AS BACANTES SEMPITERNAS – Sobre a atualidade perene da celebração comunal e do êxtase coletivo

AS BACANTES SEMPITERNAS – Sobre a atualidade perene da celebração comunal e do êxtase coletivo

I. XAMANISMO COM AMPLIFICADORES

Há um capítulo magistral de Dançando nas Ruas (Dancin’ In The Street) em que Barbara Ehrenreich fala sobre as raízes arcaicas do êxtase coletivo. “Arcaicas”, no caso, é uma palavra para referir-se não a algo de velho, mofado, já caído em desuso e aposentado da História. Arcaico – é também uma das lições fundamentais de gurus psicodélicos como Terence McKenna e Alan Watts – é aquilo que tem enraizamento em um passado muito distante, mas cuja raiz ainda hoje nutre uma árvore viva e nossa contemporânea, com sua eclosão vivificante de folhas, frutos, sementes.

O tempo arcaico segue agindo no tempo contemporâneo como um rio que flui lá do passado mais remoto e penetra com suas águas torrenciais no território do presente. É um passado que conflui com o agora, conectando-nos ao que passou, vinculados ao que foi ao invés de alienados de qualquer tradição e pertença. Unidos e solidários aos que hoje descansam seus ossos debaixo desta terra onde labutamos e dançamos, ao invés de trancados na estreiteza de um fluxo nonsense de momentos efêmeros e desconexos.

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“No antigo mundo ocidental, muitas deidades serviam como objeto de adoração extática: na Grécia, Ártemis e Deméter; em Roma, as deidades importadas: Ísis (do Egito), Cibele, a Grande Mãe ou Magna Mater (da Ásia Menor), e Mitas (da Pérsia). Mas havia um deus grego para o qual a adoração extática não era uma opção, mas uma obrigação… Esse deus, fonte de êxtase e terror, era Dioniso, ou, como era conhecido entre os romanos, Baco. Sua jurisdição mundana cobria os vinhedos, mas a responsabilidade mais espiritual era presidir aorgeia (literalmente, ritos realizados na floresta à noite, termo do qual derivamos a palavra orgia), quando os devotos dançavam até chegar a um estado de transe. 

Ainda mais do que as outras deidades, Dioniso era um deus acessível e democrático, cujo thiasos, ou elo sagrado, estava aberto tanto aos humildes como aos poderosos. Nietzsche interpretava esses ritos da seguinte maneira: ‘O escravo emerge como homem livre, todos os muros rígidos e hostis erigidos entre os homens pela necessidade ou pelo despotismo são despedaçados.’

Foi Nietzsche quem reconheceu as raízes dionisíacas do drama grego antigo, ao ver a inspiração louca e extática por trás da majestosa arte dos gregos – que, metaforicamente, ousavam levar a cabo não apenas a imortal simetria do vaso, mas as loucas figuras dançantes pintadas em sua superfície. O que o deus demandava, segundo Nietzsche, era nada menos que a alma humana, liberada pelo ritual extático do ‘horror da existência individual’ e transformada na ‘unidade mística’ do ritmo proporcionado pela dança.” (EHRENREICH, p. 48)

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Longe de ser apenas de interesse para helenistas ou estudiosos de religiões antigas, a celebração comunal, vinculada no mundo greco-romano aos cultos a Dioniso e Baco, prossegue ativa em tempos contemporâneos. O livro de Barbara Ehrenreich é uma das melhores visões panorâmicas da busca pelo êxtase coletivo através da história e tem entre seus méritos uma postura simpática aos fenômenos estudados. Ela não condena, com fúria puritana, os rituais dionisíacos, o vodu haitiano, a capoeira ou o samba afrobrasileiro, os festivais de rock da Geração Hippie etc., mas busca compreender com empatia uma necessidade humana, que existe desde tempos imemoriais, de celebração coletiva e de vitória sobre o terrível confinamento na solidão de um eu isolado.

889672Dançando Nas Ruaspois, parece-me um livro magistral, de alto potencial libertário, que une-se aos esforços de um Terence McKenna, que propugnava um revival do arcaico, ou de uma Emma Goldman, pensadora política anarquista célebre por dizer: “Não é minha revolução se eu não puder dançar”.

Além disso, Barbara Ehrenreich realizou uma obra de interesse filosófico, ou mesmo teológico, afirmando que a experiência de re-encontro com o arcaico, de re-ligação com a fonte, é descrita por muitos que a vivenciam como uma revolução em nossa percepção temporal, uma percepção imediata ou insight súbito da eternidade do aqui-agora.

O livro contribui assim, imensamente, para o estudo e a compreensão do misticismo, podendo iluminar e elucidar a leitura de obras cruciais como a de William James, As Variedades da Experiência Religiosa, e Heinrich Zimmer, Filosofias da Índia, que talvez sejam as mais impressionantes reuniões de testemunhos sobre a experiência mística. Para uma visão mais contemporânea, que vincula a unio mystica ao consumo de substâncias enteógenas, vale sondar as reflexões de Aldous Huxley em Moksha e de Alan Watts por sua obra afora.

Quando transcendemos a prisão do eu, a jaula do isolamento, a percepção falha que nos leva a crer na possibilidade de nossa existência independente e separada do cosmos que a circunda e a inclui, aí então podemos abraçar um aqui-agora que têm densidade temporal. Que tem peso de eternidade. Aí percebemos – ainda que para ter este insight às vezes necessitemos de muito estudo do budismo, de muita prática da meditação e do yôga, de algumas gotas de um bom ácido lisérgico ou DMT… – que a interconexão é a verdade do real.

"Wonder", uma obra de Alex Grey

“Wonder”, uma obra de Alex Grey

Não somente somos todos interconexos, ligados a toda a teia da vida; além disso, isto não se esgota no presente imediato. O rio do passado vem regar-nos o presente e vivificar nossa construção comum de um presente futurível. Somos efêmeros contemporâneos da eternidade onde estamos incluídos – a Energia no Universo, garantem os cientistas, pode se transformar, mas jamais ser nadificada; os átomos e o vazio, desde Epicuro, são tidos por indestrutíveis! Esta percepção é aquilo que bacantes e mênades buscam – e às vezes acham – em seus rituais musicais, dançantes, psicodélicos. Buscam habitar um tempo de êxtase coletivo, de joy na vivência da interconexão. É uma utopia que propõe a re-união e a comum celebração, é um hedonismo sábio que propõe que não cortemos todas conexões com o rio do “foi-se e acabou-se”, prendendo-nos em um imediatismo niilista que nos deixaria apenas vagando ao léu, como náufragos agarrados a um pedaço de madeira que flutua no mar após a embarcação ir a pique.

