Ao não questionar se a História é escrita pelos vencedores, o drama histórico “Dunkirk”, de Chris Nolan, naufraga na demagogia [Opinião do #CinephiliaCompulsiva]

Fui ao cinema com expectativas altas demais para que não saísse de Dunkirk como alguém que levou um tombo no asfalto rala-joelhos da decepção. Tinha a esperança de ver um excelente filme, que justificasse os 30 golpinhos reais largados na bilheteria e seus preços escorchantes. Tinha ganas de uma daqueles raras, mas salutares, sessão–de-filme-que-não-se-esquece-jamais. Expectativa excessiva, frustração na certa… Em contraste com a fantasia esperada, deparei com a obra mediana, quase insossa, que foi entregue por Chris Nolan. Avalio que o cineasta ficou muito aquém, nesta sua primeira incursão pelo cinema-de-guerra, das obras-primas do gênero, como Apocalypse Now, de Coppola; Nascido para Matar – Full Metal Jacket, de Kubrick; Vá e Veja, de Klimov; A Lista de Schindler, de Spielberg; Além da Linha Vermelha de Mallick; dentre outros.

Dunkirk não tem a densidade emocional (a capacidade de nos afetar) ou a contextura histórica (o trançado da totalidade social concreta refeito em linguagem) para alçar-se ao nível das grandes obras que abordaram a belicosidade humana, em seu pleno caos e fúria, mas sem esquecer de uma reflexão sobre suas causas e possíveis remédios. Dunkirk tem batalhas e tiros demais, História e filosofia de menos. Tem muita pirotecnia de filmagem pra pouca reflexão crítica. Falta sobretudo crítica mais incisiva sobre a figura de Winston Churchill, que o desfecho do filme tende a idealizar e que deixa Nolan muito próximo de chafurdar na demagogia de patriotário.

Dunkirk é mais um filme de ação do que de fato um drama histórico. Nele, Nolan mostra-se ainda não suficientemente maduro para pretender fazer justiça às atribuições excessivas que se faz, entre crítica e público, de seus abundantes dons: ele chega a ser chamado de “O Novo Stanley Kubrick”, um apelido que, à luz de Dunkirk, soa como uma super-estimação, um exagero não mais justificável.

A trajetória pregressa de Nolan nos fazia esperar algo muito melhor dele do que o previsível Dunkirk, que nada acrescenta à história do filme-de-guerra, nem traz nada de original à história do cinema: Nolan arriscou-se pouco, entregou um de seus roteiros mais fracos, o que nos leva a suspeitar que o verdadeiro gênio da escrita fílmica é seu irmão, Jonathan Nolan. Quando Jonathan aparece pondo mãos à obra nos roteiros que seu irmão Chris filma, sente-se um escritor talentoso por trás do tecido narrativo repleto de viravoltas, como em O Grande Truque (The Prestige). Jonathan, contista-roteirista de arroubos geniais, foi capaz de bolar a estética cinematográfica, beirando o revolucionária, que foi aquela inversão integral da temporalidade linear no filme-integralmente-de-trás-pra-frente que é Amnésia (Memento, aliás baseado no conto Memento Mori de Jonathan Nolan). Amnésia, aliás, que chega a resultados bem mais arrojados e interessantes do que outro filme que enveredou-se pelo mesmo caminho: Irreversível, de Gaspar Noe.

Desta vez, em Dunkirk, voando solo como roteirista, sem parceria com o irmão, Chris mostra que ainda lhe falta algo que talvez Jonathan é que tenha em abundância: a audácia, o arrojo, a criatividade selvagem, inebriada de si mesma, que torna Jonathan Nolan um dos melhores roteiristas desta geração, ao lado de um Charlie Kaufmann, de um Lars Von Trier… Chris Nolan, sozinho, não chega aos pés destes e mostra-se como alguém que, embora no pleno domínio da parte técnica de seu métier, falha na construção de um roteiro realmente envolvente e memorável. Em Dunkirk, faltou realizar algo de mais lembrável – ou o grau mais intenso deste, o inesquecível.

