No filme “Kursk”, a tragédia submarina filmada por Thomas Vinterberg ilustra o conceito existencialista de “situação-limite” (Karl Jaspers)

“No one has forever… but I wanted more.”
Uma das frases na última carta antes da morte
escrita por um marinheiro no Kursk

A ninguém é concedida a eternidade. Esta verdade que soa banal – ou seja, o fato que qualquer um de nós é mortal e nunca ninguém terá um tempo infinito para viver – é diferencialmente apreendida em vários pontos do nosso fluxo de vida.

Na infância e primeira juventude, podemos ter a ilusão da imortalidade advinda da falta de experiência da morte alheia ou de vivência prévia de ameaça grave contra nossa vida própria. Mas é só um cachorro ser atropelado e morrer diante dos olhos da criança, ou o jovem ter que acompanhar a agonia senil de uma avó ou um bisavô, para que comece a raiar – frequentemente de forma traumática – a consciência da mortalidade.

Baseado no livro A Time To Die, de Robert Moore, e roteirizado por Robert Rodat (o mesmo de O Resgate do Soldado Ryan), o novo filme de Vinterberg tranforma o submarino naufragado Kursk numa espécie de palco trágico para encenar a Situação-limite daqueles marinheiros.

Situações-limite, segundo o filósofo alemão Karl Jaspers (1883 – 1969), são como “paredes com as quais nos deparamos, uma parede em que batemos e fracassamos.” (JASPERS, 1932, vol. 2, pg. 178) Situação-limite é aquela que o filme se interessa em capturar, através de uma narrativa fílmica potente e impiedosa: obrigados a encarar o fracasso, batendo os crânios contra as paredes da necessidade, sentindo na língua o sabor amargo da morte precoce, eles estão levados aos limites da condição humana e aos confins extremos do nosso sofrimento.

Confinados no fundo do mar, tremendo com o frio do Ártico, rodeados pela água que avança por todos os lados a ponto de molhar até os ossos, contemplam na cara o corte da foice iminente. A monstra invisível já afia suas lâminas para terminar de ceifar todas aquelas vidas naufragadas no nada.

Filósofo Karl Jaspers no seu lar em Basel, 1956

Em “Kursk”, filme que desembarcou nos cinemas do Brasil no início de 2020, aparentemente Vinterberg aderiu ao gênero do filme-catástrofe – já repleto de blockbusters sobre tragédias marítimas. Mas seu tom é muito mais próximo a do o clássico esplendoso Moby Dick, em que John Huston adaptou, na companhia de Ray Bradbury, o romance épico de Herman Melville em um dos grandes filmes da história da sétima arte.

Em Kursk, não há baleia em guerra contra Ahab, causando muitos rolês cheios de desventuras e que trituram toda a tripulação do Pequod, mas há sim a batalha humana contra “monstros de nossa própria criação” (como cantava Renato Russo em “Será” da Legião). Estes monstros que criamos – os submarinos bélicos lotados de torpedos e movidos a energia nuclear, por exemplo, e que podem acabar nos devorando.

Kursk é uma espécie de Titanic de teor existencialista, em que o complexo afetivo Vinterberguiano é radicalmente distinto daquele que anima o filme – melodramático e grandiloquente – do papa-bilheterias James Cameron. O filme de VInterberg se baseia em fatos reais: a catástrofe no submarino nuclear russo Kursk, em 2000, no mar de Barents, ao norte da Noruega, com 118 mortos. O submarino tinha sido batizado em homenagem a uma batalha épica da 2ª Guerra Mundial entre alemães e soviéticos.

Esse evento histórico que o filme evoca serve como ocasião para que uma poderosa narrativa fílmica nos leve a acompanhar a agonia claustrofóbica de marinheiros colocados diante da iminência da morte: “No one has forever, but I wanted more”, escreve o protagonista à sua esposa em sua carta de despedida. Um clima de Eclesiastes pulsa nesta frase que faz lembrar ditos como “ninguém é senhor do dia da própria morte, e nessa guerra não há trégua.”
Bíblia (Eclesiastes, 8-8)
Este “eu queria mais” também é prova de que o conatus pulsa mesmo em meio à agonia. Uma sabedoria que só ensinam as situações-limite?

