A contracultura e suas urgentes responsabilidades – Sobre a turnê cancelada dos Dead Kennedys e o grito punk de um poster

“Don’t hate the media, become the media.” JELLO BIAFRA

Uma cultura ajoelhada diante do altar do conformismo é uma cultura com rigor mortis. E é disso que sofre a cultura hegemônica sob o império do capetalismo neoliberal que hoje em dia anda flertando desavergonhadamente com o fascismo: é uma cultura engessada na forma-mercadoria, quando a bagaça sempre esteve conectada, para o artista revolucionário, com o ato explodir a gaiola da mercadoria e instaurar no mundo a experiência sensorial inédita que é vocação da arte autêntica propiciar.

A Cultura Viva é balbúrdia anticonformista, e não – nunca! – cumplicidade com os tiranos. Diante das injustiças, os artistas são os berram, não os que se calam. Em nossos tempos de neofascismo e de democracias golpeadas pras cucuias, a Contracultura tem sua responsa e sua urgência. Até porque o Coiso que hoje tem por função ser presidente da república é tão “culto” que não fala uma palavra em homenagem a Chico Buarque pelo prêmio Camões, não dá seus pêsames após a morte de Beth Carvalho, mas presta suas homenagens ao MC Reaça depois que este espancou sua amante grávida e depois se suicidou…

O Brasil de 2019, sob a batuta insana do Bolsonarismo, raiou já com a extinção do MinC perpetrada pelos que, no palanque, faziam o gesto das armas de fogo, instrumentos da morte. A arte, que é o sim da vida à criatividade que é intrínseca a tudo que prospera e evolui, é o contrário do armamentismo destrutivo que pregam aqueles que poderiam repetir como o célebre dito nazista: “quando ouço a palavra Cultura, puxo meu revólver”. Quando Bolsonaro ouve a palavra Paulo Freire, puxa seu lança-chamas. E o Museu Nacional ardeu mesmo em chamas até as cinzas no país do pós-Golpe, desgovernado pela barbaridade desses “cidadãos-de-bem” que aniquilam a cultura no altar de Mammon, ou seja, da mercantilização geral de tudo e da imposição da política de terra-arrasada para a educação e a cultura…

Contra tal barbarismo, somos os que levantam uma contravoz, dissonante em relação à monocórdica voz dominante: quando nos falam em revólver, sacamos nossa cultura. Somos os que se armam de livros e se livram de armas. Os que se armam de grafites e beats, de teatro e de poemas, de cinema e de canções, para resistir à canalhização geral da vida. Assim coletivamente e sem muito programa vamos parindo a contracultura da atualidade, cultura-do-contra que é essencial para a cultura viva. Como Gilberto Gil e Juca Ferreira sonharam e começaram a concretizar, antes de tal utopia ser (também ela!) golpeada. Tantos golpes, e ainda assim nos levantamos (and still we rise!). A contracultura enquanto organismo indomável e insurgente é prova viva de que o devir histórico é Movimento irrefreável e serão levados pela correnteza os que desejam imobilizá-lo.

Em seu cartaz para a turnê dos Dead Kennedys no Brasil, Cristiano Suarez criou a A Grande Carapuça, obra endiabrada em que evoca clássicos da banda hardcore californiana como “Kill The Poor” e “Nazi Punks Fuck Off”. O artista parodia o Cidadão-de-Bem, vulgo Coxinha ou Bolsominion, que está todo aderido ao projeto-de-país miliciano-torturador hoje em voga:

O polêmico cartaz realizado por Cristiano Suarez já se tornou uma das imagens mais emblemáticas do Brasil de 2019 (quer comprar um poster, em tamanho A2 e por apenas 30 pilas? Siga o link >>> https://bit.ly/2Ji6fgL). Emblema de um país desgovernado pela extrema-direita Bolsonarista que tomou o Estado de assalto para impor uma fusão caótica e imbecilizante de neoliberalismo selvagem e neofascismo.

Emblema também de um território contaminado pela disseminação massiva de odientas ideologias que foram inoculadas nesse pessoal que relincha slogans como: “bandido bom é bandido morto!”, “o Lula tá preso, babaca!” e “nossa bandeira jamais será vermelha”. Originalmente criado para a turnê-que-não-rolou dos Dead Kennedys – na formação atual, que não inclui o vocalista original Jello Biafra (líder do Guantanamo School of Medicine) -, o poster foi renegado pela banda de hardcore californiana (a despeito de um entusiasmo inicial do qual eles depois arregaram).

Os Kennedys Mortos cancelaram sua vinda ao Brasil devido a todas as tretas vinculadas à disseminação viral desta provocativa peça de propaganda antifa saída da pena de Suarez. Uma arte rapidamente reapropriada, via hacking cibernético, por outras bandas – a exemplo dos Ratos de Porão, dos Garotos Podres e do francisco, el hombre. Sobre o episódio, Biafra assim se manifestou:

Sim, nós estamos preocupados com o Brasil. Porque nós nos importamos com o Brasil. E porque nós nos preocupamos com o mundo. Nós tememos pela situação dos brasileiros, tememos pela Amazônia. Tememos pelas tribos indígenas que poderão ser massacradas. Nós não queremos que mais nenhum inocente morra como aconteceu com a Marielle Franco. Sim, a notícia de seu assassinato chegou até os noticiários americanos. E, meus caros amigos, nós admiramos e respeitamos muito cada um que tenha a coragem de se posicionar contra o Bolsonaro e seus apoiadores fascistas metidos a valentões. – JELLO BIAFRA, Leia na íntegra em Tenho Mais Discos Que Amigos

 

Com o cancelamento da tour, choveram críticas contra os Dead Kennedys (sem Jello, os fake kennedys…) por terem “amarelado” – e não faltaram antigos entusiastas da banda, responsável por discos clássicos como “Fresh Fruit for Rotting Vegetables”, que os xingaram, cuspindo e dizendo que não se fazem mais punks como ultimamente…

A produtora EV7 Live teve que arcar com os custos astronômicos vinculados ao cancelamento da turnê e, para isso, está vendendo camisetas e pôsteres A2 com a arte de Suarez, numa curiosa estratégia mercadológica de transformar em commodity aquilo que o poder hegemônico desejaria censurar e silenciar.

A viralização do poster não foi à toa: ele encapsula toda a insanidade coletiva que conduziu ao triunfo provisório do que existe de mais sórdido e péssimo entre nós: a cultura do ódio e do irracionalismo, da segregação e da desunião, da intolerância e do chauvinismo cego, da subserviência acéfala ao Tio Sam e seus tanque$ e dollar$ – todo o “caldo” mórbido que serviu de substrato para o assalto-ao-poder que empoderou a Necropolítica mais brutal.

Não é preciso ser um ás da semiótica para ler, no centro do quadro, a presença da Família Tradicional Brasileira, pequeno-burguesa e que sonha em enriquecer mais, conservadora nos costumes e liberal na economia, idólatra das armas de fogo e das soluções truculentas para os problemas sociais. A Família, muitas vezes bestificada por religiões instituídas e por lógicas evanjegues, que reúne-se diante da TV para sua dose diária de alienação com sitcoms e filmes de ultraviolência made in Hollywood.

A Família Tradicional Brasileira que, aos milhões de exemplares, é o sustentáculo do Estado de Exceção que hoje nos desgoverna propondo o desmonte dos bens públicos e dos direitos sociais duramente conquistados. A Família Tradicional Brasileira que, durante a fraude do golpeachment, teleguiada pela rede Globo e demais integrantes do P.I.G., bateu panelas e encheu as ruas do país para “protestar contra a corrupção”, sem notar no absurdo que era fazer isso vestindo camisetas da CBF, votando em Aécio Neves e apoiando um golpe parlamentar liderado pelo gangster Eduardo Cunha.

Ecoando a ironia de “Kill The Poor”, porrada hardcore em que Jello Biafra exibia toda sua endiabrada e cáustica crítica social repleta de um cinismo indomável, o cartaz fala da Família Bozólatra como adoradora do cheiro de pobres mortos na manhã que fede à gasolina e óleo diesel. Tudo pega fogo no país em que os incêndios na favela são comemorados de dentro das BMWs e dos apartamentos de luxo onde se juntam, na Varanda Gourmet, os eleitores do Homem-de-Bem (aquele mesmo, que idolatra torturadores e defende grupos de extermínio… aquele mesmo, que até agora não sabemos que relações tinha com seu vizinho, assassino de Marielle Franco, miliciano dos mais de cem fuzis domésticos…).