Sua filmografia revela sim um autor cinematográfico e não somente um funcionário da indústria, um artista-do-cinema dos mais relevantes hoje em atividade, que flerta com vários gêneros com alta maestria, sem ser escravo da indústria do entretenimento, apesar de atrelado firmemente a ela em certos projetos (como a trilogia Cavaleiro das Trevas, blockbuster da indústria cultural massificada). Nolan tem de fato uma filmografia respeitabilíssima com obras-primas ecléticas como Amnésia (2000), um thriller psicológico; Interestelar (2015), uma ficção científica; Cavaleiro das Trevas – Trilogia, um épico de super-heroísmo extraído das HQs do Batman.

Eu classificaria Dunkirk como um de seus piores filmes (ainda que tenha seu mérito), equiparável ao desfecho um tanto bufônico da trilogia The Dark Knight: rocambolesca, inverossímil, léguas aquém das tramas de um Alan Moore, anos-luz aquém dos dois primeiros filmes (Batman Begins e The Dark Knight). O que ocorreu com Nolan no terceiro filme da trilogia Batman é equiparável com o tombo tomado pela trilogia Matrix em sua terceira parte. Em Dunkirk, ele pode até ter feito uma filmagem ágil, esperta, complementada por uma montagem que flui bem, mas parece que lhe faltou mais embasamento na complexidade histórica, mais abertura para outras leituras possíveis.

Com Dunkirk, Nolan desperdiça a chance de realizar um épico histórico. Com um tão gigantesco elenco de coadjuvantes – que devem representar 400.000 soldados que estão espremidos entre o mar e o enfurecido exército nazi – Nolan poderia ter se alçado à épica de um Eisenstein, poderia ter almejado fazer o seu Outubro, seu Encouraçado Potemkin… Mas não rolou: fracassou ao nem sequer tentar se alçar como Ícaro às alturas de Eisenstein; acabou ficando mais parecido do que seria desejável com o James Cameron de Alien 2: é tiro, bomba e torpedo pra todo lado, pra disfarçar a falta de um roteiro de fato bem amarrado e repleto de twists’n’turns melhores e mais memoráveis. Nolan, que por seu percurso prévio já fez sim por merecer comparações com Stanley Kubrick, em Dunkirk fica muito longe de transmitir o que Nascido Para Matar comunica.

Pode até argumentar-se que, sem tentativas de pregação ideológica, Dunkirk permite ao espectador uma espécie de “imersão” em um momento histórico dos mais conturbados, durante a 2ª Guerra Mundial. Em nenhum momento o filme fica parecendo com uma aula de geografia – e eu nem sequer o recomendaria a professores que querem debater geopolítica… – e isto deixa a ação desprovida de uma densidade de senso histórico que a própria obra deveria ter construído em sua imanência, devia ter trazido em seu bojo para lhe dar uma contextura própria. O cinema de reconstrução histórica foi utilizado de modo muito restrito e modesto por Nolan. É só comparar com o tipo de reconstrução da Revolução Bolchevique evocada por filmes como Outubro de Eisenstein ou Reds de Warren Beatty, compará-la com a evocação de Dunkirk de Nolan, para que este empalideça na comparação (it pales in comparison…).

O filme de Nolan também não choca nem faz refletir sobre as atrocidades bélicas com a força chocante e impiedosa imprimida por Elem Klimov ao seu insuperável Vá e Veja (1985), talvez o filme de guerra mais impressionante que já assisti. Vá e Veja tem a coragem de pôr os pontos de interrogação bem fundo: questiona a crueldade humana, a capacidade mortífera de grupos alucinados pelo vírus belicista e pela bactéria do nacionalismo racista. Vá e Veja, em seus pogroms de judeus massacrados pelo nazi-fascismo europeu na Bielo-Rússia, revela algo que Dunkirk recusa-se a mostrar: a profundeza da bancarrota moral, cultural, civilizacional, em que chafurdou o dito Ocidente em meio às devastações das guerras inter-imperialistas. 

