“ELA DESATINOU, DESATOU NÓS, VAI VIVER SÓ…” – Experiências em Confluências: Camille Claudel via Não Me Kahlo + Francisco El Hombre

Camille Claudel (1864 —1943)


Coletivo Não Me Kahlo: “Por séculos, mulheres que não se encaixavam no ideal de docilidade foram diagnosticadas com uma condição chamada histeria feminina.

A palavra histeria tem origem no termo grego para ‘útero’, órgão que era considerado a causa da patologia. Durante séculos, o desconhecimento sobre o corpo da mulher levou médicos a acreditarem que o útero se movimentava – em livro de 1609, Libaud escreveu até que ele chegava a subir aos pulmões e à cabeça. A histeria era chamada de ‘sufocação da matriz’ – a matriz sendo o útero -, e acreditava-se que o fato de a mulher ficar muito tempo sem ter filhos poderia ser uma de suas causas.

Como tratamento, sugeria-se a manipulação da vagina e do clitóris pelo marido da mulher diagnosticada ou, caso isso não desse certo, pelo médico, que devia masturbar a paciente até que ela atingisse o orgasmo – assim, acreditava-se, ela ficaria mais calma. O primeiro vibrador, patenteado em 1869, foi criado por um médico norte-americano com o objetivo de tratar a histeria e ‘aliviar’ os homens dessa tarefa.

Apesar da vinculação da histeria a causas biológicas, o que se observava, na verdade, era que usava-se a histeria, muitas vezes, como forma de tornar patológicos comportamentos femininos que fugissem às normais sociais da época, posturas consideradas indevidas para uma mulher.

Foi o que aconteceu com Camille Claudel, internada à força pela família em um manicômio, onde passou 29 anos. Segundo Daniela Lima, ela manchou a honra da família por não ter se casado nem tido filhos e por ter se dedicado à escultura, um ofício na época considerado masculino.

O que alegava seu atestado de internação? Basicamente que Camille era relapsa com a aparência, as roupas e os sapatos e que vivia sozinha com muitos gatos. Ela era, como diz Daniela, um mau exemplo para as mulheres à sua volta.

‘Mulheres eram internadas pelos mais variados motivos: engravidar indevidamente, gastar muito dinheiro, estar desempregada e – ainda mais violento – por um simples pedido da família. Na loucura, parecia caber tudo aquilo que era desviante à média ou à norma. (…) Quando Camille transgrediu os estereótipos de gênero de sua época, revelou mecanismos de poder que fabricam estes estereótipos. Era um exemplo perigoso para outras mulheres. Portanto, tentaram corrigir violentamente sua anormalidade. O que define o anormal é que ele constitui, em sua existência mesma, a transgressão de leis invisíveis da sociedade, leis que são naturalizadas.’ (LIMA, Daniela)

Embora hoje a medicina não mais reconheça a histeria feminina, as expressões de raiva das mulheres continuam a ser associadas a seu ciclo reprodutivo e à sua sexualidade. Não raro, nossa revolta diante de atitudes machistas, por exemplo, é atribuída à tensão pré-menstrual ou a uma suposta falta de sexo, a fim de desvalidar nossas críticas.”


Trechos do livro “#MeuAmigoSecreto – Feminismo Além Das Redes”, Edições de Janeiro, 2016, pg. 20-21.

COMPARTILHAR NO FACEBOOK

Leia também: http://www.hypeness.com.br/2017/04/ofuscada-por-rodin-e-pelo-machismo-finalmente-camille-claudel-ganha-seu-proprio-museu/

http://creatureandcreator.ca/?p=854



Francisco, El Hombre
Triste, Louca ou Má

Triste, louca ou má
será qualificada
ela quem recusar
seguir receita tal

a receita cultural
do marido, da família.
cuida, cuida da rotina

só mesmo rejeita
bem conhecida receita
quem não sem dores
aceita que tudo deve mudar

que um homem não te define
sua casa não te define
sua carne não te define
você é seu próprio lar

que um homem não te define
sua casa não te define
sua carne não te define

ela desatinou
desatou nós
vai viver só

eu não me vejo na palavra
fêmea: alvo de caça
conformada vítima

Prefiro queimar o mapa
traçar de novo a estrada
Ver cores nas cinzas
E a vida reinventar.

e um homem não me define
minha casa não me define
minha carne não me define
eu sou meu próprio lar

ela desatinou
desatou nós
vai viver só


SIGA VIAGEM:

CARNE DOCE
“Falo” (Salma Jô)
Do álbum Princesa (2016)

FLORA TRISTÁN (1803 – 1844)

FLORA (2011, 27 min)
Um filme de Lorena Stricker

Preciosidade do cinema latino-americano, o curta-metragem “Flora” de Lorena Stricker é uma linda homenagem à vida e ao pensamento de Flora Tristán (1803-1844). “Com sua voz acesa e seu pensamento desobediente e vivo”, esta mulher socialista fala-nos com senso crítico e um ideário feminista-igualitário de impressionante atualidade.

ASSISTA AO FILME COMPLETO:

Flora Tristán é autora de livros importantes da teoria social no século XIX como “Peregrinações De Uma Pária” (1838) e “A União Operária” (1843), analisados e comentados em recente obra de Eleni Varikas, o magistral “A Escória do Mundo” (Ed. Unesp).

“O padre, o legislador, o filósofo tratam a mulher como verdadeira pária. A mulher (é a metade da humanidade) foi posta fora da igreja, fora da lei, fora da sociedade. O padre lhe diz: ‘Mulher, você é a tentação, o pecado, o mal; você representa a carne – quer dizer, corrupção, podridão. Chore sua condição, cubra a cabeça com cinzas, feche-se numa clausura e, ali, macere seu coração que é feito para o amor, e suas entranhas de mulher que são feitas para a maternidade. E quando tiver mutilado seu coração e seu corpo, ofereça-os sangrentos e ressecados a seu Deus para a remissão do pecado original, cometido pela sua mãe Eva. (…) Depois, disse-lhe o legislador: ‘Mulher, por si mesma, você não é nada como membro ativo do corpo humanitário, não pode esperar um lugar no banquete social. É preciso, se quiser viver, que sirva de anexo a seu senhor e mestre, o homem.’ Em seguida, o filósofo sábio lhe disse: ‘Mulher, foi constatado pela ciência que, por sua organização, você é inferior ao homem… você é um ser fraco de corpo e espírito, pusilânime, supersticioso.’ (…) Deve ser tema profundo de dor para os sábios dos sábios pensar que descendem da raça mulher… Que vergonha para eles serem concebidos no ventre de semelhante criatura, ter sugado seu leite e permanecido sob sua tutela uma grande parte da vida. Oh! É bem provável que, se esses sábios tivessem podido colocar as mulheres fora da natureza, como as puseram fora da Igreja, fora da lei, fora da sociedade, teriam se poupado a vergonha de descender de uma mulher…” (FLORA TRISTÁN, A União Operária. Citada por VARIKAS, 2014, Unesp, p. 52 – 56)

Avó do pintor Paul Gauguin (1843 – 1908), Flora Tristán teve seu relacionamento com o neto explorado pelo romance “O Paraíso Na Outra Esquina”do Prêmio Nobel de Literatura Mario Vargas Llosa (compre em Estante Virtual).

