A 9ª SINFONIA DE BEETHOVEN (1770 – 1827) – Da Inefável Graça da Música (Por Eduardo Carli de Moraes para A Casa de Vidro)

Tanto já se falou e escreveu sobre a Nona Sinfonia de Beethoven a ponto de parecer tarefa condenada à irrelevância ou à redundância tentar traçar algumas novas linhas sobre essa realização colossal. O que dizer sobre o indizível?!? Eis uma peça musical já tratada em toneladas de textos e palestras, alvos de inumeráveis apreciações bem mais eruditas e bem-informadas do que eu jamais saberia escrever. Mas algo me compele ao esforço de expressar, ainda sob o impacto recente sobre meus sentidos deste tornado, desta estarrecedora obra de um genial orquestrador-dos-ventos. Algo me empurra a repetir o que todos estão carecas de saber: que esta é uma das obras-primas da história da música e uma das manifestações supremas do Gênio Humano através de nossa História. O tipo de magnum opus que nos deixa tagarelando este tipo de hipérboles dos altos cumes de nossa paixão incendiada.

Nona é tão carregada de belezas que a língua não sabe articular que pode servir de paradigma para explicar o que quer dizer aquela palavrinha escondida no fundo dos dicionários: inefável. Os encantos mil da obra-prima de Beethoven estão entre aquelas catedrais-de-sons dotadas de tamanha Graça e Beleza que não podem ser expressas verbalmente a contento. A palavra, ferramenta humana necessária mas limitada, parece pálida e fraca diante da chama incendiária da Música, linguagem universal capaz de afetar a sensibilidade humana em quaisquer latitudes do planeta.

Recentemente pude estar de tímpanos bem abertos para duas performances magistrais de Beethoven em Goiânia: primeiro, a Quinta Sinfonia, com a Filarmônica, no concerto de abertura para o show com Lenine no Centro Cultural Oscar Niemeyer; depois, a Nona apresentada pela Orquestra Sinfônica Jovem de Goiás, no Teatro Escola Basileu França, em 11 de Outubro. Nas duas ocasiões, os teatros estavam lotados e, nem é preciso dizer, a aclamação ao fim foi estrondosa, com um escarcéu de palmas, gritos, urros e “bravos!” instaurando uma linda anarquia da alegria e da gratidão.

Fico pensando no velho Ludwig Van, já no fim de sua estadia entre os vivos, com a surdez avançando impiedosamente sobre sua audição, compondo algo que ele mesmo nunca iria ouvir de fato. Nas primeiras performances da Nona, ele deve ter recebido em seu corpo a onda de aclamação de modo bem diferente de nós hoje em dia: Beethoven, surdo, incapaz de ouvir em toda a sua potência a aclamação das platéias diante de seu último rebento sinfônico, ainda assim deve ter sentido em seu corpo, em sua consciência, em sua sensibilidade, as pessoas a produzirem sinais visíveis e sensíveis de que foram profundamente tocadas por aquela inefável criação do engenho humano.

É uma música capaz de instigar uma certa filantropia, um certo apreço pela humanidade, quase que um orgulho por pertencer à raça humana, servindo de antídoto contra as marés montantes de misantropia e pessimismo que temos todo o direito de sentir na era do Antropoceno e da Sexta Extinção em Massa na história da vida neste planeta (a primeira, como diz Elizabeth Kolbert, causada por uma espécie, o homo sapiens, que hoje transformou-se não só em força geológica, mas em cataclismo planetário…). Beethoven e sua Nona até permitem que a gente pense por alguns minutos que a estadia humana nesta esfera que roda em torno do Sol não foi totalmente em vão.

É uma daquelas coisas que nos faz eventualmente discordar daquele pessimismo tão sedutor que Shakespeare expressa em Macbeth e fala da vida como a tale told by an idiot, full of sound and fury, signifying nothing. Depois da Nona, sentimos que ao menos algumas doses de Sentido foram injetados no mundo e que, para além do som e da fúria, há uma beleza capaz de nos fazer acreditar que todo sofrimento, ainda que não seja redimido, gera frutos dignos de toda nossa celebração.

Poderíamos usar a Nona, no eventual contato com civilizações alienígenas, para provar a estas que somos seres orgânicos capazes de algumas grandes realizações. O problema com este pensamento sci-fi um tanto surreal é que muito provavelmente os ETs teriam ouvidos e tímpanos bem diferentes dos nossos e talvez, ao contato com Beethoven, Schubert, Wagner, Beatles etc. talvez sentissem penas cócegas em seu aparelho auditivo. Ou pior: sentiriam uma ofensa semelhante à que motosserras e britadeiras produzem na sensibilidade de um ser humano. A música é humana, demasiado humana! Tanto que a nossa cadelinha Crackinha, notável Schnauzer de ancestrais alemães, não consegue encontrar graça nenhuma na música de Beethoven tocando no talo…

A Ode à Alegria, musicada por Beethoven a partir de um poema de Schiller escrito em 1785, faz sua entrada triunfal no 4º movimento da Nona e é uma daquelas ocasiões onde a Voz humana alça-se a suas mais incríveis alturas. Ouvir dúzias de vozes entoando em coro esta poderosa melodia, de ritmicidade contagiosa, leva-nos aos cumes da admiração pelas potencialidades da humanidade. Não duvido nem um pouco da capacidade humana para a estupidez mais tacanha, para as ações mais cegas e auto-destrutivas, para os massacres e guerras mais brutais, mas algo como a Nona revela o outro lado desta moeda, descortinando todo o sublime e toda a inefável e inesgotável beleza que é capaz de surgir da colaboração e da criatividade conjunta dos humanos. Ainda que a gente não entenda bulhufas de alemão, o canto nos toca e nos comove nas profundezas da carne. As vozes em uníssono fazem-se como uma força coletiva que irrompe coração adentro para despertá-lo do torpor, para varrer dali as teias de aranha, para tentar irradiar por ali o sol cálido da alegria de viver.

