A CAVERNA – ALEGORIA FECUNDA: Da pena de Platão à era dos memes, as mutações de um mito filosófico

A Alegoria da Caverna, exposta por Sócrates no Livro VII do diálogo “A República” de Platão (leia a transcrição), é uma das mais fecundas invenções filosóficas que já vieram à luz, pela História afora.

Ela continua eficaz em inspirar inúmeros comentários, interpretações, releituras, adaptações e debates: marca presença em filmes (como “Matrix”, dos Wachowski, ou “Truman Show”, de Peter Weir) e romances (como “A Caverna” de Saramago), tirinhas da cultura pop e palestras acadêmicas, memes viralizantes e artigos no Medium (com o perdão da auto-referência explícita)…

O legado “cavernístico”, sua fortuna crítica, suas diferentes versões, é um espanto de tão gigante, vasto e multiforme. Até mesmo as polarizações políticas brasileiras acabam raptando o célebre mito, subvertido e reconfigurado memeticamente em imagens que têm sua graça e seu charme:

 

 ALEGORIA DA CAVERNA adentrando a ERA DOS MEMES

Neste grupo dos “rebentos” mais recentes do mito, podemos também mencionar os quadrinhos de Maurício de Sousa — que aborda o tema em uma das historinhas protagonizadas pelo Pithecanthropus Erectus da Silva, ou melhor, o Piteco.

O personagem pré-histórico da Turma da Mônica é o responsável, neste caso, por uma intervenção pedagógica na caverna: adentra o recinto, alertando aqueles que estavam fascinados pelas sombras dançantes no muro de que lá fora é que, de fato, estava pulsando a verdadeira vida, sob a fulgurância dos raios de Sol.

Quando o pessoal vibra diante da sombra de uma mulher, Piteco lhes garante: “vocês deviam admirar é a dona desta sombra!” Um pedagogo platônico, ainda que um tanto fanfarrão? Ou um professor de empirismo, que rompe com o platonismo e manda procurar a coisa concreta ao invés de sua mera representação?

Estes quadrinhos ignoram a primeira parte da alegoria, em que um daqueles que estava acorrentado consegue libertar-se e sai pela primeira vez da obscuridade cavernosa rumo ao mundo iluminado pelo Sol. É como se Maurício de Souza desse o start em sua historieta já no momento onde o personagem que libertou-se decide retornar à Caverna, para contar a boa-nova aos que lá ficaram, abestalhados diante do precursor da alienação televisiva.

Quando, no final da HQ, a TV faz sua aparição, o comentário irônico é bem claro: seguimos preferindo as imagens às coisas, as sombras aos entes concretos, as mentiras televisionadas às verdades da carne. Uma leitura que pode aproximar o Peteco de uma visão “Black Mirror” sobre a atualidade, mas que certamente o afastam um pouco do sentido original transmitido pela parábola socrática.

No caso da lenda narrada por Sócrates, aquilo que fascina com sedução falseadora os acorrentados na Caverna é o mundo empírico — tudo o que cotidianamente vemos com nossos olhos, escutamos com nossos ouvidos, cheiramos com nossos narizes, tocamos com nossa pele, tudo isto não passaria de ilusão, sombra, reflexo.

Originalmente, a parábola quer instaurar uma espécie de condenação da credulidade humana diante dos dados sensíveis, afirma que há uma Verdade que se esconde para além do sensível, uma Verdade só acessível à alma humana capaz de suficiente ascetismo para ascender até ela…

A Verdade, sim, está longe das imagens — como sugerem tanto a HQ do Piteco, quanto a tirinha à la Black Mirror em que o Armandinho, em plena era dos celulares, diz que “vivemos no tempo das cavernas… vivemos na caverna de Platão!” — mas no caso de Sócrates a Verdade não está nas coisas, as “donas” das sombras, os corpos carnais cujos reflexos se projetam na parede, mas sim algo muito mais ideal, impalpável: os ideais eternos, os paradigmas incorruptíveis, eternamente em morada celeste.

O mais temerário de tudo, na teoria platônica, é a suposição de que os paradigmas eternos precedem no tempo as coisas tal como aparecem na empiria. O espiritual precedeu o material — tese platônica que, História afora, será perpetuamente contestada pela escola Materialista (de Demócrito, Epicuro e Lucrécio, na Antiguidade, a Holbach, Diderot e Marx na Modernidade…)

O Sol, similarmente, não é exatamente a estrela que aparece-nos à visão como bola-de-fogo, irradiante de calor e luz, sensível à nossa pele, estarrecedora para nossas retinas, mas muito mais um símbolo: o sol platônico representa a verdade do mundo inteligível, aquele que só podemos acessar “pelo pensamento”, domínio acessível somente à alma e não ao corpo.

Longe, pois, de convidar-nos a abraçar tudo que é de carne-e-osso, tudo o que é carnal e pulsante de vida, a alegoria da Caverna convida ao ascetismo, ao racionalismo mortificador do corpo. Ao menos esta seria a interpretação mais coerente com o conjunto da doutrina filosófica hoje conhecida como idealismo, e que teve em Sócrates, em especial em sua expressão através da pena platônica, um de seus mais importantes plasmadores, forjadores, inventores.

O mito cai no mundo e não se pode controlar as interpretações dele: longe de respeitar a ortodoxia platônica, muitos artistas realizaram leituras heterodoxas da alegoria da Caverna — e a historinha do Piteco é uma delas. No cinema, o sci-fi “Matrix” (1999), dos Wachowski, que marcou época em fins de século, pretende lançar o mito para um cenário futurista e apocalíptico, em que após a rebelião das máquinas a Humanidade está sob a opressão de uma escravidão nova, condenados quase todos a uma Neo-Caverna cibernética, uma ilusão colocada diante de nossos olhos para nos cegar da verdade…

“Matrix” recupera muitos elementos da mitologia e da filosofia da Antiguidade, inclusive ingredientes pré-socráticos, e inclusive pré-filosóficos: inspira-se em certas vertentes da espiritualidade grega que estavam presentes desde muito antes da aurora da Filosofia em VI a.C. com os primeiros cosmologistas da Jônia (Tales, Anaximandro etc.). O personagem de Neo (vivido por Keanu Reeves) realiza algo análogo a uma peregrinação rumo ao Oráculo de Delfos em uma cena em que adentra a moradia oracular lendo uma inscrição, em latim, que recomenda: “conhece-te a ti mesmo”.

Neo, logo se vê, é um Sócrates pós-moderno. Quando consulta o oráculo, não está ainda cheio-de-si, arrogante, presunçoso, como depois se tornará — também à imagem e semelhança de Sócrates — quando estiver mais crédulo em seu status de Messias. A Caverna platônica e a Matrix cinematográfica envolvem ambas a noção de um Messias, um Salvador, um Libertador, o Cara Que É O Tal. E é necessário criticar os heróis construídos para nosso fascínio (e nosso consumo) — e isso deve valer tanto pra Neo quanto para o herói da alegoria (na verdade, uma figura através da qual Sócrates realiza um narcísico auto-elogio).

Neo é o “eleito” para salvar a Humanidade da Matrix assim como Sócrates havia sido eleito por Apolo — o próprio oráculo délfico o referenda!- para a missão divina que desenhava em Atenas através da práxis filosófica. O herói, aqui, através de suas peripécias deixa emanar de seu exemplo uma “moral da história” que convida, e nos confina, no individualismo: o indivíduo especial, extra-ordinário, com dons fora do comum, irá salvar-nos a todos, virá resgatar-nos de nossa estupidez, nossa ignorância, nossa violência, nosso caos social. A salvação coletiva é produto de um indíviduo salvador. O que conduz à subserviência aos ídolos que são os grandes líderes, fabrica o perigoso e fecundo em atrocidades “Complexo do Messias”.

O que hoje conhecemos por Platonismo, algo que plasmou-se tendo “A República” como um dos textos mais essenciais, pode ser lido por seus efeitos sócio-políticos, pelo tipo de ethos que recomenda, pelas consequências que traz para as relações humanas inter-subjetivas e políticas. A explícita recomendação de que o governante supremo, soberano, deve ser um filósofo-rei, faz com que se acendam os alertas: Sócrates, no texto platônico, pretende instaurar uma espécie de monarquia aristocrática onde o poder político está concentrado naquele que é “mais sábio”. Ora, cara pálida, mais sábio no juízo, no julgamento de quem?!? Quais são os critérios que nos farão definir quem é o detentor-mor de “sophia”, sendo portanto o mais legítimo dos governantes?

Naturalmente, a resposta é: o filósofo-rei é aquele que tem todas as qualidades de Sócrates. Deve reinar aquele que tem a alma mais forte que o corpo; aquele que sabe reprimir seus ímpetos sexuais e sensuais; aquele que tem o auto-controle, a moderação, a prudência, a razão controladora dos afetos; aquele que é cavaleiro firme, que doma o corcel desordenado da paixão.

Acima de tudo, deve reinar aquele que sabe da hierarquia verdadeira entre a empiria (os dados sensíveis) e o intelecto (a razão descarnada) — o filósofo-rei é, à semelhança da figura que libertou-se da Caverna, aquele que sabe que a empiria é mentira, que só o intelecto tem acesso à verdade, e que a Verdade assim desvelada (os gregos falarão de “alethéia”, desvelamento do oculto) precisa ser ensinada aos enganados. O filósofo-messias, dono da verdade, senhor das paixões, faz-se tirano esclarecido, praticando em seguida a mais totalitária das “ortopedias”: ensina seus súditos que só há uma verdade, a sua, e que serão alçados à força para fora de seu chafurdamento vergonhoso na sensualidade empírica, antro apenas de engano e depravação…

Não está longe a tirania do puritanismo que grassará pela Idade Média afora; e encontraríamos aí, no Sócrates de Platão em “A República”, o protótipo do messias autoritário, cuja condenação à morte é um sintoma do quanto incomodava as autoridades com seus acólitos e discípulos fanatizados, ensinados na escola da intolerância que só os puros se salvarão…

Hannah Arendt afirma que precisou escrever “As Origens do Totalitarismo” pois, na História pregressa, não encontrou, por exemplo nas classificações que a filosofia política greco-romana propôs para os diferentes regimes de governo, nada que se assemelhasse aos sistemas políticos surgidos sob a Alemanha nazista (o III Reich) ou na fase stalinista da URSS. Poderíamos retrucar, provocativamente, que apesar de não ser adjetivada ainda com este termo “totalitário”, “A República” de Platão é aquilo que mais se aproxima, na Antiguidade, de descrever tal regime político…

É interessante o que Arendt diz, em conversa com Octavio Paz, reproduzida no livro “A Duas Vozes” (Org: Eduardo Jardim), em que ela reflete sobre a relação dos filósofos com a política:

“Os filósofos levaram a política muito a sério, e nem poderia ter sido de outra forma, pois foram motivos políticos que justificaram a condenação de Sócrates. Um ensaio de Heidegger — A Doutrina de Platão sobre a verdade  (saiba mais) — apresenta uma proposta de interpretação da conhecida alegoria da caverna… Ela descreve o percurso do personagem que representa a alma, em dois sentidos: do interior da caverna, onde se encontrava aprisionado, em um movimento ascendente, até a contemplação do sol — o bem ou a verdade suprema — e, em seguida, em sentido descendente, do ambiente iluminado do exterior da caverna até o seu interior, para libertar os que ficaram.

Heidegger observa que estão presentes neste relato duas expressões para designar a verdade. A primeira — “alethéia” ou desvelamento — tem a ver com o modo como tradicionalmente a verdade era concebida: associada a um procedimento por meio do qual algo é arrancado da ocultação e é trazido à luz. O termo aparece na descrição do percurso ascendente do personagem, em sua ânsia por contemplar o brilho das idéias, sobretudo da mais perfeita — a do bem, representada pelo sol.

