A FILOSOFIA, O TEATRO E A REVOLUÇÃO: Ensaios para uma Reunião (por Eduardo Carli de Moraes em A Casa de Vidro)

Teatro do Oprimido Em Ação! (1975)

Augusto Boal gostava de dizer que “nada é, tudo está sendo”, como relembra seu filho Julián no posfácio do livro Teatro do Oprimido: “talvez porque tinha o espírito de um dialético, por demais consciente dos processos que transformam constantemente o mundo, meu pai jamais elaborou uma definição globalizante do Oprimido, do Opressor ou da Opressão. Estas palavras não podem ser reduzidas a uma visão maniqueísta do mundo. Um trabalhador oprimido pela exploração capitalista pode ser também um marido opressor que bate na mulher.” (JULIÁN BOAL, p. 214, 215)

O Teatro do Oprimido, de maneira análoga à Pedagogia de Paulo Freire, concebe a realidade como algo dinâmico, em perene devir, o que implica que ninguém é opressor ou oprimido – está sendo. É tarefa tanto da arte quanto da educação contribuir com o advento de uma sociedade sem opressão, utopia que pulsa no seio daquilo que Boal gostava de chamar de Poética do Oprimido e que “propõe a própria ação” – o teatro como ensaio da revolução:

“O que a Poética do Oprimido propõe é a própria ação! O espectador não delega poderes ao personagem para que atue nem para que pense em seu lugar, ao contrário, ele mesmo assume um papel protagônico, transforma a ação dramática inicialmente proposta, ensaia soluções possíveis, debate projetos modificadores: em resumo, o espectador ensaia, preparando-se para a ação real. Por isso, eu creio que o teatro não é revolucionário em si mesmo, mas certamente por ser um excelente ensaio da revolução…” (AUGUSTO BOAL, Teatro do Oprimido, pg. 124)


Boal, na esteira de figuras como Bertolt Brecht e Paulo Freire, idealizou e concretizou uma prática social, essencialmente coletiva e inter-relacional, onde o teatro, a revolução e a filosofia dão-se as mãos, em congregação, em reunião, somando suas forças, reconhecendo seus vínculos, sintetizando-se em algo que as transcende. Nasce um teatro-filosófico-revolucionário, arte que é práxis transformadora, força coletiva que serva para debater nossa situação concreta em vários contextos sócio-históricos, testando possíveis soluções para conflitos reais. A Estética do Oprimido deseja ser eficaz força concreta que se insere no devir do mundo para buscar nele agir como força crítico-construtiva, transformadora, des-opressora.

Um exemplo concreto pode ser eloquente: no Peru, um trabalhador de um porto pesqueiro relata seus terríveis sofrimentos, pois “tinha um patrão terrivelmente explorador, que obrigava os operários a trabalhar das 8 horas da manhã às 8 da noite… 12 horas de trabalho contínuo. Todos pensavam  em lutar contra essa exploração desumana.” (p. 145)

Trata-se de um problema concreto, vivido por seres humanos de carne-e-osso, que penam, que suam, que choram, que sofrem: é a humilhação, a ofensa, sentida na pele. O teatro, como ensaio da revolução, como ferramenta para um debate filosófico sobre a ação humana, intervêm aí servindo como arena para que várias opções de comportamento sejam avaliadas. Alguns propõe “atirar uma bomba e incendiar a fábrica”; outros, acham preferível uma greve; outros ainda, sustentam que o melhor de fato é fundar um sindicato. Como decidir?

A democracia simples – votar e deixar a maioria decidir – possui muitas falhas caso antes da votação não se exercitar uma deliberação, uma conscientização, um esforço conjunto de compreensão, que sopese as consequências possíveis e desejáveis de cada curso de ação. Daí a importância, não apenas política, mas filosófica também, do teatro como arena de debate público. Qualquer ágora fica manca e capenga sem que haja nela teatro e filosofia.