Transformada em hino oficial da União Européia, a Ode À Alegria de Beethoven foi alçada a outro patamar como “símbolo civilizatório” do Velho Continente. Os europeus fazem desta obra uma espécie de certificado de sua excelência – e não faltam, é claro, aqueles que, vítimas do velho eurocentrismo, a utilizam como prova da superioridade européia sobre todos os outros continentes deste triste planeta.

Jamais superaremos o estarrecimento, porém, diante da Alemanha, este país de tantos gênios artísticos, a pátria de Goethes e Schillers, de Beethovens e Heines, que pôde cair tão fundo no abismo da barbárie genocida sob o comando do Partido Nazista. Um povo supostamente tão culto e civilizado pôde cair sob o encanto fatal de uma ideologia racista, totalitária, praticante de extermínios em massa, e isso com a cumplicidade e mesmo a aprovação de boa parte da população alemã. O mais assustador do conceito de Banalidade de Mal formulado por Hannah Arendt está em revelar que toda a engenhoca horrenda da Solução Final não poderia ter trucidado tantos milhões de vida sem o auxílio da gente simples, dos reles funcionários, dos obedientes cordeiros do Estado que trabalhavam para que os trens saíssem no horário e com as cargas devidas (ainda que seus destinos fossem campos de concentração e câmaras de gás).

É um dos elementos mais interessantes do uso de Beethoven por Stanley Kubrick em Laranja Mecânica (1971): no filme, baseado no brilhante romance de Anthony Burgess, A Clockwork Orange, nada impede que o protagonista Alex, entusiasta de Beethoven, seja o líder de uma gangue de malfeitores que pratica inúmeras atrocidades. Há uma cena onde Alex e sua trupe, tomando seu leitinho no Korova, testemunham uma cantora entoando o Hino à Alegria. Alex, o delinquente cínico, agride um de seus companheiros que ousa zombar daquela música; diante de Beethoven, ele exige solene reverência.

 

Slavoj Zizek tem interessantes reflexões a fazer sobre o uso ideológico da Nona de Beethoven pela União Européia. Zizek diz que a Ode à Alegria, à primeira vista, é lida como uma celebração da fraternidade humana, da união de todos os povos. De fato, Schiller e Beethoven tingiram esta obra com altas doses de Romantismo e Idealização, sendo que a obra culmina em versos que falam sobre um Criador que mora por cima das estrelas e a quem o hino é dedicado. Segundo Zizek, o que é estarrecedor na obra é o quanto ela pode ser cooptada por movimentos políticos diametralmente opostos:

“Na Alemanha nazista, foi amplamente utilizada para celebrar grandes eventos públicos. Já na União Soviética, Beethoven era adorado e a Ode à Alegria era tocada quase como uma canção comunista. Na China, durante a grande Revolução Cultural, quando quase toda a música ocidental estava proibida, a Nona Sinfonia foi aprovada e permitida pelo regime por ser uma peça de música burguesa progressista. (…) Já o Presidente Gonzalo, líder do Sendero Luminoso, uma guerrilha de extrema esquerda do Peru, quando foi perguntado por um jornalista qual era sua música predileta, respondeu que era a Nona Sinfonia e sua Ode à Alegria.”

Zizek tira daí a seguinte lição sobre a ideologia veiculada pela Nona: ela pode até, da boca pra fora, em seu sentido mais explícito, pregar a unidade da raça humana, a fraternidade universal, a Brotherhood of Man sobre a qual cantará Lennon em “Imagine”. Mas sempre devemos nos questionar se, para além da mensagem idealizada, se a música, em seus usos sociais, não põe em ação um mecanismo de exclusão de vastos contingentes da população humana sobre a face da terra, aqueles sem acesso a bens culturais como esses, muito menos à formação artística que capacitaria a compreendê-los. Celebrar Beethoven pode virar uma tática elitista de certos grupos celebrarem seu próprio “bom gosto”, o primor estético de suas escolhas artísticas, sentindo-se assim superiores às massas incultas que chafurdam no kitsch da cultura de massas. Celebrar Beethoven pode virar uma espécie de “certificado de detentor de capital cultural” – e é com arrogância que Alex, em Laranja Mecânica, circula pela loja de discos, na pose de um dândi inglês que se sente totalmente superior à riff-raff, à ralé.

Não é que Beethoven seja de fato um ideólogo servindo às classes dominantes, apesar de ser cooptado, às vezes, para fins alheios às suas intenções originais. Para Zizek, Beethoven, nesta obra, não é o ingênuo celebrador da humanidade como Grande Família Feliz, como sua apropriação kitsch quer fazer supor, mas sim o gênio que lança em distúrbio todas as ideologias ortodoxas, que cria uma obra que não é encaixável em nenhuma caixinha previamente formulada, que em sua inefabilidade acaba por propiciar um tipo de experiência capaz de causar o naufrágio das ideologias oficiais no oceano tempestuoso dos afetos que mobiliza. A Nona Sinfonia é o tipo de rebento criativo de um gênio não-domesticado, jamais servil a interesses de Estados ou Mercados, um compositor quase-surdo que realiza um espantoso palácio de som, mais estrondoso para os tímpanos que muitas tempestades, mais encantador para a sensibilidade que a mítica lira de Orfeu, e visceralmente arredio a qualquer jaula ideológica em que possamos querer encarcerá-lo.

Eduardo Carli de Moraes
A Casa de Vidro – 12/10/2017

 

ODE À ALEGRIA – Schiller (Trecho)

Oh amigos, mudemos de tom!
Entoemos algo mais agradável
E cheio de alegria!

Alegria, mais belo fulgor divino
Filha de Elíseo
Ébrios de fogo entramos
Em teu santuário celeste!
Tua magia volta a unir
O que o costume rigorosamente dividiu
Todos os homens se irmanam
Onde pairar teu voo suave

A quem a boa sorte tenha favorecido
De ser amigo de um amigo
Quem já conquistou uma doce companheira
Rejubile-se conosco!
Sim, mesmo se alguém conquistar apenas uma alma
Uma única em todo o mundo
Mas aquele que falhou nisso
Que fique chorando sozinho!

