GEORGE ORWELL (1903 – 1959) – “O Que é Fascismo? E Outros Ensaios” (Companhia das Letras, 2017, 160 pgs, R$29,90 na Livraria A Casa de Vidro)

por Eduardo Carli de Moraes || A Casa de Vidro

A liberdade de expressão, que era definida por George Orwell (1903-1950) como “o direito de dizer às pessoas o que elas não querem ouvir”, é um dos ingredientes que torna tão cativantes os escritos do autor de 1984 Revolução dos Bichos. Sem papas na língua, com uma prosa lúcida e sem firulas, sempre corajoso na manifestação de suas opiniões e impressões, o escritor inglês também tem uma significativa produção jornalística e ensaística que se torna cada vez mais disponível ao público brasileiro.

Com o lançamento de “O Que é Fascismo? E Outros Ensaios” (Companhia das Letras, 2017, 160 pgs, compre por R$29,90 na Livraria A Casa de Vidro), que contêm 24 artigos selecionados por Sérgio Augusto, já gozamos de acesso a 3 livros que coletam os ensaios políticos de Orwell – os outros dois são Como Morrem Os Pobres Dentro da Baleia. Além disso, podemos nos deliciar com relatos autobiográficos como Na Pior Em Londres e Paris e com romances excelentes, ainda que menos conhecidos, como A Flor da Inglaterra A Filha do Reverendo. 

Frequentemente descrito como um dos críticos mais perspicazes do totalitarismo, George Orwell defendia o que chamava de “socialismo democrático”. Tal tomada de posição não torna seus artigos na imprensa culpáveis de panfletarismo ou proselitismo. Sem afetar nenhum tipo de neutralidade angelical, aliás inacessível aos animais políticos que somos, Orwell mantêm-se fiel a certos parâmetros éticos que norteiam sua conduta na ação e na escrita, em especial sua convicção de que é preciso respeitar a verdade objetiva e sua noção de que a missão do socialismo é a invenção de uma sociedade baseada na fraternidade humana.

“A história é escrita pelos vencedores”, escreve Orwell em 1944. “Em última análise, nossa única reivindicação de vitoriosos é que caso ganhemos a guerra contamos menos mentiras sobre ela do que nossos adversários. O que é realmente assustador quanto ao totalitarismo não é que ele cometa ‘atrocidades’, mas que agrida o conceito de verdade objetiva: ele proclama que controla o passado tão bem quanto o futuro.” (p. 77)

É só lembrar que, em 1984, o Partido Único que governa a distópica sociedade que têm à sua testa o Grande Irmão também pratica a mentira em escala massificada: o protagonista Winston Smith trabalha no Ministério da Verdade, onde passa seus dias adulterando notícias de jornal e registros históricos de acordo com as ordens da elite, adaptando o passado conforme os interesses da ocasião.

Propondo-se a não mentir sobre nada do que acredita, ponto em ação sua notável capacidade de parrhesía, Orwell tem como um de seus principais temas o pensamento e a prática utópicos. No artigo Socialistas podem ser felizes? (p. 63 a 72), Orwell tece certas reflexões importantes sobre a utopia (“a propósito, a palavra não significa ‘um lugar bom’, mas ‘um lugar inexistente'”) e estabelece sua própria perspectiva socialista democrática em bases sólidas, nada quiméricas, bastante pé-no-chão, sugerindo que as lutas contra as distopias reais são o primeiro passo de qualquer mobilização sócio-política rumo a uma sociedade mais fraternal:

“Sugiro que o verdadeiro objetivo do socialismo não é a felicidade. O verdadeiro objetivo do socialismo é a fraternidade humana. Homens passam suas vidas em dolorosas lutas políticas, ou são mortos em guerras civis, ou torturados em prisões secretas da Gestapo, não para estabelecer algum paraíso com aquecimento central, ar condicionado e iluminação fluorescente, mas porque eles querem um mundo no qual homens amem uns aos outros em vez de trapacearem e se assassinarem reciprocamente. E eles querem esse mundo como um primeiro passo. (…) Neste Natal, milhares de homens estarão sangrando até morrer nas neves da Rússia, ou se afogando em águas geladas, ou fazendo uns aos outros em pedaços com granadas nas ilhas pantanosas do Pacífico; crianças sem-teto estarão vasculhando as ruínas de cidades alemãs em busca de comida. Fazer com que esse tipo de coisas seja impossível é um bom objetivo.” (ORWELL, 2017, p. 70-71)

Estas palavras mostram bem que George Orwell não era um utopista, ou seja, alguém que tivesse proposto um modelo ou arquétipo de sociedade idealizada, mas muito mais um crítico mordaz dos pesadelos reais de que foi contemporâneo em seu tempo histórico. A distopia é o seu terreno, muito mais que a utopia, e certamente ele não fabricou com uma imaginação sem freios os sistemas políticos opressivos e totalitários de 1984 Revolução dos Bichos, mas partiu de realidades que pôde conhecer e nas quais se engajou. Sabe-se bem que Orwell não foi autor de exilar-se das turbulências do mundo em um torre de marfim. Por exemplo: ele fez parte das milícias do Partido Operário de Unificação Marxista (POUM) que insurgiu-se contra a tirania de Franco na Espanha, tendo lutado durante a Guerra Civil Espanhola (1936-1939), tendo sido baleado no pescoço (sobre o tema, escreveu Homenagem à Catalunha).

Com sua inteligência vigilante e seu senso crítico sempre ativo e operante, Orwell, vivendo na primeira metade do século XX, testemunhou a ascensão de lideranças nazi-fascistas como Franco (Espanha), Mussolini (Itália) e Hitler (Alemanha), mas também viu a Revolução Russa de 1917 trair as suas promessas ao transformar-se no pesadelo stalinista, denunciado na literatura por romances como O Zero e o Infinito (Darkness At Noon), de Arthur Koestler, autor que Orwell comenta longamente em um magistral ensaio de 1946, incluído em O Que É o Fascismo? (pgs. 102 a 116).

Somado ao monumental estudo de Hannah Arendt em As Origens do Totalitarismo, a obra de Orwell condensaria a tese de que teriam existido dois totalitarismos neste século que Hobsbawn apelidou A Era dos Extremos: um totalitarismo de direita e outro de esquerda. Seria indigno que nos indignássemos, por exemplo, apenas contra o pesadelo do III Reich e todos os seus holocaustos e atrocidades bélicas, caso silenciássemos sobre os gulags e os expurgos do regime de Stálin; seria indigno criticarmos somente o autoritarismo e a arbitrariedade cruel dos regimes de um Mussolini ou de um Pinochet, mas sem criticar o autoritarismo soviético que esmagou a Primavera de Praga em 1968..

A atitude de Orwell é de crítica ampla e ilimitada a todas as faces da tirania, mas nota-se que ele não menospreza seus adversários: boa parte dos ensaios é dedicado a um debate com poetas reacionários e conservadores, alguns francamente fascistas, como é o caso de Ezra Pound (que aliou-se ao regime de Mussolini). Orwell analisa de modo crítico a obra de um T.S. Eliot e um Yeats, sem cair na falácia de repudiar totalmente suas obras literárias por discordar de suas posições políticas. Chega a admitir que aprecia Louis-Ferdinand Céline como escritor, apesar de seu vociferante e inaceitável anti-semitismo.

Orwell também fala sobre o Mein Kampf de Hitler, destacando que “o que impressiona é a rigidez de sua mente, o modo como sua visão de mundo não evolui”, mas admitindo que “Hitler não teria tido sucesso contra seus muitos rivais não fosse a atração de sua própria personalidade”. Em frases capazes de chocar alguns, escreve: “nunca fui capaz de não gostar de Hitler. Desde que ele chegou ao poder, acho que decerto o mataria se pudesse ter acesso a ele, mas sem sentir nenhuma animosidade pessoal. O fato é que há nele algo que é profundamente atraente…” (p. 29)

Pode parecer estranhíssimo que Orwell confesse que havia em Hitler algo de “profundamente atraente”, mas de fato é um enigma importante de se decifrar: o que constitui o fascínio do fascismo? Como é possível que tanta gente se filie a movimentos fascistas, que tantos soldados tenham sido obedientes às ordens de seus líderes fascistas e que tenham marchado para campos de batalhas onde massacrariam e seriam massacrados?  Que atração é esta que Hitler, Mussolini, Franco ou Pinochet – alguns dos mais célebres estadistas fascistas – puderam exercer sobre seus acólitos? Para Orwell, Hitler sabia fazer uma pose heróica, como se a história fosse uma epopéia, era cheio de posturas “napoleônicas”:

“Se estivesse matando um camundongo ele saberia fazer com que parecesse estar matando um dragão. Sente-se, como no caso de Napoleão, que ele está lutando contra o destino, que ele não tem como vencer, mas que de certa forma ele o merece. A atração de uma pose assim é, obviamente, enorme; metade dos filmes a que assistimos trata desse mesmo tema… Hitler também  captou a falsidade da postura hedonista diante da vida. Quase todo o pensamento ocidental desde a última guerra, com certeza todo o pensamento ‘progressista’, assumiu tacitamente que os seres humanos não desejam nada além de ter facilidade, segurança e evitar o sofrimento. Em tal visão da vida não há espaço, por exemplo, para o patriotismo e para as virtudes militares. O socialista que surpreende seu filho a brincar com soldadinhos costuma ficar aborrecido, mas nunca é capaz de pensar em um substituto para soldados de chumbo; pacifistas de chumbo, de certa forma, não iam funcionar.

Hitler, por sentir isso com força excepcional em sua própria e triste mente, sabe que seres humanos não querem apenas conforto, segurança, poucas horas de trabalho, higiene, controle de natalidade e, no geral, bom senso; eles também, ao menos intermitentemente, querem luta e autossacrifício, e isso sem falar em tambores, bandeiras e desfiles demonstrativos de lealdade. O que quer que possam ser como teorias econômicas, o fascismo e o nazismo são, em termos psicológicos, muito mais sensatos do que qualquer concepção hedonista da vida.” (New English Weekly, 1940, p. 30)

Este é um dos trechos mais questionáveis de todos os que já li de Orwell e sinto necessidade de debatêlo, e até contestá-lo: quando ele busca demolir a “concepção hedonista da vida”, parece compreender por esta expressão algo que pouco tem a ver com a ética epicurista (como se expressa também na obra de Lucrécio ou Horácio) ou com as propostas do materialismo iluminista (Helvétius, por exemplo). Ao falar contra o hedonismo, Orwell parece estar dizendo que o ser humano, longe de ser uma máquina simplória de perseguir o prazer pessoal e imediato, tem uma psiquê mais complexa e que pode admitir o martírio e o autossacrifício, caso acredite que através disso aumentará seu valor pessoal, seja no mercado intersubjetivo dos afetos humanos terrenos, seja no mercado transcendental em que alguns crêem e que pode incluir a noção de que compramos o tíquete de entrada no Paraíso através de certas afrontas que fazemos ao nosso próprio egoísmo.

