SANGUE LATINO – Canal Brasil e Nepomuceno Filmes: entrevistas com Eduardo Galeano, Mia Couto, Leonardo Boff, dentre outros.

Alguns dos principais intelectuais da América Latina estão reunidos no Canal Brasil no programa Sangue Latino. O escritor e jornalista Eric Nepomuceno reuniu escritores, músicos, poetas, artistas plásticos e outros grandes pensadores do continente em conversas sobre a situação política, literatura, música, cultura e política dos países da região, entre outros temas que serão abordados na atração. As entrevistas de “Sangue Latino” tiveram diversas locações e foram gravadas no Uruguai, Argentina, Chile e no Brasil, sempre em clima intimista e sem uma pauta previamente determinada para cada convidado.Dirigido por Felipe Nepomuceno – filho do apresentador – e produzido pela Urca Filmes, o programa traz nomes de grande influência na cultura latino-americana. Entre os entrevistados, o escritor e compositor brasileiro Chico Buarque, o escritor uruguaio Eduardo Galeano – autor do premiado “As Veias Abertas da América Latina” – e o artista plástico argentino Leon Ferrari, considerado pelo jornal norte americano “New York Times” como um dos cinco artistas vivos mais provocadores e importantes do mundo. Sangue Latino foi gravado com câmeras de alta resolução, e com imagens apenas em preto e branco, o que dá ao programa uma linguagem documental. A trilha sonora foi composta em uma jam session com o pianista e acordeonista Marcos Nimrichter, apresentador do Estúdio 66, outro programa do Canal Brasil. – SITE OFICIAL


ASSISTA:

EDUARDO GALEANO


MIA COUTO


LEONARDO BOFF


DIRA PAES


EDUARDO COUTINHO


PEDRO JUAN GUTIÉRREZ


FERREIRA GULLAR


LEONARDO PADURA


ANTONIO TORRES


YAMANDU COSTA


ÁNGELES MASTRETTA


FERNANDO MORAIS


RICARDO DARÍN


RUY GUERRA


MATILDE CAMPILHO


ADRIANA VAREJÃO


WALTER CARVALHO


MILTON NASCIMENTO


LEON FERRARI


CAETANO VELOSO


LAURA RESTREPO


FERNANDO SOLANAS

André Dahmer: “A Cabeça É A Ilha” – Antologia com 238 tiras [LIVRARIA A CASA DE VIDRO]

“A CABEÇA É A ILHA” – André Dahmer
>>>  (R$15 + frete @ A Casa de Vidro)

Criador do fenômeno dos quadrinhos “Malvados”, André Dahmer nasceu no Rio de Janeiro, em 1974, é pintor e quadrinista. Neste livro, com prefácio de Arnaldo Branco, Dahmer sonda a solidão, o desencontro e a incompreensão em suas múltiplas formas. Nesta antologia de 238 tirinhas em preto-e-branco, repletas de sarcasmo e poesia, Dahmer revela um mundo em que “os solitários são muitos e estão em todos os lugares. Seguem morrendo aos poucos nos bares e dentro de quartos, varando madrugadas sinistras com a ajuda da pornografia em banda larga e álcool. Eles estão nos cinemas, comendo pipoca sozinhos. Despercebidos, os solitários se arrastam pelos labirintos da timidez ou vivem de um sentimento permanente de estranheza diante do mundo, com toda razão: é que hoje em dia o amor é artigo raro e a indiferença é vendida, aos borbotões, como moderno (e único) modelo a ser seguido. ‘A Cabeça É A Ilha’ é um livro para esses seres estranhos, gente que conversa com os outros olhando para o chão. Para os que falam sozinhos, bêbados em seus apartamentos. Para os que os olham para os edifícios altos como uma saída digna para o sofrimento. Não que o livro vá curá-los de toda angústia… mas rir da própria dor é uma forma de domesticar nossos monstros e aceitar nossa fragilidade diante do abandono, da indiferença…” (André Dahmer, prefácio, p. 8-9)

Livro novo, 150 pgs. Compre n’A Casa de Vidro em Estante Virtual:
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ASSISTA TAMBÉM:

“A PRIMAVERA DO DRAGÃO – A Juventude de Glauber Rocha”, um livro de Nelson Motta (#LivrariaACasaDeVidro)

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Glauber Rocha (1939 – 1981) com sua primeira filmadora, uma Arriflex, comprada no Rio de Janeiro

por Eduardo Carli de Moraes / A Casa de Vidro

Se tivesse vivido apenas 25 anos, Glauber Rocha já teria merecido um lugar de destaque na história do cinema mundial. Em A Primavera do Dragão (disponível na Livraria A Casa de Vidro), Nelson Motta revela os detalhes da trajetória fulgurante do cineasta, do berço baiano até a consagração em Cannes com Deus e o Diabo na Terra do Sol (1963).

Nesta biografia da juventude de Glauber, que inclui fotografias da época, o leitor tem acesso ao “retrato vivo de um cineasta tão genial quanto precoce, liderando uma geração ousada, abusada e transgressora, arrombando as portas do Brasil moderno.”

Através de um livro que assemelha-se a um romance de formação, Motta “refaz o lastro de cumplicidades raras, como a que Glauber cultivou com sua turma de amigos: João Ubaldo Ribeiro, Cacá Diegues, Luiz Carlos Barreto, Nelson Pereira dos Santos, Luis Carlos Maciel e muitos outros, quando eram jovens e explodiam de ousadia. Criativos, libertários, politizados. Querendo mudar o cinema e o mundo.” (Ed. Objetiva, 2007, Compre já!)

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capit_es_de_areiaNascido em 1939, em Vitória da Conquista, a 500km de Salvador, filho de Adamastor Bráulio Silva Rocha e de Lúcia Mendes de Andrade Rocha, o pequeno Glauber cresceu sob o impacto e a influência da literatura e do cinema que devorou desde a pré-adolescência. Em tenra idade,

“já havia lido Capitães da Areia e Terras do sem-fim, de Jorge Amado, que o empolgaram pelos personagens populares e a linguagem forte. Leu Edgar Allan Poe, Charles Dickens e Rudyard Kipling. Adorou O Tempo e o Vento, de Erico Verissimo, mas o que mais o impressionou foi O Ateneu, de Raul Pompeia, memórias de um garoto em um internato, como ele. Também começou a se interessar por filosofia, nos livros populares de Will Durant, que contavam a história das principais escolas filosóficas em linguagem acessível. Logo falava com desenvoltura sobre Nietzsche, Schopenhauer e Voltaire, que os colegas nem imaginavam quem fossem.” (p. 41)

 Com 9 anos de idade, Glauber e a família mudam-se para Salvador, que em 1949 era uma metrópole de 400 mil habitantes, vários cinemas, sambas-de-roda, candomblés. O pequeno Glauber, muito interessado por teatro, monta no Colégio Dois de Julho sua primeira peça, El hilito de oro (O Fio de Ouro), escrita em espanhol, com ação que se passava em Cuba (p. 33). Aos 12 anos, vivencia a dor do luto pela morte de sua irmã Ana Marcelina, que aos 11 anos é derrotada pela leucemia, o que abala o pai Adamastor, previamente ferido gravemente na cabeça em um acidente (p. 39).