O “teatro-debate”, também conhecido como “teatro-fórum”, como sublinha Boal, “não tem a finalidade de mostrar o caminho correto… mas sim a de oferecer os meios para que todos os caminhos sejam estudados. Pode ser que o teatro não seja revolucionário em si mesmo, mas essas formas teatrais são certamente um ensaio da revolução. A verdade é que o espectador-ator pratica um ato real, mesmo que o faça na ficção de uma cena teatral. Enquanto ensaia jogar uma bomba no espaço cênico, está concretamente ensaiando como se joga uma bomba; quando tenta organizar uma greve, está concretamente organizando uma greve. Dentro dos seus termos fictícios, a experiência é concreta.

Aqui não se produz de nenhuma maneira o efeito catártico. Estamos acostumados a peças em que os personagens fazem a revolução no palco, e os espectadores se sentem revolucionários triunfadores, sentados nas suas poltronas, e assim purgam seu ímpeto revolucionário: para que fazer a revolução na realidade, se já a fizemos no teatro? Mas isso não acontece neste caso: o ‘ensaio’ estimula a praticar o ato na realidade. O teatro-debate e essas outras formas de teatro popular, em vez de tirar algo do espectador, pelo contrário, infundem no espectador o desejo de praticar na realidade o ato ensaiado no teatro. A prática dessas formas teatrais cria uma espécie de insatisfação que necessita complementar-se através da ação real.”  (p. 147)

O ser humano, que segundo Jean-Paul Sartre está “condenado à liberdade”, segundo Boal está condenado à criatividade. E criativíssimo Boal foi, inventando e re-inventando o teatro, que ia buscar inspiração nos jornais, prenunciando a Imprensa Cantada de Tom Zé, nos sindicatos e greves da classe proletária em movimentação (tema do clássico Eles Não Usam Black Tie, de Guarnieri), praticando até mesmo o teatro invisível, aquele que transborda para fora do teatro, esparrama-se pela cidade, ganhando praças, escolas, parlamentos, penitenciárias…

A ousadia de figuras Boal ensina-nos que a arte não pode se resignar a espaços estreitos e fechados, precisa sair em aventura e respirar em ar livre, indo em busca de seus públicos por aí, principalmente entre aqueles que não conseguem pagar os caros ingressos do teatro burguês. Aqueles que menos podem pagar os ingressos para entrar no teatro são aqueles que, no fundo, mais precisam do Teatro do Oprimido, que oferta-se como um arma de libertação a serviço da tarefa interminável da des-opressão, da criação de alguns dos “muitos mundos possíveis” (outra expressão de Boal).

Não sejamos, porém, reducionistas. Tomar partido não significa reduzir o mundo a um combate épico entre mocinhos e bandidos, heróis e vilões. Boal não quer enxergar o mundo em preto-e-branco, mas sim quer que enxerguemos todo o arco-íris do desejo, the rainbow of desire. Nem oprimidos, nem opressores, podem ser confundidos com anjos e demônios; “quase não existem em estado puro, nem uns nem outros” (p. 21).

Cada um de nós, se tiver a coragem da autocrítica, pode descobrir dentro de si tanto o oprimido quanto o opressor – e, na fábrica, Fulano pode ser humilhado pelo patrão, oprimido que vai calando sua revolta, para depois em casa tornar-se o tirano dos filhos, autoritário ou espancador… Nem arcanjos nem bestas-feras, os seres humanos não são nada de uma vez para sempre, não estão fixados nem congelados em um estado imutável, mas fluem e transformam-se, o que coloca os imobilistas, na sociedade, necessariamente do lado do erro, do engano, da defesa do impossível.

“Não podemos conceder perdão e oferecer nossa amizade a quem escolheu o proveito próprio às custas da infelicidade dos outros, e decidiu gozar a própria vida ao custo da morte alheia. Aqueles que querem a todos perdoar, ‘ver os dois lados da questão’ ou ‘ver a questão de todos os lados’, aqueles que tentam justificar as razões dos opressores, são os imobilistas do mundo. Se fosse verdade que todos têm razão, e que todas as razões se equivalem, seria melhor que o mundo ficasse do jeito que está. Nós, do Teatro do Oprimido, ao contrário, queremos transformá-lo, queremos que mude sempre em direção a uma sociedade sem opressão. É isto que significa humanizar a humanidade: queremos que o ‘homem deixe de ser o lobo do homem’, como dizia um poeta.

