A ORAÇÃO PUNK DO PUSSY RIOT – Documentário escancara os detalhes do levante anarco-feminista russo-ucraniano

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PUSSY RIOT: A PUNK PRAYER

De Mike Lerner e Maxim Pozdorovkin (2013, 1h 28 min)

ASSISTA O FILME COMPLETO:

“Art is not a mirror to reflect the world, 

but a hammer with which to shape it.”

BERTOLT BRECHT

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Provocativo, excitante, instigante, indignante, hilário… esses são alguns dos adjetivos que acodem à mente para descrever este documentário sobre o Pussy Riot. Veja cenas explícitas e sem-censura das performances do grupo – incluindo “Orgia No Museu” e “Occupy Praça Vermelha”. E saiba mais sobre o contexto do aprisionamento das garotas, que foram condenadas a 2 anos de prisão por terem entrado em uma catedral de Moscow e berrado um punk-rock desafinado contra o “ditador Vladimir Putin”.

As garotas do Pussy Riot transformaram a performance artística, o teatro improvisado e a provocação punk em um espetáculo-freak que sacudiu a Rússia inteira e inflamou o debate sobre liberdade de expressão, fanatismo religioso, perseguição política contra dissidentes. O caso ecoou mundo afora, e até figuras como Yoko Ono e Madonna saíram em defesa do “Levante da Buceta”.

Segundo o diretor Maxim Pozdorovkin, todo o bafafá e polêmica causados pelas riot grrrrls do Pussy Riot equivale ao fuzuê que ocorreu na Inglaterra, circa-1977, com a explosão dos Sex Pistols, cuspindo na cara da Rainha, da EMI e do caralho-a-quatro. As cenas do julgamento do Pussy Riot indicam claramente que o processo criminal contra as garotas tem a ver com outra causa além da liberdade de expressão e o direito do artista de se manifestar sua discórdia com o status quo: o que está em questão também é o Estado Laico, ou melhor, sua ausência na Rússia de Putin, onde o Estado e a Igreja Ortodoxa agem em estreitas e íntimas ligações.

O Pussy Riot só foi em cana por causa da “blasfêmia” que foi entrar numa Catedral e botar a boca no trombone contra o governo Putinesco e suas frequentes violações da laicidade do estado (que era um dos ideais da Revolução bolchevique de outubro de 1917). Enfim… vale a pena embarcar neste filmaço que relata como o punk rock feminista e a arte de protesto sacudiram a Rússia e desnudaram a faceta autoritária e repressiva da era Putinesca (com suas leis homofóbicas e suas gulags na Sibéria para artistas blasfemos…).

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NOW magazine (Toronto):

“Note to authoritarian regimes: don’t think you can mount a show trial if the defendants are more media-savvy than you are. This and about a dozen other ideas – including the value of performance art and the power of Putin – are behind this kick-ass doc about Russian punk art collective Pussy Riot and the trial that ensued after the group put on a guerrilla performance – playing an anti-Putin anthem – in Moscow’s central cathedral. Charismatic arrestees Masha (Maria Alyokhina), Katia (Yekaterina Samutsevich) and especially Nadia (Nadezhda Tolokonnikova) and coverage of the trial and demonstrations both for and against Pussy Riot give this pic electrifying energy. See it.”

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Maxim Pozdorovkin, director of “A Punk Prayer”

Hail Pussy Riot. But, says doc director, learn some basic history first. By SUSAN G. COLE
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Ah, Pussy Riot! Instinctively, we love them – especially given their home country’s human rights record – but many of our assumptions about the brazen Russian art activists are false.

The case of the female threesome who became a worldwide cause célèbre when they were charged with hooliganism and jailed after their anti-Putin performance in a church is badly misunderstood.

So claims Maxim Pozdorovkin, co-director of Pussy Riot: A Punk Prayer.

For starters, Pussy Riot isn’t a punk band. The arrested women are members – though their standing among their comrades is in question now that they’ve blown up worldwide – of a loose collective of artists, filmmakers and journalists working to create a different iconography for protest.

“They see themselves as contemporary artists determined to bring theatre into life,” says the hyper-articulate director on the phone from New York City. He’s there on the eve of an Amnesty International benefit, where recently released activists Maria Alyokhina and Nadezhda Tolokonnikova are set to appear – introduced by Madonna. He’s hanging out with them and planning to make a short film of the event.

“I always said that the story was misrepresented in Russia and in the West – I’m not sure where it was worse,” Pozdorovkin declares.

In Russia, they’re wrongly accused of being anti-religion, he claims.

“And in the West, it’s assumed that because they were a punk band singing an anti-Putin song, they went to jail. That’s nonsense. If they’d sung the song outside of the church, or anywhere else, no one would have cared.

“They had done so many things before that you’d think would’ve landed them in jail. In the U.S., for example, you couldn’t do the orgy in the National History Museum [explicitly shown in the film] and not go to jail.”

Pozdorovkin, who grew up in Moscow, played in punk bands and has a PhD from Harvard in found-footage filmmaking, is almost apoplectic at the idea that Putin’s regime can be compared to even the lighter anti-gay side of Stalinism. He sees more chaos than control in the new Russia.

“One of the biggest mistakes Westerners make is seeing the oppressive aspects of the arrest and trial as somehow organized and coming from the top down. That’s simply not the case.”

It was the women themselves – not the Russian authorities – who requested in a motion that the trial be filmed. The motion was granted, resulting in some of the doc’s most mesmerizing footage. A Russian news agency did the shooting, and Pozdorovkin, blown away by the quality of the initial rushes, then set the project in motion.