Para Orwell, os líderes fascistas sabiam muito bem que as pessoas não desejam apenas conforto, segurança e entretenimento – em suma, sofás luxuosos onde deitarem-se para assistir TV enquanto comem salgadinhos com Coca-Cola. As pessoas têm necessidade íntima de sentido e não só prazer, e por isso fascinam-se por projetos que proponham aventura coletiva, heroísmo nacional, filiação e lealdade a projetos que transcendem a individualidade e a vida privada – e esta predisposição psíquica as conduziria a abraçar lideranças fascistas como Hitler. A tese orwelliana, bastante debatível, parece-me um pouco simplista, em especial quando a comparamos com aquilo que foi realizado pela psicologia de massas através de autores como Erich Fromm (O Medo à Liberdade),  Stanley Milgram (Obediência à Autoridade), Wilhelm Reich (Psicologia de Massas do Fascismo). Todas as reflexões de Hannah Arendt sobre o conceito de banalidade do mal parecem-me também de suma relevância.

fascínio do fascismo, segundo estes autores, tem a ver também com uma espécie de auto-demissão da autonomia, praticada por um sujeito que deleita-se em abandonar-se ao comando de algo mais forte que ele, gozando com a hedonê perigosa que é o alívio do senso de responsabilidade. Esta prazeirosa leveza da des-responsabilização, o hedonismo fácil que consiste em seguir o rebanho e ir com o fluxo, Orwell parece não ter considerado em suas incursões rápidas no território da psicologia social. Não se trata, para as massas arrebanhadas pelo fascismo, de anti-hedonismo, mas sim de um irracionalismo grávido de atrocidades onde os sujeitos sentem prazer no aniquilamento da própria autonomia e responsabilidade, mas o fazem, sim, em busca de um prazer pessoal por vezes bastante mesquinho e atroz, já que baseado em larga medida no prazer perverso ou sádico do ódio à alteridade  que o fascismo possibilita que se expresse, dando-lhe o estatuto de legalidade e garantindo-lhe os louvores e as salvas-de-palmas do regime.

Estes temas ganharam uma nova ocasião para reflexão em 1940 quando chegou aos cinemas O Grande Ditador (The Great Dictator), de Charlie Chaplin, obra que é objeto de um dos mais interessantes ensaios de Orwell em O Que É Fascismo?. No filme, Chaplin interpreta dois personagens: Hynkel, o ditador da Tomânia, inspirado em Hitler; e um barbeiro judeu que se torna soldado durante a 1ª Guerra Mundial, sobrevive à queda de seu avião e é trancafiado num hospício por 20 anos. Ao sair do hospício, retornando à sua barbearia, este personagem não sabe dos horrores que estão sendo praticados por Hynkel em seu frenesi antisemita e imperialista.

Após uma série de peripécias, repletas de humor pastelão entremeado com as ocorrências do lodaçal bélico em que a Europa chafurdou, a semelhança física entre Hynkel e o pobre barbeiro oferece ocasião para uma das cenas mais célebres da história do cinema e “o grande momento do filme”:

“A invasão de Osterlich (a Áustria) está prestes a acontecer, e Charlie, que foi preso por resistir às tropas de choque, foge do campo de concentração num uniforme roubado bem no momento em que Hynkel está para cruzar a fronteira. Ele é confundido com o ditador e levado à capital do país conquistado em meio à multidões que o aclamam. O pequeno barbeiro judeu vê-se guindado a um enorme palanque, com cerradas fileiras de dignitários nazistas atrás dele e milhares de soldados abaixo, todos esperando para ouvir seu discurso triunfal. Em vez de proferir a solene fala que dele se espera, Charlie faz um poderoso e combativo discurso em prol da democracia, da tolerância e da decência. É realmente um tremendo pronunciamento, uma espécie de versão do discurso de Gettysburg de Lincoln num inglês de Hollywood, uma das mais fortes peças de propaganda que ouvi em muito tempo.

(…) Qual é o dom peculiar de Chaplin? É seu poder de representar uma espécie de essência concentrada do homem comum, a inerradicável crença na decência que existe no coração de pessoas normais, pelo menos no Ocidente. (…) Mais do que qualquer truque humorístico, assim creio, o poder de atração de Chaplin reside em sua capacidade de reiterar o fato, encoberto pelo fascismo e, muito ironicamente, pelo socialismo, de que vox populi é vox Dei, e que gigantes são uma praga. Não é de admirar que Hitler, a partir do momento em que chegou ao poder, tenha banido os filmes de Chaplin da Alemanha!” (p. 39)

CHARLIE CHAPLIN, O Grande Ditador

Discordo do tom um pouco populista que Orwell utiliza-se para falar que o “homem comum”, as “pessoas normais”, teriam uma “inerradicável crença na decência”: não se trata, aí, de idealização excessiva das classes populares, quando sabemos que existem cúmplices do fascismo em todas as classes e que muitos daqueles que eram funcionários em campos-de-concentração e apertavam botões para soltar o gás letal Zyklon B não eram de classes economicamente privilegiadas?

Ademais, Orwell tem certos arroubos anti-marxistas que parecem inacreditáveis de tão toscos, como quando ele diz que “uma educação no marxismo e em credos similares consiste grandemente em destruir o senso moral” (p. 39), algo que poderia ter sido escrito por algum reacionário direitista apoiador de C.C.C.s (Comando de Caça aos Comunistas). Este “socialista democrático” parecia descrente de qualquer possibilidade de construir uma sociedade onde a felicidade pudesse ser permanente – e boa parte dos artigos reunidos em O Que É Fascismo revelam a crítica orwelliana dos pensamentos e práticas dos utopistas:

“Todos os esforços para descrever uma felicidade permanente têm fracassado, desde a história mais primeva”, sugere Orwell, relembrando alguns intentos utópicos nas obras de H. G. Wells nos anos 1920 como The Dream e Men Like Gods. “Ali se tem uma imagem do mundo como Wells gostaria de vê-lo. É um mundo cujas tônicas são um hedonismo esclarecido e a curiosidade científica.Todos os demônios e todas as misérias que agora nos afligem desapareceram. Ignorância, guerra, pobreza, sujeira, doença, frustração, fome, medo, sobrecarga de trabalho, superstição – tudo desapareceu. Expresso dessa maneira, é impossível negar que é o tipo de mundo que todos nós queremos. Todos queremos abolir as coisas que Wells quer abolir. Mas será que existe alguém que realmente quer viver numa utopia wellsiana?

Ao contrário, não viver num mundo como esse, não acordar um dia num higiênico subúrbio-jardim infestado de rigorosas professorinhas nuas tem se tornado de fato uma consciente motivação política. Um livro como Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley é uma expressão do verdadeiro medo que o homem moderno sente da sociedade hedonista racionalizada que ele tem o poder de criar. Um escritor católico disse recentemente que, em termos técnicos, utopias são agora factíveis e que, por consequência, como evitar uma utopia tornou-se uma questão séria. Com o movimento fascista bem à nossa vista, não podemos descartar isso como se fosse uma mera e tola observação. Pois uma das fontes do movimento fascista é o desejo de evitar que se crie um mundo racional demais e confortável demais…” (ORWELL, 2017, p. 65).

A tentativa de construir uma sociedade perfeita pode acabar atingindo justamente o inverso: a instauração de uma distopia totalitária. Orwell insiste neste tema, comentando livros como o Nós de Zamyatin (pg. 141 a 146) e o Brave New World de Huxley, dizendo que a felicidade permanente de todos não é um objetivo factível, não é algo que possa ser de fato concretizado, é somente uma quimera inútil da qual ele pretende desenganar-nos:

“Quase todos os criadores de utopia se parecem com o homem que está com dor de dente e, por isso, pensa que a felicidade consiste em não ter dor de dente. Eles querem produzir uma sociedade perfeita mediante uma interminável continuação de algo que só foi valioso porque era temporário. Mais sábio seria dizer que há certas linhas ao longo das quais a humanidade tem de se movimentar, que a grande estratégia está mapeada, mas que profecia em detalhes não faz parte de nosso negócio. Quem quer que tente imaginar perfeição simplesmente revela seu próprio vazio.” (p. 72)

Orwell, portanto, está bem distante daquele dreamer evocado por Lennon em “Imagine”. O autor de 1984, vivendo em uma época histórica conturbada por conflagrações bélicas gigantescas, só podia mesmo enxergar com sarcasmo a proposta de que o ser humano chegaria um dia a constituir uma utopia sobre a face da Terra. Sua denúncia das realidades distópicas, porém, segue fornecendo alimento para nossa lucidez e permitindo-nos pensar em lutas necessárias e urgentes por um mundo menos pior. 

A perfeição, de fato, é inacessível, sonhá-la só nos trará desilusão. Trata-se de fazer com que tornem-se impossíveis os horrores e atrocidades que existem de fato nesta realidade em que convivemos e que muitas vezes nos faz pensar em James Joyce e sua frase lapidar: “a História é um pesadelo do qual estou tentando acordar”. Ao evocar um socialismo que é devotado à fraternidade humana, Orwell não fecha a porta à possibilidade de que esta fraternidade também possa manifestar-se como solidariedade no infortúnio, união na miséria, congregação coletiva que imperfeitamente improvisa o improvement de um mundo que, se nunca será perfeito, será sempre aperfeiçoável. Façamos juntos com que torne-se impossível aquilo que hoje é o mais horrível. E que esse seja nosso primeiro passo rumo a outro mundo possível.

Distopia que denuncia o totalitarismo, “1984” de George Orwell não era um manual de instruções…

“O Que é Fascismo? E Outros Ensaios”
(Companhia das Letras, 2017, 160 pgs)
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A LOUCURA DOS NORMAIS – O “Holocausto Brasileiro”: 60.000 mortos no maior hospício do Brasil

“Eles, que foram chamados doidos, denunciam a loucura dos normais.” ELIANE BRUM

I. A INSANIDADE DA ENGRENAGEM

Não há insanidade pior que aquela instituída pelos normais (aqueles que se auto-decretam como tais). Em Barbacena, Minas Gerais, mais de 60.000 pessoas morreram entre os muros do manicômio de Colônia em 18.250 dias de horror. Atravessando o século, esta “tragédia silenciosa”, na expressão de Dani Arbex, talvez seja uma das encarnações mais explícitas, na história brasileira, do significado concreto da “banalidade do mal”, elucidada pelas obras por Hannah Arendt e Stanley Milgram (dentre outros).

selo-premiadoAntes de ler o livro-reportagem de Daniela Arbex, Holocausto Brasileiro, premiado com o prêmio Jabuti, eu julgava um tanto exagerado o título desta que é uma das obras-primas do jornalismo investigativo brasileiro. Pensava que havia sido escolha interesseira, gosto pela hipérbole, sugestão do marqueteiro da editora, ou mesmo uma dose do bom e velho sensacionalismo. Depois de ler o livro inteiro, curtindo o prazer cada vez mais raro – aquele de degustar um trabalho jornalístico responsável, bem-feito, sensível, comovente – acho que Arbex acertou na mosca em seu título.

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Franco Basaglia (1924 – 1980)

Nos livros de Dani Arbex encontram-se cenas da vida real que atestam o que também Foucault percebeu bem: que o “Brasil reproduzia, menos de duas décadas depois do fim da 2ª Guerra Mundial, o modelo dos campos de concentração nazistas.” Arbex inspira-se, para afirmá-lo, no testemunho do psiquiatra italiano Franco Basaglia (1924 – 1980), que visitou o hospício em 1979 e disse: “Estive hoje num campo de concentração nazista”.

Basaglia não foi o único gringo a ficar chocado com Barbacena e seu asilo de loucos: o filósofo francês Michel Foucault, autor de A História da Loucura, visitou Colônia em sua 2ª visita ao Brasil, em 1973, e pode atestar a insanidade da engrenagem que agia naquele moedor-de-gente que era o hospício de Colônia, um “campo de concentração travestido de hospital”. O Colônia atravessou o século XX sendo confortavelmente aceito pelos normais, pelos cidadãos supostamente sãos, que tão costumeiramente são os cúmplices silentes da bárbarie, por seu conformismo e sua obediência às crueldades institucionalizas (quando não são seus agentes diretos).

A leitura de Holocausto Brasileiro revela que os “normais” – tratados com escárnio em uma famosa sitcom brasileira em que entrecenavam Fernanda Torres e Luis Fernando Guimarães – fizeram sobre aqueles que chamavam de “doidos” algumas atrocidades que são de deixar chocado até o mais insensível dos corações-de-pedra.

