André Dahmer: “A Cabeça É A Ilha” – Antologia com 238 tiras [LIVRARIA A CASA DE VIDRO]

“A CABEÇA É A ILHA” – André Dahmer
>>>  (R$15 + frete @ A Casa de Vidro)

Criador do fenômeno dos quadrinhos “Malvados”, André Dahmer nasceu no Rio de Janeiro, em 1974, é pintor e quadrinista. Neste livro, com prefácio de Arnaldo Branco, Dahmer sonda a solidão, o desencontro e a incompreensão em suas múltiplas formas. Nesta antologia de 238 tirinhas em preto-e-branco, repletas de sarcasmo e poesia, Dahmer revela um mundo em que “os solitários são muitos e estão em todos os lugares. Seguem morrendo aos poucos nos bares e dentro de quartos, varando madrugadas sinistras com a ajuda da pornografia em banda larga e álcool. Eles estão nos cinemas, comendo pipoca sozinhos. Despercebidos, os solitários se arrastam pelos labirintos da timidez ou vivem de um sentimento permanente de estranheza diante do mundo, com toda razão: é que hoje em dia o amor é artigo raro e a indiferença é vendida, aos borbotões, como moderno (e único) modelo a ser seguido. ‘A Cabeça É A Ilha’ é um livro para esses seres estranhos, gente que conversa com os outros olhando para o chão. Para os que falam sozinhos, bêbados em seus apartamentos. Para os que os olham para os edifícios altos como uma saída digna para o sofrimento. Não que o livro vá curá-los de toda angústia… mas rir da própria dor é uma forma de domesticar nossos monstros e aceitar nossa fragilidade diante do abandono, da indiferença…” (André Dahmer, prefácio, p. 8-9)

Livro novo, 150 pgs. Compre n’A Casa de Vidro em Estante Virtual:
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MALDITOS CARTUNISTAS!

malditos

Malditos Cartunistas

é o 1º longa-metragem sobre humor gráfico no Brasil. Realizado de forma independente por Daniel Garcia e Daniel Paiva, cartunistas e editores da revista Tarja Preta, aborda temas como a rotina de trabalho, mulheres, censura, arte e mercado editorial. Numa conversa descontraída os autores retratam a história recente do Brasil, traçando um panorama sobre a profissão de desenhista de humor no Brasil desde o Pasquim nos anos 60 até os dias de hoje.

Traz quatro gerações de cartunistas como Adão Iturrusgarai, Allan Sieber, André Dahmer, Angeli, Arnaldo Branco, Caco Galhardo, Chiquinha, Danilo, Fábio Zimbres, Fernando Gonsales, Glauco, Guazzelli, Jaguar, Laerte, Leonardo, Lourenço Mutarelli, Marcatti, Márcio Baraldi, Maurício de Souza, Nani, Ota, Reinaldo, Schiavon, Spacca e Ziraldo debatendo sobre o universo do ofício.

Os depoimentos, gravados entre 2007 e 2010, são entrecortados sugerindo uma grande conversa entre todos os personagens. Desenhos, cartuns e quadrinhos pipocam na tela ilustrando os temas em questão.

Diretores

Daniel Garcia, mais conhecido como Juca, é um dos editores da revista Tarja Preta, jornalista, cartunista, ilustrador, designer gráfico e dj da Bangarang Sound System, da Tarja Preta Sound System e das festas The Bangarang, Oh, Play That Thing!, Hula Hula a Go Go, Manie Dansante, entre outras.

http://www.manualdapilhaerrada.wordpress.com

Filmografia:

Apartamento 206 (curta-animação 2003), Bonde do Brejo – Engolindo Sapos (curta-animação 2004) e Malditos Cartunistas (documentário 2011)

Daniel Paiva é cineasta, cartunista, também editor da revista Tarja Preta e músico. Toca trompete nas bandas Fanfarra Paradiso, Luisa mandou um beijo e Orquestra Voadora e projeto de live p.a. Tarja Preta Sound System.

http://blogdobrou.blogspot.com

Filmografia:

A grande virada de Zé Tenório (curta-animação 2003), Oriximiná de Santo Antônio (curta-documentário 2004); Trocadim, Dotô? (curta ficção 2006); O vôo (curta animação 2006) ; Ornithophonia (curta animação 2009) e Malditos Cartunistas (documentário 2011)

Malditos Cartunistas, A Série

Malditos Cartunistas se tornou série para o Canal Brasil exibido em 13 episódios de agosto a novembro de 2012, sendo montada com material extra não utilizado no longa acrescentando algumas entrevistas complementares a serem rodadas.