O cartaz é brilhante por mostrar em uma cápsula imagética todo o tragicômico de nossa desastrosa situação. Em situações normais de temperatura e pressão, uma figura como o Coiso não passaria de fato de uma piada de mau gosto, de um Bozo da política, não muito diferente de um Tiririca anazistado. Em um país que estivesse são da cabeça e são do coração, uma figura como Jair Bolsonaro seria apenas uma espécie de Novo Enéas e não teria conquistado nem 5% dos votos para a eleição presidencial, tamanho o grau de sadismo, crueldade e desconsideração com os parâmetros mais básicos de ética e civilidade que ele manifestou nestes 28 anos de vida pública. Aliás completamente pífia e nula em matéria de quaisquer benefícios prestados à população.

Em suma, qualquer mente lúcida sabe que esse cara nunca fez merda nenhuma em prol de ninguém a não ser a favor de seu enriquecimento familiar e do favorecimento de conglomerados empresarias de que é o títere e o bem-remunerado cafetão.

Este poster incendiário, retrato hiperbólico da Bozolatria (mas que também remete ao Coxinismo), serve também como um retrato caricatural da Base Eleitoral que foi usada como trampolim por aquela minúscula fração da elite brasileira tão bem cognominada por Jessé de Souza como “Do Atraso”.

A Elite do Atraso composta por homens brancos e ricos, herdeiros dos senhores de escravos e capitães-do-mato, que se notabilizam por misoginia, racismo, LGBTfobia, supremacismo, armamentismo, para não falar na apologia da tortura e dos grupos de extermínio, tudo isso portando a máscara do “cristão” e do “cidadão-de-bem”.

Aos que se sentiram incomodados e ofendidos com a arte, talvez seja pois a carapuça serviu. Aos que gritaram por censura e mordaça, talvez seja pois vocês tem saudades do AI-5 e do totalitarismo repressor que foi o fruto amargo, em 1968 (início dos Anos de Chumbo), do golpe desferido contra o governo Jango em 1964.

Aos que acham que isto não é arte, mas propaganda política, eu diria que as noções de arte de vocês estão muito quadradinhas: a arte está aí também pra incomodar, pra instigar o debate, pra provocar reações emocionais, pra sacudir as apatias, pra cutucar as onças com varas curtas.

Aos que desejariam acender fogueiras para queimar este pôster junto com seu autor, vocês são a Nova Inquisição e integram a vergonhosa Cruzada por um Brasil Medieval – e contra vocês, só nos resta desejar que os artistas do Brasil resistente e insurgente prossigam sendo, e cada vez mais, deliciosamente endiabrados.

Fellipe Fonseca foi outro artista que, nada sutil e seguindo na senda de Vitor Teixeira, botou a boca no trombone, ou melhor, meteu as tintas no papel pra gritar #EleNão, porra (e seus minions muito menos!):

São claros os sinais de que a Cultura se insurge, apesar do decreto de extinção do MinC. Como organismo social de vida que transcende o âmbito institucionalizado, a cultura (selvagem) é indomável, resiste à domesticação. O mesmo fogo que incendeia as favelas no poster de Cristiano Suarez – um fogo-no-morro que vem somado às cataratas de sangue que fluem por debaixo dos tanques no asfalto – é convocado para outras funções pelo Francisco El Hombre, a banda neotropicalista latinoamericana que cometeu dois álbuns de extrema caliência e incandescência: Soltasbruxa Rasgacabeza.

O ato de botar fogo na monotonia, expressa pela banda, é sinal desta vivacidade da ContraCultura, organismo indomável e insurgente, prova viva de que o devir histórico é Movimento inescapável e serão arrastados pela correnteza aqueles que tiverem pretensões de estagnação. Algumas obras de arte do Brasil contemporâneo parecem-me expressá-lo com uma admirável beleza queer de intenso fascínio:


Queimando os velhos mapas pra vida renovar, Ju Strassacapa teve a genialidade criativa suprema ao parir “Triste Louca ou Má” – uma tão bela poesia, e que encontrou sua perfeita expressão musical nesta canção destinada ao cânone da MPB do Futuro. O Francisco El Hombre é um coletivo utópico, neohippie, purpurinado, pós-binário, que demonstra a vitalidade desta cultura que estou chamando de selvagem e indomável.

Num país que observa também brutais retrocessos nas políticas de drogas, com o incremento das internações compulsórias em “Comunidades Terapêuticas” de forte marca teocrática-sectária, o “Parafuso Solto” francisco-el-hombreano, somado ao jornalismo-subversivo do Gregório Duvivier, são salutares doses de cultura insurgente:


Pra terminar, queria lembrar de algo aparentemente estúpido, mas que tem seu interesse: o termo Bozo, que alguns usam para apelidar Bolsonaro, remete a um famoso palhaço televisivo brasileiro, mas também na língua inglesa existe o termo Bozo e este possui toda uma carga semântica dentro do movimento punk. Os Dead Kennedys, por exemplo, têm uma canção chamada “Rambozo, The Clown”, fusão de Rambo com Bozo, perfeitamente atual para a descrição de muitos brucutus Bolsonaristas.

Tanto que, em fins de 2018, com a ascensão do Capetão, o Rambozo fã do Ustra, “California Übber Allez” foi reavivada pela vigorosa versão, transposta pro Brasil em incendiário videoclipe em p&b pelo Projeto Rambozo:



Retrocedendo ainda mais na História da Contracultura, encontramos pulsando no epicentro do Movimento Punk a entidade inglesa The Clash; numa adorável entrevista concedida a Steve Walsh e publicada em Sniffin’ Blue em Setembro de 1976, Joe Strummer, Mick Jones e companhia já se manifestavam explicitamente como Anti-Bozos:

– Some people change and some people stay as they are, bozos,  and they don’t try to change themselves in any way. (…) I think people have got to find out where their direction lies and channel their violence into music or something creative.  (…) The alternative is for people to vent their frustrations through music, or be a painter or a poet or whatever you wanna be. Vent your frustrations, otherwise it’s just like clocking in and clocking out. (Mick Jones, In: Let Fury Have The Hour, p. 26)

Eles que foram um dia conhecidos como A Única Banda Que Importam ensinam lições que nada perderam de seu valor à contracultura da atualidade: em uma das mais icônicas faixas de London Calling, de 1979, “Clampdown”, Joe Strummer pede que a gente dê uma chance à fúria:

“Let fury have the hour
Anger can be power
D’you know that you can use it?”

 

ARDER ATÉ AS CINZAS, RENASCER COMO FÊNIX: A potência da palavra povoada de Violeta Parra (1917-1967)

ARDER ATÉ AS CINZAS, RENASCER COMO FÊNIX:
A POTÊNCIA DA PALAVRA POVOADA DE VIOLETA PARRA
por Eduardo Carli de Moraes

“…toda palavra se não tem brasa
se desprende e cai da árvore do tempo.”
PABLO NERUDA
citado por Antonio Skármeta em A Insurreição
(Cap. XXV, p. 189, ed. Francisco Alves, 1983)

Visitar o Chile ao raiar de 2017, aos 100 anos do nascimento de VIOLETA PARRA (1917-1967), foi ótima ocasião para uma imersão na obra desta magistral multi-artista, uma das mais celebradas cantautoras chilenas do século XX, capaz de incendiar sua palavra com seu brilhantismo e seu ânimo a ponto dela não cair da árvore do tempo.  Já se passaram 50 anos desde seu suicídio em 1967, mas Violeta Parra revela, no ano deste seu centenário, a capacidade de resiliência e de renovada atualidade que é o dom das obras rotuladas de clássicas. A travessia por Valparaíso e Santiago revelou-me um país que alimenta a chama da memória da querida presença desta violeta ainda em flor.

Em Santiago, onde há museu consagrado a ela, havia vistosa homenagem: bem maior que um mísero outdoor, um gigante painel fotográfico (foto acima) decorava de alto a baixo o frontispício de um prédio na Avenida Libertador Bernardo O’Higgins, a via que dá acesso ao palácio presidencial La Moneda e onde o estouro de fuegos artificiales reúne a maior muvuca comemorativa do reveillon em Santiago.