Arcaicas – antigas mas ainda ativas! – são as variadas “técnicas do êxtase”. Esta, aliás, era uma das expressões prediletas que Mircea Eliade usava como ferramenta conceitual crucial para a compreensão e caracterização dos misticismos, do mais variado colorido, reunidos às vezes sob o nome de “xamanismo” e outras vezes sob a alcunha de “paganismo” ou termo semelhante. No tal do xamanismo, com enorme frequência, as técnicas do êxtase – o caminho que é preciso realizarmos junto até que sejamos uma coletividade capaz de celebração extática e auto-transcendência – são inseparáveis da dança e da música.

Este é um dos argumentos centrais do livro genial de Ehrenreich: êxtase tem tudo a ver com dança, com música, com expansão da consciência, com transcender o eu e abraçar o coletivos. que atravessa a História, da tragédia grega de 25 séculos atrás até os festivais hippie à la Monterey e Woodstock, para mostrar que os laços sociais vinculados à busca humana, trans-histórica e trans-cultural, de êxtase coletivo, são umbilicalmente vinculados com música, dança e alteração da percepção intelectual-sensível através do consumo de substâncias (naturais ou sintéticas) ditas estupefacientes. Apesar de toda repressão, de todo o sangue derramado por Inquisições, de toda a perseguição autoritária, Pan, Baco, Deméter, Dioniso, Shiva e toda a trupe dos deuses dançantes e orixás bailantes que seguem vivendo e atuando nos corações e mentes de seus carnais celebrantes.

Aquilo que Ehrenreich chama de collective joy, ou que Durkheim chamava de efervescência coletiva, é aquilo que sente-se no meio da torcida em um estádio de futebol quando explode um gol; mas também o que toma conta da vivência da platéia de um show do Jimi Hendrix Experience ou de Janis Joplin e o Big Brother Co. em pleno “Verão do Amor”. É aquela vivência que nos faz transcender a jaula do ego, rumo à inenarrável e estarrecedora experiência de estar acompanhados sob as estrelas, queimando sob o Sol, “todos juntos reunidos numa pessoa só” (como canta Arnaldo Baptista em canção d’Os Mutantes).

Os viventes precários que somos, que tentam somar e solidarizar-se, porém tanto separam-se e segregam-se, podem estar boquiabertos ou apáticos diante dos mistérios do mundo e de nossos vínculos secretos, com ele, mundo, e uns com os outros; a dança, a música e os estupefacientes são o caminho, o tao, uma maneira eficiente através da qual as culturas vão em busca de fazer acontecer o êxtase comunal. São técnicas para a realização das utopias, e não sua mera espera passiva. São técnicas do êxtas que hoje tem o auxílio da eletricidade, do ciberespaço, dos mega-amplificadores, das salas de cinema digital, de todo o aparato tecnológico-científico ainda tão desperdiçado com a estupidez bélica hi-tech… Invistamos, pois, nas arcaicas técnicas do êxtase!

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“A dança grupal é a grande niveladora e conector das comunidades humanas, unindo todos os que participam no tipo de communitas que Turner encontrou nos rituais nativos do século XX. (…) Submeter-se corporalmente à música por meio da dança é ser incorporado por uma comunidade de uma maneira muito mais profunda do que o mito compartilhado ou os costumes comuns podem atingir. Nos movimentos sincronizados com o ritmo da música ou de vozes que cantam, as rivalidades mesquinhas e as diferenças de facções que podem dividir um grupo são transmutadas em uma inofensiva competição de quem é o dançarino mais hábil… “a dança”, como coloca um neurocientista, é a “biotecnologia da formação do grupo.”

Desse modo, grupos – e os indivíduos que os constituem – capazes de se manter juntos por meio da dança teriam possuído uma vantagem evolucionária em relação aos grupos ligados por laços menos fortes. (…) Nenhuma outra espécie jamais conseguiu fazer isso. Pássaros têm suas músicas características; vagalumes podem sincronizar a luz que emitem; chimpanzés às vezes podem bater os pés juntos e balançar os braços fazendo algo que os etologistas descrevem como um “carnaval”. Mas, se quaisquer outros animais conseguiram músicas e se mover em sincronia com ela, mantiveram esse talento bem escondido dos humanos.” (EHRENREICH, 2006, p. 37, trad. Julián Fuks)

A dança e a música, apesar de reduzidas, nas idéias estreitas de muitos de nossos contemporâneos, a meras mercadorias ou a reles entretenimentos, são algo que conecta-nos, hoje, à arcaica e ancestral peculiaridade humana, no seio da natureza, que é o fato de estarmos em busca de collective joy, êxtase comunal ou coletivo. Este é um fio que atravessa a história da espécie e que é inapagável, inextipável, incapaz de ser assassinado por quaisquer repressões autoritárias. É uma força resiliente, que sobrevive a todos os tiranos, e que têm como um de seus símbolos mais memoráveis, na história da arte, a batalha épico-trágica das Bacantes com o tirano de Tebas, Penteu, na peça de Eurípides.

As Bacantes, mais do que apenas uma obra-prima da dramaturgia universal, pode ser debatida como documento histórico, etnográfico, transmutado em obra-de-arte pelo engenho daquele que foi, com Ésquilo e Sófocles, um dos autores de dramas que sobreviveu a 25 séculos de transmissão histórica, da Grécia de IV a.C. até o Bixiga paulistano deste 2017 depois do Nazareno. Algo há aí, na resiliência de As Bacantes, na sua capacidade de manter-se com um monte a dizer e ensinar aos nossos próprios tempos, que explica como José Celso Martinez Côrrea pôde reativar a potência da peça nestes anos de 2016 e 2017, com os resultados acachapantes e geniais que já nos acostumamos a esperar do Teatro Oficina, Uzyna Uzona.

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O Teatro Oficina é uma pérola refulgente neste pântano esmerdeado de nossa lambança nacional. É resistência e celebração – arte reXistente – que ativa um cyber-terreiro, uma arena-dionisíaca, um microcosmo-da-utopia, onde o Brasil mostra ao mundo o que tem de melhor: a exuberância irreverente de um povo que ginga em busca de um êxtase coletivo, traçando seu próprio caminho, no ritmado enraizado que lhe infundiram séculos de miscigenação e convívio entre gente de culturas do mais pluridiverso colorido.

Nas peças do Oficina, aparece sempre – mesmo quando trata-se de adaptações de autores gringos como Antonin Artaud (Para Dar Um Fim No Juízo De Deus) ou Schiller (Os Bandidos) – dá as caras um Brasil que está sempre recaindo em antagonismos, em querelas, em ríspidas lutas e mortíferas guerras.

As bacantes brazucas nunca podem celebrar em paz, pois são, a despeito de suas vontades, empurradas para uma arena de combate (ah, tiranos! elas só queriam beber vinho, dançar, celebrar! Por que cabeças teriam que rolar?!?); as mênades, proto-hippies da paz e do amor, dançantes e cantantes, re-ativadoras da força sempiterna do conatus, chocam-se contra os poderes do autoritarismo puritano e seus braços armados. A resiliência, a capacidade de sobrevivência da peça de Eurípides – vivíssima no Brasil de 2017! – está também na persistência. no nosso processo histórico, da batalha que o aquele fight – Bacantes versus Penteu – simboliza.