Além disso, muitos historiadores do pensamento têm destacado o papel de precursora e influenciadora direta de Flora Tristán sobre os fundadores do materialismo histórico-dialético, Marx & Engels. É deste teor o comentário que dedica-lhe Michel Onfray no 5º volume da Contra-História Da Filosofia, chamado Eudemonismo Social (Ed. Martins Fontes). Resumindo a vida de Flora, Onfray evoca Flora como uma mulher

Portrait de Flora Tristan en 1839 ©Costa/Leemage

“malcasada com um marido que a brutaliza sexualmente e que ela abandona para viver sozinha com os filhos, militante a favor do divórcio, abolicionista em matéria de pena de morte, denunciadora do colonialismo americano, fica conhecendo Owen e Fourier em Paris. Na rua, seu ex-marido lhe dá um tiro: o processo público movimentado revela uma ardente feminista que reivindica o direito a uma igualdade integral com os homens. Ela deseja a união dos trabalhadores explorados e sua constituição em classe operária, invoca o fim da miséria dos povos. Durante uma longa viagem de militância pelas cidades da França, esgotada, doente, Flora Tristán falece em Bordeaux. Tinha 41 anos. Em sua descendência, por meio da filha Aline, conta-se certo Paul Gauguin…

Muitas vezes se omite que Engels leu o livro de Flora Tristán Promenades dans Londres e de que grande número de suas informações se encontram sem remissão em A Situação Da Classe Trabalhadora Na Inglaterra, publicado em 1845, um ano depois da morte de Flora… Para escrever Promenades dans Londres, Flora Tristán não se fecha numa biblioteca, como Marx quando trabalha no capitalismo sentado à sua escrivaninha ou na sala de leitura do British Museum. Ela sai em campo, ao encontro físico da miséria…Dia após dia, vai a uma fundição para assistir ao trabalho dos operários, fala com moradores de pardieiros, encontra-se com prostitutas em prostíbulos, dialoga com prisioneiros em suas celas, convive com doentes mentais num asilo de alienados…

Quer o fim da miséria e a ‘felicidade comum’, portanto liberdade, alforria e igualdade… Nas prisões constata a correlação entre encarceramento e pobreza, delinquência e miséria social. A prisão não restitui ao convívio social, é uma escola do crime. É preciso agir sobre as causas do crime, e não punir o crime em si mesmo. Insurge-se contra a disparidade das penas, a injustiça da justiça, clemência para os poderosos e severidade para com os miseráveis… milita pela abolição da pena de morte. O que propõe é outro sistema social, que não seja o capitalismo selvagem, uma alternativa política capaz de eliminar a miséria produzida pelo mercado livre. Quer a união operária, o mutualismo, a força da coletividade,  o programa socialista radical… Em L’Union Ouvrière, de 1843, 5 anos antes do Manifesto Comunista de Marx e Engels, ela escreve “proletários, uni-vos” pois “a emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores”…” (ONFRAY: p. 29)


SOBRE O CURTA-METRAGEM,
SAIBA MAIS: BBCLA VOZ

Diario de Los Andes:


SIGA VIAGEM – LIVRO COMPLETO (EM INGLÊS):

SUSAN GROGAN – Flora Tristan – Life Stories
(Routledge) – DOWNLOAD EBOOK

ROSA LUXEMBURGO (1871 – 1919): “Quem não se movimenta não sente as correntes que o prendem.” [LIVRARIA A CASA DE VIDRO]

large

ROSA LUXEMBURGO (05 de Março de 1871 – 15 de janeiro de 1919)

>>>>>> Livraria A Casa de Vidro: “Reforma ou Revolução?” (Expressão Popular) – https://www.estantevirtual.com.br/…/rosa-luxemburgo-1871-19…

PANFLETO JUNIUS: “Violada, desonrada, esvaindo em sangue, emanando sujeira – eis aí a sociedade burguesa. Assim ela é. Não é totalmente imaculada e moral, com pretensões à cultura, à filosofia, à ética, à ordem, à paz e ao primado da lei – mas uma besta voraz, uma praga na cultura e na humanidade. Assim se revela em sua verdadeira forma… O imperialismo e sua brutalidade política, e a sequência de catástrofes que desencadeou, são sem dúvida uma necessidade histórica para as classes dominantes do mundo capitalista. Nada seria mais fatal para o proletariado do que se iludir, acreditando que é possível, após essa guerra, resgatar a continuação idílica e pacífica do capitalismo. A conclusão que o proletariado deve tirar da necessidade histórica do imperialismo é de que se render a ele significará viver para sempre à sua sombra vitoriosa e comer de seus restos.

É nossa força, nossa esperança, que são ceifadas dia após dia, como a relva sob a foice. (…) As melhores forças do socialismo… a vanguarda de todo o proletariado…. são esses que estão agora sendo estropiados e conduzidos ao matadouro. Trata-se de um ataque não contra a cultura burguesa do passado, mas contra a cultura socialista do futuro, um golpe letal contra aquela força que traz em seu bojo o futuro da humanidade, e é a única capaz de conduzir os tesouros preciosos do passado para uma sociedade melhor. Aqui o capitalismo expõe sua caveira assustadora; aqui ele revela o fato de que sua lógica histórica está esgotada; sua dominação contínua já não é conciliável com o progresso da humanidade.

Proletários do mundo, uni-vos!”

* * * *

(Wikipédia: Rosa Luxemburgo publicou o Panfleto Junius na Suíça em abril de 1916, o qual foi distribuído secretamente na Alemanha. O texto, também conhecido como A Crise na Social Democracia Alemã foi iniciado na prisão em fevereiro de 1915. Foi adotado como declaração política fundamental do Grupo Internacional, mais conhecido como Liga Espártaco, que tornou-se um dos elementos do Partido Comunista da Alemanha em janeiro de 1919.)
https://pt.wikipedia.org/wiki/Junius

NA LIVRARIA >>>

reforma-ou-revoluo-alta

Reforma Ou Revolução?
Rosa Luxemburgo (1871 – 1919)

Tipo: novo

Editora: Expressão Popular

Ano: 2015

Estante: Ciência Política

Peso: 400g

Idioma: Português

Cadastrado em: 05 de março de 2017

Descrição: ‘O capitalismo se torna, cada vez mais, um sistema organizado, capaz de banir conflitos e crises. Para que, então, falar em revolução?’ Quem ainda não ouviu essa cantiga, martelada todos os dias pela classe dominante e suas crias? Este texto de Rosa Luxemburgo, publicado em 1900, é uma arrasadora crítica da sempre repetida tese de que a revolução é desnecessária, pois se poderia chegar ao socialismo através de reformas graduais do capitalismo.

