CATRACAS EM CHAMAS – Goiânia, 11 de Agosto de 2017, Dia do Estudante [Assista ao curta-metragem documental!]






CATRACAS EM CHAMAS

Texto por Eduardo Carli de Moraes
Fotografias por Júlia Aguiar do Metamorfose
A Casa de Vidro – 12/08/2017

Em meio à avalanche de retrocessos que esmaga os direitos sociais no Brasil e faz da Constituição de 1988 um amontoado de escombros, após ser vandalizada pela cleptocracia golpista, vivemos hoje em um barril de pólvora de tamanho continental e sem escassez de faíscas que podem servir de estopim para um imenso “boom!”

As jornadas de Junho de 2013 – que se tornaram paradigma em Pindorama, na história recente, de uma erupção da lava-de-vulcão da participação popular no esforço de determinação de nossos destinos coletivos – não são apenas um item de museu ou um objeto de estudo para historiadores e cientistas políticos que se debruçam sobre o passado morto.

Aquele Junho ainda pulsa. Inspira, no presente, a vontade de forjarmos juntos um “Novo Junho”, agora não mais destampado em sua fúria espantosa por 20 centavos de incremento na tarifa do busão, mas tendo muitos outros combustíveis para alimentar suas chamas.

Nestes nossos tempos conturbados, em que vivenciamos um golpe de Estado que derrubou a presidenta eleita e encerrou os 5.000 dias de lulismo no poder (fenômeno analisado por 52 autores em nova publicação da Ed. Boitempo), estamos testemunhando o destroçamento da legislação trabalhista, a precarização da previdência social, o abandono cruel proposto pelo governo usurpador de quaisquer políticas públicas dignas para as áreas de educação, cultura, saúde, moradia, mobilidade urbana etc.

O Estado mínimo neoliberal – liberdade-para-lucrar ofertada aos empresários, Estado policial-carcerário-punitivo imposto com mão-de-ferro às grandes massas – vêm sendo imposto na esteira do golpeachment e configura o Brasil, no cenário global, como território arrasado por uma das mais cruéis políticas de austericídio hoje em curso no planeta. Neste contexto, é salutar e preciosa a presença nas ruas da juventude politizada, consciente de sua tarefa histórica, na linha-de-frente de resistência, sem amarelar nem arregar.




Neste 11 de Agosto de 2017, Dia do Estudante (saiba porquê em Brasil Escola), estivemos nas ruas de Goiânia acompanhando a primeira manifestação do Movimento Contra Catraca (MCT), novidade no cenário ativista goianiense e que busca articular as lutas sociais específicas do transporte público de modo semelhante – mas não idêntico – ao Movimento Passe Livre (MPL) paulistano, tão determinante nas insurreições juninas de 2013.

Na atualidade, a atroz tesoura da austeridade Temerária decidiu novamente atacar os mais vulneráveis e despossuídos, entre eles os estudantes de escolas públicas que necessitam de transporte coletivo para sua mobilidade pela urbe. O que está em questão é o Direito à Cidade que está sendo brutalmente negado por aqueles que estão em posições de poder e, ao invés de atentarem para o bem público, forjam políticas para empresários corruptores e cheios da bufunfa, apostando em um modelo de cidade que é ecocida e segregacionista.

Uma cidade feita para os carros e não para os ciclistas e pedestres; uma cidade de crasso individualismo e perdida no culto idiótico da carrolatria, que dá privilégio para motoristas individuais em suas gaiolas-de-ferro motorizadas e abandona o povão no Eixão à humilhação de pagar preços escorchantes, por um busão precário, obrigando-nos à condição desumana de sardinha espremida na lata durante os horários de pico.

A estudantada, que tem toda razão em estar revoltada com os cortes brutais nos investimentos públicos que decorrerão da PEC do congelamento, aprovada em Dezembro de 2016 apesar da maior onda de ocupações de escolas e universidades já vivenciada por qualquer país na história humana, agora tem que suportar novos achaques. A única certeza é que não suportarão em silêncio e resignados as atuais brutalidades palacianas impostas de cima pra baixo sobre nossos ombros. Os lordes palacianos alimentam a ilusão de que imporão estas medidas sem gerar rebelião?

Uma faixa preta, com letras garrafais brancas, ia na linha-de-frente da manifestação deste 11 de Agosto e alertava os políticos e a máfia dos transportes: “PASSE LIVRE OU REBELIÃO”. A catraca, como símbolo de uma sociedade que segrega e separa, pegou fogo na frente do palácio Pedro Ludovico. Não era vandalismo – nem se tratava de uma catraca de verdade – mas de um alerta. Um signo inflamado da disposição da juventude dissidente em contestar a lógica catracária e caquética. Uma ameaça juvenil-popular contra o governo e que comunica, na linguagem das chamas, que já não somos cordeiros obedientes que seguem as ordens do tirano quando ele manda as ovelhas caminharem placidamente para o abismo.

Trata-se de um movimento que, em Goiânia, está claramente alinhado aos movimentos estudantis, feministas, anti-racistas, anarquistas, autonomistas, marxistas etc., com presença de coletivos como Quilombo, Juntos! (Juventude do PSOL), Levante Popular da Juventude, UJR, dentre outros. Trata-se de uma mobilização realizada por aquela fração da juventude que é mais politizada e tem uma consciência crítica mais ampla para perceber que seus direitos constitucionais estão sendo cortados, que a juventude, sobretudo a periférica, está sendo impedida de se locomover a contento pelo espaço urbano, privados assim também do acesso mais amplo à cultura, ao lazer e aos encontros motivados por afinidades eletivas.

Entre as palavras-de-ordem entoadas em coro pela galera, estavam: “Não pago, não pagaria, transporte público não é mercadoria!”; “É barricada, greve geral, ação direta que derruba o capital!”; “Acabou a paz, mexeu com estudante, mexeu com Satanás!”, dentre outros.

A desobediência civil, propagada por panfletos e por zines punk, era também praticada pela galera nas ruas como tática para confrontar um legalismo espúrio, como que dizendo em altos brados que leis injustas não merecem ser respeitadas e que desobedecer a medidas bárbaras impostas por cleptocratas engravatados é algo muito mais próximo da justiça como valor e virtude do que aquilo que fantasia-se assim na solenidade de delegacias e tribunais. Aécio Neves prossegue senador e Rafael Braga prossegue encarcerado: eis um símbolo do porquê desobedecemos e contestamos as iniquidades e crueldades do status quo vigente.



São estes agitos que procuramos retratar neste documentário curta-metragem Catracas em Chamas (11 min), uma produção independente d’A Casa de Vidro, com filmagens de Eduardo Carli e Renato Costa, montagem de Eduardo Carli, com trechos musicais de Zulumbi, Rincon Sapiência e B Negão. Assista no Youtube, no Vimeo ou no Facebook.

Nossos outros documentários podem ser acessados aqui.  Algumas sugestões de outras trajetórias pelos docs documentais que realizamos recentemente, e que estão em sintonia com o tema da juventude ativista de esquerda em suas manifestações de rua, são: Abre AlasPrimavera SecundaristaFermento Pra Massa – Nevoeiro Salutar.

P. S. – Assista também os vídeos de Desneuralizador​: http://bit.ly/2w4bwD3 e Metamorfose: http://bit.ly/2wJsMdH.




OUTRAS TRAJETÓRIAS

Àqueles que criticam estes movimentos por suas pautas demasiado específicas, o filósofo Vladimir Safatle responde de modo convincente, mostrando que a pauta do busão é capaz de apontar um sintoma de um sistema insanizado, atuando de modo a que seus alvos precisos incidam também sobre o Sistemão mais amplo, como ele aponta no vídeo abaixo e também na coluna que escreveu para a Folha de São Paulo em 18 de Junho de 2013:

“O que impressiona nas manifestações contra o aumento do preço das passagens de ônibus e contra a imposição de uma lógica que transforma um transporte público de péssima qualidade em terceiro gasto das famílias é sua precisão.

Como as cidades brasileiras transformaram-se em catástrofes urbanas, moldadas pela especulação imobiliária e pelas máfias de transportes, nada mais justo do que problematizar a ausência de uma política pública eficiente.

Mas, em uma cidade onde o metrô é alvo de acusações de corrupção que pararam até em tribunais suíços e onde a passagem de ônibus é uma das mais caras do mundo, manifestantes eram, até a semana passada, tratados ou como jovens com ideias delirantes ou como simples vândalos que mereciam uma Polícia Militar que age como manada enfurecida de porcos.

Vários deleitaram-se em ridicularizar a proposta de tarifa zero. No entanto, a ideia original não nasceu da cabeça de “grupelhos protorrevolucionários”. Ela foi resultado de grupos de trabalho da própria Prefeitura de São Paulo, quando comandada pelo mesmo partido que agora está no poder.

Em uma ironia maior da história, o PT ouve das ruas a radicalidade de propostas que ele construiu, mas que não tem mais coragem de assumir.

A proposta original previa financiar subsídios ao transporte por meio do aumento progressivo do IPTU. Ela poderia ainda apelar a um imposto sobre o segundo carro das famílias, estimulando as classes média e alta a entrar no ônibus e a descongestionar as ruas.

Apenas nos EUA, ao menos 35 cidades, todas com mais de 200 mil habitantes, adotaram o transporte totalmente subsidiado. Da mesma forma, Hasselt, na Bélgica, e Tallinn, na Estônia. Mas, em vez de discussão concreta sobre o tema, a população de São Paulo só ouviu, até agora, ironias contra os manifestantes.

Ao menos, parece que ninguém defende mais uma concepção bisonha de democracia, que valia na semana passada e compreendia manifestações públicas como atentados contra o “direito de ir e vir”. Segundo essa concepção, manifestações só no pico do Jaraguá. Contra ela, lembremos: democracia é barulho.

Quem gosta de silêncio prefere ditaduras.” (SAFATLE, Folha de São Paulo, 18/06/2013)

Também faz-se necessário, nesse momento, aprender as lições ensinadas pelas Cidades Rebeldes, amplificadas nas obras de autores como David Harvey e Henri Lefebvre. O primeiro escreve sobre o segundo:

“Em 1967, Henri Lefebvre (1901-1991) escreveu seu ensaio seminal, Le droit à la ville (O direito à cidade). Esse direito, afirmava ele, era ao mesmo tempo uma queixa e uma exigência. A queixa era uma resposta à dor existencial de uma crise devastadora da vida cotidiana na cidade. A exigência era, na verdade, uma ordem para encarar a crise nos olhos e criar uma vida urbana alternativa que fosse menos alienada, mais significativa e divertida, porém, como sempre em Lefebvre, conflitante e dialética, aberta ao futuro… Considero extremamente significativo que O direito à cidade tenha sido escrito antes de A Irrupção (como Lefebvre posteriormente a chamou) de maio de 1968. Seu ensaio apresenta uma situação em que tal irrupção não era apenas possível, mas quase inevitável.

(…) Algo como orçamento participativo, em que os moradores comuns da cidade tomam parte direta na distribuição de quantias do orçamento municipal por um processo democrático de tomada de decisão, tem inspirado muitas pessoas a buscar algum tipo de resposta a um capitalismo internacional brutalmente neoliberalizante que vem intensificando sua agressão às qualidades da vida cotidiana desde os primeiros anos da década de 1990. Tampouco surpreende que esse modelo tenha se desenvolvido em Porto Alegre, Brasil – a sede do Fórum Social Mundial.” (p. 11-14)

* * * **

“Nossa tarefa política, sugere Lefebvre, consiste em imaginar e reconstituir um tipo totalmente novo de cidade a partir do repulsivo caos de um desenfreado capital globalizante e urbanizador. Contudo, isso não pode ocorrer sem a criação de um vigoroso movimento anticapitalista cujo objetivo central seja a transformação da vida urbana do nosso cotidiano. (…) As lutas políticas são animadas tanto por intenções visionárias quanto por aspectos e razões de natureza prática.

(…) Para Henri Lefebvre (1901-1991) – e nisso ele está certamente de acordo com os situacionistas – há no urbano uma multiplicidade de práticas prestes a transbordar de possibilidades alternativas. O conceito de heterotopia defendido por Lefebvre (radicalmente diferente do de Foucault) delineia espaços sociais limítrofes de possibilidades onde ‘algo diferente’ é não apenas possível, mas fundamental para a definição de trajetórias revolucionárias. Esse ‘algo diferente’ não decorre necessariamente de um projeto consciente, mas simplesmente daquilo que as pessoas fazem, sentem, percebem e terminam por articular à medida que procuram significados para sua vida cotidiana.