O que é extremamente interessante nesta situação-limite em que o filme nos imerge é uma espécie de proliferação social da angústia extrema daqueles sobreviventes que no submarino, esperam por resgate enquanto agem desesperadamente para se manterem vivos. A angústia prolifera, é evidente, sobretudo sobre os parentes, que na cidade portuária preocupam-se desde as vísceras com os destinos de seus pais, de seus maridos, de seus irmãos, de seus primos. A angústia também prolifera para a hierarquia de comando da Marinha, obrigada, pela situação-limite, a tomar decisões urgentes.

O filme pode ser estudado em faculdades e cursos de relações internacionais pelo retrato realista que faz das dificultosas relações entre os russos e os britânicos – estes, com equipamento de resgate mais avançado, poderiam ter salvado a parcela dos marinheiros que sobreviveram à explosão. Não é nada louvável o retrato que se faz das autoridades russas, que teriam perdido o kairós (o momento propício) em que suas decisões poderiam ter salvado vidas, e isto em decorrência de uma reticência em admitir o despreparo tecnológico para lidar com aquela emergência.

No entanto, creio que é preciso ter uma boa dose de desconfiança em relação à crítica cinematográfica que instrumentaliza o filme para tacar pedras nos russos, ignorando os aspectos de tragicidade que esta situação-limite envolve. Isabela Boskov, da revista Veja, em uma resenha tão rasa que ocupa apenas um parágrafo, apedreja os russos com esta frase peremptória:

“Quase uma década após o fim da União Soviética, a Rússia demonstrou de maneira cruel que não perdera os velhos vícios do sigilo e da indiferença: em 12 de agosto de 2000, quando o supersubmarino nuclear Kursk sofreu uma explosão e afundou no Mar de Barents, o governo preferiu proteger seus segredos militares a dar uma chance real de resgate aos sobreviventes aprisionados na embarcação.” (BOSCOV, Veja, 2020)

O comentário de Boscov comete uma injustiça elementar: atribui à “Rússia” um equívoco de agentes públicos da Marinha deste país, num caso de generalização em que o tom condenatório parece querer abarcar todo um país (“a Rússia demonstrou de maneira cruel que não perdera os velhos vícios do sigilo e da indiferença”). Não se confunde o Estado e a população de um território; não se taca pedras na Rússia como um todo, quando os culpabilizáveis por decisões errôneas são funcionários públicos de uma entre centenas de outras instituições públicas deste Estado-nação.

O próprio filme é repleto de tensões entre os familiares dos marinheiros do Kursk e as autoridades militares e políticas responsáveis pela gestão da crise, mostrando que, se houve negligência ou indiferença pela vida humana, com os segredos de Estado sendo colocados acima da abertura imediata à colaboração internacional que poderia ter salvado algumas vidas, de modo algum se pode atribuir à “crueldade russa” (como faz Boscov em sua frase desastrada). A crueldade, caso fosse atribuída a alguns personagens, que se mostraram um tanto frios e indiferentes diante dos horríveis momentos de agonia dos marinheiros, incapazes de se colocarem na pele dos que estavam confinados naquela submarina infernaria, poderia até ser um juízo moral defensável. O que não é defensável é a atitude de Veja de veicular a ideia, em manchete sensacionalista, de que o filme fala sobre “a crueldade dos russos em meio a uma tragédia”.

É o tipo de resenha que, além de não contribuir em nada para uma apreciação mais aprofundada e nuançada da obra-de-arte, como é uma das funções do crítico, presta à produção encabeçada por Vinterberg o desserviço de atribuir a ele um intento difamatório contra toda a Rússia que não está no cineasta, mas sim na articulista da revista.

Fotografia do submarino russo Kursk – O Globo

Para explicar mais a fundo o que quero dizer, sublinho que uma das melhores cenas do filme é aquela em que o menino, após o funeral de seu pai, tem a mão a ele estendida por uma alta autoridade de hierarquia da Marinha (interpretado por Max Von Sydow) e recusa o cumprimento. Este russinho, recusando a vênia a este russão, já é prova inconteste da falácia absurda da generalização realizada por Boskov. Trata-se de um ato de desobediência civil que logo prolifera e é imitado por todos os outros órfãos que se perfilavam, no enterro de seus entes queridos, para receber os pêsames da parte daquele oficial que tinha fracassado em resgatá-los e trazê-los de volta com vida.

Lembrei-me na hora de uma das melhores cenas de The Handmaid’s Tale, episódio 10 da primeira temporada, em que a desobediência civil também é ilustrada quando as mulheres recusam-se a apedrejar uma outra mulher, a mando da mandona xerifa Tia Lydia. Pequenos gestos, grandes significados.