A utopia que vem conectada ao trampo do Oficina ou à antropofagia de Oswald de Andrade, empreendimentos de sintonia íntima, tem a ver com um renascimento do dionisismo, ou seja, de uma cultura onde a celebração coletiva, a alegria dos vínculos estabelecidos sobre as ruínas da egolatria, seja mais potente do que a cultura, imposta de cima pra baixo com a voz grossa e bruta do Patriarcado repressor, que manda sempre postergar todos os gozos, desistir de campanhas inovadoras ou revolucionárias, conformar-se com a monocromia de uma vida cinza, de tédio e monotonia, de servil obediência aos que mandam mortificar a carne e sacrificar o presente, em nome de um tíquete de entrada prum futuro paradisíaco no além-túmulo…

As bacantes – mulheres que saem dos trilhos da cotidianidade, deixando suas posições obedientes na hierarquia de comando masculinista, machista, autoritária… – e vão para a floresta, não só para fugir por um pouco da dureza do dia-a-dia, mas para celebrar a existência e a liberdade, para buscar a força em uma imersão num coletivo que, com forças reunidas, pode muitos, mas muuito mais, do que qualquer indivíduo solitário, por mais fortão e musculoso que seja. A ética e a estética homéricas, que celebram em Aquiles ou Ulisses um heroísmo muito marcado pelas fúrias bélicas, têm nas bacantes, nas celebrantes dionisíacas, nas mênades dançantes e de cabelos esvoaçantes, a celebração da paz, não da guerra; da harmonia e da sincronia, não do antagonismo; do êxtase, não do massacre.Nietzsche

“Friedrich Nietzsche, o clássico indivíduo solitário e atormentado do século XIX, talvez tenha entendido a terapêutica do êxtase melhor do que qualquer outro. Em um tempo de celebração universal do ‘eu’, ousou falar sobre o ‘horror da existência individual’ e vislumbrou o alívio nos antigos rituais dionisíacos que só conhecia por meio de leituras – rituais em que, ele imaginava, ‘cada indivíduo não apenas se reconcilia com o outro, mas une-se a ele – como se o véu de Maya tivesse sido rasgado e só restassem retalhos flutuando ante a visão de uma Unidade mística. (…) Cada um sente a si como a um deus e caminha a passos largos com o mesmo júbilo e o mesmo êxtase dos deuses que viu em seus sonhos.” (EHRENREICH, op cit, pg. 184)

Zé Celso e sua trupe são no país aquelas forças que com mais exuberância servem como porta-vozes destas idéias, entremescla de Nietzsche com Oswald de Andrade, de Artaud com Brecht, e apesar do impiedoso tempo que nos arrasta à velhice e ao inevitável túmulo esta figuraça quintessencial de nossa cultura parece continuar em eterno verão – para citar o título de excelente reportagem e entrevista do El País:

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Um dos grandes mestres do teatro brasileiro está prestes a completar 80 anos. Lúcido, sorridente, atuante. Muitos se perguntam qual é o segredo de José Celso Martinez Corrêa (Araraquara, 1937), o Zé Celso, para preservar tamanha energia e criatividade depois de 58 anos à frente do icônico Teatro Oficina – símbolo de resistência artística (e política) cravado no Bixiga, em São Paulo. Mas a verdade é que desse “xamã do teatro”, como ele gosta de se definir, não há segredos para se arrancar. Na entrevista concedida ao El País com os pés ao alto, em meio a uma nuvem de erva queimada, o dramaturgo vestido de um branco alvo como os fios de seus cabelos mostra que não tem assuntos proibidos, respondendo a esta altura da vida com voz suave tudo o que lhe é indagado. Isso, sim: sem fim, nem começo e pelos caminhos que lhe parecem.

A um desses caminhos ele volta sempre: a encenação de Bacantes, o clássico grego de Eurípedes montado pela primeira vez no Oficina em 1995 (em versão brasileira do diretor, no gênero “tragicomédia orgia”), que reestreou no Sesc Pompeia e logo passou ao Bixiga em outubro de 2016. A peça, de quase seis horas e com 52 atuadores em cena, reconstitui o ritual de origem do teatro na Grécia em 25 cantos e cinco episódios e tem música composta por Zé Celso (que também assina autoria e direção).


Encenada como ópera de Carnaval para cantar o nascimento, morte e renascimento de Dionísio, o deus do teatro, do vinho e das festas, ela tem lotado a casa tanto com habitués, como com novos assistentes – atraídos pela nudez libertária do elenco e às vezes também do público, pela genialidade do diretor, pela história ou por tudo ao mesmo tempo. A ideia é que os espectadores se integrem ao bacanal, e alguns deles terminam despidos pelos atores. Na primeira versão, isso aconteceu com Caetano Veloso. Por causa do sucesso orgiástico de Bacantes, Zé Celso ganhou ainda mais força e voz, voltando à carga em seus temas preferidos: teatro, política e xamanismo – que para ele são um só.

Para Zé Celso, duas coisas podem salvar o país da crise política em que começou a mergulhar em 2014: o xamanismo, claro, e a arte. O que ele procura é juntar as duas coisas, rumo à “revolução cultural” que o ex-presidente uruguaio Pepe Mujica prega como a única saída para esses tempos obscuros.” (MORAES, Camila. O Eterno Verão de Zé Celso. El País.)

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II. VIVACIDADE DA ANTROPOFAGIA OSWALDIANA

Oswald e Oficina

“Todas as nossas reformas, todas as nossas reações costumam ser feitas dentro do bonde da civilização importada. Precisamos saltar do bonde, precisamos queimar o bonde.
OSWALD DE ANDRADE, “Contra Os Emboabas” (via Bia Azevedo, p. 68)

Se digo que 2016 não foi de todo um ano catastrófico neste país golpeado e achincalhado por suas escrotas elites canalhocratas, mas teve sim seus esplendores e glórias, é pois a nossa arte e nossos artistas mais relevantes e geniais não nos decepcionaram. Em 16 de Abril de 2016, na véspera da votação do impeachment de Dilma Rousseff na Câmara dos Deputados, então presidida por Eduardo Cunha, estivemos na peça do Teatro Oficina, Para Dar Um Fim No Juízo De Deus. 

Saí do teatro de alma lavada e com os ímpetos dionisíacos re-turbinados, orgulhoso dos artistas desta terra e certo de que a política, enfim, não é tudo – que um lamaçal ético sem fim, na Esplanada dos Ministérios, não impede a refulgência de uma contracultura que não se cala, que manifesta-se com exuberância, que abraça a resistência com todo a verve, todo o ímpeto, toda interconexão de uma trupe de mênades e sátiros. E, além disso, saí do teatro com a impressão de ter vivenciado uma imersão não só no universo de Artaud, mas, é claro, no de Oswald de Andrade, constantemente evocado por Zé Celso e sua trupe. Desde os anos 1960, quando encenou O Rei da Vela, o Oficina tem sido talvez o mais resiliente e fiel coletivo que honra o legado da utopia antropofágica oswaldiana.

