Orquestras nas Favelas: Desafios da inclusão cultural e da educação democratizada são retratados no filme “Tudo Que Aprendemos Juntos” (2015), de Sergio Machado

“Tudo que Aprendemos Juntos” (2015), do cineasta baiano Sergio Machado, estrelado por Lázaro Ramos e com participações dos rappers Criolo e RAPPIN HOOD, elege o ensino da Música numa comunidade desfavorecida pela Fortuna como premissa para explorar as fraturas e desafios da sociedade brasileira, enxergada através de um de seus microcosmos-em-convulsão: a favela de Heliópolis (SP).

O filme centra sua narrativa no professor de violino Laerte, considerado em sua infância como um músico prodígio, de ascensão meteórica, transformado em educador “durão” e não muito paciente.

Ele realiza aventuras pedagógicas na favela trampando para uma ONG: sua missão é conduzir alunos que não sabem ler partituras, e que estão mais acostumados com os bailes funk e os rappers do que com as composições de Beethoven, a se tornarem uma autêntica orquestra de música clássica.


Enquanto avança neste trampo desafiador em que entra em contato com uma série de mazelas sociais que afligem seu alunado, Laerte esforça-se para passar em um prestigioso concurso que lhe abriria as portas para tocar na Osesp – Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo.

A crítica de Omelete destaca:

“Audacioso quando o assunto é Paganini, mas temeroso frente à dificuldade dos acordes de Bach, Laerte cresceu pobre na Bahia e teve chance de estudar violino quando pequeno com o apoio do pai (expresso apenas na voz de Milton Gonçalves).

Figuras como ele são frutos do redesenho sociológico do Brasil tracejado a partir da eleição de Luiz Inácio Lula a Silva em novembro de 2002: ele é conseqüência de um rearranjo da pirâmide social do país, com o desequilíbrio da classe média e a ascensão das parcelas C e D da pirâmide populacional.

Com o acesso destas ao consumo, elas passaram a se subjetivar aos olhos da arte, sobretudo do cinema, que deixou de ver essas classes apenas quantitativamente, como números de censo, e passou a vê-las sob um prisma qualitativo, entendo suas angústias suas necessidades. Dessa operação surgiram personagens como a doméstica Val, vivida por Regina Casé em ‘Que Horas Ela Volta?’, de Anna Muylaert. Val e Laerte têm, portanto, uma parentela sociológica.”

O filme de Sergio Machado foi inspirado na história real de criação da Orquestra Sinfônica de Heliópolis pelo Instituto Bacarelli e baseado na peça “Acorda Brasil” de  Antônio Ermírio de Morais. A grande imprensa já destacou a iniciativa: como nesta matéria de VEJA que fala na “beleza altissonante” deste projeto e o evidencia com “reportagem fotográfica que mostra a revolução que o projeto do Instituto Baccarelli tem promovido na vida de jovens da favela”.

Fotos: Ricardo Matsukawa

O filme revela as dificuldades e desafios de um professor que busca orquestrar alunos envolvidos no cenário dificultoso das periferias onde a violência policial, as gangues do narcotráfico, os atalhos criminosos para a grana fácil (como a clonagem de cartões de crédito), dentre outras tretas, parecem tornar altamente improvável o sucesso de uma Orquestra Clássica da Perifa. Apesar dos perrengues, estes batalhadores da ralé (para emprestar expressões do sociólogo Jessé Souza) vão longe. Ainda que muitos tenham suas asas cortadas. A tiros.

Na resenha de Plano Crítico, destaca-se que este “filme de inclusão”, de tom “engajante”, traz os cidadãos favelados em uma vibe em que são revelados em todo o seu potencial para o extraordinário – como é o caso de Samuel, adolescente ultra-talentoso no violino, talvez destinado à glória, mas que tem sua vida ceifada prematuramente pela violência urbana:

“O ambiente de favela (ou comunidade), em geral ligado a um estilo musical como o funk ou o pagode é “invadido” pelo clássico e Sérgio Machado o faz de forma poética e orgânica, quebrando o tabu de que tais melodias são excludentes e reservadas apenas a pessoas de maior poder aquisitivo. A cultura pode, sim, atingir a todos e o clássico ganha ainda um caráter único por resgatar no interior de cada um sentimentos muito específicos.”

Acusado pela Ilustrada da Folha de São Paulo de “otimismo” em demasia, o que o tornaria “inverossímil”, o filme na verdade é bastante realista, de tom emocional bem lúcido. Mostra com uma boa dose de pessimismo, no destino de Samuel, a aniquilação brutal de jovens negros promissores que não conseguem romper as muitas barreiras que o racismo e a injustiça de classe interpõe a seus caminhos.

Ainda que uma leitura meritocrática possa ser realizada, como se Laerte fosse o emblema do quanto se pode ir longe na vida a partir do próprio mérito, uma outra perspectiva é possível. Uma leitura alternativa à ideologia meritocrática veria no filme o conto trágico sobre as imensas dificuldades que as populações periféricas e faveladas possuem para acessar uma Cultura que nossa sociedade insiste em considerar como privilégio de classe.

Transcendendo o clima de filme-de-entretenimento sobre a escolinha-de-música que marca uma obra como “Escola de Rock” (de R. Linklater), a obra de Sergio Machado atinge sua maior grandeza e intensidade em uma cena particularmente enfurecida em que uma insurreição toma conta de Heliópolis após a polícia assassinar Samuel, o garoto-promessa da turma de música.

Este homicídio estatal de alguém que a comunidade reconhece como inocente e cheio de potencial é descrito no filme como estopim para uma sublevação popular que acarreta um desencadeamento de rebeldias. O levante toma a forma de ônibus incendiados, barricadas improvisadas e violentos conflitos com a polícia, xingada de assassina e cruel – e os “porcos fardados” são aqueles que os moradores tentam expulsar da comunidade como se estivessem numa Intifada Palestina.


É nestas cenas que “Tudo Que Aprendemos Juntos” alça-se à beleza punk e perturbadora de uma outra obra que marca a história recente do cinema paulista, “Riocorrente” de Paulo Sacramento. Dialoga também com o “Jonas” de Lô Politi – que tem na participação em ambos do Criolo, fazendo ponta como ator, um ponto-de-ligação -, obra que se utiliza do Carnaval de São Paulo, e em especial de um carro alegórico que é uma imensa baleia, como cenário onde aninhar um drama incendiário de paixão indomável, sequestro improvisado e esperanças reduzidas a cinzas.


Alguns sonham com um país onde enfim floresçam orquestras nas favelas e escolas de qualidade nos guetos. Alguns colocam-se em ação para a construção coletiva de uma educação mais inclusiva e democrática. O próprio ideal da Cultura Viva de Gilberto Gil e Juca Ferreira, através do revolucionário do-in antropológico que espalhou pontos de cultura interconexos pelo território do país, hoje encontra-se detonado e mal pago pelo Bozonazismo que pilota o Estado feito um ébrio (de ópio, de ódio!) no leme dum Titanic. Aos sonhadores de melhores dias para a educação e a cultura, o presente pode assustar pelo pesadelo pesado de sua distopia: tudo é tão difícil e fica tão emperrado neste país que parece condenado, como dizia Millôr, a ter “um longo passado pela frente”!

Ao fim de Tudo Que Aprendemos Juntos fica na boca, na mente, na ressaca dos olhos, uma confusa resposta à questão que o título coloca: talvez não tenhamos aprendido muito, como país, já que seguimos tombando em velhos erros e insistindo em sórdidos equívocos (como empoderar homens brancos e ricos com tendências autoritárias, ímpetos ditatoriais e idolatrias por torturadores e genocidas…).

Encarnados na expressão e na postura deste magistral artista que é Lázaro Ramos ficam a agridoce e indignante sensação de que, neste país de desigualdades desastrosas e injustiças indignantes, mesmo os mais batalhadores e talentosos muitas vezes acabam triturados e detonados pela Máquina de Desumanização vigente. Quantas Marielles, quantos Samuels, ainda vão ter que morrer?

Os poucos que, saindo do gueto, tornam-se “vencedores” – como Laerte na Osesp – não nos oferecem o consolo edulcorante e enjoativo fornecido pela Meritocracia, ideologia anestesiante propagada por quem está acima na pirâmide social. Estes poucos que vencem nos lembram de que são exceções e não regras, e que as injustiças ancestrais e infelizmente conservadas – como o racismo estrutural – prosseguem tornando a ideologia meritocracia uma piada de mau gosto.

Longe de vivermos a utopia onde triunfam os melhores e mais meritórios, a sensação que sobra é a de um sempre tenso e explosivo conflito entre a Elite do Atraso, ciosa de seus privilégios e que usa a brutalidade da força para defendê-los, e a Massa Excluída, que pastores e políticos desejam convencer à resignação mas que está sempre a um passo da insurreição.

