, mas também em relação aos vivos que ainda estão por nascer. As futuras gerações, destacará Hans Jonas, devem ser levadas em consideração desde já. A ética do presente não pode ignorar o futuro, sob o risco de legar aos que viverão amanhã um mundo muito mais terrível do que aquele em que nascemos. A ecologia, a economia, a ética, não podem ser desvinculadas. É nossa responsabilidade legar aos viventes vindouros um planeta habitável, com água bebível, ar respirável.

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O filósofo Hans Jonas, que foi aluno de Heidegger e amigo de Hannah Arendt

HeideggerO filósofo Hans Jonas, nascido em 1903 na Alemanha, é muitas vezes classificado como um dos pensadores do círculo de Martin Heidegger, na companhia de Hannah Arendt, Herbert Marcuse, Karl Löwith, dentre outros (vejam Heidegger’s Children, de Richard Wolin). Em 1934, com a ascensão do III Reich hitlerista, vê-se obrigado a deixar a Alemanha. Nos anos 1960, publica uma obra marcante de seu percurso intelectual, O Fenômeno Da Vida, um livro que pode ser sintetizado pelas seguintes palavras de seu epílogo: “com a continuidade da mente com o organismo, do organismo com a natureza, a ética torna-se parte da filosofia da natureza. (…) Somente uma ética fundada na amplitude do Ser pode ter significado.” [5] Em 1979, é publicada em alemão sua obra clássica, O Princípio Responsabilidade, que aqui propomos analisar mais detidamente.

Pensemos em um organismo biológico como um gato. Não qualquer gato, mas um gato arisco que foge em busca de abrigo ao menor sinal de perigo. Este gatinho arisco, que alguns podem xingar de covarde, exemplifica uma conduta baseada nos perigos do futuro; sua ação é guiada pelo medo legítimo de sofrer algum mal. O gato sabe-se ferível e dribla como pode, com a ligeireza de suas lépidas patas, os perigos do ambiente, incluindo prevendo, ainda que num horizonte temporal menos amplo do que aquele atingível pelo cérebro humano, os focos futuros de perigo.

Ora, a tecnologia humana transformou (e segue transformando) de modo tão radical o mundo natural, e talvez de modo irreversível, que hoje não somos apenas nós, os humanos, que vivemos na artificialidade de um mundo tecnologizado. A “tecnologização” tem tentado engolir a Terra por inteiro, mandar Gaia para a barriga cibernética, emblogando todos os viventes em uma teia tecnológica tecida por mãos humanas. Bem-vindos ao Antropoceno e àquilo que venho chamando, em textos que seguem as pegadas de Michel Serres, de A Nova Condição Humana. Uma era geológica onde o auto-proclamado homo sapiens, o animal racional, deixou ir até o exagero delirante (àquilo que os gregos chamavam de hýbris ou húbris e que vinculavam com o desencadeamento de tragédias) o seu lado homo faber. E agora tem milhões de revólveres apontados para as cabeças de bilhões de organismos vivos – e não pára de apertar os gatilhos. Não tem razão de estar apavorado o gato arisco, que foge de todo e qualquer ser humano, na visceral intuição de seu catastrofismo esclarecido de felino?

O que devem estar pensando de nós os castores, dada a grotesca mercantilização das árvores e das nozes? Fariam os castores o mesmo, caso tivessem nossos poderes? A civilização ocidental fabrica mitos otimistas e kitsch, como sorridentes Mickey Mouses, enquanto na prática conduz sua economia e sua gestão do meio-ambiente de maneira ecocida-genocida. O capitalismo atual pratica o assassinato em massa em vasta escala, não só de humanos mas de bilhões de viventes não-humanos, por exemplo aqueles que são massacrados em abatedouros para que tenhamos nossos hamburguers e salsichas.

hansjonasJá no fim dos anos 1970, Hans Jonas já percebia a gravidade da situação e deu à luz um livro assombrado pela expectativa do pior. Em um tratado de ética que permanece de alta relevância meio século depois de publicado, Jonas pretende fundamentar uma nova ética para o futuro. O desafio: que leve-se em conta a pluralidade de existências e consciências, esculpidas pela evolução da matéria viva, que estão ameaçadas na base ontológica radical de seus corpos físicos pelo Prometeu desacorrentado da tecnê humana. É preciso construir uma ética que considere dignos de respeito e consideração os interesses das futuras gerações, dos ainda não nascidos. Por isso alguns ecologistas chegarão a dizer que, na obra de autores como Hans Jonas, “fala-se pelas árvores” – o que significa dizer que filósofos assim demandam de nós que sejamos éticos não só entre humanos, mas éticos entre os vivos, vivendo de modo a legar dignas condições de existência aos viventes vindouros.