Essas práticas criam espaços heterotópicos por toda parte. Não precisamos esperar a grande revolução para que esses espaços venham a se concretizar. A teoria de Lefebvre de um movimento revolucionário situa-se exatamente no polo oposto: a confluência espontânea em um momento de ‘irrupção’, quando grupos heterotópicos distintos de repente se dão conta, ainda que por um breve momento, das possibilidades da ação coletiva para criar algo radicalmente novo.”  (HARVEY, Cidades Rebeldes, p. 11-14-20-22)

POSFÁCIO MUSICAL – Um rap de Rincon Sapiência

LEIA TAMBÉM:

UMA SOCIOLOGIA À ALTURA DE JUNHO – por Ruy Braga em A Pulsão Plebéia

VEJA TAMBÉM:
ÁLBUM COMPLETO COM AS FOTOGRAFIAS DE JÚLIA AGUIAR QUE ILUSTRAM ESTE POST

SER OU NÃO SER? – A Educação >>> 7 episódios do programa de TV da Viviane Mosé

Vivi Mosé

Ser ou Não Ser? – A Educação é um programa de 7 episódios, produzido pela TV Futura e comandado por Viviane Mosé, devotado a analisar os desafios da educação contemporânea e a explorar projetos pedagógicos inovadores. Com reportagens realizadas no Brasil e em Portugal, a série traz depoimentos de educadores e pensadores do tema como Rubem Alves, Moacir Gadotti, José Pacheco, Rui Canário (Lisboa), Antônio Carlos Gomes da Costa, Celso Antunes, Pedro Demo, Cristovam Buarque, Maria Pilar, dentre outros. O programa é apresentado por Viviane Mosé, poetisa, filósofa, psicóloga psicanalista e especialista em elaboração e implementação de políticas públicas. 58 minutos.

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“Quem anda me comendo é o tempo…”

FIOS NA TEIA DA VIDA – O papel do jornalismo na defesa da sociobiodiversidade

FIOS NA TEIA DA VIDA:
O papel do jornalismo na defesa da sociobiodiversidade

por Eduardo Carli de Moraes

Escrito para o Edital do XVI Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros (resultado)

“A pluralidade é a lei da terra”.
HANNAH ARENDT (1906 – 1975) [1]

“Não sou apenas o índio que perdeu a taba
Na curva da estrada que o trator abriu
Quando arrancou mãe-floresta,
Quebrou minha flecha
Deturpou minha festa e quase ninguém viu
Não quero esse lero-lero de quem diz:
Não posso! Coitado! Ai de mim!
Se a Amazônia dá um grito, nós gritamos juntos.
E rezamos assim: Ave! Ave! Santa árvore
Pai nosso e do palmital
Pão nosso e do santo fruto
Ribeirinho enfrenta o mal
Do homem que traz a cerca
Planta capim, faz curral
Amparado num projeto de violência brutal
Onde o homem é esquecido
E o boi querido é o tal.”
ZÉ PINTO [2]

Neste ano de 2016, o Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros comemora 16 anos de travessia. Através desta história, vem atuando como propiciador de intercâmbios culturais que contribuem para que “a voz do nosso povo se faça ouvir com toda sua diversidade” [3], para lembrar palavras de Célio Turino.

Esta é também uma das tarefa de antropólogos e etnográfos, de fotógrafos e jornalistas: tornar evidente e manifesto a polifonia e a pluralidade de nosso “país que pulsa diversidade”, como se lê na Carta de São Jorge. Esta é um manifesto coletivo, nascido como um dos muitos frutos da 15ª edição do Encontro, assinado pela Comissão Nacional dos Pontos de Cultura, reunida entre os dias 28 de julho a 01 de agosto na Vila de São Jorge, Alto Paraíso de Goiás. Suas eloquentes palavras permanecem, um ano depois, intensamente atuais:

O Brasil, que pulsa diversidade, está atento à onda conservadora que assola o País e promove uma crise civilizatória. Setores reacionários atacam nossa juventude por meio da redução da maioridade penal e o genocídio da juventude negra, agridem povos de terreiro, mulheres e a comunidade LGBTT com o crescente fundamentalismo religioso. Indígenas, quilombolas e povos tradicionais sofrem uma ofensiva do grande capital contra seus territórios. Fica claro para nós que as conquistas sociais e econômicas dos últimos anos não são suportadas pelas elites do nosso País… (Carta de São Jorge [4])

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Aldeia Multiétnica @ Encontro de Culturas da Chapada dos Veadeiros – Foto: Fredox Carvalho

Premiado pelo Iphan em 2015 [5], o Encontro das Culturas Tradicionais tem contribuído para repovoar nosso imaginário utópico rumo a uma cultura polifônica, repleta de participação social e diálogos fecundos entre os diferentes povos e perspectivas que constituem os fios na grande teia da vida. É neste contexto que nos propomos, no presente texto, realizar algumas reflexões sobre o papel do jornalismo na defesa e na celebração da sociobiodiversidade, conceito muito enfatizado no “Encontrão” (como é carinhosamente conhecido).

Acredito que os profissionais da mídia têm o dever ético e profissional, além da função pública essencial, de engajarem-se na defesa da “inestimável sociobiodiversidade dos povos da floresta”6 e na denúncia da brutalidade das práticas “da cerca e do curral” mencionadas no poema-canção de Zé Pinto e que fazem com que “o homem seja esquecido”.

Hoje, mais do que nunca, quando estamos ameaçados por todos os lados por desmatamentos e etnocídios, por assassinatos de ecoativistas e imensas catástrofes ambientais (como aquela que ocorreu no Rio Doce), faz-se necessário e urgente defender as culturas em sua pluralidade, re-afirmando a possibilidade de um convívio fecundo e mutuamente enriquecedor entre as diferenças.

Para esta tarefa grandiosa e utópica é preciso a congregação de forças – e sem dúvida que os jornalistas podem (e devem) somar suas vozes e palavras, suas investigações e pesquisas, suas reportagens e fotografias, suas denúncias e seus anúncios, ao coro daqueles que querem uma cultura viva, pulsante, pluralíssima, que celebre o colorido todo da nossa inestimável sociobiodiversidade hoje tão ameaçada, vilipendiada e golpeada.

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Palco de atrações artísticas do Encontro de Culturas da Chapada dos Veadeiros – edição XV, 2015, foto de Leonil Jr

A desconexão pode enlouquecer – e não estamos falando da Internet que, quando cai, pode deixar doido (ao menos provisoriamente) alguns de seus usuários mais adictos. A desconexão mais nociva é aquela que nos separa uns dos outros em facções e seitas inimigas, impedindo-nos a congregação e a troca em meio à pluralidade que nos constitui. Em um país de cultura adoecida, os sujeitos estão desconectados da rede da vida. Podem estar conectados a seu feed de besteirol no celular ou no navegador, mas vivem na alienação da desconexão, desvinculados uns dos outros, construindo abismos intransponíveis que as separam ao invés de pontes que comunicam as margens, incapazes de perceberem os laços que os unem uns aos outros e à natureza comum de que participam.

O jornalismo, quando de fato fornece informação autêntica sobre a realidade concreta, fornece não apenas uma enxurrada de informação, infértil e sem consequência. O jornalismo, ao informar-nos sobre o real, fornece-nos algo essencial para a transformação do que há, para a superação do dado, uma vez que pode servir para desfazer os feitiços paralisantes da alienação, definida magistralmente por Milton Santos nos seguintes termos: “A força da alienação vem dessa fragilidade dos indivíduos, quando apenas conseguem identificar o que os separa e não o que os une.”

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O jornalismo, quando de fato se presta a ouvir as vozes das comunidades tradicionais, quando abre-se a aprender com as sabedorias ancestrais de povos indígenas ou quilombolas, pode realizar um trabalho de revelação de uma realidade que muitos não enxergam. Pode contribuir para que a opinião pública se sensibilize em relação a problemas, dificuldades e desafios enfrentados pelas comunidades, mas pode também ensinar sobre outros modos de conviver e de criar. O jornalismo autêntico, segundo acredito, busca compartilhar um saber sobre o real de que somos contemporâneos, sendo uma atividade não apenas informativa mas também de formação; contêm uma dimensão pedagógica intrínseca, desde que não preste ao leitor o desserviço de enganá-lo ou ludibriá-lo por ordem do patrão.

Compartilhar o saber sobre a vida concreta, as dificuldades e os triunfos, os obstáculos e as vitórias, das comunidades tradicionais, pode ajudar os leitores a compreenderem a importância das raízes bem plantadas em solo fecundo para que as árvores dêem profusão de flores e frutos. O jornalismo pode ser uma dessas forças que fornece saber sobre a efetividade desses povos e que amplifica seus valores e práticas. Se saber não é exatamente poder, é sim um elemento essencial à eficácia da ação conjunta no mundo comum de que nos fala Hannah Arendt, esta terra cuja lei a filósofa afirmava ser a pluralidade.

Conhecer o real é indispensável para aqueles que querem transformá-lo, e o jornalismo, em sua vocação, deve ser veículo de conhecimento sobre aquilo de que somos contemporâneos. Assim considerado, o jornalista é análogo ao historiador (que deseja ter cognição do passado para comunicar conhecimento sobre tempos idos), com a diferença de que é no calor da hora, em um presente que está acontecendo em toda a sua desenrolante imprevisibilidade, que o jornalista buscará aquilo que é digno de comunicar a seu público.

Em nosso país de dimensões continentais como o Brasil, estamos condenados a desconhecer vários Brasis onde nunca estivemos, vários locais onde nossa experiência imediata nunca bebeu. E já que ninguém tem o dom da ubiquidade, só se pode conhecer a fundo este país gigantesco – e de si mesmo tão dessemelhante! – através das narrativas que tecemos e comunicamos uns aos outros, entre elas as jornalísticas. Uma boa reportagem não difere tanto, quanto aos efeitos éticos e estéticos que propicia à sensibilidade e à inteligência do leitor, de algum primoroso conto de nosso repertório literário. E creio não haver absurdo em debater quem é a escritora mais magistral, se Clarice Lispector, se Eliane Brum.

Eliane Brum, jornalista e escritora brasileira

Eliane Brum, jornalista e escritora brasileira

No Brasil, existem em atividade alguns jornalistas muito engajados nas questões socioambientais: caso de Washington Novaes, Felipe Milanez, Eliane Brum (El País), Inês Castilho (Outras Palavras), André Trigueiro, dentre outros. Há também institutos e ONGs, com seus respectivos blogs e sites, devotados ao jornalismo de qualidade sobre o tema, caso do Combate Racismo Ambiental, Instituto Sócio Ambiental ou Envolverde [7]. O jornalismo, tal como praticado por estes inspiradores luminares da profissão, pode contribuir para que o leitor enxergue as conexões entre os fenômenos, refletindo sobre as consequências futuras de nossas ações atuais etc.

Infelizmente, a chamada “grande mídia” não costuma dar o devido destaque aos temas do meio ambiente e dos modos-de-vida de populações tradicionais capazes de uma relação harmônica com a natureza. Temas de extrema importância, como o aquecimento global, a acidificação dos oceanos, a poluição atmosférica, o desmatamento, a invasão de garimpeiros e madeireiras sobre áres demarcadas, dentre outros temas, sofrem com uma espécie de blecaute cotidiano em grande parte da imprensa empresarial, apelidada por alguns “mídia burguesa”.

Ainda assim, há de se reconhecer que, apesar das críticas que podem lhe ser dirigidas, existem projetos como a Planeta Sustentável, “uma iniciativa multiplataforma de comunicação que tem a missão de difundir conhecimentos sobre desafios e soluções para questões ambientais, sociais e econômicas do nosso tempo. Dissemina conhecimentos sobre temas relacionados a sustentabilidade para 21 milhões de leitores anuais por meio de seu site mais de 30 títulos de revistas da Editora Abril.” [8]

Já no âmbito da intelectualidade brasileira, também há alguns ilustres autores que têm oferecido muitas reflexões relevantes sobre os temas socioambientais e culturais: é o caso, por exemplo, de Ricardo Abramovay, Ladislau Dowbor, Deborah Danowski, Eduardo Gianneti da Fonseca, Antonio Nobre, Eduardo Viveiros de Castro, dentre outros.