Though he allows that Pussy Riot are incredibly media-savvy, he says they weren’t totally aware of what they were getting into by making their statement inside a church.

“They didn’t mean to offend people. They felt they had the right to do what they did, and that maybe they’d be fined for, say, trespassing, but not be criminally charged. There’s something about the story that’s anachronistic, beautiful, idealistic.”

But the radical troupe is changing the way people look at performance and politics, which was precisely Pussy Riot’s intention. Soviet culture had never before been confronted by punk ideals and conceptual art on a mass level.

“The public awareness that you got with [the Sex Pistols’] God Save The Queen, that never happened in Russia until Pussy Riot.”

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“Não há nada mais parecido a um fascista do que um burguês assustado.” (Brecht) || Leia alguns poemas do autor

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Foto

 

ALGUNS VERSOS DE BERTOLT BRECHT:

“Não desperdicem um só pensamento
Com o que não pode mudar!
Não levantem um dedo
Para o que não pode ser melhorado!
Com o que não pode ser salvo
Não vertam uma lágrima! Mas
O que existe distribuam aos famintos
Façam realizar-se o possível e esmaguem
Esmaguem o patife egoísta que lhes atrapalha os movimentos
Quando retiram do poço seu irmão,
com as cordas que existem em abundância.
Não desperdicem um só pensamento com o que não muda!
Mas retirem toda a humanidade sofredora do poço
Com as cordas que existem em abundância!”

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PERGUNTAS DE UM TRABALHADOR QUE LÊ

“Quem construiu a Tebas de sete portas?
Nos livros estão nomes de reis.
Arrastaram eles os blocos de pedra?
E a Babilônia várias vezes destruída –
Quem a reconstruiu tantas vezes? Em que casas
da Lima dourada moravam os construtores?
Para onde foram os pedreiros,
na noite em que a Muralha da China ficou pronta?
A grande Roma está cheia de arcos do triunfo.
Quem os ergueu? Sobre quem
Triunfaram os Césares? A decantada Bizâncio
Tinha somente palácios para seus habitantes?
Mesmo na lendária Atlântida
Os que se afogavam gritaram por seus escravos
Na noite em que o mar os tragou.O jovem Alexandre conquistou a Índia.
Sozinho?
César bateu os gauleses.
Não levava sequer um cozinheiro?
Filipe da Espanha chorou, quando sua Armada
Naufragou. Ninguém mais chorou?
Frederico II venceu a Guerra dos Sete Anos.
Quem venceu além dele?Cada página uma vitória.
Quem cozinhava o banquete?
A cada dez anos um grande homem.
Quem pagava a conta? Tantas histórias.
Tantas questões.”

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O PÃO DO POVO

“A justiça é o pão do povo.
Às vezes bastante, às vezes pouca.
Às vezes de gosto bom, às vezes de gosto ruim.
Quando o pão é pouco, há fome.
Quando o pão é ruim, há descontentamento.
Fora com a justiça ruim!
Cozida sem amor, amassada sem saber!
A justiça sem sabor, cuja casca é cinzenta!
A justiça de ontem, que chega tarde demais!
Quando o pão é bom e bastante
O resto da refeição pode ser perdoado.
Não pode haver logo tudo em abundância.
Alimentado do pão da justiça
Pode ser feito o trabalho
De que resulta a abundância.
Como é necessário o pão diário
É necessária a justiça diária.
Sim, mesmo várias vezes ao dia.
De manhã, à noite, no trabalho, no prazer.
No trabalho que é prazer.
Nos tempos duros e nos felizes.
O povo necessita do pão diário
Da justiça, bastante e saudável.
Sendo o pão da justiça tão importante
Quem, amigos, deve prepará-lo?
Quem prepara o outro pão?
Assim como o outro pão
Deve o pão da justiça
Ser preparado pelo povo.
Bastante, saudável, diário.”

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A ESPERANÇA DO MUNDO

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Seria a opressão tão antiga quanto o musgo dos lagos? Não se pode evitar o musgo dos lagos. Seria tudo o que vejo natural, e estaria eu doente, ao desejar remover o irremovível? Li canções dos egípcios, dos homens que construíram as pirâmides. Queixavam-se do seu fardo e perguntavam quando terminaria a opressão. Isto há quatro mil anos. A opressão é talvez como o musgo, inevitável.

2

Se uma criança surge diante de um carro, puxam-na para uma calçada. Não o homem bom, a quem erguem monumentos, faz isso. Qualquer um retira a criança da frente do carro. Mas aqui muitos estão sob o carro, e muitos passam e nada fazem. Seria porque são tantos os que sofrem? Não se deve mais ajudá-los, por serem tantos? Ajudam-nos menos. Também os bons passam, e continuam sendo tão bons como eram antes de passarem.

3

Quanto mais numerosos os que sofrem, mais naturais parecem seus sofrimentos, portanto. Quem deseja impedir que se molhem os peixes do mar? E os sofredores mesmos partilham dessa dureza contra si e deixam que lhes falte bondade entre si. É terrível que o homem se resigne tão facilmente com o existente, não só com as dores alheias, mas também com as suas próprias. Todos os que meditaram sobre o mau estado das coisas recusam-se a apelar à compaixão de uns por outros. Mas a compaixão dos oprimidos pelos oprimidos é indispensável. Ela é a esperança do mundo.