Mais que isso: Jonas tenta construir com urgência uma ética que não ponha em risco tudo aquilo que a vida necessita para a continuação de seu peregrinar evolutivo. É preciso preservar um mundo ameaçado de cair no caótico desequilíbrio causado por uma tecnologia caída em húbris, de uma economia que consome e polui em escala trágica, que em sua insânia predatória e sanha transformadora, sufoca a natureza e acarreta a crise climática que hoje já anuncia-se como um problema global de imensa gravidade e sem precedentes. Nisto, a História não poderá guiar-nos tanto, já que não há no passado tanto a aprender sobre os eventos que “vem do futuro”, de modo que precisamos, neste caso, de uma ética e de uma política, umbilicalmente conectadas, onde os labores da evolução, que deram como frutos esta profusão prodigiosa de espécies viventes, sejam salvos da destruição e escapem do pior.

Pois é preciso duvidar de tudo, salvo do pior.

Jonas é um pessimista incurável? Se for, é de maneira bem diversa de Schopenhauer ou Cioran. Acredita em um “estado de coisas metafísico” que “nos impõe o mais alto dever de conservá-lo” (capítulo II, p. 80) [6]. Nenhum niilista tem tais tendências ao “conservacionismo”, nem tais clamores pelo respeito a algo de “metafísico”. De modo a conservarmos o que é valioso, dirá Jonas, é preciso levar a sério os prognósticos de catástrofe que ameaçam-nos com a morte de valores inestimáveis. “Em assuntos de certa magnitude – aqueles com potencial apocalíptico – deve-se dar mais peso ao prognóstico do desastre do que ao prognóstico da felicidade.” (capítulo III, p. 83)

Já que pesa sobre nós, que vivemos na época do Prometeu desacorrentado, a “ameaça de um futuro terrível” (p. 85) [7], devemos ser prudentes e assumir o dever irrecusável de responsabilidade diante do futuro da vida. Um dos maiores problemas, porém, é que “aquilo que não existe não faz reivindicações”, como escreve Jonas pensando nas futuras gerações, cuja voz ainda não ouvimos mas que nossa conduta presente pode estar lesando. Em nossas escolhas e ações, individuais e coletivas, devemos respeitar o “direito daqueles que virão e cuja existência podemos desde já antecipar” (p. 91) [8]. Devemos ouvir, desde já, as vozes daqueles que ainda estão por nascer. A ética, como formulada por Hans Jonas, precisa considerar “a possível acusação de nossas vítimas futuras” (p. 92) [9].

“Convoque seu Buda, o clima tá tenso.” (Criolo)

O problema filosófico que se coloca claramente no livro é o de nossas relações com o tempo futuro, dada a nossa incontornável necessidade de agir no presente com conhecimentos limitados, prognósticos falhos e miríades de incertezas. Um argumento que se lança frequentemente à cara dos “ecochatos” é o de que é prepotência dos ecologista achar que eles vêem o futuro melhor do que os outros, “sabichões” que pensam descrever qual será o futuro real quando apenas projetam suas fantasias catastrofistas… Pascal Bruckner escreveeu um livro polêmico, O Fanatismo do Apocalipse, que ataca várias vertentes do discurso “verde”, vegan, ecológico, pró-indígena, grass-roots, acusando ativistas de todas as estirpes de serem uns fanáticos pelo apocalipse, imaginando desgraças que o futuro, de fato, não nos reserva. Os manifestos de Bruckner parecem uma acusação en bloc da ecologia por disseminar o medo, sendo que essa história de apocalipse iminente é papagaiada mais velha que a Bíblia… E mesmo os materialistas às vezes não escapam de crer em mitos apocalípticos, como alguns marxistas que têm fé no futuro pois o funeral iminente do capitalismo irá desaguar na ressurreição beatífica de uma sociedade sem classes.