Sabemos que todas as sociedades se movem através de estruturas conflitantes: como poderíamos nós, então, assumir uma virginal posição isenta diante de conflitos dos quais, queiramos ou não, fazemos parte? Seremos sempre aliados dos oprimidos… ou cúmplices dos opressores. Fazer Teatro do Oprimido já é o resultado de uma escolha ética, já significa tomar o partido dos oprimidos. (…) Em um confronto entre David e Golias, a neutralidade significa tomar o partido do opressor, o gigante Golias; se quisermos tomar o partido do oprimido David, temos que ajudá-lo a encontrar as pedras…” (AUGUSTO BOAL, Oprimidos e Opressores, p. 22-23)

Nem o Teatro nem a Pedagogia do Oprimido, nem Boal nem Paulo Freire, aceitam a legitimidade de uma suposta neutralidade, de uma “isenção virginal” típica daqueles que não querem tomar partido. No mesmo espírito, disse Desmond Tutu, Prêmio Nobel da Paz, muito citado em manifestações e ocupações mundo afora, “se você é neutro em situações de injustiça, você escolheu o lado do opressor”.

Encontraríamos facilmente inúmeras formulações semelhantes na obra de Florestan Fernandes, de Marx e Engels, de Franz Fanon, de Brecht, de Malcolm X, de Angela Davis… É nesta companhia que devemos situar Boal e sua convicta afirmação de que “temos a obrigação cidadã de nos colocarmos ao lado dos humilhados e ofendidos” (p. 25). O Teatro do Oprimido é, pois, “teatro de luta”: “DOS oprimidos, PARA os oprimidos, SOBRE os oprimidos e PELOS oprimidos”, como brada Boal em letras garrafais (p. 26).

Boal deseja contribuir para a emergência e a disseminação de uma poética política que rompe, de modo revolucionário, com vários dos dogmas reinantes na história do teatro, a começar pelo “sistema trágico coercitivo de Aristóteles” (p. 29 a 68). Após uma análise crítica da teoria estética aristotélica, em que destacam-se os conceitos de catarse harmatia, Boal conclui que

“esse sistema funciona para diminuir, aplacar e eliminar tudo que possa romper o equilíbrio social; tudo, inclusive os impulsos revolucionários, transformadores. Aristóteles formulou um poderosíssimo sistema purgatório, cuja finalidade é eliminar tudo que não seja comumente aceito, legalmente aceito, inclusive a revolução, antes de que aconteça… O seu Sistema aparece dissimulado na TV, no cinema, nos circos e nos teatros. Trata-se de frear o indivíduo, de adaptá-lo ao que preexiste… Se, pelo contrário, queremos estimular o espectador a que transforme sua sociedade, se queremos estimulá-lo a fazer a revolução, nesse caso teremos que buscar outra Poética.” (p. 68)

Em política, Boal afirma a necessidade de optar por uma aliança com os oprimidos, já que a outra alternativa é a cumplicidade com os opressores; em filosofia, assume posição nas trincheiras ao lado do materialismo de Marx e não do idealismo de Hegel; já em estética, ele também escolhe sua companhia: muito mais a de Brecht que a de Aristóteles.