Eduardo Carli de Moraes / A Casa de Vidro

 

SIGA VIAGEM:

PROPOSTA DE OUTROS FILMES PARA DEBATER OS DESAFIOS DA EDUCAÇÃO

  • ELEFANTE / Gus Van Sant
  • A ONDA  / Dennis Gansel
  • CONRACK / Martin Ritt
  • O SUBSTITUTO / Tony Kaye
  • SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS / Peter Weir
  • INHERIT THE WIND / Stanley Kramer

 

A Eternidade está apaixonada pelas produções do Tempo – Sobre Van Gogh, interpretado por Willem Dafoe, no filme de Julian Schnabel

“Eternity is in love with the productions of time.”
William Blake, The Marriage of Heaven and Hell

Cambaleando pra fora do cinema após ser atropelado pelo carrossel fílmico desnorteante de Julian Schnabel, me lembrei desta frase do poeta-pintor William Blake que afirma: “a Eternidade está apaixonada pelas produções do Tempo.”

A mirada Van Goghiana sobre o mundo, tal como fica manifesto em algumas de suas obras, era de estarrecimento pela luz inexaurível que o Sol espraia sobre tudo, girassóis e gentes.

Parece ter sido também uma mirada cheia de fascínio, entremesclado de ansiedade e angústia, diante do dínamo estrelado da noite. Algo que evoca o famoso frisson que atravessava a espinha de Blaise Pascal diante do “silêncio eterno dos espaços infinitos”. Só que para Vincent, o que estarrecia não era o silêncio espacial, mas sim os fluxos cheios de potência da Luz, mãe de todas as cores.

Só alguém capaz de estar com todos os sentidos boquiabertos diante do espetáculo natural seria capaz de representar, filtrado por seu enigmático e idiossincrático eu, o devir em sua acontecência.

O filme de Schnabel (o mesmo diretor de Basquiat e O Escafandro e a Borboleta), com sua câmera propositalmente inquieta, saltitante, que nos leva numa bumpy ride como se acompanhássemos um câmera meio ébrio, procura nos colocar no cerne da vivência do pintor em seu contato íntimo com as forças do cosmo.

Em meio aos elementos, deixando-se afetar pela natureza exuberante à sua volta, este enamorado-pela-luz parecia ser também extremamente sensível às dinâmicas da energia vibratória que a tudo anima e que todos os entes, dos mais minúsculos ao mais grandiosos, exalam e emanam em consonância com as estrelas. Viver é vibrar.

O filme No Portal da Eternidade (At Eternity’s Gate) representa, em várias cenas, uma espécie de transe místico de pendor naturalista, em que um sujeito desesperadamente em busca de transcender o Pensamento se taca em um mergulho imersivo no Cosmos que o abriga e de que faz parte.

A certo momento, dando demonstração de que sua fé era panteísta, assim como tinha sido a de seu conterrâneo Baruch Spinoza, Van Gogh sentencia: “God is Nature, and Nature is Beauty”. Aos meus ouvidos, soou assim: só a Natureza é divina, e sua essência é bela. Resta que estejamos alertas e despertos o suficiente para enxergá-lo.

Atravessando seu tempo entre os vivos como uma consciência hipersensível, maravilhada com as luzes, as cores, as sombras, as formas, os fluxos, Van Gogh nos coloca o ponto de interrogação, profundo e irrespondível, do Tempo que ele habitava e que suas obras representam.

Que tipo de Tempo, subjetivamente filtrado, habitava este pintor-poeta, frequentemente estigmatizado como louco, o hoje célebre holandês Vincent Van Gogh?

N atualidade, é claro, já nos acostumamos a ele como um morto que foi transformado em uma celebridade mundial e cujos quadros valem milhões nas mãos de marchands em elegantes leilões. Um sujeito sobre quem já foram feitos muitos filmes e sobre quem já se escreveram muitos livros, mas que em seu tempo de vida passou por peculiares experiências existenciais que tornam seu destino inimitável e como que inexaurível em seus mistérios.

Enquanto viveu, frequentemente na penúria, salvo da fome apenas pelas esmolas mensais pagas por seu irmão Theo, o Van Gogh de carne-e-osso  viveu um destino onde podemos ler o emblema daquele “matrimônio do Céu e do Inferno” que William Blake evocava em um de seus maiores livros.

Van Gogh esteve no inferno das instituições psiquiátricas. Esteve preso na camisa-de-forças e foi alvo de mortificantes hidroterapias. Teve seus quadros escorraçados pelos cidadãos-de-bem respeitáveis. Teve pastores xingando pinturas suas de lixo feio e desagradável. Foi mal-compreendido e apedrejado. A professorinha das crianças da vila podia xingá-lo de pintor incompetente diante de um quadro onde representava raízes de uma árvore. Assim, forjou-se uma figura que, no isolamento sofrido, concebeu um estilo de vida que produziu como frutos algo de inimitável e único.

Seu temperamento antisocial – “passam-se dias sem que eu converse com ninguém”, confessa ele a Gauguin a certo ponto – é notório. Com frequência, Van Gogh prefere estar só em meio à Natureza Selvagem, deixando seus sentidos entrarem em transe diante do dinamismo sem parada que constitui aquilo que os filósofos chamam de “experiência empírica”. Ele não é um devoto do lógos, mas sim um praticante da stésis. Não um contemplador passivo do mundo, mas um agente expressivo que cria imagens insólitas e inéditas, de efeitos misteriosos e atordoantes sobre a percepção de seus contemporâneos e daqueles cujos olhos ainda nem nasceram…

Este, que foi chamado de louco, testemunha o quão mentecaptos são os normais, que enxergam tão pouco das belezas e horrores do mundo, perdidos em mesquinharias e vilezas. Ele, o louco de tão sábio olhar, ensina-nos sobre o ridículo e o horroroso de um olhar domesticado, como o de um cavalo sob antolhos, que é tantas vezes, e por tanto tempo repleto de desperdício de forças vitais, o nosso – nós, os medíocres.

Assim como Nietzsche, Van Gogh fugiu do rebanho, quis ser uma ovelha negra para destoar da brancura monótona dos rebanhos monocromáticos, e acabou por se tornar um subversivo, um transtornador das fronteiras e dos limites, alguém que abre caminhos novos que depois os sábios, ao menos os mais ousados, seguirão. Em um momento do filme, lhe perguntam: “todos os pintores são loucos?” Com uma quase divina ironia, ele responde: “Não, apenas os melhores.”

Tal qual Nietzsche, Van Gogh é um pedagogo de outros viveres possíveis, distanciados da mesmice em que se comprazem os tolos normais, apalermados diante de futilidades e agressividades, sem perceber tudo o que há de grandioso e cheio de mistério da vida que nos rodeia e que nos habita.

Nietzsche dizia que sua obra só seria compreendida pela posteridade, por “espíritos livres” dionisíacos que ainda estavam por nascer, e assim endereçou sua filosofia ao futuro. Afinal, “alguns homens já nascem póstumos.” O gesto de Van Gogh é semelhante. Ele prodigalizou suas forças, pôs em ação suas exuberantes energias criativas, para ser uma espécie de sementeiro de um amanhã onde os humanos estivessem com os sentidos mais abertos, onde seríamos mais vivos e conectíveis pois mais sensíveis e despertos.

Na sua luta por viver uma existência com sentido, Van Gogh se entrega ao transe criativo da pintura como um sementeiro. Van Gogh semeava imagens que um dia abririam milhares de pessoas aos espetáculos reais e concretos das luzes, das formas, das energias, tudo em eterna e móvel interação inexaurível.

Em uma conversa bem significativa com o padre, compara-se a Jesus de Nazaré: ele, Van Gogh, sentia que os contemporâneos iriam, em sua maioria, ignorá-lo tal qual fizeram com o futuro Cristo. A cena leva a supor que ele já sabia disso: de seu destino de “homem póstumo”, nietzschiano.

Só depois da morte é que ele, Van Gogh, assim como Jesus, renasceria e permaneceria entre nós como uma espécie de artista-mártir cujo destino não consegue mais cair no olvido. Pois nos fascina e nos atormenta. Estas imagens agora acompanham o andar da carruagem humana, ainda que tantos de nós ainda não tenham realmente parado de enxergá-las senti-las em toda a profundidade e em toda a maravilha sublime e difícil que contêm.

Pelo gesto desesperado de auto-mutilação com que rompeu com seu próprio corpo, pela orelha ensanguentada que endereçou a Gauguin após uma dramática cena de despedida, Van Gogh entrou também para o rol daqueles capazes de atos trágicos.

Assim como Édipo, furando seus olhos diante do cadáver de sua mãe e esposa Jocasta, Van Gogh decepa sua orelha – ação que o psicólogo que o analisa se apressa a interpretar com a mais simples das hipóteses: o pintor, apegado emocionalmente a seu amigo Gauguin, dependente do afeto deste, padecendo de uma enorme solidão e isolamento social, não se sente capaz de encarar o amargo fardo de ser deixado a sós.