Também em 2016, caiu no mercado um livro – Antropofagia: Palimpsesto Selvagem, de Beatriz Azevedo – que foi de imediato saudado por Eduardo Viveiros de Castro como “destinado a se tornar referência obrigatória para todo estudioso da obra deste que é, sem a menor sombra de dúvida, um dos maiores pensadores do século XX”. Viveiros de Castro pode até soar hiperbólico em seu elogio a Oswald como figura crucial no panorama do conhecimento global no século que se acabou, mas isto mostra o quanto este pensamento, longe de ser paroquial ou nacionalista, pode ser também uma espécie de produto de exportação autenticamente original gestado e gerado no solo fecundo da cultura brasileira. Queimando o bode da submissão e da subserviência às civilizações importadas e imperialistas.

Quem enxergou isso muito bem, como lembra Bia Azevedo, foi o Roger Bastide, sociólogo francês,  que lecionou na USP e publicou em 1950 o livro clássico Brasil: Terra de Contrastes: “Oswald devora as teorias estrangeiras como a cidade devora os imigrantes, transformando-os em carne e sangue brasileiros.” (BASTIDE, apud Azevedo, p. 70) O antropófago Oswald “comeu” toda a diversidade das culturas estrangeiras, mas na hora do vamos ver foi lá e criou algo de novíssimo, algo de revolucionário. “O antropólogo Eduardo Viveiros de Castro afirma que ‘a Antropofagia Oswaldiana é a reflexão metacultural mais original produzida na América Latina até hoje. Era e é uma teoria realmente revolucionária.” (VIVEIROS DE CASTRO, apud Azevedo, p. 24)

A antropofagia é descrita como utopia no título de um dos livros de Oswald que a Ed. Globo recolocou no mercado e que traz textos clássicos como A Crise Da Filosofia Messiânica. Filosoficamente, Oswald tinha muitas similaridades e alianças com o pensamento de Nietzsche, e pode-se dizer que a antropofagia dialoga com o “dionisismo” como este aparece na obra do autor de Assim Falava Zaratustra. Oswald também é um crítico mordaz da civilização ocidental racionalista e repressora, que dá todas as honras a Apolo, a Sócrates, a Descartes, soltando os cachorros de sua feroz repressão contra Dioniso, contra Baco, contra mênades e bacantes, contra feiticeiras e heréticos… Oswald defende o caminho da “valorização do lúdico e da arte”, aproxima-se das teses de Huizinga em Homo Ludens no que diz respeito à presença em todas as culturas, de quaisquer latitudes e longitudes, da “constante lúdica”:

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“O inexplicável para críticos, sociólogos e historiadores, muitas vezes decorre deles ignorarem um sentimento que acompanha o homem em todas as idades e que chamamos de constante lúdica. O homem é o animal que vive entre dois grandes brinquedos – o Amor onde ganha, a Morte onde perde. Por isso, inventou as artes plásticas, a poesia, a dança, a música, o teatro, o circo e, enfim, o cinema.” – OSWALD DE ANDRADE, “A Crise da Filosofia Messiânica” (Globo, 2001, p. 144)

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por Eduardo Carli de Moraes, Goiânia, Fevereiro de 2017
A ser continuado….


SIGA VIAGEM:

CONFLUÊNCIAS - Festival de Artes Integradas. Evoé Café Com Livros, 26/02, 17 horas. Com Luiza Camilo, quinteto Cocada Preta, Lua Plaza, Morgana Poiesis, além de discotagem e feirão de livros.

CONFLUÊNCIAS – Festival de Artes Integradas. 2ª Edição: Evoé Café Com Livros, Domingo, 26/02, a partir das 17 horas. Com poesia encenada e pocket show com Luiza Camilo, show percussão-e-coral com o quinteto Cocada Preta, exposição de artes visuais da Lua Plaza, performance poética de Morgana Poiesis, além de discotagem e feirão de livros. Página do evento @ Facebook Brasil.


COMPRE NA LIVRARIA A CASA DE VIDRO:
Maria Augusta Foncesa – Oswald de Andrade (Biografia)

oswald-bioA editora Globo acaba de relançar – depois de revista e atualizada pela autora – a mais importante biografia de um dos maiores nomes da cultura brasileira moderna. Oswald de Andrade: biografia é obra de Maria Augusta Fonseca, que vem se dedicando há décadas à vida e à obra do grande modernista. Um dos maiores nomes da cultura brasileira, e não somente da literatura, porque Oswald de Andrade foi um daqueles raros homens certos no lugar certo na hora certa: nas palavras de Antonio Candido, “sua personalidade excepcionalmente poderosa atulhava o meio com a simples presença.” Esse meio era o da provinciana vida cultural brasileira do começo do século XX, que Oswald de Andrade ajudaria a ir ao encontro do mundo moderno.

Clássicos do documentário brasileiro: “ARUANDA” (1960), de Linduarte Noronha

 

ARUANDA (1960, 21 min)
#ClássicosDoDocBR

ASSISTIR [Youtube]BAIXAR [Torrent]

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Sinopse: A história de formação do quilombo Olho d’Água na Serra do Talhado em Santa Lúcia do Sabugi, alto sertão da Paraíba. A fundação feita pelo ex-escravo Zé Bento e sua família que sobreviveu cultivando algodão e produzindo cerâmica nos períodos de grande estiagem. A comunidade no início dos anos 1960 e o isolamento permanente do resto do Brasil. [Via Making Off]

O cineasta: Linduarte Noronha (Ferreiros, PE, 1930 – João Pessoa, PB, 30 de janeiro de 2012) foi um cineasta, professor e procurador da justiça paraibano de origem pernambucana. Sua obra mais célebre é o documentário de curta-metragem Aruanda, que teve grandes repercussões estéticas para o cinema brasileiro, sendo considerado precursor do Cinema Novo, inclusive por Glauber Rocha, seu representante mais expressivo. [Mais @ Wikipédia]

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Veja o filme: 

Saiba mais no programa do Cine Federal (UFPR TV):

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SIGA VIAGEM: Artigo recomendado de Sergio Puccini 

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TEM A VER…
NA LIVRARIA A CASA DE VIDRO

A VERDADE DE CADA UM – Antologia inédita sobre documentário que reúne escritos dos principais realizadores que fizeram a história desse cinema. São 32 artigos escritos por alguns de seus mais representativos cineastas: de pioneiros como Robert Flaherty, passando por Dziga Vertov e Jean Rouch até expoentes contemporâneos como Jia Zhangke e os brasileiros Eduardo Coutinho e João Moreira Salles. Através deste livro, conheça mais sobre a práxis e as idéias de figuras como Chris Marker, Albert Maysles, Santiago Álvarez, Fernando Solanas, K. Kieslowski, Rithy Pahn, Jorgen Leth, dentre muitos outros. Livro novo, em perfeita condição. Adquira na Livraria A Casa de Vidro (32 reais, Cosac Naify, 2016).