Vá e Veja faz sua criança-guerreira (em diálogo com o clássico A Infância de Ivan, De Andrei Tarkovsky) atravessar o fundo-do-poço-sem-fundo da degradação humana completa. Dunkirk disfarça a degradação sob o verniz das pirotecnias cinematográficas e constrói ainda uma fábula demagógica e nacionalista, talvez fishing for compliments em meio às elites britânicas atuais. Nolan fez um filme servil aos interesses hegemônicos reinantes.

Além disso, seus aviões em batalha são filmados com perícia técnica, mas os dramas dos aviadores não conquistam a empatia dos espectadores pois esses personagens são desprovidos de histórias pessoais. Não há flashback algum das vidas pregressas daqueles que a câmera de Nolan elege como protagonistas. Com Dunkirk, Nolan dá outro tombo, não exatamente constrangedor – não pode ser dito uma mancha em seu currículo, não chega a tanto… – mas que leva a sugerir que está faltando mais enraizamento literário ao roteirista Chris Nolan. Faltou, em Dunkirk, a densidade de vivência humana individualizada e descrita em toda a concretude de sua miséria e aflição físicas e psíquicas por obras como The Red Bage of Courage de Stephen Crane, um dos melhores exemplos de como a arte pode abordar os fenômenos da guerra de modo criativo, de uma perspectiva cheia de frescor e novidade (é um livro realmente impressionante…).

O fato é que Nolan dá um tom de patriotada britânica ao seu filme, não complexifica as relações geopolíticas, não fornece coordenadas do tempo histórico mais amplo, em nenhum momento deixa o recinto estreito das batalhas localizadas. A guerra como fenômeno global lhe escapa totalmente, assim qualquer reflexão sobre o que, seja na natureza humana, seja ou nas sociedades historicamente constituídas, conduz o ser humano à belicosidade e à mútua chacina.

É verdade que Nolan propicia uma imersão num ambiente de guerra onde existem demonstrações de solidariedade, resiliência, coragem… Mas nada aqui parece digno de muita reflexão do ponto de vista ético. Tudo é tão masculinista, tão preso ao modelo heróico apolíneo, tão subserviente aos paradigmas de protagonismo conexos à dominação masculina, que a figura da mulher está praticamente ausente de Dunkirk e os heróis-sobreviventes por ele fabricados são Ulisses, mas anonimizados. Um bando de Ulisses sem nome, esquecíveis pois não conhecemos suas epopéias. Personagens vazios. Cascas ao léu no oceano da violência.

 Extrapolando muito do que está na tela, poder-se-ia propor que o filme pinta o retrato da guerra como patologia vinculada em especial à metade masculina da humanidade, o bélico como doidura coletiva patrocinada pelos testículos do mundo. Obviamente, o filme passa em silêncio sobre qualquer debate de gênero, mas tudo nele conspira para dar a impressão de um filme “machão” demais – o que não deixa de estar afinado com o zeitgeist dos “Academy Awards” e com boa parte da platéia que paga os ingressos que engrossam a fortuna de Indústia Cinematográfica Anglo-Saxã. Esta, aliás, que tantas honras duvidosas derramo sobre Alejandro González Iñarritu, vencedor de seu segundo Oscar de melhor diretor na sequência por O Regresso (The Revenant), não parece muito a fim de questionar a dominação masculina, inclusive no âmbito da estética, e que se manifesta também no masculinista e durão DunkirkÉ muito yang pro pouco yin 