No filme de Schnabel, somos convidados a observar o drama existencial de Vincent sem julgá-lo com o subterfúgio arrogante dos covardes: aquele de estigmatizar como louco alguém que colocamos abaixo de nós, os normais. Pelo contrário, os normais é que ficam parecendo ultra-medíocres diante das produções-de-vida deste artista em que confluíram genialidade e loucura. Que nos convida a pensar que não há genialidade em muitas gramas de loucura mesclada ao caldo que o artista prepara para uma humanidade ingrata.

Em outra cena adorável, Van Gogh pinta flores e filosofa: as flores reais vão murchar e desaparecer (wither and fade), mas a pintura das flores produzida por Van Gogh tem ao menos a chance de penetrar pelos umbrais da eternidade. A moça a quem este pensamento é endereçado então lhe faz um pedido, um convite: “pinte-me”. Ela parece manifestar uma recém-descoberta libido que se volta ao tempo futuro desconhecido, uma vontade de não submergir no destino de apodrecimento, desaparecimento e olvido que é o quinhão comum de todas as flores, e de quase todos os humanos entes.

Van Gogh lhe diz que ele poderia não só fazer a tentativa de inseri-la na eternidade, legando às futuras gerações uma pintura imorrível, como também poderia fazê-la parecer mais jovem do que é. Ela não gosta da idéia e reclama: “Isto não seria justo.” Fica sub-entendido que a moça desejaria ser pintada com realismo, como alguém diante da máquina fotográfica, pois seria uma violação da justiça, ou seja, da justa representação, que ela fosse retratada com uma juventude que já perdeu.

Van Gogh, pintando com todo furor, abandona a sociedade que o maltrata e adere a uma espécie de exílio interior, se faz um peregrino sem lar, um contemplador e pintor dos dinâmicos mistérios cósmicos, perdido na imensidão que seus quadros expressam. No filme de Schnabel, somos lançados ao turbilhão de suas vivências, fluímos com ele por um mundo trágico e confuso, onde orelhas decepadas e tiros no estômago nunca tem um sentido claro, unívoco, facilmente descobrível. Van Gogh é um destino-esfinge, e é assim tão misterioso pois viveu nesta intensa troca com o Eterno.

Pois o umbral da Eternidade não é outro senão o aqui-e-agora. Van Gogh diz que, diante de uma paisagem, ele enxerga o Eterno. Ele não diz o imutável, muito pelo contrário. O Eterno é móvel e mutante. O Eterno é a dança que o vento faz com o trigo, é o disparo de uma estrela cadente no céu tal qual o enxergamos, é a semeadura e a colheita abrigados no mesmo ninho que tem o tamanho de tudo.

Para o Nietzsche que pariu as estrelas cintilantes que são os discursos de Zaratustra, o instante era uma espécie de colisão de duas eternidades. Tudo que já foi, tudo o que será, amalgamado neste agora que não passa de um elo em uma corrente de um cosmo-serpente, a devorar seu próprio rabo. Ouroboros. O Tempo devorou a carne de Nietzsche e Van Gogh, as produções destas vidas atravessaram o umbral do agora para vir dialogar com nós, que somos deles os pósteros.

Estes mortos seguem tendo muito a nos dizer, e nós seguimos muito ruins de escuta e péssimos de visão. Míopes inclusive por opção. Como novos Édipos, furamos nossos próprios olhos para não enxergar as verdades que intentam nos comunicar. Como na cegueira branca de que o romance de José Saramago nos narra, há uma pandemia de cegueiras estranhas, e muitos perdidos na contemplação maníaca de pequenas telas brilhantes, seus celulares e tablets, já estão perfeitamente alienados do gigantesco acontecimento cósmico que nos circunda com sua explosão de energia infinita e onivibrante.

Van Gogh é necessário, pois, para nos re-despertar para uma experiência de stésis mais profunda, que no limite nos entrega ao perigo e ao risco do transe místico, da unio mystica, de uma imersão panteísta em que o eu individual se dilui no Todo e no Outro que o transcende e que o contêm. Fugindo do lógos como do demônio, Van Gogh quis viver na hipersensibilidade de uma consciência estética acesa e alerta a um Cosmos cuja única lei é a mudança. Um Universo que só tem uma coisa que nunca muda: o fato dele ser eternamente móvel e fluido, como a dança de uma criança cuja energia fosse inexaurível.

No canvas de Van Gogh, o que rebrilha é um fragmento desta energia inexaurível que, sob o sol que derrama-se sobre os girassóis ou debaixo das estrelas que povoam como enxames a noite, nos rodeia e nos habita, tornando possível o misterioso processo de estar vivo e ser perceptivo.

A este homem, a quem se grudou o estigma de alienado, a quem julgou-se como doido varrido por seu tresloucado gesto auto-mutilatório, que boatos dizem que suicidou-se, talvez seja um sábio disfarçado de maluco. Um professor nas vestes de um mendigo sujo de tinta e com olhos pela angústia aterrorizante marcados. Um mestre que, depois de morto, é uma fonte de onde jorra luz infindável que vem bater nas portas de nossos sentidos gritando a plenos pulmões, com suas esculturas de tinta em celebração das luzes e cores: “despertem! o espetáculo do mundo só está acessível aos mortais por pouco tempo! Não o desperdicem! Pois a Eternidade pode até ter todo o tempo do mundo, mas nós, meros mortais, não.”

Eduardo Carli de Moraes
Goiânia, 05 de Março de 2019

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LEITURA COMPLEMENTAR SUGERIDA

SETE EXCERTOS DE
“VAN GOGH: SUICIDADO DA SOCIEDADE”
De Antonin Artaud
Seleção: A Casa de Vidro

[1]: “…o que é um autêntico alienado? É um homem que preferiu tornar-se louco, no sentido em que isto é socialmente entendido, a conspurcar uma certa idéia superior da honra humana. Foi assim que a sociedade estrangulou em seus asilos todos aqueles dos quais ela quis se livrar ou se proteger, por terem recusado a se tornar cúmplices dela em algumas grandes safadezas. Porque um alienado é também um homem que a sociedade se negou a ouvir e quis impedi-lo de dizer insuportáveis verdades. Mas, neste caso, a internação não é a única arma, e a união concertada de homens tem outros meios para vencer as vontades que ela deseja quebrar. Fora das pequenas bruxarias das feiticeiras de província, há os grandes passes de enfeitiçamentos globais dos quais toda consciência vigilante participa periodicamente. (…) É assim que algumas raras boas vontades lúcidas que se têm debatido sobre a terra encontram-se, em determinadas horas do dia ou da noite, no fundo de certos estados de pesadelo autênticos e despertos, rodeados da formidável sucção, da formidável opressão tentacular de uma espécie de magia cívica que se verá logo aparecer exposta nos costumes.”

[2]: “… uma sociedade deteriorada inventou a psiquiatria para se defender das indagações de certas mentes superiores, cuja capacidade de adivinhar a incomodava. Gérard de Nerval não era louco, porém disso foi acusado com o propósito de lançar ao descrédito certas revelações capitais que estava prestes a fazer…”

[3] – “…é crapulosamente impossível ser psiquiatra sem estar ao mesmo tempo marcado em definitivo da mais indiscutível loucura: a de não poder lutar contra este velho reflexo atávico da turba que torna qualquer homem de ciência, submetido à multidão, uma espécie de inimigo-nato e inato de todo gênio. (…) A psiquiatria nasceu da turba plebéia de seres que quiseram conservar o mal na fonte da doença e que, assim, extirparam de seu próprio nada uma espécie de guarda suíça para deter em seu nascedouro o impulso de rebelião reivindicador que está na origem do gênio. Há em todo demente um gênio incompreendido em cuja mente brilha uma idéia assustadora…”

[4] – “No fundo de seus olhos de carniceiro, que parecem depilados, Van Gogh se entregava sem interrupção a uma dessas operações de alquimia sombria, que tomam a natureza por objeto e o corpo humano por caldeirão ou cadinho.”

[5] – “Eu mesmo passei nove anos num asilo de alienados e nunca sofri da obsessão do suicídio, mas sei que, a cada conversa que tinha com um psiquiatra, de manhã, na hora da consulta, sentia vontade de me enforcar por ver que não podia estrangulá-lo.”

[6] – “Ninguém se suicida sozinho. Ninguém jamais esteve sozinho ao nascer. Ninguém tampouco esteve sozinho ao morrer. Mas, no caso do suicídio, é necessário um exército de gente má para levar o corpo a fazer o gesto contra a natureza de se privar da própria vida.”

[7] “quanto à orelha cortada, é lógica direta,
e, repito,
quanto a um mundo que, dia e noite,
e cada vez mais,
come o incomível,
para levar até o fim sua má intenção,
nada se tem a fazer, chegado a este ponto,
senão tapar-lhe a boca.”