Quando exercido por profissionais de talento literário e percepção sociológica aguçada, a narrativa jornalística pode atingir tons épicos, grandiosos. Um exemplo excelente é aquilo que costumo chamar de “jornalirismo” de Eliane Brum, autora capaz de descrições socioambientais de raro brilhantismo literário, que podemos exemplificar relembrando sua descrição da realidade vivenciada pelos ianomâmis:

A floresta proibida dos ianomâmis, 9,7 milhões de hectares estendidos como um tapete verde e úmido sobre Roraima e Amazonas, assemelha-se a um universo primordial. Rios de sucuris gigantes, cachoeiras cinematográficas, árvores eternas. Quase o dia da criação. Os índios, feitos dessa mesma matéria original, se mimetizam à selva, invisíveis ao primeiro olhar, aconchegados ao ventre de Omamë, o precursor de tudo segundo sua cosmologia. Revelam ao cibernético século XXI, agora tragicamente confrontado com as diferenças que julgava encobrir, um modo de viver semelhante ao dos primeiros ancestrais. Dos povos mais isolados do planeta, travam a guerra do começo do mundo enquanto o planeta globalizado ameaça manchar a Terra com um ponto final. – ELIANE BRUM 9

Eliane Brum serve para ilustrar a potência do jornalismo quando pratica a sensibilização do leitor para as questões socioambientais, em que a vida humana e a vida da biosfera nunca estão desconectadas, onde as florestas e seus povos são reveladas em toda a tessitura de sua pluralidade, inclusive com a revelação recorrente da unicidade de cada personagem que dá o ar de sua graça na reportagem.

Foi lendo e relendo os textos de Brum que fui me convencendo que hoje o jornalista precisa ser um pouco antropólogo, um pouco etnógrafo, movido por um sincero desejo de compreender o mundo do outro, acessar a perspectiva existencial alheia, construindo pontes de comunicação que permitam uma mútua cognição e que nos auxiliem a melhor tecer, em conjunto, a continuação da teia da vida.

Sem dúvida, o jornalista responsável, que conhece sua função pública, têm necessariamente de pôr em prática permanente o seu senso crítico, inclusive sobre os dogmas e as dominações que vigem na profissão. Um livro publicado recentemente no Brasil pela Ed. Boitempo, Mídia, Poder e Contrapoder – Da concentração monopólica à democratização da informação, traz um interessante artigo de Ignacio Ramonet onde ele afirma que vários grupos midiáticos “estão se comportando, segundo o conceito de Louis Althusser, como ferramenta ideológica da globalização”10.

Para não se render a ser serviçal das ideologias hegemônicas e dos sistemas de produção e consumo hoje hegemônicos, que são insustentáveis pois ecocidas, o jornalismo precisa esclarecer a opinião pública sobre as culturas, em sua pluralidade, que sobrevivem hoje com técnicas ancestrais de interação com o meio ambiente, sem devastação, com respeito e sabedoria. Povos indígenas e quilombolas têm destaque neste cenário, infelizmente ainda muito desconhecido de boa parte dos brasileiros “civilizados”, já que muitos urbanóides que habitam os grandes centros urbanos ignoram boa parte da realidade brasileira (e, como viemos explorando, a mídia empresarial tem culpa no cartório em relação à produção social desta relativa cegueira).

Um outro exemplo de jornalismo competente, cujo tema tem muita relação com o XVI Encontro de Culturas das Chapadas dos Veadeiros, é uma interessante reportagem recente chamada “As Novas Cercas do Quilombo”, na qual Repórter Brasil revelou que “apenas 7% das famílias quilombolas vivem em áreas tituladas. Na busca pelo reconhecimento dos territórios, comunidades enfrentam ameaças, confisco de objetos históricos e resistência até do órgão de preservação do patrimônio.” Eis um exemplo interessante de como o jornalismo pode servir ao bem público ao informar-nos sobre a realidade social:

Dos cerca de 2.700 quilombos de todo o país já certificados pela Fundação Palmares, só 163 chegaram à etapa final e foram titulados. No Incra, a morosidade é absoluta: “A questão é que há mais de 1.500 processos abertos no Incra, mas o órgão não tem capacidade de encaminhá-los”, afirma Otávio Penteado, assessor da Comissão Pró-Índio de São Paulo, organização que também lida com a questão quilombola. Para Otávio, a falta de titulação das terras ocorre por “desinteresse político”, o que se traduz em cortes orçamentários na área.

A mudança na composição dos ministérios que o presidente interino Michel Temer (PMDB) realizou assim que Dilma Rousseff foi afastada pelo Senado agravou as preocupações das entidades ligadas à questão quilombola. Na última quinta-feira (12/05), o deputado federal ligado à bancada ruralista Osmar Terra (PMDB-RS) foi nomeado para a pasta de Desenvolvimento Social e Agrário, que é responsável pelo Incra. Também foi extinto o Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos, que coordenava o Programa Brasil Quilombola e executava políticas voltadas às comunidades negras tradicionais. – Repórter Brasil [11]

Acredito que o jornalismo possa ser uma tocha iluminante em nossos tempos sombrios, fornecendo informação verídica sobre o real que permita transformá-lo de modo criativo. Quando soma suas forças narrativas à eventos como o Encontro de Culturas Tradicionais, pode auxiliar a tornar visíveis os invisíveis, tornar audíveis os silenciados, dando voz e vez àqueles que o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro apelidou recentemente de os involuntários da pátria [12].

O jornalismo, que também integra o âmbito da cultura e tem todo o interesse em seu florescimento, pode (e deve) agir consciente de sua função pública ao invés de servil a interesses empresariais classistas e excludentes. Para recuperar a Carta de São Jorge com que começamos, não há jornalismo emancipador que não seja devotado à construção de uma democracia participativa, do diálogo perene, que aposte numa política da gestão compartilhada do mundo comum, tendo sempre em foco a defesa e a celebração da sociobiodiversidade. Por isso, subscrevemos o seguinte trecho do manifesto:

Entendemos que a cultura deve estar na centralidade do modelo de desenvolvimento do país. E um governo que tem como lema Pátria Educadora deve reconhecer as sabedorias, os conhecimentos e os ensinamentos próprios de seu povo. Deve reconhecer, também, que quem faz cultura, quem produz cultura não são gestores em gabinetes, mas o povo no seu viver, conviver, sobreviver, existir e resistir. A Política Nacional de Cultura Viva (Lei 13.018) é a afirmação de que, sem diversidade com base nos direitos humanos, não há cidadania. Ela é essencial para combater o avanço conservador em marcha e construir uma sociedade emancipada.”

Que a pluralidade pulse no XVI Encontro e que o jornalismo possa juntar sua voz para cantar nesta ciranda exuberante da cultura viva!

14a edição 4

Aldeia Multiétnica do Encontro de Culturas da Chapada dos Veadeiros – 14a edição

* * * * *

NOTAS

1 A frase de filósofa está presente em seu livro A Vida Do Espírito – Volume I: Pensar.

2 Zé Pinto é poeta e cantador de Rondônia e este poema foi declamado na música “Devoção à Amazônia” do CD Arte em Movimento do MST – Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Ouça na Internet: https://youtu.be/InHzQ_h1SbA.

3 Célio Turino em Ponto de Cultura: o Brasil de baixo para cima. 2ª ed. São Paulo: Ed. Anita Garibaldi, 2010. P. 16.

5 Na 28ª edição do prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade, do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), foi um dos vencedores na categoria II – “iniciativas de excelência em promoção e gestão compartilhada do patrimônio cultural.“

6 CALEGARE; HIGUCHI (org). Nos interiores da Amazônia: leituras psicossociais. Curitiba-PR: Ed. CRV, 2016.

9 BRUM, E. A Guerra do Começo do Mundo. Leia a reportagem na íntegra no portal A Casa de Vidro. O texto integra o livro Olho da Rua – uma repórter em busca da literatura da vida real (ed. Globo, 2008, p. 53)

10 “Vocês acham que os meios de comunicação dominantes, que pertencem a grupos de alta relevância no mercado, serão críticos com a globalização e o neoliberalismo, sendo que eles são atores centrais nessas duas dinâmicas? É evidente que a possibilidade disso acontecer é pequena. Em termos gerais, o que eles dizem sobre esse assunto? Que isso é muito bom para nós. Você perdeu seu trabalho, não dispõe mais de serviços públicos, cortaram sua pensão, complicam sua aposentadoria e fazem você trabalhar mais… mas isso é muito bom! É excelente! Todos os meios de comunicação nos repetem isso constantemente. Em outras épocas, quem dava a visão de mundo, quem tinha a responsabilidade e a missão de inculcá-la na sociedade era a Igreja. A Igreja difundia uma concepção de mundo; do mundo e do além. Por exemplo, na colonização da América, os conquistadores eram acompanhados por evangelizadores na destruição de sociedades que tinham sua idiossincrasia, sua religião, sua cultura, suas línguas, sua própria cosmogonia. O conquistador brutal destruía todos esses elementos da sociedade e o evangelizador dizia: ‘mas que sorte maravilhosa!’ Destruíram sua família, destruíram seu povo, destruíram suas crenças, destruíram sua língua, destruíram sua cultura, mas agora você tem a verdadeira religião! Alegre-se! Hoje, a imprensa e os meios de comunicação têm a missão de ser a ferramenta ideológica da globalização.” (RAMONET: Boitempo, 2013, p. 63)

12 Em um trecho magistral, Viveiros de Castro diz: “Povo” só ‘(r)existe’ no plural — povoS. Um povo é uma multiplicidade singular, que supõe outros povos, que habita uma terra pluralmente povoada de povos. Quanto perguntaram ao escritor Daniel Munduruku se ele “enquanto índio etc.”, ele cortou no ato: “não sou índio; sou Munduruku”. Mas ser Munduruku significa saber que existem Kayabi, Kayapó, Matis, Guarani, Tupinambá, e que esses não são Munduruku, mas tampouco são Brancos. Quem inventou os “índios” como categoria genérica foram os grandes especialistas na generalidade, os Brancos, ou por outra, o Estado branco, colonial, imperial, republicano.” Trecho de “Os Involuntários da Pátria”, aula pública de Viveiros de Castro proferida durante o ato Abril Indígena, na Cinelândia, RJ, em 20/04/2016, que pode ser lida na íntegra no portal A Casa de Vidro.


SIGA VIAGEM:

Moacir

moacir-chapada

Trabalhos do artista plástico Moacir, na Vila de São Jorge (GO), tema do documentário “Moacir Arte Bruta” de João Jardim (assista abaixo)


“Chapada dos Veadeiros” – filmagens de drone


“Cada Terra Tem Um Uso, Cada Roda Tem Um Fuso” (2009, 80 min, diretor Neto Borges)


“ATLÂNTICO NEGRO – Na Rota dos Orixás”


SERRAS DA DESORDEM – Um filme de Andrea Tonacci (2006, COMPLETO)


PROGRAMA ENREDO CULTURAL DA TV UFG


BOOGARINS – “Benzin” (clipe filmado na Chapada e estrelado pela Salma do Carne Doce)


ACOMPANHE A COBERTURA COMPLETA DO 
XVI ENCONTRO DE CULTURAS DA CHAPADA DOS VEADEIROS
Site oficialhttp://www.encontrodeculturas.com.br/

DESLACRANDO A LIBERDADE: O Festival Bananada em meio ao caos da Republiqueta de Bananas

DESLACRANDO A LIBERDADE

O Bananada em meio ao caos da Republiqueta de Bananas

por Eduardo Carli de Moraes

“Liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta,
não há ninguém que explique e ninguém que não entenda.”
CECÍLIA MEIRELLES (1901-1964)

PRELÚDIO ETIMOLÓGICO

DESLACRANDO = gerúndio do verbo deslacrar
DESLACRAR = abrir o que está lacrado

I. A BLITZKRIEG LIBERTÁRIA DE LINIKER E OS CARAMELOWS

Quiseram os rumos da História que o Festival Bananada 2016, em sua 18ª edição anual consecutiva, acontecesse logo nos primeiros dias do (des)governo interino de Michel Temer. Com o punho direito no alto – um gesto típico do Black Power e celebrizado nas Olimpíadas do México em 1968 pelos atletas afroamericanos Tommie Smith e John Carlos, Liniker começou seu show no Bananada garantindo: “estamos aqui pela liberdade, sempre!” Quando a música começou a rolar, como uma maná de frescor e vida que caía em exuberância, era difícil resistir à blitzkrieg libertária, mezzo Dzi Croquettes e mezzo Itamar Assumpção e Isca de Polícia, que tomou conta do recinto.

Para o jovem multi-artista de Araraquara (SP), liberdade tem tudo a ver com a afirmação jubilante do empoderamento. Quando despontou com vídeos que viralizaram na Internet – “Zero” já tem mais de 2 milhões e 500 mil views – o Liniker apareceu para confrontar todos os códigos do politicamente correto: quando ele canta “deixa eu bagunçar você”, está pondo em prática um programa anarco-estético ousado, que tem na ruptura das ortodoxias um dos seus principais nortes. Deixe-se bagunçar! Pois o atual discurso de “salvação nacional” da “Ponte Para o Futuro”, baseada na recuperação do “ordem e progresso”, não merece nada mais que ser caotizado por nossas energias ingovernáveis e nossa desobediência civil.