BERTOLD BRECHT (1898-1956).  Paris, 1937 - Photo by Josef Breitenbach

BERTOLD BRECHT (1898-1956).
Paris, 1937 – Photo by Josef Breitenbach

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+ Brecht na Casa de Vidro:

 

Uma leitura feminista da peça “Mãe Coragem e Seus Filhos”, de Bertolt Brecht (1898 – 1956) || por Eduardo Carli

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“…a pearl on the pathway of war she was,
And a pearl all genuine, too.
Though sometimes laughable she might be,
More oft was honor her due.”

A song by Runenberg, Lotta Svärd
(From “Songs of Ensign Stal”, 
New York, G.E. Stechert, 1925)

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INTRODUÇÃO

Tenho imensa admiração por Bertolt Brecht (1898 – 1956). Como dramaturgo, poeta e pensador político, Brecht é de um brilhantismo raro. Sua arte é de alto impacto e influenciou profundamente a posteridade, algo que sente-se claramente, por exemplo, no cinema de Lars Von Trier, ou em certas fases da carreira de Chico Buarque de Hollanda, em especial “A Ópera do Malandro”, uma adaptação da “Ópera dos Três Vinténs” de Brecht e Weill.

Compartilho aqui um artigo que escrevi na tentativa de interpretar uma de suas célebres peças, “Mãe Coragem e Seus Filhos”, sob um viés feminista. Tento compreender o militarismo e o belicismo como uma patologia do patriarcado. Estabeleço conexões com filmes – como “Nascido Para Matar” de Stanley Kubrick, e “A Corrida do Ouro” de Chaplin – e canções, como “Only a Pawn In Their Game”, de Bob Dylan.

Também procuro apontar similaridades entre a dramaturgia brechtiana e a tragédia grega, em especial “Ifigênia em Áulis” de Eurípides e “Oréstia” de Ésquilo. É um texto bastante extenso, mas senti que não poderia fazer justiça a uma obra tão complexa sem entrar em explorações minuciosas da trama. “Mãe Coragem” é uma experiência teatral inesquecível – mesmo para aqueles que, como eu, nunca puderam presenciá-la encenada e só tiveram contato com o texto. Confiram!

À direita: a atriz Meryl Streep interpreta Mãe Coragem. Saiba mais sobre esta produção assistindo ao filme (altamente recomendado!) “Theather of War” (download)

I. AS MÃES E AS GUERRAS

Ela está decidida a não atirar suas pérolas aos porcos. Ou melhor: esta mãe bate o pé e diz não ao Poder. Não vai permitir, sem resistência e sem luta, que seus filhos lhe sejam sequestrados, tragados para a guerra, roubados do ninho, para virar carne moída!

Infelizmente, as guerras às vezes são mais fortes que as vontades das mães.

Para citar um exemplo da atualidade: aprenderam sua impotência, através de amargas experiências, as mães de 400 mães de Gaza que, durante a ofensiva israelense de 2014, tiveram os frutos de seus ventres trucidados pelas bombas sionistas. Que a Mãe Coragem de Brecht possa ajudar-nos a aquecer a chama da empatia, com tanta frequência adormecida no peito, e nos leve a perceber cada vida ceifada pela guerra como o aniquilamento de uma individualidade única, insubstituível, cuja extinção causa desastres afetivos e existenciais em todos aqueles que constituíam com a pessoa morte uma teia de relações.

Às vezes mães são impotentes para impedir a carniceria que lhes transforma os filhos em cannon fodder (carne de canhão). Mãe Coragem é uma pacifista por uma razão bem simples, bem menos refletida e teoricamente refinada do que as doutrinas de um Mahatma Gandhi ou de um Martin Luther King: seu pacifismo de mãe nasce mais das vísceras do que do intelecto. Ela odeia a guerra pois não quer ver seus filhos sendo assassinados nela. Mas o que ela pode fazer contra a mega-maquinaria bélica?

Os tempos são terríveis: ela olha ao seu redor e quase todo mundo está só “pele e ossos”. A fome é imensa, disseminada e sem misericórdia. Para dar uma noção dessa miséria, digamos que se assemelha àquela de Carlitos quando ele decide assar e comer sua própria bota, em uma das cenas imortais de Charlie Chaplin em A Corrida do Ouro (The Gold Rush). No primeiro ato, cena 2, Mãe Coragem declara sobre as pessoas ao seu redor: “Elas estão tão esfomeados que arrancam raízes da terra para comer. Eu poderia ferver um cinto-de-couro e faria com que suas bocas salivassem.” (pg. 35)

Carlitos janta as próprias botas em "A Corrida do Ouro" (The Gold Rush), clássico do cinema mudo.

Carlitos janta as próprias botas em “A Corrida do Ouro” (The Gold Rush), clássico do cinema mudo.

Esta feminista espontânea não precisou ler Judith Butler ou Beatriz Preciado, nem ouvir Pussy Riot ou riot girrrls, para perceber os males que faz a elefantíase de testosterona nos neurônios e nas sociedades. Até tenta rebelar-se contra o Patriarcado e sua mania de belicismo. Mas seu poder é pouco, como foi pouco o poder somado de todas as mães de Guernica, de todas as mães de Nagasaki, de todas as mães de Gaza (e assim por diante…).

Mãe Coragem não é uma pacifista de academia, de cátedra, de discursinhos na ONU. Ela é uma pacifista de sangue quente, sem rede de proteção, que atravessa um fio estendido sobre o abismo, um pouco como o tight-rope dancer de Assim Falou Zaratustra, aquele que fez do perigo sua vocação. Mãe Coragem talvez preferisse uma vida tranquila, sem preocupações, mas calhou de nascer em tempos perigosos, sombrios, fratricidas. Não pediu nem escolheu, mas a guerra a rodeia com sua fúria e sua insanidade, obrigando-a a lidar com as potências mortíferas com um rebolado improvisado, na urgência da prática cotidiana. A Guerra, como Cronos na mitologia grega, devora um a um os rebentos de Mãe Coragem.

