A vida lendária da filósofa e astrônoma Hypatia de Alexandria em um novo livro de Edward Watts (Oxford Press, 2017)


A vida lendária da filósofa e astrônoma Hypatia de Alexandria (351 – 415 d.C.), figura encarnada no cinema com maestria por Rachel Weisz no filmaço “Ágora (Alexandria)” de Alejandro Amenábar, acaba de ganhar um novo estudo de fôlego com este livro de Edward Watts, lançado pela Oxford University Press em 2017. Acesse e baixe o ebook completo em PDF: http://bit.ly/2rdPVkB (224 pgs). Compartilhar no Facebook. #Ebooks #Filosofia #Ciência #Astronomia


“A philosopher, mathematician, and martyr, Hypatia is one of antiquity’s best known female intellectuals. During the sixteen centuries following her murder, by a mob of Christians, Hypatia has been remembered in books, poems, plays, paintings, and films as a victim of religious intolerance whose death symbolized the end of the Classical world. But Hypatia was a person before she was a symbol. Her great skill in mathematics and philosophy redefined the intellectual life of her home city of Alexandria. Her talent as a teacher enabled her to assemble a circle of dedicated male students. Her devotion to public service made her a force for peace and good government in a city that struggled to maintain trust and cooperation between pagans and Christians. Despite these successes, Hypatia fought countless small battles to live the public and intellectual life that she wanted. This book rediscovers the life Hypatia led, the unique challenges she faced as a woman who succeeded spectacularly in a man’s world, and the tragic story of the events that led to her tragic murder.”

TABLE OF CONTENTS:

Introduction: A Lenten Murder
Chapter 1: Alexandria
Chapter 2: Childhood and Education
Chapter 3: The School of Hypatia
Chapter 4: Middle Age
Chapter 5: A Philosophical Mother and her Children
Chapter 6: The Public Intellectual
Chapter 7: Hypatia’s Sisters
Chapter 8: Murder in the Street
Chapter 9: The Memory of Hypatia
Chapter 10: A Modern Symbol
Reconsidering A Legend
Bibliography

Acesse e baixe o ebook completo em PDF: http://bit.ly/2rdPVkB

LEIA TAMBÉM: The Life and Death of the Library of Alexandria

“Tratado Sobre a Tolerância”, de Voltaire (1694-1778) [notas de leitura]

voltaire

VOLTAIRE
“Tratado Sobre a Tolerância”
(Ed. Martins Fontes. Tradução: Paulo Neves. São Paulo,1ª ed, 1993)

volDevemos tolerar os intolerantes, ainda que saibamos que “a intolerância cobriu a terra de chacinas”? (pg. 30) E quem seria para a humanidade uma melhor mestra de tolerância senão ela, a filosofia, musa que recebe tantos dos louvores de Voltaire?

Voltaire, este pensador que Victor Hugo dizia ser um “jato contínuo de lucidez”, não economiza nos elogios que faz ao bom senso que a filosofia traz, possibilitando-nos transcender as estreitezas em que nos encerram os fanatismos dogmáticos e as intolerâncias homicidas.

Este luminar do Iluminismo lança numerosos convites aos humanos para que ajam humanamente: “faz muito tempo que praticamos os verdadeiros princípios da agricultura, quando começaremos a praticar os verdadeiros princípios da humanidade?”  (pg. 63). E alega que a  filosofia é agente de humanização, que nos distancia da barbárie:

“A filosofia desarmou mãos que a superstição por muito tempo havia ensanguentado; e o espírito humano, ao despertar de sua embriaguez, espantou-se com os excessos a que o fanatismo o havia levado…” (pg. 24)

Ao que parece, ao raiar deste ano que chamamos de 2015 depois de Cristo, o “espírito humano” não cessa de recair na embriaguez do fanatismo e da intolerância – quantos são os mortos na Faixa de Gaza, quantos no Afeganistão e no Iraque? Alguém por aí conseguiu não perder a conta?

Enquanto isso, a filosofia não cessa de se espantar com os excessos do fanatismo – ao menos aquelas filosofias que se esquivam do dogmatismo e procuram atingir a liberdade do pensar, ao invés de serem meras “defesas manhosas de preconceitos batizados de verdades”, como diz Nietzsche (Além de Bem e Mal, #5). Um viva à toda filosofia que deixa as portas bem abertas para a suspeita, a experimentação, a multiplicidade, a diversidade de perspectivas, a revolta contra a fraude, o engajamento em prol de uma humanidade menos sectária e fratricida!

A filosofia, segundo os não-filósofos, que aliás são a amplíssima maioria neste mundo, é vista por muitos como uma atividade improdutiva, beirando a inutilidade: é o caso de Hermann Kafka, ao saber dos planos que tinha seu filho – Franz Kafka – de estudar filosofia, e que teria reagido com o desdém do comerciante que considera a filosofia somente “um modo extravagante de passar fome.” (cf. PAWEL, Ernst: O Pesadelo da Razão).

Ou então a filosofia é tida como algo de acadêmico e formal, difícil e hermético, que se faz detrás dos muros das universidades ou no conforto de bibliotecas climatizadas – e não, como alguns filósofos quiseram, uma força ativa na sociedade ao espalhar compreensão mais ampla e assim desfazer os cabrestos reinantes…

Voltaire é tão entusiasmante de ler pois filosofa como se a filosofia tivesse força transformadora. E quem consegue duvidar que tem, de fato, ao ler as palavras tão cheias de vivacidade e ímpeto que ele nos legou?