Liniker3

A “atitude lacradora” que Liniker e sua banda de apoio, os açúcarados e cheios-do-groove Caramelows, propagaram em seus dois shows no Bananada (o primeiro, no teatro Sesi, e o segundo, no Centro Cultural Oscar Niemeyer) mostraram a perfeita conjunção entre música e atitude, relembrando que a revolução comportamental pode ter como uma de suas melhores aliadas a cultura, renovada, que têm nascido. Calcados na melhor tradição da black music nativa e gringa, mesclando a gafieira Black Rio com a funkeira à la Sly and the Family Stone, Liniker demonstrou ser um dos nomes mais magistrais da nova música brasileira.

Sua empatia com a multidão, sua capacidade de comandar a massa, sua performance exuberante e sem pudores beatos, fez dele o grande destaque do Bananada. Contra todo tipo de racismo, homofobia, machismo ou apartheid, Liniker e seus asseclas provaram que há sim plena possibilidade de congregação entre gente diferente e que não foi inventado nada melhor que a música como agente catalisador da fraternidade imediata entre desconhecidos (uma lição que os gregos, em seu dionisismo, já conheciam muito bem!).

Com um carisma fora de série, um senso de humor delicioso, uma expressão corporal livre e desinibida, Liniker demonstrou ser um band leader daqueles que surge muito raramente na música popular de qualquer país. A platéia foi ao transe diante da ousada confrontação de todas as carolices. Congregar-se é isso, justamente: agregar amorosamente as diferenças, permitir o convívio alegre do dissonante. Faltam palavras suficientes para descrever o sopro de vida e esperança desta celebração artística da liberdade em nosso tempo de tenebrosos fascismos, que saem do armário tacando suas pedras sobre negros, bichas, índios, ateus, petistas, comunistas, secundaristas e “vândalos”, num triunfo grotesco do discurso do ódio.

LinikerNum país onde Bolsonazi faz apologia da tortura, elogiando o carrasco de Dilma na ditadura em uma sessão da Câmara comandada por um delinquente contumaz (Cunha) e em que um sindicato de ladrões cagou em gangue sobre o sufrágio universal, foi uma injeção de vida na veia poder testemunhar a simbiose artistas-público no Bananada, com o ódio acéfalo e o golpismo segregador sendo confrontados lindamente pela amorosidade  contagiante dos Caramelows. Mostraram que ainda há a coragem de sobra, neste país, de afirmar toda a nossa diversidade e colorido – com o volume no talo e sem medo de porra nenhuma.

Num intervalo entre as músicas, a platéia, galvanizada, berrava a plenos pulmões e com insistência: “não vai ter golpe! não vai ter golpe!” Ao sabor da hora, Liniker retorquiu com palavras de fraternidade na resistência, clamando pra que a gente não deixe que arranquem nossa democracia e conclamando à união: “não vai ter golpe, o que vai ter é lacre!” Acompanhado pelas duas deslumbrantes backing vocals, Liniker deu um show de humanidade (este valor fora-de-moda em nossa época desumana). Foi isso que busquei sintetizar no vídeo abaixo que, em 20 minutos, tenta transmitir um pouco das razões (e das emoções) que me levam a considerar este o show mais emblemático daquele que talvez tenha sido, como disse a Noisey da Vice Brasil, o melhor Bananada destes 18 anos de vida do festival goiano.

Banana2 

* * * * *

II. #FUCK TEMER E OUTRAS SUBVERSÕES E RESISTÊNCIAS

ethos da resistência aos Podres Poderes marcou o palco do Bananada em vários momentos, numa ironia histórica notável: numa época em que a Republiqueta de Bananas se manifesta em todo o seu desprezo pela democracia, golpeando o sufrágio popular em prol de um complô plutocrático das elites, coube ao Bananada ser uma ruidosa voz resistente contra os desmandos da corja delinquente chefiada por Cunha, Temer, Serra, P.I.G., Fiesp e demais escrotos golpeadores.

Vários artistas se apresentaram numa vibe de indignação política, com várias manifestações sobre o tema: Siba brincou com a linguagem – “teve goipe e teve goipada!”, disse o genial músico e poeta pernambuco, clamando para que sigamos Avante com nossos ideais e não deixemos o país ir, de vez, para o fundo do poço. A folia na galera foi ao auge com canções inesquecíveis como “Toda Vez Que Eu Dou Um Passo O Mundo Sai Do Lugar”. O talento como letrista de Siba é explícito e acachapou-nos quando, no encerramento do show, com veia de repentista somada a um certo sabor de Ariano Suassuna, ele inventou na hora, de improviso, uma série de estrofes rimadas que provaram mais uma vez a maestria deste nosso queridíssimo gênio do cancioneiro popular.

 O indie rock a um só tempo ruidoso e psicodelizante dos Supercordas também agradou. De cima do palco, Bonifrate e companhia bradaram em cartazes: “Não vai ter governo” e “Vai ter luta”.

Superchords

Super

Helio Sequence

The Helio Sequence (USA), foto de Ramon Ataide

O grupo de rock psicodélico Bike, que homenageia em seu disco de estréia, 1943, o químico Albert Hoffmann, sintetizador do LSD e primeiro ser humano a dar um rolê de bicicleta pela Holanda após consumir acido lisérgico, também clamou para que a gente “desça da montanha” pra lutar contra o governo usurpador, “se não a gente tá fudido”.

Mesmo as estrelas do stoner local, os Hellbenders, fizeram pela primeira vez um discurso político, criticando os retrocessos na cultura anunciados pelo presidente biônico. Até os gringos (estadunidenses) do The Helio Sequence juntaram-se ao coro e lacraram: “#FuckTemer!”.

As guitarradas comeram soltas, dando fuel pra indignação e pras rodas de pogo, com o Riviera Gaz – o excelente power-trio estrelado por Gustavo Riviera (vocalista e guitarrista, do Forgotten Boys) e o batera do Sonic Youth, Steve Shelley. O Killing Chainsaw tentou cortar cabeças com serra elétrica com seu indie-punk raivoso, ensurdecedor. E quando o Planet Hemp chegou, precedido de um DJ Set na vibe “Killing in the Name”, o poderio contestatório e revolucionário do rock estava flamejando em toda a sua fulminância, com Marcelo D2 e BNegão, neste revival em boa hora, mostrando porque esta é uma das bandas mais foda da história deste país.

É uma delícia ouvir, berrado, “adivinha, doutor, quem tá de volta na praça: Planet Hemp, esquadrilha da fumaça!”. Ainda mais considerando a atualidade da mensagem Hempiana, dada a continuidade grotesca do proibicionismo contra-producente, da política de encarceramento em massa, do racismo institucionalizado em nossas prisões e polícias, das Tropas de Choque e de Elite que defendem o tope repleto de bandidos de colarinho-branco. Diante desta situação, graças ao Planet Hemp temos artistas sem rabo preso, com consciência social, devotados ao protesto construtivo em prol de maior justiça social, que nos ajudam a questionar e com quem é preciso sempre re-perguntar, diante de todo o sangue que derrubam e de toda a injustiça que cometem os nossos “líderes” do controle e da repressão, se não é o caso de pararem de apontar o dedo acusador para maconheiros, como se fossem parte do problema, quando são, na real, parte da solução! Avante, rumo ao Planeta Maconha!

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Foto por Ariel Martini.

Foto por Ariel Martini.

A CULPA É DE QUEM?
“Portugueses escravizaram e mataram nosso irmão
Militares torturaram e não foram pra prisão
Eu fumo minha erva, me chamam de ladrão
Os negros já fumavam a erva antes da África deixar
Mas os senhores proibiram por não querer nos libertar
E os senhores de hoje em dia estão proibindo também
Se o pobre começa a pensar parece que incomoda alguém
Crianças crescem nas ruas, não confiam em ninguém
Escondem nossa cultura, referência ninguém tem
O país tá uma merda e a culpa é de quem?

A culpa é de quem? A culpa é de quem?

Eles roubam no planalto e não pensam em ninguém
Manipulam as leis e vêm com papo furado
Tudo que incomoda eles, eles dizem estar errado
Então quem é o marginal?
Crianças morrem por sua culpa e eu que vivo ilegal
Tenho que me esconder por uma coisa natural
Enquanto eles metem a mão na maior cara de pau
Não vou ficar calado porque está tudo errado
Políticos cruzam os braços e o país está uma merda
Trabalho pra caralho e fumo a minha erva, aí eu te pergunto:

A culpa é de quem? A culpa é de quem?”

* * * * * *

III. O “PACOTE DE MALDADES” DO GOLPISMO vs A CULTURA EM MARCHA CONTRA A BARBÁRIE

O festival ocorreu em meio a um clima político de estarrecimento geral, e muitas vezes revolta incontida, diante do “pacote de maldades” que o PMDB batizou (seria irônico, caso não fosse trágico!) de “Ponte Para O Futuro”, e que é o novo nome para uma velharia: a proposta, útil só aos 1% no tope, da Privataria Generalizada somada às brutais “Austeridades Para O Povo”. Uma farsa elitista que já foi “gloriosamente” instalada entre nós, nos anos 1990, pelo sociólogo transmutado em parceiraço do capital transnacional oni-privatizante, o FHC [Fumando Henrique de Cardoso].

Como prova empírica do caráter elitista, misógino e plutocrático do regime golpista instalado às pressas nesta republiqueta-de-bananas, a “nova” Esplanada dos Ministérios não tem como ministro nenhuma mulher, nenhum negro, nenhum representante dos povos indígenas. É um Ministério para agradar o P.I.G.: para que a Veja se satisfaça com a reiteração maldita do dogma machista-patriarcal que obriga a mulher a ficar restrita a subalterna e serviçal: “bela, recatada e do lar”. 

O golpe é engomadinho, tem visual de quem vai aparecer na TV: veste terno-e-gravata, faz discursos na Globo, dirige BMWs comprados por lavagem de dinheiro pela Suíça ou pelo Panamá. Os golpistas são olimpicamente desdenhosos da vida dura dos reles mortais que vivem em favelas, ou estão no desemprego, ou das mulheres que querem abortar, ou de todos os que não aceitam o molde familiar da heterossexualidade compulsória, ou dos mortos e feridos pela brutalidade banalizada de nosso complexo policial-carcerário e da conexa e absurda Guerra às Drogas.

O ministério do golpe é todo de velhos homens brancos, fedendo a mofo e à interesses egocêntricos, boa parte deles réus em processos de corrupção e enriquecimento ilícito, com nada menos que 7 deles na mira da Lava Jato. Todos eles representantes de elites que já estão demasiado bem-bancadas, no Parlamento, pelas Bancadas BBB (Boi, Bala e Bíblia). O que significa que a Cultura perdeu muitas batalhas para a Barbárie nos últimos tempos!

O último golpe, desferido dias antes do Bananada, foi o fim da existência independente do MinC: Temer decretou a fusão do ministério da Cultura e da Educação, entregou de mão beijada o Ministério a um partido da direita-grotesca (o DEM), com um desdém inimaginável pelo trabalho de Juca Ferreira, Ivana Bentes e de tantos outros guerreiros que têm lutado, ultimamente, em prol de nossa Cultura Viva. Uma ameaçadora espada de Dâmocles pendia sobre o pescoço do MinC durante o festival, enquanto dezenas de ocupações de prédios e escolas se multiplicavam pelo Brasil, exigindo do governo usurpador o respeito devido à cultura e à arte. Com as cabeças desabrigadas de teto, sob as estrelas do Goiás, nós nos movíamos (uns 5 mil humanos por noite!) entre a monumental arquitetura de Oscar Niemeyer na inquietude destes tempos caóticos.

Donde a importância, para além do entretenimento social e da venda lucrativa de espetáculos pela “Indústria Cultural” nacional – que, devido às minguadas verbas públicas para a cultura, hoje para bancar-se não está tendo como escapar dos conluios de patrocínio com as corporações de cerveja (a Skol é a patrocinadora oficial do festival) – o Bananada foi um sopro de vida muito bem-vindo. Ainda que o conteúdo político não estivesse no script oficial do evento, produzido com competência ímpar pela Construtora de Fabrício Nobre, este foi o Bananada de maior impacto político dentre os 6 ou 7 que já testemunhei.