Uma segunda forma de designar a verdade é, em seguida, mencionada, ao se descrever o percurso descendente do personagem de volta ao interior da caverna… Nesse momento, a verdade não motiva mais uma experiência de contemplação estética, como ocorrera anteriormente. Agora, a idéia é tomada como um padrão cujo significado é idêntido ao do modelo percebido pelo artesão ao iniciar a execução do seu trabalho. O termo “alethéia” desaparece. Em seu lugar, o texto faz menção a “orthótes”, que quer dizer correção, indicando desse modo que o acesso à verdade depende, agora, da posição correta do olhar na direção do modelo ideal…” (HANNAH ARENDT, conversa com Octavio Paz, pg. 58–59)

O que incomoda-me, preocupa-me, irrita-me, ou mesmo revolta-me, é que a alegoria propõe que a salvação dos acorrentados não é obra dos próprios, quebrando suas correntes de alienação, mas é obra de um salvador exterior, do messias “descendente”, aquele que porta-se como “dono da verdade” e que liberta os outros à fórceps (um pouco como os EUA levando a Democracia e a Liberdade para o Iraque e o Afeganistão, hoje em dia?).

Esta “liberdade” que o herói socrático-platônico propõe é fiel a um ideal ético-político baseada no racionalismo, no puritanismo, numa vida de ascese anti-corpórea, anti-sensual, anti-gozo, que com frequência degenera numa tirania dos que se julgam os melhores. É possível propor uma política, baseada numa certa interpretação do mito socrático-platônico, que parece uma aristocracia totalitária, que deseja impor à totalidade da sociedade os seus parâmetros de comportamento e de vida — aqueles que não se corrigirem, que não se adequarem, que não se conformarem, poderão e deverão ser excluídos do convívio social, mandados ao exílio, ou, quem sabe, como farão alguns no século XX, enviados aos campos de extermínio…

Longe de propor a auto-superação ou mesmo a auto-revolução dos encavernados, que por suas próprias forças romperiam sua ingenuidade e alçariam sua consciência ao patamar superior da consciência crítica, como seria possível numa re-leitura Marxizante ou Paulo Freirezante do mito, o que ocorre em Platão é propaganda reacionária: as massas, as maiorias, os meros mortais, estão na mentira. O filósofo-rei — puritano, racionalista, ascético, capaz de ir ao céu da verdade e voltar para forjar os outros, por ortopedia, em obediência a ela! — não passa de um aristocrata mandão, crédulo demais na sua própria via e na sua posse da verdade, a ponto de torna-se o impositor de um ethos específico à imensa diversidade humana.

Ao arco-íris do desejo, de que fala Boal, ele impõe o preto-e-branco, o 8 ou 80, de seu dualismo maniqueísta (a alma vale tudo, o corpo não vale nada…) Nasce daí um tiranete, enfim, o governante despótico de um idealismo tirânico, que expulsa poetas, condena desviantes, estigmatiza diferenças e já conheça a acender as chamas de futuras Inquisições e Expurgos…

A alguns pode parecer chocante, impertinente, excessivamente vândala, a atitude de acusar o Sócrates platônico de ser um precursor do totalitarismo, quando tantos o celebram, por seus diálogos intensamente animados pelo debate inter-subjetivo, como precursor da democracia. A verdade é que Sócrates é complexo e multifacetado demais para que nele algum rótulo cole a contento. E a verdade é que Platão é um escritor, um poeta e um dramaturgo genial demais para que seja possível crer que de fato existe algo como “o platonismo”, como doutrina fechada. Aliás, Platão ama ocultar-se. O papel protagônico é todo de Sócrates em sua obra filosófica-dramatúrgica. O texto de Platão, as falas de Sócrates, a vivacidade destes diálogos e desta dramaturgia, transborda todas as represas — é um oceano, imenso, fecundo. Há ainda futuro para o mito mutante da Caverna.

O que apenas desejo enfatizar com estas mal-traçadas críticas — e nisto sinto-me acompanhado, e muito bem-acompanhado, por figuras como André Comte-Sponville (O Mito de Ícaro) e Oswald de Andrade (A Utopia Antropofágica) — que o dito platonismo, que o legado do pensamento socrático, que o próprio mito da caverna, são fecundos também em perigos, inclusive e sobretudo aquele de uma certa “apropriação totalitária” deste mito.

* * * *

Por Eduardo Carli de Moraes
Adentre: A Casa de Vidro
Leia na plataforma Medium
Compartilhar link no Facebook ou Twitter

LEIA TAMBÉM:

THE TRUMAN SHOW – O SHOW DA VIDA, um filme de Peter Weir (1998)

MESMO QUE O CÉU NÃO EXISTA – Críticas à religião no materialismo filosófico das Luzes ao Marxismo

MESMO QUE O CÉU NÃO EXISTA

Críticas à religião no materialismo filosófico das Luzes ao Marxismo

Projeto de pesquisa | Eduardo Carli de Moraes

Download em PDF em Academia.edu

I. TEMA

TODOROV“Depois da morte de Deus e do desmoronamento das utopias, sobre qual base intelectual e moral queremos construir nossa vida comum?” (TODOROV: 2006, p. 9) Com esta questão, que inaugura sua obra O Espírito das Luzes, Tzvetan Todorov situa alguns dos dilemas e desafios que enfrentamos diante do colapso da credibilidade da metafísica, com a consequência de que a ética e a política vivenciam uma espécie de crise do sagrado e necessidade de reinvenção em outras bases – imanentes e não mais transcendentes; profanas e não mais teológicas.

Estes dilemas são alvo de reflexão de muitos pensadores/cientistas de relevância: da “morte de Deus” diagnosticada por Nietzsche ao “desencantamento do mundo” de que fala Max Weber, da noção de que “a religião é o ópio do povo” de Karl Marx à polêmica que opõe o criacionismo à teoria da evolução de Charles Darwin.

AtheismNa atualidade, uma caudalosa literatura atéia, multidisciplinar e plurinacional, têm sido publicada no âmbito das críticas materialistas à religião, com pelo menos duas vertentes importantes: a anglo-saxã (Richard Dawkins, Daniel Dennett, Christopher Hitchens, Sam Harris etc.) e a francesa (Michel Onfray, André Comte-Sponville, Marcel Conche etc.)1.

Uma coletânea importante de 18 artigos, o Cambridge Companion to Atheism (2006), fornece um bom panorama dos debates e já possui edição em língua portuguesa sob o título Um mundo sem deus: ensaios sobre o ateísmo (tradução de Desidério Murcho, Lisboa: Edições 70, 2010).

 De modo bem sumário, podemos dizer que estes autores formulam argumentos que buscam provar a inexistência de Deus2; defendem a laicidade do Estado e criticam todo tipo de fanatismo, obscurantismo e fundamentalismo; afirmam a possibilidade de uma ética secular, a-religiosa, plenamente terrena, sem recompensas ou punições do além-túmulo; desenvolvem argumentos sobre a sabedoria, as virtudes, o bem-comum, considerados sempre na perspectiva desta vida e deste mundo etc.

Dennett

No âmbito destas discussões, percebemos a recorrência de um problema filosófico muito debatido e que parece ter o dom de jamais receber resposta definitiva: não só a questão da existência de Deus, da alma imortal e do livre arbítrio, mas o debate sobre necessidade (ou não) da como fundamento para a ética e a política. Um dos nossos focos principais de nosso trabalho será a crítica empreendida pelas filosofias materialistas das conexões entre moral e religião, entre teologia e política.

A primeira delimitação de nosso tema consiste na eleição, como objetos de estudo, apenas dos filósofos da tradição materialista, que integram a “linha de Demócrito” de que fala Lenin (1962), que a contrastava com a “linha de Platão”. Estão colocados no ringue de batalha, pois, os dois velhos adversários: o materialismo e o idealismo.

A segunda delimitação temática consiste na primazia que concederemos em nossos estudos aos filósofos do materialismo de duas épocas:

I) na França do séc. XVIII, no período pré-Revolução Francesa, na obra dos radicais das “Luzes” (o Iluminismo ou Esclarecimento), em especial o barão D’Holbach (cuja magnum opus é O Sistema da Natureza), La Mettrie (autor de O Homem Máquina), Helvétius (cujos tratados Do Espírito e Do Homem marcaram época) e Denis Diderot (que além de filósofo foi autor também de obras literárias como A Religiosa, Jacques, o Fatalista e O Sobrinho de Rameau).Vale ressaltar que estes materialistas do séc. XVIII tiveram precursores, no século anterior, em figuras como Pierre Bayle, Jean Méslies e Pierre Gassendi (1592 – 1655), fontes em que também buscaremos pesquisar, dada a relevância deles como prefiguradores tanto do materialismo iluminista quanto do marxisma. Como escreve Onfray:

Onfray Grasset 4De fato, no verso do cartão-postal da historiografia dominante encontram-se felizmente pensadores candidatos à forca que celebram a volúpia desculpabilizada, anunciam a morte de Deus, professam a coletivização das terras, conclamam a estrangular os aristocratas com as tripas dos padres, incitam a filosofar para os pobres e para o povo, creem na possibilidade de mudar o mundo, ensinam uma moral eudemonista, se não hedonista, contam com a justiça dos homens. Chamo-os de ultras das Luzes, pois eles encarnam um pensamento radical. Ora, o que é um pensamento radical? Retomemos simplesmente a definição dada por Marx na sua Crítica da filosofia do direito de Hegel: ser radical é tomar as coisas pela raiz. (ONFRAY: 2012, p. 34)

II) No século XIX, com a emergência do materialismo marxista, doutrina com enraizamento filosófico nas fontes atomistas gregas (Demócrito e Epicuro) e também nos materialistas franceses como Holbach, Helvétius etc. (vide item I). Em sua relação crítica e construtiva com o materialismo iluminista francês, pode-se dizer que Marx aumenta o ímpeto prático e transformador que o anima e que ele ganha “carne” como movimento político, força coletiva organizada, ímpeto revolucionário.

Parece-nos que é bem conhecida e estudada a relação crítica que o marxismo estabeleceu com o idealismo alemão, em especial sua empreitada crítica contra Hegel e os hegelianos de esquerda como Bruno Bauer. Também é notória e bastante pesquisada a influência determinante exercida pelo materialismo ateu de Feuerbach ou pela teoria econômica-política anarquista de Proudhon sobre o pensamento do jovem Marx, que depois desenvolverá também uma crítica destes seus antigos mestres.

Porém, nosso trabalho pretende focar a atenção nas relações, que parecem-nos menos pesquisadas e conhecidas, de Marx com a tradição materialista dos sécs. XVII e XVII no Iluminismo francês (Helvétius, D’Holbach, La Mettrie etc.). Ou seja, desejamos explorar sobretudo de que modo foi importante para a configuração da teoria e da práxis marxistas o influxo do materialismo iluminista francês, dos “ultras das Luzes”, como os chama Michel Onfray nos volumes da Contra-História da Filosofia a eles dedicados3.

II. CARACTERIZAÇÃO DO PROBLEMA

Jaeger

Desde a Antiguidade greco-romana, a crítica da religião estabelecida marcou a obra de muitos filósofos, em especial aqueles que constituiriam a escola atomista-materialista: Demócrito e Epicuro (na Grécia, nos sécs VI a IV a.C.) e Lucrécio (em Roma, no séc. I a.C.).

Desde os pré-socráticos os debates sobre a natureza da realidade (a Phýsis) não raro propendiam a tornar-se querelas religiosas: um exemplo é o de Xenófanes (570 a.C. – 475 a.C.), nascido em Colófon (atual Turquia), que confrontou as crenças de seus contemporâneos com estas palavras célebres: “Se os bois, os cavalos, os leões tivessem mãos para desenhar e criar obras como fazem os homens, os cavalos representariam os deuses à semelhança do cavalo, os bois à semelhança do boi, e eles fabricariam os deuses com um corpo tal qual cada um possui ele mesmo.” (XENÓFANES apud JAEGER: 2001, p. 213-214).

A crítica realizada por Xenófanes prenuncia em mais de 2 milênios a filosofia de Ludwig Feuerbach e Nietzsche (alguns notáveis intérpretes-críticos do fenômeno religioso nos últimos séculos): o pré-socrático já sugeria que os seres humanos fabricam deuses à sua imagem e semelhança e que a proposição “somos todos filhos dos deuses” (ou seja, por eles fomos criados) seria muito mais verdadeira se fosse invertida: “somos os pais de todos os deuses” (ou seja, nós é que criamos os deuses).