Aprofundando-se mais no universo já descrito no filme em assuntos como salão de humor, quadrinhos independentes, internet, adaptação aos computadores, e uma homenagem ao Glauco, assassinado em 2010.

Novos personagens foram integrados à trupe como Daniel Lafayette, Stevz, Tiago Lacerda, Cynthia B., Clara Gomes, Ciça, Tito e Luís Guerreiro. Além de novas entrevistas com Laerte e Adão Iturrusgarai.

Galeria de Personagens

* * * *

Episódio 01- O cara que faz Cartum

Episódio 02 – Desenho desde criança

Episódio 03 – Não é só desenhar

Episódio 04 – Cartunista.com

Episódio 05 – Escória da Humanidade

Episódio 06 Piada de Salão

Episódio 07 – Processe-me por favor

PUXANDO O FREIO DE EMERGÊNCIA: Reflexão na companhia de “Crédito à Morte”, de Anselm Jappe (Ed. Hedra, 2013)

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PUXANDO O FREIO DE EMERGÊNCIA
Reflexão na companhia de Anselm Jappe

por Eduardo Carli de Moraes
http://www.acasadevidro.com

Cartão de Credito

AS ESPERANÇAS CATASTROFISTAS DE DECOMPOSIÇÃO DO CAPITALISMO

Uma velha esperança, que “gerações e gerações de revolucionários proclamaram”, é esta: o capitalismo será o “coveiro de si mesmo”. Segundo esta esperança, explica o filósofo Anselm Jappe, “o capitalismo é de tal modo devastador que forçará a humanidade a se desvencilhar dele ou, pelo menos, a fazer mudanças drásticas.” (pg. 28) É a tese que Jappe chama de “catastrofista”, disponível em versão ecológica e econômica, e que é expressa muitas vezes com um certo entusiasmo esperançoso: “O instinto de sobrevivência fará com que a humanidade pare às bordas do penhasco” e “diante do perigo extremo, as pessoas acordarão e um milagre acontecerá”! (pg. 29)

Mas se não há Providência divina que zele pelo futuro da Humanidade, nem ética que governe a livre barbárie do Mercado, de onde este evento milagroso surgiria para despertar as multitudes de seu conformismo, de seu consumismo, de sua zumbizice? O capitalismo não é algo que diz respeito somente às estruturas da economia, da produção objetiva de mercadorias e serviços, mas também à nossa estrutura subjetiva: “Desde pequeno fomos programados a receber / O que nos empurraram com os enlatados do U.S.A. das 9 às 6”, canta Renato Russo em “Geração Coca-Cola”. “Desde pequenos nós comemos lixo comercial e industrial – e não somente o capitalismo agarra-nos com seus tentáculos por fora, como também coloniza nosso mundo íntimo. 

Um dos conceitos mais interessantes mobilizados por Anselm Jappe em sua análise da presente crise ecológico-climática planetária (milhares de alarmes soando, enquanto a Shell avança pelo Ártico e a Monsanto coloniza nosso solo…) é a do capitalismo como forma-sujeito. Capitalismo é também uma forma do sujeito ser, o que acarreta a possibilidade, para todos e cada um, de que o capitalismo seja um crime de que somos cúmplices. Nós o sustentamos.

As “revoluções”, opina o autor de Crédito À Morte, emergem de um desejo de “romper com o capitalismo e com a própria forma-sujeito imposta por ele e que cada um carrega consigo” (pg. 112). Nosso imaginário foi colonizado e agora sonha seus delírios de consumo: sonhamos não mais sobre a esfinge proposta pelo dínamo estrelado da noitemas sim com um novo automóvel zero km que queremos comprar. Narcisos perdidos em suas narcoses de auto-celebratório conformismo, permanecemos firmemente abraçados a um Titanic que já teve seu casco ferrado pelo clash com o iceberg. 