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O Bananada reafirmou enfaticamente a potência da cultura nestes nossos tempos tão bárbaros, mostrando a quem lá esteve que este país, para além da crise política e econômica estraçalhante, tem vocação para driblar adversidades com muita capoeira, tem o dom da criatividade sem freios, tem a disponibilidade para as mestiçagens e hibridismos mais livres, tem propensão para a genialidade rítmica e melódica absolutamente ímpares. O Brasil autêntico que vive e resiste longe das cúpulas, não se preocupem, sempre foi ingovernável e de uma genialidade selvagem!

Siba

“Teve goipe sim, teve goipada!” – Siba

Se a política institucional é um lamaçal de podridão que nos envergonha diante do mundo, podemos muito bem nos orgulhar, isto é, dar um boost na auto-estima e um chega-pra-lá no “complexo de vira-latas”, por sermos os felizes e gratos conterrâneos de figuras de tão adorável musicalidade e poiésis: Jorge Ben Jor, Siba, Juçara Marçal, Liniker, Planet Hemp, Carne Doce, Pó de Ser etc. Junto deles é que estamos em boa companhia.

IV. CONTRAGOLPES DA LUZ EM TEMPOS DE TREVAS

A experiência me deixou matutando que não há época de trevas que não seja também repleta de contragolpes da luz. Sem A.I.5 não haveriam nascido as “É Proibido Proibir” e as “Cálices” que fizeram com que nossa MPB, mesmo sob as mordaças e os horrores da Ditadura, florescesse resistindo. E que luz brilha com mais esplendor, nas trevas impostas pelas elites, que a da liberdade cantada e da dançada de um povo que constrói na união e na fraternidade seu próprio empoderamento?

Liberdade de afirmarmos a nossa diversidade e celebrarmos o pluralismo de nossa criatividade. Liberdade também de demolir paradigmas de bom comportamento, destroçar imposições autoritárias de conduta, ir além da jaula estreita do politicamente correto, do imposto pelas caretices reinantes. Liberdade para ser absolutamente anárquico (no bom sentido!) na bagunça de gênero, número e cor que dá o tom no Liniker e os Caramelows, com toda a maravilhosidade sem culpa de um protagonista que é ao tempo negão, bicha e lacradora, demolindo a golpes de genialidade qualquer idiotice racistóide ou puritanismo teocrático.

Liberdade para defender, com impacto expressivo e estético de intenso vigor e verve, um “Planeta Maconha” de cannabis livre e Estado policial-carcerário aposentado de vez da história, como fez o Planet Hemp em show arrebatador (os caras são de um poderio ao vivo que os equipara a Rage Against The Machine ou MC5!).

Liberdade para quem é careca, é gordo, é feio, é veado, é de esquerda, é vesgo, tem pele com mais melanina, é ativista do socialismo, é anarquista libertário, é feminista e lésbica, é o que diabo for, de ser quem é, sem ter que tomar pedradas ou sofrer discriminações ofensivas. Os festivais de Goiânia – em especial o Bananada, o Vaca Amarela e o Grito Rock – parecem Zonas Autônomas Temporárias onde a lei do amor prevalece sobre a do ódio e ninguém fica “tacando pedra e bosta na Geni”. Locais onde damos razão à Hannah Arendt quando escreveu, em A Vida do Espírito, que “a pluralidade é a lei da terra.”

Nestes pavorosos tempos de fascismo em ascensão e de golpes de Estado financiados pelo capital transnacional, sempre com seus bem-pagos serviçais na elite nativa, é um sopro de esperança e vitalidade um festival assim, tão bom e tão vivo. Um sopro – ou melhor, para citar os Hellbenders, um hurricane! – de um outro mundo possível onde artistas empunhem, não só guitarras e baixos, tambores e baquetas, mas que também levantem bandeiras libertárias.

Helio2

O festival ficou marcado na carne pelas urgências da época histórica, e até mesmo as bandas estrangeiras envolveram-se com o “clima de golpe de Estado”, como fez o vocalista do The Helio Sequence quando disse: “here’s something I guess most of you will relate to!”, disse o antes de erguer um cartaz branco onde se lia, em letras garrafais negras ali grafadas com spray: FUCK TEMER”.

As duas palavrinhas impertinentes que mandavam um foda-se ao usurpador também decoraram um dos palcos, no último dia de festival (15/05), e marcaram o background para a passagem do furacão goiano Hellbenders. Para onde quer que se olhasse naquele palco, o stoner-grungy da banda tinha por acompanhamento fuck Temers e fuck Malafaias às mancheias.

Hell

 Lançando seu segundo álbum, Peiote, gravado na Califórnia no Rancho de La Luna, os Hellbenders pela primeira vez desvelaram uma faceta politizada, como no prelúdio a “Hurricane”, em que o vocalista Diogo Fleury convocou para uma mega roda de pogo após dizer que um governo que nos seus primeiros passos comete atentados contra a cultura e a arte já começa bem mal.

Para além de teorias e debates sobre ela, a tal da Liberdade manifestou-se na práxis em corpos bailantes, coros de vozes em uníssono, cabelos e penteados de todas as cores e tipos (confesso predileção e carinho pelos cabelos azuis, que propagam ecos do filme Azul É A Cor Mais Quente). A variedade, além de estética e temática, foi também vista no colorido do público e na diversidade dos espaços que podíamos explorar – do point do skate ao das tatoos, da praça gastronômica deliciosa às projeções nos prédios (que recuperaram a obra do Bicicleta Sem Freio no prédio do CCON que foi censurada no ano passado). Como bem explorou a matéria da Noisey:

“Em sua 18ª edição, o Festival Bananada vem há tempos buscando transcender a esfera musical e proporcionar uma experiência completa ao público. Não estamos falando apenas de algumas bancas com comida — apesar do Circuito Gastronômico promovido pelo evento ter sido uma das experiências mais agradáveis do rolê —, mas sim de estúdios de tattoo, cabeleireiro, lojinhas das mais variadas bugingangas, merch dos artistas, tabacaria, espaço para as crianças (pode ser cedo demais para levar o bacuri a um show do Planet Hemp), campeonato de skate e até mesmo uma rinha de bartenders valendo prêmio para o melhor drink.

O excesso de opções no espaço, claro, tornou necessário um certo planejamento envolvendo o que assistir e o que fazer durante o festival, mas nada que comprometesse seriamente a chapação envolvida em três dias principais o festival (que ao todo se desenrolou entre os dias 9 e 15 de maio) de encontros com os brothers e muita música foda no Centro Cultural Oscar Niemeyer, o CCON, em Goiânia.

(…) Em 18 anos de existência, talvez o festival tenha nos proporcionado sua versão mais acertada. Com uma estrutura inédita e muito bem planejada, grande parte dos perrengues de se ir a um evento deste porte passou em branco. Apesar da variedade de gêneros musicais presente na programação, ficou uma leve sensação de que faltou uma ou outra banda mais bombada no evento e — como a própria plateia disse durante o show do Rodrigo Ogi — faltou rap no Bananada.

Para muitos que residem em Goiânia, Brasília e região o Bananada funciona como a única forma de reencontrar alguns amigos, o que torna todo o rolê mais essencial a cada ano que passa. A tônica política também foi forte: praticamente todos os artistas que se apresentaram nos três dias do festival no CCON se posicionaram contra o golpe — e alguns até discursaram para o público. Considerando a situação cívica caótica que estamos vivendo nos últimos tempos, o Festival Bananada foi um pontinho reconfortante de esperança e descontração no meio do Cerrado.” – NOISEY

Salma Jô por Ariel Martini

Salma Jô, vocalista do Carne Doce – Fotografia por Ariel Martini

V. TODA A FORÇA DA DOÇURA DA CARNE

Naquele tenebroso 17 de Abril do golpe parlamentar de Cunha e sua corja – confrontado pela maré vermelha de ativismo que registrei no documentário O Céu e o Condor – Jean Wyllys acusou o processo de impeachment contra Dilma de ser uma “farsa sexista”. O caráter patriarcal, retrógado e machista se confirmou com o ministério de Temer, sem nenhuma presença feminina, colocando mais lenha na fogueira das insurgências feministas, mais necessárias do que nunca diante do atentado à democracia que é também um ataque à figura da mulher em figura de proeminência e protagonismo na política. Neste contexto, não economizo palavras para adorar uma banda como o Carne Doce, que já faz por merecer a posição dentre as melhores bandas do Brasil.

Com apenas um EP (Dos Namorados) e um álbum (Carne Doce), o quinteto goianiense já consagrou-se pelo brilhantismo e pela lindeza de sua arte e de suas performances. Nasceu em Goiânia nos últimos anos, em especial com os Boogarins, o Pó de Ser e o Carne Doce, uma espécie de vertente do indie rock brasileiro que prima pela originalidade, pela experimentação, pela ousadia estética e comportamental, em contraste com o hype do cenário stoner (Black Drawing Chalks, Hellbenders, Overfuzz), que é um furacão de potência mas está ainda bem apegado a modelos estrangeiros, às letras em inglês e ao desejo de ser como o Queens of the Stone Age.

A emergência das bandas com letras em português e autenticidade estonteante – no caso do Boogarins, capaz de transcender as fronteiras nacionais e tornar-se fenômeno global – torna este um dos momentos mais geniais da história de Goiânia Rock City. E não há dúvida de que Salma Jô e seu comparsas de banda estão no centro deste protagonismo – e com todo o mérito, já que a qualidade do trabalho Carne Dociano é algo de deixar boquiaberto o crítico musical, que se transmuta logo em outra coisa: fã em estado de adoração. O modo como acabou o show do Carne Doce neste Bananada 2016 é a maior prova disso: na cena mais inesquecível do festival, numa imitação de Eddie Vedder (Pearl Jam) em seus dias de loucão grungy, o Dan Pimentel escalou a estrutura do palco, fugindo do guardinha da segurança, e enlouqueceu total dependurado no topo, num headbanging xamânico ao som de “Adoração”.

SalmaNão se trata de um caso isolado: o Carne Doce é capaz de despertar reações extremas no público, em especial pela capacidade descomunal de Salma Jô em interpretar as suas canções de modo visceral, com expressão corporal de uma autenticidade e uma liberdade que são muito raras e admiráveis, agindo sempre como se estivesse curtindo imensamente o som produzido por Macloys, Aderson, Ricardo e João Vitor. Apesar de soar prematura uma profecia diante de uma banda tão nova, eu diria que Salma tem o potencial para tornar-se uma das mais importantes cantoras do Brasil – no nível de uma Cássia Eller ou uma Elis Regina – e já pode ser elencada, dentre as vozes contemporâneas, na companhia de Juçara Marçal ou Ceumar como uma de nossas mais incríveis intérpretes.

No Bananada, houve aula magna de liberdade com a refulgência do Carne Doce, uma banda que tematiza sexualidade e sensualidade indo ao cerne do coração selvagem de que nos fala Clarice Lispector. Numa música nova, que eu desconhecia e que muito me impressionou, o eu-lírico da Salma adota a perspectiva em primeira pessoa de uma mulher que decide-se, ao descobrir-se grávida, que o filho “não vai nascer”. Salma Jô canta-nos e convence-nos com uma encarnação (a um só tempo teatral e autêntica!) dos dilemas femininos como são sentidos por dentro. É um antídoto empoderador contra os discursos obscurantistas e fanáticos daqueles que desejam subtrair da mulher seu poder de decidir sobre o seu próprio corpo.

Ava Rocha e Salma Jô

Ava Rocha e Salma Jô

A participação tempestuosa de Ava Rocha, pela primeira vez dividindo o palco com o Carne Doce, foi uma lição a mais de empoderamento e excentricidade. No “Auto das Bacantes”, cantada em dueto com Salma, o chamado é para “tomar os espaços”: “tome espaço do Estado, da polícia, da NSA / da mulher maravilha / e meta um grelo na geopolítica!Ava – responsável por um dos álbuns mais inadjetiváveis da nova música brasileira, Ava Patrya Yndia Yracema (2015), trouxe ao transe carne-dociano um elemento transgressor a mais, subvertendo todos os paradigmas de beleza, como naquele estranho ritual bacântico em que Salma foi “coroada”, não como a crística coroa de espinhos, mas com uma coroa de facas. O público, extasiado, só agradecia às loucuras maravilhosas que via no palco e que provavam a maravilha das rebeldias estéticas e comportamentais. Nossa arte e nossa política só tem a ganhar com o talento e o carisma inestimáveis de mulheres como Salma e Ava.

