LIVRARIA A CASA DE VIDRO: Promoção: livros do poeta Alexei Bueno, “A Juventude dos Deuses” e “Entusiasmo” por R$9,90 cada

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“Há duas definições de poesia que sempre nos pareceram, no limitado de toda definição, das melhores possíveis. Diz a primeira: a poesia é uma indecisão entre um som e um sentido. Afirma a segunda: a poesia é a arte de dizer apenas com palavras o que apenas palavras não podem dizer.” – In: Uma história da poesia brasileira, prefácio de

ALEXEI BUENO

Alexei Bueno (Rio de Janeiro, 26 de abril de 1963) é um poeta, editor e ensaísta brasileiro. Colabora em diversos órgãos de imprensa no Brasil e no exterior, é membro do PEN Clube do Brasil, e foi, de 1999 a 2002, Diretor do Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (INEPAC) do Rio de Janeiro, e membro do Conselho Estadual de Tombamento.

Como editor organizou, para a Nova Aguilar, a Obra completa de Augusto dos Anjos (1994), a Obra completa de Mário de Sá-Carneiro (1995), a atualização da Obra completa de Cruz e Sousa (1995), a Obra reunida de Olavo Bilac (1996), a Poesia completa de Jorge de Lima e a Obra completa de Almada Negreiros (1997), a Poesia e prosa completas de Gonçalves Dias (1998), além de uma nova edição da Poesia completa e prosa de Vinicius de Moraes, no mesmo ano, e a Obra completa de Álvares de Azevedo (2000). Publicou, pela Nova Fronteira, uma edição comentada de Os Lusíadas (1993) e Grandes poemas do Romantismo brasileiro (1994).

Traduziu para o português As quimeras, de Gérard de Nerval, editado pela Topbooks, também com edição portuguesa. Traduziu igualmente poemas de Poe, Longfellow, Mallarmé, Tasso e Leopardi, entre outros. Digna de nota sua tradução de O Corvo (The Raven) de Edgar Allan Poe, “grande desafio para os tradutores de poesia, pelo seu extremo virtuosismo formal”,[1] poema que já havia sido traduzido para o nosso idioma por “monstros sagrados” como Machado de Assis e Fernando Pessoa e que integra sua coletânea Cinco séculos de poesia. [SAIBA MAIS NA BIO @ WIKIPÉDIA]


Na Livraria A Casa de Vidro, adquira:

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A Juventude dos Deuses (1996)

Do prefácio de Antônio Carlos Secchin:

Um dos eixos de “A Juventude dos Deuses” é o desejo irrefreado de querer saber, e o alto preço a ser pago na empreitada – verdadeira convocação dos riscos de um saber vital e mortal, áspero roteiro rumo ao conhecimento: conhecer é abismar-se no real. Não se pode entrar a passeio nas páginas dessa Juventude. Elas nos demanda a aventura, o salto, a vertigem para o espaço insuportável do ignorado, armados apenas de um controle – literalmente – remoto de uma realidade que supúnhamos domesticada e constituída.


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Entusiasmo (1997)

“Tocado por Entusiasmo, proclamo: Alexei Bueno sabe que sabe helenizar o Rio de Janeiro. (…) Sem se abrigar no porto seguro dos velhos metros, demonstra uma síntese insuperável de Apolo e Dioniso (ou será Mallarmé e Rimbaud?) porque Bueno sabe se descartar da síndrome de antiquário e buscar os rugidos das altas febres e das altas inquietações. (…) Aqui advirto: Alexei, possuído por deuses diversos, identificando-se com o mendigo conspurcando as esquinas do centro do Rio, não pratica poesia-perfumaria. Paradoxal elegia e ode, agonia e euforia da perda do eu, poesia de substância espermática: Entusiasmo, o produto garante o nome.” (Waly Salomão)


ASSISTA TB:

Acesse na Estante Virtual: 

A Juventude dos Deuses (1996) [R$9,90 + frete]

Entusiasmo (1997) [R$9,90 + frete]

Foto do início do Post: Travessa – Alexei Bueno e Flavia Portela no lançamento da obra “Rio Belle Époque”

“PRAGA” – por Ceumar (de Luiz Tatit e Dante Ozzetti) #SeLigaNoSom!