 Intensamente conectados ao cenário cultural de Salvador, Glauber e seus amigos mais próximos são impactados pela poesia de Gregório de Matos e de Castro Alves – este, símbolo de precocidade e genialidade, já que falecido aos 24 anos de idade. Poetas contemporâneos como Mário de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Moraes, Murilo Mendes, Mário Faustino, dentre outros, também inspiram Glauber e outros jovens baianos, empolgados com criação artística e escrita criativa, que começaram a realizar os eventos poéticos das Jogralescas. O cinema de Rosselini, Buñuel, Visconti, Einsenstein, Fritz Lang, dentre outros, também influencia profundamente a sensibilidade do jovem Glauber, que começa a escrever e publicar críticas de cinema.

inherit-the-wind-one-sheetSua estréia como crítico foi com o artigoStanley Kramer, a salvação de Hollywood”, dedicado ao diretor de Inherit the Wind (1960) Julgamento em Nuremberg (1961), dentre outros, além de produtor do western Matar ou Morrer – High Noon (1952) e do clássico, estrelado Marlon Brando, O Selvagem – The Wild One (1953)

Nos anos 1950, Glauber também acompanha os debates e polêmicas envolvendo filmes como Rio 40 Graus (1955), primeiro longa-metragem de Nelson Pereira dos Santos, e O Cangaceiro (1953), de Lima Barreto, com diálogos de Rachel de Queiroz. Sobre este último, Glauber realiza uma crítica-escracho da mise-en-scène, que acusa de ser “macumba para turista, uma folclorização da violência e da miséria.” (p. 59)

Já o filme de Nelson Pereira, censurado e proibido em todo o território nacional, é defendido por Glauber e seus comparsas, que escrevem manifestos em apoio à obra. Um dos generais que exercia a Chefia da Polícia havia justificado a censura a Rio 40 Graus dizendo que “exibia apenas aspectos negativos da vida brasileira” e “manifestava idéias comunizantes, como o incitamento à luta de classes e à degradação da família e dos valores cristãos.” (p. 73)

A despeito da perseguição e proibição oficiais, Rio 40 graus acabou sendo distribuído pela Columbia Pictures e a música-tema que inaugurava o filme, “A Voz do Morro”, de Zé Keti, virou um mega-hit nas rádios. Vencendo a luta pela liberdade de expressão, arrastando multidões ao cinema e expressando uma nova estética, o filme foi essencial à formação do jovem Glauber Rocha e muito significativo como inspiração para todo o Cinema Novo: “como propunha o neorrealismo italiano, o filme de Nelson colocava o povo nas telas. Pobres, negros, marginalizados, atores populares, sob a luz bruta e ofuscante dos trópicos, em favelas e trens suburbanos, histórias de luta e solidariedade, dramas e comédias do cotidiano carioca.” (p. 74)

400px_cp0592_11_25Na época, como relata Motta, a Universidade da Bahia  havia se transformado em um”moderno centro irradiador de arte e cultura, que os mais entusiasmados chamavam de Renascença Baiana”, devido ao reitor Edgar Santos e uma “verba milionária da Fundação Rockefeller” (p. 116).

Aprovado no vestibular para a Faculdade de Direito, Glauber Rocha ganha como recompensa uma viagem para o Rio de Janeiro, onde comprará sua primeira filmadora Arriflex, com a qual rodará seu primeiro filme, aos 19 anos de idade, o curta-metragem experimental Pátio (1959), “experiência narrativa radical”, “influenciado pela poesia concreta” (p.160), estrelado por sua musa e primeira esposa Helena Ignez.

A prioridade de Glauber, enquanto universitário, não foi o estudo de Direito – ele tomou altas bombas e zeros nas provas… – mas sim a prestigiada revista Ângulos  (da qual também participava seu amigo João Ubaldo Ribeiro). Glauber também participava da revista estudantil Mapa, exercitando a veia jornalística que já havia exercitado falando no rádio no programa Cinema em Close-Up. 

Em janeiro de 1958, Glauber e seu amigo Joca “partiram para uma viagem de estudos e reconhecimento da realidade nordestina. Passaram por Alagoas e Pernambuco, pelos cenários de José Lins do Rego e Graciliano Ramos, e chegaram a Caruaru, para conhecer a maior feira do Nordeste e a celebrada obra em cerâmica de Mestre Vitalino.” (p. 131)

No mesmo ano de 1958, em que a seleção brasileira de futebol faturava sua primeira Copa do Mundo, brilhando na Suécia com os lances de Garricha e Pelé, “dois artistas baianos sacudiram o país: Jorge Amado com Gabriela, cravo e canela, (…) e João Gilberto, com o lançamento de Chega de Saudade.” (p. 153) Glauber já enxergava o cinema como “arma” e queria “flagar o caos bakuniniano na Bahia” (p. 156).

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1962 foi um ano glorioso para o cinema brasileiro: inspirado em peça de Dias Gomes, O Pagador de Promessas (1962)de Anselmo Duarte, foi o vencedor da Palma de Ouro em Cannes. No mesmo ano, Glauber Rocha lançava seu primeiro longa-metragem, Barraventofilmado na praia de Buraquinho, a 2 horas de jipe de Salvador. “Glauber não estava familiarizado com o mundo do candomblé e seus rituais, que tinham imensa importância no filme. Quem o orientou nos mistérios e segredos dos orixás foi o jovem pai de santo Hélio Oliveira, também um talentoso artista plástico.” (p. 128)

“Em Barravento, o candomblé seria mostrado por Glauber como o avesso da visão europeia da macumba para turista, com toda a sua força e autenticidade, na beleza selvagem de seus rituais, mas também criticado como um ópio do povo, que o alienava e imobilizava pelo misticismo e o impedia de se conscientizar de sua força e de seu papel revolucionário. (…) Glauber dizia que as suas cenas preferidas não eram as do candomblé, mas as dos pescadores na puxada da rede, na luta contra a fome e a opressão.

Glauber fez um longo artigo sobre o filme, publicado no Diário de Notícias, dizendo que Barravento era uma vigorosa denúncia social e uma afirmação do povo negro. ‘Sou apaixonado pelos costumes populares, mas não aceito que o povo negro sacrifique uma perspectiva em função de uma alegoria mística. Barravento é um filme contra os candomblés, contra os mitos tradicionais, contra o homem que procura na religião o apoio e a esperança.'” (p. 219, 269)

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COMPRE: NELSON MOTTA, A Primavera do Dragão – A Juventude de Glauber Rocha

Glauber, com Barravento, havia demonstrado toda a potência de um cinema que muito havia aprendido com o neorealismo italiano, com a estética soviética (Eisenstein, Vertov etc.), mas também com a literatura, o teatro, a poesia. Glauber aproximava-se também a um procedimento vizinho do documentário, do filme etnográfico, em estilo depois exercido à maestria por um Jean Rouch (Eu, um Negro) ou uma Maya Deren (The Four Horsemen – Living Gods Of Haiti). Anos depois, mais maduro como artista, realizaria mergulhos ainda mais profundos em uma estética da “imersão” cinematográfica na alteridade cultural, na diversidade humana em flor, em cenas memórias de O Leão de Sete Cabeças ou Idade da Terra. 