Do prefácio magistral de Eliane Brum, destaco alguns trechos que revelam o mérito da repórter Arbex ao legar à História do país um relato não só tão preciso e bem documentado, mas também comovente e repleto de empatia:

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“O repórter luta contra o esquecimento. Transforma em palavra o que era silêncio. Faz memória. Neste livro, Daniela Arbex devolve nome, história e identidade àqueles que, até então, eram registrados como ‘Ignorados de tal’. Eram um não ser. (…) Cerca de 70% não tinham diagnóstico de doença mental. Eram epiléticos, alcoolistas, homossexuais, prostitutas, gente que se rebelava, gente que se tornara incômoda para alguém com mais poder. Eram meninas grávidas, violentadas por seus patrões, eram esposas confinadas para que o marido pudesse morar com a amante, eram filhas de fazendeiros as quais perderam a virgindade antes do casamento. Eram homens e mulheres que haviam extraviado seus documentos. Alguns eram apenas tímidos. Pelo menos trinta e três eram crianças.” – ELIANE BRUM (Leia também: Os Loucos, Os Normais, O Estado)

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Em Colônia, usava-se e abusava-se dos eletrochoques, tantos e tão fortes que a sobrecarga derrubava com frequência a rede elétrica do município. Barbacema caía em trevas, literalmente, enquanto os corpos torturados gemiam com os choques. Uma próspera indústria da morte ali também se instalou: cadáveres eram vendidos para as faculdades de medicina das universidades mineiras em Juiz de Fora ou Belo Horizonte: entre 1969 e 1980, nada menos que 1.853 corpos foram ser dissecados em aulas de anatomia após terem perdido a vida em Colônia.

Ali perdia-se a vida pela via da morte prematura – muitos morriam de ataque cardíaco por causa do eletrochoque; muitos, de subnutrição, tuberculose, infecção intestinal; além disso, também perdiam pedaços-de-vida as mães que davam à luz a bebês que eram logo roubados do seio-materno. Encontros e desencontros familiares tecem uma boa parte da narrativa de Arbex, que revela-se bem próxima a Brum em sua tentativa de dar voz aos silentes, lançar luz sobre os invisíveis, através da prática de um gênero literário que poderíamos chamar de “jornalirismo”.

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Reportagem de “O Cruzeiro” (1961)

Holocausto Brasileiro expõe bem as razões que levaram o hospício de Barbacena a ser chamado de A Sucursal do Inferno: eis o título da matéria de 5 páginas que O Cruzeiro dedicou ao tema em 1961. As fotografias de Luiz Alfredo, que ilustravam as páginas d’O Cruzeiro com cenas horríficas, que pareciam saídas do Inferno de Dante, aumentam enormemente o impacto cognitivo-emocional do livro de Daniela Arbex.

Em 1979, o tema voltou à tona, quando pintaram na imprensa uma nova reportagem – “Os Porões da Loucura”, publicada pelo Estado de Minas em 1979 – além do documentário filmado por Helvécio Ratton, Em Nome Da Razão.

II. AS VÍTIMAS DA LOUCURA DOS NORMAIS

Na friaca das madrugadas da Serra da Mantiqueira, em Colônia “os pacientes dormiam empilhados, sendo comum que os de baixo fossem encontrados mortos”; deixados a esmo no pátio da instituição, ociosos e sujos, bebiam somente a água do esgoto, conviviam com ratos, em meio à imundície fétida da urina e das fezes, “num campo de concentração travestido de hospital” (p. 23-25).

De portas abertas desde 1903, o depósito de loucos de Barbacena, instituição estatal com apoio da Igreja Católica, era o maior hospício do Brasil, mas a grande maioria (cerca de 70% dos que foram forçados a viver neste inferno mais pareciam com escravizados e encarcerados do que com doentes mentais. Dani Arbex destaca os vínculos da instituição com a teoria eugenista, que tinha por fim “livrar a sociedade da escória” e que aplicou ao Colônia uma política higienista de “limpeza social”:

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“A estimativa é que 70% dos atendidos não sofressem de doença mental. Apenas eram diferente ou ameaçavam a ordem pública. Por isso, o Colônia tornou-se destino de desafetos, homossexuais, militantes políticos, mães solteiras, alcoolistas, mendigos, negros, pobres, pessoas sem documentos e todos os tipos de indesejados, inclusive os chamados insanos.” (ARBEX, p. 26)

 Primeiras_estoriasDe modo que “trens de doidos” trilhavam os rumos da sucursal do inferno, sob trilhos, até Barbacena, onde os deserdados sociais eram enfim encerrados bem longe do convívio social dito “civilizado”.

Foi o escritor Guimarães Rosa o responsável pelo batismo do transporte – “trem de doido” – que o autor de Grande Sertão: Veredas pôde testemunhar de perto, já que trabalhou como médico militar em Barbacena em 1932. Um dos contos de Primeiras Estórias, “Sorôco, sua mãe, sua filha”, é situado neste contexto.

Excelente para exemplificar os processos, na sociedade brasileira, que produzem o que o sociológo e atual presidente do Ipea, Jessé Souza, chama de “subcidadania”, Holocausto Brasileiro mostra pessoas que, descendo dos trens de doido, tinham sua “humanidade confiscada”. Perdiam não só os cabelos – raspados, como faziam os nazistas com os judeus nos campos como Auschwitz – perdiam também o seu status de humanos, não eram respeitados como gente, viam-se “despidas do passado” (ARBEX, p. 28-29).

A superlotação era a regra neste hospício lata-de-sardinhas onde, no auge populacional do hospital-prisão, os abutres estavam sempre na área, já que davam-lhes de comer cerca de 16 cadáveres humanos frescos a cada dia útil. É vida pra abutre nenhum botar defeito. Tanta gente chegou a estar apinhada em Colônia que a solução da cúpula foi substituir camas por capim. Muitos dos internados não tinham direito a roupas, só a trapos. Literalmente, eram tratados como gado. E gado a ser eletrochocado, e nem sempre (quase nunca!) com “finalidades terapêuticas”.

shock theraphy e a lobotomia – táticas psiquiátricas torturantes, muito denunciadas pelos movimentos anti-manicomiais e de anti-psiquiatria, também objeto de sátira e crítica empreendida desde bandas punk (como os Ramones) até romances beatnik vertidos ao cinema (como o clássico Um Estranho no Ninho, livro de Ken Kesey que deu origem ao filme de Milos Forman). Para Arbex, eletrochoques e lobotomias eram, claramente, não a cura, mas um instrumento de poder, usado para “contenção e intimidação”.

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Terapia ou tortura? Terapia torturante ou tortura terapêutica? É complicado compreender os mecanismos da crueldade humana, os labirintos do sadismo, que Arbex evoca em seu livro em cenas que lembram Louis Ferdinand Céline, Viagem ao Fim da Noite. Sem anestesia, a seco, as “cobaias” humanas, transformadas em sub-gente pela insana engrenagem dos normais, tinham eletrodos colocados em suas têmporas. Muitos morriam de parada cardíaca por causa dos choques em excesso. Os berros de dor, as súplicas pungentes, eram abafadas pela mordaça na boca, que servia também para impedir que a língua da vítima fosse mordida e mutilada.

 Os funcionários? Dariam ótimo ensejo para Stanley Milgram discorrer sobre sua teoria d’A Obediência À Autoridade. Quantas atrocidades de nossa história não foram cometidas por funcionários obedientes a regras que julgavam sórdidas, a comportamentos que os enojavam, mas que por necessidade ou conformismo obedeceram, engolindo um meio atroz com a justificativa de um fim desejado – um emprego, um salário. Os funcionários que Arbex entrevistou manifestam “sensação de impotência diante das atrocidades” e “muitos contam que desejaram denunciar o sistema, mas não havia quem se dispusesse a ouvir.” (p. 43)

Muitos daqueles que aplicavam os eletrochoques o faziam com horror e desgosto, e depois carregaram consigo o peso de “mortes nas cortas” – há funcionários que angustiam-se por décadas por sentirem que foram cúmplices e artífices de atrocidades. Além dos choques, tão frequentes a ponto de causar blecautes na cidade, e das lobotomias – “a intervenção cirúrgica no cérebro para seccionar as vias que ligam os lobos frontais ao tálamo era recorrente no Colônia” (p. 51) – também praticava-se ali um esquema de gulag “stalinista”, envolvendo trabalho forçado, isto é, escravo.

O trabalho escravo dos “doidos” de Barbacena pagava as contas do manicômio: “em 1916”, descobriu Dani Arbex, “quase metade da receita do hospital foi garantida pelo suor dos pacientes e pela venda dos alimentos que eles plantavam.” (p. 60) A Lei Áurea de nada valia aos poderes de então, que tal como hoje não cessam de impor a suas vítimas a sub-cidadania, a sub-humanidade. Para não deixar dúvidas de que é oportuno o paralelo entre o Colônia e um campo de concentração totalitário, Arbex insiste, mesmo correndo o risco de seu livro tornar-se muito tétrico e perder alguns dos leitores mais suscetíveis, de levar-nos, leitores, para fazer turismo no cemitério.

O Cemitério da Paz, cheio de camisas-de-vênus esporradas e utensílios usados pra cheirar crack, é um espaço de 8,000 metros quadrados que abriga os cerca de 60.000 mortos de Colônia:

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“Enterrados em covas rasas, as vítimas de tratamento cruel não alcançaram respeito nem na morte.”
(Daniela Arbex)

Para além dos enterrados em covas rasas, o comércio de cadáveres foi prática corrente: a Universidade Federal de Juiz de Fora comprava cada corpo pelo equivalente a R$ 364. Esta macabrindústria tétrica chegou à cifra de 1.823 corpos vendidos para 17 faculdades de medicina entre 1969 e 1980 (a UFGM, por exemplo, “comprou defuntos” que somaram 543 em 10 anos). Nenhum familiar autorizou este processo. O total de corpos mortos comercializados, segundo o cálculo mórbido do qual Arbex não pode escapar, dá a cifra de R$ 600.000. Não será surpresa a qualquer estudioso da História a conclusão: quase sempre, a crueldade institucionalizada não acaba pois dá lucro… 

Diante disso, Dani Arbex produz um jornalismo que “vem contribuindo para ajudar os socialmente mudos”, como disse Ivanzir Vieira. Mostra que a maioria das pessoas que eram forçadas a entrar nos “trens de doido”, de que fala Guimarães Rosa, e que eram abandonadas à sua própria sorte (ou melhor, a um tremendo azar), eram “filhos da pobreza”. Desajustados sociais que a insanidade dos normais lançava a uma espécie de purgatório, edificado com base em ideologias eugenistas, racistas, elitistas, classistas. As vítimas da insana engrenagem eram obrigadas a dormir amontoadas, pra se aquecerem no frio da Mantiqueira, durante anos e anos de martírio, comendo rango azedo, sofrendo vivências que tem lá suas similaridades com a crônica carcerária do “Diário de um Detento” dos Racionais MCs.

O psiquiatra Ronaldo Simões Coelho, que foi cicerone de Michel Foucault no turismo-pela-loucura-em-MG, denunciou o Colônia por sua “crueldade planejada” e fez críticas tão duras que lhe custaram o emprego: “No hospício, tira-se o caráter humano de uma pessoa, e ela deixa de ser gente. É permitido andar nu e comer bosta, mas é proibido o protesto, qualquer que seja a sua forma.” (ARBEX, p. 200)

Já o cineasta Helvécio Ratton (de Batismo de Sangue Uma Onda no Ar), autor do documentário Em Nome Da Razão em 1979, que estudou psicologia na PUC-Rio e durante a Ditadura exilou-se no Chile, disse sobre o Colônia, dentro do qual filmou por 8 dias: “como é que a sociedade permite que as famílias e a medicina despejem pessoas neste depósito de lixo humano?”

Uma pergunta que ecoaria em Bicho de Sete Cabeças, o filme de Laís Bodansky baseado em obra de Austregésilo Carrano Bueno, Canto dos Malditos.