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“Arqueologia da Violência – Pesquisas de Antropologia Política
de Pierre Clastres (1934 – 1977) – Ed. Cosac Naify, 2004, 380 pgs.

Prefácio de Bento Prado Jr e posfácio de Eduardo Viveiros de Castro. Capa dura. Reunião de 12 artigos de Pierre Clastres, autor do clássico “A Sociedade Contra o Estado”. Em “Arqueologia da Violência”, o autor renova a antropologia política, reformulando a ideia de dominação nas sociedades chamadas primitivas e realizando uma crítica incisiva à violência na sociedade ocidental. O autor define etnocídio, critica a antropologia marxista, antecipa a denúncia do massacre dos Yanomami na Amazônia e retoma a discussão sobre a origem do poder nas sociedades indígenas da América do Sul. O autor evoca relatos de viagem, a mitologia americana, Freud, Hobbes e Rousseau. Saiba mais em A Casa de Vidro. COMPRAR.


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“ORSON WELLES”, um livro de André Bazin
(Ed. Jorge Zahar, 2005)

“Orson Welles” (Jorge Zahar, 2005) é o célebre ensaio do crítico de cinema André Bazin sobre a obra e a trajetória de um dos maiores gênios da cinematografia mundial. O livro –que faz parte da coleção Cahiers de Cinema– foi escrito originalmente em 1950, quatro anos depois do lançamento de “Cidadão Kane”. Bazin faz aqui uma brilhante defesa do cineasta, acusado de esbanjar orçamentos milionários sem resultados e realizar filmes incompreensíveis. Tornou-se célebre a sua interpretação do sentido da profundidade de campo adotado por Welles em “Cidadão Kane”. Interpretando a obra de Welles a partir do cruzamento com as artes plásticas, a música, a história e a filosofia, Bazin revela aqui aspectos dos seus filmes até então ignorados pelo público e pela própria indústria cinematográfica. COMPRAR.


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“A Besta Humana”
de Émile Zola (Capa dura, ilustrado, Ed. Zahar)

Livro novo, em perfeito estado, capa dura, com cerca de 20 ilustrações de época. Tradução de Jorge Bastos. O romance “A Besta Humana”, de Zola, passa-se na França, em 1870. Atormentado pelo desejo de matar as mulheres por quem se sente atraído, o maquinista Jacques Lantier se refugia no comando de sua possante locomotiva a vapor com que periodicamente cruza a linha Paris – Le Havre. Os trilhos fazem com que seu destino se cruze com o da bela e cruel Séverine – e determinam as vidas de todos os personagens. Grande mestre do naturalismo francês, Émile Zola nos põe em contato direto com a marca da maldade que existe em cada um de nós. Este impactante romance tem como complemento ilustrações, cronologia e apresentação. 368 pgs. COMPRAR.


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A Era do Consenso – Manifesto para uma Nova Ordem Mundial
George Monbiot

Neste livro, Monbiot busca elucidar uma utopia internacionalista de revolução democrática que possa iluminar e guiar os movimentos de justiça global (também conhecidos como antiglobalização, anticapitalistas, altermundialsitas etc). O autor busca descrever “um mundo norteado precisamente pelo princípio segundo o qual os poderosos alegam governar: o princípio da democracia. É uma tentativa de substituir a Era da Coerção pela Era do Consenso. Apresento neste manifesto uma série de propostas que deixarão horrorizadas as pessoas de bem.” (Prólogo do autor) O livro delineia os detalhes concretos de uma sociedade global dirigida pelo povo e para o povo, que incluiria um parlamento mundial eleito democraticamente, uma Organização do Comércio Justo, e uma revolucionada ONU. 277 pgs. COMPRAR.


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“Lições de Abismo”
Gustavo Corção (Ed. Agir, 2004, Ilustrado)

Livro novo, em perfeito estado, 238 pgs. Denso e profundo, este romance é o diário final de um homem que se descobre com leucemia. O médico lhe diz que terá três ou quatro meses de vida.Mergulhado na memória, avalia o sentido da vida. Os escritos, de lucidez crescente, são reflexões sobre a alma, a verdade, o absoluto, o amor, a frivolidade, o ciúme. Premiado pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), em 1954, “Lições de Abismo” tem traduções em inglês, italiano, holandês, polonês, alemão e francês. Esta edição está enriquecida por ilustrações do artista Oswaldo Goeldi (1895-1961). Sobre Corção, disse Oswald de Andrade: “Uma extraordinária e lúdica natureza de criador. Depois de Machado de Assis aparece agora um mestre do romance brasileiro.” COMPRAR.


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[Encontro de Culturas Txt 15] Preciosos patrimônios culturais: a valorização e proteção das festas tradicionais é tema de roda de prosa no XVI E.C.T.C.V.

Encontro 2016

Foto: Santi Asef

Foto: Santi Asef, Vila de São Jorge durante o XVI E.C.T.C.V.

Preciosos patrimônios culturais: a valorização e proteção das festas tradicionais é tema de roda de prosa no XVI E.C.T.C.V.

Propor caminhos para a valorização e proteção dos patrimônios culturais, com destaque para as festas tradicionais, esteve entre os objetivos de muitos participantes do “Encontrão” 2016

por Eduardo Carli de Moraes para o XVI Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros

A roda-de-prosa “Manutenção das festas tradicionais: valorização e proteção do patrimônio cultural imaterial” aconteceu na Casa de Cultura Cavaleiro Jorge na terça-feira, 26 de julho de 2016, como parte da programação do XVI Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros. O “troca-troca cultural” contou com a presença de Juliano Basso (Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge e ECTCV), Eduardo Melo (Festa da Lavadeira), Paulo Dias (Instituto Cachuera!), Glaucia Rodrigues (CEU – Centro de Estudos Universais), Zé Nilo (Caçada da Rainha), Mestre Hugo Leonardo (do coco e maracatu pernambucano, que apresentou-se com o grupo Besouro de Mangangá), Bruno Goulart (antropólogo e documentarista, co-diretor de A Noite Mais Curta), Sinvaline Pinheiro (que trabalha com preservação da memória do cerrado), Gabriel Levy (Música do Mundo), Tôca (da comunidade Kalunga), dentre outros.

Durante o diálogo em roda, foram debatidas formas inovadoras de alcançar o fortalecimento e a interconexão de encontros, festivais, institutos, além de outras iniciativas similares, que tenham por valor diretriz a salvaguarda e o empoderamento de culturas tradicionais. “Temos uma diversidade humana que está entre as maiores do mundo”, afirmou Basso, destacando a importância de iniciativas como a Aldeia Multiétnica, que realizou sua décima edição em 2016.