Albert Camus chamou um de seus melhores livros  L’Homme Revolté (O Homem Revoltado), e uma das poucas falhas de livro tão magistral é sugerir em seu título que a revolta é coisa exclusivamente masculina. Mas é claro que há uma revolta feminina – Emma Goldman, Simone Weil ou Arundhati Roy exemplificam-na bem – que é digníssima de nossa atenção e admiração! Mãe Coragem, parece-me, tem também algo do espírito destas rebeldes-de-saia, mas é de uma rebeldia que parece irradiar de seu útero: em intensa angústia materna, ela suspeita que a guerra irá privá-la de seus filhos, provavelmente arrebatá-los pra sempre. Ela se levanta em resistência ao draft militar, logo na primeira cena, interpondo-se entre o Exército e seus filhos como se defendesse a prole, no ninho, contra um abutre predador.

O mais desesperador desta cena é que o leitor ou espectador percebe que Mãe Coragem é apenas uma frágil tocha de feminilidade em um oceano de macheza. É uma voz solitária clamando pela paz em meio ao barulho ensurdecedor dos tambores de guerra, das explosões de bombas e do ribombar das balas cuspidas pelos rifles.

Os próprios filhos acabam “fisgados” pela ideologia do militarismo e começam a convencer-se de que a guerra não irá matá-los. Passam a crer que vão dar um jeito de escapar dos ataques dos adversários e que vão acabar sendo aureolados com renome glorioso. A epidemia da peste bélica se esparrama pois muitos se deixam fisgar pela isca que é a promessa de Glória nos feitos militares. Fazem poses de heróis por antecipação enquanto caminham para as batalhas urrando: “é preciso bem mais do que uma guerra para me assustar!”

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Em Nascido Para Matar (Full Metal Jacket), Stanley Kubrick escancarou o quanto o militarismo está conectado com um comportamento machistóide. Os soldados do exército dos EUA, que estão sendo preparados para suas missões no Vietnã, marcham sob o comando feroz da disciplina do comandante, berrando obscenidades com voz grossa. Cotidianamente, são humilhados e judiados, inclusive com socos no saco e outras delicadezas, para que fiquem muito machos. Preparar alguém para a guerra significa aniquilar quaisquer tendências às compaixões feminis, todos ímpetos “maricas” à empatia ou à misericórdia…

O resultado desse processo de condicionamento e lavagem cerebral, que Kubrick narra magistralmente na primeira parte do filme, é simbolizado pelo soldado suicida, que explode seus miolos no banheiro. Este sistema perverso – vale sempre lembrar que o orçamento militar dos EUA é, disparado, o mais alto do mundo – gera genocídios e massacres, seja no Vietnã (outrora) ou no Oriente Médio (hoje), e a morte precoce de muitos jovens cooptados para o belicismo. Mãe Coragem, de Brecht, permanece um estandarte ainda atual que nos lembra que o ímpeto guerreiro, civilização agonística, não cessa de gerar mães, emocionalmente destroçadas, que chorarão torrentes ao receberem do governo os caixões de seus filhos, envolvidos pela bandeira da pátria, junto com uma carta de condolências assinada pelo Ministro da Guerra.

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Em muitos campos de batalha, através da história, já largaram seus defuntos, para serem comidos por aves-de-rapina, inumeráveis desses “heróis” tão “corajosos” que se cadastram e se alistam e marcham obedientes para a guerra. Às vezes quem se acha corajoso está, de olhos vendados, correndo para um túmulo precoce, desperdiçando a vida em uma contenda desnecessária, que não precisaria ser resolvida na violência. É uma das características mais bizarras da criatura humana: muitas vezes, as pessoas escolhem uma morte precoce mas que acreditam ornada de valor e significado, a uma vida prolongada mas sem nenhum heroísmo. É o que daria para chamar de O Complexo de Aquiles (o que explorei em no seguinte artigo: Do Corpo Efêmero à Glória Imorredoura – Reflexões Sobre a Bela Morte na Companhia de Jean-Pierre Vernant).

Em sua leitura sobre o filme de Stanley Kubrick, em The Pervert’s Guide to Ideology (documentário de Sophie Fiennes), Slavoj Zizek destaca bem o quanto de sadismo está presente nestes rituais militares onde se leva até o delírio a idéia de que a masculinidade é um valor inestimável, e que é possível prová-la nos campos de batalha, através de atos de bravura e temeridade, aos quais se prometem a recompensa de troféus, reputações gloriosas, quiçá até gordos cheque-de-pagamento ou permissões para a pilhagem.

Por isso julgo que aquilo que une a Guerra de Tróia e a Guerra do Vietnã, apesar de suas diferenças e do abismo de tempo que as separa, é uma mentalidade que subjaz e justifica a guerra, propagandeada e vendida como caminho para a glória. Idéia de macho – e, se me perguntarem, direi também: idéia de jerico. Idéia retardada e bárbara. Idéia de quem pensa com os testículos. Idéia das mais destrutivas que a humanidade já teve a infelicidade de parir e disseminar.

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Meryl Streep as the title character in The Public Theater 2006 production of "Mother Courage and Her Children", as featured in John Walter's documentary THEATER OF WAR.  Photo credit: The Public Theater / Michael Daniel.