BSC

Na resenha do Le Monde Diplomatique sobre o livro de Arbex, a relevância desta obra foi bem acentuada: “no momento em que a Comissão da Verdade se debruça sobre os crimes cometidos por agentes do Estado durante a ditadura civil-militar e em que se discute a desmilitarização da Polícia Militar, a jornalista Daniela Arbex traz ao debate outro grande crime cometido pelo Estado brasileiro durante o século XX: a morte de ao menos 60 mil pessoas no Hospital Colônia de Barbacena, em Minas Gerais. Embora o foco principal sejam as vítimas do horror de décadas de maus-tratos a quem dá voz, a obra faz um estudo completo do hospital, de seus funcionários, algozes, cúmplices e do modus operandi do genocídio” (Tatiana Merlino, Jornalista, em resenha publicada no Le Monde Diplomatique Brasil: leia aqui).

 Na mesma vibe, cito a conclusão de Holocausto Brasileiro, que tento sintetizar nos dois parágrafos citados abaixo, em que Daniela Arbex argumenta – com sucesso, a meu ver – em prol da atualidade e interesse perene de seu livro:

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“Apesar dos equívocos e acertos na construção de um novo paradigma para a saúde pública, a loucura ainda é usada como justificativa para a manutenção da violência e da medicalização da vida. É como se a existência pudesse ser reduzida à sua dimensão biológica e para todos os sentimentos existisse um remédio capaz de aliviar sintomas e de transformar realidade em fuga. (…) Tragédias como a do Colônia nos colocam frente a frente com a intolerância social que continua a produzir massacres: Carandiru, Candelária, Vigário Geral, Favela da Chatuba são apenas novos nomes para velhas formas de extermínio.

O fato é que a história do Colônia é a nossa história. Ela representa a vergonha da omissão coletiva que faz mais e mais vítimas no Brasil. Os campos de concentração vão além de Barbacena. Estão de volta nos hospitais públicos lotados que continuam a funcionar precariamente em muitas outras cidades brasileiras. Multiplicam-se nas prisões, nos centros de socioeducação para adolescentes em conflito com a lei, nas comunidades à mercê do tráfico. O descaso diante da realidade nos transforma em prisioneiros dela. Ao ignorá-la, nos tornamos cúmplices dos crimes que se repetem diariamente diante de nossos olhos. Enquanto o silêncio acobertar a indiferença, a sociedade continuará avançando em direção ao passado de barbárie. É tempo de escrever uma nova história e de mudar o final.” – Daniela Arbex, p. 254-255

Por Eduardo Carli de Moraes, 13/04/2016

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MANIPULAÇÃO MIDIÁTICA & ANALFABETISMO POLÍTICO – O papel(ão) da mídia corporativa na crise política brasileira [por Eduardo Carli de Moraes]

O Brasil parece empenhado em dar provas, às mancheias, da tese de Joseph Pulitzer (1847 — 1911): “Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma”.  Vale lembrar que “pela Constituição brasileira os meios de comunicação são concessão do Estado e deveriam atender aos interesses universais e não privados”, como lembra a reportagem da Carta Maior.

Porém, o abismo entre a nossa realidade e o nosso ideal constitucional escancara-se em nosso país onde a comunicação social tradicional é controlada por mega-corporações capitalistas chefiadas por 5 ou 6 grandes famílias. Dando nome aos bois – ou melhor, aos magnatas – vivemos sob o poderio midiático excessivo (e absolutamente desproporcional aos (des)serviços prestados ao bem comum) dos Marinho, da Globo; de Edir Macedo, da Record; de Silvio Santos, do SBT; dos Civitas (do Grupo Abril, que publica a revista de maior vendagem no país, a Veja); dos Frias (Grupo Folha); dos Mesquita (O Estado de S. Paulo) (Saiba mais: BBC Brasil). 

“A imprensa empresarial privada e monopolizada é, por definição, anti democrática. Vale dizer, atende aos interesses de grupos e não aos interesses da sociedade no seu conjunto. O argumento de que o controle social da mídia é censura dissimula o caráter de censura da grande mídia empresarial ao pensamento divergente, fermento da ordem democrática. Os estudos acadêmicos sobre o caráter parcial, direcionado, seletivo da grande mídia monopolizada são abundantes. No plano internacional, as análises de um dos maiores sociólogos do Século XX, o francês Pierre Bourdieu, e do linguista e cientista político Noam Chomsky, mostram o quão parcial e demolidora dos direitos à informação livre é a mídia monopolizada mundialmente.” (FRIGOTTO, G. A Mídia Empresarial e a Corrosão dos Valores Democráticos, na Revista Carta Maior

Atual presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o sociólogo Jessé de Souza escreveu em Carta Capital um artigo notável em que desvenda um pouco da maquinaria daquilo que chama de “o golpe midiático-jurídico”, em curso e em despudorada ascensão, que conecta-se explicitamente a uma tendência social fascista:

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“O fascismo não nasce da noite para o dia. Ele vai crescendo no dia a dia contando com nosso medo, nossa ingenuidade real ou midiaticamente construída e nossa pusilanimidade.  A atuação da mídia conservadora dominante entre nós é abertamente fascista ainda que, aqui e acolá, se publique a opinião de alguém da esquerda para se tirar onda de imparcial.

(…) Ao invés de esclarecer a complexidade dos interesses sociais em disputa, a mídia conservadora os encobre e cria bodes expiatórios como a corrupção apenas estatal e de apenas um partido. É um jornalismo que não educa seu público de leitores, nem eleva sua capacidade de compreensão. Ao contrário, os mantêm cativos no mundo da repetição e da manipulação e não do aprendizado. O problema é que o povo hoje imbecilizado pode se lembrar que um dia foi inteligente e começar a pensar por si próprio. Nunca a manipulação midiática ficou tão óbvia quanto agora.

O mote desde 1954 deste mesmo jornalismo – inclusive com os mesmos órgãos de imprensa que atuaram no suicídio de Getúlio e no golpe contra Jango em 64, atuando também no mesmo sentido social e político no “lava jato” de hoje –  é a “corrupção seletiva”. Por exemplo: os esquemas de corrupção em empresas estatais existem há décadas, mas só interessam as do período recente e, assim por diante, de fio a pavio um óbvio e escancarado “interesse seletivo” no combate à corrupção.

Parece impossível que exista alguém tão imbecilizado pelo veneno midiático que não perceba o real sentido deste jogo. “Seletividade”, aliás, é a palavra chave deste golpe. Mas o desespero dos “golpistas irmanados” com a queda no seu “ibope” e no interesse do público – afinal a operação é “midiática” – os fez ultrapassar todos os limites do razoável. (…) A imprensa conservadora é o real braço partidário da ínfima elite do dinheiro que tem também “no bolso” boa parte do Congresso Nacional para a defesa de seus interesses. Mas para “legalizar” o golpe é necessário se encontrar uma “aparência” de legalidade.

Os militares cumpriram esse papel no passado. Agora são os interesses corporativos de aparatos estatais que deveriam zelar pela ordem jurídica – suprema ironia – que se travestem de supostos defensores da “higiene moral da nação” – outra óbvia ideia fascista que nunca acabou bem em nenhum caso histórico – para garantir privilégios corporativos e se apropriar da “agenda de Estado” e, assim, mandar sem voto.” (JESSÉ DE SOUZA, O golpe midiático-jurídico e sua noite dos cristais)

Fora do Brasil, alguns dos melhores analistas da geopolítica também já forneceram boas análises do “golpismo midiático”, caso de Glenn Greenwald, jornalista escolhido por Snowden para revelar ao mundo a espionagem do governo americano via NSA (National Surveillance Agency):

“A mídia corporativa brasileira age como os verdadeiros organizadores dos protestos e como relações-públicas dos partidos de oposição. (…) Para se ter uma noção do quão central é o papel da grande mídia na incitação dos protestos: considere o papel da Fox News na promoção dos protestos do Tea Party. Agora, imagine o que esses protestos seriam se não fosse apenas a Fox, mas também a ABC, NBC, CBS, a revista Time, o New York Times e o Huffington Post, todos apoiando o movimento do Tea Party. Isso é o que está acontecendo no Brasil: as maiores redes são controladas por um pequeno número de famílias, virtualmente todas veementemente opostas ao PT e cujos veículos de comunicação se uniram para alimentar esses protestos. Resumindo, os interesses mercadológicos representados por esses veículos midiáticos são quase que totalmente pró-impeachment e estão ligados à história da ditadura militar.” (GLEN GREENWALD, Leia a matéria completa em Geledés)

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Ilustração: Carlos Latuff

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Pig 2É por essas e outras que o próximo dia 1º de Abril – data ilustre no Brasil, pois é tanto o Dia da Mentira quanto a data de início da Ditadura Empresarial-Militar de 1964-1985 – promete ser “quente” na frente das sedes da mais poderosa empresa midiática brasileira. A Rede Globo, mancomunada com outras empresas poderosas da mídia brasileira, todas elas integrantes da elite econômica e que agem de modo cada vez mais aberto como Partido de Oposição (o “P.I.G.” – ou Partido da Imprensa Golpista, satirizado em tantas charges de Latuff), querem que esqueçamos a história lamentável de autoritarismo que marcam, como nódoas de sangue, a suposta brancura dessa mídia plutocrática e manipuladora. Como lembra o artigo do Coletivo Intervozes, para Carta Capital:

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“Ilude-se quem acredita que à imprensa coube apenas cobrir as manifestações do dia 13/03, espalhadas nos 26 estados da federação e no Distrito Federal. A mídia foi um componente central de sua própria concretização. Algo que se deu não só com a vinheta do “Vem Pra Rua”, tocada ao longo de 24 horas por dia na Rádio Transamérica de São Paulo, ou com o assustador editorial do Estadão deste domingo, que convocou “os cidadãos de bem” a “mostrar seu poder inequivocadamente”, valendo-se, para isso, de uma série de adjetivos e acusações de crimes que não apenas negava, mas destruía seus opositores.

Esses são exemplos claros da atuação midiática. A formação da opinião pública, contudo, pode ser um processo sutil. Não precisa transpirar ódio – aliás, é melhor que não o faça, senão o jogo fica muito descarado. Vale mais apostar em frases simples repetidas à exaustão e na invisibilização de opiniões divergentes – rasgando qualquer manual de bom jornalismo. Foi o que assistimos pelo menos nos últimos 15 meses, quando a mídia, de forma sistemática, colou a ideia da corrupção em apenas determinados grupos e consolidou a avaliação de que este é ‘o pior governo de todos os tempos’. Isso culminou em narrativas capazes de convencer qualquer ‘cidadão de bem’ de que sua obrigação cívica, neste dia 13, era mesmo ir para as ruas.” (Bia Barbosa e Helena Martins, na Carta Capital: http://www.cartacapital.com.br/blogs/intervozes/o-papel-da-midia-nas-manifestacoes-do-13-de-marco)

Vale lembrar, é claro, que “Cidadão de Bem” era o nome do jornal da Klu Klux Klan, organização racista que perpetrou inúmeras atrocidades contra minorias estigmatizadas nos EUA. É bastante bizarro ver uma mídia já condenada na Justiça por corrupção – como a Globo, notória sonegadora de impostos – nesta cruzada contra a corrupção onde acirra os ânimos dos “cidadãos de bem” para que destruam sem misericórdia o governo de Dilma Roussef, re-eleita com mais de 54 milhões de votos nas últimas eleições presidenciais.

Distopia que denuncia e satiriza o Totalitarismo, "1984" de George Orwell não era um manual de instruções

Distopia que denuncia e satiriza o Totalitarismo, “1984” de George Orwell não era um manual de instruções…

A desinformação propagada pela mídia corporativa tem que “responder”, inclusive criminalmente, pelos intentos golpistas e dogmaticamente partidários com que promove suas manipulações de massas de manobra e suas lavagens cerebrais ideológicas. A mídia vem agindo sobre os telespectadores um pouco como as teletelas de 1984, por toda parte espalhadas  na sociedade totalitária gerida pelo Partido do Grande Irmão, no romance de George Orwell (e bem sabemos que 1984 era um alerta em formato distopia, e não um manual de instruções!).