* * * * *

traiteVoltaire escreve seu Tratado Sobre a Tolerância sob o impacto de um acontecimento que ele testemunhou em Toulouse. Nesta cidade francesa, pelos idos de 1762, continua-se a celebrar anualmente uma festa que Voltaire considera execrável: “festa cruel, festa que deveria ser abolida para sempre, na qual um povo inteiro agradece a Deus em procissão e felicita-se por ter massacrado, há duzentos anos, quatro mil de seus concidadãos” (pg. 62).

Duzentos anos antes, em 1562, os reis católicos franceses e as massas por eles manobradas haviam massacrado os protestantes pela França afora. A História jamais pôde esquecer a sanguinolência do Massacre da Noite de São Bartolomeu, “da qual não havia nenhum exemplo nos anais do crime” (pg. 22), quando Paris foi palco de uma colossal matança dos protestantes “huguenotes” – como narrado por Alexandre Dumas em A Rainha Margot (romance já adaptado para o cinema com maestria por Patrice Chéreau). Aponta-se que o número total de pessoas mortas pelos católicos no genocídio dos huguenotes de 1562 esteja entre 30 e 100 mil mortos.

A indignação voltairiana atinge ápices diante dos discursos dos apologistas da Noite de São Bartolomeu e outros massacres: “Se a perseguição contra aqueles com quem disputamos fosse uma ação santa, cumpre admitir que o que matasse o maior número de heréticos seria o maior santo do paraíso… logo, de dois assassinos iguais em piedade, o que tivesse estripado 24 mulheres huguenotes grávidas deve ser glorificado em dobro em relação ao que só tivesse estripado 12.” (p. 72) Este raciocínio torto e perverso, apesar de Voltaire escrevê-lo em tom de pilhéria, é mais que mera piada – e poucos autores na história da filosofia são mais versados em chacinas do que Voltaire, que conhece inúmeros exemplos do “furor das seitas que fez perecer milhares” (p. 149).

 É por isso que Voltaire não consegue conter estes arroubos de indignação: “Digo-o com horror, mas com verdade: nós, cristãos, é que fomos perseguidores, carrascos, assassinos! E de quem? De nossos irmãos. Nós é que destruímos cidades, com o crucifixo ou a Bíblia na mão, e não cessamos de derramar sangue e de acender fogueiras, desde os tempos de Constantino…”  (pg. 62)

 Voltaire, como se sabe, não era ateu – e até mesmo dá amostras de ateofobia em certos momentos, ao referir-se por exemplo àqueles que “inclinam-se para o ateísmo e tornam-se depravados” (pg. 64). Ora, desde quando o ateísmo acarreta necessariamente a “depravação”? Não é esta uma tese de padres e monges, que demonstra um preconceito contra os tão perseguidos dos descrentes?

De qualquer modo, Voltaire considera este “um péssimo argumento”: “os católicos liquidaram um certo número de huguenotes, e os huguenotes, por sua vez, assassinaram um certo número de católicos, logo, não existe Deus” (pg. 65). Em outros termos: não se julga da inexistência de Deus a partir das insanidades de seus diferentes fã-clubes. Os fiéis cometem horrores, mas nenhum destes horrores testemunha suficientemente em prol do ateísmo – e eis a profissão de fé de Voltaire:

 “Eu concluiria afirmando que existe um Deus que, após esta vida passageira, na qual o desconhecemos tanto, e cometemos tantos crimes em seu nome, dignar-se-á a consolar-nos de tão horríveis infortúnios: pois, considerando as guerras de religião, os quarenta cismas dos papas,  quase todos sangrentos; as imposturas, quase todas funestas; os ódios irreconciliáveis acesos pelas diferentes opiniões; considerando todos os males que o falso zelo produziu, os homens há muito têm tido o seu inferno nesta vida” (pg. 65).

Mas não seria um argumento fraco querer derivar do inferno terrestre, por sua mera existência atestada pelos fratricídios, parricídios e genocídios que atravessam a história humana, a existência de um Deus consolador de infortúnios?  Em outros termos: a existência do mal e do sofrimento é garantia que um céu-de-recompensa aguarda a todos os sofredores?

O essencial em Voltaire, concordemos ou não com sua crença em um Deus que “terá a dignidade de consolar-nos de tão horríveis infortúnios”, é que encontram-se em suas páginas algumas vívidas descrições de eventos históricos onde a intolerância e o fanatismo conduziram a grandes catástrofes. O “princípio universal” da moral voltairiana, como expressa no Tratado Sobre a Tolerância, aquele princípio moral que vale “em toda a terra”, seria o “não faz o que não gostarias que te fizessem.” E Voltaire se apressa em adicionar, como contra-exemplo, a atitude de muitos fanáticos religiosos, que reivindicam aos brados seu direito à intolerância: “Crê, ou te abomino! Crê, ou te farei todo o mal que puder! Monstro, não tens minha religião, logo não tens religião alguma! Cumpre que sejas odiado por teus vizinhos, tua cidade, tua província.” (pg. 37-38)

Ora, a história está repleta – e também o estão as páginas de Voltaire e Michelet – de casos de pessoas que foram taxadas de “hereges” e que, “como atacavam dogmas muito respeitados, a primeira resposta que lhes deram foi jogá-los na fogueira.” (p. 20) Quantos Giordanos Brunos não foram queimados vivos, junto com suas obras? E quem um dia poderá calcular o valor inestimável de tudo o que se perdeu com o incêndio da Biblioteca de Alexandria?