Além do significativo gesto de desobediência civil que o menino realiza diante do velho comandante, demonstrando uma revolta silenciosa diante da instituição que fracassou em salvar vidas resgatáveis naquela difícil situação-limite, o filme também dá o que pensar sobre o tema do sacrifício. Pouco depois da explosão, temos o exemplo de marinheiros dispostos a sacrificar seus últimos alentos e derramar suas últimas gotas de suor para evitar o que se chama, no filme, de “uma nova Chernobyl”. O filme de Vinterberg nos convida a pensar numa certa formação prévia que gerou nos marinheiros uma atitude de aceitação do sacrifício por um bem maior, ou pelo menos pela evitação de um mal pior.

 Em situações-limite, o apego tradicional do indivíduo por sua existência pode ser transcendido por um ímpeto de utilização produtiva de uma vida em iminência de acabar em prol do bem-estar de outros. Ou seja, a morte iminente não necessariamente instala um clima de egoísmo total, abjeto, brutal, mas abre a possibilidade também de atos de um heroísmo extremado, nos limites das capacidades físicas do organismo humano – como naquela cena em que os dois nadadores mergulham nas águas de frio ártico para irem resgatar os cartuchos de oxigênio que permitirão a sobrevida daquela pequena comunidade de desesperados e ofegantes sobreviventes temporários de uma catástrofe gigante.

A reflexão pós-filme que me domina é esta: quase sempre a morte vem nos pegar quando queríamos um tempo a mais para sorver a vida, por pior que ela seja. Aquele submarino serve de palco para o drama trágico da resiliência humana – e despontam ali momentos de intenso companheirismo. Mesmo que seja no singelo gesto de emprestar uma caneta ao companheiro que quer rabiscar suas últimas palavras antes de morrer. Seja no gesto heróico de não abandonar o companheiro desmaiado no mergulho e içá-lo a um patamar onde o ar seja respirável.

Até mesmo o humor se ergue na cara da morte – como a piada do ursinho polar mostra. Aqueles caras, tiritando com o gélido frio daquelas águas extremadamente geladas, aquecem-se por dentro com a graça do ursinho polar perguntando pra mãe: “se você é uma ursa polar, e meu pai também, e sou filho de vocês, isso faz de mim um ursinho polar, não? Então por que caralho estou com tanto frio?”O humor também desponta na última refeição – comida com tragos generosos da última garrafa de vodka -, onde sentir o bafo da bocarra aberta da morte já perto de nos devorar não consegue impedir o riso. É bela esta última gargalhada bêbada dos condenados. A situação-limite pode ter como consequência, se conseguirmos, um estouro de riso. Nosso fracasso é tão hilário, nossa espécie tão estúpida, nossa cooperação tão falha, nossas tecnologias tão traiçoeiras! É rir pra não chorar….

Thomas Vinterberg, o cineasta dinamarquês que iniciou o movimento estético Dogma 95 na companhia de Lars Von Trier nos anos 1990, nunca teve medo de frustrar as expectativas de uma platéia fissurada no happy end hollywoodiano (similarmente, Michael Haneke dedica-se a triturar nossas vontades de filmes leves, agradáveis e conformistas, crowd-pleasers de gostosa alienação industrializada).

Aqueles que acompanham a obra de Vinterberg já se acostumaram a esperar dele finais infelizes – que nos impactam justamente por um certo tom trágico, desesperançado. Assistir a “Submarino”, “A Caça”, “A Comunidade”, “Dear Wendy”, “Far From The Madding Crowd”, dentre outros de seus filmes, é expor-se a um artista disposto a realizar, através do cinema, um processo de provocação existencial que sacuda a apatia e a normose do espectador, fazendo-o considerar a vida através do viés meio dark, repleto de humor negro, que é uma das marcas do olhar Vinterberguiano. Se estivesse vivo, talvez o grande filósofo romeno Emil Cioran teria em Vinterberg um de seus cineastas contemporânos prediletos.

A Jasperiana situação-limite do Kursk, que envolve todos os personagens numa trama sinistra de decisões difíceis diante de mortes evitáveis, revela muito sobre a condição humana: a personagem de Léa Seydoux (que neste filme está loura e não com os cachos azuis que usou em Azul É a Cor Mais Quente, de Kechiche) é emblema das cicatrizes que os “fracassos” ocasionados pela confrontação insuficiente das situações-limite acarreta. As lágrimas que Vinterberg nos obriga a assistir caindo dos olhos desta mulher que acaba de enviuvar, com um filho pequeno para criar e um outro filho em gestação em seu ventre, é bem mais que melodrama apelativo. São lágrimas que nos convidam à reflexão sobre a precariedade, a fragilidade, o caráter radicalmente destrutível de nossas vidas e, portanto, de nossos laços afetivos. A resiliência do amor em face da catástrofe triunfal é um dos encantos maiores que reluz, como um Nabokoviano fogo pálido, na escuridão deste luto coletivo enquanto o filme se encerra.