A mídia têm muita responsabilidade na “banalidade do mal” que já está entre nós: o de fascistas saindo do armário, defendendo abertamente o golpe de estado através da intervenção militar, a pena-de-morte pra “vagabundo”, a disseminação da posse das armas de fogo (tendo como modelo a trigger-happy-land dos Yankees), a diminuição da maioridade penal (que incidirá, é claro, somente sobre pobres e favelados…), o avanço dos presídios privados, a entrega do pré-sal aos interesses do capital internacional dos oilmen etc. Também há culpa no cartório dos paladinos da mídia na atual onda de rubrofobia, satirizada e criticada por Alceu Castilho: é uma nova encarnação da idiotia do fascismo tupiniquim, que como um touro irracional começa a atacar com agressividade qualquer pano vermelho.

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“O rubrofóbico tem intolerância aos comprimentos de onda mais longos (entre os visíveis): a cor vermelha. Fica agressivo ante à possibilidade – que ele imagina muito concreta – de a bandeira brasileira ser tingida dessa forma. Nesses poucos segundos ele decide que os jovens na Esplanada dos Ministérios, todos do movimento negro, são petistas; e que, portanto (raciocina ele), devem portar alguma assinatura cromática. “A nossa bandeira nunca será vermelha”, grita. E cospe no diretor de Combate ao Racismo da União Nacional dos Estudantes (UNE), Rodger Richer. Cospe.

A cena ocorreu no domingo (13/03/2016). E não foi a única em Brasília. Outros ativistas do movimento negro foram vítimas dessa violência específica – conjugada com o mais puro racismo. E não seria preciso mais nenhum exemplo para caracterizar a consolidação desse formato brasileiro de fascismo explícito: uniformizado (com usurpação das cores verde e amarela), uma raiva taurina de determinados oponentes (filiados a determinado partido, negros, usuários de camisetas vermelhas), um ódio espumante, a disposição à violência e à exclusão. Gente perigosa, portanto.

Esse tipo de fascismo afirmou-se em 2013, durante as manifestações que começaram reivindicando passe livre e acabaram como ponto de encontro da extrema direita. Vem se consolidando em duas frentes: a violenta e a patética. A face violenta é intrínseca, fruto de uma intolerância conhecida em setores mais extremistas das torcidas de futebol. A face patética comporta cenas que seriam risíveis, não trouxessem embutidas essa violência discriminatória e sem limites. (…) É conveniente para alguém que essa insanidade se alastre?” (CASTILHO, A. Rubrofobia: fascismo brasileiro consolida sua intolerância bruta a uma cor, In: Outras Palavras)

Quem é que ajudou a chocar o ovo da serpente deste fascismo, hoje em disseminação, senão esses oligopólios midiáticos, repletos de indignação seletiva, incitadores de linchamentos, prontos ao discurso de ódio, à difamação e à conclamação à caça-às-bruxas quando se trata de derrotar adversários políticos? Nesta perspectiva, não vejo muita diferença qualitativa entre âncoras como Raquel Sherazade e Datena, que são abertamente facínoras-de-direita, e os William Bonners deste mundo, muito polidos e engravatados em seu golpismo elitista de burgueses bem aprumados. Uma das jornalistas independentes mais relevantes e mais lidas do Brasil, Cynara Menezes – a Socialista Morena – escreve:

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“Há cinco anos venho alertando para o perigo do crescimento da extrema-direita no Brasil. A concepção de que ‘contra o PT vale tudo’ levou os meios de comunicação a alimentarem (de)formadores de opinião que, sob a desculpa da liberdade de expressão, se acham no direito de dizer barbaridades e incentivar o ódio à esquerda. Colunistas, articulistas e apresentadores reaças ganharam espaço na TV, em revistas e nos jornais. Todos eles exemplares da direita furiosa, que espuma pela boca. Perfeitos imbecis perfeitamente incorretos que acham normal justiceiros atarem menores infratores a postes ou que se acham no direito de perseguir minorias e defender as torturas na ditadura militar. São estes ‘exemplos’ que estão influenciando nossos jovens e é isso que está se refletindo nas ruas e nas redes sociais, infestadas de agressores.

A oposição, representada sobretudo pelos tucanos, uma espécie de alterego da velha mídia, faz o mesmo desde 2010, quando José Serra, desesperado para ganhar a eleição, se aliou a fundamentalistas religiosos que acusavam a então candidata Dilma Rousseff de ser ‘abortista’. No Congresso, sedentos pela volta ao poder, os tucanos se articularam com o que há de pior na política brasileira: os mesmos fundamentalistas religiosos com suas pautas da Idade Média e também os ruralistas, aquela gente que quer exterminar os índios e nos empurrar agrotóxicos e transgênicos goela abaixo. Sempre oportunista, o PSDB não teve pruridos em se juntar até mesmo ao presidente da Câmara, Eduardo Cunha, o fundamentalista religioso homofóbico que tem contas na Suíça.

Mas, como adverti, chocar o ovo da serpente é complicado, porque periga a cobra se voltar contra o criador. Cría cuervos y te sacarán los ojos, diz um velho ditado espanhol que gosto de lembrar. Cria corvos e te arrancarão os olhos. Não deu outra. No domingo 13, o candidato derrotado Aécio Neves, o governador Geraldo Alckmin e outros políticos do PSDB foram escorraçados da avenida Paulista aos gritos de “ladrão, ladrão” pelo mesmo grupo que ajudaram a insuflar. Na quarta-feira 17, mesmo liberando a Paulista para os manifestantes, ao contrário de reprimi-los, como fez com os estudantes das escolas ocupadas, o secretário de segurança de Alckmin teve seu carro chutado e acabou expulso da manifestação.

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Desde que se anunciou a indicação do ex-presidente Lula para a Casa Civil, os ânimos se acirraram ainda mais. Nos telejornais, as emissoras regem as manifestações. Na noite em que foi divulgado que Lula aceitara o convite para integrar o governo, o canal GloboNews começou a abertamente convocar pessoas para irem às ruas. No domingo anterior, em editorial à imagem e semelhança dos publicados às vésperas do golpe de 1964, o jornal O Estado de S.Paulo dizia: “Basta!” E convocava os “brasileiros de bem” a ir às ruas para ajudá-los a derrubar a presidente legitimamente eleita.

O resultado disso tem se mostrado diante das câmeras das próprias emissoras: pessoas sendo atacadas pelos tais “brasileiros de bem” apenas por usarem camisetas vermelhas ou se dizerem favoráveis ao PT, a Lula e a Dilma. Um rapaz de bicicleta vermelha foi agredido na avenida Paulista por “ter cara de petista”; o mesmo aconteceu com um casal de namorados; também em São Paulo, um menino de 17 anos recebeu tapas na cabeça e por pouco não foi espancado por dizer “não vai ter golpe”; em Caxias do Sul, um grupo de manifestantes pró-impeachment acossou um rapaz de camiseta vermelha, acompanhado de uma mocinha, na parede; e, em Brasília, os verde-amarelos gritavam “Comunistas!” “Desocupados!” “Vagabundos!” para os apoiadores de Dilma e do ex-presidente.

Vivemos dias tenebrosos. Ninguém pode prever o que será de nosso país. Empenhado em prender Lula e derrubar Dilma, o consórcio mídia-oposição parece disposto a continuar chocando o ovo da serpente, sem a menor responsabilidade para com o futuro do Brasil. Amanhã, dia 18 de março, haverá manifestação da esquerda em todo o país. Os reacionários não foram perturbados em seu protesto do dia 13 e puderam pedir “intervenção militar” e outros absurdos tranquilamente. Saberão fazer o mesmo, respeitar a presença maciça da esquerda, vestida de vermelho, na rua? E a oposimídia, saberá controlar seus fascistas de estimação ou eles estão realmente fora de controle? Quem é mesmo que está querendo transformar o Brasil numa Venezuela, afinal?

O mais preocupante é saber que, se algo de mais grave acontecer, nem a mídia nem a oposição serão capazes de admitir sua parcela de responsabilidade no clima ruim que está nas ruas. Sempre poderão alegar que é “culpa do PT”. (MENEZES, Cynara. Mídia e oposição perderam o controle de seus fascistas de estimação. Por Socialista Morena / Cynara Menezes. [http://bit.ly/1R88BIQ])

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Este desserviço cotidiano perpetrado pela mídia contra a mente dos brasileiros submetidos ao seu besteirol imbecilizante e às suas manipulações ideológicas reducionistas e interesseiras talvez explique o grau de analfabetismo político que manifesta-se por aí, nas ruas e nas caixas de comentários. Que está lá, inclusive, em uma coluna da Folha De S. Paulo, onde o inacreditável “líder mirim da Direita”, Kim Kataguiri, compara a massa de brasileiros na Avenida Paulista com peças necessárias para montar o Super-Robô dos Power Rangers:  “Com seis anos, eu lutava contra monstros que eram derrotados e voltavam gigantes. Lula, depois de ter sido derrotado no mensalão, voltou ainda maior no petrolão. Os Rangers uniam-se e fundiam seus veículos para compor o robô gigante. Precisamos de algumas centenas de milhares de brasileiros para montar o nosso.” (FSP)

Beira o inacreditável que o, por assim dizer, “movimento Fora Dilma” possa levar a sério, e com credulidade e obediência, toda essa imaturidade e idiotismo político que vaza da boca de Kataguiris e congêneres. E o mais surpreendente é que um jornalão como a Folha de São Paulo desses permita-se o mico editorial de ter entre seus colunistas um “pensador político” (digamos assim…) deste nível – sabemos que ele não é exatamente o novo Maquiavel ou Marx… – lado a lado com alguns dos melhores pensadores do Brasil contemporâneo, como Guilherme Boulos e Vladimir Safatle. 

Há muitos exemplos tragi-cômicos desta situação: uma pesquisa realizada por Pablo Ortellado e Esther Solano, na Avenida Paulista, durante a mega-manifestação do dia 15 de Março de 2015, revelou as seguintes “opiniões”, sintomáticas do quadro endêmico de desinformação midiática e analfabetismo político de certa fatia dos paulistas (aquela gente que tomou  conta, ruidosamente, uniformizados com camisetas da CBF e agraciados com o filé mignon da FIESP, bradando contra os “petralhas” na Av. Paulista em 15/03/2015 e em 13/02/2016):

Analfabetismo Político

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Um bom comentarista do quadro desta “classe mérdia” que se aferra a seus privilégios e deseja ser elite é, novamente, o presidente do Ipea, Jessé Souza [http://bit.ly/1pk7leB], que teve um perfil interessante traçado pela seguinte matéria da Geledés – Instituto da Mulher Negra:

Os últimos seis meses foram de tormentas para o sociólogo potiguar Jessé Souza, 55 anos. Sua obra – até então festejada nos redutos acadêmicos – tem saído das estantes direto para as mãos daqueles que procuram uma explicação para o caos econômico e político em que se meteu o país. O que diz nem sempre agrada. Algumas polêmicas rendem réplicas e tréplicas nas páginas dos jornais, acrescidas de golpes baixos nas redes sociais e menções nas apaixonadas rinhas políticas da era Lava Jato. “Até agora, só me xingaram. Estou à espera de um debate de verdade”, provoca o autor de A tolice da inteligência brasileira, A ralé brasileira e de Os batalhadores brasileiros.

Entre suas teses que mexem com o juízo dos detratores está a de que o maior problema do Brasil não é a corrupção – como proclamam multidões em fúria, alguns decibéis acima do normal –, mas a desigualdade. Séculos de convivência com diferenças oceânicas entre ricos e pobres teriam naturalizado a violação de direitos mais básicos e o sistema de privilégios para o 1% de endinheirados. Nada de novo, não fosse o desdobramento de sua afirmação.