COMPRAR


ASSISTA:



COMPARTILHE NO FACEBOOK

BAIXE EBOOKS:
A acumulação do capital : estudo sobre a interpretação econômica do imperialismo
 (PDF, 9MB)

A vida de Carolina Maria de Jesus, autora de “Quarto de Despejo”, em quadrinhos – Saiba mais @ A Casa de Vidro Livraria

cmj

gn

SINOPSE – Carolina Maria de Jesus foi um dos grandes fenômenos literários do Brasil nos anos 1960. Seu livro de estreia, Quarto de Despejo, ficou no topo da lista de mais vendidos e foi publicado em mais de 13 países. Negra, pobre, moradora da favela do Canindé, zona norte de São Paulo, e mãe de três, Carolina narrava no livro seu cotidiano na favela. Foi descoberta pelo jornalista Audálio Dantas, que a ajudou a publicar o trabalho. A história de luta, fama e declínio de umas das mais marcantes vozes femininas da literatura brasileira está em Carolina, biografia em quadrinhos de João Pinheiro e Sirlene Barbosa. O livro narra sua infância pobre em Minas Gerais, sua vida sofrida em São Paulo, a fama, as ilusões, as decepções e o esquecimento. 128 páginas. Sirlene Barbosa é doutoranda em Educação pela PUC-SP e professora de língua portuguesa. João Pinheiro é artista visual e autor de histórias em quadrinhos, publicou os álbuns Kerouac (2011, Devir) e Burroughs (2015, Veneta). Já colaborou para revistas como Hipnorama (Argentina), Inkshot (Eua), Serafina, Rolling Stone e Bill.

COMPRAR “CAROLINA” (GRAPHIC NOVEL BIOGRÁFICA)
NA CASA DE VIDRO EM ESTANTE VIRTUAL

noite-de-autografos-do-lancamento-de-seu-livro-quarto-de-despejo-em-uma-livraria-na-rua-marconi-em-sao-paulo-sp-sa
“Embora em princípio qualquer um possa fazer literatura ou fazer política, o reconhecimento de um discurso como literário ou como político passa pela adequação aos códigos consagrados no campo. (…) Tomando como base os romances publicados pelas editoras de maior prestígio entre 1990 e 2004, verifica-se que 93,9% dos autores são brancos, 78,8% têm diploma universitário, 72,7% são homens. As personagens também são quase todas brancas, heterossexuais e pertencentes às elites econômicas ou às classes médias, com uma significativa maioria do sexo masculino, disparidades acentuadas quando são isolados os protagonistas. Num universo de 258 romances analisados, aparecem apenas 3 mulheres negras como protagonistas e uma única é narradora. Nesse cenário, surgem, vez por outra, vozes diferenciadas. O caso mais emblemático é o de Carolina Maria de Jesus, negra, pobre, favelada, mãe solteira, catadora de papel, descoberta por um jornalista e que publicou seu diário – Quarto de Despejo – em 1960.” (LUIS FELIPE MIGUEL, Democracia e Representação, Ed. Unesp, p. 228-29) – SAIBA MAIS

OUÇA:
Carolina Maria de Jesus – Quarto de Despejo (1961) Álbum Completo

VEJA:
Poética da diáspora – Pesquisa Fapesp

BOB MARLEY: Guerreiro Rasta

Daniel Pereira

Um dos muitos méritos desta graphic novel dos argentinos Diego Agrimbau (roteiro) e Dante Ginevra (desenhos) está em sua capacidade de revelar a enorme dimensão social, espiritual e artística de Bob Marley. Nascido em 1945, numa Jamaica que lutava para se libertar do domínio colonial inglês, Bob Marley viveu apenas 36 anos, mas tornou-se uma figura de notoriedade e relevância mundial, a ponto de produzir milhões de seguidores. Isto não se deve somente ao seu talento como cantor, compositor e músico, mas à força e à resiliência de sua mensagem à humanidade.

Estátua no Estádio Nacional de Kingston

Reggae’s most transcendent and iconic figure, Bob Marley was the first Jamaican artist to achieve international superstardom, in the process introducing the music of his native island nation to the far-flung corners of the globe. Marley’s music gave voice to the day-to-day struggles of the Jamaican experience, vividly capturing not only the plight of the country’s impoverished and oppressed but also the devout spirituality that remains their source of strength. His songs of faith, devotion, and revolution created a legacy that continues to live on not only through the music of his extended family but also through generations of artists the world over touched by his genius. – Jason Ankeny

Guerreiro Rasta não começa ao som de ska ou reggae, mas em chave mais trágica, evocando a África, onde as caravelas invasoras do imperialismo europeu vieram sequestrar milhões de seres humanos para o destino horrendo de escravizados. Filhos da diáspora, os afrodescendentes da Jamaica lutavam por independência e autonomia enquanto Bob Marley crescia: é no período entre 1958 e 1962 que a onda descolonizadora do Caribe ganha força e triunfa contra o império inglês, não só na Jamaica, mas também em Trinidad e Tobago.

Na capital da Jamaica, Kingston, os autores evocam de modo impressionante a presença da África, seja através do mega evento cívico que foi  a visita do imperador da Etiópia, Hailê Selassiê, em abril de 1966, seja no próprio cotidiano dos cultuadores de Jah, os rastafáris da sagrada ganja, tão perseguidos pela elite branca e que com tanta frequência tinham seus dreadlocks cortados e tomavam cruéis baculejos policiais.

Bob Marley até tentou migrar para os EUA – onde trabalhou em Delaware como operário da indústria automobilística em uma fábrica da Chrysler – mas retomou o caminho de Trenchtown: em uma das imagens mais memoráveis de Dante Ginevra, o avião de Marley decola nos Estados Unidos, ascendendo rumo a um céu onde paira, cheio de garbo e poder, desenhado pelas nuvens em interação com os raios de sol, um gigantesco Leão de Judá

mi0003146038

 Bob Marley permitiu que a criatividade de um país periférico conquistasse o globo e tornou-se um dos luminares não só da música reggae ou da religião rastafári, mas um ídolo popular em todas as latitudes onde há luta contra a opressão e em prol da paz e do amor. Filho de uma afro-jamaicana com um branco inglês, Bob Marley foi um mulato afroamericano de profundo enraizamento na cultura africana e no sonho de um retorno à África mãe, seja na Etiópia ou na Libéria (este é um ethos ou uma constelação afetiva que assemelha Bob Marley a Nina Simone).

Apesar de estar longe de ser uma figura teórica ou acadêmica, Marley tinha postura política convicta e aliou-se ao movimento do pan-africanismo propugnado por Marcus Garvey, evidente em uma canção como “Africa Unite”. Em sua meteórica carreira musical foi um porta-voz libertário cujo teor ideológico e raio de influência sobre as massas pode ser equiparado ao de figuras como Patrice Lumumba, Malcolm X, Martin Luther King, Fela Kuti etc.