“A Poética marxista de Brecht afirma que o personagem não é sujeito absoluto e sim objeto de forças econômicas ou sociais, às quais responde e em virtude das quais atua. (…) Se, por um lado, para a Poética idealista, o pensamento condiciona o ser social, por outro lado, para a Poética marxista, o ser social condiciona o pensamento social. Para Hegel, o espírito cria a ação dramática; para Brecht, a relação social do personagem cria a ação dramática. (…) Para Brecht, não existe ‘natureza humana’ e, portanto, ninguém é o que é porque sim! É necessário buscar as causas que fazem com que cada um seja o que é. ” (p. 105-107)

“O que afirma Brecht é que, nas peças idealistas, a emoção atua por si mesma, produzindo o que ele chama de orgias emocionais, enquanto as Poéticas materialistas, cujo objetivo não é tão somente o de interpretar o mundo mas também o de transformá-lo e tornar esta terra finalmente habitável, têm a obrigação de mostrar como pode este mundo ser transformado. Uma boa empatia não impede a compreensão e, pelo contrário, necessita da compreensão… O que faz Brecht, fundamentalmente, é colocar a ênfase na compreensão (enlightnenment), na dianoia. Em nenhum momento Brecht fala contra a emoção, ainda que fale sempre contra a orgia emocional… 

Como não vai o espectador emocionar-se com a Mãe Coragem que perde os seus filhos, um a um, na guerra? É inevitável que nos emocionemos todos até às lágrimas. Mas deve-se combater sempre a emoção causada pela ignorância: que ninguém chore a fatalidade que levou os filhos da Mãe Coragem, mas sim que se chore de raiva contra o comércio da guerra, porque é esse comércio que rouba os filhos à Mãe Coragem… Já a peça Os Fuzis da Senhora Carrar produz uma profunda emoção de ódio contra Franco e seus sequazes… É necessário insistir: o que Brecht não quer é que os espectadores continuem pendurando o cérebro junto com o chapéu, antes de entrarem no teatro, como o fazem os espectadores burgueses.

Brecht era marxista: por isso, para ele, uma peça de teatro não deve terminar em repouso, em equilíbrio. Deve, pelo contrário, mostrar por que caminhos se desequilibra a sociedade, para onde caminha e como apressar sua transição. Num estudo sobre teatro popular, Brecht afirma que o artista popular deve abandonar as salas centrais e dirigir-se aos bairros, deve mostrar suas imagens da vida social aos operários, que estão verdadeiramente interessados em transformar essa vida social, já que são suas vítimas. Um teatro que pretende transformar os transformadores da sociedade não pode terminar em repouso, não pode restabelecer o equilíbrio. A polícia burguesa tenta restabelecer o equilíbrio, impor o repouso: o artista marxista, ao contrário, deve propor o movimento em direção à liberação nacional e à liberação das classes oprimidas pelo capital… Brecht expõe contradições e propõe transformações. (…) Deseja que o espetáculo teatral seja o início da ação, o equilíbrio deve ser buscado transformando-se a sociedade e não purgando o indivíduo dos seus justos reclamos e de suas necessidades.” (p. 112-113)

Tanto na vida quanto na arte, Boal execra a passividade do espectador. “Sim, esta é, sem dúvida, a conclusão: espectador, que palavra feia! O espectador, ser passivo, é menos que um homem e é necessário reumanizá-lo, restituir-lhe sua capacidade de ação em toda sua plenitude… Todas essas experiências de teatro popular perseguem o mesmo objetivo: a libertação do espectador, sobre quem o teatro se habituou a impor visões acabadas de mundo. E considerando que quem faz teatro, em geral, são pessoas direta ou indiretamente ligadas às classes dominantes, é lógico que essas imagens acabadas sejam as imagens da classe dominante. O espectador do teatro popular (o povo) não pode continuar sendo vítima passiva dessas imagens.” (p. 163)

Na conclusão de Poética do Oprimido, escrito em seu exílio argentino, em Buenos Aires, no ano de 1973, Augusto Boal re-manifesta sua fidelidade para com Brecht, porém propõe ir além da Conscientização, propondo como télos último, objetivo supremo, a Liberação. “A poética de Brecht é a Poética da Conscientização: o mundo se revela transformável e a transformação começa no teatro mesmo, pois o espectador já não delega poderes ao personagem para que pense em seu lugar, embora continue delegando-lhe poderes para que atue em seu lugar. A experiência é reveladora ao nível da consciência, mas não globalmente ao nível da ação. A ação dramática esclarece a ação real. O espetáculo é uma preparação para a ação.