Para Souza, paralelo às redes de indignação o que pulsa é o desejo de desmanchar políticas sociais nascidas de diminuir as distâncias entre os brasileiros. Não vem de hoje. Foi assim com Vargas, com Jango e agora com Dilma. As classes médias, afirma, se rendem ao discurso moralizador sem perceber que estão sendo usadas pelos donos do capital. Julgando se diferenciar dos corruptos, nada mais estariam fazendo do que o jogo dos grupos que reivindicam um Estado que funcione a seu favor. Ao bater as panelas da moralidade, entende, os médios alimentam a ilusão de que estão mais próximos das elites, com as quais estabelecem um misto de admiração e ressentimento. “É uma relação sadomasoquista”, resume. (GELEDÉS, Leia a matéria completa em: Para Jessé de Souza, classe média é sadomasoquista ao apoiar elites @geledes on Twitter | geledes on Facebook)

Já passou da hora dos movimentos sociais focarem sua ação direta também na urgente necessidade de uma revolução nesta mídia plutocrática e estupidificante. Ela gera em seu público uma atitude de gangue e faz mal ao debate cívico nacional tornando a ágora repleta de papagaios acríticos de Constantinos e de Diogos Mainardis, de Olavos de Carvalho e de Lobões esbravejantes. A mídia golpista é uma sórdida cúmplice de nosso quadro de analfabetismo político grotesco. E é como manifestação de extremo analfabetismo político que vejo muitas das atitudes daqueles que lançam-se, fanáticos, à campanha do impeachment de Dilma Rousseff, com uma visão curta, imediatista e encegada por uma histeria midiaticamente condicionada.

Como se Dilma fosse um novo Collor – uma falsa analogia e péssima igualação histórica entre cenários completamente diferentes. Para começar, quantos brasileiros saíram às ruas para defender Collor no auge do movimento civil por sua destituição? Nem mesmo cem gatos pingados. Em 18 de Março de 2016, porém mais de 1 milhão e 500 mil brasileiros repudiaram nas ruas o golpismo paraguaiano contra Dilma e celebraram a nomeação de Lula como Ministro da Casa Civil.

Mc Sofia no palco Canto da Democracia em São Paulo!

MC Sofia, de 11 anos, faz um rap no palco @ Canto da Democracia, em São Paulo, 18 de Março de 2016, Avenida Paulista.

Recife

200 mil nas ruas em Recife/Pernambuco. 18/03/2016.

sp 18

18/03/2016: “Canto da Democracia” leva 500 mil pessoas à Av. Paulista

VÍDEO RECOMENDADO:  Juca Ferreira, Ministro da Cultura, recomenda o vídeo da Mídia NINJA: “Alta potência. O coro das ruas em defesa da democracia e do resultado das urnas.” ‪#‎VemPraDemocracia‬ASSISTA JÁ >>> Mergulhe em cenas do histórico dia 18 de Março de 2016, quando éramos mais de 1,5 milhão de brasileiros nas ruas, e ouça as palavras de Lula proferidas perante mais de 500 mil cidadãos na Avenida Paulista (não, neste dia não havia nenhum vidiota de joelhos diante do Pato da Fiesp…)

Muitos daqueles que querem o impeachment o fazem sem nem parar para pensar se há qualquer prova de desvio de verba pública ou dano ao bem comum praticado pela presidenta (não, não há nada além das comuníssimas “pedaladas fiscais”). Esbravejam de modo acéfalo em prol do impedimento, sem perceberem que são títeres de uma corja elitista de corvos corruptos, que deseja chegar ao poder e parar as investigações em que estão profundamente comprometidos: Aécio, Cunha, Serra, Renan, Temer… é esta a aristocracia ideal com a qual vocês sonham, ó Coxanato que papagueia o Califado Midiático? É essa a corja que vocês querem vocês que nos (Des)governe?!? Em texto publicado na Folha de São Paulo,  13/03/2016, Lindbergh Farias bradou, em tom destoante do establishment do jornal, que o “Golpe está fadado ao lixo da história”. Ele argumentava:

Vitor Teixeira 2

“A peça de impeachment contra Dilma, que o Brasil inteiro viu Eduardo Cunha acolher por pura vingança, é incapaz de citar um único fato desabonador de participação direta da presidente. É público e notório, e até os juristas defensores do impeachment admitem envergonhados, inexistir comprovação de dolo ou participação direta da presidente em quaisquer crimes. (…) Dilma não cometeu crime e é muito mais honesta que seus algozes. O que existe são denúncias vazias em torno das tais “pedaladas fiscais”. Caso pedaladas acarretassem perda de mandato, a maioria dos governadores e prefeitos de todos os partidos igualmente seria cassada. Foi e é prática corriqueira.

(…)  Participei ativamente da campanha pela destituição de Fernando Collor. Posso testemunhar que a proposta de impeachment só prosperou após serem colhidas, por uma CPI Mista do Congresso, provas documentais e testemunhais de contas fantasmas administradas por PC Farias, que, entre outros delitos, repassava dinheiro para cobrir gastos pessoais, inclusive para subsidiar despesas da residência oficial. Contra Dilma não há nada. Pode-se discordar de seu governo, mas ninguém contesta sua honestidade. Não existem, portanto, parâmetros históricos de comparação entre as campanhas de impeachment de Collor, em 1992, e as tentativas canhestras de deposição de Dilma.

BolsomitosNa época, o Brasil uniu-se para afastar Collor. As provas eram claras para todos. A campanha do impeachment de hoje divide tragicamente o país, criando uma crise política permanente e paralisando a economia. Decidiu-se primeiro que Dilma não pode governar. Buscou-se depois um pretexto qualquer para o impeachment. Neste domingo (13/03/2016) ocorrerão manifestações em todo o Brasil. Respeito todas por formação democrática. Discordo democraticamente, todavia, de quem não se constrange em participar de passeatas com Bolsonaros da vida, que em pleno século 21 defendem a volta à ditadura.” (Lindbergh Farias, Folha de São Paulo)

 

Vitor Teixeira

O golpe midiático-jurídico tem até seu super-herói – e não me refiro aos Power Rangers de Kim Kataguiri. Um raio-X do “herói” das elites econômicas golpistas – que conseguiram fazer com que sua visão-de-mundo e seu “anjo exterminados” fosse compartilhada por vastas massas de telespectadores e leitores crédulos – é oferecido por Luis Felipe Miguel, professor do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília, onde edita a Revista Brasileira de Ciência Política e coordena o Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades – Demodê:

“O juiz Sérgio Moro, por mais que em seus sonhos vista a fantasia de Mussolini de Curitiba, é apenas uma engrenagem. É um pobre coitado que fica feliz de tirar fotos ao lado de João Doria Jr. Ele é tão útil, e por isso assumiu uma posição de protagonista, por causa de sua completa falta de limites, de sua amoralidade, de seu desprezo olímpico pelos direitos; em suma, por causa de sua falta de compostura. Os tempos mudaram, as práticas são outras, mas Moro cumpre hoje uma função similar à de um delegado Fleury durante a ditadura. É o mastim que faz alegremente, balançando o rabo, o trabalho mais sujo.

O escandaloso grampo que atingiu a presidente da República, com o compadrio escancarado com a mídia que também foi revelado de forma indiscutível, mostra a depreciação final da magistratura em benefício do golpe. Moro não age como juiz, age como golpista e desistiu de fingir que não é assim. O diálogo ilegalmente gravado de Dilma com Lula não prova nada, exceto o desespero da direita com a nomeação do ex-presidente para a Casa Civil e sua vontade de acelerar o golpe. A mídia, sendo a mídia que é, não se dá ao trabalho de apresentar interpretações minimamente equilibradas. É a maquinaria do golpe em andamento. Polícia e judiciário de um lado, a mídia de outro, a massa dos novos direitistas tocando fogo nas ruas, tudo para forçar uma solução apressada, contrária à Constituição e antidemocrática para a crise.

O golpe já está na rua. É hora de ver qual será a resposta das mulheres e dos homens comprometidos com a democracia. Para a esquerda, vale o recado: é possível condenar o governo Dilma, é possível criticar Lula por todos seus vacilos e recuos. Mas se o governo cair e se Lula for vítima do cerco ignóbil armado contra ele, quem dança é a esquerda brasileira inteira, que será inviabilizada como projeto de poder por décadas. Quem dança é o horizonte de uma sociedade igualitária, é a ideia de democracia como poder do povo sem tutelas, é a noção de que as liberdades devem ser protegidas para todos. É hora de focar no que é essencial, é hora de barrar o golpe.” (Luis Felipe Miguel, É Hora de Barrar o Golpe)

Moro GOlpista

LulaEm sua “edição especial da crise”, lançada em 16 de Março de 2016, a revista Carta Capital trouxe em sua capa o seguinte: Lula e o complô – Ameaçado de prisão sem provas, o ex-presidente reage ao cerco. Mino Carta explica o que quis dizer com o termo complô em matéria onde pinta a figura de Sérgio Moro como peão fundamental do xadrez político orquestrado pela “mídia do pensamento único, porta-voz da minoria, transformada em partido de oposição”:

“Moro foi admiravelmente atendido pela polícia para montar um show carnavalesco que envergonha o País aos olhos do mundo e exibe, ao cabo, a ausência de uma Suprema COrte pronta a impor o império da lei. Duzentos policiais, armados até com metralhadoras, invadiram às 6 da manhã de sexta-feira, 04 de Março de 2016, a residência do ex-presidente da República e o Instituto Lula, e não surpreende que as reportagens dos jornalões tivessem chegado aos locais meia hora antes enquanto o helicóptero da Globo sobrevoava a área. Nada de espanto, de todos os pontos de vista: o complô é midiático-policial, e Moro aí está para atiçar o fogo. (…) O poder corrompe, a fama também. Ao longo da Lava Jato, Moro empolgou-se e engajou-se em uma operação bem maior do que a própria sob seu comando. Endeusado pelos golpistas, santificado em todas as instâncias midiáticas, Moro tripudia a se valer da insensatez geral, nutrida pela crença de que a verdade é aquela que nos convém.

(…) Está claro que o escândalo da Petrobras não foi inventado e é bom que os corruptos sejam exemplarmente punidos. Ofende os espíritos democráticos, entretanto, e exibe a precariedade e o descalabro da situação, a omissão a respeito das falcatruas anteriores, cometidas às claras, inclusive na própria Petrobras, pelo governo tucano… que tanto apraz à casa-grande. De todo modo, foi um show de truculência encenado pela Polícia Federal na sexta-feira (04/03) entre São Bernardo do Campo e as alturas do Ipiranga. Programa tão bem preparado, esmerilhado nos detalhes infinitesimais e enfim levado a cabo na exasperação magistral de uma violência adequada à caça de um Dillinger ou de um Bin Laden…” (MINO CARTA, A Origem do Complô, Carta Capital #892, p. 20 – 24)

Moro Juiz 2

Post do Iconoclastia Incendiária: “O Juiz Moro já esteve presente na mídia antes, na verdade em um dos maiores escândalos de corrupção do Brasil, que foi a evasão de divisas para o exterior no famoso caso do BANESTADO. Foram 520 BILHÕES de reais evadidos ao exterior, o que deu ao Banestado o recorde mundial de lavagem de dinheiro, em toda a história da lavagem de dinheiro do mundo. Mas por que esse caso não repercutiu na imprensa? Porque justamente eram acusados muitos dos principais veículos de comunicação de massa (Plim, Plim). E qual a participação de Moro? Pouca coisa: Ele era apenas o juiz responsável por todo ̶o̶ ̶a̶r̶q̶u̶i̶v̶a̶m̶e̶n̶t̶o̶ da operação. Na época ele foi até suspeito por sua estranha condução no caso, mas… Pizza, né?”