Este é apenas um exemplo antiquíssimo da ação questionadora e cáustica de pensadores que, sem temor de soarem ímpios, através de suas argumentações põem em maus lençóis os dogmas consagrados e as autoridades religiosas teocráticas, colocando em questão, por exemplo, a mitologia veiculada por Homero e Hesíodo que

atribuíram aos deuses todas as indignidades, roubos, adultérios e imposturas. [De acordo com Xenófanes] é ilusão dos homens pensar que os deuses nascem e têm forma e roupagens humanas. Os negros da Etiópia acreditavam em deuses negros e de nariz achatado, já os trácios em deuses de olhos azuis e cabeleira ruiva. Na verdade provêm de causas naturais todos os fenômenos do mundo exterior que os humanos atribuem à ação dos deuses que temem. (JAEGER, p. 213)

No nascedouro da filosofia grega, essa aposta no “naturalismo”, na possibilidade de explicar por causas naturais todos os fenômenos, também marca presença em muitos dos filósofos que hoje reconhecemos como inovadores e revolucionários da aurora da ciência, de Tales de Mileto (623 – 546 a.C.) a Demócrito de Abdera (460 a.C. — 370 a.C.), que dedicaram-se a explicar a Phýsis sem recorrer a causa sobrenatural ou explicação mítica.

O materialismo moderno, que nos propomos a estudar em suas mutações das “Luzes” (séc. XVIII) ao marxismo e suas vertentes (sécs. XIX e XX), é uma continuação crítica e criativa de uma ancestral aventura filosófica daqueles amigos-da-sabedoria que dedicaram-se à decifração da Phýsis e que não se deixaram calar por mordaças impostas pelo clero ou pelo temor das fogueiras dos inquisidores.

02 spinoza
Apesar de não ser classificado como materialista, mas sim como panteísta, Spinoza é um caso emblemático, na história da filosofia, de uma crítica radical da religião instituída e inspirará muitos materialistas, muitos deles fiéis à noção de “monismo da matéria”, ou seja, à ideia de que a substância spinozista (Deus sive Natura) podia ser melhor descrita pelo conceito de matéria.

No Tratado Teológico-Político, Spinoza procura convencer o leitor de que qualquer explicação que apele para a noção de “vontade de Deus” não passa de “asilo da ignorância” (para relembrar a Ética, Livro I, apêndice), alertando para as ciladas da credulidade típicas daqueles que “interpretam a natureza da maneira mais extravagante, como se toda ela delirasse ao mesmo tempo que eles.” (SPINOZA: 2003, p. 6).4

O epicentro do problema que nos dedicaremos a pesquisar em nosso Doutorado está aí exposto: a crítica à religião empreendida pelos filósofos materialistas das épocas que delimitamos. Desejamos expor e debater os argumentos que sustentam serem as religiões como invenções humanas (demasiado humanas), ficções supersticiosas, ideologias interesseiras urdidas por classes sociais em antagonismo com outras etc.

No âmbito ético e político, buscaremos esclarecer o teor das críticas materialistas à sistemas de moral baseados em sanções post mortem, que são prometidas ao pecador (como o inferno ou o Hades) e ao santo (o Paraíso ou os Campos Elíseos). Revelaremos em détail as argumentações que criticam as doutrinas éticas ou os sistemas políticos que, por preconceito teológico, culpabilizam a sensualidade, reprimem o corpo e a expressão de suas energias, rebaixando a um status secundário e subalterno tudo o que diz respeito ao organismo em sua carnalidade e aos sentidos em sua organicidade.

O impacto da doutrina atomista de Demócrito na história da filosofia e das ciências não deve ser subestimado, já que inaugura uma concepção de mundo anti-criacionista, onde não existe um deus que age como criador ex nihilo do universo. O materialismo baseia-se na tese de que tudo que existe é composto pelas interações dos átomos (incriados e indestrutíveis), em movimento perpétuo, que estão em constante processo de combinação e re-combinação através da imensidão incomensurável do espaço. Segundo Demócrito, átomos e vazio constituem a totalidade concreta, o todo do Ser.

LangerComo explica Friedrich Albert Lange em sua História do Materialismo, obra em dois volumes que será uma das principais fontes de pesquisa para nosso trabalho, Demócrito afirmava: “Nada vem do nada; nada do que existe pode ser nadificado. Toda mudança não é senão agregação ou desintegração de partes.” (LANGE: 1910, p. 12)

Sabemos que a palavra átomo, em grego, traduz-se por “indivisível”: os átomos são as partículas elementares, que não podem ser nem aniquilados nem reduzidos a partes menores. São tidos, nestes seus primeiros estágios de desenvolvimento, como indestrutíveis e infinitos em diversidade. Chocam-se, combinam-se, produzem turbilhões, separam-se e desintegram conjunções, para na sequência formar novos agrupamentos – e assim “mundos inumeráveis se formam para depois perecer.” (LANGE: op cit, p. 17)

A doutrina de Demócrito será depois adotada e aprimorada por Epicuro (341 a.C. – 270 a.C.), um dos mais importantes filósofos materialistas da História. Nascido na ilha de Samos, foi o fundador da escola de filosofia em Atenas que foi batizada “O Jardim de Epicuro” e que atravessou sete séculos, tendo sido muito difundidas suas noções éticas em que o caminho para a felicidade estava na paz-de-espírito [ataraxia], que necessariamente demandava a cessação do temor aos deuses e à morte.

Estima-se que Epicuro tenha escrito cerca de 300 obras e seu magnum opus, o tratado de física A Natureza Das Coisas, era constituído por 37 livros. Da obra monumental de Epicuro, foram preservadas apenas fragmentos, incluindo três cartas, salvas do naufrágio por Diógenes Laércio em Vidas e Doutrinas dos Filósofos Ilustres. As razões da destruição da obra quase completa de Demócrito e Epicuro explica-se, segundo alguns pesquisadores, pelo afã fanático dos detratores da teoria materialista, aí incluído o próprio Platão e seus sequazes, que tudo fizeram para censurar e destruir estas obras.5

Apesar de não afirmar explicitamente o ateísmo, já que continua leal ao politeísmo do Olimpo, o epicurismo inova e revoluciona em teologia ao sustentar que, além de serem entes totalmente materiais e corporais, os deuses não se importavam com preces, rogos, súplicas, arrependimentos ou o que quer que seja realizado pelos humanos terranos. Os deuses corpóreos existem, mas bem longe desta Terra, onde gozam da perfeita bem-aventurança, nem tomando consciência das necessidades e preces dos humanos (como será depois o Deus-Natureza de Spinoza, os deuses de Epicuro são concebidos como organismos indiferentes aos seres humanos e a quem será sempre inútil rezar).

No caso da obra-prima de Lucrécio, De Rerum Natura, ela só chegou inteira a nossos tempos por tortuosos caminhos históricos que foram tema de um premiado livro da historiografia contemporânea: A Virada – O Nascimento do Mundo Moderno (Cia das Letras), de Stephen Greenblatt. Este livro é essencial aos propósitos de nossa pesquisa pois mostra o renascimento do materialismo na aurora da Modernidade, algo que serve de base para a culminância dos radicais materiais, os “ultras das Luzes” como La Mettrie, Diderot, D’Holbach e Helvétius, e que também repercutirá na emergência do materialismo marxiano (Marx, afinal, torna-se doutor em filosofia com uma análise comparativa entre as filosofias da Natureza de Demócrito e de Epicuro). Greenblatt fornece uma boa síntese da “visão de mundo” materialista que pretendemos explorar em nosso trabalho:

Greenblatt2Quando você olha para o céu noturno e, sentindo-se inexplicavelmente comovido, fica maravilhado com a quantidade de estrelas, não está vendo o trabalho dos deuses ou uma esfera cristalina separada de nosso mundo passageiro. Está vendo o próprio mundo material de que faz parte e de cujos elementos você é feito. Não há um plano superior, não há um arquiteto divino, não há design inteligente. Todas as coisas, inclusive a espécie a que você pertence, evoluíram durante grandes períodos de tempo. (…) Nada — de nossa própria espécie ao planeta em que vivemos e ao Sol que ilumina nossos dias — se manterá para sempre. Somente os átomos são imortais. Num universo constituído dessa maneira, argumentava Lucrécio, não há motivo para pensar que a Terra ou seus habitantes ocupem um lugar central, não há motivo para separar os humanos dos outros animais, não há esperança de subornar ou aquietar os deuses, não há lugar para o fanatismo religioso, não há vocação para uma negação ascética do eu, não há justificativa para sonhos de poder ilimitado ou de segurança total, não há lógica para guerras de conquista ou de engrandecimento, não há possibilidade de triunfar sobre a natureza, não há escapatória para a criação e recriação constante das formas. (GREENBLATT: 2012, cap. 1) 6

Em nossa tese, portanto, pretendemos mapear esta influência, fecunda apesar de longínqua, de Demócrito, Epicuro e Lucrécio sobre as vertentes do materialismo filosófico das Luzes francesas e também no materialismo dialético de Marx e da chamada “filosofia da práxis”. Queremos mostrar que algumas das ideias mais debatidas dos últimos séculos, como a célebre noção propagada por Marx, na Crítica à Filosofia do Direito de Hegel, de que “a religião é o ópio do povo”, não são anomalias isoladas na história do pensamento, mas integram-se em uma longa tradição de materialismo, que procura abordar o fenômeno religioso com uma atitude crítica ou mesmo revolucionária.

A crítica da concepção de mundo religiosa e a moral a ela conexa, empreendida pelos materialistas, está conectada aos projetos e às utopias de construção de uma concepção de mundo, de uma ética e de uma política alternativas, baseados na imanência radical. Um dos nossos problema essenciais consistirá em expor como os filósofos materialistas abordam as questões da possibilidade do “ateu virtuoso” e da “sociedade atéia” (uma doutrina de Pierre Bayle que D’Holbach subscreve). O próprio Marx escreve, em A Sagrada Família, sobre a importância de Bayle para o desenvolvimento ulterior do materialismo filosófico:

O homem que fez com que a metafísica do século XVII e toda a metafísica perdessem teoricamente seu crédito foi Pierre Bayle. Com a desintegração cética da metafísica, Pierre Bayle não apenas preparou a acolhida do materialismo e da filosofia do juízo humano saudável na França. Ele anunciou a sociedade ateia, que logo começaria a existir, mediante a prova de que podia existir uma sociedade em que todos fossem ateus, de que um ateu podia ser um homem honrado e de que o que desagrada ao homem não é o ateísmo, mas sim a superstição e a idolatria. (MARX: 2003, p. 146)

Também nos interessa o problema da conexão que pode haver entre uma concepção de mundo materialista e uma ética consequencialista de teor hedonista. Além disso, desejamos debater a velha querela entre determinismo vs livre-arbítrio: será mesmo que o materialismo conduz a uma visão-de-mundo onde impera o determinismo estreito, que abole toda liberdade humana, reduzindo tudo a um fatalismo que exige do sujeito apenas resignação? Ou, pelo contrário, o materialismo inclui a possibilidade concreta de emancipação coletiva e transformação concreta do mundo como uma consequência necessária de seu abandono dos mundos imaginários, em prol da profana e terrestre vida dos humanos de carne-e-osso?

Uma vez que o materialismo filosófico será definido por um de seus mais ilustres pensadores contemporâneos, André Comte-Sponville, como “um monismo da matéria”, será necessário também refletirmos sobre o significado filosófico do monismo, concepção que se opõe ao dualismo que cinde o real entre Deus e Natureza, Espírito e Matéria, cindindo também o homem entre um corpo, perecível e pecaminoso, e um espírito, imorredouro e passível de ser “salvo”:

Comte-Sponville

André Comte-Sponville, filósofo materialista francês, autor de “Pequeno Tratado das Grandes Virtudes” e “Tratado do Desespero e da Beatitude” (Ed. Martins Fontes)

Chama-se materialismo a doutrina que afirma que tudo é matéria ou produto da matéria (salvo o vazio) e que, por conseguinte, os fenômenos intelectuais, morais ou espirituais (ou assim supostos) têm realidade secundária e determinada. O materialismo se caracteriza assim, negativamente, pela rejeição do dualismo e do espiritualismo (não existe nem mundo inteligível nem alma imaterial), do ceticismo e do criticismo (a realidade em si não é inconhecível), enfim e em geral do idealismo. É incompatível com toda crença num Deus imaterial, criador ou legislador. O materialismo é antes de mais nada um pensamento de recusa, de combate. Trata-se (Lucrécio, La Mettrie e Marx não cansaram de lembrar) de vencer a religião, a superstição e, em geral, a ilusão. O materialismo é uma empresa de desmistificação.