O clima afetivo que domina Kursk, afinal de contas, é mesmo o que eu chamaria de uma vibe death-conscious, um sentimento de ciência da mortalidade, muito marcante em vários pensadores e artistas identificados com o existencialismo, e que o Nabokov sintetiza, recuperando a percepção de Lucrécio sobre os dois vazios – antes-de-nascer e depois-de-morrer – que estão nos extremos de uma vida humana: “nossa existência não é mais que um curto-circuito de luz entre duas eternidades de escuridão.” (NABOKOV)

Vladimir Nabokov

Eduardo Carli de Moraes
Goiânia, 14/01/2020

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Black Venus (Vênus Negra): a ferida exposta do racismo ‘civilizado’

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Black Venus: a ferida exposta do racismo ‘civilizado’

por Gisele Toassa

BlackVenusDVDMuitos filmes já me incomodaram. A maioria na juventude, quando a novidade nos apanha facilmente – seja por meio de um final inusitado, do desafio às nossas crenças fundamentais, a sexualidade exposta nos seus aspectos menos compreensíveis e tantos outros mistérios deste mundo opaco que constitui a vida cotidiana. Foi assim com “A lista de Schindler”, “Ken Park” e “Os Outros”. E talvez, com alguns filmes violentos que não me ocorrem agora. Mas a verdade do cinema certamente transcende o abuso dos artifícios que encantam James Cameron e Mel Gibson, vivendo em paralelo com o velho conceito de Kafka: a verdadeira arte é a que incomoda e faz sofrer. Um sofrimento que não se destina aos adeptos das práticas sexuais de Leopold von Sacher-Masoch; não é para masoquistas que gozam de sua controlada [e portanto, mais ou menos previsível] dor celebrada na alcova. É o sofrimento de uma obra de Kafka, repleta de abusos políticos que exemplificam o sofrimento de um coletivo por meio de certo indivíduo que, espremido entre as muralhas de sua própria identidade, percebe seu futuro comprometido por um nascimento deslocado de tempo e lugar.

Isso talvez torne ainda mais significativo o meu desconforto com “Black Venus” (2010) de Abdellatif Kechiche, o mesmo diretor de “Blue is the Warmest Colour” (2013), vencedor da Palma de Ouro deste ano. Linda história de amor entre duas meninas, este tremendo filme já tinha me posto em desassossego com sua estética realista – queridos leitores, eu sou analfabeta no que se refere à análise técnica do cinema, mas consigo perceber que ali tem alguma coisa estranha, distinta das convenções cinematográficas mais recentes, um catalisador de reações mais extremas do que a média da sétima arte. As cenas de sexo ‘de verdade’ entre as atrizes são passionais e longas ‘demais’. Assim é com as cenas de humilhação ‘de verdade’ infligidas a Sarah Baartman, personagem de uma história real que se tornou essa história inventada. O que aprofunda a nossa dor é, provavelmente, imaginar que tamanha série de indignidades foram infligidas publicamente a um ser humano no coração de uma civilização – Londres, Paris – tão arrogante na defesa de seus valores e sua supremacia, tão eficiente na arte de nos fazer crer na nossa própria inferioridade e na superioridade do que ela chama de ‘cultura erudita’ e ‘ciência’.

Mais do que um debate pontual sobre direitos humanos, o filme vira de trás-para-diante qualquer debate tradicional sobre cultura, barbárie, civilização, selvageria, ou todas essas categorias falidas da sociologia na qual temos atrelado as desculpas pela nossa incapacidade de imaginar uma melhor sociedade. Afinal, somos e sempre seremos ‘atrasados’ em um contexto global, mimetizando esse ouro de tolo que é a deferência ao mundo ‘branco’, ‘cultivado’ e feliz da metrópole capitalista – psiquicamente herdado pela burguesia que nos parasita há 500 anos, e no qual aprendemos a nos conhecer e nos (des)conhecer. A incapacidade de lidar com o estranho não é, certamente, exclusividade do século XIX.