Por fim, minha crítica principal é a ausência de qualquer tentativa de abarcar a totalidade em Dunkirk: Nolan simplesmente foca em algo minúsculo demais no cenário global da conflagração bélica “Mundial”, não fornecendo vias de acesso à compreensão ou à reflexão sobre as causas e os processos reais que puseram em funcionamento esta mega-máquina de carnificina em que milhões de humanos foram para o moedor de carne da guerra insana. É um filme que não nos esclarece, que vende soluções espúrias como heróicas valentias: os heróicos marujos civis que entram na guerra para ajudar no resgate dos soldados acossados em Dunkirk são tratados como “salvadores da pátria”, quando não haveria tanta razão para palmas ou aplausos assim. Sintoma de degradação e barbárie, trata-se de uma manada de civis encaminhando-se para o status de militares-de-improviso, uma perspectiva que aterroriza no seio de uma sociedade como a nossa, neoliberalizada até o paroxismo do atual anarco-capitalismo, onde a solução fascista de salvamento-emergencial do Capitalismo em Colapso ganha terreno.

Dunkirk não está à altura de sua atualidade histórica – a era de Trump na Casa Branca, a era de Marine Le Pen quase vencendo eleições na França, a era de Bolsonaro como candidato à presidência da república no Brasil… – pois também fracassa em tematizar o fascismo. Apaga totalmente os nazistas do quadro, como seres humanos, para transformá-los em anônimas máquinas de agressão. Um preconceito não só equivocado, mas nefasto.

Corremos mesmo o risco de ouvirmos críticos por aí dizerem que é mérito de Dunkirk retratar de modo “neutro e objetivo” o que se passou na História. Suspeito, ao contrário, que Dunkirk possa ser lido como objeto ideológico, como produto de demagogia, como filme engajado em uma certo lócus da sociedade atual, justamente o da conservação do status quo catastrófico inventado pelo capitalismo imperialista europeu, com suas potências em choque arrastando-nos às duas Grandes Guerras Mundiais. Imperialismo e fascismo desaparecem do quadro – como se Nolan nunca tivesse aprendido nenhuma lição com Rosa Luxemburgo, com Marx, com Orwell… – e tudo vira celebração do Império Britânico sob Churchill, tudo vira louvor da resiliência e poder de superação do soldado inglês em meio a adversidades extremas…

O tema da veracidade ou falsidade do relato histórico também não vem à tona no Dunkirk de Nolan. Este seria um filme muito melhor caso Chris Nolan tivesse ruminado mais sobre a obra de George Orwell, sobre a noção – explícita na distopia totalitária de 1984 – de que a classe dominante, em um regime autoritário como aquele do Big Brother e seu partido, domina não só o presente mas também o passado. A História é escrita pelos vencedores. Em um artigo chamado “História e mentiras” (publicado em fevereiro de 1944 no Tribune), presente no livro O Que É Fascismo? E Outros Ensaios, Orwell faz um tipo de reflexão que, por sua completa ausência, faz Dunkirk ser uma obra que fica aquém dos desafios históricos aos quais o artista deve responder:

“Durante parte de 1941-1942, quando a Luftwaffe estava ocupada com a Rússia, a rádio alemã brindou sua audiência com histórias de devastadores ataques aéreos a Londres. Hoje, estamos cientes de que esses ataques nunca aconteceram. Mas que uso teria esse nosso conhecimento se os alemães houvessem conquistado a Grã-Bretanha? Para os fins de um futuro historiador, esses bombardeios aconteceram ou não? A resposta é: se Hitler sobreviver, eles aconteceram; se ele cair, eles não aconteceram.

O mesmo ocorre com inúmeros outros eventos dos 10 ou 20 anos passados. Serão os Protocolos dos Sábios de Sião um documento autêntico? Será que Trótski tramou com os nazistas? Quantos aviões alemães foram abatidos na Batalha da Grã-Bretanha? A Europa dará as boas vindas à nova ordem? Em nenhum desses casos você obterá uma resposta que seja aceita universalmente por ser verdadeira: em cada caso você terá um número de respostas totalmente incompatíveis, uma das quias é por fim adotada como resultado de algum embate físico. A história é escrita pelos vencedores.