Juliano Basso destacou também a potência de encontros como este que se realiza há 16 anos, na Chapada dos Veadeiros, como espaço propositor de políticas públicas: “A gente passa por uma época difícil, com este governo Temer, e é importante que a gente aponte caminhos. O Encontro sempre prezou por este papel de apontar caminhos para a manutenção e para o fortalecimento das culturas tradicionais e suas festas. Pois é nas festas que se fortalece toda a comunidade. Existe este Brasil, que é um Brasil muito verdadeiro, que ainda não alcançou o espaço necessário nas mídias tradicionais, na mentalidade do povo brasileiro, no sistema de educação etc”.

Foto: Bruna Brandão

Foto: Bruna Brandão

Um exemplo notável é a comunidade do sítio histórico Kalunga, que ocupa 237 mil hectares e abriga mais de 4.500 pessoas. Trata-se, segundo Basso, de “uma terra muito bonita e preservada, cheia de cachoeiras, com um alto potencial econômico sustentável, e onde as manifestações tradicionais, como a dança sussa, são cada vez mais fortes na comunidade, que está cada vez mais assumindo sua identidade. O Encontro fez um papel de ajudar e de promover isso durante esses anos todos. Também temos as festas tradicionais ligadas ao povo que foi escravizado, ao povo negro que veio da África, como a Caçada da Rainha, que remonta à primeira ocupação desta região da Chapada dos Veadeiros, no começo dos anos 1700”.

Uma iniciativa sintonizada aos ideais que animam o ECTCV é o Instituto Cachuera!, de São Paulo, representado por Paulo Dias, que explicou os objetivos e atividades do Cachuera! em sua trajetória que visa pesquisar, documentar e divulgar a cultura popular brasileira. Há 17 anos, instituto vem agindo em prol da salvaguarda e fortalecimento de expressões culturais populares de muita presença no cenário cultural do Sudeste, como o jongo, e tem entre seus objetivos a criação de um acervo digital:

“O Acervo Cachuera! é composto por aproximadamente 1.300 horas de registro audiodigital, 900 horas em vídeo de mais de 140 localidades percorridas e está acondicionado em reserva técnica localizada na sede da Associação. Seu conteúdo prioritário é focado nas manifestações das comunidades afro-descendentes do Sudeste brasileiro, particularmente de matriz bantu. O banco de dados do Acervo Cachuera!, disponível para consulta pública gratuita no local e online, é formado a partir do esforço em articular e sistematizar a catalogação dos registros realizados em diferentes suportes, desenvolvendo condições de acesso a usuários como pesquisadores, artistas e estudantes. A política de retorno do acervo tem propiciado a oportunidade de a associação realizar projetos em parceria com diversas comunidades, como é o caso do Ponto de Cultura Projeto Bem-Te-Vi, do qual a Cachuera! foi proponente.” [Site do I. Cachuera!]

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Também contribuiu para os debates desta roda-de-prosa, no XVI ECTCV, a psicóloga Gláucia C. B. Rodrigues, que há 20 anos atua no Centro de Estudos Universais (CEU), iniciativa nascida no interior da Univeridade de São Paulo (USP). “O CEU buscava juntar, dentro da universidade, a arte, a ciência e a espiritualidade, temas que muitas vezes são mantidos separados dentro da academia”, disse Gláucia. “Nós do Centro de Estudos Universais pensamos que esta união – arte, ciência, espiritualidade – é essencial para a transformação e para a saúde do planeta”.

Ela é a idealizadora e realizadora do Encontro de Músicas e Danças do Mundo, que realizou em 2016 sua décima edição, na Bahia, com o tema Dançando pela Paz. “Nós nos percebemos como cidadãos planetários, que compartilham de um mesmo espaço, que é o planeta Terra, rico em diversidade”, disse Gláucia. “Porém, neste momento em que vivemos, a cada 15 minutos uma língua desaparece da Terra – e isto é uma grande perda para o planeta. Hoje todo mundo se preocupa muito com a parte física desta perda, com a ecologia, a sustentabilidade, a preservação da natureza, mas julgamos que junto com esta preservação natural tem que estar a preservação da diversidade dos povos. Em cada língua, em cada vestimenta, em cada cultura há uma sabedoria muito grande”.

A extinção de línguas e culturas – aquilo que o antropólogo Pierre Clastres se propôs a batizar com o termo etnocídio – é uma triste recorrência histórica no Brasil (e não só por aqui). Hoje, segundo dados do IBGE, 274 línguas indígenas são faladas no Brasil. O número pode parecer elevado, mas já foi muito mais: uma imensidão de diversidade sociocultural já foi perdida, como aponta José R. Bessa Freire: “no século XVI, no território que é hoje o Brasil, eram faladas mais de 1.300 línguas, de diferentes famílias e troncos linguísticos, todas elas portadoras de narrativas orais, de conhecimentos e de memória.” (José R. Bessa Freire, A Demarcação das Línguas Indígenas no Brasil, cap. #14 do livro de Carneiro Cunha [org.], 2014, p. 365.)

É também para apontar caminhos rumo à utopia de um Brasil realmente inclusivo, ciente de sua diversidade, celebrador de suas múltiplas diferenças, fiel a suas raízes, que muitos encontros e intercâmbios estão agora em ebulição no Encontrão da Chapada dos Veadeiros. São intensas tentativas de constituir uma “rede de encontreiros”, uma união de produtores culturais, uma fraternidade digitalizada de pessoas conectadas às causas das comunidades originárias e tradicionais, tudo em prol do fortalecimento de parcerias e da solidarização de esforços que conduzam a um outro mundo possível, onde a sociobiodiversidade seja defendida, fortalecida, celebrada. Pois só assim teremos um futuro.

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Fotos: Pedro Henriques, Vila De São Jorge, XVI E.C.T.C.V.

[Encontro de Culturas – Txt 10] Desfecho triunfal: festividades Fulni-ô encerram a X Aldeia Multiétnica

DESFECHO TRIUNFAL

Nesta sexta-feira, 22 de Julho, a 10ª edição da Aldeia Multiétnica terminou, após dias de intenso convívio e interação, com uma grande festividade comandada pelos Fulni-ô de Pernambuco

por Eduardo Carli de Moraes para o XVI Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros

Foram dias de convivência intensa e intercâmbios múltiplos, que propiciaram aos presentes a experiência direta da alteridade em todo o seu colorido e diversidade. Mas como tudo que é bom dura pouco, a 10ª edição da Aldeia Multiétnica terminou. Para fechá-la com um desfecho triunfal, os Fulni-ô comandaram uma grande festividade, que acabou numa celebração coletiva, reunindo as gentes num caldeirão no qual as diferenças se harmonizaram, emanando força e beleza.