Bob Marley & the Wailers
“Concrete Jungle”
The Old Grey Whistle Test, 1973

Suas letras repletas de crítica social transcenderiam o gueto e iriam muito além das fronteiras do reggae: iriam inspirar artistas do folk, do rock, do punk, da MPB, da world music etc. Não é possível imaginar nem o The Clash, nem Gilberto Gil, nem Manu Chao, sem a seminal influência de Bob Marley. O poder de sua arte é tamanho pois conjuga o anúncio e a denúncia, para lembrar Paulo Freire: Marley fala sobre one love em vibe similar à de John Lennon imaginando a brotherhood of men, mas também denuncia a “selva de concreto” (assista a “Concrete Jungle” assista) e os mais de “400 Years” de opressão imperialista sobre aqueles que foram roubados de sua terra nos “merchant ships” evocados por “Redemption Song”:

“Velhos piratas, sim, eles me roubaram.
Me venderam para os navios mercantes, 
Minutos depois me atiraram
Num buraco sem fundo…”

Guerreiro Rasta é uma leitura rápida mas que deixa rastros na memória; uma biografia em formato graphic novel de 60 e poucas páginas, mas que ensina uma imensidão neste curto intervalo de tempo e espaço. Ganham expressão nestas páginas toda a violência política nas ruas de Kingston e todo o esforço pacifista-diplomático de Marley; toda a trajetória dos Wailers, tendo como coadjuvantes importantes Peter Tosh e Lee Perry, de estrelas musicais locais a popstars idolatrados por Eric Clapton, Mick Jagger, Joe Strummer; toda a epopéia da diáspora, todos os horrores impostos pelo imperialismo racista e supremacista, em contraste com a sabedoria naturalista, cannábica, rasta-pacifista, desse liberador de mentes e encantatório musicista que foi Bob Marley.

marley-poster1

No cinema, sua vida e obra já ganharam belos retratos em filmes como Rebel Music ou na biopic documental de Kevin MacDonald. Porém a linguagem dos quadrinhos, aqui utilizada com maestria pelos hermanos argentinos, fornece uma impressionante oportunidade de imersão no microcosmo Marleyano. Na página 53, por exemplo, evocam-se em 5 míseros quadrinhos e um punhado de frases pungentes o dia em que a Jamaica enterrou Bob Marley. É uma página que não se esquece mais.

Era um “funeral de chefe de estado, com uma cerimônia que misturava as tradições rastafári e católica ortodoxa etíope. O caixão seguiu  um longo trajeto até sua terra natal, Nine Mile. Toda a Jamaica chorou a partida de seu filho pródigo. Em seu túmulo, foram colocados quatro objetos que representavam o que sempre foi importante para ele… o futebol, a música, a fé rastafári e a maconha. Nessa noite, toda a ilha cantou e dançou celebrando sua vida. Foi a melhor festa funerária que um rasta poderia esperar.”

COMPRAR “GUERREIRO RASTA” NA LIVRARIA A CASA DE VIDRO @ ESTANTE VIRTUAL


SIGA VIAGEM:

OUÇA…

burninBURNIN’ (1973)

* * * * *

bob_marley_the_wailers-survival

“SURVIVAL” (1979)

“Containing what is considered Marley’s most defiant and politically charged statement to date, Survival concerns itself with the expressed solidarity of not only Africa, but of humanity at large. The album was controversial right down to the jacket, which contains a crude schematic of the stowage compartment of a typical transatlantic slave ship. Survival is intended as a wake-up call for everyman to resist and fight oppression in all of its insidious forms. From Tyrone Downie’s opening synthesizer strains on “So Much Trouble in the World” to the keyboard accents emerging throughout “Zimbabwe,” the sounds of Survival are notably modern. The overwhelming influence of contemporary African music is also cited with the incorporation of brass, á la Fela Kuti and his horn-driven Africa ’70. While “Top Rankin’,” “Ride Natty Ride,” and “Wake Up and Live” are the most obvious to benefit from this influence, there are other and often more subtle inspirations scattered throughout. Survival could rightly be considered a concept album. Marley had rarely been so pointed and persistent in his content. The days of the musical parable are more or less replaced by direct and confrontational lyrics. From the subversive “Zimbabwe” — which affirms the calls for the revolution and ultimate liberation of the South African country — to the somewhat more introspective and optimistic “Africa Unite,” the message of this album is clearly a call to arms for those wanting to abolish the subjugation and tyranny of not only Africans, but all humankind. Likewise, Survival reinforces the image of Marley as a folk hero to those suffering from oppression.” – Lindsay Planer, AllMusic [http://www.allmusic.com/album/survival-mw0000194795]

* * * * *

ASSISTA:

LIVRARIA A CASA DE VIDRO: Poemas de Millôr, Tiras de Angeli, Bios de Edu Lobo e Leminski, Veronica Stigger ilustrada – e mto mais!

Na Livraria A Casa de Vidro, estão à disposição
(CLICK NA CAPA E SAIBA MAIS NA ESTANTE VIRTUAL):

angeli-o-lixo-da-historia-capa

a-fome-cenas-da-seca-do-ceara-365142millor-poemas minhas_lembrancas_de_leminski1 oncalivro-edu-lobo-sao-bonitas-as-cancoes-uma-biografia-musical-eric-nepomuceno-3547257

FIDEL CASTRO (1926 – 2016) – In Memoriam

HASTA SIEMPRE, FIDEL?
por Eduardo Carli de Moraes | Novembro de 2016

“E seus inimigos não dizem que apesar de todos os pesares, das agressões de fora e das arbitrariedades de dentro, essa ilha sofrida mas obstinadamente alegre gerou a sociedade latino-americana menos injusta.” – EDUARDO GALEANO
(Tradução de Eric Nepomuceno em Outras Palavras) – LEIA TUDO EM http://wp.me/p15fon-1UQy

Fidel se foi, sua fama e seus feitos ficam. Figura controversa, é claro: entre os pólos extremos da idolatria mais derretira e do rechaço mais furioso perfilam-se as reações à morte de Fidel Castro após seus 90 anos na Terra. De 1926 a 2016, realizou seu percurso de vida de modo tão fulgurante, tão marcante, que não há dúvida de que não será esquecido tão cedo. Esta segunda morte, o esquecimento, que a todos nós há de recobrir (em 5 milhões de anos, quem se lembrará de Napoleão ou Júlio César, de Jesus Cristo ou de Buda, de Cleópatra ou Marilyn Monroe?), demora mais a vir para estas figuras que adquiriram “estatura histórica”. Fidel Castro, se não será esquecido, deve o mérito de seu destino memorável em especial às palavras e ações que dedicou aos olvidados da Terra, aos desvalidos, aos deserdados, às vítimas da exploração e da espoliação injustas – aqueles que Frantz Fanon chamou de Les Damnés de la Terre.  Se a chama de sua memória há de ser preservada viva por algum tempo, furtando-o de sumir por completo após os vermes terem devorado os últimos tecos de seu cadáver, será por ação de re-memora-ação admirativa e fiel daqueles cuja sina de opressão e miséria Fidel Castro lutou a vida inteira por revolucionar, alçando-os à dignidade humana de camaradas, irmãos de destino em uma sociedade mais fraternal.