É insistente, teimoso, este nosso velho conhecido: o antropocentrismo. Ele resistiu e sobreviveu às 3 feridas narcísicas de que fala Freud e que acometeram-nos quando as doutrinas científicas heliocêntricas, evolucionistas e psicanalíticas começaram o processo de demolição de nosso antropo-ego. Não cremos mais numa Terra imóvel no centro de tudo, mas cremos numa Terra que é legitimamente colonizada pelos humanos como se fosse algum tipo de rocha morta em território alienígena. Cremos no nosso direito de sujar a atmosfera com toneladas de poluentes, apesar de não crermos mais que todas as estrelas no céu foram criadas para agradar a nossa vista, como pintava aquela visão, teleológica e narcisista, tão finamente ironizada por Fontenelle no clássico iluminista Diálogos Sobre a Pluralidade de Mundos:

“A nossa loucura é acreditar também que toda a natureza, sem exceção, é destinada a nosso uso; e quando perguntamos a nossos filósofos a serventia desse número prodigioso de estrelas fixas… eles nos respondem friamente que servem para lhes agradar a vista. Nessa base, a princípio não faltou quem imaginasse estar a Terra necessariamente imóvel no centro do universo, enquanto todos os corpos celestes, que eram feitos para ela, davam-se ao trabalho de girar em volta para iluminá-la.” (FONTENELLE, Diálogos Sobre a Pluralidade de Mundos. Campinas/SP: Editora da UNICAMP. Pg. 53)

Se abandonamos o geocentrismo, no entanto ainda cremos numa Terra que está aí para que nós a dominemos, e que aceita passivamente tudo o que impusermos a ela como subprodutos de nossos empreendimentos produtivos: grande parte de nós não é capaz de “expressar dúvidas sobre o rumo como um todo da viagem empreendida pela sociedade industrial” (pg. 113). Jappe quer que foquemos a atenção em algo maior que qualquer existência individual, qualquer grupo social, qualquer pátria ou filiação étnica: é o rumo como um todo desta civilização o que interessa-lhe compreender e criticar, e a palavra rumo é interessante por seu “futurismo”: ruma-se para um certo futuro, ou ou z. Supondo que seja um futuro de caos climático generalizado e grandes emergências humanitárias e mortandades em vasta escala, não seria de interesse humano generalizado uma mudança drástica de rumo?

Rumo ao quê? Quicá a um certo futuro y, que não queime mais combustíveis fósseis como um junkie enlouquecido injeta heroína. Um futuro y em que, ao contrário, a superfície do planeta tenha reverdejado com o engendramento de novos verdes e reganhado a saúde de suas flores e suas colméias de abelhas. Um futuro y, que cabe a nós muito mais construir juntos do que esperar que algum deus, messias ou político faça pela gente, seria por exemplo movido a energia solar e eólica, sua dieta seria mais frugívora do que carnívora, a convivência social mais comunitária e celebratória, bem menos cruel e menos competitiva em relação ao que é hoje.

Que um outro futuro z, de catástrofe apocalíptica – digamos… 90% das espécies vivas do planeta sendo extintas antes de 2.500 d.C. – , seja possível é certamente a crença de Jappe. O pior é possível. E nossos rumos não nos dão razão para otimismos infundados. Rumamos sim para colapsos, para catástrofes climáticas, caso sigamos hoje certos rumos infelizmente já bem trilhados – e que muitos parecem querer seguir trilhando, quiçá pelo medo que nos geram as novas estradas.  “Houve já civilizações inteiras que desapareceram em vez de mudar seus hábitos”, opina Anselm Jappe, um autor bastante ducha-d’água-fria sobre os otimismos. O prognóstico Jappeano é sombrio: “O que está programado é a catástrofe e não a emancipação.” (pg. 28)

O que hoje conhecemos como “Aquecimento Global”, por exemplo, é uma catástrofe programada, já muito anunciada, já infinitamente prognosticada, que no entanto não soubemos, coletivamente, sequer encarar de frente, de olhos bem abertos e disposição para a ação renovadora. A perspectiva de uma iminente crise climática global agora serve como novo avatar deste velho mito: o capitalismo, coveiro de si mesmo. Estamos esperando que ele se auto-destrua, e enquanto isso passeamos pelos shoppings centers e circulamos pela metrópolis queimando fósseis em nossos motores? Mas e quanto – eis a questão do milhão… – à tarefa de matar o capitalismo dentro de si?

Antidepressivos

A globalização do sistema de produção capitalista trouxe-nos à beira do penhasco, mas muitos de nós estão demasiado distraídos, clicando compulsivamente em botões de celulares e PCs, zapeando por centenas de canais de TV repletos de besteirol imbecilizante e iscas para o consumo sem freios, e enquanto isso a atmosfera do planeta é tratada como se fosse uma gigantesca privada. O privatismo caga sobre a biosfera, perdido na narcose de seu narcisismo, obcecado com o conforto e o bem-estar, mas despreocupado das próprias condições ambientais para o prosseguimento desta velha trama: a evolução da vida.