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Se a intolerância fosse um direito, isso seria a legitimização da barbárie. “Caberia então que o japonês detestasse o chinês, o qual execraria o siamês; o mongol arrancaria o coração do primeiro malabar que encontrasse; o malabar poderia degolar o persa, que poderia massacrar o turco – e todos juntos se lançariam sobre os cristãos, que por muito tempo devoraram-se uns aos outros.” (pg. 38) Quadro sinistro, e tão mais assustador pois se assemelha ao que ocorre de fato com frequência espantosa na história humana. “O direito à intolerância é, pois, absurdo e bárbaro; é o direito dos tigres, e bem mais horrível, pois os tigres só atacam para comer, enquanto nós exterminamo-nos por parágrafos.” (p. 38)

Apenas mais dois exemplos de sinistra intolerância homicida narrados por Voltaire: 1) “Na guerra contra os madianitas, Moisés ordenou que fossem mortas todas as crianças do sexo masculino e todas as mães, e que os despojos fossem partilhados. Os vencedores encontraram 675 mil ovelhas, 72 mil bois, 61 mil burros e 32 mil meninas; fizeram a partilha e mataram o resto.” (p. 77);  2) “Uma seita na Dinamarca sabia que todos os recém-nascidos que morrem sem batismo são condenados e que os que têm a felicidade de morrer imediatamente após receberem o batismo gozam da glória eterna.  Saíam, pois, a estrangular os meninos e meninas recém-batizados que encontrassem. Certamente, era fazer-lhes o maior bem possível: a uma só vez eram preservados do pecado, das misérias desta vida e do inferno, e enviados infalivelmente ao céu…” (p. 111)

Já o cristianismo, conforme o descreve Voltaire, é já em sua gênese uma religião sectária, que emerge como uma espécie de facção do judaísmo, como um ramo que se separa do tronco da tradição hebraica, ganhando com isso a intensa inimizade dos judeus: “os primeiros cristãos tinham como inimigos apenas os judeus, dos quais começavam a separar-se. Sabemos o ódio implacável que todos os sectários sentem pelos que abandonam sua seita.” (p. 46)  “Jesus submeteu-se à lei de Moisés desde sua infância até sua morte. Circuncidaram-no no oitavo dia, como todas as outras crianças. Se, depois, foi batizado no Jordão, tratava-se de uma cerimônia consagrada entre os judeus… Jesus observou todos os pontos da lei: festejou todos os dias de sabá; absteve-se das carnes proibidas; nascido israelita, viveu constantemente como israelita. (…) Levado ao governador romano da província e acusado caluniosamente de ser um perturbador da ordem pública, que dizia não ser preciso pagar o tributo a César e que, além do mais, se dizia rei dos judeus. É da maior evidência, portanto, que foi acusado de um crime de Estado.” (p. 94)

É até defensável que Jesus Cristo, como indivíduo, não tenha “estabelecido leis sanguinárias, ordenado a intolerância, mandado construir os cárceres da Inquisição, instituído os carrascos dos autos-de-fé” (87). Mas, como Nietzsche provoca, “o único cristão verdadeiro morreu na cruz”; e a religião que se construiria sobre o martírio de Jesus crucificado se desenvolverá envolvida em guerras sectárias infindáveis, e assim o permanecerá pelos séculos, com um derramamento de sangue que prosseguia na época de Voltaire – como o prova o caso Calas. O ódio que os judeus tinham por São Paulo, aliás,  é bem simbólico deste conflito de sectarismos: “Os Atos dos Apóstolos nos mostram que, tendo São Paulo sido acusado pelos judeus de querer destruir a lei mosaica em nome de Jesus Cristo, São Tiago propôs a São Paulo que raspasse a cabeça e fosse purificar-se no templo com quatro judeus… Paulo, cristão, foi portanto cumprir todas as cerimônias judaicas durante 7 dias; mas os 7 dias ainda não haviam transcorrido quando judeus da Ásia o reconheceram e, vendo que ele havia entrado no templo, acusaram-no de profanação. Paulo foi preso, levado ante o governador Félix, em seguida enviado ao tribunal… Os judeus em coro exigiram sua morte.” (pg. 45)

Há em todo fanatismo um elemento “imperialista”, um desejo de conversão do mundo inteiro à sua crença, como se fosse possível uma uniformização religiosa da humanidade, algo que Voltaire com toda razão afirma ser quimérico e insano: “Seria o cúmulo da loucura pretender fazer todos os homens pensarem de uma maneira uniforme sobre a metafísica. Seria bem mais fácil subjugar o universo inteiro pelas armas do que subjugar todos os espíritos de uma única cidade.” (p. 121)

Como remédio contra os sectarismos fanáticos e homicidas, que só conseguem lidar com o diferente na base da exclusão ou da extinção, que querem o outro morto ou torturado se este não compartilha da mesma fé, Voltaire receita o bálsamo de um reconhecimento lúcido de nossa posição no seio da Natureza:

A natureza diz a todos os homens: “fiz todos vós nascerem fracos e ignorantes, para vegetarem alguns minutos na terra e adubarem-na com vossos cadáveres. Já que sois fracos, auxiliai-vos; já que sois ignorantes, instruí-vos e tolerai-vos. Ainda que fôsseis todos da mesma opinião, o que certamente jamais acontecerá, ainda que só houvesse um único homem com opinião contrária, deveríeis perdoá-lo, pois sou eu que o faço pensar como ele pensa. Eu vos dei braços para cultivar a terra e um pequeno lume de razão para vos guiar; pus em vossos corações um germe de compaixão para que uns ajudem os outros a suportar a vida. (…) Sou eu apenas que vos une, sem que o saibais, por vossas necessidades mútuas, mesmo em meio a vossas guerras cruéis tão levianamente empreendidas, palco eterno das faltas, dos riscos e das infelicidades. (…) Com minhas mãos plantei os alicerces de um prédio imenso; ele era sólido e simples, todos os homens nele podiam entrar com segurança; quiseram acrescentar os ornamentos mais bizarros, mais grosseiros e mais inúteis; e o prédio começa a desmoronar por todos os lados; os homens pegam as pedras e as atiram uns contra os outros; grito-lhes: Parai, afastai esses escombros funestos que são vossa obra e habitai comigo em paz no prédio inabalável que é o meu. (pg. 142)