Em última análise, nossa única reivindicação de vitoriosos é que caso ganhemos a guerra contamos menos mentiras sobre ela do que nossos adversários. O que é realmente assustador quanto ao totalitarismo não é que ele cometa ‘atrocidades’, mas que agrida o conceito de verdade objetiva: ele proclama que controla o passado tão bem quanto o futuro.” (ORWELL, 2017, p. 77)

por Eduardo Carli de Moraes – A Casa de Vidro
Assistido no cinema Lumière, Goiânia, 05/8/17

 



Críticas gringas: The GuardianThe New Yorker Slant San Francisco GateSeattle Times

“Como É Ser Um Morcego?”, pergunta o filósofo Thomas Nagel (por Eduardo Carli de Moraes)

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Bat in Flower – A pollen-gilded bat emerging from a flower of the blue mahoe tree, in Cuba. Photograph by Merlin Tuttle, National Geographic.

“What Is It Like To Be A Bat?”

by Eduardo Carli de Moraes

In one of the greatest essays in his book Mortal QuestionsThomas Nagel invites us to reflect in a daring and innovative way, as awe-inspiring as the best Science Fiction films or novels. Forget about mankind for a while and try to identify yourself with the perspective of an animal that’s quite different from bipeds and primates such as ourselves. Put yourself inside the skin of a bat, but not only in a cartoonish or playful way (don’t even waste time pretending you are Bruce Wayne, wearing a black costume and a horned mask, patrolling Gotham City in search of criminals to crush).

Nagel is asking us to attempt to become a bat as it really is in Nature’s web of life: how does it feel to be such a creature?  What Nagel is proposing is an exercise in which a human mind tries to move away from its humanness, venturing outside the zone of familiarity, trying to really grasp what sort of experience it would be like to exist as a bat – or an eagle, or a worm. That ain’t easy, and “philosophers share the general human weakness for explanations of what is incomprehensible in terms suited for what is familiar and well understood.” (pg. 166)

This is not just a role-playing game (“let’s pretend we’re animals, let’s meow like cats!”), nor it’s a creative phantasy which attemps to imagine the future (similarly to what was crafted with such greatness by David Cronenberg‘s The Fly). What Thomas Nagel is after with his sci-fi way-of-thinking, as I’ll further attempt to explore, is an explanation for consciousness and its great diversity of manifestations. Reality contains objectively myriads of different organisms, with different perspectives and subjective experiences, and this field of study – Nature’s richness and diversity – may be explored not only by poets, mystics or people high on LSD, but also by philosophers, physicists, scientists, artists… Maybe we’ll become better humans if we try to understand better what is it like not to be human?

“Conscious experience is a widespread phenomenon. It occurs at many levels of animal life, though we cannot be sure of its presence in the simpler organisms, and it is very difficult to say in general what provides evidence of it. (Some extremists have been prepared to deny it even of mammals other than man.) No doubt it occurs in countless forms totally unimaginable to us, on other planets in other solar systems throughout the universe. But no matter how the form may vary, the fact that an organism has conscious experience at all means, basically, that there is something it is like to be that organism. (…) We may call this the subjective character of experience…” (p. 166)

 Those among you, dear readers, who are not poetically inclined, may deem as utter philosophical madness to refer to such a thing as “the subjectivity of bats” or the conscious experience of pigs. But it’s been for centuries the self-imposed task and delight of poets, mystics, shamans, artists, as well as many other human animals, to understand and try to verbalize what it means like to be an animal different than ourselves. William Blake, for example, had a fruitful relationship with flies, as you’ll see in the following poem, and he also sung with his lyre some quite fascinating stuff about dogs, horses and skylarks:

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“Little Fly,
Thy summer’s play
My thoughtless hand
Has brush’d away.

Am not I
A fly like thee?
Or art not thou
A man like me?