A História o absolverá? Quem terá a temeridade presunçosa de dar resposta a uma questão destas? Quem são os juízes que tem o direito de sentar no tribunal da História e te julgar, comandante? É curioso, quase engraçado, nestes dias que sucederam à morte de Fidel, notar o quanto a cyber-praça-pública foi tomada por pontífices da História e juízes da vida alheia, proclamando vereditos de Facebook sobre o tirano sanguinário ou sobre o herói revolucionário Fidel Castro. A demonização e a angelização são ambas encontráveis às mancheias, e é de se suspeitar que nenhuma nem outra faça justiça à vida de Castro que, como todo mundo, era humano, demasiado humano. De todo modo, mesmo aqueles que tacam pedras sobre a reputação de Castro não podem ignorar ou permanecer neutros diante de uma espécie de fato empírico de estranho tipo: o mundo sente que perdeu um ser humano que vai morar nos livros de História, que será incorporado àquela vasta galeria de personagens, através dos séculos, que realizou algo de inesquecível e inescapável em matéria de ação e reflexão no âmbito da política. Esta vida que se foi é incapaz de deixar o mundo indiferente à sua partida – eis o que ensina a tua morte, Fidel.

O que será feito de ti não está mais em teu controle. Nem no túmulo escaparás da polêmica, da qual nunca fugistes, aliás. Tua reputação póstuma também é um campo de batalha. E diante disso, por mais insignificante que eu seja, por mais pífio que seja meu poder, perfilo-me nas barricadas a teu lado, compañero. Pois a Revolução Cubana é, em política, uma inescapável estrela-guia para todos que lutam por sociedades menos injustas. Foi a prova viva de que era possível nos trópicos inventar uma civilização socialista bem naquele espaço que o arrogante Império havia se acostumado a pensar como seu chiqueiro, seu quintal, sua colônia de férias, seu cassino, seu vasto campo de exploração colonial. Primeiro a Espanha, depois os Estados Unidos, as metrópoles fincaram suas garras ensanguentadas nesta ilha por tanto tempo infeliz, chorando as amargas lágrimas, no corpo de seu povo, pela escravidão, pela opressão, pela espoliação e injustiça sofridas (mas nunca consentidas). A ousadia dos guerrilheiros de Sierra Maestra, o triunfo da revolução, a caminhada difícil até a construção do socialismo, a resiliência e a coerência de um regime que se manteve fiel a seus princípios igualitaristas de justiça social, inspira milhares de ativistas até hoje, e talvez a morte de Fidel não vá causar o arrefecimento mas sim uma nova efervescência das idéias e práticas do “castrismo”.

Conheço o discurso do fora todos!, do não quero ter nenhum herói, mas às vezes isto soa-me, em política, como uma espécie de individualismo niilista, de indivíduo isolado que pensa poder prescindir de pessoas como inspiração e que, com seu ethos, no percurso de sua existência, fornecem motivações afetivas sem as quais a ação permaneceria apática, ineficaz. Conheço – e adoro – aquelas canções punk anarco-autonomistas que, como diz o Stiff Little Fingers lá da Irlanda, exige: “no more heroes!”. Porém, não será quimérico querer uma política totalmente sem heroísmo, privada de heróis e vilões, sem lideranças nem liderados, na quimérica e perfeita horizontalidade homogênea? Não estou defendendo o maniqueísmo, como visão-de-mundo, já que sua estreiteza e sua estupidez são explícitas: dividir a Humanidade entre dois grandes clubes, o das pessoas-de-bem e a dos endemoniados, a dos angelicais e a dos bestiais, as dos heróis aureolados e dos satanizados adversários, é algo tosco demais para precisar de demoradas refutações. Meu questionamento é outro: a mobilização coletiva poderá de fato algum dia prescindir da capacidade de mobilização que só é fornecida por “ideologias do heroísmo” e por líderes carismáticos com força mobilizadora?

É inegável, até como fenômeno sociológico empiricamente comprovável, passível de virar estatística e tudo, que há milhares de sujeitos que tem fome de heróis e encontram em Fidel Castro, em Che Guevara, no Subcomandante Marcos etc. figuras dignas de admiração. E mais que isso: quando digo admiração, não me refiro a qualquer tipo de contemplação passiva, em que alguém que ficaria boquiaberto e babando ovo para alguém, mas com a bunda bem sentadinha no sofá do conformismo e da inatividade. Admiração, no caso, é uma espécie de força mobilizatória que impele o sujeito a realizar uma espécie de mímesis de seu herói adorado. Por mais que nos coloquemos, no debate teórico e intelectual, no lado materialista da barricada, enxergando nos idealistas aqueles que estão na ilusão e no equívoco, é bem difícil ser um materialista lúcido e negar que todo o “mundo simbólico” tem sim muitos efeitos históricos, e que entre estes eventos simbólicos está a idealização-de-outrem, a circulação social de ideias heróicos e as conexas mímesis de um ethos admirado, nunca estando excluída a necessidade de investigar o quanto as ideologias estão por trás daquilo que fomos ensinados a louvar ou a rechaçar. 

Eu provocaria dizendo que tem muito materialista, no âmbito teórico, que é um idealista na prática, pois todas as suas ações militantes são derivadas de uma força motriz “ideal” – que pode ser, por exemplo, a motivação de “brilhar no céu da história com o fulgor de Lênins, Fidéis e Ches”. Talvez muito materialista, tendo se convertido ao ateísmo, precise de um substituto para os deuses do céu em que não crê, e por isso fabrique ídolos na Terra, ídolos que foram de carne-e-osso e que depois de mortos tornam-se emblema, símbolo, ausentes em corpo mas presentes na figura de um ideal que muitos sujeitos mantêm com a chama viva, alimentando-o com o sangue bombeado por seus próprios corações. Que há nisso um elemento de idolatria, não tenho dúvida, mas será que seríamos Nietzschianos fiéis ao mestre se concluíssemos, com simplismo crasso, que é preciso condenar igualmente toda e qualquer idolatria, ao invés de perguntar: qual o valor de tal e tal sistemas-de-ídolos? Ele serva à vida ascendente na imanência, ou serve ao sacrifício da vida presente a uma quimera transcendente? Será que também Nietzsche não propôs uma reviravolta de heroísmos com sua transvaloração de todos os valores, uma proposta de que cessássemos com a idolatria do Nazareno em sua cruz e começássemos a nos mirar no exemplo de espíritos mais livres, dos Übbermench prenunciados pelas bacantes dionisíacas?