Meryl Streep como personagem principal de “Mãe Coragem e Seus Filhos”, em  espetáculo de 2006, filmado em documentário por John Walter no filme “THEATER OF WAR”. Photo credit: The Public Theater / Michael Daniel.

A mãe, na peça de Brecht, percebe a insanidade do Patriarcado Briguento, que a rodeia com a força de um monstro, faminto por filhos. Infelizmente, ela é só uma mulher, que precisa sobreviver em tempos de crise, vender suas mercadorias para que não passe fome. Ela não tem os meios para revolucionar uma instituição social, muito menos uma civilização.

O filho mais velho de Mãe Coragem, Eilif, é-lhe roubado no meio da rua pelos senhores da guerra. Mãe e filho só vão se encontrar novamente dois anos depois. Dois anos em que Eilif não cessa de ouvir o comandante do exército berrar em sua orelha: “ó feliz guerreiro, você está participando de algo heróico, está servindo ao Senhor em uma Guerra Sagrada, e vai ganhar um bracelete de ouro quando nós tomarmos a cidade do inimigo!” (Cena II, p. 35) Promessas vãs, não mais que promessas mentirosas: a realidade é a fome, uma fome tamanha que os bifes que restam para alimentar a população em guerra estão fedendo de putrefação, como se a vaca tivesse morrido há um ano. O cozinheiro do exército mentir: “Que nada! Este bife aqui só tem um dia de idade, ontem mesmo era uma vaca que vi andando por aí.” Ao que Mãe Coragem, que não é desprovida de pontiagudo sarcasmo, responde: “Então essa vaca deve ter começado a feder antes mesmo de morrer.”

A guerra faz com que a atmosfera fique saturada com o fedor da putrefação. Eis um “argumento” fortíssimo que Mãe Coragem tem para seu pacifismo: além de irradiar do útero, de nascer de sua angústia materna, de seu amor umbilical aos filhos, seu pacifismo visceral é também uma reação das narinas, uma recusa em permitir que o cheiro da morte seja mais forte que o aroma das flores.

Mãe coragem “rebola”, dribla, insubordina-se, tenta escapar do jogo que lhe é imposto pelo poder, um pouco como uma personagem de Kafka, tentando se debater pra se libertar de uma opressão social sentida como tenebrosa. Em Brecht, porém, há muito mais humor do que em Kafka. Uma profusão de situações cômicas, que explodem com sua graça dionisíaca no ambinte dark desta peça-bélica, iluminam o construto Brechtiano com uma poesia cálida. É como se fosse possível ouvir o canto de um poeta lírico, entoando um hino em louvor ao Feminino, em Mãe Coragem encarnado, ainda que Brecht saiba também pintá-la em sua humanidade cheia de defeitos e em suas motivações bastante “mundanas”. Mãe Coragem não é heróica: faz o que pode para sobreviver, dá um jeito de prosseguir e atravessar os lutos, mas está longe de ser revolucionária; é vítima de poderes maiores, crushing powers. Mãe Coragem e seus filhos acabam parecendo como aqueles peões de que fala Bob Dylan em “Only a Pawn In Their Game”.

Mãe Coragem, a peça de Brecht, é um retrato da guerra como esta é vivenciada por uma mãe que tem seus filhos dela “arrancados” por uma pavorosa maquinaria, de criação e gestão masculina, que aniquila vidas humanas em contendas sangrentas, mortíferas, insanas. Ela, porém, não pode se dar ao luxo de virar uma pacifista com carteirinha de ONG, com direito à guarda-costas e carro-blindado: Mãe Coragem é pobre, desprovida, vulnerável, presa à urgência de sobreviver.

Em meio à guerra, ela tenta ser uma comerciante, com leros mercantis de convencimento:  seduz como pode para que os outros comprem seus pães, que se interessem pela carne que carrega em sua carroça. Atravessa os anos em meio à devastação da guerra, sempre carregando tudo o que possuí no mundo: a carroça que serve como loja itinerante e casa ambulante ao mesmo tempo. Como uma tartaruga, que carrega sua casa no próprio lombo, podendo adentrar em seu casco para puxar um ronco em qualquer lugar que aprecie, Mãe Coragem é tão despossuída quanto estes carregadores de papelão tão comuns em nossos centro urbanos. .

Como comerciante, Mãe Coragem é muito desconfiada: ela morde as moedas que recebe, pra checar com os dentes se são legítimas; já lhe passaram a perna algumas vezes no passado, e ela foi ficando esperta. Está bem claro que ela está acostumada a muita pilantragem rolando no comércio, mas o que pode fazer? Seu meio de vida é este e ela prossegue nele, mesmo em meio à guerra, mesmo durante o terrível processo de sentir os filhos escorregando por entre seus dedos, como grãos de areia, sugados pelo monstro feroz da belicosidade máscula.

Sua carroça, é evidente, anda lerda como tartaruga. Estamos ainda no século 17, em 1624, na Suécia. Imagino um mood similar ao das peças nórdicas de Shakespeare – o Hamlet, por exemplo – envolvendo as ocorrências que Brecht nos narra. Ademais, uma personagem como Mãe Coragem parece-me ter uma estatura trágica, assemelhando-se a uma figura como Clitemnestra, a mãe de Ifigênia. Este paralelo me parece possível pois Ifigênia, a filha de Clitemnestra, foi sacrificada pelo próprio pai Agamênon, o chefão do exército dos aqueus, lunático a ponto de crer que o sacrifício da primogênita geraria bons ventos para a campanha militar contra Tróia.