For I dance,
And drink, and sing,
Till some blind hand
Shall brush my wing…”

* * * *

“A dog starved at his master’s gate
Predicts the ruin of the State.
A horse misus’d upon the road
Calls to Heaven for human blood.
Each outcry of the hunted hare
A fibre from the brain does tear.
A skylark wounded in the wing,
A cherubim does cease to sing…”

  WILLIAM BLAKE

Thomas Nagel is interested in exploring the idea of animals as beings who experience the world from a different perspective, from a subjective standpoint which differs greatly according to the organism’s complexity and to the various environments that it inhabits. For example, a polar bear and a huge whale like Moby Dick have very different conscious experiences because they’re living where they do: the first in freezing snowy temperatures, the latter beneath the oceans’s rolling waves. But let’s go back to Nagel’s bats:

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“I assume all believe that bats have experience. After all, they are mammals, and there is no more doubt that they have experience than that mice or pigeons or whales have experience. (…) Bats, although closely related to us, nevertheless present a range of activity and a sensory apparatus so different from ours that the problem I want to pose is exceptionally vivid (though it certainly could be raised with other species). Now we know that most bats perceive the external world primarily by sonar, or echolocation, detecting the reflections, from objects within range, of their own rapid, subtly modulated, high-frequency shrieks. Their brains are designed to correlate the outgoing impulses with the subsequent echoes, and the information thus acquired enables bats to make precise discriminations of distance, size, shape, motion and texture – comparable to those we make by vision.” (pg. 168)

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These fascinating and scary creatures, winged mammals who fly speedily in the air, even though they can’t see anything (thus the expression “blind as a bat”), have an existential experience which is quite hard for a human to imagine and that it’s impossible for us to really “live”. How is it like, subjectively, to fly around being a bat and using a sonar for sight? Does our imagination really permit us to truly experience Batness?

And how to avoid scenes of Christopher Nolan’s Dark Knight trilogy, or from the Batman comics, from messing-up our experiment, by appearing on our Hollywood-colonized human-minds, everytime we think of men and bats?

Imagination is limited and usually binds us to a human perspective, argues Thomas Nagel, and to experience what truly is the subjective consciousness of a bat it’s not enough “that one spends the day hanging upside down by one’s feet in an attic.” (pg. 169) Now we’re getting closer to his point: Nagel wants to know “what it is like for a bat to be a bat.” (p. 169)

There seems to exist an abyss of ignorance separating each species, though they all belong to the one and the same Web of Life. We might call this the Abyss of Alterity, but maybe someone needs to be a poet or a mystic to grasp what that means. Thomas Nagel paints a portrait of such an abyss, one we are seldom able to cross, when he writes about men and bats: humans can’t know what it’s like to be inside the skin of a bat, and neither the bat has a clue about how the heck it feels to be a primate such as ourselves. Simply because there’s no bridge that can serve as a means of transportation, from human experience right into bat experience, and vice versa: “even if I could by gradual degrees be transformed into a bat, nothing in my present constitution enables me to imagine what the experiences of such a future stage of myself thus metamorphosed would be like.” (p. 169)

Even an imagination so powerfull and daring as Franz Kafka’s could only reach an anthropomorphized report of what it meant for Gregor Samsa to discover himself living inside the body of a bug. However, for Gregor Samsa, a human mind and a human consciousness are still locked inside the beastly body that he wakes up, in Kafka’s masterpiece The Metamorphosis, suddenly transformed into.

 Thomas Nagel knows perfectly well that one can’t become a bat after being born a monkey, a wolf, a bacteria or a human being, but he also states that human imagination fails to give us any true depiction of the specific subjective character of the experienced subjectivity of creatures of other species  – “it’s beyond our ability to conceive.” (p. 170)

This sets, methinks, epistemology in new grounds and adds a new chapter to the history of Skepticism in philosophy. Nagel’s highly skeptical conclusion – we’ll never really experience what it’s like to be an animal different than the animal we are – also spreads into his consideration of human affairs, where similar abysses of mutual ignorance also exist. For example: “The subjective character of the experience of a person deaf and blind from birth is not accessible to me, nor presumably is mine to him. This does not prevent us each from believing that the other’s experience has such a subjective character.” (p. 170)

If we’re ever to meet extra-terrestrial organisms – be they iron-headed Martians, bizarre aliens from Titan, or other weird creatures from a far-away galaxy… – the same problem would certainly arise: the aliens wouldn’t have a clear perception of what it is like to be a human. Similarly, it would remain as an obstacle for dialogue with the aliens the fact of our human difficulty – or even incapacity –  to truly understand what it is like to be a bat or a whale, a butterfly or an eagle, a worm or a Martian.