É porque sinto em mim uma vontade de celebrar com panegíricos a figura de Fidel Castro que me pus, neste texto, a refletir sobre idolatrias, seus perigos mas também suas promessas. Talvez possamos admirar e idolatrar de modo lúcido, sem cegueira, com empatia e camaradagem, mas nunca abdicando da autonomia de um senso crítico que foi ensinado a não se sujeitar a nenhum ídolo acima da verdade. Sabemos, Fidel, que figuras como ti e Che não foram nem a perfeição encarnada nem os capetas assassinos que os mais tacanhos e estúpidos dentre teus adversários pintam que vocês foram. Nem anjos nem bestas, de todo modo lograram realizar algo que lhes trouxe amplo reconhecimento e celebridade. Nós, os reles mortais, os olvidados, os que vivem na semi-sombra de um quase-anonimato, aqueles que não serão mencionados por seus nomes próprios em nenhum livro de História ou nenhum documentário, nós que suspeitamos que nosso destino post mortem será o rápido esquecimento, olhamos com inevitável admiração para teus feitos inolvidáveis. Não podemos esquecê-los, nem suportar calados e sem revolta aqueles que desejariam usar, contra vocês, a borracha. Ou o assassínio de reputação.

15178981_10205888645694176_2567812962823392543_n

"Esta noite milhões de crianças dormirão na rua. Nenhuma delas é cubana." - Ilustra por Vitor Teixeira

“Esta noite milhões de crianças dormirão na rua.
Nenhuma delas é cubana.” – Ilustra por Vitor Teixeira

II. DA GUERRILHA AO SOCIALISMO – A REVOLUÇÃO CUBANA

Gostaria de prestar tributo a Fidel evocando uma obra que muito me ensinou sobre ele e seu papel histórico: Da Guerrilha ao Socialismo – A Revolução Cubana, de Florestan Fernandes (ed. Expressão Popular). “Não importa o que se pense sobre ‘o papel do grande homem na história’, o fato contundente é que, sem Fidel Castro, a revolução cubana não teria ocorrido da forma histórica que a caracterizou. Por mais que esta revolução estivesse historicamente madura e fosse uma necessidade política, sem ele e o movimento castrista a ruptura com a ordem social neocolonial teria sido contida, de um modo ou de outro, no nível de uma composição nacional-burguesa mais ou menos conservadora e pró-imperialista.” (p. 119) Sem Fidel Castro, a revolução cubana poderia não ter tomado os rumos do socialismo, do poder popular soberano, do anti-imperialismo radical, da defesa intransigente de uma espécie de soberania nacional libertária.

Segundo Che Guevara, Fidel Castro teria sido uma “força telúrica” da América Latina, alguém que nos momentos mais difíceis da Sierra Maestra tinha uma infatigável “grandeza humana e espírito revolucionário”, como fica patente pela seguinte narração de Che: “Uns 15 homens destruídos fisicamente e até moralmente, juntamo-nos e só pudemos ir adiante pela enorme confiança que Fidel Castro teve nesses momentos decisivos, por sua valorosa figura de chefe revolucionário e sua fé inquebrantável no povo” (CHE GUEVARA, “Proyeciones sociales del ejército rebelde”, In: CASTRO, La Revolución Cubana, p. 428, apud FERNANDES, p. 120). O que Che enfatiza aqui é um fator que fazia parte da personalidade de Castro e que pôde incidir sobre toda a história do povo cubano: sua convicção inquebrantável de estar lutando pela causa do “povo”, em prol de uma revolução legítima e necessária, o que o convertia naquela fortaleza que fortalecia aqueles que sentiam-se tentados a desistir.

Sua estatura histórica é inseparável de sua capacidade de  mobilização popular, aquilo que trocando em miúdos podemos chamar de sua popularidade, mas é certo que Fidel Castro não foi meramente um mestre da retórica, da oratória, apenas um astuto demagogo. Fidel Castro foi um pensador político, um estrategista da práxis, um materialista de viés marxista cujo pensamento é muito digno de discussão e debates nas faculdades de sociologia e filosofia. Falemos um pouco sobre o que Florestan Fernandes considera ser a estratégia castrista:

 “Fidel Castro foi o estrategista da revolução cubana… deve-se à sua imaginação prodigiosa a criação de uma estratégia política que fez do movimento castrista uma vanguarda revolucionária e o converteu, aos poucos mas de maneira muito rápida, no verdadeiro pilar da revolução cubana. Tratava-se de uma estratégia muito simples e, também, muito ousada. (…) Os êxitos e os malogros do ataque ao quartel de Moncada, em 1953, permitiram que Fidel passasse do diagnóstico dos problemas cubanos e de seus remédios políticos para um exame em profundidade das relações entre meios e fins na luta revolucionária. A contra-revolução contava com o poder de repressão da ditadura, com recursos externos facilmente mobilizáveis…. Não havia como sair do impasse a curto prazo, o que determinou a aceitação da guerrilha como o meio principal de luta e a formação de um movimento político paralelo, cuja função inicial consistia em impedir o isolamento político da guerrilha.” (FLORESTAN FERNANDES, p. 121)

jose-marti-lo-derechos_0

Fiéis à tradição de José Martí, os revolucionários “castristas” acreditam que não se luta contra uma ditadura militarizada e sanguinária, sustentada por Yankees brutais, interessados na perpetuação da espoliação imperial e da dominação do povo nativo por um truculento Estado-títere, através do uso de rosas e carinhos, gentilmente cedidos aos poderosos, com os pedidos delicados de que abdiquem voluntariamente de praticar a opressão. A guerrilha foi aceita como uma ferramenta em uma luta de libertação que não tinha nenhum tipo de particularismo estreito, uma luta revolucionária em prol da maioria do povo cubano, que deveria conquistar assim sua autêntica independência e soberania. Há um componente de indignação moral nos discursos e ações de Fidel Castro que é também, segundo avaliação de Florestan Fernandes, um dos fatores que fez dele uma tão potente liderança política:

“É fascinante a sagacidade com que Fidel Castro se moveu nesse complexo e movediço tabuleiro, lançando palavras-de-ordem diretas e concretas, muitas delas variavelmente pungentes, e que atendiam às frustrações de todas as classes ou respondiam, de uma ou de outra forma, a necessidades e aspirações sentidas nos diversos estratos dessas mesmas classes – nesse sentido, o centro de gravidade da revolução ficava, inicialmente, na libertação nacional. Por sua vez, o ataque frontal contra a ordem foi montado em termos de condenação moral, esta sim, extremista e candente, mas também formulada em termos concretos: os excessos dos poderosos e da ditadura, os efeitos da espoliação extrema, os males da corrupção e da submissão aos interesses estrangeiros, os defeitos da concentração agrária, da monocultura, da dependência a um mercado etc. – nesse sentido, a unidade política da revolução procedia inicialmente de seu eixo democrático. (…) Como a Constituição de 1940 continha normais ideais que nunca seriam cumpridas, ela criava um espaço político legítimo e legal para todo o debate. Fidel Castro explorou com sabedoria esse espaço, afirmando-se através dele como o paladino do nacionalismo, da legalidade constitucional, do populismo e da democracia, tocando o coração de todos os cubanos e despertando nos destituídos uma nova esperança.” (FERNANDES, p. 123)

fidel-castro-new-5

É pela mobilização da indignação e da esperança da maioria da população da ilha que Fidel torna-se uma espécie de herói nacional, torna-se uma força histórica determinante, sem que com isso caiamos no simplismo de uma História que seja feita “de cima para baixo”, por inspiração ideal de um líder iluminado; na verdade, o inverso é que é mais real, pois a revolução cubana veio de baixo para cima, como a lava de um vulcão e não como uma dádiva dos céus, e se Fidel Castro teve papel-chave neste processo foi justamente por ter se colocado de pés bem firmes no solo concreto onde buscou a concretização de uma “organização revolucionária dos humildes, pelos humildes e para os humildes”, definição que ele propôs para o Movimento 26 de Julho (CASTRO, La Revolución Cubana, p. 110, apud FERNANDES, p. 137).