Explicar o superior pelo inferior (o espírito pelo corpo, a vida pela matéria inanimada, a ordem pela desordem…) é, de Demócrito a Freud, a conduta constante do materialismo. Em todo o caso o materialismo sempre tem, como teoria, essa tendência a descer, isto é, a buscar a verdade, como dizia Demócrito, no fundo do abismo, quer esse abismo seja o da matéria e do vazio (os atomistas), o do corpo (La Mettrie, Diderot…), o da infra-estrutura econômica (Marx) ou o de nossos desejos inconscientes (Freud). Essa descida, na teoria, tem por contraponto uma subida, no real ou na prática. O pensamento materialista, percorrendo ao revés o aclive do real, tudo o que faz, ao longo da sua descida, é pensar a ascensão que a torna possível. ‘É da terra ao céu que se sobe aqui’, escreviam Marx e Engels em A Ideologia Alemã, e a imagem pode ser generalizada. A história se inventa de baixo para cima. (COMTE-SPONVILLE, 2001, p. 119 a 121)

Dando continuidade ao trabalho realizado em minha dissertação de mestrado, Além da Metafísica e do Niilismo, focada no trabalho de Nietzsche (1844-1900), desejo insistir num método que consiste em somar as forças da crítica e da construção, da teoria e da práxis, da denúncia e do anúncio. Percebo que, longe de terem permanecido presos ao trabalho negativo do aniquilamento e da destruição (que a eles são atribuídos por seus detratores e adversários de modo vastamente imerecido), os materialistas de que trataremos jamais foram niilistas; trabalharam em prol da construção de alternativas, da sugestão de sabedorias e sistemas políticos que pretendiam instaurar o reino da liberdade, da fraternidade e da igualdade sem recurso ao divino. Muitas vezes eram movidos pela vontade de sepultar para sempre sistemas políticos obscurantistas, teocráticos, batalhando contra superstições e sectarismo, ativamente engajados com a construção de um convívio coletivo melhor, mais feliz, mais justo e mais sábio.

Assim, pretendemos delinear as múltiplas possibilidades que existem para a fundamentação de uma ética e de uma política que não terá menos mérito pois aposta que nem Deus, nem a alma imortal, nem o livre-arbítrio, existem de fato. Exporemos e discutiremos a obra dos autores materialistas referidos, explorando seus diagnósticos de uma progressiva erosão da religião como explicação de mundo, fundamentação da moral e força organizadora das sociedades. Desejamos focar nossa atenção naqueles pensadores materialistas que, através da história, ousaram criticar a religião como a conheciam, ao mesmo tempo que apontavam para um outro mundo possível, numa atitude a um só tempo crítica e construtiva que também gostaríamos que animasse nosso trabalho.

III. JUSTIFICATIVA

Contribuir para uma reconsideração do materialismo tem relevância intra e extra-filosófica, dada a carga negativa, o sentido pejorativo que o termo adquiriu no senso-comum:

É sabido que a palavra materialismo é empregada principalmente em dois sentidos, um trivial, outro filosófico. No sentido trivial, designa certo tipo de comportamento ou de estado de espírito, caracterizado por preocupações ‘materiais’, isto é, no caso, sensíveis ou baixas. Querer ganhar muito dinheiro, gostar da boa mesa, preferir o conforto do corpo à elevação do espírito, buscar os prazeres em vez do bem, o agradável em vez do verdadeiro… tudo isso é materialismo, no sentido trivial, e vê-se que essa palavra é usada sobretudo pejorativamente. O materialista é, então, o que não tem ideal, que não se preocupa com a espiritualidade e que, buscando apenas a satisfação dos instintos, sempre se inclina para seu corpo, poderíamos dizer, em vez de para sua alma. Na melhor das hipóteses, um bon vivant; na pior: um aproveitador, egoísta e grosseiro. (COMTE-SPONVILLE: op cit, p. 121)

Desejamos mostrar que o materialismo, para além de seu sentido pejorativo, é uma tradição de pensamento que não é somente crítica das ilusões idealistas, espiritualistas ou religiosas, mas também pode ser um guia ético e político para uma existência emancipada e solidária. A superação do fanatismo e do sectarismo, e também dos fratricídios deles decorrentes, parece-me conectado à nossa capacidade de refletir de modo lúcido e aprofundado sobre a condição humana. Em matéria de ética, o materialista costuma dar a primazia ao corpo (mortal) e não a um espírito (supostamente imortal). Para além de qualquer doutrina da redenção pela via do ascetismo e da auto-mortificação, o materialismo defende a unidade psicossomática entre corpo e alma e reflete sobre as condições para a saúde, a paz-de-espírito, a ataraxia, a beatitude, não em um mítico futuro distante, mas no aqui-e-agora da vida terrestre.

Julgamos relevante confrontar o preconceito que afirma que o materialista seja um crasso perseguidor de volúpias imediatas, um inconsequente libertino que não pensa no amanhã, e reafirmar que a sophia e a philia, na tradição de Demócrito e Epicuro, são valores supremos, donde ser inconcebível falar da utopia materialista sem a presença destas forças constitutivas da filosofia e que marcam-na etimologia de sua própria palavra, onde somam-se amizade e sabedoria.

La MettrieLa Mettrie sugere: “Pensar no corpo antes de pensar na alma é imitar a natureza que fez um antes do outro.” (LA METTRIE: 1987, p. 271) Eis uma tese autenticamente materialista, já que aquilo que chamamos de “alma” é tido pela tradição do materialismo como algo que surge posteriormente, no tempo, à “base” material corporal.

Para muitos materialistas, dá-se o nome de “alma” a algo que está no corpo, que nunca existiu nem pode existir independente do corpo. Daí decorre a revolução materialista empreendida contra o temor da morte que aflige os humanos: não há nada a temer já que nenhuma alma imortal sobreviverá ao corpo abandonado pela vida. Materialismo: doutrina da alma mortal, ou seja, da Psiquê encarnada, da vida individual fugaz, vivida por um organismo que só pode ser compreendido como unidade psicofísica.

Além disso, filosofia do reconhecimento pleno de nossa mortalidade inelutável, o materialismo também se caracteriza, escreve Comte-Sponville, “pela rejeição do espiritualismo, se por esta última palavra entendermos a afirmação de que existe uma substância espiritual (a alma ou o espírito), independente da matéria, que seria, no homem, princípio de vida ou de ação. […] O materialismo também é, contra todas as filosofias da alma, uma filosofia do corpo.” (COMTE-SPONVILLE, op cit, p. 124).

O materialismo pode ser descrito como um monismo físico e defende a tese de que a Matéria, ou seja, os átomos em movimento no espaço, constituem a substância única. Tudo que chamamos de espírito é derivado das “danças” imensas e múltiplas dos átomos. A consequência incontornável, e que também esclareceremos em mais detalhes, é a de que todas as atividades psíquicas ditas superiores (o pensamento, a vontade, o juízo, a criação artística, a pesquisa científica etc.) não podem jamais ser compreendidas como imateriais.

Nenhum filósofo, é evidente, pode negar absolutamente a existência do pensamento: seria negar a si mesmo e pensar que não pensa. O monismo dos materialistas não é portanto a negação da existência do pensamento, mas apenas a negação da sua independência ou, se preferirem, da sua existência autônoma: não se trata de dizer que o pensamento não existe, mas simplesmente (se é que isso pode ser simples!) que ele é tão material quanto o resto. (COMTE-SPONVILLE: 2001, pgs 120-126)

A relevância do estudo histórico, crítico, construtivo, dialético, do materialismo filosófico, está também em sua potência de “iluminar”, através da obras destes amigos da sabedoria, a força prática e concreta da filosofia na História. Buscaremos amplificar as ideias e os exemplos daqueles filósofos que prezavam mais o pensamento autônomo do que a cega obediência à tradição; que não viam diante de si nenhum tabu que proibisse o escrutínio, a pesquisa, a reflexão, a expressão, a discussão. Como escreveu Helvétius, citado por Marx, “as grandes reformas apenas podem ser realizadas com o enfraquecimento da adoração estúpida que os povos sentem pelas velhas leis e costumes.” (MARX: 2003, p. 152)

marx-engelsA tentativa de conexão entre o materialismo das “Luzes” e o Marxismo tem embasamento na própria obra dos fundadores do materialismo histórico-dialético, Marx e Engels: basta exemplificar com A Sagrada Família, obra na qual, no contexto da polêmica contra o hegeliano Bruno Bauer, Marx realiza reflexões essenciais aos nossos propósitos:

O Iluminismo francês do século XVIII e, concretamente, o materialismo francês, não foram apenas uma luta contra as instituições políticas existentes e contra a religião e a teologia imperantes, mas também e na mesma medida uma luta aberta e marcada contra a metafísica do século XVIII e contra toda a metafísica, especialmente contra a de Descartes, Malebranche, Spinoza e Leibniz. (…) A rigor existem duas tendências no materialismo francês, dos quais uma provém de Descartes, ao passo que a outra tem sua origem em Locke. A segunda constitui, preferencialmente, um elemento da cultura francesa e desemboca de forma direta no socialismo. (MARX; ENGELS: 2003, p. 144)

Nestas páginas d’A Sagrada Família, expõe-se a tese de que o materialismo filosófico francês e inglês, nos séculos XVII e XVIII, permaneceu “unido por laços estreitos a Demócrito e Epicuro”, o que não impediu a emergência de diferentes encarnações de um materialismo multiforme, que teve como principais representantes, na Inglaterra, figuras como Bacon, Locke e Hobbes; e na França os supracitados P. Bayle, J. Mèlies, Helvétius, La Méttrie, Condillac, Diderot, D’Holbach.

marx-manual-de-instruc3a7c3b5es_padres_271

Julgamos muito relevante, em nossa futura tese, realizar um estudo comparativo das duas vertentes do materialismo francês das “Luzes” que Marx identifica:

I) aquela que aderiu à física de Descartes e é representada sobretudo por La Mettrie – que “explica a alma como uma modalidade do corpo e as ideias como movimentos mecânicos; (…) seu L’Homme Machine é um desenvolvimento que parte do protótipo cartesiano do animal-máquina” (MARX; op cit, p. 145);

II) aquela outra vertente do materialismo francês, muito inspirada pelo materialismo inglês e sobretudo por Locke, e que representa a convicta antítese à metafísica do século XVII; segundo Marx, é esta linha que “desemboca diretamente no socialismo e no comunismo” (MARX: op cit, p 149). Como ilustração desta segunda vertente, citaremos um trecho d’O Sistema da Natureza, de Holbach, que parece-nos essencial para os propósitos de nossa pesquisa:

Paul Henri Thiry, Baron d'Holbach, an 18th-century advocate of atheism

Paul Henri Thiry, o Baron d’Holbach, filósofo materialista e ateísta do século XVIII

O homem que não espera uma outra vida está mais interessado em prolongar a existência e em se tornar querido pelos seus semelhantes na única vida que conhece. Ele deu um grande passo para a felicidade ao se desvencilhar dos terrores que afligem os outros. Com efeito, a superstição tem prazer em tornar o homem covarde, crédulo, pusilânime. Ela adotou o princípio de afligi-los sem descanso; assumiu o dever de redobrar para ele os horrores da morte. Seus ministros, para disporem dele mais seguramente neste mundo, inventaram as regiões do porvir, reservando-se o direito de lá fazer recompensar os escravos que tiverem sido submissos às suas leis arbitrárias e de fazer serem punidos pela divindade aqueles que tiverem sido rebeldes às suas vontades. Longe de consolar os mortais, a religião em mil regiões esforçou-se para tornar a sua morte mais amarga, para tornar mais pesado o seu jugo, para tornar o seu cortejo acompanhado de uma multidão de fantasmas hediondos.