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Em várias livrarias chilenas, exposto em vitrines e outros locais de destaque, marcava presença o belíssimo livro publicado pela Universidade de Valparaíso, em parceria com a Fundación Violeta Parra: Poesia (capa dura, 472 pgs). Trouxe-o comigo para servir não só como companheiro de viagem, mas como camarada na vida. Comprado na Libreria Crisis, em frente ao Congresso Nacional (Valparaíso), o livro abre janelas para a descoberta de imensos tesouros da arte popular latino-americana tão brilhantemente condensados nas canções e poemas de Parra.

Nascida no Outubro da Revolução Bolchevique de 1917, Violeta Parra terá o ano de 2017 a ela dedicado no Chile, pátria-mãe que mostra-se repleta de gratidão pela vida e pelo legado de uma de suas figuras culturais de maior relevo e importância, algo comunicado com muita potência por Paula Miranda, que destaca a influência da Teologia da Libertação tanto quanto da canção que é catarse em meio à dor e ao desamparo:

Pintura de Claudia Martinez dedicada a Violeta Parra: "Dulce Vecina De La Verde Selva"

Pintura de Claudia Martinez dedicada a Violeta Parra: “Dulce Vecina De La Verde Selva”

“Su gesto más revolucionario es abandonar progresivamente la función otorgada por el capitalismo a la canción y al arte en general, como mero accesorio artístico y de del espetáculo, para convertirlos en lugares de denuncia de las injusticias sociales y de los abusos de los poderosos, que protesta por los pobres  y redime los mártires que se han enfrentado al orden imperante: Lumumba, García Lorca, Vicente Peñaloza, Zapata, Rodríguez y Recabarren. Hay algo aquí de la teología de la liberación de la época, pero más de los valores que ha adquirido Violeta Parra de la cultura religiosa campesina: compasión, solidariedad, sacrificio, salvación, imagen de un Dios muy cercano, redentor. Hay algo também de la canción que cumple su función catártica em medio del dolor y del desamparo.” – PAULA MIRANDA (PUC-Chile), In: PARRA, Poesia, V. Valparaíso, 2016, p. 27.

Assim como o cantor e compositor Victor Jara, assassinado após o golpe de Setembro de 1973, prossegue cultuado por velhas e novas gerações (“Victor Jara será eterno”, li pintado na mochila de uma guria no metrô…), Violeta Parra também é homenageada com altos louros pelos chilenos. É descrita como “imortal”, comparada em sua maestria verbal a alguns dos luminares principais doa poesia do Chile, como Gabriela Mistral, Pablo Neruda e Nicanor Parra (irmão mais velho de Violeta). Em artigo publicado em El País, Rocío Montes escreveu:

A chilena Violeta Parra (San Fabián de Alico, 1917; Santiago do Chile, 1967) viveu múltiplas vidas ao longo de seus 49 anos. Foi cantora e compositora, ofício pelo qual foi mais reconhecida, mas também compiladora de música folclórica e artista plástica. No centenário de seu nascimento – celebrado neste ano no Chile com a publicação de livros sobre sua obra, festivais, concertos, exposições e congressos internacionais –, o país a homenageia como uma criadora diversa e promove o reconhecimento de seu legado sob uma perspectiva integral. “Por que Violeta Parra transcende?”, pergunta-se a pesquisadora Paula Miranda, uma das maiores especialistas em sua figura. “Porque tem um trabalho com a palavra muito sofisticado. A dimensão poética está presente em toda sua obra”.

Miranda fala de Violeta Parra como uma das melhores poetas da música e ressalta que a discussão sobre a entrega do Nobel de Literatura a Bob Dylan no ano passado também poderia valer para a cantora e compositora chilena: “Existe muita poesia fora dos livros e a poesia, além do mais, era cantada em sua origem”. Miranda, doutora em Literatura e autora do estudo La Poesía de Violeta Parra, publicado em 2013, cita como exemplo um dos hinos mais conhecidos da criadora: “A poesia em sua máxima expressão é aquela que consegue transformar o mundo, e isso é o que Parra faz em “Gracias a la Vida”. Por um lado agradece e, por outro, tenta retribuir algo que recebeu da vida. Sua arte não é de adorno, nem de entretenimento, mas de reflexão e emoção. Acompanha as dores e os amores humanos”, diz a pesquisadora. [LEIA O ARTIGO COMPLETO]

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Em seu texto Arder Hasta Las Cenizas, Rosabetty Muñoz, pesquisadora da obra de V. Parra, sugere que ela viveu “no tempo do asco”, sempre junto ao pueblo e suas luchas, na convicção de que o artista trabalha flamejando nas chamas da coletividade a que pertence. É preciso arder até as cinzas para dar à luz algumas pérolas de imorredoura poesia, renascente como Fênix. Só as palavras em brasa, incendiadas pela vivacidade dos afetos da gente verdadeira, são capazes de seguir dependuradas na árvore do tempo, nutrindo as gerações que se sucedem como um milagroso fruto cujo sumo não se esgota mesmo se sorvido por um milhão de bocas. Escreve Muñoz, rememorando o impacto da obra de Violeta Parra sobre seus contemporâneos:

“Así la conocí: su poesía se abrió con la ferocidad propia de un tiempo que exigía de nosotros una ligazón entre la palabra y la historia, un compromiso com el presente que ella tenía claro. (…) ‘No puede ni el más flamante / pasar en indiferencia / si brilla en nuestra conciencia / amor por los semejantes.’ (…) El el tiempo del asco (como lo llamó Stella Díaz Varin) necesitábamos voces mayores y los versos de Violeta llovieron cargados de integridad. Así como tenía claro el lugar del creador (lejos de los privilegiados, cerca de los suyos) también declara ferviente la dirección que tomarán sus llamas líricas en la lucha por denunciar y marcar los daños: ‘entre más injusticia, señor fiscal / más fuerzas tiene mi alma para cantar.'” – R. MUÑOZ, Violeta Parra: Arder Hasta Las Cenizas. p. 11-12

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“Seus trabalhos foram a base para o desenvolvimento do movimento estético-musical-político chamado de Nova Canção Chilena, do qual fizeram parte também Victor Jara, Rolando Alarcón, e Patricio Manns, além dos grupos Inti-Ilimani e Quilapayún.” – Portal Vermelho

O livro traz em sua capa uma das obras realizadas por Violeta no âmbito das artes visuais, outro domínio onde ela também expressou sua fecunda criatividade, em especial em tapeçarias cuja técnica ela aprendeu com sua mãe, tecedora de raízes indígenas e vinculada ao povo Mapuche. Muitas das tapeçarias violetianas foram expostas em Paris, no Museu de Artes Decorativas do Louvre, reaparecendo também no início dos capítulos do livro. Confira abaixo algumas reproduções das obras:

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O cinema também reavivou Violeta há alguns anos com a bela biopic Violeta Se Fue A Los Cielos (2011), de Andrés Wood (o mesmo diretor de Machuca), em que Parra foi interpretada por Francisca Gavillan. O filme  saiu consagrado no badalado festival de Sundance, colheu farta bilheteria em seu país de origem e tem mérito duradouro não só como competente esforço biográfico e dramatúrgico, mas por oferecer uma convidativa porta de entrada para quem deseja descobrir mais a fundo a vida e a obra de Violeta.

Do filme de Andrés Wood eu destacaria algumas cenas e citações que me parecem memoráveis. Em uma entrevista televisiva, Violeta Parra revela muito de suas convicções políticas e estéticas. Sobre as primeiras, quando o jornalista lhe pergunta se ela é comunista, ela brinca: “Camarada, eu sou tão comunista que, se me derem um tiro, o meu sangue sai vermelho…” Achando graça da resposta, seu interlocutor contesta: “Ora, o meu sangue também sairia vermelho…” Ao que ela retruca, estendendo a mão para cumprimentá-lo: “Que bom, camarada!”