Longe de cairmos no personalismo populista (“um homem sozinho mudou a história de seu país”), afirmamos aqui que a erupção da rebeldia do povo espoliado e maltratado de Cuba foi o agente revolucionário supremo, mas que seria falsificação histórica passar uma borracha sobre a importância crucial, neste processo, de uma liderança como Fidel Castro, fundamental para a determinação dos rumos anti-imperialistas, autenticamente socialistas, da revolução cubana, que ao invés de tornar-se apenas uma “revolução dentro da ordem”, que desaguasse na sensaboria de um capitalismo modernizado e de uma democracia liberal burguesa, triunfou como “revolução contra a ordem”, com forte protagonismo dos proletários urbanos e camponeses, além da juventude radical e dos setores populares radicalmente anti-imperialistas:

“O antiimperialismo exigia, como algo inevitável, o anticapitalismo: não se poderia dar um salto histórico de um sem o outro e, portanto, impunha-se ir direto à concepção libertária e socialista de liberação nacional. (…) À medida que a desagregação da ordem social neocolonial se completa e as classes trabalhadoras passam da revolução dentro da ordem para a revolução contra a ordem, a socialização política do jovem radical sofre uma transmutação. Ele apanha essa potencialidade ainda no seu estado larval e avança através dela. Por conseguinte, o jovem radical veio a ser um protagonista exemplar: veio a ser o sismógrafo das sucessivas alterações da situação revolucionária e o porta-voz das classes e estratos de classes especificamente revolucionários da sociedade cubana… O êxito militar dos jovens rebeldes, dos fins de 1957 em diante, deixara o campo político aberto para a eclosão das forças revolucionárias reprimidas nos confins da sociedade cubana. As classes trabalhadoras e os humildes foram deslocados para a condição de uma retaguarda mobilizada e militante… Atinge-se, então, o clímax da socialização política produzida e a consciência revolucionária do jovem rebelde traduz não só as exigências da ‘revolução nacional’ e da ‘luta antiimperialista’, mas a própria consciência da classe trabalhadora, que emerge como a classe revolucionária, e seu poder real, o poder popular.” (FERNANDES, p. 109)

Revolucionários

Cuba, em 1959, conseguiu dar o salto para além de seu sequestro pelo imperialismo: de “satélite” dos Estados Unidos, ilha-monocultora, exportadora de açúcar e de frutas, com condições de trabalho mantidas em níveis próximos à escravidão, como foi durante as ditaduras de Machado e Batista, a ilha salta para o socialismo libertário que de imediato pratica a reforma agrária e várias medidas redistributivas. Obviamente, a revolução cubana ocorre em um contexto internacional tanto de Guerra Fria, com a polarização entre EUA e URSS, mas também das lutas pela descolonização na África, o que possibilitou que a luta em Cuba pudesse, apesar de visceralmente nacionalista, estar também conectada à janela histórica de “inclusão de Cuba nas correntes históricas da época do socialismo” – “o que estava em jogo, desse ângulo, era o grau de liberdade de Cuba de saltar da descolonização para a autodeterminação propriamente dita. (…) A situação mundial criara espaço histórico para que uma pequena ‘nação problema’ da América Latina ousasse ir tão longe desafiando o colosso e derrotando-o.” (FERNANDES, p. 145-143)

O colosso – no caso, os EUA, o gigante que Cuba tinha a poucas milhas de seu território – não só foi enfrentado com braveza, foi sim derrotado, não só pelo fracasso da contra-revolução financiada por Washington e pelo desastre que foi a tentativa de invasão da Baía dos Porcos, mas também pois a construção do socialismo cubano mostrou que era viável uma via autônoma, independente, soberana, mesmo na vizinhança do colossal império capitalista anglo-saxão. Florestan diz que “a idéia de que um extenso e profundo  desenvolvimento capitalista prévio é indispensável  ao êxito da revolução socialista  faz parte de arraigados mitos eurocêntricos de nossa época” (p. 148), mas que na verdade é planamente possível passar “direto” do status de colônia monocultora sob o jugo das metrópoles imperiais espoliadoras, para o status de nação que se autodetermina em prol da invenção de um socialismo dos trópicos, antes e independente de qualquer modernização capitalista. O Tio Sam não perdoaria fácil a ousadia da Ilha insurgente.

“Onerando a revolução cubana com o peso da terrível guerra econômica, política e militar que lhe moveu de forma impiedosa e prolongada” (p. 149), os EUA no entanto não teve sucesso em impedir o florescimento da nova sociedade socialista em Cuba. Neste seu livro, publicado em 1979, aos 20 anos da revolução, Florestan Fernandes pondera:”Já se disse que Cuba não poderia socializar mais que a miséria. Nestes últimos 20 anos Cuba fez mais que isso, o que exige que se retome a crítica desse julgamento cruel. Graças ao socialismo, em apenas 20 anos, Cuba realizou uma reforma agrária que se inscreve na história das grandes realizações que ocorreram na América Latina no século 20; retirou a maioria de sua população, os setores mais pobres dos proletários rurais e urbanos, da situação crônica de condenados da terra, assegurando-lhes meios permanentes de trabalho, um padrão sóbrio mas decente de vida, e a possibilidade de viver como gente; suplantou um dos mais terríveis cercos capitalistas e deixou definitivamente para trás o complexo colonial…” (p. 150)

falando-a-multidao-num-longuissimo-discurso-na-praca-da-revolucao-havana

Fidel Castro falando à multidão, num longuíssimo discurso na Praça da Revolução, Havana

CONTINUA…

LEIA TAMBÉM:

* * * * *

GALERIA FOTOGRÁFICA:

161126-fidelsamambaia-485x312

Na Sierra Maestra

com-angela-davis-e-malcolm-x-na-foto-acima-durante-uma-visita-aos-eua

Com Angela Davis durante visita aos EUA

com-ernest-hemingway-um-dos-poucos-norte-americanos-que-permaneceu-em-cuba-apos-a-revolucao