TRAÇANDO ALTOS PLANOS PARA CONTRA-ATACAR – Baiana System lança 3º álbum, “O Futuro Não Demora”

“Ele conhece a liberdade sem olhar no dicionário”, canta Russo Passapusso na poderosa canção “Sulamericano”, referindo-se ao “Revolucionário Guevara”. Livres e soltos, os músicos do Baiana System transformam este 3º álbum da banda em uma promessa cumprida: O Futuro Não Demora. Ouvir este disco bombando nos alto-falantes é ter certeza de que o futuro já chegou. Agora cabe a nós sermos plenamente contemporâneos dele.

Dando sequência à obra-prima Duas Cidades, sem demora o grupo botou na praça outro álbum visionário e profético. Uma estética que aprendeu com Gil e a Tropicália a realizar uma arte futurística e futurível. O Futuro Não Demora é a prova viva de que a fervilhância da cultura brasileira – em especial na época com Gil e Juca à frente do MinC, bombando o programa Cultura Viva – não corre o risco de ser apagada, apesar de pilantras e calhordas a fazer merda com políticas públicas de cultura dentro dos aparelhos de Estado. Pois a cultura é do povo, e não do Estado; e quando o Estado busca sucateá-la ou silenciá-la, ela se alça como Fênix. E grita rompendo os cálices.

Pois o futuro chegou, e a soundtrack deste future que entre nós já vem desembarcando com seu peso de mamute e sua foxy esperteza é o BaianaSystem quem propõe através de seu agitado bonde do groove. Botando nas ruas e nas redes o seu som hipnótico, o grupo vem fazendo história nos festivais pelo Brasil com um espetáculo ao vivo impressionante.

Um show do Baiana é uma vivência incrível: é tanto um desafio cognitivo quanto uma oportunidade de experiência coletiva extática, ambas em doses cavalares. Quando estiveram por aqui, no último Bananada (2018), parecia que Goiânia inteira estremecia com um abalo sísmico com o som dos caras. O show era uma aparição telúrica que atingia altos índices na Escala Richter. Parecia que estavam tentando passar como terremoto sônico sobre a apatia e o desengajamento de toda uma geração. Terapia de choque para exorcizar a doentia Sociedade do Lucro.

Por mais desconectados que fôssemos antes, por mais individualistas e fechados que possamos ser para lá dos muros do festival, naquele aqui-e-agora extraordinário nós transcendemos nossas barreiras, caminhamos no sentido de virar uma coisa só, uma centopéia humana, um organismo coletivo. Goste-se ou não de bandas como o Baiana System, os Los Hermanos, a Legião Urbana, é inegável que elas mobilizam uma base de fãs que consegue fazer dos shows autênticas e altissonantes experiências místicas coletivas.

No Baiana no Bananada, foi assim: de repente, estávamos todos acesos, ligados, conexos. E assim o BaianaSystem revela-se como uma engenhosa maquinaria de conectividade. Um mega-corpo, um soundsystem de muitas cabeças, como uma Medusa ciborgue de cérebro plugado no mar de informação da Web.

Uma banda que se apropria da música como meio para fins que transcender a arte, pois adentram o reino da política, da briga por poder, da tentativa aguerrida de valer por parte daqueles tão desvalidos e tão desvalorizados pelos poderosos da vez (que tem uma tendência forte a serem escrotos e agirem como canalhas desumanos, como provam dúzias de exemplos, de Duque de Caxias a Bolsonaro, de Genghis Khan e Átila a Hitler e Pol Pot).

Convocando a força de suas raízes e dos orixás de Feira de Santana, o vocalista do Baiana System está soletrando cada vez melhor a liberdade. Põe à sua poesia, tão bem revelada pelo álbum solo Paraíso da Miragem, para nos levar pra voar. Salte do avião, você chegará vivo no chão. O paraquedas é por conta deles, e é de boa: salte neste abismo, abra-se à esta folia, escute esta sabedoria. O Brasil que deu certo é este, que pulsa diversidade e que ensina ao mundo o valor da água e da floresta, o valor da estima mútua e do respeito pela interdependência e pelas conexões.

Abra-se ao futuro que vira presente. Pois livros, paraquedas e mentes só funcionam bem quando abertos. E estar de portas abertas pro ganjaço sensorial do Baiana System é salutar para nossa cultura. Como foram também, em tempos de antanho, o Planet Hemp, a Legião Urbana, Os Mutantes…

MCs libertos dos cárceres dos dicionários, conectados visceralmente com a gíria das ruas, afiados no rap dos guetos, os caras do sistema baiano de subversão sônica encantam também pelo trato com a palavra. Os ritmados da fala nas ruas e florestas do pluridiverso Brasil pulsam no som do Baiana System. Nesta obra magna da Novíssima MPB, a figura do artista inconformado e inquieto, sempre mutante e criativo, segue “traçando vários planos para contra-atacar.”

O território do drama é aquele continente fraturado pelas injustiças de classe e pelas dominações brutais de elites do atraso sobre massas pisoteadas, aquele continente tão bem descrito por Eduardo Galeano e Gabo Márquez:

“Nas veias abertas da América Latina
Tem fogo cruzado queimando nas esquinas
Um golpe de estado ao som da carabina, um fuzil
Se a justiça é cega, a gente pega quem fugiu
Justiça é cega (contra-atacar)
Justiça é cega (eu quero contra-atacar)…”
“Sulamericano” || BaianaSystem
De “O Futuro Não Demora” (2019)

Descrita pela revista Rolling Stone Brasil como “mais atual do que nunca” e “banda brasileira mais relevante hoje”, a BaianaSystem “se reconecta à música brasileira e prepara o contra-ataque”. Uma enxurrada de participações especiais ajuda o discaço O Futuro Não Demora a zarpar num navio pesadão e cheio de ânimo: tem B Negão, tem Curumin, tem Antonio Carlos e Jocafi.

Tem até Manu Chao, cujo álbum Clandestino segue ecoando, anos e anos a fio, como o clássico da world music que já se tornou, sementeira que segue dando muitos frutos (como também o provam Anita Tijoux, do Chile, e Rebbeca Lane, da Guatemala).

Russo Passapusso tem antenas culturais tão bem fincadas em nossa fértil lama cultural multidiversa que não é absurdo equipará-lo, em elevação estética e visão artística, a figuras como Chico Science, Manu Chao, David Byrne ou Tom Zé.

Manifesto multifacetado de um “Terceiro Mundo” cansado de ser subalternizado, e que ergue sua cabeça com orgulho para mandar uma mensagem que se ouça planeta afora, o BaianaSystem participa de um devir-global do som contemporâneo brazuca, processo de que participam também, cada vez mais intensamente, os Boogarins.

O significado histórico de O Futuro Não Demora ainda não é claro, para nós que somos contemporâneos de seu desembarque por aqui. Mas é lícito supor que, junto com o lançamento do filme Marighella de Wagner Moura, esta será a obra-de-arte mais impactante deste início conturbado e violento da desgovernança Bozonazista. O Carnaval de Salvador terá muito a nos dizer, neste 2019, sobre a potência da cultura subversiva e transformadora através da ação –  emblema e enigma – que será o Bloco Baianasystem pelas ruas de um país convulsionado.

Iluministas conectados à internet, cientes de participarem de uma teia de colaboração, os MCs da Bahia globalizável hoje mostram ao mundo um pouco daquilo que encantou tanta gente pelo globo nas figuras de Glauber Rocha, de Gilberto Gil ou de Jorge Amado… Esta “terra de contrastes” que, segundo Bastide, é o Brasil, costume ser fértil na produção de gênios assim.

Glauber, Gil, Amado, dão sequência à genialidade de Lima Barreto, de Assis Valente, de Castro Alves, de Gregório de Matos. Baiana System vem para se integrar nesta louvável tradição, onde a intimidade com a cultura popular não impede os ousados vôos de vanguarda. Onde soam fortes e sedutores os batuques e os tambores telúricos da Bahia-Roma-Negra.

Eis um álbum classudo, groovado, bomba percussiva de ritmado delicioso, que resiste bem a repetidas escutas, prometendo pôr pra ferver a subversão criativa e botando até o saci pererê pra pular. Mesmo que seja dançando duma perna só.

BaianaSystem – “O FUTURO NÃO DEMORA” (2019).
Ouça na íntegra: https://bit.ly/2BCUsVS.

Faça o download: https://bit.ly/2EdXxx9.

Leituras recomendadas:

[1] O Globo – BaianaSystem é um dos maiores acontecimentos da música brasileira recente. Banda baiana cria um mundo que rima mágico e trágico em ‘O futuro não demora’: https://glo.bo/2T1dgb6

[2] ‘Você tem poder para mudar o mundo’, defende BaianaSystem em terceiro disco:https://oglobo.globo.com/cultura/musica/voce-tem-poder-para-mudar-mundo-defende-baianasystem-em-terceiro-disco-23448359

[3] Revista NOIZE – Entrevista | O batismo de água e de fogo do BaianaSystem em “O Futuro Não Demora”: https://bit.ly/2DNdVUb.

[4] Red Bull – Em seu terceiro álbum de estúdio, a banda nos conduz por histórias e destinos da Bahia; leia com exclusividade como foi o processo criativo de cada uma das 13 faixas do disco:https://win.gs/2GwvQlz.