Contra a megalomania de todas as religiões monoteístas, que são todas antropocêntricas e concebem o Homem no centro da Criação, criatura predileta do Criador, cabe frisar nossa pequenez cósmica e o delírio que há em seitas que, apesar de minúsculas no espaço-e-no-tempo, tem a pretensão descabida de serem as beneficiárias principais das graças do Todo-Poderoso. “Este pequeno globo, que não é mais do que um ponto, gira no espaço como tantos outros globos; estamos perdidos nessa imensidão. O homem, com cerca de um metro e sessenta de altura, é seguramente algo pequeno na criação. Um desses seres imperceptíveis diz a alguns de seus vizinhos: Escutem-me, pois o Deus de todos esses mundos me falou! Há 900 milhões de pequenas formigas como nós sobre a terra, mas apenas o meu formigueiro é bem-visto por Deus; todos os outros lhe causam horror desde toda a eternidade; meu formigueiro será o único afortunado, e todos os outros serão desafortunados.” (p. 126)

Nietzsche, que admirava tanto Voltaire que dedicou seu Humano Demasiado Humano ao grande iluminista francês no centenário de sua morte, re-utiliza a metáfora de formiga em um aforismo brilhante de O Viajante e Sua Sombra, onde o homem é descrito como “O Comediante do Mundo” e a “inventividade espiritual da mais vaidosa criatura, o inventor do inventor”, é exposta com a verve satírica e o faro crítico características do filósofo da “morte de Deus”:

O homem, comediante do mundo – Deveria haver criaturas mais espirituais do que os homens, apenas para fruir inteiramente o humor que há no fato de o homem se enxergar como a finalidade da existência do mundo. (…) Os astrônomos, que às vezes podem realmente dispor de um panorama distanciado da Terra, dão a entender que a gota de vida no mundo é sem importância para o caráter geral do tremendo oceano do devir e decorrer; que um sem-número de astros tem condições similares às da Terra para a geração da vida; que a vida, em cada um desses astros, em relação ao tempo de sua existência, foi um instante, um bruxuleio, com longuíssimos lapsos de tempo atrás de si – ou seja, de modo algum a finalidade e intenção derradeira de sua existência. Talvez uma formiga, numa floresta, imagine ser a finalidade e intenção da existência da floresta, de forma tão intensa como fazemos ao espontaneamente ligar o fim da humanidade ao fim do planeta, em nossa fantasia; e ainda somos modestos, se nos detemos nisso e não organizamos um crepúsculo geral dos deuses e do mundo, acompanhando o funeral do último homem. Mesmo o mais imparcial astrônomo não pode ver a Terra sem vida senão como o luminoso túmulo flutuante da humanidade.”

(O Viajante e Sua Sombra, aforismo 14, pg. 171 e 172.
Ed. Cia das Letras. Trad. Paulo César de Souza.
Em “
Humano Demasiado Humano Volume II”)

Carl Sagan, “O Pálido Ponto Azul”

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Some of Carl Sagan’s most well-known and inspiring ideas, concerning the minuteness of our tiny planet when compared to the vastness of the cosmos, have been beatifully drawn by Zen Pencils. Click here to access this great visual representation of Sagan’s insightful and poetic words. Below, this Awestruck Wanderer shares the whole transcript of the “Pale Blue Dot” famous reflection, as well as a video with Sagan declaiming it himself. Enjoy! It’s my hope this will bring at least a minuscule spark of laughter to the pilgrims passing through this infinitesimal point in the blogosphere… Cheers, fellow earthlings!!!

“From this distant vantage point, the Earth might not seem of any particular interest. But for us, it’s different. Look again at that dot. That’s here. That’s home. That’s us. On it everyone you love, everyone you know, everyone you ever heard of, every human being who ever was, lived out their lives. The aggregate of our joy and suffering, thousands of confident religions, ideologies, and economic doctrines, every hunter and forager, every hero and coward, every creator and destroyer of civilization, every king and peasant, every young couple in love, every mother and father, hopeful child, inventor and explorer, every teacher of morals, every corrupt politician, every “superstar,” every “supreme leader,” every saint and sinner in the history of our species lived there – on a mote of dust suspended in a sunbeam. The Earth is a very small stage in a vast cosmic arena. Think of the rivers of blood spilled by all those generals and emperors, so that, in glory and triumph, they could become the momentary masters of a fraction of a dot. Think of the endless cruelties visited by the inhabitants of one corner of this pixel on the scarcely distinguishable inhabitants of some other corner, how frequent their misunderstandings, how eager they are to kill one another, how fervent their hatreds. Our posturings, our imagined self-importance, the delusion that we have some privileged position in the Universe, are challenged by this point of pale light. Our planet is a lonely speck in the great enveloping cosmic dark. In our obscurity, in all this vastness, there is no hint that help will come from elsewhere to save us from ourselves. The Earth is the only world known so far to harbor life. There is nowhere else, at least in the near future, to which our species could migrate. Visit yes. Settle, not yet. Like it or not, for the moment the Earth is where we make our stand. It has been said that astronomy is a humbling and character building experience. There is perhaps no better demonstration of the folly of human conceits than this distant image of our tiny world. To me, it underscores our responsibility to deal more kindly with one another, and to preserve and cherish the pale blue dot, the only home we’ve ever known.” – CARL SAGAN (1934-1996)

See also:

:: Nagel (III) ::

:: III. PRIMEIROS TATEIOS: O QUE É OBJETIVIDADE? ::

OBJETIVIDADE: Em sentido subjetivo: caráter da consideração que procura ver o objeto como ele é, não levando em conta as preferências ou os interesses de quem o considera, mas apenas procedimentos intersubjetivos de averiguação e aferição. Neste significado, a objetividade é um ideal de que a pesquisa científica se aproxima à medida que dispõe de técnicas convenientes. // Propriedade daquilo que vale independentemente do sujeito. P. ex., fala-se de objetividade dos valores ou do saber científico.