Alegria bebem todos os seres
No seio da Natureza
Todos os bons, todos os maus
Seguem seu rastro de rosas
Ela nos deu beijos e vinho e
Um amigo leal até a morte
Deu força para a vida aos mais humildes
E ao querubim que se ergue diante de Deus!

Alegres, como voam seus sóis
Através da esplêndida abóbada celeste
Sigam irmãos sua rota
Gozosos como o herói para a vitória

Alegria, mais belo fulgor divino
Filha de Elíseo
Ébrios de fogo entramos
Em teu santuário celeste!
Abracem-se milhões de seres!
Enviem este beijo para todo o mundo!
Irmãos! Sobre a abóbada estrelada
Deve morar o Pai Amado
Vos prosternais, Multidões?
Mundo, pressentes ao Criador?
Buscais além da abóbada estrelada!
Sobre as estrelas Ele deve morar.

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Rainer Maria Rilke – Primeira Elegia de Duíno

 

PRIMEIRA ELEGIA DE DUÍNO

Quem, se eu gritasse, entre as legiões dos Anjos
me ouviria? E mesmo que um deles me tomasse
inesperadamente em seu coração, aniquilar-me-ia
sua existência demasiado forte. Pois o que é o Belo
senão o grau do Terrível que ainda suportamos
e que admiramos porque, impassível, desdenha
destruir-nos? Todo Anjo é terrível.
E eu contenho, pois, e reprimo o apelo
do meu soluço obscuro. Ai, que nos poderia
valer? Nem Anjos, nem homens
e o intuitivo animal logo adverte
que para nós não há amparo
neste mundo definido. Resta-nos, quem sabe,
a árvore de alguma colina, que podemos rever
cada dia; resta-nos a rua de ontem
e o apego cotidiano de algum hábito
que se afeiçoou a nós e permaneceu.
E a noite, a noite, quando o vento pleno dos espaços
do mundo desgasta-nos a face – a quem se furtaria ela,
a desejada, ternamente enganosa, sobressalto para o
coração solitário? Será mais leve para os que se amam?
Ai, apenas ocultam eles, um ao outro, seu destino.
Não o sabias? Arroja o vácuo aprisionado em teus braços
para os espaços que respiramos – talvez os pássaros
sentirão o ar mais dilatado, num vôo mais comovido.

Sim, as primaveras precisavam de ti.
Muitas estrelas queriam ser percebidas.
Do passado profundo afluía uma vaga, ou
quando passavas sob uma janela aberta,
uma viola d’amore se abandonava. Tudo isto era missão.
Acaso a cumpriste? Não estavas sempre
distraído, à espera, como se tudo
anunciasse a amada? (Onde queres abrigá-la,
se grandes e estranhos pensamentos vão e vêm
dentro de ti e, muitas vezes, se demoram nas noites?)
Se a nostalgia vier, porém, canta às amantes;
ainda não é bastante imortal sua celebrada ternura.
Tu quase as invejas – essas abandonadas
que te pareceram tão mais ardentes que as
apaziguadas. Retoma indefinidamente o inesgotável
louvor. Lembra-te: o herói permanece, sua queda
mesma foi um pretexto para ser – nascimento supremo.
Mas às amantes, retoma-as a natureza no seio
esgotado, como se as forças lhe faltassem
para realizar duas vezes a mesma obra.
Com que fervor lembraste Gaspara Stampa,
cujo exemplo sublime faça enfim pensar uma jovem
qualquer, abandonada pelo amante: por que não sou
como ela? Frutificarão afinal esses longínquos
sofrimentos? Não é tempo daqueles que amam libertar-se
do objeto amado e superá-lo, frementes?
Assim a flecha ultrapassa a corda, para ser no vôo
mais do que ela mesma. Pois em parte alguma se detêm.

Vozes, vozes. Ouve, meu coração, como outrora apenas
os santos ouviam, quando o imenso chamado
os erguia do chão; eles porém permaneciam ajoelhados,
os prodigiosos, e nada percebiam,
tão absortos ouviam. Não que possas suportar
a voz de Deus, longe disso. Mas ouve essa aragem,
a incessante mensagem que gera o silêncio.
Ergue-se agora, para que ouças, o rumor
dos jovens mortos. Onde quer que fôsses,
nas igrejas de Roma e Nápoles, não ouvias a voz
de seu destino tranquilo? Ou inscrições não se ofereciam,
sublimes? A estela funerária em Santa Maria Formosa…
O que pede essa voz? A ansiada libertação
da aparência de injustiça que às vezes perturba
a agilidade pura de suas almas.

É estranho, sem dúvida, não habitar mais a terra,
abandonar os hábitos apenas aprendidos,
às rosas e a outras coisas singularmente promissoras
não atribuir mais o sentido do vir-a-ser humano;
o que se era, entre mãos trêmulas, medrosas,
não mais o ser; abandonar até mesmo o próprio nome
como se abandona um brinquedo partido.
Estranho, não desejar mais nossos desejos. Estranho,
ver no espaço tudo quanto se encadeava, esvoaçar,
desligado. E o estar-morto é penoso
e quantas tentativas até encontrar em seu seio
um vestígio de eternidade. – Os vivos cometem
o grande erro de distinguir demasiado
bem. Os Anjos (dizem) muitas vezes não sabem
se caminham entre vivos ou mortos.
Através das duas esferas, todas as idades a corrente
eterna arrasta. E a ambas domina com seu rumor.

Os mortos precoces não precisam de nós, eles
que se desabituam do terrestre, docemente,
como de suave seio maternal. Mas nós,
ávidos de grandes mistérios, nós que tantas vezes
só através da dor atingimos a feliz transformação, sem eles
poderíamos ser? Inutilmente foi que outrora, a primeira
música para lamentar Linos violentou a rigidez da
matéria inerte? No espaço que ele abandonava, jovem,
quase deus, pela primeira vez o vácuo estremeceu
em vibrações – que hoje nos trazem êxtase, consolo e amparo.