A poética do Oprimido é essencialmente uma Poética da Liberação: o espectador já não delega poderes aos personagens nem para que pensem nem para que atuem em seu lugar. O espectador se libera: pensa e age por si mesmo. Teatro é ação! Pode ser que o teatro não seja revolucionário em si mesmo, mas não tenham dúvidas: é um ensaio da revolução!” (p. 163)

Este estímulo para ação transformadora-revolucionária que o Teatro do Oprimido busca fornecer ao espectador-que-devem-ator tem, como é evidente, muita fraternidade e comunhão com a Pedagogia do Oprimido de Paulo Freire. Ambos têm norteado minha prática na sala-de-aula em que, como jovem professor sem afeição por dogmas e que experimenta inventar um caminho enquanto segue seus instintos e seus fascínios de caminhante. Pois a sala-de-aula não só pode, como deve tornar-se palco para uma arte coletiva onde esses elementos, artificialmente mantidos separados, possam reunir-se: teatro, filosofia e revolução, afinal de contas, têm tudo a ver. Diálogo, debate, dialética – este DDD está no DNA destes três elementos, essencialmente inter-relacionais, devotados à construção de convívios mais humanizados e mais sábios.

Em sua autobiografia, Hamlet e o Filho do Padeiro – Memórias Imaginadas, Boal soube criar pontes entre o teatro e a filosofia de modo explícito em certos trechos, como no capítulo “A Pobreza”, onde presta homenagem conjunta a Stanislavski e a Sócrates: “O estudo de Stanislavski foi pedra fundamental na minha carreira. Foi ele que sistematizou um método que ajuda o ator a buscar, em si, ideias e emoções atribuídas aos personagens. Nesse sentido, uma das principais funções do diretor é ser maiêutico, como Sócrates no seu processo de filosofar – o filósofo é a parteira que faz o aluno descobrir o que já sabe, sem saber que o sabe, através de perguntas que provocam a reflexão, abrindo caminho para a descoberta. Assim deve ser o diretor teatral: ajuda o ator a parir personagens.” (p. 161)

Poderíamos aproveitar para propor que, assim como Stanislavski ensina o ator a parir personagens e Sócrates ajuda seu interlocutor a parir verdades, Boal e seu Teatro do Oprimido propõe uma maiêutica artística, reunião e congregação de teatro, filosofia, política transformadora (revolução). Augusto Boal ensinou-nos como ninguém que a arte pode ser aliada e arma nas nossas lutas de libertação, que o teatro é uma parteira de revoluções, que o artista digno deste nome é alguém que acata sua condenação à criatividade e, num laboratório imenso, no Theatrum Mundi, está constantemente engajado no parto de outros mundos possíveis. De preferência, mundos mais libertos da opressão do que este em que  vivemos – não como espectadores de um espetáculo que nos é externo, mas como co-agentes e co-partícipes de uma trama comum.

por Eduardo Carli de Moraes
Goiânia, Junho de 2017

BIBLIOGRAFIA BÁSICA

BOAL, Augusto. Teatro do Oprimido e Outras Poéticas Políticas. Cosac Naify, 2013, 224 pgs.  
————. Hamlet e o Filho do Padeiro – Memórias Imaginadas. Cosac Naify, 2014, 416 pgs.  


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Augusto Boal e o Teatro do Oprimido – Um documentário de Zelito Viana (2010)
Resenha por Amanda AouadDownload torrent

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Arena conta Zumbi (1968) – Álbum Completo

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AUGUSTO BOAL [1931 – 2009], “Estética do Oprimido”
Acesse e/ou baixe o ebook completo: http://bit.ly/2siGu5b ou http://bit.ly/2rvg8iz
(256 pgs, 2009, Ed. Garamond, MinC e Funarte, PDF, 1.4 MB)

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O SÉCULO DE STANISLAVSKY (DOCUMENTÁRIO FRANCÊS)

