[Encontro de Culturas – Txt 11] Corpo a corpo com a ancestralidade: os segredos da musicalidade afrobrasileira segundo Nego Ativo, do Berimbrown

Corpo a corpo com a ancestralidade: os segredos da musicalidade afrobrasileira segundo Nego Ativo, do Berimbrown

Oficina de Musicalização, com o mestre Nego Ativo do Berimbrown, revela muitos segredos da musicalidade afrobrasileira e do potencial artístico de berimbaus e capoeiras

por Eduardo Carli de Moraes para o XVI Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros

O XVI Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros ofereceu aos interessados uma ótima oportunidade de vivência sobre a musicalidade afrobrasileira através da “Oficina de Musicalização na Capoeira”, que ocorreu na manhã de Domingo, 24 de Julho, no espaço Petrobras.  A vivência foi conduzida pelo mestre Nego Ativo, um dos fundadores e líderes do grupo mineiro Berimbrown, banda que já tem 20 anos de trajetória e realizou 2 shows durante o Encontrão deste ano.

O berimbau é um dos instrumentos musicais mais representativos da cultura afrobrasileira e um elemento essencial da capoeira. O ritmo e a vibe que animam as interações corporais acrobáticas dos capoeiristas estão umbilicalmente conectados à peculiar sonoridade do berimbau. Este instrumento musical, originário de Angola, foi trazido ao Brasil por aqueles que foram sequestrados no continente africano pelo imperialismo escravagista e que, mesmo a duras penas, sob o jugo tenebroso da escravidão, no Novo Mundo mantiveram viva a chama de sua cultura nativa.

O berimbau, por isso, soa como o som da resistência e da resiliência de uma cultura milenar que, longe de ter sido dizimada pelas atrocidades dos imperialistas europeus, sobreviveu após atravessar aquilo que o historiador e antropólogo Paul Gilroy batizou, em seu clássico estudo, de Atlântico Negro.

Durante a oficina pudemos conhecer em minúcias alguns detalhes e curiosidades sobre o berimbau. Poucos sabem, por exemplo, que existem pelo menos 3 subtipos de berimbau: o gunga ou berra-boi, de tom mais grave; o berimbau médio; e o viola, de tom mais agudo. Cada berimbau é simultaneamente um instrumento percussivo e harmônico, o que foi exemplificado na prática durante a oficina através de 3 berimbaus, de diferentes tonalidades, que foram tocados juntos, criando um campo harmônico convidativo para que um coro de vozes desenhasse sua melodia sobre eles.

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Nego Ativo, mestre de capoeira e grande conhecedor de nossa MPB, realizou junto aos presentes uma série de dinâmicas de grupo destinadas a ensinar algumas noções básicas de ritmo, harmonia e melodia. Mas não foram lições de teor teórico, pois o intento era conseguir, junto aos presentes, uma criação coletiva e improvisada, numa espécie de jam session de afrobrasilidade. Dito e feito.

Ele explicou brevemente o funcionamento dos compassos musicais com um linguajar acessível e saboroso: para explicar o compasso quaternário, de quatro tempos, destacou a importância do primeiro tempo, “a cabeça do compasso”, “aquilo que nos sustenta”, e com auxílio das batidas geradas pelas palmas ou pelos pés no chão mostrou na prática como funcionam os mecanismos de acentuação rítmica (pedindo, por exemplo, palmas no segundo e no quarto tempo do compasso quaternário).

Teceu ainda comentários sobre tempo e contratempo, explanou sobre a sustentação de notas e sobre as notas mais breves (os chamados stacattos). Recomendou aos presentes que querem fazer boa música: “vocês não podem sair correndo, com tudo descompassado.” Segundo Nego Ativo, a ritmicidade genuína não tem nada a ver com a pressa ou correria que caracteriza boa parte das atitudes daqueles que vivem em grandes centros urbanos e submetidos às disciplinas do mercado de trabalho.

“A gente ser lento no mundo moderno é uma dificuldade”, refletiu. Complementou, de modo a um só tempo brincalhão e sério: “temos que dar uma banana para a velocidade!” Para desenvolver um ouvido musical, é preciso dedicar tempo a não somente ouvir música, mas realmente tentar compreendê-la, em todos os seus elementos. “Temos que limpar os ouvidos, mas não tô falando de cotonetes”, brincou.