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“PRAGA”
Cantada por Ceumar
Composição de Luiz Tatit e Dante Ozzetti
Do álbum Achou

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Como que cê fala que eu tô fadada
a ser um monstro que eu não sou?
Como que cê fala que sou bruxa,
toda estrupiada, se eu não sou?
Você fala tanto que até sinto que
deu bruxa em mim, como eu sei?
Fiquei ruim

Como que cê fala que sou matraca,
grilo falante, se eu não sou?
Como que cê fala que sou praga
de urucubaca se eu não sou?
Você fala tanto que até sinto que
deu praga em mim, agora eu tô que tô assim

Vem ver: a bruxa baixou
tudo broxou, manchou a paz
Sim, o monstro mostrou
antros da dor, mantras fatais
Sim, matraca atracou
tudo entregou, falou demais
Viu, a praga pregou
E não desprega mais!

NA LIVRARIA A CASA DE VIDRO: Obra poética reunida de Ana Cristina César (1952-1983), Companhia das Letras, 2016, 4ª Edição, Posfácio de Viviana Bosi

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“Conheces a cabra-cega dos corações miseráveis?”
Ana Cristina César em “Sexta-Feira da Paixão”,
poema do livro A Teus Pés [1982], 2016, p. 111.

[Comprar Poética – Cia das Letras, 2016 @ Livraria A Casa de Vidro]

Homenageada da FLIP 2016, “expoente da literatura marginal brasileira nos anos 70” e “ícone literário de sua geração” (para citar o El País Brasil), Ana Cristina César renasce das cinzas neste livro-antologia, Poética (Cia das Letras, 2013). Lançado 30 anos após seu suicídio, em 1983, quando tinha vivido apenas 31 anos, Poética reúne toda a produção de poesia e prosa da Ana C., incluindo também aos desenhos de próprio punho e alguns facsímiles de seus manuscritos. O livro traz posfácio da professora Viviana Bosi (a filha de Ecléa e Alfredo Bosi), da FFLCH/USP, além de apresentação por Armando Freitas Filho e vários textos anexos, de resenhas publicadas nos jornais sobre seus livros a ensaios de análise biográfica e estética.

Através deste livro, mergulhe a fundo na obra desta poetisa nascida no Rio de Janeiro, em 1952, que formou-se em Letras pela PUC-Rio e depois tornou-se mestre em dose dupla: fez mestrado em comunicação social pela UFRJ e em teoria e prática da tradução literária pela Universidade de Essex (Inglaterra) – onde realizou elogiados trabalhos traduzindo, por exemplo, Bliss de sua adorada Katherine Mansfield (1888-1923). Em 1975, Ana Cristina César despontou integrando a antologia 26 Poetas Hoje (1975), compilada por Heloísa Buarque de Hollanda.

COMPRE "26 POETAS HOJE"

COMPRE “26 POETAS HOJE”. Participaram da antologia os poetas:  Poetas: Francisco Alvim, Carlos Saldanha, Antônio Carlos de Brito, Roberto Piva, Torquato Neto, José Carlos Capinan, Roberto Schwarz, Zulmira Ribeiro Tavares, Afonso Henriques Neto, Vera Pedrosa, Antonio Carlos Secchin, Flávio Aguiar, Ana Cristina Cesar, Geraldo Eduardo Carneiro, João Carlos Pádua, Luiz Olavo Fontes, Eudoro Augusto, Waly Salomão, Ricardo G. Ramos, Leomar Fróes, Isabel Câmara, Chacal, Charles, Bernardo Vilhena, Leila Miccolis.

soneto-ana-cristina-cesarSobre Ana Cristina César, Caio Fernando Abreu deixou-nos uma retrato lapidar, publicado na primeira edição de A Teus Pés pela Editora Brasiliense, em 1982: “fascinada por cartas, diários íntimos ou o que ela chama de ‘cadernos terapêuticos’, Ana C. concede ao leitor aquele delicioso prazer meio proibido de espiar a intimidade alheia pelo buraco da fechadura. (…) A Teus Pés revela finalmente, para um grupo maior, um dos escritores mais originais, talentosos, envolventes e inteligentes surgidos ultimamente na literatura brasileira.”