A senti-pensante Juliette Binoche e a infinitude dos afetos

“A simpatia é o ato pelo qual meus irmãos me ajudam a carregar minha cruz, isto é, compartilham ativamente meu destino, participam do nosso destino comum, atestam por sua solidariedade essa comunidade de essência de todas as criaturas que era, segundo Schopenhauer, o fundamento da piedade e, segundo Proudhon, o princípio da justiça.” – Vladimir Jankélévitch (1903-1985), filósofo francês, professor da Sorbonne (de 1951 a 1979), em seus Cursos de Filosofia Moral. Editora Martins Fontes, 2008, Pg. 211.

juliette_binocheQual o segredo de Juliette Binoche? O que explica que ela seja uma atriz tão impressionante, uma autêntica gênia da atuação? Talvez uma parte da resposta esteja na coragem com que ela busca personagens desafiadores. Papéis fáceis não a interessam. É como se ela seguisse o conselho que Rilke oferece em suas Cartas a um Jovem Poeta: “Prefira sempre o difícil, e assim sua vida não cessará de expandir-se. O fato de uma coisa ser difícil deve ser um motivo a mais para que seja feita…”

Ela parece ir à procura de personagens que a conduzam a limites, a abismos, a confrontações existenciais de uma radicalidade que o comum dos mortais não ousaria encarar. Mesmo na escolha dos diretores com quem trabalha, ela demonstra coragem e procura a companhia de artistas nada fáceis como Michael Haneke, Abel Ferrara, Bruno Dumont, Patrice Leconte, Abbas Kiarostami… Longe de querer aparecer na telona sempre sob uma luz favorável, ela aceita ser filmada em um estado emocional “estraçalhado”, caótico, multi-facetado: como quando “encarna” uma mulher estilhaçada pelas dores do luto após perder o marido e a filha em um acidente de carro (em A Liberdade é Azul, de Kieslowki) ou vivendo na pele uma traumatizada e misteriosa artista-mendiga a vagar por Paris como uma Basquiat de saias (em Os Amantes da Ponte Neuf, de Leos Carax).

Antes de filmar seu filme mais recente, De Coração Aberto (de Marion Laine), Juliette Binoche, como contou em sua entrevista ao Estado de São Paulo, foi assistir a algumas cirurgias cardiológicas para sentir em carne viva o que significa estar diante de pacientes com o tórax literalmente escancarado. Foi lá e olhou para dentro de um peito humano que exibe suas entranhas, que está sendo operado pelo bisturi do cirurgião, por mais dura que fosse a experiência, por mais que a aflição e a angústia lhe empurrassem para longe daquele desagradável confronto com a doença e a mortalidade. “Foi barra pesada”, confessa. Mas ela só é uma atriz tão genial pois encara a barra pesada e aceita sentir nos extremos, entregar-se radicalmente mesmo aos afetos mais tenebrosos e terrificantes.

Sem ter uma prévia experiência vivenciada sobre um certo “estado afetivo” que ela deseja comunicar, sem esse confronto com a realidade concreta, Juliette Binoche não poderia atuar: se na tela ela impressiona tanto, nos faz sentir tanto, é pois há afeto autêntico correndo por trás, como uma seiva subterrânea. Os afetos são sua matéria-prima; seu rosto e seu corpo e sua voz são o palco deste carrossel variegado e múltiplo de afetos que se sucedem mas que portam sempre uma marca vigorosa de autenticidade.

Talvez não haja outra atriz viva que eu admire tanto, e com certeza a razão não está somente na beleza deslumbrante que ela tem em profusão e que o envelhecimento não pôde fazer fenecer: como Liz Taylor ou Nicole Kidman, Binoche dá a sensação de que o envelhecimento nada pode contra sua beleza, já que esta emana de outra fonte que não a mera quilometragem baixa do corpo… Emana, talvez, da radiância de uma existência vivida não somente sem medo dos afetos, mas muito mais numa entrega quase devocional a eles, num mergulho na multiplicidade do mundo afetivo que existem poucos atores na história do cinema que tenham feito de um modo tão genuíno e cheio de audácia.