  Mano Ativo forneceu uma série de dicas para desenvolver o que ele chamou de “consciência rítmica”, dentre eles um exercício simples mas eficaz: atentar para a própria batida deste tambor incansável que cada um de nós carrega no peito (uma excitante canção recente do indie-rock internacional resume a ópera: “The Heart Is A Beating Drum”). O coração, com suas sístoles e diástoles, é o percussionista do nosso organismo. E não há músico que dê conta de realizar algo de ritmo interessante sem estar em sintonia com o pulsar do próprio corpo. O segredo da boa música, sugere Nego Ativo, consiste numa reconexão com o corpo ancestral.

Ao final da vivência, ponderou: “Hoje, nesta manhã, conseguimos fazer esta conexão com o nosso corpo ancestral, com o nosso coração rítmico, pois nos permitimos este intercâmbio. Oficinas assim podem nos ajudar a ganhar uma sabedoria para que a gente aprenda a combater este sistema veloz que nos é imposto o tempo todo. É preciso termos um controle maior da nossa velocidade.”

Foi assim que Nego Ativo compartilhou um pouco de seus ricos saberes, incentivando os participantes a realizarem junto com ele, através de batuques e palmas, de cantos e danças, uma imersão no âmbito da musicalidade afro. Ele também abordou temas como a educação do ouvido musical, o desenvolvimento de uma consciência rítmica, além de temas conectados à alienação política e sua possível superação (que só se dará, segundo ele, se criarmos as condições para o florescimento de cidadãos pensantes e atentos, conectados à ancestralidade e autônomos, autodeterminados).

Nossa música popular brasileira foi profundamente marcada por amplas influências afro, sem as quais, por exemplo, não teria nascido o samba. Um instrumento de corda como o berimbau – que é constituído não só por uma vara com um fio de arame tensionado, mas também por uma cabaça dotada de caixa de ressonância, além de outros elementos – teve entre os músicos brasileiros alguns de seus maiores virtuoses (como Naná Vasconcelos), inspirou algumas de nossas mais inesquecíveis canções (como o afrosamba de Baden Powell e Vinicius de Moraes) e chegou até mesmo a ser representado nas artes plásticas por Jean-Baptiste Debret. Nego Ativo forneceu um ótimo painel disto no contexto da música brasileira, abrindo horizontes para que os presentes depois conhecessem de modo mais aprofundado alguns artistas que ele mencionou e recomendou (como Waldemar Liberdade).

 A oficina também contribuiu para incrementar nos conviventes a apreciação estética das performances da banda mineira Berimbrown, uma das grandes atrações musicais do XVI ECT. O grupo tem uma proposta estética e política de reconexão com as raízes ancestrais, em especial as africanas e suas descendências musicais americanas (via funk, soul, hip hop etc.). Este enraizamento se dá sem perder de vista o que há de mais contemporâneo, não há problema em mesclar os beats eletrônicos do DJ com a percussividade ancestral do berimbau – algo explícito no novo álbum deles, Lamparina. Além disso, o Berimbrown lida em suas letras com temas conectados às populações periféricas, quilombolas, subalternizadas, numa perpectiva que tem semelhanças com aquela que anima o projeto artístico de Manu Chao, Mundo Livre S.A ou Anita Tijoux.

 Algumas pessoas descrevem o som do Berimbrown como uma mistura de O Rappa com James Brown. Eles evocam no palco também outras figuras emblemáticas e inspiradoras, como Bob Marley, e revelam inspirações não somente artísticas,  mas intelectuais e cívicas, como Milton Santos. O Berimbrown convoca a galera para acender a lamparina e levantar-se por seus direitos (tocam uma versão peculiar de “Get Up Stand Up” do rasta-rei do ragga, por exemplo), transitando por estilos com desenvoltura, sempre na luta por por uma outra globalização, que inclua a diversidade ao invés de prosseguir na rota atual de um capitalismo perverso e excludente.