Já Italo Moriconi escreve que “os amantes da poesia poderão constatar ao lerem  este livro como era avançada a pesquisa poética de Ana C. naqueles idos dos anos 1970 e início dos 1980, buscando radicalizar e narrativizar a sintaxe do poema conversacional que, se por um lado retomava dicções modernistas (algum Mário, muito Drummond, todo o Bandeira, ecos de T.S. Eliot e Baudelaire), por outro as desviava num sentido pop que não parasitava, e sim fagocitava literariamente, com esperteza e ironia, o rock, o rádio, o sexo, as cenas de cinema, a hiperestesia pós-moderna, os embates de um feminismo inquieto.”


ALGUNS POEMAS:

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QUANDO CHEGAR

Quando eu morrer,
Anjos meus,
Fazei-me desaparecer, sumir, evaporar
Desta terra louca
Permiti que eu seja mais um desaparecido
Da lista de mortos de algum campo de batalha
Para que eu não fique exposto
Em algum necrotério branco
Para que não me cortem o ventre
Com propósitos autopsianos
Para que não jaza num caixão frio
Coberto de flores mornas
Para que não sinta mais os afagos
Desta gente tão longe
Para que não ouça reboando eternos
Os ecos de teus soluços
Para que perca-se no éter
O lixo desta memória
Para que apaguem-se bruscos
As marcas do meu sofrer
Para que a morte só seja
Um descanso calmo e doce
Um calmo e doce descanso.

Julho / 1967
p. 141


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Tantos poemas que perdi.
Tantos que ouvi, de graça,
pelo telefone – taí,,
eu fiz tudo pra você gostar,
fui mulher vulgar,
meia-bruxa, meia-fera,
risinho modernista
arranhando na garganta,
malandra, bicha,
bem viada, vândala,
talvez maquiavélica,
e um dia emburrei-me,
vali-me de mesuras
(era comércio, avara,
embora um pouco burra,
porque inteligente me punha
logo rubra, ou ao contrário, cara
pálida que desconhece
o próprio cor-de-rosa,
e tantas fiz, talvez
querendo a glória, a outra
cena à luz de spots,
talvez apenas teu carinho,
mas tantas, tantas fiz…

Do livro “A Teus Pés”, p. 113

Bianca Comparato declama “Samba-Canção”:


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COMPRE NA LIVRARIA A CASA DE VIDRO:
Obra POÉTICA reunida de Ana Cristina César (1952-1983)
Companhia das Letras, 2016, 4ª Edição, Posfácio de Viviana Bosi.

ASSISTA:

SATIRIZANDO TEMER: Poemas-escracho de Daniel Ramos, do perfil fake @temerpoeta, mostram a potência do escracho cáustico e criativo

Nada obriga a contracultura a ser tão sisuda e truculenta quanto seus adversários, os epígonos da cultura oficial, quase sempre moralista e autoritária. A sátira é uma das armas mais afiadas que as forças libertárias, ditas “contraculturais”, podem usar para destronar aqueles que só sobem aos tronos através de “tenebrosas transações”, para relembrar Chico Buarque (ele mesmo tão capaz de brilhar os cale-se com cálices de suingado lirismo e malandra esperteza).

No Brasil, em 2016, um exemplo muito interessante, instrutivo, criativo e potente de prática cultural, a um só tempo crítica e lúdica, são os trabalhos de escracho-arte do Daniel Ramos. Criador do perfil fake @temerpoeta, que rapidamente logrou atingir certo hype na cibercultura, ainda que não ao ponto de viralizar como clipes-só-de-nudes-da-Clarice Falcão, o Daniel Ramos é o criador da revista Caroço (disponível na livraria A Casa de Vidro por R$12) e autor de alguns dos petardos mais bem atirados à testa do usurpador que ora nos desgoverna lá do Palácio do Planalto.