Provenientes de Pernambuco, os Fulni-ô habitam próximos ao rio Ipanema, no município de Águas Belas. Os Fulni-ô são a única etnia originária do Nordeste brasileiro que logrou preservar sua língua materna, o Ia-tê. Um de seus rituais mais conhecidos é o Ouricuri (click e saiba mais detalhes). Uma curiosidade que poucos conhecem é que um dos maiores ídolos da história do futebol brasileiro descende da etnia Fulni-ô: Mané Garrincha.

As danças e cânticos sagrados dos Fulni-ô são dotados de uma rica musicalidade, com os cantos em coro e os ritmos percussivos intensos interagindo de modo orgânico e criativo, com belíssimos efeitos estéticos. Tanto é assim que eles já registraram sua música em CDs, alguns deles disponibilizados aos conviventes da Aldeia que se interessassem em adquirí-los. Vocês podem curtir, por exemplo, o álbum Cantando Com O Sol, do grupo Fethxa, lançado em 2002 e todo cantado no idioma Ia-tê.

Além da multiplicidade de artesanatos que trouxeram ao evento, os Fulni-ô também disponibilizaram aos interessados alguns instrumentos musicais (como chocalhos, maracás, simuladores de pios de pássaros). Além disso, vieram com muitas ervas medicinais e sementes curativas, que o público pôde conhecer e experimentar, e que revelam a magnitude dos saberes terapêuticos e botânicos deste povo que vive e resiste no sertão nordestino.

Após as festividades, que congregaram os presentes em grandes rodas de celebração e em danças itinerantes que passearam por toda a Aldeia, os Fulni-ô e seu séquito de entusiastas foram se refrescar com um banho de rio. Enquanto o Sol se punha, a Aldeia Multiétnica encerrava suas atividades em clima de empatia e união, num desfecho triunfal para estes dias de tão intensas trocas e vivências.

©Bruna Brandao-7952 ©Bruna Brandao-8157 7Fotos: Bruna Brandão

 

[Encontro de Culturas – Txt 09] Festividades dos Dessana tomam conta da X Aldeia Multiétnica

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Um emblema fotográfico do dia das festividades Dessana na X Aldeia Multiétnica. Fotografia: Bruna Brandão. 21 de Julho de 2016.

Os Dessana, provenientes da região do Rio Negro, no Amazonas, onde existem cerca de 26 diferentes etnias, comandaram as festividades na Aldeia Multiétnica da quinta-feira, 22 de julho. A etnia tem sua origem às margens do rio Tiquié, próximo à fronteira com a Bolívia, e faz parte da família linguística Tukano. Para chegarem à Chapada dos Veadeiros, como relatou numa roda-de-prosa o xamã Raimundo Dessana, eles tiveram que encarar uma viagem de avião. “É uma pena que eles só nos deixaram trazer 30 quilos de bagagem cada um”, disse Raimundo. “Por isso não pudemos trazer tudo o que a gente queria de adornos e paramentos, de ferramentas e de plantas”.

Apesar dos limites de peso impostos pela companhias aéreas, os Dessana puderam realizar sua performance ricamente paramentados e demonstrando, através de suas pinturas corporais, gestos de dança e cânticos em conjunto, um pouco desta cultura ancestral (saiba mais nesta matéria de Silvaline Pinheiro  ou no site do Instituto Socioambiental).

Uma curiosidade espantosa é que o xamã Raimundo, da etnia Dessana, consegue se comunicar razoavelmente com 9 etnias da sua região. Com os parentes que são do grupo linguístico Tukano, por exemplo, ele diz conversar tão bem quanto fazem um brasileiro e um latino-americano de língua espanhola, que dão conta de “se virar”, para dialogar, com apelos ao bom e velho portuñol. Somando nesta conta dos 9 idiomas amazônicos também o português e o espanhol, que estão entre as línguas “dos brancos” que ele domina razoavelmente, Raimundo Dessana é indiscutivelmente um poliglota: comunica-se em 11 idiomas e dialetos.

Pajé Raimundo é mestre de milenares artes-da-cura revelam a densidade de saberes sobre o mundo natural conservada pelos povos indígenas através das gerações, como já contamos nesta outra reportagem, O Dom da Cura.

Foto: Santi Asef na X Aldeia Multiétnica

Pajé Raimundo Dessana, na X Aldeia Multiétnica. Foto: Santi Asef.

Teve uma vez, como ele alembra, que os franceses tomaram interesse por aprender a sabedoria médica acumulada pelo pajé Dessana junto a seus ancestrais: um médico de um hospital da França queria descobrir a cura para o vírus do HIV e acreditava que Raimundo Dessana poderia ajudá-lo nesta épica empreitada terapêutica de curar a AIDS. O pajé mostrou-se descrente e disse que não ia dar jogo: seria como dois analfabetos que tentassem se escrever uma carta.

Não havia entre o pajé Dessana e o médico francês nenhuma linguagem em comum para que pudessem, através do verbo, comunicar o essencial de seus saberes. Os abismos de comunicação abrem-se pois há o problema, incontornável, da variedade das linguagens, da diversidade de idiomas, da intraduzibilidade de muito entre elas. Há o indizível na língua do outro e há coisas na língua do outro que na nossa também são indizíveis; ainda assim, há o esforço da construção de pontes.

A Aldeia Multiétnica oferece um protótipo de espaço de convivência onde a interculturalidade e a diferença reconhecida e assumida têm destaque; um espaço onde buscamos construir pontes sobre estes abismos de incomunicabilidade para nos encontrar num espaço comum. Sabemos que muito se perde na tradução, mas será isto razão para desistir de traduzir? Se comunicar-se é difícil, devemos por isto abandonar a empreitada?

A existência de um espaço assim manifesta uma vontade humana, que é coletiva, de interconexão, de partilha, de troca de saberes. Ninguém disse que é fácil, mas esta perspectiva torna totalmente aceitável que os pajés frequentem sim os aeroportos e que aprendam muitas outras línguas além da nativa, pois só assim a aldeia global seria capaz, talvez, de ouvir esta voz tão crucial, tão enraizada, tão antiga e tão urgente.

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X Aldeia Multiétnica recebe os Dessana. Foto: Mariana Florêncio.

[Encontro De Culturas 2016 – Txt 06] Educar para Descolonizar e Emancipar

X Aldeia Multiétnica. Foto: Bruna Brandão.

X Aldeia Multiétnica. Foto: Bruna Brandão.

Educar para Descolonizar e Emancipar: educação indígena e quilombola em questão

A roda-de-prosa “Educação escolar indígena e quilombola” animou a tenda geodésica na tarde de sexta-feira, 22 de Julho, data de encerramento da X Aldeia Multiétnica

por Eduardo Carli de Moraes para o XVI Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros

A roda-de-prosa “Educação escolar indígena e quilombola” animou a tenda geodésica na tarde de sexta-feira, 22 de Julho, data de encerramento da X Aldeia Multiétnica. Os presentes puderam ouvir os relatos de muitos profissionais envolvidos em projetos pedagógicos emancipadores e descolonizadores, que apostam na autonomia e no protagonismo dos povos originários e quilombolas. Dentre os participantes, estiveram presentes a professora da UEG, Lorena Borges, o pró-reitor do IFG, Sandro de Lima, dentre outros participantes.