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Fotos: Bruna Brandão

ASSISTA AO CLIPE COM ALGUNS DOS MELHORES MOMENTOS DO SHOW DO BERIMBROWN:

100 DISCOS BACANAS DA MÚSICA BRASILEIRA NO SÉCULO 21 – Ouça todos na íntegra: Criolo, Pitty, Emicida, Planet Hemp, Nação Zumbi, Lenine, Tom Zé, Elza Soares, Boogarins etc.

Subam o volume, abram os tímpanos e façam recurso aos expansores de consciência prediletos! Eis aqui um banquete musical farto e diverso que serve como um passeio turístico pela produção musicográfica no Brasil de 2000 pra cá. Os mais de 100 álbuns completos aqui reunidos pretendem ofertar portais de entrada para alguns dos mais significativos e expressivos álbuns gravados desde que o atual século raiou e a lista inteira pode ser acessada também em nossa playlist no Youtube (shortlink: http://bit.ly/1Z9c2Ef). A imagem que ilustra o post (acima) é uma obra do estúdio de ilustração goiano Bicicleta Sem Freio.

Voilà alguns dos artistas que vale a pena acompanhar no cenário musical brazuca contemporâneo: Criolo; Emicida; Pitty; Planet Hemp; Elza Soares; Los Hermanos; Siba; Lenine; Juçara Marçal e Metá Metá; Céu; Curumin; Apanhador Só; Karina Buhr; Móveis Coloniais de Acaju; Vivendo do Ócio; Cidadão Instigado; Tom Zé;  etc.

OBS: Algumas ausências importantes deste listão devem-se simplesmente à indisponibilidade atual do álbum no Youtube: é o caso, por exemplo, de obras excelentes – que esperamos poder adicionar à lista em breve – como: ModeHuman do Far From AlaskaCorpura, do Aláfia; A Dança da Canção Incerta, da Pó de Ser; a estréia do Carne Docedo Hellbenders, do Overfuzz; além dos discos de Mariana Aydar, Ceumar, Luiz Tatit etc.

(P.S. – Vocês podem sugerir álbuns ausentes desta playlist pelos comentários ou via msg de Facebook! Compartilhe no FB e no Tumblr.)

criolo

CRIOLO – “Convoque Seu Buda”


CRIOLO – “Nó Na Orelha”


PAULO CÉSAR PINHEIRO, “Capoeira de Besouro”


SABOTAGE – “Rap É Compromisso”


EMICIDA – “O Glorioso Retorno…”


CÍCERO – “Canções de Apartamento”


NAÇÃO ZUMBI – “Fome de Tudo”


PLANET HEMP – “A Invasão do Sagaz Homem Fumaça”


B NEGÃO – “Sintoniza Lá”


ELZA SOARES – “A Mulher Do Fim Do Mundo”


CÉU – “Vagarosa”


RODRIGO AMARANTE – “Cavalo”


TULIPA RUIZ – “Efêmera”


JUÇARA MARÇAL – “Encarnado”


JUÇARA MARÇAL E KIKO DINUCCI – “Padê”


RACIONAIS MCS – “Nada Como Um Dia”


CÉU – “Catch a Fire” (Live)


LITTLE JOY


B NEGÃO – “Enxugando Gelo”


RUSSO PASSAPUSSO – “Paraíso da Miragem”


PITTY – “Anacrônico”


PITTY – “Sete Vidas”


PITTY, “Admirável Chip Novo”


NÔMADE ORQUESTRA


KAMAU – “Non Ducor Duco”


CURUMIN – “Japan Pop Show”


BOOGARINS – “Manual”


BOOGARINS – “Plantas Que Curam”


KARINA BUHR – “Eu Menti Pra Você”


B NEGÃO – “Transmutação”


O TERNO (2014)


MÓVEIS COLONIAIS DE ACAJU (2005)


AVA ROCHA – Ava Patrya Yndia Yracema (2015)


MACUMBIA – Carne Latina


TÁSSIA REIS


ACADEMIA DA BERLINDA (2007)


MACACO BONG – “Artista Igual Pedreiro”


ANELIS ASSUMPÇÃO E OS AMIGOS IMAGINÁRIOS


DINGO BELLS – “Maravilhas da Vida Moderna”


VIVENDO DO ÓCIO – “O Pensamento É Um Ímã”


BAIANA SYSTEM – “Duas Cidades”