Em outro momento da entrevista re-encenada no filme, o entrevistador pede que ela dê conselhos a jovens artistas. Ela então aconselha: “A criação é um pássaro sem plano de vôo e que nunca voará em linha reta.” Longe dos conservatórios onde a música é ensinada com formalismo e rígida disciplina, Violeta Parra buscou sua pedagogia poético-musical através da imersão junto à gente comum, em meio ao “povão”, indo beber na fonte de campesinos e Mapuches, tendo realizado monumental trabalho como compiladora do folclore del pueblo. 

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Em um dos momentos mais tocantes de Violeta Fue A Los Cielos, podemos testemunhar longas e árduas caminhadas que Violeta fazia para chegar até as moradias campestres de idosos aos quais solicitava, com doçura e interesse, que compartilhassem com ela canções de tempos idos. Um senhor recusa-se terminantemente a ajudar: havia feito um juramento de nunca mais cantar desde que seu netinho havia morrido.

Empregando toda a sedução sincera de alguém que enxerga valor imenso naquilo que o velhinho trazia enclausurado em seu crânio, Violeta busca convencer-lhe a compartilhar os tesouros musicais e poéticos que, caso não sejam cantados e anotados em um caderninho, podem perder-se para sempre. É esta percepção de que os tesouros da tradição estão ameaçados pelo trator impiedoso da modernização, de que os depositários de cancioneiros de tempos idos estão caindo no túmulo e levando consigo canções e poemas irrecuperáveis, que faz de Violeta uma infatigável pesquisadora da cultura popular. Ela parece pesquisar na certeza de que é frágil e efêmero o depositário carnal das canções cuja chama está sob ameaça de para sempre apagar-se.

Estas cenas são comovedoras por revelarem uma Violeta Parra que é o avesso e o antônimo da popstar que recebe de magnatas da indústria e de fabricadores profissionais de hits as receitas prontas para os sucessos comerciais fáceis. Revelam uma trabalhadora em prol da memória, uma folclorista que foi em andanças pelo Chile afora para pesquisar a fundo a música, a dança e a lírica que o povão havia conservado por gerações, transmitido língua a língua sem ter nunca conseguido fixar-se em partitura e ganhar assim chances maiores de sobrevivência. Sua capacidade de escuta e de interesse evocou em mim a lembrança de um dos melhores filmes brasileiros de cinema verdade já realizados: O Fim e o Princípio, de Eduardo Coutinho.

Quando Andrés Wood filma o velhinho, antes relutante em cantar e teimoso em seu silêncio juramentado, a cantar no velório de um bebê morto, é como se criasse um emblema para o mérito do labor de Violeta Parra: ela resgatou do esquecimento algumas pérolas que, sem ela, estariam mortas para sempre, oferecendo assim inestimável contribuição para a condensação cultural de uma miríade de manifestações culturais de seu povo (no Brasil, trabalhos similares foram empreendidos por um Mário de Andrade, por uma Ecléa Bosi, dentre tantos outros…).

Cena do filme de Andrés Wood

Cena do filme de Andrés Wood

A morte de um filho bebê, como narra o filme, serviu também para que Violeta, em meio aos tormentos do luto, compusesse uma de suas canções mais memoráveis – “Rin del Angelito”, célebre na versão do Inti-Illimani (ouça abaixo). Longe de qualquer pregação gospel, a canção é ainda assim uma reflexão religiosa sobre o después da “morte da carne”, cheia de um conteúdo consolador que vincula-se às ancestrais doutrinas de transmigração da alma. 

Da doutrina indiana do karma às crenças da seita do filósofo grego Pitágoras, a transmigração da alma ou metempsicose é um corpo de artigos de fé de uma ancestralidade que não sai de moda. No caso de Violeta, ela explora uma modalidade bastante latino-americana desta fé, afirmando uma espécie de panteísmo panpsiquista em que a alma do angelito falecido pode penetrar num passarinho ou num “peixinho novo”:

Ya se va para los cielos
ese querido angelito
a rogar por sus abuelos
por sus padres y hermanitos.
Cuando se muere la carne
el alma busca su sitio
adentro de una amapola
o dentro de un pajarito.

La tierra lo está esperando
con su corazón abierto
por eso es que el angelito
parece que está despierto.
Cuando se muere la carne
el alma busca su centro
en el brillo de una rosa
o de un pececito nuevo.

En su cunita de tierra
lo arrullará una campana
mientras la lluvia le limpia
su carita en la mañana.
Cuando se muere la carne
el alma busca su diana
en el misterio del mundo
que le ha abierto su ventana.

Las mariposas alegres
de ver el bello angelito
alrededor de su cuna
le caminan despacito.
Cuando se muere la carne
el alma va derechito
a saludar a la luna
y de paso al lucerito.

Adónde se fue su gracia
y a dónde fue su dulzura
porque se cae su cuerpo
como la fruta madura.
Cuando se muere la carne
el alma busca en la altura
la explicación de su vida
cortada con tal premura,
la explicación de su muerte
prisionera en una tumba.
Cuando se muere la carne
el alma se queda oscura.

De sua arte, tão enraizada nas tradições mas tão aberta também às invenções, “brotam luzes” – ainda que não haja escassez de sombras. É nesse jogo de claro e escuro que desenha-se a profundidade e a densidade destas composições que vão muito além e muito mais fundo do que a rasidão e a estreiteza a que estão limitadas as canções comerciais.

Ouçam, por exemplo, a emblemática “Cantores Que Reflecionam”, do álbum Las Últimas Composiones, um dos mais importantes discos na história da música chilena, uma daquelas poesias que não podem ser reduzidas a mera “letra de música”, já que os versos se sustentam perfeitamente em seu próprio mérito:

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En la prisión de la ansiedad
medita un astro en alta voz.
Gime y se agita como león,
como queriéndose escapar.
¿De dónde viene su corcel
con ese brillo abrumador?
Parece falso el arrebol
que se desprende de su ser.
«Viene del reino de Satán
–toda su sangre respondió–.
Quemas el árbol del amor,
dejas cenizas al pasar».

Va prisionero del placer
y siervo de la vanidad.
Busca la luz de la verdad,
mas la mentira está a sus pies.
Gloria le tiende terca red
y le aprisiona el corazón
en los silencios de su voz
que se va ahogando sin querer.
La candileja artificial
le ha encandilado la razón:
¡dale tu mano, amigo Sol,
en su tremenda oscuridad!

¿Qué es lo que canta? –digo yo.
No se consigue responder.
Vana es la abeja sin su miel,
vana la hoz sin segador.
¿Es el dinero alguna luz
para los ojos que no ven?
«Treinta denarios y una cruz»
–responde el eco de Israel.
¿De dónde viene tu mentir
y adónde empieza tu verdad?
Parece broma tu mirar;
llanto parece tu reír.

Y su conciencia dijo al fin:
«Cántale al hombre en su dolor,
en su miseria y su sudor
y en su motivo de existir».
Cuando del fondo de su ser
entendimiento así le habló,
un vino nuevo le endulzó
las amarguras de su hiel.
Hoy es su canto un azadón
que le abre surcos al vivir,
a la justicia en su raíz
y a los raudales de su voz.

En su divina comprensión
luces brotaban del cantor.

(1965-1966. In: Ultimas Composiones)

Não parece ser por mero saudosismo, típico de gente preocupada em tirar o pó dos vinis antigos, que os chilenos celebram Violeta Parra, mas sim pois esta obra tem resiliência e atualidade. Versos que ela escreveu em protesto ao presidente Ibañez (1877 – 1960), figura massacrada pelo escárnio do cineasta Alejandro Jodorowsky em seu ciclo de autobiografias surreais A Dança da Realidade Poesia Sem Fim – também servem para atacar a ditadura militar capitaneada por Pinochet entre o golpe de 1973 e o plebiscito de 1988. Já a celebração “Me Gustan Los Estudiantes” – regravada muitas vezes na América Latina, com destaque para versões de Mercedes Sosa e dos grupos corais brasileiros MPB4 & Quarteto em Cy – foi considerada apta a ilustrar vídeos no Youtube que revelam os levantes estudantis entre 2011-2014:

Que vivan los estudiantes,
jardín de las alegrías.
Son aves que no se asustan
de animal ni policía,
y no le asustan las balas
ni el ladrar de la jauría.
Caramba y zamba la cosa,
que viva la astronomía.