Juliette Binoche expande a consciência da humanidade quanto às cores do arco-íris do afeto a ponto de jamais sermos capazes de acreditarmos que elas se reduzem a sete. São bem mais que sete (quiçá até bem mais que setenta!) as cores do arco-íris dos afetos: Juliette Binoche é alguém que surfa neste colorido, que sabe ir do mais sombrio negrume ao êxtase mais beatífico, que flui através das emoções mostrando que entre os pólos existe todo um oceano, e nele infindáveis ilhas… Juliette Binoche, se pedíssemos para que ela nos dissesse quantos são os afetos que existem, talvez nos respondesse: “Eu sempre perco a conta.”

Depois de vermos esta mulher no cinema, qualquer leitura maniqueísta de mundo nos parece um logro, uma balela, uma mentira. Ela é a encarnação viva da multiplicidade. Não mais acreditamos ser possível compreender os atos humanos a partir de esquematismos simplificadores: 7 pecados capitais, 3 virtudes teologais, ou mesmo a infantil divisão em dois “Reinos”, simplista e redutora, característica da cisão cristã entre o domínio do pecaminoso e do santo, do celestial e do diabólico. Enfim: eis alguém que sabe que os afetos são bem mais numerosos do que suspeita a vã filosofia daqueles que querem julgar os homens como se a única rotulação possível para eles fosse “bons” ou “maus”, “mocinhos” ou “vilões”. Ela demole e faz ruir qualquer visão-de-mundo que queira sustentar que os homens ou estão com Deus, ou estão com o Capeta.

Capaz de atuações desprovidas de moralina, plenamente consciente da estreiteza simplista do maniqueísmo, Juliette Binoche parece acreditar na infinidade dos afetos assim como Van Gogh parecia acreditar na infinitude das cores – se perguntássemos a ele, “quantas cores existem?”, ele talvez nos respondesse: “Nunca consegui contá-las, assim como são para mim incontáveis as estrelas que povoam a noite!”

O que talvez me faça empatizar tanto com ela, e gostar tão imensamente de tantos filmes dela (em especial A Viúva de Saint Pierre, Cópia Fiel, A Liberdade é Azul, Amantes do Ponte Neuf, Elles, A Insustentável Leveza do Ser…), seja este “leque” tão aberto de emoções que ela consegue “acessar” e comunicar. Ela vai à procura de vivenciar os estados afetivos, mesmo os mais dolorosos e angustiantes; não foge do medonho, do trágico, do destrutivo; vai à beira do abismo, às vezes flerta com a loucura; também sabe ser deprimida, estóica, epicurista, socrática; pode ser serena e irascível, ferida e invulnerável, caída-ao-chão e triunfante… Ela é o desespero de qualquer um que seja de mentalidade demasiado “classificante”.

Juliette Binoche Wallpapers @ go4celebrity.com

É através de tamanha multiplicidade de vivências e afetos, que ela desfila frente a nossos olhos através destas personagens sobre os quais ela infunde vida, que ela acaba nos impactando a sensibilidade a expandir-se para além de suas estreitezas costumeiras. Descobrimos que somos mais múltiplos e complexos do que pensávamos. Me parece até que uma das vocações do cinema francês, desde Godard, Truffaut, Rohmer, Resnais, têm sido um pouco esta: a de sublinhar a complexidade humana, sempre em protesto contra a vertente mais comercial do cinema, que apóia-se em estereótipos fáceis para a produção de suas mercadorias vendáveis e que apela tão comumente para a comodidade de um happy end moralista onde vilões sejam punidos e os bons recompensados com um “felizes para sempre…”. Acossado, por exemplo, já trazia o gosto amargo mas tonificante das palavras de Faulkner: “entre o sofrimento e o nada, escolho o sofrimento.” Não se trata de mentir sobre a vida, mas pintar um retrato o mais próximo possível de sua complexidade e riqueza cromática real.