Bruckner sugere que façamos uma distinção entre dois tipos de medo: “um, salutar e que mobiliza; o outro, deletério e que enfraquece.” (p. 76) [10] O que motiva a crítica de Bruckner àqueles que xinga de “neo-puritanos verdes” é uma recaída no ascetismo auto-mortificante, que ele já atacara em livros anteriores como A Tirania da Penitência. Ele despeja seu desprezo em cachoeiras sobre as virtudes da frugalidade e da simplicidade – valores de que foram arautos figuras como Gandhi, Thoreau ou Pepe Mujica (o ex-presidente do Uruguai). Em ecologia, Bruckner parece mais próximo da vertente dos “aceleracionistas” (sobre estes, recomenda-se a leitura de Benjamin Noys), e todos os discursos de apologia ao freio (temos que frear a queima de combustíveis fósseis, o consumo de carne, a derrubada das florestas!) aparecem a Bruckner como babaquices de hippies repressores querendo “reciclar o velho ideal da penitência” (p. 238) [11]. No fundo, fica-se com a péssima impressão que Bruckner é como um bully que ataca, com seu taco de baseball retórico, aqueles que ele desdenha como ecochatos moralistas que só querem estragar a festa do consumo, a folia da hedonê desacorrentada…

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Não quero aqui me alongar em atacar as posições de Bruckner, mas sim aproveitar o ensejo para ir mais a fundo na questão, considerando o problema: podemos realmente prever o futuro e fazer prognósticos seguros sobre catástrofes vindouras? É possível encontrar soluções atuais para problemas futuros que, a rigor, ainda não começaram a se manifestar em toda a sua fúria? Para sondar estes abismos, parece-me bem interessante a filosofia do tempo, vinculada à doutrina ética, que está exposta no O Princípio Responsabilidade de Jonas. O ímpeto polêmico e bélico do livro de Bruckner prejudica aquele livro com uma certa rasidão na consideração de fatias de tempo amplas; em contraste, é espantosa a profundidade com que Jonas aborda a questão do tempo, da “duração” Bergsoniana. Diz, se o entendi bem, que o futuro distante não está acessível ao nosso saber e isto nos obriga a agir na penumbra. Não é que estejamos na escuridão total e absoluta sobre o futuro, mas quanto mais distante é o futuro considerado, mais incertos são os prognósticos, mais na penumbra agimos.

Daí a tese de Jonas de que “a incerteza dos prognósticos de longo prazo deve ser considerada um fato”. A existência humana aparece então como que regida por um onipresente desconhecido, o futuro distante. Donde o “aspecto de jogo de azar ou de aposta contido em todo agir humano, concernente ao seu resultado e aos efeitos colaterais, e quando nos interrogamos sobre que lances poderíamos fazer, falando em termos éticos.” (p. 83) [12]

A condição humana não pode ser dissociada da condição vivente, que por sua vez não é dissociável de um planeta, e este, por sua vez, conectado umbilicalmente ao sistema cósmico completo, de modo que há um “entrelaçamento indissolúvel”, dirá Jonas, no qual “não se pode evitar que o meu agir afete o destino de outros.” (p. 84) [13] Responsabilidade é algo que decorre deste nosso entrelaçamento, desta nossa comum pertença à teia da vida e ao tecido cósmico. O contrário da responsabilidade é a inconsequência, o agir cego ao amanhã. E pode ser profundamente irresponsável a omissão quietista dos que nada fazem, lavam as mãos, não querem saber. A apatia pode ser sintoma de indiferença aos outros, de incapacidade de enxergar o fluxo vital que faz com que, numa corrente ininterrupta, misturem-se no mundo os últimos gemidos dos moribundos com os primeiros choros dos recém-nascidos, na sempiterna renovação da existência.

Uma das características mais marcantes da obra de Jonas é essa ênfase nos viventes vindouros, nas futuras gerações, entes esses que muitas vezes são desconsiderados pelas doutrinas éticas. É possível dizer inclusive que uma filosofia como a de Hans Jonas só pôde nascer em certo momento histórico – a 2ª metade do século XX d.C. – em que a aniquilação da humanidade passou a estar entre os possíveis, entre os feitos realizáveis, por cortesia da bomba atômica. A era atômica trouxe-nos a um estado de risco sem precedentes – e vivemos hoje em um globo marcado pelos desastres de Chernobyl, de Fukushima, de Hiroshima e Nagasaki… Neste contexto, Hans Jonas formula a diferença entre a política do passado – em que o líder político jamais tinha suficiente poder de aniquilação para pôr em risco a vida da humanidade como um todo – e a política que surge no novo contexto criado pelas bombas-H:

“Quando, na hora fatídica, o líder político arrisca a existência inteira de seu clã, de sua cidade e de sua nação, ele sabe que mesmo após a eventual derrocada continuará existindo uma humanidade e um mundo da vida aqui na Terra. Só nos marcos desse pressuposto abrangente torna-se moralmente defensável, em casos extremos, o grande risco ímpar… Mas, agora, entre as possíveis obras da tecnologia, há algumas que, por seus efeitos cumulativos, têm precisamente essa abrangência e penetração globais, ou seja, têm o poder de pôr em perigo quer a existência inteira ou a essência inteira dos homens no futuro. (…) Não seria possível supor que a humanidade que ainda está por vir possa concordar com sua própria inexistência ou desumanização… existe (como ainda deve ser demonstrado) uma obrigação incondicional de existir, por parte da humanidade, que não pode ser confundida com a obrigação condicional de existir, por parte de cada indivíduo. Pode-se discutir a respeito do direito individual ao suicídio, mas não a respeito do direito de suicídio por parte da humanidade.” (JONAS, Hans. O Princípio Responsabilidade, p. 86) [14]

A humanidade, segundo Jonas, não tem direito de auto-aniquilar-se, o suicídio só é justificável para casos individuais e nunca para o conjunto do humano, e daí decorre o princípio já citado, o de que “no processo decisório deve-se conceder preferência aos prognósticos de desastre em face dos prognósticos de felicidade. O princípio ético fundamental, do qual o preceito extrai sua validade, é o seguinte: a existência ou a essência do homem, em sua totalidade, nunca podem ser transformadas em apostas do agir.” (p. 86) [15] Não é ético brincar de roleta russa com a cabeça da humanidade.

E o que fazem hoje em dia esses bambambans do mercado financeiro, nas bolsas de valores do cassino global cognominado capitalismo, do que apostar com a cabeça da humanidade toda, nos altares da acumulação de capital, mesmo que este tenha como subproduto as catástrofes sócio-ambientais? Um banqueiro, um especulador financeiro, um CEO corporativo, um rei do agronegócio, estes tipos fazem o quê senão, através de sua irresponsabilidade, desprezar completamente os viventes vindouros e as condições ecológicas da dignidade para os seres que ainda estão por nascer?

O elemento subversivo na obra de Hans Jonas se manifesta em sua “inversão do princípio cartesiano da dúvida” e em sua objeção ao argumento da aposta de Pascal. É o que ele mesmo esclarece no trecho seguinte:

Descartes

Retrato de Descartes, por Frans Hals

“Segundo Descartes, para que possamos estabelecer o que é indubitavelmente verdadeiro, deveríamos equiparar tudo o que for duvidoso, de uma forma ou de outra, ao que é comprovadamente falso. Aqui, ao contrário, para tomarmos uma decisão, deveríamos tratar como certo aquilo que é duvidoso, embora possível, desde que estejamos tratando de um determinado tipo de consequência. Seria também uma variante da aposta pascaliana, descontado o seu caráter egoisticamente eudemônico e, em última instância, aético. Segundo Pascal, na aposta entre os prazeres breves e questionáveis da vida mundana, de um lado, e a possibilidade da eterna felicidade ou da eterna danação no além, de outro, o puro cálculo obrigaria a apostar nesta última possibilidade. (…) A esse tipo de aposta de tudo ou nada se pode objetar, entre outras coisas, que, em comparação com o nada, que aqui é assumido entre outros riscos, qualquer coisa – mesmo a vida fugidia e passageira – torna-se uma grandeza infinita… a aposta na eternidade possível com o sacrifício da temporalidade dada significa a possibilidade de perda infinita. (…) Já o nosso princípio ético da aposta, em suma, proíbe a aposta do tudo ou nada nos assuntos da humanidade.” [16]

Não quero aqui entrar em detalhes sobre a dúvida fajuta de Descartes, que deságua no dogmatismo de uma “alma pensante” indubitável, nem sobre as minúcias da aposta de Pascal, que já discuti em outro texto. Mais do que elucidar o pensamento de Hans Jonas, situando-o em relação a estes paradigmas que são Descartes e Pascal, o interessante da argumentação do trecho destacado acima é uma concepção ética que tem uma atenção ao futuro que é rara de encontrar na filosofia. Ler Jonas estimula a enxerga o futuro sob várias perspectivas: o futuro envolto numa rósea névoa do idealismo e suas utopias de amanhãs cantantes, de futuros radiosos de felicidade perfeita; o futuro do fatalista, do resignado, do desistente de si e da vida, propõe que fiquemos de braços cruzados, deixando o futuro acontecer; o futuro do ativista, do humano de ação e práxis, que crê que o futuro devemos obrar para construí-lo; o futuro da catástrofe ecológica (seja por fervências climáticas ou hecatombes nucleares) que nos ronda como um espectro que ganha peso e realidade maiores a cada dia…