Que vivan los estudiantes
que rugen como los vientos
cuando les meten al oído
sotanas o regimientos,
pajarillos libertarios
igual que los elementos.
Caramba y zamba la cosa,
que vivan los experimentos.

Me gustan los estudiantes
porque son la levadura
del pan que saldrá del horno
con toda su sabrosura
para la boca del pobre
que come con amargura.
Caramba y zamba la cosa,
viva la literatura.

Me gustan los estudiantes
porque levantan el pecho
cuando les dicen harina
sabiéndose que es afrecho,
y no hacen el sordomudo
cuando se presenta el hecho.
Caramba y zamba la cosa,
el Código del Derecho.

Me gustan los estudiantes
que marchan sobre las ruinas;
con las banderas en alto
va toda la estudiantina.
Son químicos y doctores,
cirujanos y dentistas.
Caramba y zamba la cosa,
vivan los especialistas.

Me gustan los estudiantes
que van al laboratorio.
Descubren lo que se esconde
adentro del confesorio.
Ya tiene el hombre un carrito
que llegó hasta el purgatorio.
Caramba y zamba la cosa,
los libros explicatorios.

Me gustan los estudiantes
que con muy clara elocuencia
a la bolsa negra sacra
le bajó las indulgencias.
Porque, ¿hasta cuándo nos dura,
señores, la penitencia?
Caramba y zamba la cosa,
que viva toda la ciencia.

 Outra amostra da aptidão da obra de Parra para servir à apropriações criativas é uma canção como “Maldigo De Alto Cielo”: apesar de escrita muito antes do bombardeio ao palácio de La Moneda e os massacres do Setembro de 1973, foi mixada com fotografias do coup que derrubou o governo socialista, legítimo e eleito em eleições democráticas, de Salvador Allende,  em um vídeo com mais de 700.000 visualizações no Youtube (confira em La Pichanga – Música Chilena).

 

Escutar na sequência “Maldigo de Alto Cielo” e “Gracias a La Vida” é experiência inquietante: as duas canções parecem habitar dois pólos extremos, irreconciliáveis, quase como se não pudessem ter sido escritas pela mesma pessoa. Pode parecer paradoxal e absurdo que a mesma Violeta Parra que escreveu um belo hino de gratidão à vida, repleto de amor fati, espécie de símile latinoamericano de “Je Ne Regrette Rien” da francesa Edith Piaf, tenha podido compor algo o folk-punk de intensa malediciência de “Maldigo de Alto Cielo”, em que amaldiçoa tudo – a primavera e os planetas – numa orgia de pessimismo, niilismo e odium fati. Só se surpreenderá quem desconhece as complexidades afetivas que habitam e se digladiam no peito dos poetas.

Nietzsche chegou a dizer que o espírito fértil e fecundo é aquele rico em contradições, e este pensamento me ocorre ao contrastar estas duas canções: ouvi-las revela uma Violeta Parra capaz de explorar um amplo leque de afetos, de encarnar um vasto espectro de atitudes existenciais, que vai da ação de graças, sábia e serena, de “Gracias a La Vida”, à amarga maldição lançada contra o todo do mundo em “Maldigo Del Alto Cielo” por um eu-lírico sofredor, enlutado, deprimido, que ao fim de cada estrofe retorna ao seu lamento-bumerangue, que evoca uma dor imensurável, inquantificável, beirando o inefável.

 “Maldigo” talvez seja a canção que melhor evoca o estado de espírito que pôde conduzir Violeta ao suicídio – que verso pungente é “Maldigo el vocablo amor con toda su porquería!” – pero “Gracias” sintetiza a sabedoria amável e irradiante de uma artista que, para além da morte, tornou-se sol acalentando a vontade de viver dos que hoje segue celebrando seu legado, 100 anos após seu nascimento e 50 anos após sua auto-extinção. O espírito de “Gracias a La Vida” irá inspirar muitas cantoras latinoamericanas – de Mercedes Sosa a Elis Regina – mas Violeta Parra tem muitos espíritos para além da doçura graciosa, incluindo verves mais contestatórias, manifestas em canções de protestos e crítica social de espantosa atualidade.

Evoco alguns exemplos: as promessas demagógicas de políticos sacanas, cheios de falsas promessas e sorrisos hipócritas, são denunciadas em “Miren Cómo Sonrién” (p. 113). São versos que podem ainda hoje ser citados na denúncia de estelionatos eleitorais e que podem inspirar análises sobre os descaminhos da democracia representativa.

Miren cómo sonríen
los presidentes
cuando le hacen promesas
al inocente.
Miren cómo le ofrecen
al sindicato
este mundo y el otro
los candidatos.
Miren cómo redoblan
los juramentos,
pero después del voto,
doble tormento.

Miren el hervidero
de vigilante
para rociarle flores
al estudiante.
Miren cómo relumbran
carabineros
para ofrecerle premios
a los obreros.
Miren cómo se viste
cabo y sargento
para teñir de rojo
los pavimentos.

Miren cómo profanan
las sacristías
con pieles y sombreros
de hipocresía.
Miren cómo blanquearon
mes de María,
y al pobre negreguearon
la luz del día.
Miren cómo le muestran
una escopeta
para quitarle al pueblo
su marraqueta.

Miren cómo se empolvan
los funcionarios
para contar las hojas
del calendario.
Miren cómo gestionan
los secretarios
las páginas amables
de cada diario.
Miren cómo sonríen,
angelicales.
Miren cómo se olvidan
que son mortales.

Já em “Al Centro de la Injusticia”, uma mordaz crítica social, Violeta Parra faz por merecer sua pertença junto aos maiores nomes da canção de protesto em todos os tempos. Apesar de bem menos conhecida do que os norte-americanos (Woody Guthrie, Bob Dylan, Joan Baez), Violeta é uma cantora folk que soube dirigir afiados petardos contra a injustiça social, as barbáries militaristas, os desgovernos autoritários; até mesmo a especulação imobiliária e o turismo alienado são alvo alvejados pela cantautora, e isso décadas antes de estarem na crista da onda os fenômenos da gentrificação:

“Linda se ve la patria, señor turista,
pero no le han mostrado las callampitas.
Mientras gastan millones en un momento,
de hambre se muere gente que es un portento…” (p. 115)

O que torna a obra de Parra tão resiliente, tão capaz de sobreviver aos 50 anos de sua ausência física entre os vivos, talvez seja aquilo que chamo de a potência da palavra povoada. Com isso quero dizer que Violeta Parra não é simplesmente uma poetisa que expressa afetos e impressões individuais, não é apenas um eu isolado que fala sobre si, mas sim alguém que põe o seu verbo e sua voz, sua verve e sua arte, em contato íntimo e cotidiano com todo um povo.

Sua poesia busca amplificar a potência e disseminar a sabedoria de uma coletividade que atravessa as gerações, ainda que o precioso trabalho de resgate dos tesouros acumulados pela tradição não impeça que Violeta seja também inventiva e recriadora. Como Maiakóvski, que em célebre poema fazia-se caixa de ressonância para 150 milhões de russos, Parra besunta-se com os chilenos para tecer seus cantos. Por isso, ouvi-la é mais que ouvir uma mulher de extraordinário talento, é entrar em contato com a pulsação viva de todo um pueblo em seu esforço de criar beleza imorredoura e palavras que não vão cair da árvore do tempo.

Carli – Janeiro de 2017


OUÇA: DOWNLOAD GRATUITO
Antología: Grabaciones originales en EMI Odeon 1954-1966

De modo a contribuir para disseminar a obra de Violeta Parra na blogosfera do Brasil, A Casa de Vidro realiza um pequeno ato de cyberdelinquência e oferta a todos a versão pirata deste BOX de 4 CDs, uma das melhores coletâneas já lançadas como panorâmica da criação Parriana entre 1954 e 1966. São quase 5 horas de música e o download é inteiramente gratuito. Boa audição!

violeta-parra-antologia

CD 1: CLICK AQUI PARA BAIXAR EM MP3 DE 320kps. Canções: 1. La petaquita; 2. Son tus ojos; 3. El sacristán; 4. El bergantín; 5. A dónde vas, jilguerillo; 6. Si lo que amo tiene dueño; 7. Casamiento de negros; 8. Tonada del medio; 9. Atención, mozos solteros; 10. Bella joven; 11. El joven para casarse;  12. Cuando salí de mi casa; 13. El palomo; 14. Hay un estero de vino (por ponderación); 15. Blanca, Flor y Filomena; 16. Adiós, corazón amante; 17. Qué pena siente el alma; 18. Ya me voy a separar; 19. Ausencia; 20. Cuando deja de llover; 21. Es aquí o no es aquí; 22. La inhumana; 23. Parabienes al revés; 24. Un reo siendo variable; 25. No habiendo como la maire.