Brasília(DF), 27/04/2016 - Michel Temer e Aécio Neves visitam Renan Calheiros - Foto: Michael Melo/Metrópoles

Brasília(DF), 27/04/2016 – Michel Temer e Aécio Neves visitam Renan Calheiros – Foto: Michael Melo/Metrópoles

 O deboche também é uma arma do levante popular antigolpista e nisto iniciativas como a de Daniel Ramos ganham uma dimensão que vai além do humor de entretenimento. Ainda não conheço pensadores e artigos que tenham se debruçado sobre este fenômeno social efervescente que é o escracho como forma de manifestação política, algo que tem decerto uma contundente tradição no Brasil (como o Pasquim em sua cruzada anti-careta e anti-canhões, antagonizando a ditadura militar do Brasil a golpes de charges e anedotas), mas que ganha novos contornos hoje com a cultura dos memes e com uma cibercultura infestada pelo fenômeno da trollagem. 

É minha aposta, provocativa, de que para além das gangues e hordas de trolls fascistas que, na internet, deixam extravasar todo seu repugnante racismo e elitismo, pedindo Bolsonaro como presidente ou exigindo intervenção militar seguida de fuzilamentos de veados tipo o Jean Wyllys, existe também no âmbito da esquerda uma insurreição sócio-política que sabe utilizar-se das armas do humor e que – eis minha provocação – sabe trollar as pessoas certas (os opressores, os golpistas, os plutocratas, os tiranos em conluio com juntas financeiras…).

A esquerda também trolla, e isto se torna bem evidente diante de fenômenos recentes, como aqueles protagonizados pelo Levante Popular da Juventude, que realizou escrachos na frente da mansão do interino-inelegível em São Paulo, ou da Frente Povo Sem Medo e MTST que estrondosamente manifestaram com fogos de artifício seu repúdio ao papel da Fiesp (sediada na Av. Paulista e presidida por Skaf) no golpe de Estado. Artistas como Laerte, Angeli, Latuff, Dahmer, Aroeira, Vitor Teixeira, Rafucko, também demonstraram neste 2016, através da criação de espantosa e prolífica obra, que no Brasil temos pelo menos o consolo, após este ano tenebroso de tantos retrocessos, de que por aqui o senso crítico não morre tão fácil e segue super alerta e operante em nossos melhores comediantes e cartunistas – cáusticos e espertos agentes de um escracho libertário, aos quais se junta uma legião de nomes menos conhecidos, mas também atuantes na criação de uma cultura brasileira contestatória.

Também percebo enquanto cinéfilo que alguns dos filmes que mais me impressionaram por sua capacidade crítica e por sua contundência de denúncia são obras como A Ditadura Perfeita, do mexicano Luis Estrada, e O Ditador, de Sacha Baron Cohen, duas comédias que demonstram o quanto o escracho e a trollagem estão sendo mobilizadas de modo construtivo-crítico bastante instigante, incidindo sobre fenômenos como a manipulação de massas induzida pelos consórcios midiáticos e partidos políticos hegemônicos, revelados a golpes de piadas como uma pantomima grotesca de democracia, uma democracia falsa e de fachada que encobre a tragicomédia obscena de uma plutocracia ultracapitalista, desmiolada e rasa, que apenas constrói Pontes Para o Abismo da austeridade e do apartheid social.

Uma boa matéria em Hypeness destaca o trabalho do Daniel Ramos nos seguintes termos:

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temer-poetaQue o presidente interino Michel Temer é poeta, já vazou na internet. Mesmo tendo publicado o livro Anônima Intimidade, em 2012, foi só depois que chegou ao poder que a fama dos seus versos viralizou de vez – principalmente após a reportagem da Veja sobre a Marcela bela-recatada-e-do-lar Temer, em que uma de suas poesias é usada para ilustrar a relação dos dois.

Agora, a veia poética do presidente ganhou sua primeira paródia na rede: o perfil do Twitter @TemerPoeta, que brinca com diversos aspectos da política nacional, além de fazer piada com a possível relação de Temer com o satanismo. Segundo a Época, o criador da conta é Daniel Ramos, um funcionário público de Brasília, também poeta. A data de nascimento que aparece no perfil falso é de 8 de maio de 1896 – seria a mais antiga permitida pela rede social.