Uma das experiências mais interessantes que os conviventes puderam conhecer e debater envolve 36 professores da etnia Tremembé, que habitam no litoral norte do Ceará, município de Itarema. Em 2013, eles foram a primeira turma a graduar no Curso de Magistério Indígena Tremembé Superior – MITS, da Universidade Federal do Ceará – UFC, conhecido por lá como “Magistério Pé No Chão” (saiba mais nesta reportagem). Estes professores já estão capacitados para lecionar nas escolas de educação básica nas aldeias Tremembé e o conteúdo de seus cursos inclui o ensino dos saberes tradicionais e da história do povo Tremembé.

“Este curso é o primeiro da modalidade Licenciatura Intercultural do Nordeste do Brasil e se constitui, de um lado, um instigante e exitoso caso de protagonismo indígena na criação de um curso de nível superior. De outro lado, uma referência de acesso e inclusão social dos povos indígenas em uma universidade pública no Brasil.” (Artigo do professor da UFC, José Mendes Fonteles.) [1]

Outra iniciativa muito interessante são algumas políticas educacionais indígenas no Alto Rio Negro, como a Licentiatura Indígena em Políticas Educacionais e Desenvolvimento da UFAM (Universidade Federal do Amazonas). Um detalhe notável é que pessoas de sete diferentes etnias frequentam este curso, de modo que podem assim conhecer sobre as culturas e as línguas uns dos outros, numa experiência de convivência onde há rica interculturalidade. Max Tukano, que integrou a primeira turma a formar-se neste curso da UFAM, comenta: “geralmente define-se interculturalidade a partir do contato entre conhecimento indígena e conhecimento ocidental, e muitas vezes se esquece da interculturalidade entre as diferentes etnias do alto Rio Negro.” [2]

Representantes dos Guarani-Mbyá, provenientes de Santa Catarina, também trouxeram contribuições a este debate sobre educação durante a Aldeia Multiétnica. Um professor Guarani-Mbyá comentou que, segundo sua experiência, muitos dos anciãos da etnia tem resistência à noção de escolas nas aldeias, mas isso ocorre porque antes quem ministrava as aulas eram não-indígenas, de modo que soava como um modo de forçar uma integração à civilização “branca” e seus valores – uma pedagogia, em suma, etnocêntrica.

As escolas nas aldeias, como comentaram muitos daqueles que fizeram uso da palavra, não pode simplesmente reproduzir modelos e paradigmas da escola tradicional: é preciso realizar, por exemplo, toda uma desconstrução e subversão da velha noção de que o “descobrimento” do Brasil ocorreu em 1500 com a chegada das caravelas de Cabral, o que invisibiliza e censura a história milenar das civilizações e culturas pré-colombianas. É também importante que a educação indígena abra-se para outros métodos para além dos alunos sentados em carteiras, copiando em silêncio os conteúdos da lousa, e pode e deve incluir o estudo de plantas medicinais e saberes botânicos que constituem patrimônio cultural dos povos.

É urgente a descolonização do saber, do pensamento, da pedagogia. As iniciativas inovadoras de educação precisam atentar para a superação de paradigmas eurocêntricos e perspectivas históricas hegemônicas. Um exemplo de avanço importante neste sentido é a lei 12.288/10, o Estatuto da Igualdade Racial, que institui uma série de políticas para promoção da igualdade racial e combate à discriminação e à intolerância étnica. O Estatuto da Igualdade Racial tornam “obrigatório o estudo da história geral da África e da história da população negra” (artigo 11). São pequenos passos na longa caminhada rumo a uma educação que descoloniza e emancipa.

Um emblema do adversário principal que uma pedagogia descolonizadora e emancipatória precisa enfrentar é a escola como fábrica de fazer brancos. Esta eloquente imagem, evocada por José R. Bessa Freire em um artigo bem interessante, é oriunda de um desenho-de-escola criado por Vanderson, nascido em Laranjinha (PR), no contexto do Programa Kuaa Mbo’e – Formação de Professores Guarani da Região Sul. O Vanderson fez seu desenho em 2008, numa situação pedagógica “onde a língua guarani já havia substituída pelo português”, e “desenhou um grande prédio, com uma chaminé, tendo na fachada, com letras grandes, a inscrição”:

“FÁBRICA DE FAZER BRANCOS”

“Ilustrou com imagens sobre o que acontecia lá dentro: do lado esquerdo, diante da porta de entrada, uma fila de crianças indígenas com cocar e tanga. Um agenciador com megafone grita: ‘Entrem, entrem crianças!’ No quadro seguinte, as crianças que ingressaram encontram um cesto onde está escrito: ‘Deixem aqui os vossos adornos’. As crianças se despem, então, do símbolo externo estereotipado de suas identidades. Prosseguem seu caminho em direção ao chuveiro, onde tomam banho de água sanitária para embranquecer. Daí, saem para outro espaço, onde os aguarda um laboratório. Lá, colocam na cabeça das crianças um capacete com fios para realizar uma lavagem cerebral, quando então trocam de língua. Depois de mudados por dentro e por fora, as crianças passam por uma engrenagem sofisticada, com rodas dentadas, onde são triturados, moídos, pulverizados e reformatados. Saem de lá para uma sala com guarda-roupa, vestem calça, camisa, sapato. No outro lado da página, no canto inferior, fica a porta de saída. O agenciador observa as crianças que saem e exclama com júbilo: ‘Deu certo! Eles viraram brancos!’” – José R. Bessa Freire [3]

A escola pode ser espaço de autonomia e empoderamento, ou de colonização e condicionamento à submissão. Cabe a nós potencializar uma pedagogia libertária, enraizadora, descolonizada, que rompa com o paradigma hegemônico da “fábrica de fazer branco” em prol de um outro mundo possível, catalisador da diversidade, do respeito às diferenças, da valorização de múltiplas sabedorias, da interculturalidade em intensa interação e mútuo aprendizado. O caminho é longo, mas não faltam aqueles dispostos a trilhá-lo.

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REFERÊNCIAS

[1] José Mendes Fonteles, O curso de magistério indígena Tremembé superior – protagonismo indígena e inclusão social no ensino superior no Brasil.

[2] Maximiliano Menezes e Raphael Rodrigues, Reflexões e Experiências de um Estudante-Liderança: sobre algumas políticas educacionais indígenas no Alto Rio Negro. In: Políticas Culturais e Povos Indígenas, 2014,p. 344.

[3] José R. Bessa Freire, A Demarcação das Línguas Indígenas no Brasil. In: Políticas Culturais e Povos Indígenas, 2014, p. 378.

©Bruna Brandão-5714
©Bruna Brandão-5719Fotos: Bruna Brandão

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