Euripides

Na peça de Eurípides, Clitemnestra é um pouco como a Mãe Coragem de Brecht: ambas são incapazes de impedir que a Máquina de Guerra – Masculina e Prepotente – arranque de seus braços os filhos, para na sequência devorá-los. No caso da mãe de Ifigênia, o delírio de dor e luto irá transformar-se em intento vingativo: em outra peça, o Agamenon de Ésquilo (publicado no Brasil pela Zahar como parte da trilogia Oréstia), Clitemnestra dá o contra-golpe contra seu tão odiado esposo, assassino da própria filha. Ao retornar cheio de poses de glória, celebrando-se como heróico vencedor após a década de carniceria em Tróia (narrada em minúcias por Homero na Ilíada), Agamênon encontra seu karma: é retalhado como um bode expiatório e morre horrendamente nas mãos de Clitemnestra e Egisto.

A peça de Brecht também lida com crimes graves, mas sem que estes sejam inter-familiares. Mãe Coragem passa por traumas-de-mãe semelhantes aos de Clitemnestra, e ambas tem um inimigo em comum, o militarismo associado ao patriarcado, esta a ideologia que faz propaganda em prol da guerra, este jogo fatal inventado pelos homens em seus ímpetos incontroláveis de agressão e domínio… Mãe Coragem implora aos próprios filhos: não caiam nesta armadilha, não se deixem enganar pelo lero-lero dos Senhores da Guerra, usem a cabeça e recusem-se a ir ao morticínio! No entanto, ela sabe do poder, devastador, invasivo, da “ideologia”: os soldados, os generais, não param de tentar convencer as crianças e os adolescentes que a glória está lá para ser colhida na guerra, e que quem se recusa a ela é um maricas, um efeminado que merece uma sova, alguém que tem o defeito de “não ser macho o suficiente”.

A jornada de Mãe Coragem em tempos de guerra multiplica-lhe as amarguras: ela não tem só seus rebentos roubados pela guerra, ela vê em ação um “mecanismo ideológico” que transforma seus filhos em assassinos. Não sofre só a amargura terrível do temor constante que um filho morra na guerra, mas a amargura suplementar de saber que o filho pode matar outros. As mães não costumam gostar quando seus rebentos tem como profissão matar filhos de outras mães. Algo de crucial se diz na peça de Brecht não somente sobre esta guerra e esta mãe em particular, mas sobre guerras e mães em geral. Aquilo que se elogia como virtude – coragem e virilidade – e aquilo que se promete como recompensa – glória e riqueza – talvez sejam embustes, falsificações grotescas, que os soldados só desvendarão como miragens quando estiverem agonizando nos campos de batalha.

Mãe Coragem adoraria se seus filhos fossem covardes vivos ao invés de corajosos mortos. Ela acha que aquilo que os militares consideram como covardia e coisa de maricas é na verdade bom senso e sabedoria prática. Mãe Coragem parece encarnar a voz da cautela, da defesa da vida, que tenta convencer aqueles a seu redor de que somos preciosos demais para nos tratarmos como açougueiros fazem nos matadouros de porcos. Só os másculos militares e seus cérebro-de-titica, que pensam com os testículos e estão inebriados por excesso de testosterona (em Grego, se não me engano, isso chama-se húbris), acreditam na conjunção entre matanças sádicas e gloriosas recompensas. A Mãe Coragem, não: em sua dor de mãe amputada, ela mantêm-se como ilha luminosa de lucidez em um oceano de cega brutalidade.

No tempo presente da peça, aliás, a Mãe Coragem cria sozinha seus filhos pois o Pai Coragem morreu na guerra há um tempão atrás. Agora os Filhos Coragem também seguem pelo mesmo caminho, sugados pelo mesmo fatal magnetismo, como se fosse um buraco negro. As gerações sucedem-se mas a sabedoria parece que não aumenta; a carnificina prossegue realizando suas ceifas fatais. A mãe tentou educá-los para o pacifismo e para a prudência, é claro, inclusive utilizando a pedagogia das canções, mas infelizmente as canções às vezes não são tão fortes quanto o barulho das bombas (mesmo John Lennon não foi ouvido quando imaginou all the people living life in peace, quando pediu “Give Peace a Chance”, e findou seus dias assassinado por um psicopata…). Eilif, o filho mais velho da Mãe Coragem, sabe de cor a cantiga ensinada pela mãe, mas ainda assim age muito mais como este soldado que, na canção, não presta atenção à sábia voz feminina e prefere caminhar correndo para o próprio túmulo:

THE SONG OF THE WISE WOMAN AND THE SOLDIER

“A shotgun will shoot and a jack-knife will knife,
If you wade in the water, it will drown you,
Keep away from the ice, if you want my advice”,
Said the wise woman to the soldier.

But that young soldier, he loaded his gun,
And he reached for his knife, and he started to run:
For marching never could hurt him!
From the north to the south, he will march through the land
With his knife at his side and his gun in his hand:
That’s what the soldier told the wise woman.

Woe to him who defies the advice of the wise!
If you wade in the water, it will drown you!…
But that young soldier, his knife at his side
And his gun in his hand, he steps into the tide:
For water never could hurt him!

The wise woman spoke: you will vanish like smoke
Leaving nothing but cold air behind you!
And the lad who defied the wise woman’s advice,
When the new moon shone, floated down with the ice:
He waded in the water and it drowned him.

The wise woman spoke, and they vanished like smoke,
And their glorious deeds did not warm us.
Your glorious deeds do not warm us!”

BERTOLT BRECHT.  Mother Courage and Her Children.
English version by Eric Bentley. New York: Grove Press, 1966.