Rainer Maria Rilke

P.S. – “Contam que Rilke, depois dos primeiros versos que o vento lhe ditou nas altas penedias de Duíno, viveu doze anos com aquele germe, em viagens, em mudanças, em desperdícios, em guerras, até o momento de realizar, em quatro dias, como quem morre, as suas elegias perfeitas. Não será sempre assim? Não será a própria vida uma longa e desarrumada atividade dos bastidores para uma fugaz apoteose?” In: GUSTAVO CORÇÃO, Lições de Abismo.

Rilke, 1906. Foto: George Bernard Shaw.

 

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“Amizade e Estética da Existência Em Foucault” – Um livro de Francisco Ortega [Saiba mais @ A Casa de Vidro]

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Gilles Deleuze um dia escreveu, sobre a questão da amizade, que ela “é interior à filosofia” e “não se pode saber o que é a filosofia sem viver essa questão obscura, e sem respondê-la, mesmo se for difícil.” Michel Foucault, que das dificuldades nunca se esquivou, tinha uma “pretensão dupla”, segundo Jurandir Freire Costa: “primeiro, definir a filosofia como estilo de vida e não como posse da habilidade argumentativa com vistas à descoberta da “verdade”; segundo, rediscutir a noção de ética, desvinculando-a dos tradicionais problemas morais. (…) A amizade seria o meio, digamos, institucional de atingir essa meta.” (FREIRE COSTA: p. 11)

A filosofia, que carrega em seu seio verbal a philia (amizade) somada à sophia (sabedoria), falharia em sua missão histórica, fracassaria no auxílio que pode prestar à empreitada humana no planeta, caso pensasse desvinculada com qualquer preocupação com a amizade e a sabedoria. Pois recusar a amizade e a sabedoria, para concentrar-se somente numa empreitada lógica ou epistemológica solitária, em busca de uma “verdade objetiva”, implicaria numa decisão que é quase um atentado contra a ética, isto é, contra o inescapável caráter inter-subjetivo e relacional de nossas existências-em-teia.

Como Francisco Ortega busca mostrar em seu livro, há algo que vincula diretamente, na filosofia de Foucault, a noção de “estética da existência”, conexa às noções de Nietzsche sobre a vida como obra-de-arte e auto-poiésis (Michel Onfray, sobre isto, insistirá na noção de escultura-de-si), ao valor norteador da amizade (amitié em francês, philia em grego). Tratar a própria existência como uma obra-de-arte em aberto, em perene construção através dos processos intermináveis de nossos relacionamentos, não implica jamais qualquer ética do solipsismo, do sujeito isolado que molda a argila de si mesmo sem relações significativas com nenhum outro.

Em Foucault, a estética da existência é essencialmente inter-subjetiva e o valor que norteia essa aventura relacional perene deve ser a amizade. Em Albert Camus, em outros termos mas num espírito muito semelhante, a jornada do absurdo à revolta é também um ascensão do nonsense à solidariedade humana, à união do “revolto-me, logo somos”. Em Foucault, pulsa, nas palavras de Jurandir Freire Costa, uma vontade de “recuperar o poder subversivo da amizade” (p. 12), o que é mais necessário que tudo em nossa era do narcisismo, do competitivismo, do individualismo exacerbado e do consumismo solipsista.

A amizade como virtude cívica – que já vivia na utopia encarnada no Jardim de Epicuro, em que os convivas buscavam que seu convívio fosse baseado em doce amizade, ataraxia (serenidade) e sinceridade – também dá as caras no pensamento de Foucault.  “As reflexões de Foucault sobre a amizade localizam nela um elemento transgressivo”, afirma Ortega, e isto devido à “alternativa que ela representa a formas de relacionamento prescritas e institucionalizadas.” (p. 157)

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No livro de Francisco Ortega, a amizade é descrita como “uma forma de subjetivação coletiva” e uma “forma de vida” que permite “a criação  de espaços intermediários capazes de fomentar tanto necessidades individuais quanto objetivos coletivos. Ela é um convite, um apelo à experimentação  de novas formas de vida e de comunidade. Reabilitá-la representa introduzir movimento e fantasia nas rígidas relações sociais, estabelecer uma tentativa de pensar e repensar nas formas de relacionamento existentes em nossa sociedade que são poucas e simplificadas. A amizade representa algo inquietante e perigoso que possui um caráter inesperado e intenso.” (ORTEGA: p. 26)

A amizade, se adquire tal relevância na ética e na estética da existência de Foucault, talvez seja um pouco pela presença inspiradora, nas Letras francesas, de uma “amizade filosófica” que fica rondando, com sua sombra imensa de paradigma incontornável, nas figuras de Montaigne e La Boétie. Francisco Ortega prefere focar, porém, numa relação bem menos explorada e reconhecida: a de Michel Foucault com o pensamento de Pierre Hadot.

hadot

Em seu livro Exercícios espirituais e filosofia antiga, Hadot busca responder o que a filosofia é de fato e

“ressalta uma concepção de filosofia oposta à moderna, porém suscetível de ser atualizada: a filosofia como exercício espiritual, como forma e estilo de existência. (…) Os exercícios espirituais são a expressão de um esforço que não aspira a transmitir informação sobre teorias abstratas, mas antes a formar as almas dos alunos. Não se trata de uma construção teórica, mas de um exercício de formação de si, da paideia que ensina a viver em harmonia com a razão. (…) O exercício espiritual não é somente de natureza ética, mas sobretudo ontológica; por meio dele alcança-se a transformação total da forma de pensar e de ser, a metamorfose do eu, a superação da própria individualidade e de seus limites. Por meio destes exercícios o eu transcende a subjetividade individual e escrava das paixões, alcançando a perspectiva cósmica e universal da mãe natureza.” (p. 53)

Foucault, nos três volumes de A História Da Sexualidade, vai interessar-se intensamente pelos exercícios espirituais através dos quais os sujeitos dão forma e estilo às suas próprias existências. A influência de Hadot manifesta-se numa tentativa de “reabilitar o conceito antigo de askesis (o qual vai ser identificado com o exercício espiritual), ou, como Nietzsche afirma, ‘renaturalizar a askesis’. O conceito cristão e moderno de ascese como abstinência ou restrição opõe-se diametralmente à noção antiga de askesis”, afirma Ortega (p. 54).