Glauber parece filmar na plena consciência de que a arte cinematográfica já havia sido revolucionado tanto pelos planos épicos de massas em levante, como em Outubro, A Greve e Encouraçado Potemkin, todos filmes de Eisenstein, e que o “povão” pobre e oprimido já tinha ganhado direito de cidadania na telona (com Ladrões de Bicicleta, de De Sica, servindo como filme-emblema). Diante de Barravento, François Truffaut, que assistiu-o no Rio de Janeiro, ficou comovido com o talento do iniciante, além de impressionado com outro filme que acabara de estrear e já causava um baita bafafá: Os Cafajestes, de Ruy Guerra. Um crítico inglês, Richard Roud, diria de Barravento: “imaginem o inimaginável, uma combinação de La Terra Trema de Visconti e do Tabu de Murnau.” (p. 273)

No Brasil em que Glauber começou a sua carreira como cineasta, o cenário vivia borbulhante de novidades como o filme colaborativo Cinco Vezes Favela, co-produzido pelo Centro Popular de Cultura da UNE. “A visão política do CPC”, escreve Motta, era de “usar a arte para conscientizar o povo explorado e uni-lo para a revolução. Era esse o papel do intelectual no cinema. Nem diversão, nem entretenimento, nem romance ou fantasia, ou qualquer arte burguesa, o cinema era uma arte revolucionária para transformar a sociedade e mobilizar as massas oprimidas.” (p. 253)

Ideário Brechtiano, que Glauber soube aplicar à realidade nordestina, realizando com maestria algo que, no âmbito da literatura, só gênios como Guimarães Rosa ou Jorge Amada lograram fazer a contento: realizar uma obra-de-arte que, ainda que enraizada profundamente em um contexto local, tem vocação para a universalidade, tem algo a dizer a qualquer ser humano, como é certamente o caso de Deus e o Diabo na Terra do Sol, segundo filme do jovem Glauber e certamente uma das obras-primas na história do cinema global.

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Por muito tempo chamado de A Ira de Deus,  Deus e o Diabo na Terra do Sol é centrado na história do “vaqueiro Manuel, explorado e humilhado, que mata o Coronel e foge com a mulher, Rosa, primeiro para o fanatismo religioso, e depois para o cangaço. Glauber tinha duas opções para o final, a primeira mais política, com o vaqueiro Manual, depois de se tornar um místico e um cangaceiro – e se frustrar nos dois caminhos -, encontrando o seu destino e se engajando na luta das Ligas Camponeses; a outra era mais poética, em aberto, com Manuel e Rosa fugindo da sua miséria, da miséria do sertão, e correndo até alcançar o mar…” (p. 280)

A parceria de Glauber com Walter Lima Júnior trouxe transformações ao projeto Deus e o Diabo na Terra do Sul – a música, por exemplo, seria a princípio de Brahms e Beethoven, contrastando com os cenários do sertão nordestino, mas Walter Lima convenceu Glauber que Villa-Lobos era uma melhor opção. Complementada com as canções originais de Sergio Ricardo, a trilha sonora de Deus e o Diabo estava muito mais enraizada na brasilidade do que no início do projeto. Ele se mostraria um verdadeira expedição ao “coração místico do sertão baiano”, a região de Monte Santo, repletas de lendas e mistérios.

“Fundada no fim do século XVIII por um padre capuchinho, na mesma região da Canudos de Antônio Conselheiro, a vila de Santíssimo Coração de Jesus de Nossa Senhora da Conceição de Monte Santo tinha fama de cidade sagrada e logo se tornou um centro de romarias, atraindo multidões de peregrinos. (…) Entoando benditos e ladainhas, eles percorriam, muitos de joelhos e com pedras na cabeça, os 3 km de caminho de pedra até o santuário, 500 metros acima da cidadezinha. (…) Monte Santo tinha cerca de 1.000 habitantes e os mais velhos ainda se lembravas dos tempos de Lampião e Antônio Conselheiro.” (p. 295-300)

Othon Bastos em "Deus e o Diabo na Terra do Sol"

Othon Bastos em “Deus e o Diabo na Terra do Sol”

Selecionados para o festival de Cannes, Deus e o Diabo na Terra do Sol de Glauber Rocha e Vidas Secas de Nelson Pereira concorreriam pela Palma de Ouro em um momento histórico turbulento para o Brasil: era 1964, nos últimos tempos do governo de João Goulart (Jango), e quando Deus e o Diabo foi exibido numa sessão só para jornalistas, em uma première carioca,

“o país estava pegando fogo. No dia 13 de março, véspera do aniversário de Glauber, o Rio de Janeiro parou com o grande comício da Central do Brasil, convocado pelas lideranças sindicais e estudantis em apoio às Reformas de Base propostas pelo governo João Goulard, que transformariam radicalmente o Brasil. Eufóricos e animados pelo fervor cívico, Glauber, Cacá Diegues, Leon Hirszman, Walter Lima Jr e outros jovens revolucionários chegaram empolgados à praça, tomada por mais 150 mil pessoas com faixas e bandeiras, gritando palavras de ordem e refrões. Ouviram emocionados os discursos inflamados dos governadores Leonel Brizola (RS) e Miguel Arraes (PE), do líder comunista L. C. Prestes e do presidente da UNE José Serra, apoiando as reformas que, imaginavam os rapazes do Cinema Novo, eram o início da transformação do Brasil em uma república socialista tropical como Cuba. (…) A multidão explodiu quando Jango anunciou o decreto da reforma agrária, que desapropriava todas as grandes propriedades à margem de ferrovias e rodovias federais. E depois a nacionalização das refinarias de petróleo…” (p. 322)

Em 25 de Março, Glauber pegou o avião para Paris, a caminho do festival de Cannes. O golpe de Estado de 1964 ocorreria com Glauber Rocha e Nelson Pereira dos Santos fora do Brasil – quando eles retornaram, o general Castelo Branco já será o novo presidente. No Rio, “um grupo de intelectuais comunistas avaliava a situação e fazia previsões sobre o tempo que os militares ficariam no poder: os mais otimistas falavam em um mês, os pessimistas em um ano.” (p. 329) Mesmo após ter realizado duas obras-primas cinematográficas, Barravento Deus e o Diabo na Terra do Sol, celebradas pela crítica internacional e que conquistaram status cult também no Brasil, Glauber não teria tempo de repousar sobre os louros e glórias. Aos 25 anos, via seu país afundando na barbárie da ditadura militar e começou o trabalho de parto do que viria a ser, anos depois, Terra em Transe (1967).