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Lars Von Trier: Gênio ou Fraude? (por Linda Badley)

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“Lars Von Trier – genius or fraud?” – asks a May 2009 Guardian Arts Diary poll. Its subject is arguably world cinema’s most confrontational and polarizing figure, and the results: 60.3% genius, 39,7% fraud.

Trier takes risks no other filmmaker would conceive of (…) and willfully devastates audiences. Scandinavia’s foremost auteur since Ingmar Bergman, the Danish director is “the unabashed prince of the European avant-garde” (IndieWIRE). Challenging conventional limitations and imposing his own rules (changing them with each film), he restlessly reinvents the language of cinema.

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Personally he is as challenging as his films. After having written some of the most compelling heroines in recent cinema and elicited stunning, career-topping performances from Emily Watson, Björk, Nicole Kidman, and Charlotte Gainsbourg (photo), he is reputed to be a misogynist who bullies actresses and abuses his female characters in cinematic reinstatements of depleted sexist clichés.

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Actress and singer Charlotte Gainsbourg, who acted in Lars Von Trier’s films “Antichrist” and “Nymphomaniac”

He is notorious at Cannes for his provocations and insults, as in 1991, when he thanked “the midget” (Jury President Roman Polanski) for awarding his film Europa third, rather than first, prize. Some years later, at Cannes, in a scene worthy of Michael Moore, he called U.S. President George W. Bush an “idiot” and an “asshole”, lending vituperation to the already divisive Manderlay (2005), his film about an Alabama plantation practising slavery into the 1930s…

Coming from a small country infiltrated by America’s media-driven cultural imperialism, he has found it not merely his right or duty to make films about the United States but impossible to do otherwise. Despite that, Von Trier is known for his celebrated refusal or inability (he has a fear of flying) to set foot in the United States…

A similar effrontery had provided the catalyst for Dogme 95, the Danish collective and global movement that took on Hollywood in the 1990s and continues to be well served by the punk impertinence of the Dogme logo: a large, staring eye that flickers from the rear end of a bulldog (or is it a pig?).

Dogme shows where the provocateur and auteur come together. Claiming a new democracy in which (in the manifesto’s words) “anybody can make films”, Trier and the Dogme “brothers” market out a space for independent filmmaking beyond the global mass entertainment industry. Although he rarely leaves Denmark, he has cultivated a European and uniquely global cinema. Making his first films in English, he quickly found a niche in the international festival circuit. He drew inspiration from a wide swath – from the genius of Andrei Tarkovsky to movements such as Italian neorealism and the international New Waves of the 1960s-1970s, to American auteurs Stanley Kubrick and David Lynch…

1867LARS CAIXA 3DTrier’s long-term affinity with German culture – from expressionism and New German cinema to the writings of Karl Marx, Franz Kafka, and Friedrich Nietzsche – extends to equal passions for Wagnerian opera and anti-Wagnerian (Brechtian) theater… In spite of his flaunted internationalism, Trier has become the standard-bearer for Nordic cinema. Like Bergman and Carl Th. Dreyer, whose visions transcended nationality, he has exploited Scandinavian “imaginary” – bleak landscapes, Lutheran austerity and self-denial, the explosive release of repressed emotions – to project it elsewhere. He has similarly appropriated the Northern European Kammerspiel (chamber play) that Henrik Ibsen and August Strindberg had condensed into a charged medium. 

Reincarnating Dreyer’s martyrs (The Passion of Joan of Arc, 1928; Ordet, 1955) and the anguished female performances of Bergman’s films for the present era, he has invented a form of psycho-drama that traumatizes audiences while challenging them to respond to cinema in new ways.

His interest in theater goes back to his youth, and his films are theatrical in several senses: stylized, emotionally intense, and provocative. His features have invoked 20th century theatrical initiatives clustered under the heading of the performative: especially Antonin Artaud’s Theatre of Cruelty, Allen Kaprow’s “happenings”, and Guy Debord’s situationism, which reformulated Marxist-Brechtian aesthetics for the age of the “spectacle” in which power, concentrated in the media image, turns individuals into passive consumers.  In 1952, Debord called for an art that would “create situations rather than reproduce already existing ones” and through the performance of “lived experience” disrupt an expose the spectacle. In 1996, Trier similarly explained his view of cinema-as-provocation: “A provocation’s purpose is to get people to think. If you subject people to a provocation, you allow them the possibility of their own interpretation” (Tranceformer). (…) The films bear witness, make proclamations, issue commands, pose questions, provoke responses… Thus his films have had an impact on their surrounding contexts, affecting audiences, producing controversies, and changing the aesthetic, cultural, and political climate of the late 1990s an the 2000s.” 


By Linda Badley.

“Making The Waves: Cinema As Performance”.

University of Illinois Press. 2010.

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DOWNLOAD  “Nymphomaniac I & II” (3.6 GB / 3.1 GB) [torrent inside the ZIP]

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Thomas Vinterberg is the co-creator, together with Lars Von Trier, of Dogme 95. Linda Badley remembers that Dogme 95  “required abstinence from Hollywood-style high tech cosmetics, calling for an oppositional movement with its own doctrine and ten-rule “Vow of Chastity”. Coming up with the infamous rules was “easy”, claims Vinterberg: “We asked ourselves what we most hated about film today, and then we drew up a list banning it all. The idea was to put a mirror in front of the movie industry and say we can do it another way as well.”

Post reblogado do Awestruck Wanderer

Teatro em Toronto: “Rifles”, de Bertolt Brecht, no Festival Next Stage, Janeiro de 2014

Rifles

Synopsis: “In the midst of the Spanish Civil War, Senora Carrar refuses to pick sides: her husband died in combat and she’s determined to keep her two sons alive and out of the conflict. But as Franco’s army marches towards their village, her resolve is challenged.”