“Toda vida reivindica vida”, escreve Jonas, e mesmo os que não nasceram, podemos ter certeza, quando estiverem vivos irão estar animados, como nós estamos, por um ímpeto vital que demanda vida – e vida digna. Olhar o mundo sob o viés dos viventes vindouros é um dos benefícios que se pode tirar da leitura “mergulhante” da obra de Jonas, que convida-nos a pensar que aqueles que ainda não existem, tem direitos a serem respeitados e podem estar sendo, hoje, severamente lesados. A questão “que mundo legaremos aos de amanhã?” passa a ganhar um peso inaudito no campo da ética e da política.

Pergunto-me, lendo O Princípio Responsabilidade, se a leitura e o estudo de obras como a de Hans Jonas não sejam uma condição necessária para que nós, os contemporâneos, possamos ter um amanhã menos sombrio do que este que se delineia. Enquanto as calotas polares derretem, os combustíveis fósseis são queimados e a chapa planetária esquenta ao ponto da fervura, talvez um tratado de ética como este merecesse tornar-se best seller (futuro improvável, é claro…). De todo modo, parecem-me possíveis muitas articulações entre a filosofia de Jonas e algumas vozes ressonantes que já clamam: “ecossocialismo ou barbárie!” 

Sobre o ecossocialismo, o elucidativo livro de Michael Löwy, “O Que É O Ecossocialismo” (Ed. Cortez), revela inclusive que o próprio Karl Marx “parece aceitar o Princípio Responsabilidade caro a Hans Jonas, a obrigação de cada geração de respeitar o meio ambiente – condição de existência das próximas gerações.” [17] (p. 35)

“Mesmo uma sociedade inteira, uma nação, enfim, todas as sociedades contemporâneas tomadas em conjunto, não são proprietárias da terra. Elas são apenas ocupantes, usufrutuárias (Nutzniesser), e devem, como bons paters familias, deixá-la em melhor estado para as futuras gerações.” KARL MARX, O Capital, Volume III [18]

Rainbow Mermaid

O imperativo de não aniquilar a natureza vincula-se ao imperativo humano de não cometer suicídio coletivo, já que é na Natureza que estamos enraizados e atacando-a atacamos a nós mesmos. Hans Jonas reflete detidamente sobre o que chama de “processo evolutivo”, tentando compreender como a subjetividade, a consciência, emerge da Natureza, tornando-se um de seus dados ontológicos. A subjetividade é algo que emerge da Natureza conforme organismos mais complexos vão evoluindo, diferenciando-se do ambiente (ao qual permanecem umbilicalmente conectados). E caímos no risco da irresponsabilidade ética caso esqueçamos de ouvir àquilo que Jonas chama de “o testemunho da vida”, esta coisa tão maior do que “ponta do iceberg” que são as subjetividades dos viventes:

“A subjetividade é, em certo sentido, uma manifestação superficial da natureza – a ponta visível de um iceberg muito maior -, ela fala também em nome do seu interior mudo. Ou: o fruto revela algo da raiz e do caule dos quais ele proveio. (…) A ciência natural não nos diz tudo sobre a natureza: disso é testemunha mais cabal a sua incapacidade de dar conta do caso mais elementar do sentir (e, portanto, do fenômeno mais bem comprovado de todo o universo!) – exatamente a ponta do iceberg. Essa é uma incapacidade essencial, e não provisória. Um efeito colateral e paradoxal dessa incapacidade é o fato de que a própria ciência natural, como um evento no universo a ser explicado, permanece eternamente excluída daquilo que ela pode explicar.