[Nicola Abbagnano, “Dicionário de Filosofia”. Pg 841.
Trad. de Alfredo Bosi. Ed. Martins Fontes.
Download da obra completa aqui.]


Vou tentar manter a coisa o mais concreta possível; a filosofia torna-se antipática aos leigos quando se perde em abstrações, como se perdesse o pé-no-chão e voasse em vagos céus conceituais. Imaginemos alguém muito pragmático que pergunte: “Há algum exercício prático que posso fazer para “treinar” a minha capacidade para a objetividade?” Um dos “métodos” que Nagel sugere é: tente olhar sua vida “como se a mirasse de uma grande altura”. Ou então, como eu prefiro sugerir, finja que há uma câmera de cinema que começa por filmar a sua cabeça, por cima, e que vai dando um zoom out constante, mostrando você sempre de mais e mais longe. Visto de cima de um poste. Visto do topo do edifício. Visto das mais baixas nuvens. Visto de um satélite que orbita o planeta. Visto de Marte. Visto dos limites da Via Láctea. Visto de fora da galáxia.

Ou então, terceira via, não tema embarcar numa onda sci-fi em seu auxílio: imagine como nosso sistema solar pareceria para alienígenas que fossem se acercando de nós em seu disco-voador, aproximando-se mais e mais. Pergunte-se, por exemplo: quão perto os ETs teriam que chegar para conseguirem alguma prova empírica de que há vida inteligente no planeta? Ou releia o início do clássico de H. G. Wells, The War Of The Worlds, que traz a eloquente imagem de que a humanidade toda pudesse aparecer para outras criaturas tão diminuta quanto são as bactérias que nós hoje estudamos com nossos microscópios:

“No one would have believed in the last years of the nineteenth century that this world was being watched keenly and closely by intelligences greater than man’s and yet as mortal as his own; that as men busied themselves about their various concerns they were scrutinised and studied, perhaps almost as narrowly as a man with a microscope might scrutinise the transient creatures that swarm and multiply in a drop of water. With infinite complacency men went to and fro over this globe about their little affairs, serene in their assurance of their empire over matter. It is possible that the infusoria under the microscope do the same…” (H. G. WELLS. Livro completo aqui.)

Não é difícil perceber, fazendo um experimento mental destes, e repetindo-o cotidianamente, que nossa auto-percepção começa a se modificar: a bexiga do nosso ego se desincha, como se alguns buracos a fizessem perder o ar que a preenchia, e vamos nos tornando cônscios do quanto somos diminutos e o quanto há algo de imenso lá fora do nosso euzinho e do nosso corpitcho. Tão cedo desaparecemos do quadro, tornados invisíveis pois demasiado pequeninos, assim que a câmera sobe pelos ares, olhando-nos cada vez de uma maior altura! Até que chega um momento que somos tão invisíveis para a câmera quanto um atómo ou um elétron é para os nossos olhos. Podemos até ser grandes em relação a um grão de areia, mas nós mesmos somos grãos de areia em relação com o Universo que nos contêm e que nos supera em imensidão de um modo aterrador, espantoso e fascinante…

Não assino embaixo do clichê que diz “uma imagem vale mais que mil palavras” (conheço alguns versos que valem mais que mil filmes…), mas apelo aqui para uma imagem por achar que isto tratá ainda mais concretude para este nosso tateio em busca do que significa “objetividade”. A fotografia abaixo foi tirada pela sonda Messenger de uma distância de 183 milhões de quilômetros em relação à Terra, com a câmera lá perto de Netuno…

Como explica Carlos Orsi, que escreve sobre astronomia para o Estadão,

“as duas bolinhas brancas perto do canto inferior esquerdo do quadro são a Terra e a Lua. Parafraseando Carl Sagan, todos os sábios, poetas, filósofos, tiranos, santos e genocidas; todas as pessoas que você conhece, ignora, respeita, despreza, ama ou odeia vivem, ou já viveram, suas vidas inteiras na bola maior. É lá também que estão todos os seus problemas, e esperanças. Todas as guerras e crimes, bem como todos os grandes e pequenos atos de sacrifício e generosidade já registrados em algum momento da história aconteceram lá. Já a bola menor marca a maior distância já viajada por membros de nossa espécie. É o limite atual da experiência humana.”

Acho que por enquanto é o suficiente em matéria de “exercícios psíquicos” de “treinamento para uma visão objetiva”. Suspeito que muitos leitores já sentem-se tentados a interromper a leitura “porque a coisa vai ficando mais e mais deprimente“. E, é claro, não é de se negligenciar este afeto poderoso que nos impulsiona a repudiar qualquer fato que destrua nossa auto-estima, que inflija uma “ferida narcísica”, para usar a célebre expressão de Freud… Esta é uma das razões que explica porque a objetividade é tão difícil, é tão rara; ela tem que ser conquistada, e numa luta contra nós mesmos e o que nossos corações desejam. Pois a história humana, se fosse vista por outros olhos que não os dos juízes interessados que somos, talvez não parecesse muito diferente do “épico aventuresco” da menor heroína de curta metragem de animação já filmada: a bonequinha de 9mm Dot, que “protagoniza” o “rolê microscópico” abaixo (dirigido por um certo “Sumo Science” usando uma nova tecnologia CellScope da Nokia):