O livro de Nelson Motta, que realiza a crônica biográfica de Glauber somente até os 25 anos de idade e a consagração de Deus e o Diabo, fornece elementos para compreender toda a criação artística posterior dele, já no status de pária subversivo, condenado pelo regime e pela indústria cinematográfica careta, que realizará filmes na África (O Leão de Sete Cabeças), na Espanha (Cabeças Cortadas), dentre outros países. “Quatro meses antes do golpe, Glauber havia assinado um manifesto do Comando dos Trabalhadores Intelectuais apoiando o governo [Jango] e as reformas de base. A lista de quem assinou o manifesto foi publicada em jornais e estava sendo usada como uma relação de subversivos procurados pelos militares. Vários estavam presos…” (p. 328)

Nem Deus e o Diabo, nem Vidas Secas, venceram a Palma de Ouro em Cannes naquele fatídico 1964 – o prêmio ficou com Les Parapluies de Cherbourg, de Jacques Demy – e “depois de tantas alegrias e esperanças, foi duro voltar ao Brasil com os rumores e temores da ditadura militar”. Na Europa, o “cinema brasileiro se afirmava como uma nova escola”, “o Cinema Novo começava a conquistar o mundo” (p. 252); no Brasil, aqueles que em Cannes eram celebrados como gênios da civilização tropical, eram inimigos do Estado e baderneiros contra quem começava a caçada do Conselho de Segurança Nacional, a temida CSN “onde mandatos eram cassados, prisões decretadas e cabeças rolavam.” (p. 358)

Em A Primavera do Dragão, é possível vislumbrar, através da escrita de Nelson Motta, a ebulição e o vigor juvenil deste gênio precoce, similar a Castro Alves, que foi Glauber Rocha, alguém que o regime militar não podia considerar senão como um incompreensível e indomável inimigo, já que entendia o cinema como arma de denúncia da opressão e da injustiça, realizando filmes perigosos por seu conteúdo e sua forma revolucionárias. Com 25 anos de idade, Glauber Rocha revolucionou o cinema no Brasil e mostrou que era possível, com uma câmera na mãe e muitas idéias na cabeça, levar a arte-do-filme ao nível de sofisticação e rebeldia característicos da dramaturgia e poesia de um Bertolt Brecht ou de um Vladimir Maiakóvski.

Rompendo com o cinema colonizado, Glauber e seus comparsas de Cinema Novo projetaram, para todo o mundo se embasbacar, uma criatividade tropical revolucionária que ficaria para sempre na história da arte latinoamericana como os transes contagiantes e inolvidáveis de um bando genial de doidões com causa.

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SAIBA MAIS: Leia  NELSON MOTTA, A Primavera do Dragão – A Juventude de Glauber Rocha
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isponível na Livraria A Casa de Viro

[Encontro de Culturas 2016 – Txt 08] “Caminhadeira”: conheça mais sobre a peça teatral de Suzana Zana na X Aldeia Multiétnica e assista a um vídeo exclusivo da apresentação

CAMINHADEIRA

Caminhadeira é uma mulher que resolveu fazer de sua casa o caminho e encher sua bagagem com as histórias que brotam dos encontros e das andanças. Assista o vídeo de sua apresentação na Aldeia Multiétnica, além de conferir trechos de uma entrevista com a multiartista Suzana Zana

por Eduardo Carli de Moraes para o XVI Encontro de Culturas da Chapada dos Veadeiros

A multiartista Suzana Zana chegou à Chapada dos Veadeiros acompanhada por sua produtora Luiza Ritter após uma saga cheia de peripécias. A jornada delas faz jus ao título do espetáculo que Zana apresentou em três ocasiões durante o XVI Encontro de Culturas: Caminhadeira. Quem não pôde curtir a peça ao vivo, ou quem assistiu e já está com saudades, agora pode assistir a este vídeo, que registra na íntegra a performance da peça na Aldeia.

Suzana e Luisa vieram de Barra Mansa (Rio de Janeiro) e  integram o coletivo de teatro de rua Sala Preta (conheça o site oficial), que existe há sete anos. Para apresentarem-se neste XVI Encontro de Culturas, mobilizaram todas as suas forças em um financiamento colaborativo, por meio de rifas e muita propaganda boca-a-boca, o que foi bem sucedido em trazê-las até a vivência de intensa interação intercultural que caracteriza o “Encontrão”:

“A gente se inscreveu no edital de artistas”, conta Suzana, “e aí, quando chegou a resposta de que fomos aprovadas, primeiro a gente ficou feliz e logo depois triste: já era dia 10 de junho, faltavam só uns 40 dias para o evento, e a gente não tinha grana pra pagar a viagem até a Chapada dos Veadeiros. Aí pensamos em rifar a peça, no valor mínimo de 10 reais. Nunca na vida falei tanto sobre a peça, sobre a importância dela. Foi um mês inteiro de campanha, em que fizemos também duas apresentações para ‘passar o chapéu’, e assim a gente conseguiu a grana exata para chegar até aqui. Só que ainda não sabemos se vai dar pra ir embora… (risos).”

A peça teatral, interpretada por Suzana, tece uma narrativa inspirada no conto popular A Lenda do Preguiçoso. O espetáculo tem por protagonista um sujeito que é preguiçoso de nascença, que nunca teve vontade de fazer nada e que, com tanta preguiça, nada construiu de relevante com seu tempo entre os vivos. Até que se vê no limite e toma uma decisão drástica em sua vida. De modo lúdico e livre, com abertura para improvisações e momentos musicais, Suzana interage com qualquer faixa etária e faz refletir sobre a existência e seu sentido de maneira leve e graciosa, mas que não deixa de ser filosófica e provocativa.

“Com essa história do preguiçoso eu tenho intimidade, conheço desde os 7 ou 8 anos de idade”, relembra Suzana em um papo que tivemos às beiras do Rio São Miguel. “Descobri a lenda em um livro de português que líamos na escola, para aqueles exercícios de interpretação de texto, sabe? O que me chamou a atenção foi que era um cara que não fazia nada na vida, não tinha vontade de nada. A história que criei fala da força do seu querer, como você pode mudar o seu destino a partir de um impulso ou iniciativa que você tem. O protagonista precisa de um despertar na vida, e o legal é que o público não é condescendente com ele e basicamente manda ele se levantar.”

O espetáculo estreou em 2011 no Equador, em San Lorenzo, uma região equatoriana habitada por uma grande população de africanos provenientes da diáspora. “Esta é uma região para onde foram quase todos os escravos na época da abolição”, explica Suzana, “então a cidade é basicamente de  população negra, que vive em um território onde criaram suas comunidades, mantiveram suas raízes e puderam inventar sua afrolatinidade. Foi uma estréia que ficou muito marcada na minha memória, uma situação rara.”

Atualmente, Caminhadeira já conta com mais de 100 apresentações já realizadas nos estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo. As performances ocorreram nos mais variados locais, como praças, salas de aula, refeitórios, instituições e feiras. São cinco anos de estrada, luta e resistência – e agora a Chapada dos Veadeiros também participa, com capítulos memoráveis, da saga artística de Suzana Zana e Luísa Ritter. Elas com certeza enriqueceram e foram enriquecidas pela caminhada chapadeira, pelas vivências e intercâmbios, pelas amizades e contatos, pelas prosas e poesias, propiciadas pelo Encontrão 2016.

Vivencie “Caminhadeira” na X Aldeia Multiétnica e emocione-se com uma mulher que resolveu fazer de sua casa o caminho e encher sua bagagem com as histórias que brotam dos vínculos que se criam nas andanças. A Caminhadeira, nesta vida, está sempre de passagem, mas sabe que passar é muito mais gracioso e doce quando carregamos, pelo caminho que trilhamos, os amigos e as histórias, os laços e as memórias, que juntos tecemos na ciranda da cultura.