Lendo “Crédito à Morte”, de Anselm Jappe, fico com a impressão de que existem pelo menos duas vertentes para o catastrofismo intelectual atual, e que daria para rotular, de modo um tanto simplista, como vertentes otimistas e pessimistas. Os otimistas acham que “o instinto de sobrevivência fará com que a humanidade pare às bordas do penhasco e reconheça que a continuidade do capitalismo é incompatível com os interesses fundamentais de sobrevivência.”

Já os pessimistas, como Jappe, argumentam: “infelizmente não existe instinto de sobrevivência generalizado… A consciência dos riscos ecológicos não leva necessariamente à emancipação. Pelo contrário, também pode levar a soluções autoritárias, à concorrência extrema para ter acesso aos lugares não poluídos, ou a novas guerras. A derrocada econômica também não traz consigo um vento que sopra rumo à emancipação…” (pg. 29)

Emancipação, palavra menos judiada pela história que “revolução”, prossegue servindo-nos como conceito fundamental para pensar nossa ação, ainda que precisemos renovar o rol de tudo aquilo de que precisamos (urgentemente) nos emancipar. Anselm Jappe despeja seu sarcasmo sobre movimentos políticos que desejassem, por exemplo, demandar “o direito de todos comerem no McDonald’s”, quando ele acredita que “a emancipação não pode ser outra coisa senão a libertação em relação àquilo que impede a autonomia num nível mais profundo e mais geral. Essa emancipação só pode dizer respeito ao sistema capitalista e tecnológico em seu conjunto.” (pg. 30)

Diante da disseminação dos transgênicos e dos pesticidas, da proliferação dos ecocídios petrolíferos e das táticas de fracking, da possível clonagem humana e do fantasma da eugenia rediviva, da certeza de que o capitalismo seguirá produzindo crises como a de 2008 (e quiçá ainda mais graves), diante do desmate de florestas tropicais e da extinção de milhares de espécies, e frente às geleiras que derretem-se enquanto a Shell avança como vampira sobre o Ártico, talvez devamos prestar um tantinho de atenção aos catastrofistas, estes que sugerem que talvez seja hora de… puxar o freio de emergência!

“É conhecida a frase de Walter Benjamin escrita na época em que o fascismo triunfava:

“Marx diz que as revoluções são as locomotivas da história. Mas talvez não seja bem assim. É possível que as revoluções sejam, para a humanidade que viaja nesse trem, o gesto de puxar o freio de emergência.”

(BENJAMIN, W. Notes préparatoire pour les thèses sur le concept d’histoire. Paris: Gallimard, Vol. III, p. 442)

Vivemos tossindo em nossas metrópoles megapoluídas e todo este CO2 causa no cérebro coletivo uma crise das utopias? De todo modo, aos que insistem em proclamar e decretar a invencibilidade do capitalismo, convêm perguntar: “Por que estamos tão certos de que o capitalismo pode escapar ao ciclo do nascimento, crescimento e morte? Será que ele não poderia conter limites intrínsecos a seu desenvolvimento, limites que não residem somente na existência de um inimigo declarado (o proletariado, os povos oprimidos), nem unicamente no esgotamento dos recursos naturais?” (JAPPE, pg 48)

Montt

O prognóstico catastrofista sobre nosso futuro é o de que caminhamos correndo rumo a um abismo que não enxergamos pois diante de nossas mentes está a imensa Matrix do Mercado. Caminhamos a passos largos para a catástrofe ecológica de vasta escala, a uma desregulação tão bárbara do sistema climático que suas consequências para o futuro da vida são imensos, e muitos seguem tão apegados a seus cartões-de-crédito quanto o são de seus crucifixos e pingentes santos. Evocando Céline, Anselm Jappe diagnostica que o capitalismo é morte à crédito. E que “o crédito, que é um lucro consumido antes de ter sido realizado, pode adiar o momento em que o capitalismo vai atingir seus limites sistêmicos, mas não abolir esse limite.” (pg. 51)