O diretor Abdellatif Kechiche, diretor de Vênus Negra, O Segredo do Grão e Azul É A Cor Mais Quente.

O diretor Abdellatif Kechiche, diretor de Vênus Negra, O Segredo do Grão e Azul É A Cor Mais Quente.

Sarah é uma jovem negra sul-africana que, aos 25 anos, foi levada pelo seu patrão para Londres, onde (contra a promessa inicial de que ela iria cantar, dançar etc) é exibida em uma jaula, fustigada com um chicote, beliscada na bunda pela plateia puritana do período vitoriano. O espetáculo consiste em tratá-la como um animal adestrado, que, no entanto, continua a oferecer certo grau de perigo. O nosso incômodo talvez venha de que Kechiche nos rebaixe à condição de espectadores impotentes das longas cenas de humilhação da jovem, de cujo rosto jamais escapa um sorriso. Sarah pede para que isso mude, mas sofre violência física e verbal. Chora frente ao público, e é reprochada por deixar vazar o sofrimento que atravessa o seu ser. O artifício de seus exploradores consiste em apresentar-se como vítima da jovem, também ‘alugada’ para relações sexuais e exibições de seu corpo, amplo e obeso, que causa tanto espanto naquele mundo branco. Após seu protesto inútil, vem a resignação e Sarah afunda no alcoolismo, com o pronto incentivo do patrão – qualquer semelhança com a epidemia de drogas nos bairros negros dos EUA não é mera coincidência: resposta covarde aos movimentos negros que se organizavam nos anos 1970.

O choro de Sarah mobiliza parte da plateia e o caso vai parar num tribunal, no qual, sem abordagem adequada, ela se comporta como quase toda vítima: defende seus agressores. É quando a pequena trupe muda-se para Paris, onde, cinco anos depois, se repetem as cenas – profundamente inquietantes, horrendas na sua banalidade – do ‘espetáculo’ “Venus Hotentot”. Sarah passa quase todo o filme nua ou seminua, para o prazer ou a curiosidade particularmente dos homens, mas também das mulheres, que deixam suas exibições de violino para vê-la urrar como um animal. O aspecto perverso de sua dor talvez consista em que ela não pode ser, por completo, um ‘objeto’ (esquecendo-se nos vapores do álcool que se tornam seu consolo), mas deve ‘encenar’, para o prazeroso ‘reconhecimento’ da plateia. Talvez não custe lembrar que livros de antropologia sobre os ‘selvagens’ tinham enormes tiragens no século XIX: os civilizados queriam não só explorar, mas ver; ter a certeza de que, em suas colônias tão distantes, eles não faziam nada pior do que já faziam com seus animais, sacrificados para usufruto de um coletivo humano que acreditava sinceramente no caráter ‘elevado’ de suas ideias e práticas sociais. A maior força do filme de Kechiche talvez esteja em mostrar a cegueira, o auto-engano e a violência dessa cultura que negou a todas as demais o direito à vida e à busca por uma forma própria de metabolismo com a natureza.

Muito bem, depois de sofrer por mais de uma hora, vem à cena o Dr. Georges Cuvier, médico celebradíssimo em sua época. Ele paga ao ‘senhor’ da Venus Hotentote para poder examiná-la. Sarah é forçada a ir ao luxuoso prédio do ilustre doutor [sim, diz o seu amo, é uma honra que esses homens tão importantes se interessem por você. Sim, meus amigos, é uma honra que a Copa seja sediada no Brasil!], que tira medidas de seu corpo, comprovando, sem sombra de dúvida, que ela se assemelha a um orangotango. Má ciência, má política, má arte: é o retrato de uma Europa perversa que esse maravilhoso filme nos oferece, como uma frágil máscara prontamente quebrada pelo simples encontro com o Estranho.

Esse filme, tão fantástico para uma reflexão nos mais diversos campos das ciências humanas, talvez também mude a sua vida. Depois de vê-lo, depois de tudo que anda acontecendo no Brasil, sei que quero estudar o racismo e também repensar ideias velhas que trazemos na psicologia, sobre o que é a cultura e de que modo uma cultura é também ‘metacultura’ – ou seja, uma ‘cultura sobre a cultura’. Será que não conseguimos nos livrar desse crônico servilismo a ideias racistas que atravessam nossas relações cotidianas e leva nossa juventude negra a ser assassinada ainda hoje? Será que não?

Acima, assista ao filme Vênus Negra completo (leg. em inglês).