CIDADÃO INSTIGADO – “Fortaleza”


CIDADÃO INSTIGADO E O MÉTODO TUFO DE EXPERIÊNCIAS


TOM ZÉ – “Vira Lata na Via Láctea”


ELO DA CORRENTE – “Cruz”


ÑANDE REKO ARANDU – Memória Viva Guarani  (2000)


ESTRILINSKI E OS PAULERA – “Leminskanções”


NOÇÃO DE NADA – “Sem Gelo” (2006)


MOMBOJÓ – “Nada de Novo” (2004)


FINO COLETIVO (2007)


PITTY – “Ciaroescuro”


MATEUS ALELUIA – “Cinco Sentidos” (2010)


LOS HERMANOS – “Ventura” (2003)


ABAYOMY AFROBEAT ORCHESTRA – “Abra Sua Cabeça”


SIBA – “Avante”


SIBA E A FULORESTA – “Toda vez que eu dou um passo o mundo sai do lugar” (2007)


MUNDO LIVRE S/A – O outro mundo de Manuela Rosário (2004)


NÁ OZZETTI E ZÉ MIGUEL WISNIK – Ná e Zé (2015)


CAETANO VELOSO – Cê (2006)


HURTMOLD – Mestro


INSTITUTO – Coleção Nacional


CORDEL DO FOGO ENCANTADO


RODRIGO CAMPOS – “Conversas com Toshiro”


DUDA BRACK – “É”


CURUMIN – “Achados e Perdidos” (2005)


LUISA E OS ALQUIMISTAS – “Cobra Coral”  (2016)


A TROÇA HARMÔNICA (2015)


MAHMED – Sobre a Vida em Comunidade


LETUCE – Estilhaça


FILARMÔNICA DE PASÁRGADA – “O Hábito da Força” (2013)


LENINE – “Chão” (2011)


LENINE – “Labiata” (2008)


MUÑOZ – “Nebula” (2014)


JARDS MACALÉ – “Amor, Ordem e Progresso”


OTTO – “Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos” (2009)


TOM ZÉ – “Jogos de Armar”


SARA NÃO TEM NOME – “Ômega III”


FORGOTTEN BOYS – “Stand by the DANCE”


GUSTAVITO – “Só o Amor Constrói”


BLUBELL – “Eu sou do Tempo…”


THALMA E GADELHA – “Mira”


NOÇÃO DE NADA – “Trajes e Comportamentos”


MUNDO LIVRE S/A vs NAÇÃO ZUMBI


ZULUMBI (2014)


IAN RAMIL – Derivacilização (2014)


CAMARONES ORQUESTRA GUITARRÍSTICA – Rytmus Alucynantis


CAMARONES ORQUESTRA GUITARRÍSTICA – Espionagem…


ABAYOMY (2012)


LOS HERMANOS – “Bloco do Eu Sozinho”


VOLVER – “Acima da Chuva”


ORQUESTRA IMPERIAL – “Carnaval Só Ano Que Vem”


SUPERCORDAS – “Terceira Terra” (2015)


CÉREBRO ELETRÔNICO – “Pareço Moderno”


PATA DE ELEFANTE – “Um Olho no Fósforo…”


GUIZADO – “Calavera”


SIBA E A FULORESTA – “Fuloresta do Samba”


LURDEZ DA LUZ – Ep


RED BOOTS – “Touch the Void”


SUBA – SP Confessions


DIEGO E O SINDICATO – “Parte de Nós”


DIEGO MASCATE


APANHADOR SÓ


APANHADOR SÓ – “Antes Que Tu Conte Outra”


BIXIGA 70 III (2015)


BIXIGA 70 (2013)


HELLBENDERS – “Peyote”


BERIMBROWN (2000)


RENATA ROSA, “Zunido da Mata” (2012)


RENATA ROSA, “Encantações” (2015)


SERENA ASSUMPÇÃO, “Ascensão” (2016)


METÁ METÁ – “MM3” (2016)


METÁ METÁ (2011)


JULIANO GAUCHE – “Nas Estâncias de Dzyan” (2016)


JULIANO GAUCHE (2013)


THE BAGGIOS – Brutown (2016)


Abayomy Afrobeat Orquestra

Abayomy Afrobeat Orquestra