A contundente e devastadora crítica nietzschiana do ideal ascético – isto é, de uma ascese judaico-cristã baseada na auto-mortificação, na repressão do corpo, na supressão dos prazeres sensíveis e dos relacionamentos intercorpóreos gozosos – não implica de modo alguma a recusa de qualquer esforço de trabalho sobre si (askesis). Renaturalizar a askesis (expressão que Ortega atribui a Nietzsche, porém sem citar a fonte, que desconheço…) talvez seja uma boa descrição de todo o projeto da transvaloração dos valores – Dioniso contra Jesus.

Uma das teses centrais do livro de Ortega está em afirmar que “uma concepção da filosofia como arte de vida e práxis estilística”, essencial tanto em Foucault quanto em Nietzsche, implica que a filosofia seja em essência “ascese, ou seja, um exercício de si no pensamento” que “corresponde à sua atividade de autotransformação.” (p. 57) Em seu texto Le souci de la verité (A preocupação com a verdade), Foucault afirmará que a filosofia é indissociável de um estilo de vida baseado na “elaboração de si através de si, uma apaixonada transformação, uma modificação lenta e difícil mediante o cuidado contínuo da verdade.” (p. 59)

Transformar a própria vida em obra-de-arte, dar estilo à existência, não é empreendimento meramente estético mas implica também um compromisso ético, no qual os valores da philia (amizade) e da parrhesía (sinceridade ou liberdade de expressão) são essenciais. Em um de seus últimos cursos no College de France, Foucault focará justamente naquilo que chamará A Coragem da Verdade, algo que também é quintessencial a qualquer amizade digna deste nome: amigos são aqueles que têm a audácia de serem autênticos e honestos em sua relação, sem hipocrisias ou adulações. Se a filosofia como estilo de vida e prática da sabedoria em meio a amigos é para Foucault algo de interminável, impossível de concluir, isto não a faz menos importante, nem a transforma em trabalho de Sísifo.

Como André Comte-Sponville mostrará em suas obras – em especial O Mito de Ícaro e no último capítulo de Pequeno Tratado Das Grandes Virtudes – há um componente ascensional na práxis filosófica, mas de uma ascensão que não concebe descanso possível na tranquilidade estática de nenhum paraíso, de nenhum topo de montanha onde paramos de subir, de modo que Ícaro segue batendo suas asas na direção do Sol até que a energia vital esmoreça. Não há êxtase estático, mas só um esforço extático de auto-superação que só pode ir triunfando através das relações que nos possibilitam atualizar nossa potência para o amor, a amizade, a colaboração (tudo aquilo que, em linguajar spinozano, expande nosso conatus, ampliando nosso poder de existir e agir).

“A ascese – e com isto voltamos ao ponto de partida: a relação Foucault-Hadot – aspira a uma determinada forma de existência que felizmente nunca se atinge. Felizmente o almejado fim não é atingível; se fosse alcançado, terminaria a tarefa do trabalho sobre si. Esta forma de existência inalcançável corresponde ao Übermensch nietzschiano, o qual não representa uma forma concreta (salvando-se assim de interpretações fascistóides), mas uma tarefa de constante auto-superação: o si como trabalho ininterrupto, como infinitas metamorfoses.” (p. 63)

Através de uma filosofia que Esther Díaz caracteriza como ontologia histórica – “ontologia, porque se ocupa dos entes, da realidade, do que ocorre; histórica, porque pensa a partir dos acontecimentos, de dados empíricos, de documentos…” -, Foucault estudou as “práticas de si” que, desde a Antiguidade até o mundo contemporâneo, desfilaram pelo palco da História. Encontrou assim um de seus principais temas, o da estética da existência: “aqui temos o que tentei reconstruir”, diz em Le souci de la vérité, “a formação e o desenvolvimento de uma prática de si cujo objetivo é constituir-se a si  como o artífice da beleza da própria vida” (p. 69).

Como elucida Ortega, “trata-se de uma atitude, um ethos, que visa a individualizar as ações e dotá-las de uma beleza e um esplendor únicos. Através da estilização dessa atitude, o indivíduo dota sua vida de uma forma digna de longa lembrança. Este esforço de estilização do comportamento, o desejo de dar esplendor e beleza à existência, para que possa servir de exemplo que não acabe com a morte mas permaneça na lembrança, corresponde a uma noção de existência na qual existir significa ser célebre (cf. Vernant, L’individu, la mort, l’amour, p. 83-84). Como morto conhecido, cuja lembrança é elogiada, obtém-se uma maior presença na pólis que como vivo. A morte alcança com isso uma dimensão estética e ética, vai ser idealizada e, como consequência, neutralizada. Como Hannah Arendt aponta, a pólis grega constitui ‘o espaço público para conceder imortalidade aos mortais’.” (p. 75)

Trabalhos infinitos, a sabedoria e a amizade (a sophia e a philia) constituem o compromisso irrecusável de todo aquele que deseja levar uma vida filosófica – que, desde a antiguidade greco-latina está vinculada ao convívio e ao diálogo no espaço público, e não a um isolamento solipsista de um anacoreta semi-autista que buscaria a quimera do “ser sábio sozinho”. Sabedoria aprende-se e ensina-se, e a amizade é também uma espécie de espaço adequado e conveniente para a transmissão de saberes e técnicas, para a expressão de afetos e pensamentos, que conduzem a vida a um grau mais alto de sapiência. “A tarefa do dizer verdadeiro é um trabalho infinito: deve ser respeitado em sua complexidade, é uma obrigação na qual nenhum governo pode economizar”, diz Foucault (p. 121).