As seguintes sátiras saíram na segunda edição da revista Caroço:

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SONETO DE BESTIALIDADE

Releitura do ‘Soneto de Fidelidade’ de Vinícius de Moraes

De tudo a Belzebu serei atento, antes
e com tal zelo, e sempre, e tanto
que mesmo a alface no sorriso branco
seja na sua boca ornamento

quero invocá-lo em cada pé-de-vento
e em seu louvor hei de investir no banco
metade dólar, meta franco
ou o que sobrar depois do parlamento

e assim quando mais tarde me procure
quem sabe a sorte (angústia de ser vice)
quem sabe a lava-jato (fim de quem dança)

eu possa me dizer do brasil (que tive)
que não seja europeu, posto que é bamba
mas que seja lucrativo enquanto dure

* * * *pecunia

Para mais pérolas, siga Daniel Ramos, o @temerpoeta, lá no Twitter.


SIGA VIAGEM:

ALGUMAS OBRAS DA ESCRACHO-ART BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA

5 DOSES DE VITOR TEIXEIRA:
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vitor-t-5
vitor-t-kafka
vitor-t
vitor-teixeira-2

5 DOSES DE AROEIRA:


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aroeira3
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UM ÚTERO É DO TAMANHO DE UM PUNHO – Um livro de poesia de Angélica Freitas (Cosac Naify, 2013, 96 pgs) @ Livraria A Casa de Vidro

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UM ÚTERO É DO TAMANHO DE UM PUNHO
Um livro de poesia de Angélica Freitas (Cosac Naify, 2013, 96 pgs)
COMPRE @ Livraria A Casa de Vidro
Eleito o melhor livro de poesia pela Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA) em 2012

CARLITO AZEVEDO: “Angélica consegue criar. Já nos primeiros versos de qualquer poema seu, há uma atmosfera feliz e profanadora que nos convida a relativizar o gigantismo de certos sentimentos solenes que por muito tempo quiseram, e ainda hoje querem, se fazer passar pela poesia mais autêntica, pela mais sensível forma de se viver um estado poético. Com ela não tem autor sagrado, não tem sentimento hierarquicamente superior (ela mesma já se definiu certa vez como a “patinha sem pathos”), o que tem é a força do poema nascendo do contato furioso da existência, como uma sonda enviada para investigar todos os sentimentos que ainda não vivemos, como uma transparência através da qual se quer ver as pessoas de agora, nas ruas de agora, falando a língua de agora, sentindo os sentimentos de agora. Nesse sentido, ela se inscreve numa esplêndida tradição da poesia universal: a tradição da antipoesia de um Nicanor Parra, o maior poeta chileno do século, de uma Susana Thénon, o segredo mais bem guardado da poesia argentina, e de  uma Adília Lopes, a portuguesa mais brasileira desde Carmem Miranda. Para os poetas dessa tradição, o poema é a arma mais potente para desmontar as armadilhas que o tempo dispõe à nossa frente o tempo todo. Penso que a armadilha da identidade (sexual, política, nacional etc.), que nos quer sempre idênticos a nós mesmos, sem possibilidade de metamorfose, é aquela que, até agora, mais mereceu os disparos certeiros de Angélica.”

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LEIA ALGUNS POEMAS DE
UM ÚTERO É DO TAMANHO DE UM PUNHO

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a mulher quer ser amada

a mulher quer um cara rico

a mulher quer conquistar um homem

a mulher quer um homem

a mulher quer sexo

a mulher quer tanto sexo quanto o homem

a mulher quer que a preparação para o sexo aconteça lentamente

a mulher quer ser possuída

a mulher quer um macho que a lidere

a mulher quer casar

a mulher quer que o marido seja seu companheiro

a mulher quer um cavalheiro que cuide dela

a mulher quer amar os filhos,  o homem e o lar

a mulher quer conversar pra discutir a relação

a mulher quer conversa e o botafogo quer  ganhar do flamengo

a mulher quer apenas que você escute

a mulher quer algo mais do que isso, quer amor, carinho

a mulher quer segurança

a mulher quer mexer no seu e-mail

a mulher quer ter estabilidade

a mulher quer nextel

a mulher quer ter um cartão de crédito

a mulher quer tudo

a mulher quer ser valorizada e respeitada

a mulher quer se separar

a mulher quer ganhar, decidir e consumir mais

a mulher quer se suicidar

uma canção popular (séx. XIX-XX):