CD 2: CLICK AQUI PARA BAIXAR EM MP3 DE 320kps. Canções: 1. Una naranja me dieron; 2. Verso por la sagrada escritura; 3. Verso por las doce palabras; 4. Viva Dios, viva la Virgen; 5. Las naranjas; 6. Viva la luz de Don Creador; 7. La jardinera; 8. Adiós que se va segundo; 9. Tonada por ponderación; 10. Cuándo habrá cómo casarse; 11. El jardinario; 12. Cueca valseada; 13. La cueca larga (Las Hermanas Parra); 14. La Juana Rosa; 15. La muerte con anteojos; 16. Amada prenda; 17. Las tres pollas negras; 18. Paloma ingrata; 19. Si te hallas arrepentido; 20. Niña hechicera; 21. Allá en la pampa argentina; 22. Verso por desengaño; 23. Verso por despedida a Gabriela; 24. Verso por el Rey Asuero.

CD 3: CLICK AQUI PARA BAIXAR EM MP3 DE 320kps. Canções: 1. Verso por la niña muerta; 2. Verso por padecimiento; 3. Verso por saludo; 4. Violeta ausente; 5. Viva el chapecao; 6. Yo tenía en mi jardín; 7. Cueca larga de Los Meneses; 8. En el norte corrió vino; 9. Entre San Juan y San Peiro; 10. Hay una ciudad muy lejos; 11. Tan demudado te he visto; 12. He recibido carta; 13. Imposible que la luna; 14. La Monona; 15. Los paires saben sentir; 16. Por el fin del mundo; 17. Por padecimiento; 18. Qué t’estai pensando, ingrato; 19. Huyendo voy de tus rabias; 20. Qué te trae por aquí; 21. Amigos tengo por cientos; 22. Por la mañanita; 23. El chuico y la damajuana; 24. Por pasármelo toman…; 25. El día de tu cumpleaños.

CD 4: CLICK AQUI PARA BAIXAR EM MP3 DE 320kps. Canções: 1. Las flores; 2. 21 son los dolores; 3. Los mandamientos; 4. El hijo arrepentido; 5. El pueblo; 6. Galambo temucano; 7. Maldigo del alto cielo; 8. Yo canto a la diferencia; 9. Miren cómo se ríen; 10. Arauco tiene una pena; 11. Y arriba quemando el sol; 12. A la una; 13. Escúchame, pequeño; 14. La pericona se ha muerto; 15. Los pueblos americanos; 16. Mañana me voy pa’l norte; 17. Paloma ausente; 18. Por ésta y otras razones; 19. Qué dirá el Santo Padre; 20. Se juntan dos palomitas; 21. Pedro Urdemales; 22. Según el favor del viento; 23. Una chilena en París; 24. Qué he sacado con quererte; 25. Tocata y fuga; 26. El moscardón.

SAIBA MAIS: MEMÓRIAS DA DITADURALIBERTAD DIGITAL – SHE SHREDSLIVIN SANTIAGOPORTAL VERMELHO.

 

CYBER MUSEU – Procissão de belezas gratuitas

Perséfone e Hades de Bernini

“Perséfone e Hades”, de Bernini

 

 

Matisse - the-joy-of-life-1906

“La Joie De Vivre”, de Matisse (1906)

 

nicolas-poussin-the-triumph-of-pan-1636

“The Triumph of Pan”, de Nicolas Poussin (1636)

 

POUSSIN The_dance_to_the_music_of_time_c._1640

“A Dança das Estações Com A Música Do Tempo”, de Nicolas Poussin (1640)

 

Danaides_by_John_William_Waterhouse,_1903

“As Danaides”, John William Waterhouse (1903)

 

John Roddam Spencer Stanhope - T

“The Waters of Lethe by the Plains of Elysium”, de John Roddam Spencer (1880)

 

"As Sereias e o Navio De Ulisses", de William Etty

“As Sereias e o Navio De Ulisses”, de William Etty

 

"Um Par de Botas" (1887), de VIincent Van Gogh

“Um Par de Botas” (1887), de Vincent Van Gogh

 

"Água - Origem da Vida", de Diego Rivera, na Cidade do México

“Água – Origem da Vida”, de Diego Rivera, na Cidade do México

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A ARTE DE PABLO AMARINGO (1943 – 2009)

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Amazónica Romantica By Pablo Amaringo.
Angeles Avatares By Pablo Amaringo

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Ayahuasca Raura By Pablo Amaringo

Pablo Amaringo Painting

Featured in the book 'The Ayahuasca Visions of Pablo Amaringo' by Howard G Charing & Peter Cloudsley

Los Grados del Curandero By Pablo Amaringo.
Misterio Profundo By Pablo Amaringo

Nukno Maschashka By Pablo Amaringo

Featured in the book 'The Ayahuasca Visions of Pablo Amaringo' by Howard G Charing & Peter Cloudsley

VA5.06 EncantoCuraturo, 10/21/09, 1:14 PM, 8C, 6992x9727 (973+1173), 138%, wtemp3, 1/12 s, R67.3, G38.5, B50.6

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Sumac Icaro by Pablo Amaringo Templo Sacrosanto By Pablo Amaringo
Transformacion del Chaman en Aguila

Unicornio Dorado By Pablo Amaringo. Featured in the book The Ayahuasca Visions of Pablo Amaringo by Howard G Charing
Yana Huarman By Pablo Amaringo.

PABLO AMARINGO (1943 – 2009), artista peruano. Obras reproduzidas do livro de Howard Charing e Peter Cloudsley. “The Ayahuasca Visions of Pablo Amaringo”. Inner Traditions. Vermont. 2011. Site oficial: http://www.ayahuascavisions.com/

“Pablo Amaringo is one of the world’s greatest visionary artists, and is renowned for his highly complex, colourful and intricate paintings of his visions from drinking the Ayahuasca brew. Pablo Amaringo trained as a curandero in the Amazon, healing himself and others from the age of ten, but gave this up in 1977 to become a full-time painter and art teacher at his Usko-Ayar school.” Amazon Convergence

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A Torre de Babel e os Frutos da Terra

Pieter Bruegel, o Velho (1530-1569)

“Torre de Babel” – de Pieter Bruegel, o Velho (1530-1569)

A TORRE DE BABEL
E OS FRUTOS DA TERRA

Há tempos que eu não me chocava tanto diante do talento incomensurável de um artista quanto ando fazendo diante dos quadros de Pieter Bruegel, “o Velho” (“The Elder”). Uma de suas mais impressionantes criações retrata o mito judaico-cristão da Torre de Babel com uma tridimensionalidade tão perfeita, uma beleza arquitetônica tão estarrecedora, que os olhos ficam encantados de “passear” o olhar pela tela. Mas o que mais me impressiona é o caráter arruinado e caótico da construção que o quadro traz como protagonista, numa perfeita comunicação do fracasso e do desastre deste mítico empreendimento humano.

A Torre de Babel simboliza pra mim muitas coisas além do significado mais “escancarado” que é a discórdia entre os homens, a divisão que ocorre entre eles por causa da diferença de línguas e costumes. É, além disso, o símbolo de uma tentativa humana que fracassou, de um sonho que gorou, de uma esperança que se decepcionou…

Conta-nos o mito de Babel que tentaram os homens erguer uma suntuosa construção que os aproximasse de uma certa divindade que supunham habitar nas regiões celestes. Na versão oficial, com a qual catequisam as criancinhas e que os pregadores propagam de seus púlpitos, foi Jeová quem impediu que o projeto chegasse a bom-termo. Irritado com os homens por quererem estreitar as distâncias entre o sagrado e o humano, este deus teria confundido os idiomas, impossibilitando a comunicação entre os homens, agindo de modo a manter a hierarquia que estabelece um fosso entre o cá-embaixo e o lá-em-cima, entre os reles mortais e o soberano dos céus.