Subjectivity, thus, is so highly varied in its manifestations, in its different incarnations, that we must revise our concepts and renew our vocabulary: “subjective” shouldn’t mean only “the personal self”, but some sort of existential perspective that exists in myriads of different ways according to the varied organisms and environments. This “enormous amount of variation and complexity” can be partially explained by Darwin’s theory of Evolution, but what Thomas Nagel seems to be pointing out is this: reality is too complex, its multiplicity is too great, for a mind such as ours, with a language such as we have developed so far, to truly understand it. We’re incapable of an understanding that embraces all subjective conscious experiences of all living beings. This is one of the main problems Nagel’s philosophy deals with, especially in the excellent and mind-boggling philosophy-ride of his book View From Nowhere.

The View From Nowhere

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“The fact that we cannot expect ever to accommodate in our language a detailed description of Martian or bat phenomenology should not lead us to dismiss as meaningless the claim that bats and Martians have experiences fully comparable in richness of detail to our own. It would be fine if someone were to develop concepts and a theory that enabled us to think about those things; but such an understanding may be permanently denied to us by the limits of our nature.” (pg. 170)

Some sort of disconnection between the human animals and the Animal Kingdom as a whole seems to arise, Thomas Nagel argues, from our mind’s incapacity to truly understand any subjective experience that differs too much from ours. This can’t be explained only by biology, by processes of Natural Selection, because Culture intervenes and imposes its systems, its symbols, its values.

In a civilization, for example, where in thousands of supermarkets one can buy the meat of recently killed animals, already packed, frozen and wrapped in plastics, people tend to dissociate their minds from any sort of empathy with pigs, cows or chickens. When it’s barbecue time and the dead bodies of recently killed animals are being grilled, people tend to never think about the slaughterhouses. People rarely pay any mind to what life feels like, when lived subjectively, when the organism’s existential locus, imposed by humans, is a condemnation to be slaughtered for meat.

Great masses of humans, then, devour tons of meat in their barbecues, in their day-to-day lifes they erect myriads of fast-food joints, staining the landscape with McDonald’s-like signs and ads, without caring about the lives of creatures they deem as unimportant matter. They don’t give a damn about what sort of existence the animals that ended up on their plate, or inside the Big Mac, have lived through from birth to bacon.

“This brings us to the edge of a topic that requires much more discussion than I can give it here: namely, the relation between facts on the one hand and conceptual schemes or systems of representation on the other. (…) Reflection on what it is like to be a bat seems to lead us, therefore, to the conclusion that there are facts that do not consist in the truth of propositions expressible in human language. (…) The more different from oneself the other experiencer is, the less success one can expect with this enterprise. (…) A Martian scientist with no understanding of visual perception could understand the rainbow, or lightning, or clouds as physical phenomena, though he would never be able to understand the human concepts of rainbow, lightning, or cloud, or the place these things occupy in our phenomenal world.  (…) Although the concepts themselves are connected with a particular point of view and a particular visual phenomenology, the things apprehended from that point of view are not: they are observable from the point of view but external to it; hence they can be comprehended from other points of view also, either by the same organisms or by others. Lightning has an objective character that is not exhausted by its visual appearance, and this can be investigated by a Martian without vision. And, in understanding a phenomenon like lightning, it is legitimate to go as far away as one can from a strictly human viewpoint.” (NAGEL, Mortal Questions, p. 173)

* * * * *

TO BE CONTINUED…

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