uma mulher incomoda

é interditada

levada para o depósito

das mulheres que incomodam

loucas louquinhas

tantãs da cabeça

ataduras banhos frios

descargas elétricas

são porcas permanentes

mas como descobrem os maridos

enriquecidos subitamente

as porcas loucas trancafiadas

são muito convenientes

interna, enterra

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era uma vez uma mulher que não perdia

a chance de enfiar o dedo no ânus

no próprio ou no dos outros

o polegar, o indicador, o médio

o anular ou o mindinho

sentia-se bem com o mindinho

nos outros, era sempre o médio

por ela, enviava logo o polegar

não, nenhuma consequência.

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COMPRE UM ÚTERO É DO TAMANHO DE UM PUNHO @ Livraria A Casa de Vidro

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LEIA A SÉRIE DE POEMAS “UMA MULHER LIMPA”

LEIA “MICRO-ONDAS”

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ASSISTA:
Noite Literária # Angélica Freitas – agosto de 2016

Em Berlim (2007)

Angélica Freitas e Antônio Cícero

EXPLORE ALÉM: MusaRara – Ovelha

CONFIRA TAMBÉM:
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MURILO MENDES, “As Metamorfoses” (1938 – 1941) e “Convergência” (1970) – 2 livros de poesia @ Livraria A Casa De Vidro

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MURILO MENDES, “As Metamorfoses” (1938 – 1941)
Adquira o seu na Livraria A Casa De Vidro
(Cosac Naify, 2015, novo, 160 pgs)

murilo-meta“Escrito entre 1938 e 1941, durante alguns dos momentos mais dramáticos da Segunda Guerra Mundial, este livro de Murilo Mendes aponta para a necessidade da poesia e da transcendência em um mundo em que elas pareciam ter desaparecido por completo. Foi publicado em 1944, quando a 2ª Guerra Mundial encaminhava-se para o seu final, deixando porém um rastro de destruição nunca antes visto pela humanidade. Figuras da poesia de Murilo Mendes como a mulher, o pássaro, os peixes, o piano e as nuvens, chocam-se com a antipoesia de tanques, granadas e populações emigradas. O poeta dedica seu livro ao gênio da música Wolfgang Amadeus Mozart, pois queria avançar posições simbólicas em território ocupado e dizer que a Áustria não era somente a terra natal de Adolf Hitler – ambos são aludidos no verso em que “as espadas dos tiranos retalham as partituras das sinfonias austríacas”. Através de um lirismo que evoca “auroras que se levantam de muletas”, Murilo Mendes evoca táticas de criação que remetem ao surrealismo e ao mesmo tempo dialoga com momentos altos de nossa lírica moderna (Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade etc). Editado pela Cosac Naify, este volume reúne as obras “As Metamorfoses” (1938) e “O Véu do Tempo” (1941), e contêm ainda um artigo de Lauro Escorel e um posfácio de Murilo Marcondes Moreira.

Compre já na livraria virtual d’A Casa de Vidro na Estante Virtual.

Confira abaixo alguns poemas, na íntegra:

O POETA FUTURO

O poeta futuro já se encontra no meio de vós.
Ele nasceu da terra
Preparada por gerações de sensuais e de místicos:
Surgiu do universo em crise, do massacre entre irmãos,
Encerrando no espírito épocas superpostas.
O homem sereno, a síntese de todas as raças, o portador da vida
Sai de tanta luta e negação, e do sangue espremido.
O poeta futuro já vive no meio de vós
E não o pressentis.
Ele manifesta o equilíbrio de múltiplas direções
E não permitirá que algo se perca,
Não acabará de apagar o pavio que ainda fumega,
Transformando o aço da sua espada
Em penas que escreverão poemas consoladores.

O poeta futuro apontará o inferno
Aos geradores de guerra,
Aos que asfixiam órfãos e operários.

* * * * *

FIM

Eu existo para assistir ao fim do mundo.
Não há outro espetáculo que me invoque.
Será uma festa prodigiosa, a única festa.
Ó meus amigos e comunicantes,
Tudo o que acontece desde o princípio é a sua preparação.