Eis um mito de um deus abscôndio, anti-social, que não quer papo com suas criaturas e deseja se manter como um inacessível e distante juiz das virtudes e pecados de seus rebentos, julgando-os com olhar severo e às vezes punindo-os com hecatombes, bolas-de-fogo e condenações à danação eterna. Desta matéria são feitos os delírios humanos derramados nos livros e nos mitos ditos “sagrados”….

O que mais me interessa no mito é que os homens, neste empreendimento coletivo alucinado de tentar atingir um “contato com a divindade”, não atingiram seu objetivo: não chegaram à Harmonia ou à Comunhão, mas sim à Discórdia e à Calamidade. Por mais alto que se erguesse a torre, nenhuma altura parecia ser jamais suficiente: subiam e subiam, e não trombavam com nada além de vento, atmosfera, vazio. Nenhum deus foi encontrado nesta marcha para cima de uma humanidade ávida por contatos sobrenaturais.

A Torre de Babel não tem um final feliz para as esperanças daqueles que empreenderam a construção: é muito mais um mito que desilude, desengana e põe a fé em maus lençóis. Naquele “experimento empírico” de subir rumo ao divino, a humanidade descobriu-se insatisfeita em seu anseio e, nas palavras de John Lennon, descobrimos “above us only sky”. Ou, nas palavras do astronauta russo Yuri Gagárin, ao chegar ao espaço sideral: “Não vejo deus nenhum aqui em cima…”.

A Torre de Babel mostra o ímpeto religioso levando-nos a empreendimentos absurdos, a imensos desperdícios de energia, em busca de um Papai-do-Céu que fantasiávamos que estava sentado nas nuvens, nos julgando e nos cuidando. Como depois comprovaríamos novamente com nossos aviões e foguetes, o Céu não tem nada de Paraíso: não passa de ar atravessável, espaço vazio, quietude a-linguística, presença muda do que não está aí para satisfazer nossos corações…

Pintura de Bruegel, "Paisagem Com Queda de Ícaro"

Pintura de Bruegel, “Paisagem Com Queda de Ícaro”

Os gregos, com o mito de Ícaro, representaram algo semelhante: o ímpeto alucinado de transcender os limites humanos, que leva Ícaro a tentar alçar vôo rumo ao Sol, acaba sendo severamente punido pelo derretimento de suas asas e sua queda abismal. De certo modo, um dos temas mais recorrentes da mitologia grega, a batalha entre Diké (Justiça) e Húbris (Desmesura), encontra-se também em Ícaro. Ele foi desmesurado em sua ambição de atingir um fim inacessível aos humanos (acercar-se do Sol, abraçar os astros distantes…). Acabou pagando o preço por sua tentativa fracassada de ascender a domínios que não são os seus.

Pode-se ver no quadro de Bruegel o tamanho diminuto da cidade diante deste colosso de pedra que é a Torre de Babel, toda incompleta e imperfeita, imagem e semelhança de seus mortais artesãos. Pequenos como formigas, os trabalhadores da construção, esparramados por todos os lados, não tem a mínima visão de conjunto: é o pintor que a detêm e que põe sua perspectiva privilegiada a serviço de quem se depara com o quadro. Este quadro possibilita a quem o observa ter sua consciência imediatamente amplificada a dimensões amplíssimas. Percebam que o topo da Torre penetra nas nuvens, bem mais envolto em névoa do que os andares inferiores; no entanto, é perto do topo que a feiúra e a incompletude parecem se manifestar com mais força. Quão eloquente!

Ao rés-do-chão, súditos de joelhos se submetem em silêncio a um nobre com cetro de ouro, acompanhado por um séquito de soldados com espadas afiadas.  Se fôssemos Brechtianos e perguntássemos a opinião daqueles trabalhadores sobre a construção em que estão obrigados a trabalhar, talvez muitos expressassem sua discórdia em relação ao projeto, julgando-o absurdo, ineficaz ou mesmo terrivelmente e opressor. É bom lembrar que muitos daqueles que foram obrigados a trabalhar na construção da torre, de modo similar aos escravos que penavam para erguer as pirâmides para os faraós egípcios, foram coagidos pelos poderosos-da-vez a este extenuante labor. Pobres de todos aqueles, História afora, que foram escravizados por homens com a idéia-fixa, maníaca e mirabolante, de “ganhar o Paraíso” ou “subir até Deus” (anseios que, julgo eu, cada dia mais serão tidos como material de reflexão mais para a psiquiatria do que para a teologia…).

Hoje, os arranha-céus que, no mundo capitalista desenvolvido, enxameiam nas metrópoles, e através dos quais algumas empresas e alguns milionários parecem envoltos numa trama sinistra de competitividade babélica, parecem ter esquecido a lição original da Torre, tão magistralmente pintada por Bruegel: não há Deus algum a se encontrar em Cucolândia das Nuvens. E só há hedionda opressão no fato de escravizar milhões a projetos faraônicos de poder teológico-político.

* * * * *

moinho e cruz

O filme O Moinho e a Cruz foca sua atenção sobre outro quadro impactante e magistral de Bruegel, O Caminho da Calvário. Similar a outro excelente filme dedicado a um grande pintor – Sombras de Goya, de Milos Forman – O Moinho e a Cruz se passa também em um período histórico ainda chafurdado na medievalidade e assombrado pelos morticínios em massa ordenados pela Santa Inquisição, o braço armado da Igreja Católica.

A Inquisição, como todos sabem, era responsável pelo assassinato de pessoas tidas como hereges, descrentes, desviantes, feiticeiras, bruxas, pagãos. Foi um holocausto de milhões que foram acusados de crer nos deuses errados. Queimadas vivas eram as mulheres que preferiam louvar Dionísio a Javeh; aqueles que usassem ervas da mata e cogumelos mágicos em rituais eram decerto merecedores do suplício da roda; sequer supor a inexistência do deus que as autoridades doutorais da Igreja pregavam em seus sermões era o bastante para que a alma do incrédulo fosse prometida ao inferno, que seu caráter fosse declarado malévolo e que toda a violência contra o seu corpo estivesse justificada.

O historiador francês Jules Michelet soube narrar com eloquência inimitável estes horrores em seu livraço A Feiticeira, recomendado para qualquer um interessado em compreender como pôde a História humana chegar a tamanhas carnificinas e a tamanhos perigosos delírios…

“O Caminho do Calvário”

No filme, Bruegel (encarnado por Rutger Hauer, em um de seus melhores papéis desde Blade Runner – Caçador de Andróides) é honrado com uma descrição cinematográfica de seus métodos de trabalho que atinge alturas poéticas de inebriar. Como uma “aranha que constrói sua teia”, ele pretende “capturar” em sua obra toda a riqueza de diversidade humana que enxerga à sua volta. O quadro é pensado como uma representação de um momento da História Humana onde os mais lúcidos dentre os espectadores desejavam fazer parar o moinho do Tempo para que se pudessem consertar os males do mundo.

Pois os males são tão difíceis de remediar e curar justamente pois não cessam de modificar-se, são também eles fluidos e variáveis. O Tempo não pára e é no seio dele que devemos nos aplicar a remediar e vencer aos males que devêm. Cronos em sua fome insaciável não cessa um segundo sequer de mastigar seus filhos: nós, as devoradas criaturas do tempo. E males não faltam na obra de Bruegel e no filme dedicado a nos fazer mergulhar em seu mundo.

Os horrores vivenciados pelas massas daquela época foram espetacularmente retratados por este artista, tão imensamente talentoso que legou à posteridade retratos tão vivazes da desgraça de seu tempo: uma das personagens principais de O Caminho do Calvário é a mãe do condenado, uma velha senhora, com feições de Virgem Maria, mas que é apresentada já na velhice, ferida pelo fardo de uma experiência demasiado incompreensível e dolorosa. Esta figura se assemelha a Maria, mãe de Jesus, mas pintada cerca de 30 anos depois do assassinato de Cristo. Aquela mulher é uma das mais fortes representações de uma fraqueza absolutamente impotente, de uma tristeza profunda diante do rolo compressor das autoridades que estão executando seu filho.