Ela chegou ao cúmulo de persuadi-los de que a sua vida atual não é mais do que uma passagem para chegar a uma vida mais importante. O dogma insensato de uma vida futura os impede de ocupar-se com a sua verdadeira felicidade, de pensar em aperfeiçoar as suas instituições, suas leis, sua moral e suas ciências. Vãs quimeras absorveram toda a sua atenção. Eles consentem em gemer sob a tirania religiosa e política, em atolar-se no erro, em definhar no infortúnio, na esperança de serem algum dia mais felizes, na firme confiança de que as suas calamidades e a sua estúpida paciência os conduzirão a uma felicidade sem fim. Eles se acreditam submetidos a uma divindade cruel que gostaria de fazer que eles comprassem o bem-estar futuro ao preço de tudo aquilo que eles têm de mais caro aqui embaixo. É assim que o dogma da vida futura foi um dos erros mais fatais pelos quais o gênero humano foi infectado. Esse dogma mergulha as nações no entorpecimento, na apatia, na indiferença sobre o seu bem-estar, ou então as precipita em um entusiasmo furioso, que as leva muitas vezes a dilacerarem a si próprias para merecer o céu. (HOLBACH: 2010, p. 318-19)

De modo algum iniciamos este percurso de pesquisa já com todas as respostas, pelo contrário, é por estarmos repletos perguntas que desejamos ir a fundo nas pesquisas sobre a filosofia materialista. Um dos problemas, a um só tempo ético e político, que buscaremos aclarar está este uma concepção de mundo materialista e dialética, que superou a transcendência em prol do “imanentismo” (GRAMSCI: 1981, p. 57), de que modo fundará a valorização ético-política da igualdade, da liberdade, da fraternidade, dentre outros valores e virtudes, caso se vede o caminho da sacralização?

Há como formular de modo mundano, profano, a-teológico, imanentista, a “unidade do gênero humano” pressuposta pelo materialismo francês das Luzes? A “filosofia da práxis” inclui a possibilidade de uma ética laica, profana, sem sanção nem punição, sem vigilância transcendente? Sem religião, é ainda possível formular uma ética universalista de molde kantiano que afirme a igualdade de todos, que postule normas universalizáveis como o imperativo categórico, para todos os humanos, mas desta vez em outras bases, plenamente enraizadas na “dialética do concreto”? Com o aniquilamento do divino, cai-se necessariamente num pragmatismo ao gosto anglo-saxão (W. James, S. Mill, J. Bentham), ou são pensáveis muitas outras potencialidades (socialistas, comunistas, anarquistas, democráticas)?

IV. HIPÓTESES DE TRABALHO

H1 – o materialismo é um monismo da matéria, que combate o idealismo e o espiritualismo, afirmando que a “alma” ou o “espírito” também são materiais, estando localizados no interior do corpo e sendo inseparáveis dele; em suma: o materialismo compreende o organismo como unidade psico-somática.

H2 – a ética materialista tende a ser muito mais hedonista do que ascética, muito mais consequencialista do que deontológica, voltada para a felicidade terrestre e não para a “redenção” ou salvação religiosa.

H3 – a fé, em geral, é criticada como ficção, ilusão, superstição e/ou “ideologia” por muitos destes filósofos materialistas; eles crêm que a política pode fundar-se em valores como a justiça, a solidariedade, a fraternidade, sem necessidade de valores transcendentes ou autoridades sagradas, como na “sociedade de ateus” de P. Bayle;

H4 – nada condena uma filosofia materialista a um determinismo fatalista; pelo contrário, é no âmbito do materialismo que nasce e se desenvolve uma filosofia da práxis em que os conceitos de ação, transformação, emancipação e revolução ganham um peso, uma centralidade e uma importância como nunca dantes na história da filosofia.

A estas hipóteses, expostas acima e desenvolvidas brevemente no decurso deste projeto, gostaríamos de adicionar algumas outras, desta vez com um desenvolvimento breve das mesmas.

H5 – O materialismo trabalha em prol da extinção concreta do “vale de lágrimas” historicamente constituído.

Uma das lições do materialismo é que a religião pode ser julgada a partir de seus efeitos psíquicos e sociais, numa lógica consequencialista, para além de seus princípios basilares e teorias fundamentantes (privilegiadas pela deontologia). Dentre os filósofos materialistas do Iluminismo francês que mais investiga o tema das relações entre religião e sociedade está Helvétius (1715-1771), tanto que pode-se dizer que Helvétius é um dos inauguradores daquilo que virá a ser a disciplina sociologia da religião.

Escorraçado pela censura e pela violência repressiva ao publicar seu tratado “Do Espírito”, Helvétius têm profunda influência sobre a posteridade por ser o criador do imperativo utilitarista em que se formula que deve-se visar como meta [télos] da ética e da política “a maior vantagem pública, ou seja, o maior prazer e a maior felicidade da maioria dos cidadãos” (apud ONFRAY: 2012, p. 200). Em D’Holbach e Helvétius, mas também em seus predecessores no século anterior (Méslier e Pierre Bayle), exige-se a democratização do gozo, a ampliação concreta das possibilidades de júbilo.

Contra o império tenebroso do ideal ascético, que ordena a mortificação da carne, iguala prazeres e deleites a gangrenas, os ultras das Luzes retomam o epicurismo para a formulação de seus ideais políticos, em que a realidade terrestre importa muito mais do que uma suposta salvação post mortem. Tendo a felicidade comum ou o bem público como paradigmas de excelência, Helvétius julga o real com um ouvido especialmente atento ao “grito da miséria” (ONFRAY, op cit, p. 205).

Uma de nossas hipóteses, portanto, é a de que o materialismo não se resigna nunca a somar lágrimas impotentes aos que choram pelas injustiças, mas que põe-se no campo de jogo em prol da transformação aprimoradora do que há. Ou seja, trata-se de afirmar uma filosofia que não apenas descreva ou interprete o “vale de lágrimas”, mas sim que modifique o mundo, como diz uma célebre tese marxista, para abolir o próprio vale de lágrimas e para instaurar na terra um convívio mais sábio e jubiloso, mais omnilateral e criativo, do que a asfixiante atualidade nos permite.

A partir de suas bíblicas ancestralidades, a imagem da vida como “vale das lágrimas” atravessou a história e está nos mitos fundadores judaico-cristãos, que explicam a infelicidade a partir de um pecado original ocasionador de uma queda ontológica e de uma perda do paraíso. O Paraíso Perdido – título aliás do poema de Milton onde tais mitos proliferam, assim como o fazem na Divina Comédia de Dante – torna-se então o télos transcendente que o desejo busca re-encontrar.

A vontade humana, alucinada pela fé no paraíso perdido e pelo desejo impossível de fusão com um deus que é suposto como alheio e transcendente, fica então siderada por “objetos transcendentais” que, como Marx ironizará na Sagrada Família, não passam de fantasias geradas por cérebros humanos situados em um contexto sócio-econômico, político-histórico:

MarxA angústia religiosa é ao mesmo tempo a expressão de uma angústia real e o protesto contra ela. A religião é o suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração, tal como é o espírito de uma situação não espiritual. É o ópio do povo. A abolição da religião como a felicidade ilusória do povo é necessária para sua felicidade real. O apelo para que abandonem as ilusões sobre sua condição é o apelo para abandonarem uma condição que necessita de ilusões. A crítica da religião é, portanto, em embrião, a crítica do vale das dores, cuja auréola é a religião. A crítica arrancou as flores imaginárias que enfeitavam as cadeias, não para que o homem use as cadeias sem qualquer fantasia ou consolação, mas que se liberte das cadeias e apanhe a flor viva. A crítica da religião desaponta o homem com o fito de fazê-lo pensar, agir, criar sua realidade como um homem desapontado que recobrou a razão, a fim de girar em torno de si mesmo e, portanto, de seu verdadeiro sol.

A opressão deve ainda tornar-se mais opressiva pelo fato de se despertar a consciência da opressão e a ignomínia tem ainda de tornar-se mais ignominiosa pelo fato de ser trazida à luz pública. (…) É preciso fazer com que dancem as relações sociais petrificadas fazendo-as ouvir sua própria melodia! O povo deve ter horror de si mesmo, a fim de que ganhe coragem. (…) É certo que a arma da crítica não pode substituir a crítica das armas, que a força material tem de ser derrubada pela força material, mas a teoria converte-se em força material quando penetra nas massas. A prova evidente do radicalismo da teoria alemã, e deste modo a sua energia prática, é o fato de começar pela decisiva superação positiva da religião. A crítica da religião culmina na doutrina de que o homem é o ser supremo para o homem. Culmina, por conseguinte, no imperativo categórico de derrubar todas as condições em que o homem aparece como um ser degradado, escravizado, abandonado, desprezível. (MARX: 2005. Crítica à Filosofia do Direito de Hegel – Introdução.)

Nossa hipótese é de que a abolição da religião não pode ser nunca algo meramente intelectual, uma batalha exclusivamente “cerebral”, uma vitória em uma querela somente teológica, mas que só se dará pela modificação prática e concreta de uma realidade que torna os sujeitos alienados, despossuídos de autonomia, dependentes da fé. É preciso compreender os afetos que estão envolvidos na fé religiosa, os desejos aos quais ela serve de satisfação, as perguntas irrespondíveis que ela busca fornecer solução, e sobretudo o contexto social e intersubjetivo que estabelece a estrutura concreta sobre a qual serão erguidos os degraus da superestrutura (aos quais tanto a filosofia quanto a religião, segundo Marx, pertencem).

A hipótese que tentaremos provar está em sintonia com a afirmação de Marx de que “a supressão [Aufhebung] da religião como felicidade ilusória do povo é a exigência da sua felicidade real”, o que Daniel Bensäid ilustra no capítulo “De Que Deus Morreu” de seu livro Marx – Manual de Instruções, em que parte da influência de Feuerbach sobre Marx e depois expõe a originalidade do materialismo marxista em relação ao das Luzes:

marx-manual-de-instruc3a7c3b5es_padres_27

Em A Essência do Cristianismo, Feuerbach não só mostrou que o homem não é a criatura de Deus, e sim seu criador. Não só sustentou que ‘o homem faz a religião, a religião não faz o homem’. Ao fazer da relação social do homem com o homem o princípio fundamental da teoria, fundou o verdadeiro materialismo. Uma vez admitido que esse homem real não é a criatura de um Deus todo-poderoso, resta saber de onde vem a necessidade de inventar uma vida após a vida, de imaginar um Céu livre das misérias terretres. Marx escreveu que ‘a religião é o suspiro da criatura oprimida’ e o ‘ópio do povo’. Como o ópio, ela atordoa e ao mesmo tempo acalma. Portanto, a crítica da religião não pode se contentar, como acontece com o anticlericalismo maçonico e o racionalismo das Luzes, em ser hostil com o clero, com o imame ou com o rabino. Engels critica aqueles que querem ‘transformar as pessoas em ateias por ordem do mufti’ e diz que ‘uma coisa é certa: o único serviço que se pode prestar a Deus, hoje, é declarar que o ateísmo é um artigo de fé obrigatório e sobrevalorizar as leis anticlericais, proibindo a religião em geral.’ Já Marx combate as ilusões de um ateísmo que é apenas uma crítica abstrata e ainda religiosa da religião, que permanece no plano não prático das ideias. (…) A crítica do ateísmo contemplativo e abstrato leva Marx a se distanciar de Feuerbach , que ‘não vê que o próprio sentimento religioso é um produto social’ e que ‘a família terrestre é o segredo da Sagrada Família.’ Em suma, enquanto o ateísmo é apenas a negação abstrata de Deus, o comunismo é sua negação concreta. (BENSAÏD: 2013, p. 23-31)

Que esta última frase sirva de síntese, pois, para nossa hipótese de trabalho aqui exposta: o comunismo como negação concreta de Deus e da explicação mítica e fatalista do “vale das lágrimas”. Em conexão a esta hipósese, também avançaremos a hipótese suplementar (H6) de que há, no Brasil, alguns pensadores conectados ao marxismo e de alta relevância na história intelectual brasileira que deram muitas contribuições a este tema: Álvaro Vieira Pinto, Marilena Chauí e Leandro Konder são três daqueles que mais dedicaram-se aos problemas que pretendemos também abordar.