De todo modo, repetimos, da mesma forma como a subjetividade manifesta (que também é sempre particular) é algo assim como um fenômeno que emerge na superfície da natureza, ela se encontra enraizada nessa natureza e em continuidade essencial com ela, de modo que ambas participam do ‘fim’. À luz do testemunho da vida (que nós, rebentos que nos tornamos capazes de compreender a nós mesmos, deveríamos ser os últimos a negar), afirmamos, portanto, que o fim, de modo geral, tem domicílio na natureza. E podemos dizer algo mais quanto ao conteúdo: ao gerar a vida, a natureza manifesta pelo menos um determinado fim, exatamente a própria vida… Evitamos dizer que a vida seja ‘o’ fim, ou mesmo o principal fim da natureza, pois não temos elementos para fazer tal tipo de suposição; basta dizer: um fim.” [19]

Que a vida exista, ainda que seja neste cantinho do universo que chamamos de casa, prova ao menos que a Natureza é capaz de produzi-la, que a vida está dentre os realizáveis. O valor da vida, na obra de Hans Jonas, não irá fundamentar-se numa durabilidade infinita: não é por ser necessariamente eterna e imorredoura que a vida é um valor. Pois a vida pode ser vista como algo que emergiu da Natureza e que poderia revelar-se como precária e extinguível. Refletindo sob o impacto da radiação tremenda das bombas atômicas, Hans Jonas escreve tendo em mente o memento inolvidável da terra devastada. E não custa lembrar que a mãe do filósofo morreu em Auschwitz! Diante disso, é inegável que o homo sapiens converteu-se em uma entidade de tal poderio que põe sob ameaça toda a biosfera, todo o planeta e seus vivos.

Reencontramos o mito de Prometeu, do qual partimos, no capítulo V – “A Responsabilidade Hoje: O Futuro Ameaçado e a Ideia de Progresso”, no qual Hans Jonas está longe de ignorar ou fazer pouco caso da tecnologia (ele não é um hippie cantando pelado pelos jardins do amor um hino em louvor à bucólica Arcádia primaveril). Jonas reconhece a imensa ambiguidade da tecnologia, seu potencial que pode ser atualizado de modo tão maléfico (a bomba H) e tão benéfico (o avião, a informática). Não se trata de julgar se a tecnologia é boa ou má, mas sim de mostrar toda a complexidade de seus efeitos sociais, alguns péssimos, outros repletos de potencial libertador. Resumo da ópera hi-tech que vivemos e em que tanto ouvimos ser celebrado o “êxito” da tecnologia:

“Na técnica, o êxito, com sua visibilidade pública estonteante, abarcando todos os domínios da vida – um verdadeiro cortejo triunfal -, faz com que a aventura prometeica se desloque, diante da consciência comum, do papel de um simples meio (o que toda técnica é em si mesma) para o de finalidade, mostrando-se a ‘conquista da natureza’ como a vocação da humanidade: o Homo faber ergue-se diante do Homo sapiens…” [20]

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Sobre este tema, um dos filmes contemporâneos mais relevantes, me parece, é o documentário canadense Manufactured Landscapes, dirigido por Jennifer Baichwal e inspirado na obra do artista e fotógrafo Edward Burtynsky. Todo o impacto do ser humano, como força coletiva e global, sobre o planeta, é exposto de modo impressionante pela arte de Burtynsky, que esforça-se também por sublinhar as paisagens onde o lixo eletrônico vai parar, contaminando lençóis freáticos e tornando a água tóxica e imbebível para as populações locais (por exemplo na China ou em Bangladesh…).  Uma resenha publicada no site Dwell sintetiza bem o valor de Paisagens Manufaturadas para a nossa compreensão de mundo (e é um excelente manancial de evidências empíricas a ser utilizado por educadores que queiram discutir Hans Jonas, Philip K. Dick, Terence McKenna…)

Manu2The film shifts between photography and video almost seamlessly, portraying Burtynsky’s experiences in both China and Bangladesh to capture the visceral nature of large-scale infrastructure, quarries, mines, landfills, and specifically China’s Three Gorges Dam. In another scene, focusing on the concept of e-waste recycling, Burtynsky depicts mountains of motherboards, wires, smashed monitors in the town of Seguo in Zhejiang Province, and interviews the people affected. Due to this massive influx of poisons, Zhejiang now has a contaminated watertable, and must ship water into the province for its residents.