[5] Tenho Mais Discos Que Amigos: BaianaSystem vai da “Água” ao “Fogo” em seu terceiro disco de estúdio; ouça. Grupo traz chuva de participações no recém-lançado “O Futuro Não Demora”: http://www.tenhomaisdiscosqueamigos.com/2019/02/15/baianasystem-terceiro-disco/

[6] Bahia.ba: Grooves e drones: CD do BaianaSystem tem ijexá hi-tech e viagem ao ‘centro da Terra’: http://bahia.ba/entretenimento/grooves-graves-e-drones-cd-do-baianasystem-tem-ijexa-hi-tech-e-viagem-ao-centro-da-terra/

[7] Antônio Risério: Pela pata se conhece o leão

[8] Mídia Ninja: Caetano Veloso entrevista Russo Passapusso

[9] A Tarde / Salvador: Navegar é Preciso

[10] ROLLING STONE: Mais atual do que nunca, BaianaSystem se reconecta à música brasileira e prepara o contra-ataque

* * * *

Acompanhe: A Casa de Vidro (Livraria e Produtora Cultural – www.acasadevidro.com – 1ª Av., Goiânia/GO).

Emblema de uma época, a peça “Roda Viva” (1968) de Chico Buarque renasce em 2019 no templo dionisíaco do Teatro Oficina

Em 1967, a canção “Roda Viva”, de Chico Buarque, pousou no cenário cultural causando estrondo. Sem ser panfletária, esta música atravessou os tempos da ditadura, entrou na era democrática e transformou-se, junto com “Cálice” e “Apesar de Você”, num dos emblemas da época.

Com ela o jovem cantor-compositor conquistou o 3º lugar no III Festival da TV Record, consagrando-se ainda mais no cenário cultural no qual já havia faturado, com “A Banda”, reconhecimento prévio significativo no fervilhante front dos festivais. 

Hoje é cada vez mais evidente que a canção ganharia este caráter emblemático, esta característica de canção que encapsula toda uma época, só após os episódios polêmicos e explosivos envolvendo a encenação da peça teatral homônima pelo Teatro Oficina, com Zé Celso Martinez Côrrea e sua trupe agindo de modo altamente irreverente e provocativo.

Endiabrados nas suas travessuras em louvor a Dionísio, em suas antropofagias à la Oswald de Andrade, em suas invenciones inspiradas por Artaud, Brecht ou Meyerhold, o pessoal do Oficina lançou Roda Viva para as trincheiras da vanguarda do desbunde. 

Quando foi, diante das câmeras de TV, interpretada por Chico Buarque na companhia do coro poderoso do MPB-4, a canção decerto rendeu uma performance antológica, digna de figurar no documentário Uma Noite de 67 (lançado em 2010), ótimo retrato dos agitos da Era dos Festivais (também esmiuçada no livro de Zuza Homem de Melo).

Porém, Chico lá esteve com sua performance de bom moço, sem arroubos selvagens (como havia sido aquela de Sérgio Ricardo destruindo seu violão). A “Roda Viva” que foi transmitida pela TV ainda não havia se alçado a seu destino maior: os anseios de liberdade que esta canção continha em seu centro pulsante só foram amplamente libertadas no teatro, no terreiro dionisíaco do Oficina.

Coro da peça em 1968, com nomes como Zezé Motta e Pedro Paulo Rangel.

“A gente quer ter voz ativa, no nosso destino mandar!” Versos assim empolgavam a juventude libertária daqueles tempos de trevas e de chumbo. Diante da opressão institucionalizada desde o advento da Ditadura com o golpe de 1964, muitos jovens artistas e intelectuais debatiam intensamente os caminhos possíveis diante da tirania militarizada, e os dois principais caminhos constituíam aquela encruzilhada fundamental: guerrilha ou desbunde?

 Os anseios de liberdade reprimidos, que vinham sendo sistematicamente pisoteados pelo regime opressor, tinham que se manifestar por vias menos explícitas, por vias mais sutis. Uma arte de que Chico Buarque era, na poesia musicada, incontestável mestre, driblando a tesoura dos censores com sua inteligência lírica ímpar.

Segundo Franklin Martins, a música tinha um subtexto poderoso que remetia a essa gente que queria ter voz ativa e em seu destino mandar estava sendo amordaçada pela tirania ditatorial: “a roda-viva, aquela que ‘carrega o destino pra lá’, poderia ser vista como um símbolo da máquina repressiva que asfixiava a sociedade.” (MARTINS, Franklin: Quem foi que inventou o Brasil – Volume 2 (1964 a 1985) – Ed. Nova Fronteira, 2005, pg. 95)

Ao coletar 50 curiosidade sobre a peça, Miguel Arcanjo Prado enfatizou com justiça que Roda Viva, a canção que originaria a peça, não existiria sem o impacto causado sobre Chico Buarque de sua experiência diante de O Rei da Vela, oswaldiana experiência antropofágico-dionisíaca que marcou a trajetória do Oficina nos anos 1960.

Em Roda Viva, a peça, Chico Buarque elege como protagonista

“um cantor popular chamado Benedito Silva, logo transformado em Ben Silver, que era obrigado a mudar constantemente de personalidade para sobreviver na selva dos espetáculos. A montagem inovadora do diretor Zé Celso, que já trazia em seu currículo a revolucionária encenação de O Rei da Vela de Oswald de Andrade, provocou muita polêmica.

Na noite de 27 de julho de 1967, o Teatro Ruth Escobar, onde a peça era encenada, foi invadido pelo Comando de Caça aos Comunistas (CCC), organização terrorista de extrema-direita. Os agressores destruíram cenários e espancaram atores e técnicos.” (Martins, op cit, p. 95)

Roda Viva em montagem de 1968, dirigida por José Celso Martinez Corrêa

Uma espécie de jocosa e absurdista denúncia da sociedade do espétaculo, Roda Viva não era obra de alguém que estivesse de fora da engrenagem. Chico Buarque estava no processo de não se deixar moer pela maquinaria do show biz.

Roda Viva, vale lembrar, era uma criação teatral nascida das inquietações e provocações dum pop star brasileiro de apenas 24 anos, alçado subitamente ao posto de celebridade após seu hit “A Banda” – que catapultou o filho de Sérgio Buarque de Hollanda (autor de Raízes do Brasil) para os píncaros da fama.

Na figura de Ben Silver, Chico Buarque exercita, de modo esperto e sarcástico, seu pleno direito de crítica à máquina-de-moer-gente usualmente conhecida como showbusiness. 

Roda Viva representa uma espécie de ethos punk que toma conta de Chico, com ele mandando às favas o bom-mocismo, como escreveu Bruno Hoffman:

“Garotas de classe média – e de cabelos impecáveis – lotaram o auditório do Teatro Princesa Isabel, no Rio de Janeiro. Afinal, era a estréia da peça Roda Viva, escrita pelo genro ideal de seus pais, Chico Buarque. As meninas suspiravam ao imaginar o que o ‘cantor dos olhos de ardósia’ e símbolo do bom-mocismo havia criado. Quando as cortinas se abriram, entretanto, todas ficaram espantadas. A peça era extremamente provocativa, quase violenta.”

Sabemos que Chico acabou indo pro exílio em Roma quando o chumbo esquentou demais no período de vigência do AI-5 (1968 a 1978).

Mesmo de maneira cifrada, como em “Cálice”, suas críticas ao regime dos milicos rendiam-lhe dissabores e conflitos, inclusive com tentativas de sabotagem de seus shows.

O documentário Phono 73 revela um pouco de como eram altamente iconoclastas e perturbadoras as performances buarquianas sobre os palcos por volta de 1973. Revela também que, para além da tesoura e da mordaça impostas pelos censores, por vezes nos shows, misteriosamente, sumia o som do microfone de Chico:

Roda Viva é um ataque a todo o star system, mas sem aquela seriedade Frankfurtiana de Adorno e Horkheimer. Perdendo sua autenticidade e autonomia, Benedito Silva é transformado à força em mercadoria: Ben Silver, um peão no xadrez (only a pawn in their game, para lembrar do folkster Dylan) manuseado pelos empresários da mídia e da indústria fonográfica!

Em excelente artigo para a Revista Cult, Marcelo Sotello Felipe destacou os nexos entre a vivência de Chico Buarque, sob o risco de ser “mercantilizado” e vendido às massas como sabão em pó, e a reação criativa e subversiva que Chico realiza com a obra Roda Viva:

“O cantor se torna Ben Silver. Produzido, vestido, maquiado. Embalado. Tal qual uma marca de sabão em pó ou uma geladeira. A troco de 20% para o “anjo” (o empresário), a mercadoria é posta no mercado e a massa aprende a consumi-la. Mas um dia Ben Silver já não rende tanta grana. Desaparece para surgir Benedito Lampião, produzido, vestido e maquiado novamente, outra mercadoria. Que também um dia precisa desaparecer para que outro produto garanta o tamanho dos 20%. É a roda viva que carrega pra lá o destino de Ben Silver e Benedito Lampião.”