Como breve exemplo da fecundidade de conectar estes pensadores brasileiros à discussão, citarei a contribuição de Vieira Pinto: fiel às suas raízes na filosofia marxista, ele pretende denunciar um embuste e uma “mistificação”, uma alienação religiosa diretamente conexa a um conformismo ou fatalismo sócio-político. rata-se de questionar o quanto a religião presta serviços à conservação material e concreta da dominação opressora, da humilhaçãodesumanizante, dos sistemas econômicos e políticos que são esmagadores da dignidade humana. Explica porquê as “religiões milenares, orientais e ocidentais esforçam-se em retratar o mundo em que a humanidade se tem desenvolvido utilizando a conhecida imagem do vale das lágrimas”:

Se não convencerem os homens de que, por uma tristíssima fatalidade, têm de passar a existência no mais doloroso sofrimento, submetidos a toda espécie de privações, provações e por fim à morte, deixa de ter sentido seu papel com que se justificam, o de ser o único veículo da ‘salvação’ para nós, desgraçados viventes. (…) Daí a arraigada concepção, convertida em imagem de mundo, de que os homens, como consequência de um castigo original, habitam o mais tenebroso e inóspito lugar do universo, de onde lamentavelmente não conseguirão jamais se evadir, um vale de lágrimas, expressão que os pontífices desta mentirosa e infame simploriedade se empenham em deixar bem claro não se tratar de mero traço de retórica evangélica, mas de uma autêntica, embora cruel e lamentabilíssima, realidade. Esta mistificação (…), esta vulgar, interesseira e estúpida noção, é produto de uma exigida falsificação perpetrada pelas potências dominantes sobre a grande multidão da humanidade. “O ‘vale’ das lágrimas foi talhado por um rio formado pela torrente de lágrimas que as massas trabalhadoras, durante incontáveis milênios de sujeição a senhores, déspotas, sacerdotes, empresários e ricos proprietários, em todos os tempos, verteram dos olhos (…) A ironia do conceito reside em não ter sido cunhado pelos sofredores, mas pelos que habitam as alturas. (VIEIRA PINTO: 1975/2008, p. 21-23-24)

Como defenderemos em mais minúcia, a obra de Marilena Chauí7 e Leandro Konder8 também contêm reflexões de muito mérito no âmbito deste problema. Dito disto, finalizamos afirmando nossa convicção de que, contra qualquer tipo de fatalismo, de conformismo, de resignação, o materialismo filosófico possui compromisso prático e emancipatório, perseverança na noção de que mudar o mundo não só é possível como é necessário, criticando a figura humana que cruza os braços, recusa a práxis, limita-se à vida contemplativa, resigna-se ao instituído, limitando-se à paciência absoluta de quem aguarda socorro divino sem nada fazer para melhorar sua situação concreta no âmbito terrestre.

Justifica-se uma pesquisa aprofundada sobre o materialismo filosófico também pelo interesse prático que há em confrontarmos as religiões instituídas e seu poder político, cultural, social, midiático, ainda hoje muito forte. Como filósofos materialistas apontam (D’Holbach antes de Marx, Gramsci e Onfray posteriormente), não existe nenhuma garantia de virtude ética ou excelência política no mero conformismo a uma religião tradicional imposta pelas cúpulas da sociedade. É preciso admitir a possibilidade do ateu virtuoso e do materialismo politicamente libertário como valores que talvez seja recomendável afirmar diante do obscurantismo e do fanatismo, das teocracias e das inquisições.

Com este trabalho, planejamos contribuir com uma re-consideração da história da filosofia, vista também sob uma perspectiva contra-hegemônica, que focará naqueles filósofos que foram considerados dissidentes, heréticos, ímpios, ateus, céticos (ou que foram estigmatizados como tal). Entre as mais importantes obras que estudaremos, destacam-se os 2 volumes de Friedrich Albert Lange (1828-1875), A História do Materialismo e Crítica do seu Valor Para Nossa Época (publicado em 1866 em alemão: Geschichte des Materialismus und Kritik seiner Bedeutung in der Gegenwart); a Enciclopédia dos Iluministas, que teve em Diderot e D’Alembert seus principais artífices (lançada no Brasil, em 5 volumes, pela Editora Unesp), além da obra em 9 volumes de Michel Onfray, Contra-História Da Filosofia (5 deles publicados no Brasil pela Martins Fontes).

Durante os 36 meses do doutorado, nosso plano é publicar uma série de artigos (ao menos 2 por ano) que divulgarão os frutos de nossas pesquisas e de nossa interação com colegas, professores e orientador(a). Além disso, desejamos participar da maior quantidade possível de eventos que possam ter relação com nosso objeto de pesquisa (seminários, colóquios, fóruns, debates etc.), de modo a colocar tais ideias em circulação para serem debatidas e dialogadas, dentro e fora da academia, na perspectiva de que a filosofia pode sim ter função pública determinante para a nossa ventura comum.

Julgamos que tal trabalho possa elucidar sobre outros modos de conceber um ideal ético e político que supere as caducas concepções teológicas e obscurantistas que, ainda em nossos dias, teimam em querer submeter a vida humana a autoridades transcendentes, punições e recompensas post mortem, perpetuando as hegemonias das teocracias, do sectarismos, da fanaticidade violenta. Será uma aventura em que não seremos filósofos que se contentam em interpretar o mundo – pois como lembra Marx numa de suas mais célebres Teses Contra Feuerbach, o que importa agora é transformá-lo. Ao sapere aude deve ser somada a ousadia do fazer: o atrever-se a conhecer é imperfeito e limitado sem a coragem de agir em conjunto para mudar o mundo comum.

Monumento a Denis Diderot

Monumento a Denis Diderot

NOTAS

1 Destacam-se as obras: “Deus: um delírio”, de Richard Dawkins (Cia das Letras, 2007); “Quebrando o encanto – a religião como fenômeno natural”, de Daniel C. Dennett (Globo, 2006); “Deus não é grande”, de C. Hitchens (Ediouro, 2006); “A Morte da Fé”, de Sam Harris (Cia das Letras, 2009); “Tratado de Ateologia”, de M. Onfray (Martins Fontes, 2007); “O Espírito do Ateísmo”, de A. Comte-Sponville (Martins Fontes, 2009); “Orientação Filosófica”, de M. Conche (Martins Fontes, 2000).

2 Um exemplo é o artigo “O Sofrimento Das Crianças Como Mal Absoluto”, publicado por Marcel Conche em 1968, onde se argumenta que “o sofrimento das crianças deveria ser suficiente para confundir os advogados de Deus. É que o sofrimento das crianças é um mal absoluto, mácula indelével na obra de Deus, e seria suficiente para tornar impossível qualquer teodicéia. (…) O fato do sofrimento das crianças – como mal absoluto -, por eliminação da hipótese contrária, funda o ateísmo axiológico.” (CONCHE: 2000, p. 60-77)

3 São 9 volumes já publicados na França, pela Grasset, e os 5 primeiros no Brasil, pela Martins Fontes.

4 Uma análise brilhante do contexto sócio-histórico em que nasce o “tratado escandaloso de Spinoza” (T.T.P), considerado como uma magnum opus essencial para o “nascimento da era secular”, pode ser lida em Um Livro Forjado No Inferno, de Steven Nadler. O livro contêm detalhes de todo o processo sofrido pelo filósofo ao ser estigmatizado como pária pela sinagoga de Amsterdam quando tinha apenas 23 anos, já que foi considerada herética e blasfema sua concepção do “Deus sive Natura” (Deus = Natureza). “ Deus de Spinoza não é um ser transcendente, supranatural. Não é dotado dos aspectos psicológicos ou morais atribuídos a Deus por muitas religiões ocidentais. O Deus de Espinosa não manda, não julga nem faz alianças. Deus não é a providencial e espantosa deidade de Abraão. (…) Segue-se que a concepção antropomórfica de Deus que, como pensa Espinosa, caracteriza as religiões sectárias, e todas as postulações sobre recompensa e castigo divinos que ela implica não passam de ficções supersticiosas.” (NADLER: 2013, p. 32)

5 Na Idade Média, explica André Comte-Sponville, o trabalho de copiar as obras dos autores gregos e latinos da Antiguidade era realizado principalmente por monges, encerrados em conventos, filiados a seitas religiosas, que “preferiam copiar os filósofos e poetas que não estavam muito distantes das crenças deles, que não quebravam suas ilusões ou esperanças, que não eram demasiado incompatíveis com a fé.” (in: ANDRÉ COMTE-SPONVILLE, O Mel e O Absinto, Paris: Hermann, 2008, pg. 20) No que diz respeito às mais de 50 obras de Demócrito, comenta-se que Platão e seus seguidores não pouparam esforços de destruição: “Em um movimento de ardor fanático, Platão quis comprar e queimar todos os escritos de Demócrito.” (LANGE, F. Pg. 11) “Platão pretendeu queimar as obras de Demócrito pela incompatibilidade entre as ideias nelas expendidas e as suas próprias.” (LINS, I. In: O Epicurismo.)

6 Saiba mais sobre a obra no site A Casa De Vidro: http://bit.ly/1qB8m2f.

7 “Todos conhecem a famosa fórmula segundo a qual ‘a religião é o ópio do povo’, isto é, um mecanismo para fazer com que o povo aceite a miséria e o sofrimento sem se revoltar porque acredita que será recompensado na vida futura (cristianismo) ou porque acredita que tais dores são uma punição por erros cometidos numa vida anterior (religiões baseadas na idéia de reencarnação). Aceitando a injustiça social com a esperança da recompensa ou com a resignação do pecador, o homem religioso fica anestesiado como o fumador de ópio, alheio à realidade. No entanto, costuma-se esquecer que, antes de fazer tal afirmação, Marx define a religião como ‘a criação de um espírito num mundo sem espírito’ e ‘consolação num mundo sem consolo’. (…) A religião, como toda ideologia, é uma atividade da consciência social. A religiosidade consiste em substituir o mundo real (o mundo sem espírito) por um mundo imaginário (o mundo com espírito). Essa substituição do real pelo imaginário é a grande tarefa da ideologia e por isso ela anestesia como o ópio”. — MARILENA CHAUÍ, “O Que é Ideologia”, pg. 108, ed Brasiliense.

8 Conferir, por exemplo, os artigos “É possível fazer o socialismo com fé em Deus” e “O Novo Conteúdo Político do Direito ao Prazer.” In: O Marxismo na Batalha das Ideias. São Paulo: Expressão Popular, 2009.

 

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA
BENSAÏD, Daniel. Marx – Manual de Instruções. São Paulo: Boitempo, 2013.CHAUÍ, M. O Que É Ideologia. São Paulo: Brasiliense, 1980.
COMTE-SPONVILLE, André. O Que É Materialismo?”. In: Uma Educação Filosófica. São Paulo: Ed. Martins Fontes, 2001.
CONCHE, Marcel. Orientação Filosófica. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
D’HOLBACH. O Sistema da Natureza – Das leis do mundo físico e do mundo moral. Trad. Regina Schöpke. São Paulo: Martins Fontes, 2010.
DeWITT, Norman Wentworth.
Epicurus and His Philosophy. Cleveland, Ohio: Meridian, 1967.
ENGELS, F.
Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia clássica alemã. Paris, 1968.
GRAMSCI.
Concepção Dialética de História. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1981.
GREENBLATT, S.
A Virada – O Nascimento do Mundo Moderno. SP: Cia Das Letras, 2012.
JAEGER, W. Paidéia – A Formação do Homem Grego. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
LA METTRIE.
Discours Sur Le Bonheur. Paris: Fayard, 2000.
LAÉRCIO, Diógenes.
Vidas de los filósofos ilustres. Madrid: Alianza, 2ª ed, 2011.
LANGE, Friedrich Albert. A História do Materialismo e Crítica do seu Valor Para Nossa Época (Histoire Du Matérialisme et critique de son importance a notre époque). Paris: Schleicher Frères, 1910.
LÊNIN. Matérialism et empiriocriticisme. In: Oeuvres complètes, t. 14, Paris-Moscou, 1962, p. 132.
LUCRÉCIO, Da Natureza das Coisas (De Rerum Natura). In: Pensadores. São Paulo: Abril, 1985. Pg. 21 a 135.
MARX. Crítica à Filosofia do Direito de Hegel. São Paulo: Boitempo, 2015.
———–. A Sagrada Família. Trad. Marcelo Backes. São Paulo: Boitempo, 2003.
———–. Manuscritos Econômico-Filosóficos.
Trad. Jesus Ranieri. São Paulo: Boitempo. 4ªed, 2010.
NADLER. Um Livro Forjado No Inferno – O tratado escandoloso de Espinosa e o nascimento da era secular. São Paulo: Três Estrelas, 2013.
ONFRAY, Michel. Contra-história da filosofia – Volume IV: Os Ultras das Luzes. São Paulo: Martins Fontes, 2012.
PINTO, Álvaro Vieira.
A sociologia dos países subdesenvolvidos: introdução metodológica ou prática metodicamente desenvolvida da ocultação dos fundamentos sociais do “vale das lágrimas”. Rio de Janeiro: Contraponto, 1975/2008.
SPINOZA, B.
Tratado Teológico-Político. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
TODOROV, Tzvetan.
O Espírito das Luzes (“L’Esprit des Lumières”). São Paulo: Ed. Barcarolla, 2006.