Se as análises de Foucault localizam na amizade um “elemento transgressivo”, é pois os amigos autênticos inventam novas formas de relacionamento que diferem das prescritas pela tradição e pelos códigos morais. A amizade “não é vista como uma forma de relação e de comunicação além das relações de poder; representa antes um jogo agonístico e estratégico, que consiste em agir com a mínima quantidade de domínio. Falar de amizade é falar de multiplicidade, intensidade, experimentação, desterritorialização.” (p. 157) Para Ortega, as concepções foucaultianas sobre o tema da amizade são melhor compreendidas quando postas no contexto histórico de vivências deste pensador com movimentos como a revolução de costumes vinculada ao Maio de 1968 francês e, posteriormente, a emergência do movimento gay em San Francisco ou Nova York:

“Segundo Foucault, vivemos em um mundo onde as instituições sociais têm contribuído para limitar o número possível de relacionamentos. A razão desta restrição reside no fato de que uma sociedade que permitisse o crescimento das relações possíveis seria mais difícil de administrar e de controlar. A luta homossexual deve (nisto consiste seu poder transgressivo ampliável a outros tipos de conflitos sociais: movimentos anti-racistas, ou feministas etc.) aspirar à criação de um novo direito relacional, que permita todo tipo possível de relações, em vez de impedi-las ou bloqueá-las. (…) A amizade representa uma possibilidade de constituir a comunidade e a sociedade no nível individual de um tipo de relação livre e não institucionalizada. O projeto foucaultiano de uma ética da amizade no contexto de uma possível atualização da estética da existência permite transcender o marco da auto-elaboração individual para se colocar numa dimensão coletiva.” (ORTEGA, p. 171)

Em um mundo cada vez mais marcado pela interconexão digital dos sujeitos através das redes cibernéticas, pensadores como Bauman e Ulrich Beck mostraram preocupação com um esvaziamento da amizade na era em que muitos gabam-se de ter 5.000 amigos no Facebook. Contaríamos nos dedos das mãos aqueles que são amigos autênticos, daqueles que nos acompanhariam ao hospital e nos visitariam na UTI? Apesar dos teus 15.000 seguidores no Twitter, caberiam dentro de um micro-ônibus aqueles que se interessariam de fato por ter contigo um convívio fecundo e prolongado, norteado pela sinceridade e pela busca comum pela sabedoria? Se o século XX foi the century of the self, para lembrar o título de uma série televisiva magistral, talvez devêssemos recuperar um dos motes de 68 – “o que queremos é que as idéias voltem a ser perigosas” – e aplicá-la a nossas relações tão colonizadas por normatizações impostas por Estados e Mercados. O que queremos de fato é que as amizades voltem a ser perigosas.

por Eduardo Carli de Moraes
Goiânia, Março de 2017

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 A AMIZADE COMO IDEAL ÉTICO E CÍVICO EM MONTAIGNE & EPICURO
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Dobradinhas Literário-Pictóricas: Clarice Lispector & Van Gogh

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” – Escute-me, amigo, a lua está alta no céu. Você não tem medo? O desamparo vem da natureza. Esse luar, pense bem, esse luar mais branco que o rosto de um morto, tão distante e silencioso, esse luar assistiu aos gritos dos primeiros monstros sobre a terra, velou sobre as águas apaziguadas dos dilúvios e das enchentes, iluminou séculos de noites e apagou-se em seculares madrugadas… Pense, meu amigo, esse luar será o mesmo espectro tranquilo quando não mais existirem as marcas dos netos dos seus bisnetos. Humilhe-se diante dele. Você apareceu um instante e ele é sempre. Não sofre, amigo? Eu… eu por mim não suporto. Dói-me aqui, no centro do coração, ter que morrer um dia e, milhares de séculos depois, indiferenciado em húmus, sem olhos para o resto da eternidade, eu, EU, sem olhos para o resto da eternidade… e a lua indiferente e triunfante, mãos pálidas estendidas sobre novos homens, novas coisas, outros seres. E eu Morto! – respirei profundamente. – Pense, amigo. Agora mesmo ela está sobre o cemitério também. O cemitério, lá onde dormem todos os que foram e nunca mais serão. Lá, onde o menor sussurro arrepia um vivo de terror e onde a tranquilidade das estrelas amordaça nossos gritos e estarrece nossos olhos. Lá, onde não se tem lágrimas nem pensamentos que exprimam a profunda miséria de acabar… Ouça, vou dizer mais: eu queria morrer vivo, descendo ao meu próprio túmulo e eu mesmo fechá-lo, com uma pancada seca. E depois enlouquecer de dor na escuridão da terra. Mas não a inconsciência.”

Palavras de um personagem de Clarice Lispector(1920 – 1977), no conto “Mais dois bêbedos”, que integra o livro “Todos os Contos”, Editora Rocco, 2016, organização de Benjamin Moser, pg 130-132.

Pintura: “Noite Estrelada” de Vincent Willem van Gogh (1853 – 1890).

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VIOLÕES QUE CHORAM – Versos de Cruz e Souza acompanhados por concertos e álbuns clássicos da música violonística

1

VIOLÕES QUE CHORAM
Cruz e Souza (1861 – 1898)

“Ah! Plangentes violões dormentes, mornos,
Soluços ao luar, choros ao vento…
Tristes perfis, os mais vagos contornos,
Bocas murmurejantes de lamento.

Noites de além, remotas, que eu recordo,
Noites da solidão, noites remotas
Que nos azuis da Fantasia bordo,
Vou constelando de visões ignotas.

Sutis palpitações à luz da lua,
Anseio dos momentos mais saudosos,
Quando lá choram na deserta rua
As cordas vivas dos violões chorosos.

Quando os sons dos violões vão soluçando,
quando os sons dos violões nas cordas gemem,
E vão dilacerando e deliciando,
Rasgando as almas que nas sombras tremem.

Harmonias que pungem, que laceram,
Dedos nervosos e ágeis que percorrem
Cordas e um mundo de dolências geram,
gemidos, prantos, que no espaço morrem…

E sons soturnos, suspiradas mágoas,
Mágoas amargas e melancolias,
No sussurro monótono das águas,
Noturnamente, entre ramagens frias.

Vozes veladas, veludosas vozes
Volúpias dos violões, vozes veladas,
Vagam nos velhos vórtices velozes
Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas.