Veja Lula

Capa_Veja

Capas da Veja revelam facetas de uma longa batalha contra Lula. As predileções tucanas da publicação são também notórias, não importando como fatores desabonadores a relação do Tucano em Questão com o narcotráfico e os “helicocas”, muito menos com a corrupção em Furnas:

Veja Aecio

ilegalidade dos procedimentos louvados pela imprensa golpista em sua cruzada anti-petista tornou-se mais explícita do que nunca em Março de 2016. Eliane Brum soube ler bem a gravidade da ocorrência com o ex-presidente Lula, conduzido à força ao aeroporto de Congonhas, para depor na Polícia Federal, numa cena armada para o showbiz midiático satisfazer seu sadismo, como se fossem corvos na carniça:

“O que aconteceu naquela sexta-feira feira, 4 de março, em que Lula foi tirado de casa por policiais federais e levado para o Aeroporto de Congonhas, foi grave. Muito grave. O juiz e os procuradores deveriam ser os primeiros a querer evitar de todos os modos essa simbologia. A imagem de Lula preso, para o Brasil inteiro, não mostra que a lei vale inclusive para ícones populares e ex-presidentes. Mas (…) que o abuso e a violação de direitos, cuja maior representação são os milhares de presos sem julgamento atirados em penitenciárias medievais, assim como os negros humilhados pelas polícias nas periferias, são a regra para todos – ou quase todos.

O que o juiz e os procuradores estimularam nesta cena foi a vontade de linchamento. Porque levar alguém para depor dessa maneira, produzir esse tipo de imagem, também é um tipo de linchamento. E foram aplaudidos por parte da população por isso, porque atenderam à sanha, legitimaram a vontade de vingança ao dar-lhe roupagens de lei. Quando o rito da lei é substituído pela vingança, e essa substituição é permitida por quem é um agente da lei, é muito grave. É exatamente em períodos tão delicados da história que a lei precisa ser interpretada de forma mais conservadora. E seus agentes precisam ter a grandeza de abrir mão das vaidades pessoais e reprimir as paixões que também os habitam.

Sérgio Moro e os procuradores, assim como os policiais federais, não são heróis nem vingadores. São funcionários públicos. E é como funcionários públicos que precisam se comportar se quiserem estar à altura do cargo. Deles só se espera que façam bem – e discretamente – o seu trabalho. E o que dizer dos promotores do Ministério Público de São Paulo, pedindo a prisão de Lula a três dias da manifestação de domingo? E sem nenhuma justificativa razoável, para além das confusões “filosóficas” que viraram piada nas redes sociais, quando, entre outras bobagens, confundiram Hegel com Engels? Importa perceber que a manchete, com foto, foi garantida: “MP de São Paulo pede a prisão de Lula”. E a manchete é mais forte do que os editoriais e as matérias internas. Qual é a verdade que se fabrica ali, e que tem sido repetida em cada esquina do país? Lula é culpado.

Mas até ser julgado e condenado, Lula não é culpado. Ou a lei não vale. E, atenção: se a lei não vale para Lula, também não vale para você ou eu. (…) Acossado, Lula fez o que melhor sabe fazer, aquilo que o tornou um dos presidentes mais populares da história. Lula foi Lula, o Lula que fala a linguagem do povo porque compreende o povo como poucos. ” (ELIANE BRUM, no EL PAÍS Brasil[http://bit.ly/1UtBqnM])

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O termo “golpismo” sintetiza bem este complô de forças que pretende violar a lei e usar da truculência para forçar a queda de um governo, quando não existe nenhuma evidência, fato ou escândalo que dê base sólida a um impeachment legítimo de Dilma Rousseff. O repúdio ao impeachment já é uma força social de magnitude gigantesca – como se viu nas ruas em 18 de Março de 2016 – e é referendada pela maioria dos governadores estaduais. Os 9 governadores do Nordeste brasileiro já publicaram um manifesto em que repudiaram a intentona golpista e desqualificaram o processo de impedimento da presidenta re-eleita, em 2014, com 54 milhões e 501 mil votos:

Eleilçoes 2014
9 GOVERNADORES DO NORDESTE PUBLICAM MANIFESTO EM QUE REPUDIAM A INTENTONA GOLPISTA E O IMPEACHMENT:http://bit.ly/1pz7knz

“Diante da decisão do Presidente da Câmara dos Deputados – Eduardo Cunha – de abrir processo de impeachment contra a Exma Presidenta da República, Dilma Roussef, os Governadores do Nordeste manifestam seu repúdio a essa absurda tentativa de jogar a Nação em tumultos derivados de um indesejado retrocesso institucional. Gerações lutaram para que tivéssemos plena democracia política, com eleições livres e periódicas, que devem ser respeitadas. O processo de impeachment, por sua excepcionalidade, depende da caracterização de crime de responsabilidade tipificado na Constituição, praticado dolosamente pelo Presidente da República. Isso inexiste no atual momento brasileiro. Na verdade, a decisão de abrir o tal processo de impeachment decorreu de propósitos puramente pessoais, em claro e evidente desvio de finalidade. Diante desse panorama, os Governadores do Nordeste anunciam sua posição contrária ao impeachment nos termos apresentados, e estarão mobilizados para que a serenidade e o bom senso prevaleçam. Em vez de golpismos, o Brasil precisa de união, diálogo e de decisões capazes de retomar o crescimento econômico, com distribuição de renda.”

ASSINAM:
Robinson Farias (PSD – Rio Grande do Norte)
Flavio Dino (PCdoB – Maranhão)
Ricardo Coutinho (PSB – Paraiba)
Camilo Santana (PT – Ceara)
Rui Costa (PT – Bahia)
Paulo Câmara (PSB – Pernambuco)
Wellington Dias (PT – Piaui)
Jackson Barreto ( PMDB – Sergipe)
Renan Filho (PMDB – Alagoas)

Basta olhar tanto para a “linha sucessória” da presidenta Dilma – Michel Temer, Eduardo Cunha, Renan Calheiros… – quanto a comissão do impeachment para ficar evidente que não se trata, no caso do “Fora Dilma!”, de qualquer legítimo movimento anti-corrupção, e isso pelo simples fato de que o processo que quer destituir Dilma está sendo diretamente capitaneado por réus em crimes de desvio de dinheiro público. O Brasil encontra-se na posição bizarra em que bandidões não param de apontar o dedo acusador e de gritar “pega ladrão!”, no intento óbvio de serem brindados com a impunidade das pizzas que a grana sabe comprar.

 Dilma Rousseff e Luiz Inácio Lula da Silva estão sendo estigmatizados como bandidos e corruptos, merecedores de prisão, “petralhas” e coisa pior, mas é preciso muita cegueira midiática e indignação seletiva para não perceber que os acusadores são figuras cheias de fichas sujas, e cuja impunidade, após tantos crimes cometidos, beira o inacreditável:

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Jornal GGN – De acordo com as prestações de contas entregues ao Tribunal Superior Eleitoral, 40 dos 65 deputados federais que foram indicados para integrar a comissão do pedido de impeachment receberam um total de R$ 8,9 milhões em doações de empresas investigadas pela Operação Lava Jato durante a campanha eleitoral de 2014.

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“Ignorar desvio da merenda é exemplo da seletividade da mídia”, diz Boulos. “Escândalos como o desvio de verbas para a merenda escolar pelo governo Geraldo Alckmin (PSDB) não são tratados com a mesma cobrança como acusações sem provas envolvendo o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na Operação Lava Jato.” (BOULOS, Brasil de Fato. )

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Cunha
A blindagem midiática, a indignação seletiva, a cruzada de caça às bruxas, a rubrofobia e outros fanatismos, tudo parece deixar o Brasil em situação de barril de pólvora – e sem escassez de fagulhas. O futuro – e não apenas o climático – será repleto de incêndios. Neste labirinto, Eliane Brum é uma das vozes que mais vale a pena ouvir com atenção e cuja lucidez é preciosa para que pesemos bem escolhas e ações nesta encruzilhada histórica.

Em 14/06/2016, em seu artigo para o El País, ele mais uma vez tematizou a crise de representação política que têm nos conduzido às beiras da convulsão social e das conflagrações civis de uma guerra cotidianizada:

“Há uma enorme descrença nos políticos e nos partidos tradicionais, este já é um lugar comum. Mas é importante perceber que a esta descrença se contrapõe não mais razão, mas uma vontade feroz de crença. Quando os dias, as vozes e as imagens soam falsas, e a isso ainda se soma um cotidiano corroído, há que se agarrar em algo. Quando se elege um culpado, um que simboliza todo o mal, também se elege um salvador, um que simboliza todo o bem. A adesão pela fé, manifeste-se ela pelo ódio ou pelo amor, elimina complexidade e nuances, reduz tudo a uma luta do bem contra o mal. E isso, que me parece ser o que o Brasil vive hoje, pode ser perigoso. Não só para uma ditadura, como é o medo de alguns, mas para que se instale uma democracia de fachada, como já vivemos em alguns aspectos.

Uma democracia demanda cidadãos autônomos, adultos emancipados, capazes de se responsabilizar pelas suas escolhas e se mover pela razão. O que se vê hoje é uma vontade de destruição que atravessa a sociedade e assinala mesmo pequenos atos do cotidiano. O linchamento, que marca a história do país e a perpassa, é um ato de fé. Não passa pela lei nem pela razão. Ao contrário, elimina-as, ao substituí-las pelo ódio. É o ódio que justifica a destruição daquele que naquele momento encarna o mal. Isso está sendo exercido no Brasil atual não apenas na guerra das redes sociais, mas de formas bem mais sofisticadas. Isso tem sido estimulado. Quem acha que controla linchadores, não sabe nada.

Talvez o mais importante, neste momento tão delicado, seja resistir. Resistir a aderir pela fé ao que pertence ao mundo da política. Fincar-se na razão, no pensamento, no conhecimento que se revela pelo exercício persistente da dúvida. É mais difícil, é mais lento, é menos certo e sem garantias. Mas é o que pode permitir a construção de um projeto para o Brasil que não seja o da destruição. Quem sofre primeiro e sofre mais com a dissolução em curso são os mais pobres e os mais frágeis. É preciso resistir também como um imperativo ético.

Na política, mesmo os crentes precisam ser ateus.” (ELIANE BRUM)

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Concordo plenamente com a Eliane que é perigoso o fanatismo: “a adesão pela fé, manifeste-se ela pelo ódio ou pelo amor, elimina complexidade e nuances, reduz tudo a uma luta do bem contra o mal.” Em situações de tamanha polarização, é um perigo para qualquer um de nós que passemos a acreditar no reducionismo estúpido do maniqueísmo, elegendo de modo absoluto, para além das eleições, nossos “salvadores-da-pátria” e nossos demonizados “inimigos públicos”. É preocupante que tanta gente enxerguem soluções sociais e políticas legítimas em sua submissão a líderes populistas, em especial quando se trata de figuras abominavelmente racistas, machistas, homofóbicas e autoritárias como Jair Bolsonaro, Marco Feliciano, Silas Malafaia e outros.

Porém, também precisamos pôr o dedo na ferida e falar também dos fanatismos midiáticos, da fé que as elites insuflavam em certos heróis da vez, como o “Super-Homem” Moro, pronto a ser adorado por aqueles que acham que foi um magnum opus da filosofia política a analogia que Kataguiri estabeleceu entre o “Fora Dilma” e os Power Rangers… Talvez Eliane Brum dissesse que não precisamos de submissão acéfala a herói algum, que Dilma e Lula também estão aí para serem criticados, que os ídolos da direita, do centro e da esquerda merecem ser todos expostos à luz do dia quando tiverem pés de barro…

O problema é aceitar passivamente – o que sou cada vez mais incapaz de fazer, tamanha a revolta perante a truculência e a estupidez dos ataques ao PT – a lógica do estigma e da perseguição exterminadora, de teor fascista, que tem ganhado terreno entre nós. Contra o golpe midiático-jurídico e sua intentona de forçar, na marra, aqueles que não foram eleitos pelo povo, defendo o direito pleno, conquistado nas urnas, de Dilma Rousseff seguir governando como presidente eleita – pois nada justifica seu impeachment. Nisto, concordo com André Singer e de José Ribamar Bessa Freire:

Singer

“No seu tratado clássico “A Arte da Guerra” (séc.IV a.C.), Sun Tzu diz que todas as guerras são sempre de conquista, mas os soldados que estão na linha de frente não podem saber disso. Os senhores da guerra camuflam seus interesses privados e buscam elevar o moral da tropa, convencendo os combatentes de que a batalha é por nobres ideais coletivos.