:: Decifra-me ou devoro-te! ::


:: COSMOS ::


There is no refuge from change in the cosmos”
Carl Sagan

Nos últimos tempos, mergulhei de cabeça em duas séries de TV antigas que me cativaram, maravilharam e fizeram refletir um bocado: O Poder Do Mito (que contêm 6h de entrevistas concedidas por Josephn Campbell a Bill Moyers sobre “temões” como mitologia, sabedoria e o sentido da vida…) e Cosmos (“Épico Científico” de Carl Sagan em 13 fascinantes episódios!). Já não sei decidir quem destes dois instigantes mestres tem mais a nos ensinar, se Sagan ou Campbell. Mas ainda bem que não precisamos escolher um e excluir o outro: ouçamos (e sejamos alunos…) de ambos! Pois um dos maiores privilégios daqueles que assumem na terra a humilde condição de aprendizes-da-vida (e na-vida!) é o fato de nada impedir que aprendam de vários professores. E que possam aprender até mesmo das estrelas que não falam e dos espaços escuros entre elas: “the great dark between the stars”, aquele misterioso negrume que deixava Pascal apavorado mas que parece chamar Sagan com a força encantatória de uma esfinge imensa…

Carl Sagan e Joseph Campbell, me parece, são ambos mestres na arte do maravilhamento. Eles chaqualham nossa apatia esparramando diante de nossas consciências uma procissão de mistérios. “Há mais estrelas no universo que grãos de areia em todas as praias do planeta Terra…”. Sagan nos convida para olhar para cima: não para louvar um Deus que estaria sentado em sua nuvemzinha, gerenciando sua obra, mas para que tomemos ciência da incomensurável grandeza do Mistério que temos diante de nossas consciências. Como não se assombrar com a vastidão de tudo e a pequenez de cada um de nós, seres humanos, como que esquecidos como um trapo num canto remoto de uma das bilhões de galáxias que compõe isto que nenhuma palavra ou conceito explica: o “Universo”, o “Ser”,  o “Todo”… (Ah, miséria das palavras!!!)

Partir na jornada de decifração dos enigmas do cosmos é também partir numa jornada de auto-conhecimento: o que somos nós nesta misteriosa maquinaria cósmica? Como pôde acontecer esta espantosa coisa que é existir um Universo assim tão imenso e, dentro dele, contidos nele, criaturas tão estranhas e desnorteadas como nós?!?

Estes dias deparei com um assombro semelhante no livro de Thomas Nagel que estou lendo, o Visão a Partir de Lugar Nenhum (The View From Nowhere, lançado pela Martins Fontes):

“Eras se passaram sem que existisse algo como eu, mas graças à formação de um organismo físico particular, num lugar e tempo particulares, repentinamente passei a existir, e existirei enquanto esse organismo sobreviver. No fluxo objetivo do cosmos, esse evento subjetivamente estupendo (para mim!) mal chega a produzir uma leve ondulação… Somos todos sujeitos do universo sem centro… sou um sujeito que pode ter uma concepção do universo sem centro na qual Thomas Nagel não passa de um pontinho insignificante que facilmente poderia nunca ter existido.”

Até os que sabem mais não sabem muito. O Universo – eis talvez a principal “moral da história” para quem assiste Cosmos… – prossegue sendo um gigantesco mistério.

* * * * * *

II. ALUMBRAMENTO

Não acho que seja lá muito proveitoso rotular um ser humano com “etiquetas intelectuais”, rótulos classificatórios… Por isto vou tentar não cometer nenhum tipo de reducionismo preguiçoso ao lidar com a figura de Carl Sagan, imprimindo nele um “carimbo” para melhor identificá-lo no meu mumificado mundinho mental ressecado… Quero uma mente desperta, que nada tenha de burocrática, e o próprio Sagan é exemplo vivo de que este estado de lucidez de consciência só se conquista quando evitamos ceder às tendências preguiçosas de nossos cérebros acomodatícios e olhamos nossos entornos com a curiosidade viva e espantada de uma criança – ou de uma criatura que acabou de chegar do espaço…

Sagan, pra mim, é antes de tudo uma pessoa que procura despertar nos outros um “senso de maravilhamento”. A sense of wonderment. Apesar de ser possível interpretar sua “atitude” como a de um cientista muito “convencido” e seguro de si que fala com a duvidosa autoridade de quem pensa ter descoberto todas as respostas, isto seria uma falsa imagem. Acompanhar Sagan através da série é descobrir um homem que observa o Cosmos com um olhar assombrado, boquiaberto, plenamente ciente de que há profundos mistérios irresolvidos e outros ainda sequer sondados…

O que Sagan mais quer é que a gente se deslumbre —- e um programa de TV como o Fantástico, que eu assistia direto quando pivete, antes de ter chegado à conclusão de que a Rede Globo era uma ofensa ao meu cérebro, deve muito ao “espírito” de Sagan (apesar de carecer de 90% de seu insight e talento). O principal efeito que Sagan procura gerar em nossas consciências com seu Cosmos não é a submissão a teorias que ele nos imporia como verdades inegáveis, mas sim um espanto deslumbrado diante do novo, do inefável, do imensurável, do nebuloso, do misterioso, do enigmático e do sublime…

Em vários momentos da série  isto chega a beirar o piegas, o kitsch, o corny… Em seus momentos menos inspirados, Sagan pode até aparecer a um espectador mais irônico como um caricato abraçador-de-árvores, que fica dando beijinhos nas rosas e falando hipponguices de eco-chato: um cara assim, meio Greenpeace e P.V., que talvez nutra simpatias pelo hare krishna e pelas músicas do George Harrison que contêm cítaras… Estou chacoteando, mas juro que é com carinho…