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ASSISTA AO VÍDEO:
CAMINHADEIRA NA X ALDEIA MULTIÉTNICA NO YOUTUBE OU NO VIMEO

70 DOCUMENTÁRIOS COMPLETOS SOBRE A MÚSICA BRASILEIRA

“Chorinho” (1942),
de Candido Torquato Portinari (1903 — 1962)

 

70 DOCUMENTÁRIOS COMPLETOS
SOBRE A MÚSICA BRASILEIRA & SUA HISTÓRIA

[CONTRIBUA! Sugira filmes que ainda não estão na lista nos comentários ou via Facebook – a construção colaborativa é essencial para a expansão desta playlistona só com a fina flor dos documentários sobre a música brasileira. Evoé!]

Shortlink: http://bit.ly/1OWm31B – Compartilhar

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Tropicalia-Salas

Tropicália (de Marcelo Machado, 2012)
DOWNLOAD TORRENT [1.56 gb]


Canções do Exílio: A Labareda que Lambeu Tudo

Canções do Exílio: A Labareda que Lambeu Tudo (2011),
Diretor: Geneton Moraes Neto, Duração: 1h 31min
DOWNLOAD TORRENT (1.3 gb)


o-homem-que-engarrafava-nuvens

Humberto Teixeira: O Homem Que Engarrafava Nuvens (2008)
um filme de Lírio Ferreira


nasparedes-594x848Nas Paredes da Pedra Encantada (2011, 1h57min)
A história por detrás do mítico álbum “Paêbirú” – Caminho da Montada do Sol, de Lula Côrtes e Zé Ramalho

Leia: Scream and Yell


A MPB nos Tempos da Ditadura


Chico Buarque – O País da Delicadeza Perdida (2003)


Chico Buarque – Meu Caro Amigo


Itamar Assumpção – Daquele Instante em Diante


Elza Soares – O Gingado da Nega


Vinícius de Moraes – Centenário (Globo News)


Isto é Noel Rosa (de Rogério Sganzerla, 1990)

DOWNLOAD TORRENT


Cartolacartola-musica-para-os-olhosCARTOLA – MÚSICA PARA OS OLHOS (de Lírio Ferreira e Hilton Lacerda)
DOWNLOAD TORRENT


BBC – Brasil Brasil, Episódio 01: DO SAMBA À BOSSA


BBC – Brasil Brasil, Episódio 02: REVOLUÇÃO TROPICÁLIA


BBC – Brasil Brasil, Episódio 03: UMA HISTÓRIA DE QUATRO CIDADES


A Música Segundo Tom Jobim


Tom Brasileiro (1987)


 

Clara Nunes – Band, 1973


LokiiiiLÓKI – ARNALDO BAPTISTA (de Paulo Henrique Fontenelle, 2009)
DOWNLOAD TORRENT


Candeia – 80 Anos


Eclats Noirs Du Samba (de Janine Houard, 1987)


Napalm – o Som da Cidade Industrial


Do Underground ao Emo


Saravah (1969, de Pierre Barouh)


Clube da Esquina – Sobre Amigos e Canções

História do Clube da Esquina – A MPB de Minas Gerais


Elis Regina – Por Toda A Minha Vida


Filhos de João – O Admirável Mundo Novo Baiano (2009)


Novos Baianos F. C. (1973)


Paulinho da Viola – Meu Mundo É Hoje (2003, de Izabel Jaguaribe)


Adoniran Barbosa – Por Toda a Minha Vida


Velha Guarda da Portela – O Mistério do Samba


Nelson Cavaquinho (de Leon Hirszman)


Partido Alto (de Leon Hirszman, com Candeia, Paulinho da Viola e outros)


Samba (2000, de de Theresa Jessouroun)


Bezerra da Silva: Onde a Coruja Dorme


A Sede do Peixe – Milton Nascimento e amigos


Uma Noite Em 67


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Coração Vagabundo – Uma Viagem Com Caetano Veloso (2008)
de Fernando Grostein Andrade
DOWNLOAD TORRENT


Mosaicos – A Arte de Caetano Veloso


Lenine – Isto É Só O Começo


Alquimistas do Som


Os Doces Bárbaros (Gil, Caetano, Bethânia e Gal)


062649Cássia Eller (de Paulo Henrique Fontenelle)


O Som do Vinil –  Tropicália


Fabricando Tom Zé (2007)


Jards Macalé – Um Morcego Na Porta Principal


Chico Science e o Movimento Manguebeat


Wilson Simonal – Ninguém Sabe o Duro Que Eu Dei


Raul Seixas – Por Toda a Minha Vida


Revista Bizz – Jornalismo, Causos e Rock’n’Roll


Titãs – A Vida Até Parece Uma Festa


Botinada – A História do Punk No Brasil (2006, de Gastão Moreira)


Guidable – A História dos Ratos de Porão


Ruído das Minas – Heavy Metal em Belo Horizonte


Tim Maia – Por Toda a Minha Vida


Siba – Nos Balés da Tormenta


Los Hermanos – Esse É Só O Começo Do Fim Da Nossa Vida


Sabotage – Nós


O Rap Pelo Rap


Psicodália – Consciência em Transe


Hang The Superstars – Causos do Rock Proibidão


Zimbo Trio – Jazz Brasileiro

MÚSICA CLÁSSICA

Nelson Freire (de João Moreira Salles)


Heitor Villa-Lobos – O Índio de Casaca (1987)


História da Música Brasileira – Episódio 01 a 10









Ernesto Nazareth


A Maestrina Chiquinha Gonzaga – Série 500 anos de História do Brasil (1999)


Entrevista com o Maestro Julio Medaglia (Provocações)

INFINDAS MANEIRAS DE FINDAR – O que desvela Fernanda Torres em seu romance de estréia, “Fim” (Companhia das Letras, 2013)

INFINDAS MANEIRAS DE FINDAR

Fernanda Torres cometeu um romance de estréia que é um escândalo de bom. Uma prosa tão excitante e vivaz quanto a de Arundathi Roy ou Katherine Mansfield pulsa nas páginas de Fimlivro desta magistral multi-artista brasileira. Célebre por seus papéis na televisão e no cinema (com destaque para O Que É Isso Companheiro?, de Bruno Barreto, O Primeiro Dia, de Walter Salles, Eu Sei Que Vou Te Amar, de Arnaldo Jabor, Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho, além de alguns filmes de seu marido Andrucha Waddingston), Fernanda Torres tem se revelado não somente como uma de nossas melhores atrizes e mais hilárias comediantes mas também como uma escritora de alta relevância e imensa capacidade expressiva.

Numa prosa apimentada e caliente como Nelson Rodrigues ou Henry Miller, Fernanda tece um panorama não só do Rio de Janeiro, mas de toda a condição humana, colecionando “causos” de gente que está findando. Não chamemos de “agonia”, que a palavra é muito soturna, enquanto que a prosa Fernandina é brincalhona e lúdica. Não são personagens agonizantes – no sentido Gritos e Sussurros de Bergman – o que o leitor acessa através da leitura de Fim. 

É muito mais um vívido retrato da vida humana em sua finitude, em sua pequenez, em sua inconclusão, já que os mortais muitas vezes não podem nem mesmo consolar-se pensando que morreram uma “boa morte”. Em Fim, há fins que são ridículos, patéticos, grotescos, horrorshow. Fernanda Torres não pinta auréolas de santidade sobre a cabeça de ninguém – nem mesmo do Padre Graça, este excelente personagem que, em Fim, fica “abalado pela quantidade de vezes em que Deus parecia dormir” (p. 41).