A invasão do Iraque em 2003 é um bom exemplo ilustrativo. Um soldadinho americano jamais se arriscaria em assassinar muçulmanos e bombardear cidades e alvos civis correndo o risco de morrer, se soubesse que estava defendendo interesses privados do complexo industrial-militar. Por isso, os senhores da guerra tem de convencê-los de que lutam pela liberdade, pela democracia, contra o terrorismo e não pelo lucro de empresas de petróleo e da indústria armamentista.

No caso do Brasil, muitos manifestantes engajados sinceramente na luta contra a corrupção jamais sairiam às ruas se soubessem que a verdadeira guerra não é contra a corrupção, é pelo poder. O jogo se dá no campo político, não no da moralidade e da justiça.

Corrupção rotativa

Muitos manifestantes bem intencionados acreditam, em sua maioria, que estão lutando para sanear o país, quando involuntariamente fazem o jogo de quem não quer acabar com a corrupção, mas ocupar o executivo para exercitá-la. Temos a corrupção do PSDB ontem no poder federal e presente em alguns estados importantes, a neocorrupção de agentes do PT hoje no poder, e a corrupção do PMDB sempre no poder. Todas elas devem ser investigadas, punidas e combatidas e foi essa a esperança criada pela Operação Lava-Jato, comandada pelo juiz Sérgio Moro.

Ele começou, como era de se esperar, investigando com muita competência as propinas que envolveram os neocorruptos, que estavam em plena atividade. Pela primeira vez na história do Brasil, megaempresários foram presos, ex-ministros, senadores, deputados, com aplausos de toda a população. No entanto, a Lava-Jato avançava seletivamente, criando a desconfiança de que o alvo era o impeachment da presidente eleita, exigido pelos que querem ocupar o seu lugar antes de novas eleições, muitos deles com fichas sujas.

Moro, que parecia isento e sensato, tomou duas medidas, que evidenciaram a politização partidária do Judiciário: decretou a condução coercitiva do ex-presidente Lula com a mídia previamente notificada e divulgou as gravações de áudios de telefonemas interceptados pela Policia Federal.

Nos dois casos, Moro jogou para a mídia, que deu ampla divulgação e reproduziu conversas em imagens repetidas à saciedade pela tv, turbinando assim as manifestações de rua. Os vazamentos seletivos se concentraram na presidente Dilma, que sequer é investigada, e em Lula, contra quem nada foi até agora comprovado, divulgados com destaque pela mídia, que silenciou nos demais casos. E os outros? Alguém bateu panela contra Cunha?  Por quem os sinos dobram? Por quem as panelas batem?

Qual a contribuição à luta contra a corrupção a revelação de conversas privadas, recheadas de palavrões usados por qualquer leitor, que soam como fofocas, são retiradas de seu contexto e reinterpretadas com fins escusos? Serve apenas para acirrar o ódio e jogar lenha na fogueira. O JM – Jornal da Matraca – dedicou quase dois terços do espaço para satanizar Lula e Dilma.” (Nem Tudo Que Reluz É Moro @ Combate Racismo Ambiental)

Ainda que ciente do perigo que há em todo processo de “heroicização”, defendo também o direito, totalmente legítimo, de Lula de assumir o cargo de Ministro da Casa Civil. Lula goza de plenos direitos políticos e não foi condenado na Justiça por nenhum tipo de dano ao bem público que tenha causado. Em momentos de estúpida caça-às-bruxas e de “satanização”, é preciso lembrar o óbvio e fazer o resgate histórico que reconduza os amnésicos à plena lucidez: é fato, por exemplo, que Lula, após 8 anos na presidência da república, deixou o cargo consagrado por um índice da aprovação popular sem precedentes históricos no período pós-Ditadura. Mundo afora, Lula é reconhecido por muitas lideranças como um estadista magistral, sendo que programas sociais como o Fome Zero e Bolsa Família são amplamente reconhecidos pelos imensos avanços humanitários com que beneficiaram o Brasil, país que pela primeira vez deixou o “Mapa da Fome” da ONU e foi elogiado publicada pela FAO por sua política de combate à desnutrição.

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Sobre este tema, Celso Amorim, na Carta Capital, escreveu alto notável, que demonstra o impacto revolucionário do “lulismo” no cenário global:

“O Programa Mundial de Alimentos (PMA), órgão das Nações Unidas, com sede na capital italiana Roma, é dedicado a suprir carências alimentares, na maior parte das vezes em caráter emergencial. No passado, e ainda hoje, creio, o PMA tem servido para escoar excedentes agrícolas dos países ricos, principalmente dos Estados Unidos. Assim, além dos objetivos humanitários, as doações ao programa constituíam uma maneira de subsidiar os agricultores dos países desenvolvidos, criando uma forma sutil de concorrência desleal com as nações mais pobres, produtoras de gêneros alimentícios. 

O fato é, porém, que o PMA, até aqui sempre dirigido por uma personalidade norte-americana, transformou-se em um órgão atuante, com impressionante capacidade logística, da qual a ONU se vale para outras atividades (emergências de saúde, desastres naturais). No Haiti, logo após o terremoto de 2010, pude testemunhar a eficiência e a dedicação dos seus funcionários e dirigentes. A publicidade atual do PMA chamou-me a atenção pelo o lema criado para atrair doações: “Zero Hunger” ou, em italiano, muito próximo do português, “Fame Zero”.  

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Minha primeira reação foi de indignação pela apropriação do nome do nosso programa, sem crédito ao original. Mas, ao pensar melhor, considerei que o mais importante era o fato de uma ideia, nascida em nosso país e levada aos quatro cantos do mundo pelo presidente Lula (e imitada em muitos lugares), tivesse penetrado tão profundamente na mente de políticos, ativistas e acadêmicos planeta afora, a ponto de se tornar lema de uma campanha de um organismo internacional dirigido por uma norte-americana. Assim, antes de indignar-me, deveria rejubilar-me com aquele plágio não confessado. 

Este é apenas um exemplo de como as nossas atitudes no campo externo, lideradas pelo ex-presidente, deixaram marcas profundas.

Ao lembrar-me desses episódios, ao ver o homem que mais batalhou pela igualdade no Brasil e no mundo e que inspirou nossas políticas ser humilhado por meio de procedimentos truculentos desnecessários e ser vítima de um verdadeiro cerco, minha tristeza cresce ainda mais. 

Ao fim de sua peça intitulada Galileu Galilei, Bertolt Brecht põe na boca do jovem assistente do sábio, Andrea Sarti, a exclamação “Pobre da nação que não tem heróis”, à qual Galileu responde com uma afirmação dura e penetrante: “Não Andrea, pobre da nação que precisa de heróis”. Ao ver o operário metalúrgico, que alçado à condição de líder político, diminuiu a desigualdade em nosso país e colocou o Brasil no mundo, pensei que Brecht poderia ter complementado seu pensamento: “Mais pobre ainda, Andrea, é o país que vilipendia seus heróis.” (CELSO AMORIM, Carta Capital)

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Pobre da nação que precisa de heróis! Mais pobre ainda a nação que encontra seus heróis Moro-alistas e hipócritas entre uma elite, encarniçada defensora de seus interesses privados, plutocracia encastelada em seus privilégios injustos. O mesmo Brecht foi lapidar quando disse que “nada se parece mais com um fascista do que um burguês assustado”. Porém, não sei se teríamos algum benefício em transformar todos os heróis em párias, punkmente declarando um no more heroes! de sabor anarquista. O papel de “líder de massas” não me parece abandonável, no palco histórico, e mesmo a esquerda radical não se solidariza sem uma liderança como a de Che ou Fidel, na Revolução Cubana, Lênin e Trotsky, no revolucionário Outubro de 1917 russo, assim como os Zapatistas mexicanos da FZNL não é sequer imaginável na ausência do Subcomandante Marcos… Tudo bem se não quisermos ter em Lula nosso líder ou nosso herói, mas gostaria que este neoBrechtianismo fosse considerado digno: não sejamos o país que vilipendia seus heróis.

E talvez neste nosso Brasil real – e exponho-me aqui às pedradas dos detratores – não existe talvez nenhum “líder de massas” com o potencial libertário que ainda me parece existir em Lula. Talvez ele ainda não tenha finalizado sua missão histórica; talvez possa haver ainda muito chão pela frente na vida política deste brasileiro de obstinada força vital e que, não à toa, tornou-se um dos líderes políticos mais amados pela população do Brasil. Alinho-me, nas barricadas do presente, à defesa de Lula, ao seu direito de ser ministro, e para que sejam punidos aqueles que estão a lei para escorraçá-lo e caluniá-lo, em uma campanha de apedrejamento, de linchamento, de massacre midiático, que é uma vergonha e um acinte. E que talvez seja a manifestação desesperada daquelas elites decadentes que já pressentem que, em 2018, não há Marina, Aécio, Alckmin ou Moro que dê conta de vencê-lo.

O nosso maior perigo – sintetizado na palavra golpe – é a sordidez possível das elites que percebem de antemão que vão perder nas urnas, mais uma vez. Quem sabe que vai perder as próximas eleições tende a flertar de modo fascista com o plano de subir ao poder pela força, seja das armas e dos tanques, seja dos golpes midiáticos-jurídicos. Por enquanto, ainda há uma abismo de dissimilaridade entre o quadro de 1964 e 2016. Porém, o perigo persiste: e também pois a mídia corporativa parece ser incorrigível em sua imoralidade recorrente, em sua parcialidade desleal, assassinando quaisquer ideais republicanos de uma imprensa múltipla e polifônica. É triste, Brasil, este P.I.G. em nossas salas-de-estar e quartos-de-dormir, fabricando vidiotas, manipulando massas-de-manobra, cooptando e comandando manifestações, elevando corruptos a anjos, desenhando auras de santidade em Aécios, santificando justiceiros truculentos à la Moro, blindando Cunhas e Alckmins, recebendo propinas de Samarcos e Vale (mesmo após a hecatombe do Rio Doce!). Diante disso, é preciso bradar: abaixo os vidiotas! 

Globo4

Na Revista Cult, Márcia Tiburi dispara suas farpas – está conversando com um fascista: “Morto há tempos diante da tela, transformado em um zumbi que não pensa, não sente e não age em nome de mais nada que não seja a ordem teleguiada recebida, você será chamado de “vidiota” por alguém que, por algum motivo, ficou longe disso tudo. Mas porque já não consegue entender nada, você parte pra cima dele com a única coisa que restou na sua vida subjetiva, ódio barato e agressividade sem fim.” (TIBURI, M. Revista Cult)
Tiburi
Tiburi

Concordo com Márcia Tiburi que precisamos aprender a “conversar com os fascistas”, e que não podemos prescindir das armas da crítica, mas jamais respondê-los na mesma moeda de fúria. Já que olho por olho – Gandhi ensina – acaberemos todos cegos. Diálogo e democracia são consubstanciais – e é preciso resistir àqueles que não querem dialogar, contrapondo ao golpismo deles nosso obstinado democratismo popular, que não se deixará varrer tão fácil da história após os 21 anos de trevas que vivemos. Para barrar o golpe, porém, é urgente fazer a crítica – que Tiburi também empreende com muita graça e talento, além de contundência e coragem… – da manipulação e desinformação perpetradas pela mídia empresarial, este antro reacionário que choca o ovo da serpente dos fascismos cotidianizados e da banalidade do mal sempre renascente.

Eduardo Carli de Moraes
Goiânia, 20/03/2016
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