Foram momentos momento de re-afirmação coletiva da capacidade de dizer não: no caso, não ao retrocesso, não à barbárie, não ao golpismo, não ao capitalismo destroçador de dignidade. Uma ocasião de dizer nãos produtivos e criativos, muito para além da negatividade, numa afirmação de que “eu grito sim / é pra você escutar / que eu quero ver / você fazer / eu me calar!”

Cito a letra de “Passivo”, do Carne Doce, tanto por considerá-la emblemática da qualidade estética estonteante da banda, mas também para destacar outras camadas de sentido que podem ser desveladas na canção. O “não se calar” desta canção, onde o foco narrativo é uma relação amorosa interpessoal, na performance vocal visceral de Salma transita para outro domínio, para outra vibe, e que me parece ter potencial de ser pura dinamite política: é uma voz de autonomia e rebeldia. É o som da lindeza inestimável da insubmissão. É o som que faz o empoderamento do desejo que afirma-se sem pudor nem culpa pois se sabe digno de auto-afirmação plena.

É esplendorosamente subversivo, em especial com a explosão de uma sexualidade indomável dos versos “vem me fuuuuder”“vem me fazer daaaaaaaar!” Ainda que possa soar a alguns ouvidos como pornografia letrística, aos meus ouvidos soa como uma das manifestações mais impressionantes, na nossa música contemporânea, dum brado libertário do Corpo que demanda o seu direito de gozar, que quer dignificar o gozo e desculpabilizar a carne, em insurgência (necessária e urgente) contra todos os estigmas caretas e condenações pias que aniquilam nosso deleite por sermos quem somos e por nos amarmos como nos amamos.

* * * * *

VI. O ESPLENDOR DA LUTA: JUÇARA MARÇAL EM CARNE VIVA

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Para terminar este relato, não posso deixar de me derreter em adoração pelo esplendor que foi a performance da Juçara Marçal, uma das mais lindas vozes deste nosso Brasil, no Festival Bananada 2016. Um dos momentos mais comoventes do show foi uma interpretação do samba “Opinião”, de Zé Keti, que caiu como uma luva no contexto da crise política brasileira: “Podem me prender / Podem me bater / Podem até deixar-me sem comer / Que eu não mudo de opinião!”

Estes versos, com um prelúdio em que Juçara alertava que cantaria algo “sobre o Golpe”, ganharam uma nova gama de significados que insuflaram vida nova a esta imorredoura pérola do cancioneiro popular em que o protagonista é a “voz do povo” e a “sabedoria da quebrada”. A visceralidade e a graça que emanam do gogó da Ju Marçal despertaram em mim esperanças de que, mesmo com este grotesco atentado contra o MinC, mesmo com um crápula do DEM tendo recebido o ministério da Educação e Cultura, mesmo com o rolo compressor de esmagar cidadania com que o golpismo galopante já nos atropela, o nosso presente já é de florescimento exuberante de uma “arte-de-resistência”. A cultura autêntica não vai se calar.

Anos atrás, eu tinha visto um show do Metá Metá no CCUFG que havia deixado meus sentidos acachapados de admiração diante de uma bandas mais inovadoras e originais que surgiram no país nos últimos anos. Depois, o “Encarnado”, álbum solo da Juçara, tornou-se um dos meus álbuns prediletos da música brasileira contemporânea, com suas versões ousadas e criativas de Tom Zé, Itamar Assumpção, Siba, dentre outros. Depois do Bananada 2016, não tenho mais dúvidas: Juçara é uma das artistas mais expressivas, inteligentes e sábias que temos entre os vivos. E é em fontes assim que preencho com um bocadinho de esperança um coração e uma mente que, às vezes, diante das escabrosas atrocidades de nossas elites e das castas políticas plutocráticas, ameaçam soçobrar no completo desespero.

Raia a esperança, emanada de João do Vale ou Zé Keti, de Wilson das Neves ou do Aláfia, de Jorge Ben em modo “Záfrica Brasil” ou Juçara Marçal dando vida à pluridiversidade de nossa cultura popular, de que, apesar dos pesares, Nelson Cavaquinho ainda terá a última palavra: “O Sol há de brilhar mais uma vez / A luz há de voltar aos corações / Do mal será queimada a semente / O amor… será eterno novamente.”

 A “ponte para o futuro” (na real um atalho para o abismo!) que está sendo imposta por aquilo que Noam Chomsky chamou de “golpe brando” (mas que entre nós já recebeu a denominação mais humorística de golpe à paraguaia) é fruto de uma obscurantista e retrógrada elite econômica e política que, sistematicamente derrotada nas urnas nas 4 últimas eleições presidenciais, não conteve seu mandonismo, seu coronelismo, e tomou de assalto o poder de modo fraudulento e ilegítimo.

Algumas das inteligências mais refulgentes e brilhantes da nossa vida política, como o ministro Juca Ferreira e a secretária Ivana Bentes, foram “despedidos” de seus cargos no MinC, como prova cabal de quão deturpado é o juízo dos Temerianos e o quanto eles querem sangrar o Cultura Viva até que se torne um zumbi. Emblemático disso foi que no Rio de Janeiro o monumento na Cinelândia em homenagem a Gilberto Gil, muso tropicalista que tão esplêndidas contribuições fez à nossa cultura popular e um dos mais revolucionários e visionários dos Ministros da Cultura que já tivemos, foi “deletado” do cenário urbano: a tinta cinza dos censores apagou o colorido de Gil horas antes de uma manifestação contra o golpe marcada para aquele local.

Com a nossa cara coletiva toda gotejante depois de tantas cusparadas (há cuspes e cuspes: o de Jean Wyllys é digno de aplausos, pois seria sórdido e grotesco permitir que a apologia da tortura e a prática cruel da homofobia, por parte do Bolsonazista, fosse aceita em silêncio, sem que protestássemos com escarro!), fomos ao Bananada 2016 pra ver se a música lavava a alma de toda esta sujeira. E lavou. O vigor, o poderio, o ruído ensurdecedor feito pelo Bananada 2016, em sua 18a edição, no coração do Cerradão onde repousa a cidade de Brasília, foi um contragolpe à altura das urgências históricas de que somos contemporâneos. A Cultura resiste. O pulso ainda pulsa. Não estamos derrotados. “E eu quero ver / Você fazer / Eu me calar!”

Eduardo Carli de Moraes
Goiânia, Maio de 2016

CONFIRA OS VÍDEOS FILMADOS NO BANANADA 2016:







Eles também estão disponíveis no YOUTUBE.

Fotos: ARIEL MARTINI | RAMON ATAIDE E EDUARDO CARLI | PEDRO MARGHERITO

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EM BREVE: DOC COMPLETO: DESLACRANDO A LIBERDADE NO BANANADA 2016

SOCIALISMO OU BARBÁRIE! – O conceito de sociedade autônoma segundo o filósofo Cornelius Castoriadis

À luz explosiva dos acontecimentos recentes, que parecem perpetuar entre nós as guerras fratricidas e que me parecem dar plena razão a Mahatma Gandhi quando disse: “olho por olho e acabaremos todos cegos!”, sinto-me assaltado por dúvidas e inquietações sobre o nosso futuro comum e sobre as barbáries de que o nosso presente está grávido.

Ouso escrever para manifestar alguns desassossegos que andam sendo como pulgas atrás da orelha: aquilo que chamamos de religiões monoteístas, tão hegemônicas no mercado das crenças, poderiam ser consideradas, após cuidadosa análise histórica e empírica, como causadoras de muito mais danos e destruição do que promotoras louváveis do Bem e da Paz?

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O judaísmo, o cristianismo, o islamismo, são capazes de coexistência pacífica, convívio mútuo, relação fecunda com a alteridade, ou não vão parar tão cedo com os mútuos massacres e com o “choque de civilizações”? O cego sectarismo homicida fará com que sigam se trucidando, incapazes de aprender com as lições da história, contumazes nas intolerâncias? Vão seguir sendo tais como as retrata a pena de Voltaire?

“O direito à intolerância é, pois, absurdo e bárbaro; é o direito dos tigres, e bem mais horrível, pois os tigres só atacam para comer, enquanto nós exterminamo-nos por parágrafos.” – VOLTAIRE, “Tratado Sobre a Tolerância”

Sei bem que o sectarismo religioso e as guerras inter-sectárias não se restringem aos credos monoteístas –  que, por exemplo, os praticantes do hinduísmo, na Índia, podem ter relações conflitivas e violentas com os sikhs, e que o fato de serem ambos politeístas não impediu gregos e troianos de se chacinarem (@Ilíada) – mas quero explorar aqui a hipótese de que a permanência e persistência, entre nós, dos monoteísmos instituídos tem tornado a teocracia uma força ainda muito presente em nosso mundo.

institucion-imaginaria-de-la-sociedad-cornelius-castoriadis_MLA-F-3308814295_102012Em um texto esplendidamente provocador, o filósofo político Cornelius Castoriadis escreve: “O judeu, o cristão, o muçulmano, são escravos da instituição dada de sua sociedade, de uma lei imutável e intocável, pois sua origem é atribuída a uma causa transcendente, Deus.” (1979, p. 13)

Para entender o que ele quis dizer basta dar uma espiada numa pintura como a seguinte, de Gebhard Fugel, que retrata a cena mítica em que o profeta Moisés teria recebido dos céus, direto das mãos de Deus – retratado como um velhinho explicitamente antropomórfico, de barbas brancas, cinco dedos em cada mão, obviamente do sexo masculino (“Pai Nosso, que estás no céu, santificado seja o Vosso nome…”), talhado à imagem e semelhança de muitos idosos humanos que conhecemos…

Eis uma imagem de um deus – branquelo, macho, em posição hierárquica superior, que abre um buraco nos céus para conversar com seu eleito! – que encarna a heteronomia, ou seja, o avesso e o antônimo da autonomia. Este deus, entregando a Moisés as Tábuas da Lei (o Decálogo de 10 Mandamentos Divinos), que devem ser aplicados na terra após terem sido promulgados do céu, é uma representação paradigmática da figura do teocrata, portador de um nomos divino, ou seja, um ídolo sobre o qual se sustenta, até hoje, o monoteísmo e o patriarcado, o poder pastoral e a política messiânica:

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Gebhard Fugel, “Moisés recebe de Jeová a Tábua dos 10 Mandamentos”

Talvez o que caracterize melhor do que tudo um sistema político teocrático seja a tentativa de fundar a ordem civil a partir de uma lei que supostamente “caiu do céu”, ou seja, de uma lei que foi imposta de fora da sociedade por um Deus, habitante das nuvens… Castoriadis chama isto de “representação de uma origem extra-social da lei” e convoca o leitor a desconfiar profundamente da veracidade deste processo que pretende fazer de uma divindade transcendente a instituidora da lei coletiva, da ordem social. Teocracia: uma lei “de outro mundo” pretende reinar neste mundo, com a sacralização ou mitificação de certos ancestrais, figuras “sobrehumanas” ou sobrenaturais que teriam tido um intercâmbio íntimo com os deuses – como é o caso de Moisés – tanto na tradição judaico-cristã (e todas as suas sub-seitas) quando no Islã – ou de Licurgo para os espartanos.

Estátua de Licurgo de Esparta (em Bruxelas)

Estátua de Licurgo de Esparta (em Bruxelas)

Desde a Grécia Antiga, pois, já se conhece este processo de sacralização de “fundadores da sociedade”, que supostamente trouxeram à sua coletividade uma lei, um nomos, que foi emanada diretamente de Cima, do Céu, da Transcendência, “revelada” diretamente pelos deuses a um indivíduo privilegiado e por Ele eleito. O caso de Esparta é paradigmático: “As leis de Esparta, postas como intocáveis, são atribuídas, no essencial, a um fundador mítico ou mitificado, Licurgo.” (op cit, p. 13) Licurgo, por sua vez, se acreditarmos na Wikipédia, não tinha a pretensão de que a legislação que ele legou aos espartanos fosse obra pessoal, escrita de próprio punho, mas tinha-lhe sido “doada” pelo Olimpo no Oráculo de Delfos (o templo dedicado a Apolo e célebre pelos visitantes notáveis que por ali passaram, de Sócrates a Édipo…).

 Quando a lei que governa a sociedade é atribuída a um ancestral divinizado, que recebeu o nomos do próprio Deus, estamos sob perigo de cair na teocracia, um regime que tão frequentemente pode tornar-se uma tirania, uma ditadura regida por um moralismo rigorista e mutilador. A pretensão de reinar sobre uma sociedade com “mandato divino” parece-me ter sido uma das razões para que, na Idade Média (dita “Das Trevas”), as monarquias européias, católicas ou protestantes, fossem chamadas de “absolutistas”, tendo atiçado contra si os levantes renascentistas e iluministas contra o que viria a ser depois chamado de ancien régime. Temo, porém, que ainda estejamos longe de ter nos livrado de fato da teocracia e daquilo que Foucault chamava de “poder pastoral”.