A prosa dela é capaz de inúmeras referências cinematográficas (Bruce Willis descalço sobre os cacos de vidro de uma explosão recente), musicais (as canções de Dolores Duran que embalam a fossa emocional de uma das personagens), teatrais e contraculturais (como a eventual aparição, no enredo, dos Dzi Croquettes e de Lennie Dale). Sobretudo, Fernanda  Torres demonstra ser uma contadora-de-histórias de grande audácia e criatividade, capaz de dialogar com algumas das magnum opus da literatura universal. No trecho seguinte, ela põe o romance para refletir filosoficamente de um modo que lembra o modus operandi de Milan Kundera e manda a seguinte descrição de Ruth (status no Facebook: “em um relacionamento enrolado”):

Fernanda Torres 2

“O ato supremo do romantismo é o suicídio. Ruth nasceu com o defeito de ser feminina ao extremo e, por consequência, romântica em excesso. Sempre viu nisso vantagem, mas agora que descobria a fragilidade de sua natureza, daria tudo para se livrar de si mesma. Se possuísse a audácia de Bovary, tomaria cicuta, a nobreza de Sônia, enfrentaria a Sibéria, se miserável, como Fantine, arrancaria os dentes. Mas não, era uma mortal carioca, classe média, como tantas. Célia, Irene, Raquel, todas tratavam seu sofrimento como algo vulgar, um mero desquite. O talho nos pulsos, a forca, o gás, eram fins grandiosos demais para alguém como ela. Decidiu ser humilde, matou o amor com descrição de vestal, fez do lar um convento. Já não planejava reconquistar o marido, queria, sim, se isolar do barulho lá fora, não se importar, não querer, não precisar, não sofrer. Morrer. Exercitou a indiferença até se tornar insensível ao cheiro, ao rosto e à voz da cara-metade.” (FERNANDA TORRES, Fim, pg. 120)

Além de evocar figuras femininas das páginas de Madame Bovary, de Flaubert, Crime e Castigo, de Dostoiévski, e Os Miseráveis, de Victor Hugo, Fernanda Torres faz algo mais: consegue dar densidade existencial ao que, nas mãos de um artista menos competente, de um escritor menos expressivo, poderia ter caído na vulgaridade de um desquite. Os vínculos afetivos, nas páginas de Fim, estão pintados com tremendo realismo, entrelaçados por nós complexos, numa maquinaria que não é fácil fazer com que trabalhe com harmonia a contento. Neste sentido o livro realiza algo também magistralmente conquistado por D. H. Lawrence em O Amante de Lady Chatterley e por Nathaniel Hawthorne em A Letra Escarlate: mostra todo o drama existencial por trás da suposta simplicidade da separação, do divórcio, do desquite, do rompimento do vínculo. Fim carrega em seu bojo uma constelação afetiva muito ampla – e Fernanda Torres é audaz o bastante para não dourar a pílula, expondo com adorável impertinência e irreverência os muitos erros e calhordices que cometem os humanos uns contra os outros.

Em Fim, a literatura de Torres debruça-se sobre a vida humana em sua finitude e sonda e as circunstâncias e situações tão diversas nas quais podemos findar. Que estes entes finitos que somos tenhamos que findar um dia (que não tarda), eis coisa certa, porém a vida reserva-nos um certo grau de suspense: o de não saber lá muito bem as características precisas em que se dará a morte de Fulano ou Sicrana (e o nosso próprio fim, sua “cara”, sua “peculiaridade”, é-nos desconhecido por boa parte da vida!). Tolstói, com seu A Morte de Ivan Ilich, ou Hermann Broch, com seu A Morte de Virgílio, são exemplos de artistas primorosos na “pintura” dos últimos momentos de um vivo que finda. Pois findar é nosso destino, e a arte imita a vida.

O interesse de Fim, o livro com o qual Fernanda Torres debuta no campo da prosa de longo fôlego, vai muito além de ser um panorama dos costumes do Rio de Janeiro, visto através do prisma daqueles que no Rio findam seus dias. O livro sonda a condição humana e depois entrega ao leitor um banquete de divagações existenciais, teses psicanalíticas (“a intimidade destrói a libido”, p. 164), piadas one-liners dignas de sitcom (herança que Fernanda traz dos anos contracenando com Luiz Fernando Guimarães na série Os Normais?).

Sobretudo o livro impressiona pelos personagens fortes, bem delineados e nada idealizados. Fernanda Torres fez um livro cujo sabor agradará mais aos misantropos que aos humanistas, e onde pulsa uma veia satírica que beira a língua ácida dum Céline ou o traço satírico de Crumb.

Mas dá pra sentir também que a mulher que segura a pena também é capaz de intensa empatia. Do emaranhado de prosa em que os personagens estão presos emana uma certa percepção da interconexão ontológica que tece nossos destinos de modo a ninguém ser um ilha e todos serem co-dependentes.

As pessoas – ou, melhor dizendo, os mortais que Fernanda Torres nos pinta, os episódios com os quais ela encena os despropósitos e as dificuldades destas vidas, mostram o ser humano sem idealização, sem máscara. O que não quer dizer que não reste mais nada de gostável neles. Muitas vezes são bastante simpáticos, apesar de calhordas. São extravagantes em seus desarranjos, como se quisessem nos provar que, olhando bem fundo, prestando bem a atenção, não dá pra dizer de ninguém que seja normal… E a manada dos normais muitas vezes nem suspeita do quanto há de loucura em sua normopatia…

As 5 partes de Fim são dedicadas a 5 criaturas humanas que estão no processo de findar. Todos estamos,  é verdade, mas eles estão, por assim dizer, na reta final: a morte já afia sua foice à espera de seus pescoços que se aproximam. A “morte de ávidos dentes”, como diz Sêneca, já está passando o azeite e o sal sobre a carne destes bifes humanos que ela está prestes a deglutir. Álvaro, o protagonista da primeira parte do romance, é um velhinho que já não se locomove com o vigor de sua juventude: “Depois dos setenta a vida se transforma numa interminável corrida de obstáculos. A queda é a maior ameaça para o idoso. A queda separa a velhice da senilidade extrema. (…) Em casa, vou de corrimão em corrimão, tateio móveis e paredes, e tomo banho sentado.” (pg. 14)

Ao situar Álvaro no cenário do Rio ultra-urbanizado, velhinho tentando atravessar a rua e sentindo-se profundamente desrespeitado pelo corre-corre ao redor, Fernanda Torres acaba por pintar um quadro sociológico muito interessante sobre as agruras da urbanidade e sobre as consequências práticas de nossa carrolatria (o endeusamento do automóvel individual):

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“Opa, abriu. Esse sinal demora uma eternidade para abrir e dois segundos para fechar. Lá vou eu, ágil como os cágados da Marília. Não acredito, já está piscando?… Fechou! Ainda falta um terço de faixa e essa porcaria fecha? Calcularam com quem esse tempo? Com o Ligeirinho? O que é? Vai passar por cima? Passa, desgraçado, parte o meu joelho no meio com o seu farol de milha. Eu já entendi que você quer passar, filhinho! Um dia você vai envelhecer, se tiver sorte você vai envelhecer, e um guri com pressa vai quebrar a sua perna em vários pedacinhos e você vai passar o resto dos seus dias de fraldão, com pânico de atravessar a esquina.” (pg. 20)