Por que ele está sendo morto, este supliciado de um novo Gólgota? Principalmente pois os rigores dos tiranos da Espanha, nesta época, haviam convertido em rotina o assassinato sistemático de todos aqueles que não considerassem “bons cristãos”. Aqueles que se auto-proclamaram bons cristãos e defensores da verdade absoluta perseguiam, nestes tempos, uma seita que havia nascido no próprio seio do Cristianismo e que havia progressivamente se distinguido dele: a Reforma Protestante de Lutero já agia sobre o ar dos tempos e os defensores da nova seita já eram perseguidos pelos defensores dogmáticos das tradições antigas.

Há em Bruegel muito do zeitgeist que conduziu a horrores como o Massacre da Noite de São Bartolomeu, quando 30.000 huguenotes foram assassinados nas ruas de Paris a mando dos reis católicos, desejosos de calar a voz dos asseclas de Lutero e Calvino pelo método mais bruto conhecido: cortando-lhes as gargantas. Não é o próprio Sermão da Montanha que enuncia: “Se teu olho te escandaliza, arranca-o”?

Esta medicina grotesca, que equivale a de um médico que, para a enxaqueca de seu paciente, receitasse que ele cortasse fora a cabeça, ou de um dentista que só lidasse com cáries através da extração dos dentes, foi posta em prática também pelos piedosos defensores das “verdades sagradas” em relação aos considerados “males da alma”, também conhecidos, na linguagem dos teólogos, como “vícios” e “pecados”.

Aquilo que a Igreja Católica Apostólica Romana define como “pecado”, porém, não é assim compreendido por aqueles que são rotulados de fora como pecadores: quem louva Baco e Pã, cantando pelado pelos bosques, embriagando-se de vinhos e cogumelos, não necessariamente considera-se alguém que merece ser queimado vivo por estar ferindo um dogma eclesiástico ao qual aderem alguns monarcas supersticiosos e seu clero privilegiado…

Um quadro de Bruegel, quando compreendemos o que está por trás daquela imagem, quando conseguimos usar o quadro como uma espécie de janela que podemos atravessar rumo a um outro período histórico, tem a força e o impacto que a leitura de Voltaire ou Michelet oferece ao leitor que se aventura pelos sinistros labirintos da medievalidade.

Ao mesmo tempo, já se respira com mais liberdade em Bruegel o aroma liberador do Renascimento. Estes quadros nos ensinam também sobre o porquê da Revolução Francesa, ou melhor, nos ajudam a compreendem o que a tornou necessária. Era inevitável uma maré da revolta contra os horrores perpetrados num mundo onde vigia o dogma do Direito Divino dos Reis e onde eram correntes as carnificinas sectárias, ordenadas por certas facções religiosas contra inimigos de outras facções (e que conduziram a ciclos intermináveis de violências). Tudo isso já carrega em germe a indignação que daí brotou, a maré de oposição a este mundo babélico.

O Moinho e a Cruz é um dos melhores filmes que já vi sobre as artes plásticas: consegue a proeza de, partindo de um quadro específico, lançar o espectador para uma História repleta de horrores e de ensinamentos. A certo momento, Bruegel assim explica o significado do Moinho que ocupa a posição mais alta do quadro, envolto nas nuvens como o topo da Torre de Babel: “quase todas as representações de Deus o mostram acima das nuvens, olhando para baixo em direção à Terra com expressão de desgosto e desagrado”.

 Todos aqueles que cresceram sob a influência da doutrinação religiosa judaico-cristã conhecem esta figura de uma divindade furibunda, irascível, juiz inexorável dos pecadores, que inclusive inventou o Inferno para torturar pelas eternidades os seus desafetos. Deus é representado como uma figura que expulsa o desobediente às regras, por mais absurdas que as regras sejam. Afinal de contas, Adão e Eva deveriam por acaso obedecer à regra de manterem-se ignorantes? Porque uma Árvore onde se come Conhecimento seria proibida senão por aqueles que reinam através da Ignorância?

 Deus é representado como capaz de genocídios, como os de Sodoma e Gomorra, nos quais se mostrou especialmente homofóbico e genocida. Enfim: acreditam os crentes no monoteísmo que acima das nuvens haveria um Todo Poderoso capaz de fúria e vingança, que observa todos os atos e pensamentos dos homens, julgando-os moralmente para decidir se lhes dá a Beatitude Eterna ou o Suplício Infindo? Bruegel nos pinta este mundo com a voz discordante de quem sabe que tais fés não conduziram, no palco da História, à concórdia universal. É um pintor da luta fratricida e sectária, um retratador de horrores reais, ao invés de um propagandista ou marqueteiro de uma rósea fantasia de Redenção.

Tanto o Moinho no cimo da montanha quanto o topo da Torre de Babel roçam as nuvens mas só encontram ali a solidão.

É debaixo de um céu indiferente, todo éter e espaço transitável, que os seres na Terra penam, lutam, nascem, vivem, morrem. Da antiquíssima e lendária construção da torre que subia aos céus na Babilônia, aos atuais experimentos com arranha-céus, satélites e foguetes, a recorrente descoberta da Humanidade é a da ausência de qualquer Providência Benigna nas nuvens.

Dizem que o ateísmo não é comprovável, mas tenho minhas dúvidas: são milênios de experimentos empíricos feitos para tentar contatar um deus que permaneceu eternamente silente. E silêncio eterno é algo típico dos mortos, ou melhor, dos que não existem.

Talvez haja um deus nos confins do Universo, em alguma galáxia distante, preocupado em gerir a órbita de planetas e a incandescência de sóis de que nem temos ideia? Isso o mistério recobre. Mas o que já descobrimos é que nossos arredores galácticos estão desabitados por ETs e deuses. Apesar de só podermos dizer que não há vivalma nesta minúscula fração das redondezas galácticas que pudemos explorar deste Universo do qual desconhecemos ainda tanto…

Joseph Campbell, em O Poder do Mito, descreve dois modos opostos de se imaginar o início da aventura humana sobre a Terra: 1º) a ideia de que “caímos do céu”, tendo sido jogados aqui de uma “fonte” no alto; ou seja, uma Mão nas Nuvens nos confeccionou e depois nos fez descender ao rés-do-chão terrestre; 2º) a ideia de que emergimos do próprio seio do planeta, filhos de Mãe Gaia, rebentos da Natura Creatrix; o que eu gosto de chamar, usando uma expressão de André Gide, de teoria dos “Frutos da Terra”.

Que a primeira dessas ideias não nos tenha conduzido à concórdia e à harmonia é o que a História oferece provas em profusão. Que a segunda ideia tenha um poder maior de concretizar a fraternização, ainda resta a ser experimentado, tentado, avaliado, mas me parece muito plausível. Venceríamos o tenebroso colosso da Discórdia caso pudéssemos cessar de construir a Torre de Babel rumo a deuses que não existem e enfim nos compreendêssemos como Frutos da Terra, Filhos de Gaia, fios na grande teia terráquea em que a vida tece seu drama?


(Eduardo Carli de Moraes)

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#Cyber Museu [2a Edição]

Pieter Claesz, 1628.

Pieter Claesz, 1628.

"Sócrates Afasta Alcebíades dos Prazeres Carnansi", de Regnault (1784)

“Sócrates Afasta Alcebíades dos Prazeres Carnais”, de Regnault (1784)

"A Morte de Sócrates", por Jacques-Louis David (1787)

“A Morte de Sócrates”, por Jacques-Louis David (1787)

"O Banquete" (de Platão), por Plato's_Symposium_-Anselm Feuerbach

“O Banquete” (de Platão), por Anselm Feuerbach

"O Julgamento de Páris (Escolha entre Hera, Atenas e Afrodite)", de Enrique Simonet (1904)

“O Julgamento de Páris (Escolha entre Hera, Atenas e Afrodite)”, de Enrique Simonet (1904)

"Garota Defende-se Contra Eros", de William-Adolphe Bouguereau_(1825-1905)

“Garota Defende-se Contra Eros”, de William-Adolphe Bouguereau_(1825-1905)

Detalhe da escultura Eros e Psique,de Antonio Canova, Museu do Louvre, Paris

Detalhe da escultura Eros e Psiquê, de Antonio Canova, Museu do Louvre, Paris

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