Eu preciso presto assistir ao fim do mundo
Para saber o que Deus quer comigo e com todos
E para saciar minha sede de teatro.
Preciso assistir ao julgamento universal,
Ouvir os coros imensos,
As lamentações e as queixas de todos,
Desde Adão até o último homem.

Eu existo para assistir ao fim do mundo,
Eu existo para a visão beatífica.

* * * * *

PATERNIDADE

Desce dos pensamentos de ódio e maldição,
Desce da fronteira do tédio:
Eu te dedicarei uma vida de espanto,
Eu te dedicarei um buquê de estrelas.
Espero-te continuamente no limiar do universo
Com todas as formas acesas,
Com a sinfonia dos elementos e o coro solene.
Por que não te vestes com a roupa das flores,
Por que não prendes ao pescoço o colar da manhã
Para vires até mim?
Ó filha pródiga,
Sei que procuraste o bem no mal.
Sei que procuraste o infinito no finito.
Vem, filha pródiga,
Encontrarás em mim o pai que não tiveste,
Encontrarás em mim, fundidas para sempre,
A loucura e a lucidez.

Saiba mais 

Compre o livro

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“Convergência” (1970) é o último livro de poesia que Murilo Mendes publicou em vida. Ele já era um veterano reconhecido como um dos maiores poetas brasileiros, mas o volume possui o frescor da novidade. Traz formas e tons completamente novos na trajetória do já então consagrado poeta. Visto como referência central para nossa literatura moderna – assim como Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto – Murilo Mendes tomava, desse modo, um caminho paralelo ao da geração dos concretistas, que haviam renovado a cultura brasileira ao longo da década de 60. Ele era personalidade ecumênica, e é justamente a partir de Convergência que esse traço se expõe abertamente no conjunto da sua obra. Por meio dos muitos “murilogramas” que formam um dos núcleos do livro, ele se dirige a um amplo leque de artistas de sua estima, incluindo Bach e Anton Webern, Li-Po e Fernando Pessoa, Maiakóvski e Ezra Pound.  (COSAC NAIFY – 2014 – 254 pgs – COMPRE NA LIVRARIA A CASA DE VIDRO @ ESTANTE VIRTUAL)

LEIA TRECHOS DE CONVERGÊNCIA

GRAFITO SEGUNDO KAFKA
K:
Todos falam da morte paralém:
Eu falarei da morte paraquém.

Os dois K do meu nome: num só nome.
O F comprimido entre dois A, dois K.
Pobre deste nome sem esfera. Só ângulo.

Nada se explica. Tudo se destrói
E tudo se transforma – para outrem.

Sinto-me a desprazer na casa de um qualquer.
Toda casa é uma praça, e na praça quem sou?

Não pedi para nascer, não escolhi meus pais.
Fui imposto a mim próprio. O enigma permanece.

Murilo Mendes
Roma, 1964
p. 74

* * * *

 

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

MURILOGRAMA A FERNANDO PESSOA

Regressando sempre do não-chegar,
O gume irônico da palavra
Pronto a estimular-te o sólido ócio
De guarda-livros do Nada.
Não dás o braço a. Dás-te o braço.

Guardas o cansaço de quem palmilhou
Quilômetros de palavras camufladas
Em Ode adversativa: a ti adere
Sob o látego dum céu que não consentes
Donde se debruçam Parcas eruditas:
E ainda a contrapelo atinge o cosmo.

Exerces o fascínio
De quem autocobaia se desmembra
A fim de conhecer o homem no duro
Da matéria escorchada.
Ninguém alisa teu corpo e teu cabelo.

Sebastianista duma outrora gesta, dramaturgo
Retalhas o não-acontecido que te oprime
E determina o eterno contingente
Na área do sem-povo, já que o povo
Ao Fatum reduzido, desnavega.

Por sono sustentado e aspirina,
Sofista manténs a música que não tens
Entre dez dedos dividida. Morse transmitindo o não do sim,
Já isento em vida do serviço de viver. Anúmero.

Quanto a mim adverso ao Nada, teu ímça,
Eis-me andando nas ruas do gerúndio.
Ensaio o movimento, voo portátil.
Devolvo-te grato o que não me deste,
Admiro-te por não dever te admirar,
Na linha da atração reversível dos contrários
Contrapassantes.”