Roda Viva faz parte das efervescências daqueles anos seminais e prenhes de consequências, 1967 a 1969, quando explode no Brasil a renovação estético-cultural-política, altamente subversiva, do Tropicalismo. A novidade tinha a potência de um movimento que, ainda que profundamente inovador, estava bem enraizado no passado: a Antropofagia de Oswald de Andrade, que remetia ao caldeirão do Modernismo dos anos 1920, inspirava ativamente o trampo dos tropicalistas.

Mas era um Oswald que os tropicalistas não respeitavam como um ente sagrado, que não faziam de ídolo intocável: era um Oswald devorado e vomitado pelo Teatro Oficina, onde Zé Celso Martinez Côrrea e sua trupe encenavam O Rei da Vela em meio aos transtornos sócio-políticos daqueles anos danados, de chumbo-grosso e mordaças impostas a todas as canções de protesto contra o regime ilegítimo nascido da derrubada militar do governo João Goulart.

Neste contexto é que surgem algumas das mais emblemáticas canções de Caetano Veloso – que admitiu sentir-se profundamente transtornado pela experiência estética que teve com a ressurreição de Oswald através do Teatro Oficina.

Presente no disco-manifesto Tropicália ou Panis e Circensis (1968), “Enquanto Seu Lobo Não Vem” é um retrato daquele país que havia entrado em erupção após a morte de Edson Luís, com comícios-relâmpago e protestos estudantis, culminando com grandes manifestações cívicas como a Passeata dos Cem Mil, em Junho. Era uma época em que o movimento estudantil e os trabalhadores organizados puderam sentir muitos artistas e intelectuais aliando-se à luta contra a ditadura.

Que lobo seria este que está para vir, na canção de Caetano? Hoje, com nosso olhar retrospectivo, a canção pode soar profética, como se previsse a chegada do AI-5 e da fase mais brutal do terrorismo de estado:

“A canção misturava símbolos da guerrilha – florestas, veredas, cordilheiras – com o dia a dia das manifestações estudantis – passeatas, desfiles, ruas, avenidas, bombas, botas e bandeiras. O lobo, claro, era a repressão policial, com suas garras cada vez mais afiadas e ameaçadoras.

Em breve, advertia Caetano, seria necessário esconder-se debaixo da cama para não ser comido por ele. Para deixar claro de onde vinha o perigo, em boa parte da canção Gal Costa repetia em contraponto o estribilho “os clarins da banda militar”. (MARTINS, pg. 86)

Nos palcos do Brasil, em 1968, o regime dos milicos não só mandava proibir, mas fazia vista grossa ou apoio implícito a grupos paramilitares que utilizavam-se da força bruta para silenciar artistas. A canção Roda Viva, de Chico Buarque, composta em 1967,

“ganhou nova conotação política ao subir aos palcos em 1968 na peça homônima. O protagonista – um cantor popular chamado Benedito Silva, logo transformado em Ben Silver – era obrigado a mudar constantemente de personalidade para sobreviver na selva dos espetáculos.

A montagem inovadora de Zé Celso provocou muita polêmica. A peça estreou no início de 1968 no Rio. Meses depois chegou a São Paulo. Na noite de 17 de Julho, o Teatro Ruth Escobar, onde a peça era encenada, foi invadido pelo CCC, organização terrorista de extrema-direita. Os agressores destruíram cenários e espancaram atores e técnicos. Chico Buarque, mais tarde, levantou a hipótese de que o CCC, ao atacar Roda Viva, teria errado de alvo. Seu objetivo seria atingir o espetáculo Feira Paulista de Opinião, dirigido por Augusto Boal, apresentado em outra sala do mesmo teatro. Numa das cenas, um capacete militar era usado como penico, o que teria despertado a ira dos terroristas.

Se o CCC errou de alvo em São Paulo, insistiu no erro em Porto Alegre. No início de outubro, o grupo de extrema-direita atacou o Teatro Leopoldina, onde a peça estava sendo apresentada na capital do Rio Grande do Sul. Atores e atrizes foram agredidos e depois enfiados num ônibus, com ordens expressas para não voltar a pisar em terras gaúchas. O espetáculo, é claro, saiu imediatamente de cartaz.

A violência contra Roda Viva não era um fato isolado – e sim mais um episódio na escalada de violência protagonizada pelo CCC contra estudantes, artistas e intelectuais de oposição. Bombas foram jogadas no Teatro Opinião, na Associação Brasileira de Imprensa, no Correio da Manhã e na editora Civilização Brasileira.

Também em outubro, membros do CCC, infiltrados entre os estudantes de direita da Universidade Mackenzie, atacaram a tiros a Faculdade de Filosofia da USP, onde funcionava a União Estadual de Estudantes. Na chamada Batalha da (Rua) Maria Antônia, foi morto com um tiro na cabeça o secundarista José Guimarães, de 20 anos, que defendia a Filosofia.

Atuando em estreita dobradinha com os órgãos de repressão e multiplicando suas ações, o CCC ajudou a preparar o clima para a instauração da ditadura terrorista aberta que viria ao mundo com a edição do AI-5, em 13 de Dezembro de 1968. Mas o CCC não passava de uma linha auxiliar, um grupo de paus-mandados. Era no núcleo do regime militar, cada dia mais dominado pela linha-dura, que o coração da violência batia forte e marcava o ritmo da radicalização.

No segundo semestre, o país assistiu a uma escalada de arbitrariedades e provocações, que desembocaria no AI-5. Em agosto, a UnB foi invadida por tropas. Em outubro, a polícia prendeu cerca de 700 líderes estudantis no XXX Congresso da UNE, em Ibiúna (SP). Em todo o país, os estudantes saíram às ruas pedindo a libertação de seus dirigentes. No Rio, uma manifestação em frente à Faculdade de Ciências Médicas foi dissolvida à bala. Na ação da polícia, o estudante de medicina Luiz Paulo Nunes morreu com um tiro na cabeça.” (MARTINS, p. 96)

Não há dúvida de que no turbilhão de 1968, artistas fizeram história com sua participação política e com suas canções engajadas (acima, Chico Buarque e Gilberto Gil marcam presença na Passeata dos 100 Mil… 50 anos depois, estariam novamente reunidos no showmício Lula Livre, nos Arcos da Lapa/RJ, que reuniu mais de 50 mil pessoas).

Muito antes do AI-5 ser promulgado em Dezembro, a brutalidade dos milicos já havia se tornado explícita – e o mês de Junho não nos deixa mentir. Na chamada Sexta-Feira Sangrenta, 28 estudantes e trabalhadores foram assassinados nos conflitos de rua entre manifestantes e policiais; centenas de pessoas ficaram feridas; pelo menos 15 viaturas foram incendiadas. Foi esse massacre perpetrado pelos militares que gerou a onda de comoção que culminaria na Passeata dos 100 Mil, quando a maré de participação cívica intimidou a repressão, que permitiu a manifestação sem dissolvê-la no porrete e na escopeta como era de praxe.


Eis que, passados 50 anos, em 2019, nesta época de fascistas estúpidos e empoderados, o assassinato da liberdade se faz novamente presente.

Em 1968, quando a ditadura militar instaurada com o golpe de 1964 preparava-se para entrar em seus anos de chumbo, a peça Roda Viva fez história pela fúria que despertou no regime dos generais e nas milícias que o escudava (como o CCC).

É portanto altamente significativo e explosivo que Zé Celso e sua trupe re-encenem a peça escrita por Chico Buarque de Hollanda nestes nossos tempos de tenebrosas transações que culminaram com a tomada do poder pelo Bozonazismo.

Obviamente, o desgoverno Bozoasnal é o alvo principal da sátira impiedosa dos artistas no Roda Viva 2019 que o Teatro Oficina encenou em seu antológico espaço no Bixiga/SP. Eles não poupam artilharia contra figuras-de-proa da corja de Bozo: de Olavo de Carvalho a Sergio Moro, aos ministros e ao chanceler, não faltam poéticos bofetes que o Oficina distribui com seu radicalismo e irreverência de praxe…

Entrar naquele estranho edifício, com projeto arquitetônico de Lina Bo Bardi, sempre torna explícita pra mim a sensação de não estar exatamente em um teatro, ou melhor, de não ter adentrado nada que se assemelhe a um teatro tradicional ou canônico: eis um espaço de desconforto, ou melhor, um lócus que visa incrementar nosso inconformismo. Um espaço de liberdade, cheio de convites à nossa libertação, coletivamente forjada no improviso de mênades e sátiros que juntos, dançando e tocando-se, tornam-se uma coisa só. “Todos juntos numa pessoa só”, como cantava a utopia d’Os Mutantes.