 BIBLIOGRAFIA A PESQUISAR

ADORNO; HORKHEIMER. Dialética do Esclarecimento. Rio de Janeiro: Zahar, 2010.
CASSIRER, E. The Philosophy of the Enlightenment. New Jersey: Princeton, 1951.
CONDORCET. Esboço de um quadro histórico dos progressos do espírito humano. Campinas (SP): Unicamp, 2013.
D’HOLBACH. A moral universal, ou Os deveres do homem fundamentados em sua natureza; Exame dos princípios e dos efeitos da religião cristã; Exame crítico da vida e dos escritos de São Paulo; O contágio sagrado, ou História natural da superstição; O Sistema social; Política natural. Ebooks.
DIDEROT; D’ALAMBERT. Enciclopédia. 5 volumes. São Paulo: Unesp, 2015.
ENGELS, Friedrich. A Dialética da Natureza. São Paulo: Paz e Terra, 6ªed, 2000.
———————–.
Anti-Dühring. São Paulo: Paz e Terra, 2ªed, 1979.
FEUERBACH, L. A essência do cristianismo. Petrópolis: Vozes, 2015.
———————–.
Preleções sobre a essência da religião. Campinas: Papirus, 1989.
JAQUET, Chantal. A unidade do corpo e da mente – afetos, ações e paixões em Espinosa. Belo Horizonte: Autêntica, 2011.
KÓSIK, K. Dialectics of the Concrete – A Study on Problems of Man and World. Boston: Reidel, 1976.
GUYAU, Jean-Marie. Crítica da idéia de sanção. São Paulo: Martins Fontes, 2007.
HELVÉTIUS. Do Espírito; Do Homem; A Felicidade; Epístola sobre o prazer. Ebooks.
JANKELEVITCH. Traité Des Vertus: I – Le Sérieux de l’intention; II – Les Vertus et l’amour; III – L’Innocence et la Méchanceté. Paris-Montreal: Bordas, 1972.
LA MÉTTRIE.
O Homem Máquina; A Arte de Usufruir; A volúpia; História Natural da Alma; O Anti-Sêneca ou Discurso sobre a Felicidade. Ebooks.
LÚKACS. O Jovem Marx e Outros Escritos de Filosofia. Rio de Janeiro: UFRJ.
————. História e Consciência de Classe. São Paulo: Martins Fontes, 2013.
MARX; ENGELS. A Ideologia Alemã. São Paulo: Boitempo, 2015.
MÉSLIER, Jean. Testament. Ebook.
ONFRAY, Michel. Contra-história da filosofia – Volume V: O Eudemonismo Social. São Paulo: Martins Fontes, 2015.
USENER, Hermann (editor).
Epicurea. Cambridge Classics, 2010, 513 pgs.

Eduardo Carli De Moraes
Goiânia – Junho de 2016

EDUCAÇÃO NÃO É MERCADORIA! – O brado das manifestações e ocupações contra a “malvadez neoliberal” (Freire, Mészáros, Savater)

EDUCAÇÃO NÃO É MERCADORIA!

Eduardo Carli de Moraes (Fev/2016)

Nem tudo está à venda! Eis um dos brados que os mercantilizadores-de-tudo estão sendo obrigados a ouvir nas manifestações e ocupações atuais, em várias frentes (do Occupy Wall Street aos Indignados espanhóis, da guerrilha síria em Rojava aos secundaristas-em-luta e passe-livristas em marcha no Brasil). As mobilizações em prol da educação pública também revelam outra das trincheiras de batalha contra os poderes que, como o Rei Midas da mitologia grega, querem transformar tudo o que tocam em ouro, instituindo o império universal daquele que Davi Kopenawa batizou de “o povo da mercadoria” (@ A Queda Do Céu). Vivemos sob o reinado daqueles que, como Oscar Wilde dizia, “sabem o preço de tudo mas não sabem o valor de nada.”

Um de nossos maiores pensadores da educação, Paulo Freire, sempre deixou muito explícita sua recusa daquilo que apelidou de “malvadez neoliberal”. Basta atentar para o que ele diz Pedagogia da Autonomia, onde Freire não deixa margem a dúvidas quanto a seu engajamento e sua “crítica permanentemente presente” à “malvadez neoliberal, ao cinismo de sua ideologia fatalista e a sua recusa inflexível ao sonho e à utopia”:

Paulo FreireEstamos de tal maneira submetidos ao comando da malvadez da ética do mercado que me parece pouco tudo o que façamos na defesa e na prática da ética universal do ser humano. (…) Não é possível ao sujeito ético viver sem estar permanentemente exposto à transgressão da ética. Uma de nossas brigas na história, por isso mesmo, é exatamente esta: fazer tudo o que possamos em favor da eticidade, sem cair no moralismo hipócrita, ao gosto reconhecidamente farisaico. (…) Quando falo da ética universal do ser humano estou falando da ética enquanto marca da natureza humana, enquanto algo absolutamente indispensável à convivência humana.”  (PAULO FREIRE, Primeiras Palavras, p. 16-19) 

Ainda que sua voz soe serena e amorosa em vários trechos de sua obra, Freire confessa que é um “tom de raiva, legítima raiva, que envolve o meu discurso quando me refiro às injustiças a que são submetidos os esfarrapados do mundo. Daí o meu nenhum interesse de assumir um ar de observador imparcial… Quem observa o faz de um certo ponto de vista, o que não situa o observador em erro. O erro na verdade não é ter um certo ponto de vista, mas absolutizá-lo… O meu ponto de vista é o dos ‘condenados da Terra’, o dos excluídos.” (op cit, p. 16)

Freire alia-se a uma decifração-do-real proposta, por exemplo, por Franz Fanon n’Os Condenados da Terraonde a condição existencial e psico-física da legião de oprimidos é o foco de atenção e de compreensão. Contra a absolutização da chamada “ética do mercado”, posta pela ideologia dominante como irremediável e insuperável, Paulo Freire reclama não só a possibilidade, mas a urgente necessidade de instauração coletiva de uma outra ética, ou melhor, de uma eticidade, espraiada pelo cotidiano, que faça frente à hegemonia do capitalismo neoliberal globalizado, no qual a ética é cotidianamente transgredida pois vista apenas como obstáculo no caminho dos lucros (como prova a imensa irresponsabilidade empresarial, o grotesco desrespeito aos direitos humanos e às práticas ecologicamente sustentáveis, envolvidos  na pior tragédia socioambiental da história do Brasil, por cortesia da privatizada Vale e sua subsidiária Samarco, amargas assassinas do Rio Doce).

Vivemos em meio à efervescência das lutas contra o avanço do capitalismo neoliberalizante na educação, com a privatização crescente das escolas e a restrição do educador ao papel limitado (e limitador) daquele que treina seus clientes para que adquiram competências técnicas valorizadas pelo mercado de trabalho capitalista. Uma pedagogia que é convidada a ser serviçal do capital, colocando ainda mais lenha na fogueira de um sistema grotescamente excludente, opressor e desumanizante. Segundo recente pesquisa da Oxfam, a desigualdade social e a concentração de riqueza em poucas mãos são males que não cessa de aumentar: os 62 indivíduos mais ricos do planeta já detêm mais capital que metade da humanidade (3,6 bilhões de pessoas). Meritocracia ou plutocracia?

 

camila mini

Camila Vallejo

Uma encarniçada batalha opõe o capitalismo neoliberal – novo Midas que quer privatizar tudo o que toca e pretende gerir e$cola$ como se fossem empre$a$, instituindo a epidemia de universidades que vendem diplomas na base do pagou, passou – às vertentes contra-hegemônicas e de resistência, que demandam a universalização do ensino gratuito e sem fins lucrativos.

Alguns dos capítulos mais interessantes desta História-em-curso foram escritos no continente americano dos últimos anos:

Se há um brado que resume todas essas lutas, ei-lo numa fórmula: educação não é mercadoria!

Camila-Vallejo-02 ChileMarconi Grande Ditador

* * * * *

Realizou-se em Porto Alegre (RS), julho de 2004, o III Fórum Mundial da Educação, cuja conferência de abertura ficou a cargo do professor István Mészáros, que proferiu ali palavras preciosas para nos guiar rumo a uma Educação Para Além Do Capital (Google Livros). Segundo Ivana Jinkings, fundadora da Editora Boitempo, Mészáros – pensador húngaro nascido em 1930 em Budapeste e que foi assistente de Georg Lúkacs –  “afirma que a educação não é um negócio, é criação; que a educação não deve qualificar para o mercado, mas para a vida.” [1]

ivana

 “Mészáros ensina que pensar a sociedade tendo como parâmetro o ser humano exige a superação da lógica desumanizadora do capital, que tem no individualismo, no lucro e na competição seus fundamentos. Que educar é – citando Gramsci – colocar fim à separação entre Homo faber Homo sapiensé resgatar o sentido estruturante da educação e de sua relação com o trabalho, as suas possibilidades criativas e emancipatórias. E recorda que transformar essas ideias e princípios em práticas concretas é uma tarefa a exigir ações que vão muito além dos espaços das salas de aula, dos gabinetes e dos fóruns acadêmicos. Que a educação não pode ser encerrada no terreno estrito da pedagogia, mas tem de sair às ruas, para os espaços públicos, e se abrir para o mundo.

Ele alerta, porém, que o simples acesso à escola é condição necessária mas não suficiente para tirar das sombras do esquecimento social milhões de pessoas cuja existência só é reconhecida nos quadros estatísticos. (…) O que está em jogo não é apenas a modificação política dos processos educacionais – que praticam e agravam o apartheid social -, mas a reprodução da estrutura de valores que contribui para perpetuar uma concepção de mundo baseada a sociedade mercantil. (…) Pequeno em tamanho, A Educação Para Além do Capital é um livro imenso em esperança e determinação. Nele, o filósofo marxista condena as mentalidades fatalistas que se conformam com a ideia de que não existe alternativa à globalização capitalista.” IVANA JINKINGS (Leia também: Um caminho trilhado pela esquerda, Revista Saraiva) 

Educação para além Capa 2008.pmd

A fotografia que ilustra a capa do livro é de Sebastião Salgado e retrata uma menina do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) que faz os deveres escolares e toma conta dos irmãos enquanto a mãe trabalha.

No reino do capital, tudo é mercadoria, e a educação não escapa a esta infecção: “daí a crise do sistema público de ensino, pressionado pelas demandas do capital e pelo esmagamento dos cortes de recursos dos orçamentos públicos”, lembra Emir Sader. “Talvez nada exemplifique melhor o universo instaurado pelo neoliberalismo, em que tudo se vende, tudo se compra, do que a mercantilização da educação. Uma sociedade que impede a emancipação só pode transformar os espaços educacionais em shopping centers, funcionais à sua lógica do consumo e do lucro.” EMIR SADER

Que o pensamento de Marx e Engels inclui uma dimensão educativa e uma preocupação pedagógica é algo revelado não só por Mészáros, mas também pela “Pedagogia do Oprimido” de Paulo Freire ou por estudos como Marx e a Pedagogia Moderna de Mario Manacorda. Certos trechos conhecidíssimos do “cânone” materialista-dialético exploram diretamente o tema, por exemplo:

“a teoria materialista de que os homens são produto das circunstâncias e da educação e de que, portanto, homens modificados são produto de circunstâncias diferentes e de educação modificada, esquece que as circunstâncias são modificadas precisamente pelos homens e que o próprio educador precisa ser educado.” KARL MARX e FRIEDRICH ENGELS 

Aos que pregam que o capitalismo não merece ser extinto e revolucionado, mas só reformado e aprimorado, Mészáros afirma convicto que o capital é “irreformável” e “incorrigível” (p. 27) e que necessitamos mesmo é de uma “radical mudança estrutural” (p. 25). “O sentido da mudança educacional radical não pode ser senão o rasgar da camisa de força da lógica incorrigível do sistema: perseguir de modo planejado e consistente uma estratégia de rompimento do controle exercido pelo capital…” (p. 35).

istvan_meszaros_01

István Mészáros

“A educação institucionalizada, especialmente nos últimos 150 anos, serviu – no seu todo – ao propósito de não só fornecer os conhecimentos e o pessoal necessário à máquina produtiva em expansão do sistema do capital, como também gerar e transmitir um quadro de valores que legitima os interesses dominantes… A própria História teve de ser totalmente adulterada, e de fato frequente e grosseiramente falsificada para esse propósito.” (MÉSZÁROS, p. 36)

É bem verdade que, com sua distopia 1984, George Orwell pretendeu denunciar o totalitarismo, e não oferecer um manual de instruções. Porém, a realidade mostra o quanto o romance orwelliano é representação fidedigna dos mecanismos de funcionamento da ideologia, esta arte de inculcar, de condicionar, de fazer acreditar no falso, tão essencial à perpetuação do capitalismo e seu séquito de desigualdades e exclusões.