Tudo nas cordas dos violões ecoa
e vibra e se contorce no ar, convulso…
Tudo na noite, tudo clama e voa
Sob a febril agitação de um pulso.

Que esses violões nevoentos e tristonhos
São ilhas de degredo atroz, funéreo,
Para onde vão, fatigadas do sonho,
almas que se abismaram no mistério.

Sons perdidos, nostálgicos, secretos,
Finas, diluídas, vaporosas brumas,
Longo desolamento dos inquietos
Navios a vagar à flor de espumas.

Oh! Languidez, languidez infinita,
Nebulosas de sons e de queixumes,
Vibrado coração de ânsia esquisita
E de gritos felinos de ciúmes!

Que encantos acres nos vadios rotos
Quando em toscos violões, por lentas horas,
Vibram, com a graça virgem dos garotos,
Um concerto de lágrimas sonoras!

Quando uma voz, em trêmulos, incerta,
Palpitando no espaço, ondula, ondeia,
E o canto sobe para a flor deserta
Soturna e singular da lua cheia.

Quando as estrelas mágicas florescem,
E no silêncio astral da Imensidade
Por lagos encantados adormecem
As pálidas ninféias da Saudade!

Como me embala toda essa pungência,
Essas lacerações como me embalam,
Como abrem asas brancas de clemência
As harmonias dos violões que falam!

Que graça ideal, amargamente triste,
Nos lânguidos bordões plangendo passa…
Quanta melancolia de anjo existe
Nas visões melodiosas dessa graça.

Que céu, que inferno, que profundo inferno,
Que outros, que azuis, que lágrimas, que risos,
Quanto magoado sentimento eterno
Nesses ritmos trêmulos e indecisos…

Que anelos sexuais de monjas belas
Nas ciliciadas carnes tentadoras,
Vagando no recôndito das celas,
Por entre as ânsias dilaceradoras…

Quanta plebéia castidade obscura
Vegetando e morrendo sobre a lama,
Proliferando sobre a lama impura,
Como em perpétuos turbilhões de chama.

Que procissão sinistra de caveiras,
De espectros, pelas sombras mortas, mudas…
Que montanhas de dor, que cordilheiras
De agonias aspérrimas e agudas.

Véus neblinosos, longos véus de viúvas
Enclausuradas nos ferais desterros,
Errando aos sóis, aos vendavais e às chuvas,
Sob abóbadas lúgubres de enterros;

Velhinhas quedas e velhinhos quedos,
Cegas, cegos, velhinhas e velhinhos,
Sepulcros vivos de senis segredos,
Eternamente a caminhar sozinhos;

E na expressão de quem se vai sorrindo,
Com as mãos bem juntas e com os pés bem juntos
E um lenço preto o queixo comprimindo,
Passam todos os lívidos defuntos…

E como que há histéricos espasmos
Na mão que esses violões agita, largos…
E o som sombrio é feito de sarcasmos
D de sonambulismos e letargos.

Fantasmas de galés de anos profundos
Na prisão celular atormentados,
Sentindo nos violões os velhos mundos
Da lembrança fiel de áureos passados;

Meigos perfis de tísicos dolentes
Que eu vi dentre os violões errar gemendo,
Prostituídos de outrora, nas serpentes
Dos vícios infernais desfalecendo;

Tipos intonsos, esgrouviados, tortos,
Das luas tardas sob o beijo níveo,
Para os enterros dos seus sonhos mortos
Nas queixas dos violões buscando alívio;

Corpos frágeis, quebrados, doloridos,
Frouxos, dormentes, adormidos, langues
Na degenerescência dos vencidos
De toda a geração, todos os sangues;

Marinheiros que o mar tornou mais fortes,
Como que feitos de um poder extremo
Para vencer a convulsão das mortes,
Dos tempos o temporal supremo;

Veteranos de todas as campanhas,
Enrugados por fundas cicatrizes,
Procuram nos violões horas estranhas,
Vagos aromas, cândidos, felizes.

Ébrios antigos, vagabundos velhos,
Torvos despojos da miséria humana,
Têm nos violões secretos Evangelhos,
Toda a Bíblia fatal da dor insana.

Enxovalhados, tábidos palhaços
De carapuças, máscaras e gestos
Lentos e lassos, lúbricos, devassos,
Lembrando a florescência dos incestos;

Todas as ironias suspirantes
Que ondulam no ridículo das vidas,
Caricaturas tétricas e errantes
Dos malditos, dos réus, dos suicidas;

Toda essa labiríntica nevrose
Das virgens nos românticos enleios;
Os ocasos do Amor, toda a clorose
Que ocultamente lhes lacera os seios;

Toda a mórbida música plebéia
De requebros de faunos e ondas lascivas;
A langue, mole e morna melopéia
Das valsas alanceadas, convulsivas;

Tudo isso, num grotesco desconforme,
Em ais de dor, em contorções de açoites,
Revive nos violões, acorda e dorme
Através do luar das meias noites!”

(Do livro Faróis)

* * * * *

AUDIÇÕES RECOMENDADAS PARA JORNADAS VIOLONÍSTICA SUBLIMES:

CONCERTO DE ARANJUEZ (1939), de Joaquín Rodrigo, tocado por JOHN WILLIAMS e orquestra:


“SUÍTE POPULAR BRASILEIRA” de VILLA-LOBOS por DUO ASSAD


ANDRÉS SEGOVIA toca: 1. “Capricho Catalán” by Isaac Albéniz; 2. “La Maja de Goya” by Enrique Granados; 3. “Torre Bermeja” by Isaac Albéniz; 4. “Sonata in E Minor” by Domenico Scarlatti; 5. “Minuet” by Jean-Philippe Rameau; 6. “Minuet” by Fernando Sor; 7. “Ballet and Allegretto” by Manuel Ponce; 8. “Gavotte I & II” by Johann Sebastian Bach; 9. “Leyenda” by Isaac Albéniz; 10. “El Noi de la Mare” a Catalan folk song.