Zé Celso, antes da peça se iniciar “de verdade”, sendo o MC deste terreiro hightech, pede que o público se encoste, se toque, se mescle, se molhe com o suor uns dos outros, num rito de superação do eu separador. Quer que nos tornemos uma coisa só, uma centopéia de diversidade, envolvida num rito dionisíaco que celebra a renovação do mundo através da arte.

Benedito Silva, alçado ao status de pop star como Ben Silver, depois recauchutado como Lampião, serve como emblema do ídolo diante do qual as massas alienadas se prostram, subservientes, boquiabertas, demitindo-se de sua autonomia. A idolatria é uma face de uma moeda que do outro lado possui a face horrenda do poder pastoral. O pastorado, para reinar sobre nós impondo suas nefastas e desnecessárias opressões e mortificações, necessita, como de oxigênio, da idolatria. Quem idolatra é subserviente. 

Fazer de Ben Silver, ou de Boçalnaro, figuras míticas e pessoas idolatráveis, é desvelado em Roda Viva em todo o seu ridículo. Quem não é mané nem otário sai do teatro sabendo: paga o maior mico todo e qualquer sujeito que trate esses boçais como mitos.

Não lambamos as botas de ídolos de barro, ou pior: as botas daqueles que querem pisotear a dignidade humana e que focalizam a sua própria idolatria na direção mais sórdida (Bolsonaro, idólatra, idolatra sabe quem? Ustra e o “exército de Caxias”!).

Neste início da desgovernança Bozoasnal, já começam a pipocar os Youtubbers que, motivados por um desejo de se portarem como homens e mulheres “de bem”, denunciam o Teatro Oficina como sendo, basicamente, um antro do demônio, onde a platéia é agredida e os atores praticam assédio sexual contra pessoas que estão ali querendo assistir uma peça de boa (exemplo).

A verdade, acessada por aqueles que estão de corpo e alma dentro do Teatro Oficina, deixando-se afetar e transformar pela experiência, consiste na descoberta: viver é tão melhor fora dos cárceres do conformismo! É assim que a trupe mobiliza todo o seu arsenal de sarcasmos e de corpos nus, todo o seu repertório de canções e batuques, para afrontar o mau-gosto petit bourgeois e partir para a porrada com seu teatro de desmistificação e de escárnio com os atuais usurpadores do poder.

O Oficina segue sendo nosso farol-guia cultural que aponta rumos melhores para que o Brasil prospere espiritualmente para fora do pântano e lodaçal do autoritarismo e da ditadura, por aqui tão recorrentes.  Tragédias e farsas repetindo-se sem cessar, sendo o Bolsoasnismo apenas a mais recente máscara de um velho monstro.

O Oficina está antenadíssimo com o contemporâneo. Insere no cast de canções coisas como “Caravanas”, canção da safra recente de Chico, obra-prima da poética (uma letra que fica linda impressa num livro de poesia!).

O Oficina também faz de Roda Viva algo em sintonia com o antológico Desfile de Carnaval da Tuiuti no Rio de Janeiro em 2018. O drama sanguinolento e sofrido da escravidão e da diáspora africana marcam a criação cultural coletiva dessa trupe indomável.

À pergunta “existe uma cultura dionisíaca, subversiva, transgressora, hoje em atividade no Brasil?”, teríamos necessariamente que respondem que sim!

 Vejam a obra de Ângela Carneosso, por exemplo, ou alguns clipes calientes e hedonistas do Francisco El Hombre; confiram as ousadias que se permitem mulheres como Ava Rocha, Salma Jô, Larissa Luz; notem quão desbocada e subversiva é uma obra como “Gasolina” do Teto Preto ou como é explode-limites o álbum e filme Bluesman de Baco Exu do Blues.

Assistam aos clipes deliciosamente provocadores, repletos de explosão libidinal, da Flaira Ferro em seu “Coisa Mais Bonita” e em seu “Revólver” de frevo frenético libertário; ou deliciem-se com o sexoralismo desinibido de Karol Conka e sua língua quase tão pansexual quanto a de Janelle Monae. Notem quão bacântica é a estética de Juliana Perdigão em uma música como essa:

HINO DA ALCOVA LIBERTINA

Sim, o Brasil ainda é o palco onde a utopia antropofágica oswaldiana se expressa em meio à tirania sinistra dos caretas e dos milicos.

Neste contexto, Zé Celso e a trupe do Teatro Oficina continuam na vanguarda do desbunde, na barricada do dionisíaco, na trincheira libertária, como um bando de cabras desgarradas dos rebanhos, maravilhosos hippies que são ovelhas nuas pintando-se de preto, ébrias sob a Lua e os bilhões de sóis, bacantes sempre pentelhando o reinado sombrio de Penteu.

Com “Roda Viva”, Zé Celso reconquista a proeza histórica já alcançada ano passado em “O Rei da Vela”: poder dirigir 50 anos depois uma nova versão para um espetáculo que o consagrou na história do teatro brasileiro e mundial. Qual outro diretor teve tamanho privilégio em vida? E, ao fazê-lo com vigor e o mesmo atrevimento artístico de sua juventude, Zé Celso prova que está mais vivo e forte do que nunca, pronto para a batalha em prol de sua arte livre da qual jamais abriu mão, custe o que custar. Assim, ele faz de “Roda Viva” um espetáculo altamente emocionante, performativo e, obviamente, obrigatório de se ver e de se aplaudir de pé. (ARCANJO)

Se fosse para escolher uma cena emblemática, eu lembraria daquela que, em Roda Viva 2019, opõem dois grupos de brasileiros que chegam às vias de fato, às beiras à guerra civil: o exército dos agroboys financiados pela Bancada da Bala e da Bíblia e do Boi, todos com seus rifles em punho e berrando “Bolsonaro é mito!”, diante dos aguerridos guerreiros herdeiros do Quilombo de Palmares e de Canudos, que hoje entoam em coro: “Quem não pode com a formiga não atiça o formigueiro! Aqui está o povo sem medo… sem medo de lutar!”

Zé Celso e sua trupe não fogem do ringue. Ao invés de armas, levam à batalha uma tempestade de poesia, relâmpagos radicais de sarcasmo e uma baita disposição para a polêmica. Encaram o trago e assumem a responsa, tentando ensinar ao Brasil os caminhos dificultosos e selvagens que levam ao Reino da Liberdade: onde tudo é criação e recriação infindável fora do cárcere estreito e injusto em que querem nos encerrar tacanhos milicos e fanáticos caretas, idolatradores de torturadores e que cagam bolsas de colostomia sobre o legado de Marx e Gramsci, de Paulo Freire e Florestan Fernandes, de Voltaire e de Jesus, de Darwin e de D2, de Marielle e de Jean Wyllys. 

Nestes tempos que nos condenam às trincheiras culturais, que nos convocam às batalhas ideológicas, o Teatro Oficina segue berrando suas luzes em tempos de obscurantismo. Dizendo-nos verdades cruéis que não podem ser silenciados. Abrindo nossos olhos à força. Quebrando nossas couraças e nossas porcupine skins a golpes de poesias e de canções. Berrando em nossos ouvidos, com vozes diversas e sintônicas, em lindo coro que comove até os ossos, para que ouçamos:

“A gente vai contra a corrente
Até não poder resistir
Na volta do barco é que sente
O quanto deixou de cumprir
Faz tempo que a gente cultiva
A mais linda roseira que há
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a roseira pra lá…
Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração…”

Eduardo Carli de Moraes, São Paulo / Goiânia, Fevereiro de 2019.

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Garimpar Músicas: uma das maneiras de se fazer bom uso da internet || Por Tamyres Maciel

GARIMPAR MÚSICAS: UMA DAS MANEIRAS DE SE FAZER BOM USO DA INTERNET

Podemos considerar o advento da internet como a maior revolução do final do século XX e início do século XXI. Por meio dela vimos a globalização tomar forma e a sociedade humana se conectar, se informar, se divertir, enfim… absolutamente tudo que existe está registrado em sites, blogs, redes sociais, a um click de distância. A democratização da informação é tão ampla que toda e qualquer pessoa pode criar e divulgar toda e qualquer coisa da maneira que bem entender por vias virtuais, o que demonstra também a existência de uma faca de dois gumes: muito conteúdo produzido com seriedade e veracidade divide espaço com outros falaciosos e manipuladores. O uso consciente da internet é um tema bastante vasto, que certamente sempre virá à tona. Mas vamos focar aqui em apenas um dos bons usos que a ferramenta em questão nos traz: o garimpo de músicas.

Essa revolução dos meios de comunicação possibilita muitos avanços no que se refere a formas e conceitos que permeiam o universo da arte. Enquanto, num passado recente, artistas da música dependiam das gravadoras para difundir seus trabalhos e conseguir maior visibilidade, hoje em dia basta um celular para registrar o material e internet para divulga-lo. Obviamente, isso implica na qualidade da produção desses materiais, mas não deixa de ser um dos principais pontos acerca do conceito de Arte Independente.