É que, por mais que eu o admire, não consigo conter minha ironia quando, em vários momentos, irrompe aquela bizarra trilha-sonora meio new age, meio Kitaro e Enya (blargh!), tudo rodeado por um colorido artificialesco que lembra O Mágico de Oz e os primórdios da computação gráficaMas não dá para exigir de um cientista que possua bom gosto estético, certo? Mas suas duvidosas escolhas estéticas não são desprovidas de uma certa magia: pois Sagan parece não se deslumbrar somente com o Universo, mas também com a magia do cinema, por vezes tentando assumir na tela uma atitude de Indiana Jones ou Luke Skywalker da vida-real… Infelizmente, Sagan não é nem metade tão bom ator quanto é bom pensador. Mas ao menos isto deixa Cosmos com um certo sabor humorístico involuntário que é um de seus charmes. E não falta charme mesmo nas cenas mais “metidas a bonitinhas” onde vemos borboletinhas pousando em rosas, vaga-lumes piscando na noite como pequenas estrelas aladas ou dandelions soprados pela brisa matinal… É, confesso, um guilty pleasure irresistível.

Já os efeitos de computação gráfica, para nós da era de Avatar e da trilogia Toy Story, são aquela “tosqueira” que dos anos 1970 e 80 que hoje lamentamos (“tão primitivos! E tão feiosos!”, seria tentado a queixar-se um amante dos eye-candys da nossa atual Sociedade do Espetáculo circa 2.010…). Mas não acho que estraguem o caldo. Ao contrário: o conteúdo, de longe, compensa pelas limitações da forma.

Pois não há como negar que a série é, em geral, muitíssimo bem-sucedida em elucidar para o espectador de modo cativante, compreensível e sedutor várias dos mais importantes empreendimentos científicos da jornada humana, do átomo de Demócrito ao heliocentrismo de Copérnico, do mapeamento das órbitas planetárias de Kepler à decifração do Genoma humano, do evolucionismo de Darwin à relatividade de Einstein…

Em seus melhores momentos, Carl Sagan parece alçar-se ao nível de alguma das maiores mentes do Iluminismo francês, como uma espécie de Voltaire norte-americano, capaz de ferinas ironias e aparentemente apto a reter em sua mente um conhecimento tão vasto que mereceria um adjetivo bem à la Diderot e D’Alembert: “enciclopédico!”

Mas há outras sociedades que, bem mais que a sociedade francesa circa-1789, que Sagan parece ver com extrema simpatia quando faz um “passeio histórico” pelo passado humano. As civilizações que ele parece descrever com maior carinho são aquelas da Grécia pré-socrática, entre 400 e 200 a.C., quando viveram e pensaram Demócrito, Tales de Mileto, Anaxágoras e tantos outros precursores da ciência moderna; a Alexandria durante os anos de profundo cosmopolitismo e discussão científica e filosófica, antes da queima da Grande Biblioteca; e a Holanda do século 17 – aquela de Rembrandt, Vermeer, Huysgens etc.

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III. WE ARE STARDUST

The cosmos was originally all hydrogen and helium. Heavier elements were made in red giants and supernovas and then blown off to space, where they were available for subsequent generations of stars and planets. Our sun is probably a 3rd generation star. Except for hydrogen and helium, every atom in the sun and the Earth was synthesed in other stars. The silicon in the rocks, the oxygen in the air, the carbon in our DNA, the gold in our banks, the uranium in our arsenals, were all made thousands of light-years away and billions of years ago. Our planet, our society and we ourselves are built of star stuff…”

A série tenta dar respostas sensatas e ponderadas para muitos temas de vasto interesse popular (e que encheram por décadas as páginas de revistas como a Superinteressante, a Galileu e a Mundo Estranho, que muito devem ao “espírito” de Sagan, ainda que também deixem a desejar em termos de aprofundamento…): da possibilidade de uma viagem no tempo aos OVNIs, da origem da vida à composição química das estrelas, de futuras missões inter-estelares a cálculos sobre o número de civilizações inteligentes possíveis no Universo, a série não se recusa a averiguar hipóteses. E até afirma que é verdade certas “coisas” de deixar bestificado de espanto qualquer um de nós: somos, afinal de contas, feitos de poeira estelar! Nenhum dos átomos que compõe nossos corpos, nenhum dos átomos que compõe tudo o que existe neste planeta, foi gerado por aqui mesmo. Tudo o que conhecemos é construído com “tijolinhos” gerados nos bilhões de úteros das estrelas e depois esparramados pelo vasto, escuro e frio espaço…

We’re all stardust, harvesting star light!

Mas nem tudo é poesia e alumbramento nesta jornada: a série foi produzida com a adrenalina dos tempos de crise e em muitos momentos nota-se uma certa “tensão” no ar, natural de um seriado concebido e gravado nos anos 70, não muitos anos depois da Crise dos Mísseis em Cuba que ameaçou esquentar a Guerra Fria, pondo assim em risco a sobrevivência de todo o planeta. Cosmos é um seriado assombrado pelo fantasma do Apocalipse Nuclear. De modo que soa às vezes como uma espécie de “levante” de um grande cientista norte-americano que ergue-se, soando barulhentos alarmes, como se quisesse impedir que Hiroshima se repita. Em certo sentido, é como se seguisse o conselho de Theodor Adorno de que a educação depois do Holocausto deveria ter uma de suas tarefas cruciais “evitar que Auschwitz se repita”. Sagan protesta com veemência, p. ex., contra o trilhão de dólares anuais que o mundo, em sua época, dedicava a gastos militares. E nossa época não está muito diferente, como sabe qualquer um que consulte as verba$$$ suntuosas que os EUA dedicam ao militarismo.