DILERMANDO REIS toca PIXINGUINHA


JULIAN BREAM e JOHN WILLIAMS


YAMANDU COSTA e DOMINGUINHO


PAULINHO NOGUEIRA – Antologia do Violão


BADEN POWELL – AfroSambas

CYBER MUSEU – Procissão de belezas gratuitas

Perséfone e Hades de Bernini

“Perséfone e Hades”, de Bernini

 

 

Matisse - the-joy-of-life-1906

“La Joie De Vivre”, de Matisse (1906)

 

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“The Triumph of Pan”, de Nicolas Poussin (1636)

 

POUSSIN The_dance_to_the_music_of_time_c._1640

“A Dança das Estações Com A Música Do Tempo”, de Nicolas Poussin (1640)

 

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“As Danaides”, John William Waterhouse (1903)

 

John Roddam Spencer Stanhope - T

“The Waters of Lethe by the Plains of Elysium”, de John Roddam Spencer (1880)

 

"As Sereias e o Navio De Ulisses", de William Etty

“As Sereias e o Navio De Ulisses”, de William Etty

 

"Um Par de Botas" (1887), de VIincent Van Gogh

“Um Par de Botas” (1887), de Vincent Van Gogh

 

"Água - Origem da Vida", de Diego Rivera, na Cidade do México

“Água – Origem da Vida”, de Diego Rivera, na Cidade do México

SIGA VIAGEM NOS LABIRINTOS DO
#CYBER MUSEU

ARETHA FRANKLIN NO ANOS 1960 e 1970 [VÍDEOS AO VIVO E DOWNLOAD DE ÁLBUNS COMPLETOS] #CYBER_JUKEBOX

ITALY - AUGUST 01: Photo of Aretha Franklin 8; live in Palermo (Photo by Jan Persson/Redferns)

Com vocês, em nossa Cyber Jukebox, a magnífica Aretha, “the undisputed Queen of Soul, her gospel-tinged R&B displays one of the greatest voices in recording history.”

“RESPECT” (1960s)

“CHAIN OF FOOLS” (1968, Amsterdam)

“EVIL GAL BLUES” (1964)

“MOCKING BIRD” (1960s)

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Aretha
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“WON’T BE LONG” (1964)

“ROCK-A-BYE YOUR BABY WITH A DIXIE MELODY”

“SAY A LITTLE PRAYER”

“TODAY I SING THE BLUES” (1960)

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DR. FEELGOOD (1968, Amsterdam)

“ALL NIGHT LONG” (1961)

“TINY SPARROW” (1964)

“SPIRIT IN THE DARK”
(SHOW no Filmore East, 1971, San Francisco, participação de Ray Charles, 25min.)

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* * * * *

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Aretha

DOWNLOAD DA CAIXA COM 4 CDS THE QUEEN OF SOUL
87 músicas. Lançamento: 2004.
Downloadar por Torrent, Google Drive ou Mediafire.

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                       Tracklisting
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CD 1

    “I Never Loved A Man (The Way I Love You)”
    “Do Right Woman – Do Right Man”
    “Respect”
    “Drown In My Own Tears”
    “Soul Serenade”
    “Don’t Let Me Lose This Dream”
    “Baby, Baby, Baby”
    “Dr. Feelgood (Love Is A Serious Business)”
    “Good Times”
    “Save Me”
    “Baby, I Love You”
    “Satisfaction”
    “You Are My Sunshine”
    “Never Let Me Go”
    “Prove It”
    “I Wonder”
    “Ain’t Nobody (Gonna Turn Me Around)”
    “It Was You” (Aretha Arrives Outtake)
    “(You Make Me Feel Like) A Natural Woman”
    “Chain Of Fools”
    “People Get Ready”
    “Come Back Baby”
    “Good To Me As I Am To You”
    “Since You’ve Been Gone (Sweet Sweet Baby)”
    “Ain’t No Way”

CD 2

    “Think”
    “You Send Me”
    “I Say A Little Prayer”
    “The House That Jack Built”
    “You’re A Sweet Sweet Man”
    “I Take What I Want”
    “A Change”
    “See Saw”
    “My Song”
    “I Can’t See Myself Leaving You”
    “Night Life” (Live)
    “Ramblin’”
    “Today I Sing The Blues”
    “River’s Invitation”
    “Pitiful”
    “Talk To Me, Talk To Me” (Soul ‘69 Outtake)
    “Tracks Of My Tears”
    “The Weight”
    “Share Your Love With Me”
    “Pledging My Love/The Clock”
    “It Ain’t Fair”
    “Sit Down And Cry”
    “Let It Be”
    “Eleanor Rigby”
    “Call Me”

CD 3

    “Son Of A Preacher Man”
    “Try Matty’s”
    “The Thrill Is Gone (From Yesterday’s Kiss)”
    “Dark End Of The Street”
    “You And Me”
    “You’re Taking Up Another Man’s Place” (Spirit In The Dark Outtake)
    “Don’t Play That Song”
    “Why I Sing The Blues”
    “Spirit In The Dark”
    “My Way” (Spirit In The Dark Outtake)
    “One Way Ticket”
    “Pullin’”
    “Border Song (Holy Moses)”
    “A Brand New Me”
    “You’re All I Need To Get By”
    “Bridge Over Troubled Water”
    “Spanish Harlem”
    “Lean On Me”
    “Spirit In The Dark” (Reprise with Ray Charles)

CD 4

    “Rock Steady”
    “Young, Gifted And Black”
    “All The King’s Horses”
    “Oh Me Oh My (I’m A Fool For You Baby)”
    “Day Dreaming”
    “Mary, Don’t You Weep” (Live)
    “Climbing Higher Mountains” (Live)
    “Precious Memories” (Live)
    “Master Of Eyes”
    “Angel”
    “Somewhere”
    “So Swell When You’re Well”
    “I’m In Love”
    “Ain’t Nothing Like The Real Thing”
    “Until You Come Back To Me (That’s What I’m Gonna Do)”
    “Look Into Your Heart”
    “Sparkle”
    “Something He Can Feel”


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