While many praise the film for presenting the evidence of industrialization in such a powerful, yet non-didactic way, Burtynsky’s message has, undoubtedly, a pretty directed agenda. “Maybe the landscape of our time is the one that we can change,” Burtynsky muses, as the videocamera flies across an harrowing ocean of discarded phone dials. [21]

O projeto de dominação da natureza, que podemos descrever miticamente como o êxito de Prometeu desacorrentado, modificou a face da Terra por inteiro e fez com que embarcássemos no Antropoceno, esta era em que estamos ameaçados de conhecer, muito em breve, a extensão dos danos que causamos ao ambiente natural. Os impactos cumulativos destes séculos de industrialização, de desmatamentos, de fertilizantes artificiais, de uso de pesticidas em escala industrial, de extinção de espécies, deveria deixar-nos mais temerosos do que otimistas quanto ao futuro – eis, parece-me, o mood da obra de Hans Jonas. Ele já sabia muito bem, aliás, do quão problemático era, para a humanidade, a dependência energética de fontes não-renováveis:

Fossil

“Os combustíveis fósseis – carvão, petróleo e gás natural -, resultado da sedimentação de milhões de anos de síntese orgânica e atualmente a fonte predominante do consumo energético do planeta, não são renováveis. Dada a magnitude do seu consumo (que beneficia apenas uma pequena fração da população mundial, os países industrializados), caminham a passos gigantes para esgotar-se. O que o Sol armazenou no curso de milhões de anos no mundo vegetal terrestre os homens estão consumindo em alguns séculos. Desses combustíveis fósseis dependem também os fertilizantes químicos… A queima dos combustíveis fósseis, além do problema da poluição local do ar, traz o problema do aquecimento global, o efeito estufa, que ocorre quando o dióxido de carbono formado pela combustão se acumula na atmosfera e funciona como a cobertura de vidro de uma estufa, permitindo que os raios de Sol penetrem, mas impedindo que a radiação térmica escape da Terra.

wpid-fossil-clipart-oil-hh3O aumento da temperatura global, que provocamos e mantemos desse modo (e que, a partir de certo grau de saturação, será capaz de continuar mesmo na ausência de combustão suplementar), pode ter consequências duradouras e indesejáveis para o clima e a vida, até a catástrofe extrema do derretimento das calotas polares, da elevação do nível dos oceanos, da inundação de enormes extensões de planícies… Assim, a frívola e alegre festa humana de alguns séculos industriais seria paga talvez com a alteração por milênios da feição do planeta – o que não seria injusto do ponto de vista cósmico, já que durantes aqueles séculos se teria dilapidado uma herança de milhões de anos passados.” [22]

Promotional photograph to be used only in conjunction with the film MANUFACTURED LANDSCAPES, a Zeitgeist Films release.

Cena de “MANUFACTURED LANDSCAPES” (a Zeitgeist Films release).

TRABALHO EM ANDAMENTO.
ESTE ARTIGO SERÁ CONTINUADO EM BREVE…

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

[1] JONAS, Hans. O Princípio Responsabilidade – Ensaio de uma Ética para a Civilização Tecnológica  (Das Prinzip Verantwortung – Versuch einer Ethic für die Technologische Zivisilation). Publicado em alemão em 1979 e em inglês em 1984. Prefácio. Rio de Janeiro: PUC-Rio, 2006. p. 21.

[2] ANDERS, Günther. La Menace Nucléaire. Apud BRUCKNER, P, Le Fanatisme De L’Apocalypse, p. 43. Leia, na revista Sopro, as Teses Para A Era Atômica, de 1962.

[3] DUPUY, Jean-Pierre. Le Débat, 2010, p. 228.

[4] ALENCAR, Chico. Depoimento ao filme O Petróleo Tem Que Ser Nosso, 2009. Assista: http://bit.ly/1tGGnIu.

[5] JONAS, Hans. The Phenomenon of Life, Toward a Philosophical Biology. Citado na introdução da obra referida na nota [1], p. 17.

[6] a [9] JONAS, Hans. O Princípio Responsabilidade. Op cit.

[10] e [11] BRUCKNER, Pascal. Le Fanatisme De L’Apocalypse. 

[12] e [16] JONAS. Op cit.

[17] LÖWY, MichaelO Que É O Ecossocialismo? Ed. Cortez, 2014. Coleção Questões de nossa época, v. 54.

[18] KARL MARX, O Capital, Volume III. Apud Löwy, op cit, p. 35.

[19] JONAS. Op Cit. P. 136-139.

[20] Ibid. P. 272.

[21] Site Dwell.com: http://www.dwell.com/travel-reports/article/manufactured-landscapes.

[22] JONAS. Op cit, p. 303-304.