Essa sátira da speedfreakiness que assola nossos tempos – os carros peidando CO2 e buzinando contra velhinhos e ciclistas… – é apenas um exemplo, no livro de Fernanda, desta capacidade incrível da autora para revelar a torpeza de comportamentos. Álvaro, o velhinho que não consegue atravessar a rua, a tempo e a contento, mesmo que vá até a faixa de pedestres, é um representante de toda uma fração da população que encontra-se alijada de direitos na cidade segregada e carrólatra. O semáforo está programado para ir ao vermelho muito velozmente para que o velhinho Álvaro tenha tempo para atravessar a rua, e uma treta logo pipoca, com xingos e verbais violências. Álvora não é descrito por Fernanda como coitadinho. Pelo contrário, é um velho amargo, raivoso, que xinga e esbraveja, expressando todo o seu rancor e profetizando que o dono do carro, que contra ele dispara a buzina, irá, no futuro, ter a perna estropiada por um guri com pressa, um desses tipos Mad Max, “a full-injected suicide machine”…

Álvaro não é o velhinho coitadinho, é mais uma expressão dessa sociedade onde triunfa o individualismo a ponto de alguém ser capaz de confessar, como ele o faz: “Não separo lixo, não reciclo, jogo guimba no vaso, uso aerosol, tomo longos banhos quentes e escovo os dentes com a torneira aberta. Dane-se a humanidade. Não vou estar aqui para assistir.” (pg. 20)

Estes personagens de Fernanda Torres, se possuem algo em comum, é o fato de estarem findando sem sabedoria, ainda  envoltos nos samsaras de relações interpessoais complicadas, neuróticas, cheias de ressentimentos e vinganças. Se há um fio condutor que atravessa o romance inteiro, não é tanto um debate sobre a 3ª idade como ela é vivenciada no Rio de Janeiro, mas muito mais uma tentativa de abordar os problemas do amor de modo a debater, nas raízes, profunda e concretamente, questões de sexualidade (monogamia vs poligamia, por exemplo, é uma controvérsia que atravessa o romance) e indagações acerca da medicalização da vida.

Sobre este último ponto, o da medicalização, Fernanda Torres tematiza em sua obra de modo bem vivaz o modo como os velhinhos acabam enredados na teia das mega corporações farmacêuticas e da atual lógica hospitalar privatista. Um certo personagem, Silvio, está sofrendo com o mal de Parkinson. Em primeira pessoa, descreve o que significa viver com Parkinson, desvelando os detalhes de sua experiência subjetiva, com uma riqueza de detalhes e uma carga emocional que faz pensar em alguns dos melhores filmes de Eduardo Coutinho, em especial O Fim e o Princípio.

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“O Parkinson acaba com a iniciativa da gente. (…) O tratamento do Parkinson é muito pior do que o Parkinson. E não existe cura. As bombas aceleram a cabeça, dão suor frio e um medo do caralho. O médico carimba a receita e te manda para casa de mãos dadas com o Incrível Hulk. São uns tarados, esses doutores. Carbidopa 25 mg, Levodopa 250 mg, Cloridrato de benzerazida 25mg. Para o farmacêutico te entregar o pacote, você tem que apresentar CPF, carteira de identidade, título de eleitor, bons antecedentes, foto. É mais fácil comprar uma arma e se matar. Sem contar os antidepressivos, antiespasmódicos, antiácidos e associados; delírios extenuantes de carros andando pra trás, cortes no tempo e passamentos.” (pg. 68)

Fernanda Torres povoa as páginas do romance com referências à farmacopéia contemporânea: são personagens cujas vidas são marcadas pela disponibilidade de Viagras (contra a impotência sexual), Prozacs (contra a depressão, a melancolia, o tédio…), tranquilizantes e anfetaminas… Uma miríade de substâncias, entre as lícitas e as ilícitas, marca presença forte nesta vidas e mostra na prática porquê este é um dos ramos mais pujantes da economia globalizada (drogas e armas vendendo à beça… parabéns mundo!). Fernanda Torres fala de gente que está “economizando dinheiro para colocar silicone” (pg. 100), de médicos que recomendam, professorais, que o Viagra deve ser tomado “com umas três horas de antecedência, para não ter surpresas e já chegar calibrado” (pg. 101), de relacionamentos cujas feridas são tratadas na farmácia (“O fim do caso com a Suzana foi todo à base de Lexotan”, pg. 101). Aquilo que Kurt Cobain ironizava – “My heart is broke but I have some glue…” – aconteceu. Mas a “cola” para corações partidos agora está à venda nas mega-drogarias (que aceitam cartão de débito e crédito, acolhem pedidos pela internet, entregam a domicílio…).

Para instigar o leitor a conhecer este livro de Fernanda Torres também pelo mérito dele em radiografar nossa sociedade, basta citar também uma cena notável em que um personagem vai ao banheiro, deparando com a escova de dentes de uma mulher ausente, para em seguida abrir o armário para dar de frente com…

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“Ritalina, Lexapro, Frontal, Valium, Haldol, Seroquel, o resto do Pondera do ano passado e o Aropax, que o dr. Péricles planeja experimentar nos próximos meses. Os rótulos me encaram do buraco da parede. O Murilo insistiu que eu me tratasse. Por um ano respondi aos intermináveis questionários sobre os efeitos dos benzodiazepínicos no meu organismo. O dr. Péricles queria saber da compulsão, da ansiedade, do desânimo matinal; de acordo com as respostas, alterava as doses, o que provocava novas indagações. Um melhora, outro piora, eu respondia, como um aluno bem-comportado, até que, num rompante, me transformei numa cobaia arisca.

Decidi não mais colaborar com os laboratórios, me vinguei de forma sistemática, atrapalhando a preciosa pesquisa deles. Fornecia dados fraudulentos, alegava tonturas, dores no peito que não existiam. Me revelei um rato anárquico, perigoso, que planejava destruir a megalomania científica dos reguladores de humor, frustrar o delírio dos que pretendiam controlar meu desespero. (…) Um clínico saberia diagnosticar uma pancreatite fingida, mas o psico Péricles seguia à risca as estatísticas americanas, as tabelas de comportamento da Pfizer, da Roche, sem perceber que eu fazia o que o homem faz desde que se entendeu por gente: eu mentia e me divertia.

Minha alegria de acabar com as certezas do Péricles perdeu a graça recentemente, há duas consultas. Ele me entregou a receita, eu passei na farmácia e trouxe o carregamento pra casa. Guardei lacrado no armário trincado do banheiro. Desisti de tomar. Faz três semanas que meus humores agem livres. E eles têm tomado conta de mim. Recolho os tarja-preta e ponho no bolso, encho o copo água da bica. Pra que filtrar? Sento na cama e deposito os medicamentos e o copo sobre o criado-mudo.