Celulares em 10 parcelas, sem juros! Financie seu carro e sua casa, pague nas três décadas futuras! Quem não ouve às mancheias, hoje em dia, serem trombeteadas, como iscas, pelos publicitários de plantão, convites ao crédito, seduções sobre as maravilhas inumeráveis do crédito? Ser pessoa “digna de crédito” é elogio. Tem quem adorne-se com terno e gravata (item de vestuário apelidado pelo iconoclasta Tom Zé como uma “forca portátil”) pois quer parecer pessoa de crédito. E no entanto o crack de 2008 chegou feito cataclismo, com muitas analogias históricas com a Grande Depressão iniciada em 1929, e mostrou que crédito e catástrofe são irmãs siamesas. A tese de Anselm Jappe é a de que a mais grave das crises do capitalismo global recente não pode ser explicada apenas com aquela que é a “explicação mais despachada, e também a mais difundida, que atribui a culpa de tudo isso à ‘avidez’ de um punhado de especuladores que teriam jogado com o dinheiro de todos como se estivessem num cassino.” (pg. 40)

crédito massificado merece ser o alvo de nossa crítica, argumenta Jappe, não para encontrarmos aí um bode expiatório, mas para que sejamos ilustrados por um dos sintomas do capitalismo contemporâneo e sua Schumpeteriana “destruição criadora”. O trem do capitalismo globalizado choca-se com os limites naturais e as resistências ético-políticas, está sob ameaça de desintegração, pois duas fronteiras foram transgredidas: “um limite externo foi atingido, tanto com o esgotamento dos recursos – principalmente do recurso mais importante e o menos substituível: a água potável -, quanto com as mudanças irreversíveis do clima, a extinção das espécies naturais e o desaparecimento de paisagens. Mas o capitalismo também se dirige a um limite interno… a transformação do trabalho em valor está historicamente destinada ao esgotamento por causa das tecnologias que substituem o trabalho.” (60) A tecnê há de enterrar o velho vilão?

Dahmer Tecnê

Os catastrofistas encontram esperanças onde podem. É perdoável diante do trauma daquilo que vivenciaram assim que ousaram pôr as caras fora da Matrix midiática, para investigar o que de fato está sendo feito com o planeta atualmente. É de imensa valia a obra, nascendo tão belamente diante de nossos olhos, de pessoas como Arundhati Roy, Raj Patel, Naomi Klein, Vandana Shiva, dentre tantos outros, que corajosamente ilustram-nos sobre nosso habitat e nossa responsabilidade, ajudando-nos também a confrontar o monstro em si, monstro dentro de cada um, esta tarefa que muitos pensadores da esquerda radical anti-capitalista às vezes praticam de modo débil e esquivo… Não basta dizer que é tudo culpa de uma conspiração de ricos, uma corja de canalhas endinheirados, que gerem um desastroso cassino capitalismo: precisamos confrontar, cada um de nós, dentro de nós mesmos, o quanto somos cúmplices do capitalismo que às vezes, da boca pra fora, repudiamos.

Se ando julgando que a obra de Anselm Jappe merece ser lida, é um pouco pelo efeito de gerar no leitor uma sensação de repúdio refletido ao capitalismo. Jappe defende uma “lucidez” que nos faça ir além do mero “engrossar o coro dos populistas de toda cor que se limitam a resmungar contra os bancos, as finanças e as bolsas… Esse populismo desembocará facilmente na caça ‘aos inimigos do povo’, na parte de baixo (os imigrantes) e na parte de cima (os especuladores), no caso da França, evitando toda e qualquer crítica dirigida contra as verdadeiras bases do capitalismo, que aparecem, ao contrário, como sinônimo da civilização a ser salva: o trabalho, o dinheiro, a mercadoria, o capital, o Estado.” (pg. 63)

Parece vigorar uma espécie de desilusão crônica no seio da intelectualidade crítica. Hoje em dia Zizek, Badiou e Negri, três dos principais representantes de uma filosofia crítica à supremacia capitalista, não me parecem exatamente otimistas quanto ao futuro, já que é “mais fácil imaginar o fim do planeta do que imaginar o fim do capitalismo” (Zizek). Mas será que não se trata de algo mais do que imaginar fim do capitalismo? Não se trata sobretudo de emancipar os corpos e mentes dos seres humanos da escravidão em que insistem em viver, comprando fielmente as mercadorias e as ideologias das mãos daqueles que são os coveiros do nosso futuro“Efetivamente, dá vertigem encarar o fim de um modo de vida em que todos estamos afundados até o pescoço”, escreve Anselm Jappe, e “que agora está naufragando sem que ninguém tenha decidido, deixando-nos numa paisagem de ruínas.” (p. 63)

Bem vindo à wasteland do real. O lugar da distopia realizada, onde a utopia (eco-socialista, por exemplo) só brilha por sua ausência. Ou melhor: as utopias anti-capitalistas parecem queimar em fogo baixo, enquanto proliferam-se os reformismos e os green capitalisms, pregando que o capitalismo seria eternamente corrigível, como se tivéssemos que nos resignar ao melhorismo gradativo do que aí está.