Sagan foi também um destes que embarcou na onda da “globalização” de um modo festeiro e utópico, supondo de modo talvez otimista em excesso que a fraternidade humana estaria sendo construída pelas facilitações tecnológicas na comunicação e no transporte que possibilitam nosso atual estado de inter-conexão global. Elogia o cosmopolitismo e a abertura a outras culturas e tradições, como quem bem sabe que somos todos uma só espécie sobre um planeta que, quando visto do espaço, não possui fronteiras.

Defende o método da ciência, segundo o qual “a única verdade sagrada é que não existem verdades sagradas”. Lança sua abominação sobre o obsceno número de armas nucleares nos arsenais de tantas nações, sobre a desnecessária matança das baleias e contra o deflorestamento, e já insistia desde então nos perigos do aquecimento global e do Efeito Estufa. E nos mostrou muito bem, no caso de Marte e Vênus, que desgraceira pode decorrer da gente zoar com nossa camada de ozônio…

Não fala em Gaia, mas a deusa está presente por toda parte.

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IV. Blues for a Blue Planet

Há, sim, algo de potencialmente deprimente nesta viagem de descoberta. Na vasta imensidão do Universo, somos algo inegavelmente minúsculo. A astronomia esmaga qualquer pretensão humana de gigantismo: somos anões num planeta medíocre de uma galáxia qualquer. Não há nenhuma evidência confiável de que alguma espécie de outra civilização de outro planeta tenha entrado em contato conosco: por enquanto, não encontramos nada que negue a hipótese de que estamos sozinhos. Nossos telescópios vasculham cada centímetro cúbico dos céus, com criaturas por detrás das lentes sedentas por diálogo, e as estrelas prosseguem em silêncio. É o que apavorava Pascal: “le silence éternel de ces espaces infinis m’effraie…”. É o “silêncio das estrelas” de que se lamenta Lenine numa de suas mais melancólicas canções: “amanheço mortal…”

Cosmos fala pouco sobre a morte, como quem por polidez evita um tema penoso. Mas, ao falar sobre o universo e sua grandeza quase inimaginável, faz com que nos confrontemos com o fato irrecusável da pequenez e da fragilidade da raça humana. Ao mesmo tempo que nos abre frente aos olhos um imenso leque de façanhas que esta mesma espécie conquistou: não há em nenhum outro canto do Universo conhecido nada que se assemelhe a nós. Não conseguimos, por enquanto, nos deparar com outros seres conscientes habitando este cosmos tão repleto de “coisas” que existem em total ignorância de si mesmas, inconscientes de sua própria existência.

Tudo indica que fomos só nós, nesta imensidão da matéria, que “despertamos”. E talvez seja algo muitíssimo raro isto que aconteceu neste planetinha: a matéria chegando a uma organização tal que fez surgir a Consciência. É sinal que a matéria tem espantosas propriedades, já que nos gerou, a estas espantosas criaturas que somos!

O córtex cerebral não é menos fantástico que uma galáxia distante. E pensar que há mais neurônios dentro da cabeça de cada um de nós do que há grãos de areia em todas as praias do planeta Terra! Temos um imenso universo dentro do crânio. Um universo capaz de consciência de si mesmo, o que o universo lá fora não é capaz de alcançar, ao que parece… É que a consciência tinha que começar em algum lugar? Pois bem: talvez sejamos este começo, o que já é missão nobre.

E que faz com que seja importantíssimo não deixar que esta chama se apague. Bilhões de anos foram gastos neste “produto” espantoso da Natureza: matéria viva e consciente. E agora temos em mãos a sombria e inquietante possibilidade de jogar isto fora e desfazer uma obra-prima da Dança Cósmica…

A Dança de Shiva

Somos minúsculos, é verdade, mas também somos raros. Somos pequenos, é verdade, mas para cada uma das células que nos compõe talvez sejamos do tamanho de uma galáxia, e tão misteriosos e incompreensíveis quanto…

E somos, é claro, o único ponto em todo o Ser onde há busca pela verdade, pela compreensão, pelo sentido. É claro que Carl Sagan não nos explica qual é o “sentido do Universo”: seria muito megalomaníaco e francamente antipático se sustentasse ter a solução para este profundo enigma. É óbvio que a Ciência não tem uma resposta para isto, o que salva a Filosofia de cair na inutilidade, e a reabilita para os séculos porvir.

Afinal de contas, a tentação de abraçar a hipótese de um deus prossegue, já que parece necessário que algo tenha sido o Primeiro Motor ou o Criador de toda esta miríade de galáxias – a watch implies a watchmaker. Mas o fato da humanidade ter inventado a hipótese Deus me parece apenas uma tentativa simplória de tentar dar conta de um mistério que ainda estamos longe de desvendar. Àqueles que se sentirem tentados a abraçar a confortável hipótese de um deus criador de tudo depois de assistirem Cosmos, sugiro que antes tem um passeio por outra grande mente científica de nosssos temops: Richard Dawkins, o grande desilusionista… Sim: de onde diabos “saíram” todas as estrelas, planetas, buracos-negros, tudo que existe? O que é o diabo deste “espaço” (aparentemente infinito…) onde tudo isso bóia, viaja e existe? Quem foi que colocou em movimento esta incessante correnteza cósmica que não conhece um só segundo de remanso? De onde saiu toda essa matéria, todos esses átomos, toda essa luz? Sempre existiu ou um dia começou? Tem sentido ou somente existência? É eterno ou conhecerá um dia o nada?

Tudo, ainda, profundos mistérios. E vasto alimento para o nosso espanto.