A diferença entre um tarja-preta e um tarja-vermelha, me explicou o balconista da Droga Raia, é que se você tomar uma caixa inteira da preta, você empacota; da vermelha, não.” (pg. 138-139)

 Nossas vidas, parece dizer Fernanda Torres, já estão profundamente colonizadas pela lógica da indústria farmacêutica globalizada e tendemos a idolatrar o poder dos remédios para nos libertarem do mal-estar ou turbinarem nossa energia vital, mas diante da mortalidade e da finitude percebe-se sempre que não há remédio contra a morte, nem regulador de humor que cure o “luto perpétuo”. Por “luto perpétuo” Fernanda Torres compreende o afeto acarretado pela perda de um ente amado tido como insubstituível – como é o caso do personagem Neto quando perde Célia. Neto, após muitas doses de ansiolíticos, descobriu que eles não podem tudo. Jamais poderiam trazer de volta a pessoa amada que a gulosa da Morte deglutiu com ávidos dentes. Apesar de Fim estar repleto de cenas cômicas e provocações lúdicas, Fernanda Torres é sublime mesmo quando se mete a fazer tragédia:

“O desespero no velório da esposa foi um prenúncio do que viria mais tarde. Neto contorcia-se de angústia. Ajoelhou no chão, tentou arrancar as roupas, mordeu, gritou, bateu; os filhos correram para abraçá-lo. O pai diminuiu os ganidos, aplacou a fúria, mas a calmaria durou pouco. Mal a fila de condolências retomou o ritmo, Neto foi assolado por outro descontrole bestial. Agarrou Célia nos braços, quis tirá-la de lá, levá-la para casa, foi preciso ajuda para fazê-lo largar a defunta. (…) Neto nunca mais se acertou. Por conta própria, continuou a tomar o ansiolítico… Sóbrio, nem pensar, dizia. Quando a língua enrolada não permitiu mais que se entendesse o que o pai dizia, Murilo o levou a um psiquiatra. Neto enveredou na ciranda de tentativa e erro dos reguladores de humor. Nenhum funcionou a contento. O coquetel o transformou num efeito colateral ambulante. Vivia entre o eufórico e o deprimido, mais deprimido do que eufórico. Murilo tentou homeopatia, massagem, acupuntura, insistiu na psicanálise, mas nada demoveu Neto da fixação em Célia. Tratava-se de luto perpétuo.”

Por estas e outras, considero Fim uma obra-prima da literatura brasileira contemporânea e um livro de alta relevância social, já que discute muitos dos temas e problemas que fizeram de Maria Rita Kehl (O Tempo e o Cão) e Eliane Brum (O Olho da Rua) duas das intelectuais mais essenciais do Brasil. Fernanda Torres, uma de nossas melhores artistas, tem tudo para deslanchar uma carreira ainda mais brilhante do que aquela que já protagoniza como atriz e humorista. Ao exercitar seu prodigioso talento também no romance – a exemplo de Chico Buarque – ela realmente revela uma versatilidade na virtude que é impressionante. Fim foi um ótimo começo na carreira desta romancista que já nasceu cometendo uma obra-prima, como julgaram João Moreira Salles e Antonio Cicero:

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“O título é Fim, mas o livro trata mesmo é da vida – plena, forte, caliente e safada, dessas que caberiam numa comédia de Mario Monicelli, caso ele tivesse lido Nelson Rodrigues e Pornopopéia com o sol de Copacabana pelas fuças. Avisem aí: uma escritora entrou em cena.” – JOÃO MOREIRA SALLES

“Alternando técnicas narrativas, com destaque para magistrais instâncias de fluxo de consciência, Fim captura brilhantemente a dramática oscilação de tristezas e ilusões, grossuras e sutilezas, pequenos afazeres e grandes esperanças, cujo entrecruzamento compõem as tragédias e as comédias humanas de nossos dias.” – ANTONIO CICERO

Por ter pintado um retrato forte, vívido e pungente da condição humana e das infindas maneiras de findar, Fernanda Torres, acredito eu, merece nossos aplausos pela coragem e pela lucidez com que teceu este livro memorável. Mortais, rejubilai! Apesar da morte ser sem remédio, a arte existe e tonifica. E talvez um certo carpe diem, uma certa sabedoria trágica, emane de Fim, que parece dar constantes piscadelas de olho ao leitor sobre a vida e sua finitude: “aproveita, meu caro, aproveita que isso passa rápido.” We’re food for worms, lads…

Eduardo Carli de Moraes
Goiânia, Setembro de 2015

ALGUNS VÍDEOS RECOMENDADOS:


COMPRE “FIM” DE FERNANDA TORRES NA LIVRARIA CULTURA (35 reais, entrega foguete)

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SIGA VIAGEM:

A MORTE COMO ESCOLA: Eliane Brum visita os limites da condição mortal

Carlos Drummond de Andrade apela ao Marechal: não prenda Nara Leão!

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O regime brutal dos fardados já havia se instalado em 1964, mas no ano seguinte a censura feroz ainda não chegara às redações dos jornais. Em 1965, Nara Leão (1942-1989) concede uma entrevista em que, sem papas na língua, diz aos militares que entreguem de volta o poder aos civis. As manchetes de jornais alardearam os rugidos da senhorita Leão: “Nara é de opinião: esse Exército não vale nada”; “Nara pode ser presa mas não muda de opinião”; “Nara: sou contra militar no poder”; “Entrevista abalou os alicerces do Exército Nacional”; “Considero os exércitos, no plural, desnecessários e prepotentes”; “Meu violão é a única arma que tenho; meu campo de guerra é o palco.” (confira: Dossiê Drummond, de Geneton Moraes Neto, Ed. Globo). Sob ameaça de ir em cana, Nara Leão foi defendida pelo poeta Carlos Drummond de Andrade, através de um poema saboroso, publicado na imprensa e endereçado ao Marechal Castelo Branco, que A Casa De Vidro aqui reproduz:

  APELO
(excerto)

“Meu honrado marechal
dirigente da nação,
venho fazer-lhe um apelo:
não prenda Nara Leão (…)

A menina disse coisas
de causar estremeção?
Pois a voz de uma garota
abala a Revolução?

Narinha quis separar
o civil do capitão?
Em nossa ordem social
lançar desagregação?

Será que ela tem na fala,
mais do que charme, canhão?
Ou pensam que, pelo nome,
em vez de Nara, é leão? (…)

Que disse a mocinha, enfim,
De inspirado pelo Cão?
Que é pela paz e amor
e contra a destruição?

Deu seu palpite em política,
favorável à eleição
de um bom paisano – isso é crime,
acaso, de alta traição?

E depois, se não há preso
político, na ocasião,
por que fazer da menina
uma única exceção? (…)

Nara é pássaro, sabia?
E nem adianta prisão
para a voz que, pelos ares,
espalha sua canção.

Meu ilustre marechal
dirigente da nação,
não deixe, nem de brinquedo,
que prendam Nara Leão.”

Carlos Drummond de Andrade

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Siga viagem:

“Acabou nosso carnaval
Ninguém ouve cantar canções
Ninguém passa mais brincando feliz
E nos corações
Saudades e cinzas foi o que restou
(…) E, no entanto, é preciso cantar
Mais que nunca é preciso cantar
É preciso cantar e alegrar a cidade…”

“Marcha da Quarta Feira de Cinzas”
Compositor: Vinicius De Moraes & Carlos Lyra

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Leitura sugerida:

Nara – O Pássaro e o Leão (Vermelho.org),
de Augusto Buonicore