Dentre muitas definições para esse nosso momento histórico, uma das mais legítimas é o fato de vivermos na Era Audiovisual. A produção musical e de seus clipes, por exemplo, está cada vez mais abrangente e autêntica, conta com imagens de diversas perspectivas (aéreas, por exemplo, que ilustram o avanço da tecnologia por meio dos drones), o que me faz definir alguns critérios no estudo que venho desenvolvendo acerca desse tema.

Passei a usar #MúsicaContemporâneaDaMelhorQualidade para definir músicas que têm sido lançadas de 2000 pra cá, sobretudo por artistas independentes da grande mídia. A primeira coisa a se pensar é o uso da expressão “melhor qualidade”. Sinto a necessidade de me debruçar nesse ponto porque trata-se de uma parcialidade explícita. Melhor é uma palavra de cunho avaliativo, ou seja, utilizada para apreciar ou julgar algo ou alguém que se gosta, que se admira por alguma razão. O que considero “melhor qualidade” tem determinadas características que podem não ser os mesmos critérios de “melhor qualidade” na perspectiva de outras pessoas (aviso logo e na humildade!).

Trata-se de uma seleção de musicistas compositoras de letras elaboradas, que trazem à tona diversos assuntos relacionados à nossa sociedade, além de ricas mesclas de instrumentação, guitarras com tambores, por exemplo. Existe uma tendência musical que não prevê em primeiro e absoluto lugar a comercialização em massa, mas demonstra artistas lúcidas em relação à importância da expressão como forma de reflexão do momento histórico. Sobretudo neste em que vivemos: de auge das lutas de resistências, de clamor constante por igualdades e justiças. Vejo esse momento como um tempo de ascensão da soberania Latinoamericana. Não que essas lutas sejam novas, pelo contrário. Elas já existem há um bom tempo, mas com o advento da internet elas se multiplicaram e ganham cada vez mais força.

Entre as décadas de 60 e 70 no Brasil, em que vivíamos os anos de chumbo, aconteceu um fenômeno parecido com este em que nos encontramos: artistas questionavam e apontavam os abusos da ditadura por meio de músicas e, ao mesmo tempo, outras menos comprometidas com as questões políticas da época, simplesmente não tocavam no assunto e contribuíam para a alienação do povo. A grande diferença é que hoje ainda não temos a censura explícita e declarada, além de termos a nosso favor a internet como uma importante ferramenta de difusão das produções que não ganharam espaço nos meios tradicionais de comunicação.

A meu ver, alguns dos temas atuais que melhor inspiram artistas são o empoderamento das mulheres, a urgência na preservação de comunidades indígenas e quilombolas, a ascendência do movimento negro, a liberdade de expressão e sobrevivência da comunidade LGBTQ+, e a necessidade de consciência em relação à conservação ambiental. Certamente não citei todos os temas, porque são inúmeros. Em uma sociedade tão conservadora e mal informada como a brasileira, por exemplo, esses assuntos são extremamente necessários e, enquanto existirmos, vamos falar sobre eles e espalhá-los por todos os cantos, em todas as oportunidades. Nas próximas escritas falarei especificamente de cada um desses temas, das bandas novas que têm surgido e cada vez mais sobre vanguarda contemporânea da música Latinoamericana.

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LEIA AS COLUNAS ANTERIORES DE TAMYRES MACIEL EM A CASA DE VIDRO:

#1 – MEU AGORA ATÉ AQUI
#2 – SOBRE CONSTRUÇÃO DE REPERTÓRIOS E PRODUÇÃO MUSICAL CONTEMPORÂNEA

SOBRE CONSTRUÇÃO DE REPERTÓRIOS E PRODUÇÃO MUSICAL CONTEMPORÂNEA – Por Tamyres Maciela

SOBRE CONSTRUÇÃO DE REPERTÓRIOS E PRODUÇÃO MUSICAL CONTEMPORÂNEA
por Tamyres Maciela

Quando alguma pessoa se propõe a trabalhar com som ao vivo em bares, restaurantes ou passando o chapéu nas ruas, a tomada de decisão mais fundamental é a escolha do repertório. Espera-se da profissional musicista que demonstre seu desempenho sobretudo a fim de agradar ao máximo o público das casas. Nas ruas, quanto mais original e divertida a performance, maior serão as contribuições no chapéu.

Devido a alguns fatos: 1º influência das músicas que tocavam nas festas de família na infância e 2º ter começado os estudos de repertório na década de 2000, minhas primeiras escolhas repertorísticas (se me dão licença pra um neologismo) basearam-se fortemente nos clássicos dos anos 80/90, como Cássia Eller, Zélia Duncan, Adriana Calcanhoto, Titãs, Barão Vermelho, Legião Urbana, Engenheiros do Havaí e outras consagradas. Na época tinha os DVDs Acústico MTV, que traziam até legendas com cifras, além daquelas releituras de artistas consagradas, a coleção Um barzinho e um violão, por exemplo.

Acredito que nossa formação social esteja diretamente relacionada às influências musicais que marcaram nossas histórias. Meu gosto musical nacional foi construído com aqueles sons regionais que falavam da preservação e riqueza da natureza (Renato Teixeira, Pena Branca e Xavantinho, Zé Ramalho, Geraldo Azevedo, Alceu Valença, Elba Ramalho), amor em suas mais diversas formas (Renato Russo, Cazuza, Cássia Eller, Nando Reis), e críticas ao sistema político, que até dispensa exemplos, porque 100% das bandas que sempre gostei apresentam ao menos uma música que critica a postura profissional de grande parte dos parlamentares do Congresso Brasileiro.

Até o final da década de 2000 tava suave tocar no violão o ritmo básico que chamamos de “chá com pão”. Mas aí entraram os anos da faculdade, década de 2010, em que minha formação foi plural e multi-diversa. No âmbito da formação musical, vi vários shows, fiz parcerias com musicistas veteranos e passei a ouvir e reproduzir coisas mais atemporais, produzidas sobretudo nas décadas de 70/80, tipo Mutantes, Secos e Molhados, Sérgio Sampaio, Cátia de França, Novos Baianos, Elis Regina, Chico, Gil, Gal, Caetano, Tim Maia, Rita Lee, Tom Zé, Clara Nunes, Milton, Clube da Esquina, entre outros nomes que passaram a me inspirar, tanto pela qualidade sonora quanto pelos posicionamentos políticos.

Hoje em dia, o repertório escolhido para as apresentações musicais continua na linha que aprendi nos tempos da universidade, além das ainda tímidas músicas autorais. É curioso perceber que grande parte do público dos bares se mostra muito apegado às canções produzidas pela leva de musicistas dos anos 80/90. É muito comum se deparar com pedidos de músicas como “La Belle de Jour” do Alceu, “All Star” do Nando Reis e “Telegrama” do Zeca Baleiro, por exemplo. Os ídolos ainda são os mesmos… O fato é que se trata de músicas memoráveis, não questiono a qualidade dos trabalhos. Mas para nós, que trabalhamos com isso todo final de semana, é impossível continuar na mesmice. Esses sons são cartas na manga, mas já não fazem parte do repertório. É urgente a necessidade de coisas novas, afinal, a produção cultural é constante, diversa, plural e precisa ser difundida.

Para sobreviver a esse mercado de som ao vivo, além da criação autoral, venho desenvolvendo uma pesquisa sobre o que chamo de Música Contemporânea da Melhor Qualidade. A principal plataforma que utilizo nesse estudo é o Youtube, por trazer álbuns completos, ficha técnica e ano de produção de muitos discos. Outro site recente, exclusivo de músicas, é a Escuta que é bom, produzido por uma coletiva que atua na pesquisa e difusão de artistas fora do mainstream que estão despontando nos dias de hoje.

É assim, Contemporânea da Melhor Qualidade, que defino a tendência da produção musical que nos tira do lugar comum, coloca à tona reflexões sobre a sociedade atual, o que temos de urgente pra falar e pensar nos dias de hoje. Sim, porque a música serve, tal qual a arte como um todo, não só pra entreter e animar os espaços, mas também pra trazer reflexão, incomodar, botar o dedo nas feridas, falar de coisas que precisam ser ditas de alguma forma, mostrar diversas perspectivas da realidade.

Existe um mercado de produção cultural imenso e diversificado no Brasil, o que fica invisível, muitas vezes e principalmente, pela falta do hábito de buscar informações úteis, mesmo com a democratização dos meios informativos. Aquele momento de só ouvir músicas por rádios, ver shows apenas na televisão acabou. Além desses meios midiáticos, é preciso lembrar que absolutamente tudo está na internet, nas redes sociais, em plataformas como Deezer e Spotify, entre outras que surgem dia após dia.

Além de musicista e educadora, me vejo também nesse lugar de difusora de contemporaneidades, pelo fato da música me servir de combustível e pelo estudo constante de repertório que desenvolvo. Divido aqui minhas opiniões e estou aberta ao que há de novo, irreverente e independente na produção cultural brasileira.

TAMYRES MACIEL, colunista d’A Casa de Vidro.
Leia os textos anteriores:
#1 – Meu Agora Até Aqui