RIFLES
Based on Bertolt Brecht’s
Señora Carrar’s Rifles

Written by Nicolas Billon and directed by Michael Wheeler.
Cast: Kate Hennig, Ben Sanders, Cyrus Lane, Araya Mengesha and more.

Seen at The Next Stage Theatre Festival,January 18th,
at The Factory Theatre in Toronto.

Article by Eduardo Carli de Moraes:

Bertolt Brecht‘s work is almost unanimously considered one of the best in 20th century’s dramaturgy. In 1952, Hannah Arendt hailed Brecht as “beyond a doubt the greatest living German poet and possibly the greatest living European playwright”. She was not alone in praising him: an intelectual of the stature of Walter Benjamin also cherished Brecht’s oeuvre and these “independly-minded Marxists” met in the 1920s, becoming involved in a dialogue and correspondence that is really worthwhile to get acquainted it. Toronto’s 2014 Next Stage Theatre Festival has honoured Brecht accordingly with an intense and lively staging of his 1937 play “Señora Carrar’s Rifles”.

Orwell2Rifles is an one-act play with a minimalist setting: the whole action takes place inside a Spanish household during the Spanish Civil War (1936-1939). Inside this house, wounded by a bullet and with a broken arm, lies in bed a British writer, Eric Blair, worldwidely known by his nom de plume George Orwell (1903-1950), who would publish Homage to Catalonia about his experience in war-drenched Spain. In Brecht’s play, while Orwell waits to be taken to a hospital, he spits words of rage: “I would fight the fascists with only one arm!”

In Carrar’s home, while the sound of bullets and battle are heard all around, a heated controversy arises. In an historical situation such as this, with Fascism gaining terrain in Europe (Hitler was in power since 1933 in Germany, and Mussolini since 1922 in Italy…), what would be the best decision for the common people: to take arms and join the militias that are resisting the fascists? Or to stay unarmed and neutral, just observing the events without actively engaging in them?

If Rifles was a movie, it could be shot in one single take, inside an apartment, similarly to Hitchcock’s Rope or Tommy Lee Jones’s The Sunset Limited. But, despite the fact that Brecht’s play focus his attention only at the Carrar’s home (this play could be called a “chamber piece”), it’s amazing how public matters flood in from all sides, attacking the Carrar’s house like a snowstorm, until it becomes impossible for the family to retreat into private life.

The drama is centered on the mother of the family, recently widowed by the civil war: her husband has been killed in combat by Franco’s soldiers, and now she’s determined to forbid their two sons of following the same path. Señora Carrar has had enough of emotional loss and is convinced that her family should completely withdraw from battle. Then enters the scene Señora’s Carrar brother, who has joined the anti-fascist militias: he comes to get the rifles that are hidden in a trunk of the Carrar’s household. Brother and sister then engage in a heated debate, until bloody events leads them to agree on the necessary course of action.

The ethical dilemma proposed by Brecht is one of the enduring virtues of this work-of-art, which still has so much to say to audiences nowadays. One of the greatest dialogues in the play opposes Señora’s Carrar brother and the priest of the village, Francisco. The warrior in the militias, defending the need for the people to rise in arms against General Franco’s killing machine, clashes against the pacifist of the clergy who praises resignation and unresistance. This debate is still alive today – for example, in Mexico, where the Zapatista uprising has resorted to armed struggle against neoliberalism, imperialism and ethnocide since January 1st, 1994: the EZLN (Ejército Zapatista de Liberación Nacional), according to its leader Subcomandante Marcos, has decided that the only way they had to be heard was to get armed, an defends this choice by claiming this the path to empowerment that the powerless had to take in order to no longer by crushed by capitalism’s devastating powers.

Brecht’s message, in Rifles, seems to be that pacifism can’t be seen as an absolute ethical value, to be defended in all circumstances, with no possible exception. This play written in the 1930s seems to state that there are historical circumstances in which it’s almost impossible to discern between pacifism and complicity with a genocidal dictartoship. Those who do nothing are being simply “neutral”, or is neutrality a fallacy, a mask that cowardice hides behind?

todorov  In an excellent study about concentration camps and gulags, Tzvetan Todotov’s Facing The Extreme, the author asks the question: could the genocidal machinery of the III Reich be stopped by any other way than by the an armed struggle against it? What would have happened to Europe, and especially to its Jewish population, if France, England and U.S.A. had chosen the path of pacifism? Todorov’s impressive description of the up-rising in the Jewish ghettos of Warsaw, in 1943, leads the reader to a similiar state of mind than the one aroused by Brecht’s play: is it better to walk sheepishly to the slaghterhouse, or is it better to fight until death in the resistance?

In Brecht’s Rifles, Señora Carrara starts the play believing that the fascists “can be reasoned with” and that pacifism (or neutrality) is the best course of action. But when innocent and beloved blood gets spilled all over her face, once again, she experiences a sudden transformation, not unlikely the one that Lars Von Trier’s Grace (Nicole Kidman) goes through by the last acts of Dogville (2003) – perhaps the most Brechtian movie filmed in our century. After witnessing too many murderous acts by Franco’s genocidal regime, she finally decides that the rifles shouldn’t be left rusting inside the trunks. In an Orwellian twist of events, she goes outdoors to fight the fascists with her whole family. What will happen from this moment on, Brecht prefers not to reveal us: we’re left to wonder and debate about it after the curtains have dropt. 

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