 Uma lei divina é absoluta, indiscutível, só nos resta cair de joelhos e adorá-la, submeter-mo-nos a ela e em tudo obedecê-la. Nisso, porém, nossa autonomia, a possibilidade de uma coletividade autônoma, jaz assassinada. Convêm citar Castoriadis mais uma vez:

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“A origem mítica da lei, como a entrega das Tábuas da Lei por Deus a Moisés, como a revelação cristã ou o profetismo muçulmano, possuem a mesma significação e função: assegurar a conservação de uma instituição heteronômica da sociedade, incorporando nesta instituição a representação de uma origem extra-social da lei, que é como que estabelecida por definição e por essência subtraída à atividade instituinte dos humanos. Em compensação, onde houve ruptura da heteronomia instituída aparecem ao mesmo tempo – é uma verdade banal – o indivíduo autônomo e a coletividade autônoma.” (CORNELIUS CASTORIADIS, Socialismo ou Barbárie, 1979, pg. 14)

Autonomia exige responsabilidade: não se pode atribuir a um Deus o trabalho de entregar-nos, já pronto e acabado, todos os códigos de conduta e leis cívicas para nossa convivência social. “O indivíduo, tal como o queremos para todos”, formula Castoriadis em tom um tanto utópico, “é o indivíduo autônomo, que se quer e se faz responsável pelo que é, pelo que diz e pelo que faz. Ele nasce ao mesmo tempo e pelo mesmo movimento do qual emerge a cidade, a pólis, como coletividade autônoma, isto é, que não recebe suas leis de uma instância que lhe seria exterior e superior, mas que ela mesma, por si mesma, as estabelece.” (p. 14)

Torna-se explícita aí a ligação entre autonomia e o que hoje chamamos de laicidade: pólis só pode ser autônoma se assumir a responsa por si mesma, inclusive por suas leis, nunca fixas e imutáveis, sempre discutíveis e modificáveis. De modo que a sociedade autônoma abre-se para seu próprio aprimoramento perpétuo ao invés de se enregelar em fossilizações, ao invés de se congelar no rigor mortis de dogmas santificados e mandamentos inalteráveis, já que ordenados por Deus, desde sempre, para sempre, sem discussão. A pólis é justamente construída sobre a recusa do teocrático, ou seja, de um nomos imposto de fora, de um hetero-nomos.  Podemos pensar, pois, que a autêntica democracia exige um bom grau de rejeição do teocrático, do teológico-político, inclusive com a recusa de figuras míticas como Moisés ou Licurgo, que supostamente tinham “linha direta com Deus”.

A teocracia – kratos é poder, teo é divino – pretende submeter os seres humanos reais, empíricos, ontológicos, de carne-e-osso, a um poder superior divino, um teokratos, que supõe-se como promulgador de um Bem e um Mal irrecusáveis e imortais. Eis, parece-me, a falácia e a ilusão perniciosa – os valores morais eternos e divinos – que engloba e envenena todos os monoteísmos e que os arrasta para o abismo dos absolutismos assassinos e das infindáveis guerras sectárias.

Estou a cada dia mais convicto – e a prática cotidiana como professor de filosofia só fez incrementar esta convicção íntima – de que é preciso educar para a autonomia e para o pensamento crítico, inclusive contra aquilo que é tido como mais sagrado. Nisto prossigo um Nietzschiano “roxo”, ainda que dizê-lo seja o mesmo que atrair as pedradas e os xingos daqueles que estão prontos a queimar nas fogueiras as bruxas e os anticristos. A filosofia, para Castoriadis, também nasce desta visceral recusa do teocrático, e por isso sua emergência e sua força estão diretamente vinculados à democracia, ao poder popular, à coletividade autônoma:

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“A Escola de Atenas” de Rafael, pintura paradigmática do diálogo múltiplo e da interrogação ilimitada características da filosofia na pólis democrática

“A ruptura da heteronomia mítica ou religiosa, a contestação das significações sociais imaginárias instituídas, o reconhecimento do caráter historicamente criado da instituição – da lei, do nomos – é, num grau ofuscante, inseparável do nascimento da filosofia, da interrogação ilimitada e que não conhece autoridade nem intra nem extramundana, assim como o nascimento da filosofia é inconcebível fora da democracia.” (CASTORIADIS, p. 14)

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Essa temática me parece visceralmente contemporânea frente a figuras como George W. Bush e Benjamin Netanyahu, líderes de pavorosa atuação pública, mandantes de genocídios, criminosos de guerra, e que hoje estão perfeitamente impunes, sem que seus atos escabrosos tenham sequer arranhado seriamente a imagem do regimes teológico-políticos hoje no globo vigentes. Sinto informar-lhes que o Estado Islâmico ou ISIS não está sozinho em sua senda de teocracia fundamentalista, alterofóbica. Toda a retórica da “Guerra Contra O Terror”, capitaneada por EUA, Israel, França, Grã-Bretanha e seus aliados, está repleta de pregações sobre um nomos divino, absoluto, acima das sociedades historicamente constituídas.

Em 2003, o regime de Bush decide invadir o Iraque e descobre como obstáculos, que protestam contra isso, tanto a ONU – que declara a operação ilegal e violadora da lei internacional – quanto cerca de 35.000.000 de manifestantes, mundo afora, que num formidável coro de descontentes fizeram-se ouvir como contrários à intervenção bélica naquela área do mundo outrora conhecida como Pérsia. Em atitude profundamente autoritária, anti-popular, homicida contra a democracia, o Estado dos EUA decidiu-se, como bom “imperador”, a decretar-se numa nova Cruzada, numa campanha para derrotar o Eixo do Mal (“Axis of Evil”).

Esta retórica está entre nós e pretende instaurar uma lógica maniqueísta e excludente, Nós contra Eles, que só faz perpetuar o fratricídio sectário e impedir a construção concreta de qualquer tipo de cosmopolitismo baseado no que François Jullien chama de diálogo entre culturas. O soberano teocrático – figuras como Bush e Netanyahu – auto-proclama-se como alguém “do lado do Bem”, e condena o outro à posição do diabólico, do malévolo, hoje em dia encarnado na figura diabolizada por excelência, síntese da paranóia sectária judaico-cristã: o terrorista islâmico, extremista, desumano, com quem é impossível dialogar e que é preciso, portanto, esmagar impiedosamente, como se fosse um inseto, sob uma chuva de bombas, muitas delas hoje lançadas por drones (‘Cause the Lord, folks, works in mysterious ways...).

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André Dahmer

Como não sou grande conhecedor do Islã, peço auxílio a François Jullien para que nos explique que a coisa se passa de modo similar com os seguidores do Corão – assim como cristianismo e judaísmo permanecem aferrados à idolatria de figuras (Jesus, Moisés) tidas como veículos ou encarnações de uma lei divina, de uma moral absoluta, imortal e irrecusável,  ou seja, de um nomos que funda a vida civil a partir de ditames de um teocrata lá nos céus, o Islã, por sua vez, enfatiza

“a importância da obediência à sunna, que é a tradição consagrada pelo Profeta Maomé e pelos primeiros representantes da comunidade. Fazer o bem consiste em pautar-se ao máximo e à risca por exemplos veneráveis, a ciência do religioso vindo a se confundir com a da tradição: todos os mínimos detalhes da existência, a qualquer hora do dia, dispõem de um modelo a ser observado, consignado pelos juristas, com esse juridicismo partindo sempre do particular e deduzindo por analogia, em cada caso, a conduta a ser adotada. (…) A religião islâmica dá prioridade à comunidade, mas sabemos que isso tem duas faces: de partilha, mas também de exclusão. Por um lado, com efeito,  o dever comunitário é considerado a exigência principal, de acordo com a sunna, de modo que os atos não tenham valor, por conseguinte, senão em relação a esse espírito comunitário reverenciado como a norma de tudo. Por outro lado, essa comunidade, no Islã, é aquela fundada pelo Profeta sobre a base de instituições que, em sua simplicidade nativa, são ao mesmo tempo religiosas, morais e políticas; é a da única nação na Terra a ter recebido o privilégio da sunna e da qual se espera o triunfo; ela se funda num pacto de solidariedade (walaya) que, unindo o homem a Deus e excluindo toda outra crença, é também aquele firmado nos campos de batalha e que vemos incitar a guerra santa, esta nem por isso tendo como finalidade a conversão.” (JULLIEN, O Diálogo Entre as Culturas, Zahar, pg. 91-92)

A idéia de guerra santa – eis o ponto – não é exclusiva do Islã. Eu diria mesmo que existem os jihadistas judeus, os jihadistas cristãos, os jihadistas muçulmanos, e que eles têm muito em comum, apesar de suas óbvias diferenças e antagonismos. Em comum, uma certa fobia à alteridade, uma recusa da multiplicidade cultural, a incapacidade de convívio com o diferente, o que faz com que o diálogo entre as culturas, uma espécie de cosmopolitismo pacifista, sempre acabe por fracassar.

Enquanto isso ficamos somente a imaginar a vinda, anunciada em canção por John Lennon, de uma “brotherhood of man”, uma fraternidade ainda no horizonte das utopias, e que o ex-Beatle explicitamente apontava como conectada à laicidade, a uma coletividade a-téiaanti-teocrática, sem céu nem inferno (“imagine there’s no heaven…”), sem nomos divino (“and no religion too…”). Deus, Alá, Jeová, afinal de contas, são só conceitos, como cantará Lennon em outra canção, através dos quais medimos nossa dor.

Uma sociedade autônoma, de indivíduos autônomos, implica necessariamente que as leis sejam discutíveis, reformáveis, modificáveis, revolucionáveis, o que é impossível em regime teocrático: uma lei divina é, por si só, perfeita, impecável, jamais passível de questionamento ou melhoria. Talvez tenhamos primeiro que entrar de acordo sobre a necessidade de instituir um regime político aberto ao aprimoramento perpétuo e à participação social efetiva na determinação do nomos – caso contrário, seremos os cordeirinhos submissos que se põe de joelhos diante de teocratas dogmáticos, ou de elites endinheiradas (que compram a legislação que melhor serve a seus interesses), ou a burocracias totalitárias de modelo stalinista (que endeusam um Partido ou uma Aristocracia Dirigente, sacrificando a democracia direta nos altares de um centralismo autoritário e dirigista).

Não é preciso escolher entre Hayek e Milton Friedman, de um lado, e Stalin e Pol-Pot, de outro; entre a Al Qaeda e o Isis, de um lado, e Bush e Netanyahu, de outro; é preciso recusar esta dicotomia que nos encerra na escolha entre duas barbáries.

Cornelius Castoriadis (1922-1997), filósofo grego

Cornelius Castoriadis (1922-1997), filósofo grego [Wikipedia]

Castoriadis situa a sociedade socialista autônoma, que ele procura delinear em minúcias em Socialismo ou Barbárie, como distante tanto das falácias do “Livre Mercado” quanto dos horrores do totalitarismo burocrático:

“Os argumentos sobre a propriedade privada e a liberdade de empresa como fundamentos da democracia e da liberdade continuam a escamotear o fato de que, tal como funcionam nas condições do mundo moderno, necessariamente propriedade privada e liberdade de empresa não são outra coisa senão a máscara institucional da dominação efetiva de uma pequena minoria.  Não é o fato de alguns descobrirem os horrores do totalitarismo stalinista e maoísta que poderia avalizar e justificar a desigualdade e a servidão, a exploração e a opressão que caracterizam as sociedades capitalistas ocidentais.

(…) O que se visa pelo termo sociedade socialista, nós o designaremos daqui para a frente por sociedade autônoma. Uma sociedade autônoma implica indivíduos autônomos – e reciprocamente. A liberdade implica a igualdade efetiva, (…) pois a desigualdade social é sempre também desigualdade de poder: logo, ela se transforma em desigualdade de participação no poder instituído. Como você pode ser livre se os outros possuem mais poder? Poder, no sentido social e efetivo, é levar alguém ou alguns a fazeres o que, de outro modo, com conhecimento de causa, não teriam desejado fazer. Ora, como a idéia de uma sociedade sem nenhum poder é uma ficção incoerente, a primeira parte da resposta à questão da liberdade é a igualdade de participação de todos no poder.

Uma sociedade livre é uma sociedade onde o poder efetivamente se exerce pela coletividade, por uma coletividade da qual todos efetivamente participam na igualdade. E esta igualdade de participação efetiva, como fim a atingir, não deve permanecer regra puramente formal; deve ser assegurada, tanto quanto possível, por instituições efetivas.