Murilo Mendes
Roma, 1964
Convergência – p. 99
Comprar livro

Adquira também Metamorfoses

 

O ARCO E A LIRA, de Octavio Paz [1914-1998] (Cosac Naify, 2012) @ LIVRARIA A CASA DE VIDRO (Compre via Estante Virtual)

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A imagem do arco e da lira foi extraída, por Octavio Paz  [1914-1998], da obra de Heráclito e “alude à luta dos opostos que a poesia transforma em harmonia, ritmo e imagem” (p. 14).

Celebrado por Julio Cortázar  como “o melhor ensaio sobre poética que já se escreveu na América” (p.11), O Arco e a Lira é uma obra onde Paz, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 1990, busca “elucidar a natureza da vocação poética e a função da poesia nas sociedades” (p. 13).

Ele não parte de um interesse meramente teórico, já que Octavio Paz é um poeta praticante, que pensa “criação e reflexão como vasos comunicantes” (p. 14).

Seu interesse por poesia é visceral, existencial, e as perguntas que visa responder lhe perseguem desde a primeira juventude: “Que sentido havia na obstinação de escrever poemas? Diante da vida, não era uma deserção? E diante do desmoronamento de todos os absolutos, não eram um consolo mentiroso e uma magia culpada?” (p. 14)

Definir o poético em uma frase seria como querer pôr arame farpado no oceano: a poesia transborda todas as definições que tentarmos dar dela. Octavio Paz prefere explorar à fundo, com a mente livre, ao invés de petrificar o poético num conceito fixo, mas arrisca generalizações misteriosas como: “Cada poeta é um pulsar no rio da linguagem.” (p. 13)

Tudo flui, diria Heráclito, e isso certamente vale também para a linguagem: o fato de ser um mexicano escrevendo poesia em espanhol no século conhecido como XX depois de Cristo é algo que coloca, no epicentro da reflexão de O Arco e a Lira, a relação do poeta individual com uma tradição histórica.

Se há um “rio da linguagem”, a paisagem que ele atravessa é o da história. “Sinto-me parte de uma tradição que começou junto com a língua espanhola; nossa língua e nossa poesia, por sua vez, são um afluente da grande tradição que começou com os primeiros homens e que só acabará quando nossa espécie emudecer.” (p. 13)

ENTREVISTA – PROGRAMA “AL FONDO” (1h24min)

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Shiva – a divindade que dança

TRECHOS DE O ARCO E A LIRA:

“Toda vez que se procura explicar as noções de Yin e Yang – os dois ritmos alternantes que formam o Tao – recorre-se a termos musicais. Concepção rítmica do cosmos, o par Yin e Yang é filosofia e religião, dança e música, movimento rítmico impregnado de sentido. Do mesmo modo, não é um abuso da linguagem figurada, mas alusão ao poder significante do som, o emprego de expressões como harmonia, ritmo ou contraponto para qualificar as ações humanas. (…) Não há cores nem sons em si, desprovidos de significação: tocados pela mão do homem, eles mudam de natureza e adentram o mundo das obras. E todas as obras desembocam no significado; o que o homem toca se tinge de intencionalidade: é um ir para… O mundo do homem é o mundo do sentido. Ele tolera a ambiguidade, a contradição, a loucura ou o embuste, não a carência de sentido. O próprio silêncio é povoado de signos.” (p. 28)

“Na prosa a palavra tende a se identificar com um de seus possíveis significados, em detrimento de outros: pão, pão; queijo, queijo. Essa operação é de caráter analítico e não se realiza sem violência, já que a palavra tem vários significados latentes, é determinada potencialidade de direções e sentidos. O poeta, em compensação, jamais atenta contra a ambiguidade do vocábulo. No poema a linguagem recupera sua originalidade primeira, mutilada pela redução que a prosa e a fala cotidiana lhe impõem… A palavra, finalmente em liberdade, mostra todas as suas vísceras, todos os seus sentidos e alusões, como um fruto amadurecido ou como os fogos de artifício no momento em que explodem no céu. O poeta põe sua matéria em liberdade. O prosador a aprisiona.” (p. 30)