A lição de Faulkner, como a leio, é que entre a vida, necessariamente recheada de dores, e uma morte que nada nos deixa a sentir e que nos reduz à insensibilidade, os artistas genuínos, me parecem, dizem “sim!” à dolorenta realidade de sentir. Juliette Binoche é uma sábia do sentir e uma professora de expansão da sensibilidade; quando a assistimos e nos deixamos emocionar por ela, as capacidades empáticas que temos em nós são exercitadas, como se fôssemos a uma academia dos afetos para vê-los “malhados”, isto é, forçados a retirarem da inação seus músculos. Esta artista brilhante escancara múltiplas portas em seu próprio peito e, de coração aberto, exibe diante de nós um leque tão amplo dos sentimentos que não podemos evitar: ampliam-se também os nossos.

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E como não simpatizar com uma atuação que parece se confundir com uma autêntica vivência? Atuar = vivenciar, parece pensar Binoche. E sua atuação me assombra não só pela quantidade imensurável de beleza que emana dela, mas por abrir no horizonte a percepção do arco-íris de infinitude cromática que é Reino dos Afetos, os múltiplos e sempre moventes afetos! Por isso estou convicto de que esta artista magistral tem muito a ensinar à humanidade, ao chamado homo sapiens – que, longe de poder ser definido por sua universal sapiência (com quanta frequência somos tolos e insanos, irados e ciumentos, gananciosos e exagerados, descabidos e inconsequentes!), poderia ser muito melhor definido como uma criatura senti-pensante, como diria Eduardo Galeano.

Juliette Binoche nos convida a substituir a noção de homem racional pela de pessoa senti-pensante. Em seu fundamento existencial mesmo, desde a raiz de nosso ser, somos criaturas que sentem e que não podem “guardar no armário” seus afetos para pensar “friamente” ou “com completa pureza”. A Razão Pura é só uma fantasia delirante de filósofo, e por trás dela encontram-se muitos afetos! Engana-se o filósofo, o cientista ou o político que pensa poder alcançar a “neutralidade afetiva absoluta”, esta quimera positivista. Além do mais, como Nietzsche denunciou tão eloquentemente em O Crepúsculo dos Ídolos, “todos os velhos monstros morais são unânimes na opinião de que il faut tuer les passions“, isto é, “é preciso matar as paixões”. Juliette Binoche, antípoda deste moralista denunciado por Nietzsche como monstruoso e que deseja um ser humano purgado de paixões, como se essas fossem impurezas, como se fossem sintomas de um mal d’alma ou de um pecado, é o mergulho dado de bom grado no cosmos caótico, variegado e diverso dos afetos.

Binoche é uma força viva, em plena atividade, que milita contra o embrutecimento sensível daqueles que querem ser meramente racionais, calculistas e economicacamente eficientes. É a arte de gente como Juliette Binoche que nos garante que estamos, felizmente, bem providos de obras que nos ajudam a jamais deixar atrofiar esta capacidade não só essencial à nossa sobrevivência, como também um dos charmes maiores do viver: a ampliação da consciência e da capacidade afetiva. “Aniquilar as paixões e os apetites”, dirá Nietzsche, “nos parece hoje apenas uma forma aguda de estupidez. Não admiramos mais os dentistas que arrancam os dentes para que não doam mais… Arrancar as paixões pela raiz significa arrancar a vida pela raiz… Só se é fértil ao preço de ser rico em contradições; só se permanece jovem se a alma não sente preguiça, não anseia pela paz… A realidade nos mostra uma riqueza encantadora de tipos, a exuberância de um pródigo jogo de formas…”

Juliette Binoche é, sobretudo, uma criatura capaz de despertar da letargia e do sono esta capacidade em nós de empatia ou simpatia que, como lembra Jankélévitch, muitos filósofos consideram como a raiz da piedade e o princípio da justiça – e sem a qual jamais experienciaríamos o que é amar.

Filmografia Recomendada:

Artigo originalmente publicado no Cinephilia Compulsiva.