O fundamentalismo de mercado pôde impor em boa parte do globo terrestre as suas maquinarias de produção e consumo, mas ainda não colonizou totalmente nossos corações e mentes, disso Jappe bem sabe. O outro mundo possível frequentemente acompanha os catastrofistas em sua atribuladas jornadas teóricas e práticas – e a tarefa do intelectual jamais pode ser somente denuncista e nada propositiva. “Para além das rebeliões abertas, há infinitos atos cotidianos que dão o testemunho da resistência, frequentemente muda, que quase todos os homens, num momento ou em outro de seu dia, opõem à utopia invivível de uma sociedade inteiramente capitalista. (…) Talvez seja uma ‘utopia ingênua’ crer que a humanidade possa viver sem a propriedade privada e as hierarquias, a dominação e a exploração; é seguramente uma utopia terrível crer que a vida possa continuar a se basear sempre no dinheiro e na mercadoria, no vender e no comprar, quando as consequências disso já estão debaixo dos nossos narizes.” (JAPPE, pg. 202)

Walter Benjamin

“Marx diz que as revoluções são as locomotivas da história. Mas talvez não seja bem assim. É possível que as revoluções sejam, para a humanidade que viaja nesse trem, o gesto de puxar o freio de emergência.” (BENJAMIN, W. Notes préparatoire pour les thèses sur le concept d’histoire. Paris: Gallimard, Vol. III, p. 442)

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Este post dialoga com o livro “CRÉDITO À MORTE”, de Anselm Jappe. Editora Hedra/SP, 2013.

A BANCADA DO MEDO, por Vladimir Safatle


Laerte

A BANCADA DO MEDO
por Vladimir Safatle
(Folha de São Paulo, 07/04/2015)

O Congresso Nacional conseguiu chegar ao seu ponto mais baixo nos últimos dias com o envio da proposta de redução da maioridade penal para o plenário da Câmara.

Lutando desesperadamente para ganhar alguma popularidade em uma situação de descrédito completo, comandadas por dois senhores diretamente indiciados no escândalo da Petrobras, as duas Casas dão agora seus primeiros passos no projeto de remeter o Brasil à Idade Média.

Por trás da proposta de redução da maioridade penal não está uma reflexão sobre as formas mais eficientes de se combater a violência. Na verdade, ela é apenas a expressão de um forte sentimento social de vingança e de tentativa desesperada de materializar uma sensação difusa de insegurança que anima setores da sociedade civil.

Para tais setores, o afeto político sempre foi o medo. É o medo que os mobiliza e que os leva a constituir personagens que encarnem seus fantasmas mais primários, como o “delinquente juvenil que pode matar impunemente”, mesmo se o percentual de assassinatos cometidos por pessoas entre 16 e 18 anos é menos de 1%.

Qualquer discussão séria sobre o assunto deveria começar lembrando que o índice de reincidência dos que passam por medidas socio-educativas é de 20% a 30%, enquanto o do sistema prisional é de 70%.

Mas para mascarar o medo patológico de setores da população, vemos a profusão de argumentos compostos de retalhos. Um dos mais usados ultimamente consiste em lembrar vários países “desenvolvidos” cuja maioridade penal é menor que a brasileira.

No entanto, eles deveriam começar por se perguntar se uma prisão brasileira pode ser realmente equiparada a uma prisão sueca.

Ao contrário, o Brasil é referência mundial para um sistema prisional medieval, ineficiente, criminoso, que prefere encarcerar sistematicamente a usar práticas punitivas alternativas. Apenas 10% das pessoas atualmente encarceradas estão lá por homicídio. Mas mesmo tendo a quarta população carcerária do mundo, uma das polícias mais violentas e assassinas da galáxia, nosso país não conseguiu diminuir seus índices de violência.

Ou seja, essa discussão sobre maioridade penal é mais uma cortina de fumaça usada por aqueles que, no fundo, não se interessam em combater a violência.

Se realmente estivessem, estariam a punir banqueiros que lavam dinheiro do tráfico, policiais que agem como bandidos alimentando um forte sentimento de revolta social, a lutar contra a extrema vulnerabilidade e invisibilidade dos que moram nas periferias.

O melhor remédio contra o crime nunca foi “a punição como espetáculo”, mas a construção da coesão social.

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