(…) É certo que a heteronomia da sociedade contemporânea implica uma mutilação da autonomia individual… mas daí não decorre de forma alguma que uma sociedade autônoma deva visar, como um fim em si, o desaparecimento de todo poder coletivo. (…) Fazer com os outros é participar, engajar-se, ligar-se numa atividade comum – e aceitar uma coexistência organizada e empreendimentos coletivos nos quais as decisões são tomadas em comum e executadas por todos aqueles que participaram de sua formação. (…) A liberdade exige primeiramente a eliminação da dominação instituída de todo grupo particular na sociedade.” (CASTORIADIS, p. 15-16-18)

Nem poder pastoral de uma elite de “eleitos” que querem messianicamente impor um nomos que caiu dos céus, já pronto e perfeito, esmagando em chacinas os hereges e os infiéis; nem poder corporativo-empresarial, praticado por uma plutocracia de concentradores de capital que traveste sua exploração impiedosa e seu imperialismo bélico com os véus da “democracia liberal” e deste novo deus que é a “mão invisível do mercado”; nem tampouco poder de uma burocracia privilegiada ou de um Partido todo-poderoso que pratica o controle totalitário de toda a vida social, como ocorreu com a URSS sob Stálin com a instauração de um novo regime de opressão que fracassou em construir o autêntico socialismo; o que Castoriadis recomenda é uma genuína democracia direta, uma gestão coletiva e participativa, que depende visceralmente do engajamento de cada indivíduo na vida comum, na esfera pública, na determinação dos destinos coletivos.

A sociedade autônoma, realização autêntica do socialismo e da democracia direta, extingue a cisão entre uma classe de dirigentes e uma classe de executores; aniquila a divisão social entre uma elite parasitária de exploradores e a massa imensa de assalariados, que são roubados dos frutos de seu trabalho, instituindo a gestão comum, baseada na autonomia e na isonomia, o que é aquilo que anima de fato a utopia comunista, aquela que recusa todo nomos divino, todo dirigismo totalitário, todo capitalismo selvagem privatista e particularista, em prol de “uma coletividade autônoma que tem por divisa e auto definição: nós somos aqueles cuja lei é dar a nós mesmos as nossas próprias leis.” (p. 22)

Ora, isso só é possível caso reconheçamos a lei como produção coletiva humana, como fruto histórico e social, sempre aberto à discussão e aprimoramento. Em outras palavras: nada é divino ou sagrado em nossos arranjos sociais, tudo está aí para ser discutido, repensado, reformulado. A democracia é o regime onde o pluralismo de perspectivas e opiniões pode e deve se manifestar, onde debatemos nossos destinos coletivos no pleno engajamento daqueles que constituem as coletividades. Isso vai muito além da atual farsa do voto, através do qual algumas elites parasitárias, ecocidas, exploradoras, encarceradoras, bélicas, militaristas, plutocráticas e autoritárias nos dão o direito de escolher “representantes”, sempre das classes dominantes, pois sempre limitados àqueles capazes de comprar as eleições.

Como disse também Eduardo Galeano, hoje a democracia capitalista nos fornece a opção de escolher com que molho seremos cozinhados… Sob o capitalismo contemporâneo, as eleições são mais uma mercadoria à venda no mercado, e só elege-se aquele que tem capital para campanhas multimilionárias… Por isso o repórter investigativo Greg Palast escreveu um livro que se chama, com fina ironia, A Melhor Democracia Que O Dinheiro Pode Comprar.

Quando a democracia ainda engatinhava, em seus primeiros passos de recém-nascida, os gregos já formularam claramente a conexão entre a democracia e uma certa educação para a cidadania que lhe seria consubstancial. Não existe qualquer possibilidade de vivermos numa sociedade socialista autônoma e democrática sem que a participação social seja disseminada e sem que o debate público esteja aberto à participação de todos. Assumir responsabilidade, ousar ser autônomo, recusar o rigor mortis dos dogmas sagrados, tudo isso é caminho para a constituição de uma democracia a se construir em comum, no comum, e que permanece hoje… incomum!

“Se a Grécia inaugura a liberdade num sentido profundo, apesar da escravidão e da condição das mulheres, é que todos podem pensar de maneira diferentes. Para que o indivíduo possa pensar ‘livremente’, mesmo em seu foto íntimo, é preciso que a sociedade o instrua e o eduque, fabrique-o como indivíduo que possa pensar livremente, o que muito poucas sociedades fizeram na história. Isto exige, antes de mais nada, a instituição de um espaço público de pensamento aberto à interrogação; o que exclui imediatamente, com toda certeza, o estabelecimento da lei – da instituição – como imutável, do mesmo modo que exclui radicalmente a idéia de uma origem transcendental da instituição, de uma lei dada por Deus ou pelos deuses, pela Natureza ou mesmo pela Razão… Implica uma educação no sentido mais profundo, uma paidéia que forme indivíduos com a possibilidade efetiva de pensar a si mesmos – o que, mais uma vez, seria a última coisa no mundo que o ser humano possuiria de nascença ou por doação divina. Acrescentemos que pensar por si mesmo é impossível, psiquicamente, não somente se alguém especialmente designado (aqui em baixo ou no céu) for estabelecido como fonte da verdade, mas também se aquilo que se pensa ou que não se pensa pouco importar e não fizer diferença – dito de outra maneira, se não nos tomarmos por responsáveis, não somente por nossos fantasmas, mas também pelos nossos atos e palavras.” (CORNELIUS CASTORIADIS, Socialismo ou Barbárie, Ed. Brasiliense, p. 22-23)

 Eduardo Carli de Moraes
Goiânia, Nov/2015
A ser continuado...

LEIA TAMBÉM N’A CASA DE VIDRO:

“ESPELHO”, um texto de Gustavo Bernardo [1985] + Pintura de PICASSO, “Garota Diante do Espelho” [1932]

Pablo Picasso, Garota Diante do Espelho (1932)

Pablo Picasso, Garota Diante do Espelho (1932)

E S P E L H O”
De Gustavo Bernardo // UERJ
No livro Redação Inquieta (1985)

Dizem que as perguntas fundamentais são quatro. Quem sou eu? De onde vim? Para onde vou? Afinal de contas, o que estou fazendo aqui?

Se quisermos as respostas absolutamente certas, então todas elas serão irrespondíveis. Porém, se admitirmos a resposta “andando”, esclarecendo um pouco ao mesmo tempo que se continua duvidando, então estaremos sempre respondendo – e sempre perguntando.

Quem sou eu? O que é “eu”? Talvez algo assim como um feixe de acontecimentos, em movimento permanente, em parte equilibrado, em parte compreensível, em parte enevoado, com todas as partes querendo e precisando equilibrar e compreender o todo. Esforço semelhante ao da bruxa madrasta: “espelho, espelho meu, existe alguém mais bonita do que eu?”.

O maldito espelho sempre responde que sim. Sempre existe alguém ou algo melhor e mais bonito do que nós – pelo menos, aquele que um dia poderemos ser, ou aquilo que um dia poderemos falar ou fazer.

O primeiro livro que a gente lê é um dos primeiros espelhos. Onde se procuram respostas para as quatro perguntas e, em especial, para a primeira. Onde se encontra alguma coisa, mas não as respostas definitivas. Daí, alguns abandonarão a leitura para tentarem outra linguagem, enquanto outros continuarão lendo, continuarão procurando por ali. Até começarem a perceber que na outra ponta dos livros esteve um escritor, e que parte das respostas ansiosamente procuradas talvez esteja no próprio esforço de escrever as dúvidas.

Esta passagem é importante. Ler é um movimento extremamente passivo – mas um movimento, porque mexe com as imagens interiores, guardadas, reprimidas, acrescentado-lhes outras e transformando as que o leitor já traz consigo. Escrever, por sua vez, é um movimento extremamente ativo, fazendo imagens, trazendo outras ao mundo e modificando-lhes a forma – na direção de um estilo pessoal.

A relação entre escrever e ler, entretanto, vem sendo posta como mecânica, de ligação direta, levando à idéia de que uma pessoa que leia muito necessariamente escreve bem. Isto é falso.

A tese de que ler leva diretamente a escrever é defendida por aqueles que enxergam na falta de hábitos de leitura o grande problema da expressão do aluno e do povo. Como se hábito de leitura fosse a condição sine qua non para o sujeito se expressar. O raciocínio é entortado, tomando efeito por causa.

Não existe hábito de leitura porque a maioria do povo é analfabeta, ou semi-analfabeta. Não há bons livros por isso também, e pelo perigo que trazem os bons livros. Não há dinheiro para comprar pão ou livros porque vivemos num regime onde são muito secundários o direito de escolher e a liberdade de decidir, tanto quanto a de desejar. Falta de dinheiro e falta de interesse pelo mundo e pelos livros são sintomas de um grande desrespeito humano institucionalizado. A instituição do desrespeito, que “escolhe” por nós todos e a todos interdita o desejo, é o nervo da questão – e não a falta de tal ou qual hábito.

A expressão “hábito”, aliás, me parece plena de conotações behavioristas e fascistas. Transfere um problema humano para uma esfera mecânica, desprovida de consciência e de desejo. Os hábitos são transmitidos por imitação e por pressão, dispensando as pessoas de escolherem este ou aquele comportamento, dispensando-as do direito e dever de escolher e decidir por si.

Ler muito não pode levar a escrever. Pode levar a ler bem – o que será muito importante, claro. Ler bem, por sua vez, pode ajudar a viver, porque o sujeito se informa, se identifica, se transfere, principalmente se anima. Mas o que leva as pessoas a escrever é uma angústia diferente destas: a angústia de riscar um destino, interferir na história, se colocar no campo de jogo.

Logo, ler não é condição para escrever, mas sim munição para viver, e para escrever também. A atitude de ler é metonímia da vontade de entender o mundo. A atitude de escrever, por sua vez, é metonímia da pretensão legítima e transcendente de transformar o mundo.

Se me contra-argumentarem afirmando não existirem escritores sem leitura, concordarei com a evidência e discordarei desta lógica. De fato, não deve haver escritor que não leia, porque não há aquele que transforme o mundo sem entender o que se lhe oferece. Entretanto, a recíproca não é verdadeira. Há os que lêem muito e entendem um tanto, mas preferem não intervir, inertes e omissos inclusive por opção. Há os que lêem muito e entendem muito mas nunca escreveram nada. Quem escreve, então, sem dúvida lê. Mas quem lê, na dúvida, lê mais um pouco – e não escreve.

Num paralelo tragicômico, diria que o Brasil tem 120 milhões de espectadores de futebol e pouquíssimos jogadores decentes do mesmo esporte. Num paralelo patético-acadêmico, lembraria aos professores de Português quantos procuramos os cursos de Letras pensando alimentar uma vocação difusa para a Literatura, mas, de tanto ler as obras capitais e as resenhas fundamentais, encostamos a pena para ler mais e mais, desenvolvendo uma brutal auto-crítica, melhor dizendo, uma poderosa auto-censura que enferruja a pena – que enferruja o desejo.

Portanto, ler e escrever são esforços na direção do espelho – esforços diferentes. A pergunta de quem sou eu permanece. E o ato de escrever, como sabe quem faz diário, é outra forma de tentar responder.

Quem faz diário escreve para se afirmar, para se equilibrar frente aos desafios do dia – desafios propostos pelo outro, ou pela rua, ou mesmo por suas dúvidas mais íntimas. Escreve para se responder quem é. Ao fazê-lo, empresta uma forma a sentimentos confusos, e a partir de então descobre o que sentia, pois o gesto de escrever lhe disse.

Neste sentido, escrever tem a ver com mágica. Como fazer do papel um espelho, mas um espelho às nossas ordens. “Espelho, espelho meu, existe alguém mais angustiado do que eu?” Ao escrever, me revelo – revelo a mim mesmo que posso organizar as palavrinhas, donde que posso organizar o que as palavrinhas nomeiam, e donde que posso organizar, construir, montar o mundo novo também. Revelo-me a extensão do meu poder, ou seja: a extensão dos meus possíveis. Em suma, a extensão da minha utopia.

O ato de escrever, antes de tudo, é um legítimo ato de auto-afirmação. E “auto-afirmação” não é coisa ruim, pejorativa, como dizem os que não gostam de ver os outros se afirmando. A afirmação de si mesmo é a primeira condição para responder à primeira pergunta. Quem não se afirma é o oprimido, é o submisso, o que se encontra caído no chão à espera das ordens.

Gustavo Bernardo
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