Com Ernest Hemingway

fidel-castro-era-apaixonado-por-beisebol-na-foto-ele-joga-em-uma-escola-de-formacao-de-professoras-em-sierra-maestra-em-1962

Fidel Castro era apaixonado por beisebol. Na foto, ele joga em uma escola de formação de professoras em Sierra Maestra em 1962. – BBC

com-o-primeiro-ministro-sueco-olof-palme-o-lider-mais-ousado-da-social-democracia-europeia

Com o primeiro-ministro sueco Olof Palme

com-simone-de-beauvoir-e-jean-paul-sarte-nos-primeiros-anos-da-revolucao

Com Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sarte, nos primeiros anos da revolução [COMPARTILHAR]

com-salvador-allende-na-breve-aventura-do-poder-popular-chileno

Com Salvador Allende, presidente do Chile, derrubado e morto pelo golpe de Estado em 11 de Setembro de 1973

fidel-com-a-guerrilheira-celia-sanchez

Fidel com a guerrilheira Celia Sánchez

malcolm-x

Com Malcolm X

1989

8 de Janeiro 1989: uma pomba branca pousa nos ombros de Fidel Castro enquanto ele discursa em comemoração aos 30 anos da Revolução.

1989-gorbachev

03 de Abril de 1989: com Mikhail Gorbachev, em Havana

dez-1995

Dezembro de 1995 – Visita à Grande Muralha da China

2010

03 de Setembro de 2010, Universidade de Havana

2012

Fidel Castro no lançamento de uma biografia escrita por Katiuska Blanco. 03 de Fevereiro de 2012.

che-2

Só sorrisos com Che Guevara

body_fidel-castro_1

Na Sierra Maestra

che

Com Che Guevara, que tenta jogar golfe (aparentemente sem muito sucesso e com muito desengonço…)

fidel-castro-1

Maio de 1963: Fidel Castro e Nikita Khrushchev, visita oficial do líder cubano a Moscou

Final Phase Digital
fidel_castro_-_mats_terminal_washington_1959

julho-de-1968

5 de Julho de 1968: Fidel Castro mostra uma fotografia em que o General Ovando Candia e outros membros do Exército Boliviano celebram o assassinato de Che Guevara.

hugo-chavez

13 de Agosto de 2006 – Presidente da Venezuela, Hugo Chávez, visita Fidel em Havana

lula

Fidel Castro Com Luiz Inácio Lula da Silva, presidente do Brasil

julho-de-1963

Julho de 1963: Fidel Castro depõe após ser preso pelo ataque ao Quartel Moncada – Santiago de Cuba. A intenção era armar a população e derrubar o governo de Fulgencio Batista. Por ser advogado, pronuncia sua auto defesa diante do tribunal, que passará a ser conhecida como “A História me Absolverá”, frase com a qual conclui sua auto defesa. Após um ano de detenção, sai em liberdade, anistiado em 1955, e exila-se no México. Volta a Cuba desta vez com Ernesto Che Guevara, Camilo Cienfuegos e Raul Castro , num total de 83 homens a bordo do iate Granma e inicia a guerrilha contra o regime desde a Sierra Maestra a 2 de Dezembro de 1956. Inicia-se assim a Revolução Cubana que em 1 de Janeiro de 1959 triunfaria contra Batista.

A ex-presidente Dilma Rousseff visitou Fidel Castro em Havana em 27 de janeiro de 2014. Na ocasião, a imprensa oficial cubana disse que o encontro "foi uma expressão do afeto e da admiração entre Fidel e Dilma".

A ex-presidente Dilma Rousseff visitou Fidel Castro em Havana em 27 de janeiro de 2014. Na ocasião, a imprensa oficial cubana disse que o encontro “foi uma expressão do afeto e da admiração entre Fidel e Dilma”. – BBC

nelson-mandela

2 de Setembro de 1998, com Nelson Mandela, no 12th Non-Aligned Movement Summit, Durban

papa-chico

Em Havana, com o Papa Francisco (o argentino Jorge Bergoglio), em 20 de Setembro de 2015.

sankara

Fidel Castro com Thomas Sankara, presidente de Burkina Faso e conhecido como “Che Guevara” da África

mandela

Com Nelson Mandela

amilcarcabral

Com Amilcar Cabral, líder na luta por independência da Guiné Bissau e Cabo Verde

samora-machel_mocambique

Com Samora Machel, líder da Guerra da Independência de Moçambique. Se tornou o seu primeiro presidente de 1975 a 1986.

COMPARTILHAR GALERIA NO FACEBOOK

* * * * *

BIBLIOGRAFIA RECOMENDADA:

ignacio-ramonet

a-ilha
bandeira
capa-castro-bx
frei
tariq-ali


9781473607064_z
fidel-e-cheCOMPRE NA LIVRARIA A CASA DE VIDRO: “Fidel e Che – uma Amizade Revolucionária, de Simon Reid-Henry”. a história do filho de um camponês, estudioso e rebelde – Fidel Castro – e da sua amizade com o médico Enesto “Che” Guevara. Ainda muito jovens, e ambos no exílio, encontraram-se na Cidade do México, em 1955. Em 1967 Che Guevara foi morto. Ao longo dos seus doze anos de amizade tornaram-se duas das figuras mais incontornáveis do século XX. O livro segue Fidel e Che desde a sua dramática jornada política no México, à guerra nas montanhas cubanas, até ao ponto alto da Guerra Fria. O autor baseia-se em pesquisas de arquivos em Havana, Washington, Moscovo, Miami, Princeton, Boston, Londres, Berlim, e também em entrevistas com alguns dos maiores protagonistas nesta história. Simon Reid-Henry, estudioso da Revolução Cubana,  é professor de geografia na Universidade de Londres. Livro novo, em perfeito estado, 575 pgs. [COMPRE AQUI – Ed. Globo, 2010, novo, 575 pgs, R$47,90]

 

* * * * *

FILMOGRAFIA RECOMENDADA:

soy_cuba

SOY CUBA, Um filme de Mikhail Kalatozov (1964). BAIXAR TORRENT. COMPARTILHA NO FACEBOOK.


fidel_3d_hr

FIDEL, um doc Saul Landau (1971)


dvd-memorias-cubanas-papa-e-fidel-frente

MEMÓRIAS CUBANAS – Uma série de docs de Gianni Minà


oliviercomandante_org

south_of_the_border


FIDEL! (2002), de David Attwood

FIDEL! (2002), de David Attwood

* * * * *

OUTROS VÍDEOS RECOMENDADOS:

Histórico diálogo entre Fidel Castro y Salvador Allende (Completo) – 53 min

COMPARTILHAR NO FACEBOOK


Marcos, aqui estamos! – Da série de docs Memórias Cubanas de Gianni Minà


Fidel no Congresso da UNE – Belo Horizonte – 1999


Roda Viva – TV Cultura – 1990


COMPARTILHAR

* * * * *

5 CANÇÕES