Apesar de ciente da força dos aparelhos ideológicos, inclusive os (des)educativos e (de)formadores que estão a serviço dos interesses das classes proprietárias, Mézsáros não é pessimista a ponto de propor que seja realizável a distopia de 1984, ou seja, uma sociedade totalitária, gerida por um Grande Irmão ou um führer, reinando inconteste sobre um rebanho de conformistas e submissos, que aceitaram fazer da ideologia a eles “pregada” – papagueada em púlpitos e jornais, em propagandas e teletelas – sua carne e coração.

O pesadelo – ufa! – não pode se realizar por inteiro! Por mais que tenebrosos poderes insistam em transformar salas-de-aula em celas-de-aula, escolas em cadeias, ensino em doutrinação, sabedoria em ideologia, há algo de incontrolável e de anárquico na ânsia de saber do ser humano e que romperá sempre as correntes limitantes que instituições tentem impor.

1984

“O pesadelo em 1984, de Orwell, não é realizável precisamente porque a esmagadora maioria das nossas experiências constitutivas permanece – e permanecerá sempre – fora do âmbito do controle e da coerção institucionais formais. Certamente, muitas escolas podem causar um grande estrago, merecendo portanto, totalmente, as severas críticas de José Martí, que as chamou de ‘formidáveis prisões’. (…) ‘A aprendizagem é a nossa própria vida’, como Paracelso afirmou… Mas para tornar essa verdade algo óbvio, como deveria ser, temos de reivindicar uma educação plena para a vida, para que seja possível colocar em perspectiva a sua parte formal, a fim de instituir, também aí, uma reforma radical.” (MÉSZÁROS)

* * * * *

EDUCAR PARA A VIDA – ÉTICA & PEDAGOGIA

Quando a educação cessa de servir à emancipação e passa a acorrentar-nos à camisa-de-força de uma ideologia classista, que falsifica a História, degrada a dignidade do presente e aniquila a possibilidade de um futuro melhor (pois aposta somente na continuação do mesmo,) podemos sem dúvida exigir das lutas populares que foquem sua atenção na tarefa de uma educação revolucionada, mas que só o será no interior de uma revolução social mais ampla. Mészáros fornece um bom plano, sintético, para a educação revolucionada de amanhã: ela deve educar para a vida, e não para o mercado.

Daí a importância crucial da ética, ou melhor, de uma educação ética, de uma formação que foque não apenas em fornecer treinamentos técnicos e saberes necessários ao Homo faber de uma certa especialização profissional, mas que enxergue como essencial e incontornável a própria conduta na vida, tanto privada como pública, como quintessencial a qualquer prática pedagógica libertária e sábia. Por essas e outras é que acredito que a filosofia nas escolas é um ingrediente imprescindível pra qualquer educação que seja autenticamente destinada à emancipação e não à opressão. Mas uma filosofia que inclua os rebeldes, os revoltados, os ímpios, os questionadores, os espíritos livres, os injuriados e caluniados (Epicuro, Spinoza, Voltaire, Nietzsche…)!

Desconfiar das idolatrias, pôr em dúvida os dogmatismos, refletir ao invés de se submeter a todos os catecismos, esses são alguns dos efeitos íntimos e psicoafetivos gerados por um contato duradouro com o fogo e o ânimo, irrefreáveis e fecundos, daqueles que podemos chamar de “filósofos rebeldes”, ou de “espíritos livres”. Como ler Nietzsche, deixando-se afetar pela potência de sua linguagem, sem sentir-se transformado em alguém com um senso crítico mais apurado, com um faro para as farsas que se torna aprimorado? Como seguir de joelhos diante da autoridade da moral, da razão, da ciência, após termos sido alertados por Foucault, Adorno, Horkheimer, Hans Jonas, e tantos outros, de todos os pesadelos que foram gerados quando estes ídolos foram sacralizados, quando nos rendemos acriticamente a ele?

Que superstições ignorantes sobrevivem ao benefício gerado por um convívio com Lucrécio, Comte-Sponville, Albert Camus? O perigo, porém, é aquele de transformar a filosofia em um novo ídolo, para em seguida fazer diante dela, de rosto baixo, uma genuflexão submissa e servil. Ao invés de exercitar o pensamento autônomo e ousado com a ajuda, na companhia, no debate, com os filósofos, corremos o risco de nos tornar dogmáticos papagaios do que outros pensaram, e que nós não fazemos senão repetir como um eco, tal qual a ninfa amaldiçoada por Hera e negligenciada por Narciso.

Não me parece ser jamais isso – subserviência e servilismo – aquilo que a filosofia que é digna desse nome demanda daqueles que a praticam. A filosofia não põe à toa entre o seu inventário de virtudes, de excelências humanas, de inestimáveis aretés, os valores e as práticas da justiça, da coragem, da generosidade, da tolerância, da responsabilidade, do amor.

P. Tratado /capa

O leque das “virtudes” filosóficas, que tanto merecem estar no currículo escolar de qualquer instituição educativa que busque educar para a vida e não só para o mercado, foram excelentemente exploradas no já clássico Pequeno Tratado Das Grandes Virtudes, de André Comte-Sponville, obra magistral e preciosa, inspirada nas reflexões de mestres éticos como Jankélévitch, Alain e Simone Weil.

Uma reflexão meramente teórica sobre as virtudes é uma infâmia, já que elas existem para serem postas em prática. Ética: indissolúvel dança, em sintonia, da reflexão e da ação, guiados pela sabedoria possível e pela amizade desejável que norteiam as mentes e as vidas dos filósofos (estes funcionários das forças da Sophia e da Philia). Ao menos é assim que estou tentando compreender, cada vez com mais afinco e mais visceralidade, esta tal de “ética”, que minha atual situação como professor (do ensino público e numa era de tragédias!) obriga-me a confrontar. Em termos mais concretos: não vejo como um professor de filosofia possa se esquivar da ética, dedicando suas aulas a outros assuntos mais “neutros” e supostamente dela desconectados.

Fernando Savater, em seu agradável livrinho Ética Para Meu Filho, sustenta que é imprescindível à pedagogia dos nossos jovens que falemos de ética, pois isto é o mesmo que refletir sobre o sentido da liberdade:

“Deve-se falar em ética no ensino médio? De início parece-me nefasto apresentar uma matéria com esse nome como alternativa à aula de doutrinamento religioso. A pobre ética não veio ao mundo para dedicar-se a escorar ou substituir catecismos… pelo menos não o deveria fazer. Mas não tenho nenhuma certeza de que devam ser evitadas algumas primeiras considerações gerais sobre o sentido da liberdade… A reflexão moral não é apenas um assunto especializado para quem deseja fazer cursos superiores de filosofia, sendo, antes, parte essencial de qualquer educação digna desse nome.”  (SAVATER, 2012) [5]

frase-despues-de-tantos-anos-estudiando-la-etica-he-llegado-a-la-conclusion-de-que-toda-ella-se-fernando-savater-129535

* * * * *

REVOLUCIONÁVEIS MANEIRAS DE SER

As maneiras-de-ser são revolucionáveis: eis uma das apostas da ética. Também é uma das esperanças do marxismo. Uma certa leitura reducionista e estreita do marxismo acaba por transformar este num “economicismo”, como se Marx e Engels estivessem sugerindo que a única coisa que importa é revolucionar o sistema de produção capitalista e mais nada, quando é evidente que a revolução envolve uma reestruturação radical também das chamadas “subjetividades”, no sentido da superação da alienação, na vitória sobre os véus ilusórios da ideologia internalizada, além das revoluções simultâneas no âmbito da cultura, das artes, das mídias etc. E “é aqui que a educação – no sentido mais abrangente do termo – desempenha um importante papel”:

“Desde o início o papel da educação é de importância vital para romper com a internalização predominante nas escolhas políticas circunscritas à ‘legitimação constitucional democrática’ do Estado capitalista que defende os seus próprios interesses. (…) A tarefa histórica que temos de enfrentar é incomensuravelmente maior que a negação do capitalismo… Tendo em vista o fato de que o processo de reestruturação radical deve ser orientado pela estratégia de uma reforma concreta e abrangente de todo o sistema no qual se encontram os indivíduos, o desafio que deve ser enfrentado não tem paralelos na história. Pois o cumprimento dessa nova tarefa histórica envolve simultaneamente a mudança qualitativa das condições objetivas de reprodução da sociedade e a transformação progressiva da consciência em resposta às condições necessariamente cambiantes. Portanto, o papel da educação é soberano, tanto para a elaboração de estratégias apropriadas e adequadas para mudar as condições objetivas de reprodução, como para a automudança consciente dos indivíduos chamados a concretizar a criação de uma ordem social metabólica radicalmente diferente.” (MÉSZÁROS, p. 65)

A questão da educação está vinculada, nas sociedades capitalistas, à preparação para o mercado de trabalho, porém sabemos o quão desigual e injusto é todo o “mundo do trabalho” sob o capitalismo globalizado, que permite a coexistência de centenas de bilhões de trabalhadores que ganham salários-de-fome com um punhado de multibilhonários ociosos cujo único labor é apostar nos cassinos das bolsas de valores…

Já tem uma longa história a crítica aos ricos que coçam o saco enquanto os pobres derramam o suor, tanto que Paracelso (1493 – 1541), um dos modelos que inspirou o Fausto de Goethe, “chegou ao ponto de defender a expropriação da fortuna dos ricos ociosos, de forma a compeli-los a ter uma vida produtiva.” (p. 68)

Na verdade, o negócio não é exatamente o contrário do ócio para aqueles que detêm o capital roubado aos trabalhadores. Os produtores das mercadorias, sob o capitalismo, jamais têm seu trabalho pago com justiça: a mais-valia, que está na raiz da propriedade de capital, é em essência um roubo, como Proudhon, antes de Marx, já havia compreendido. O negócio do capitalista é seu pretexto para ficar “de papo pro ar” enquanto seus funcionários fazem os “corres” todos, gastando grande parte dos seus tempos-de-vida nas linhas de montagem frenéticas tão bem satirizadas por Chaplin em Tempos Modernos.

A própria existência de capitalistas é sinal de um mundo do trabalho regido pelo acinte da opressão, da desigualdade imposta pela violência, do apartheid social que fratura o social entre os que não trabalham e gozam com luxos e confortos, por um lado, e os que só trabalham e quase nada tem, por outro lado…  É um pouco o que revela o samba de Elton Medeiros e Paulinho da Viola, “Maioria sem Nenhum”:


“Uns com tanto
Outros tantos com algum
Mas a maioria sem nenhum!”

Diante da urgência do tempo histórico – vivemos, como diz o título do novo livro de Isabelle Stengers, In Catastrophic Times – a educação também precisa colocar-se urgentemente em posição de luta em prol da emancipação, já que a omissão significaria a cumplicidade com as forças da destruição. “É suficiente apontar duas diferenças literalmente vitais que colocam em acentuado relevo a urgência do tempo em nossa própria época”, escreve Mészáros. “Em primeiro lugar, o poder de destruição antes inimaginável que se encontra hoje à disposição da humanidade, pelo qual se pode alcançar facilmente o completo extermínio da espécie humana por meio de uma variedade de meios militares. Isso é gravemente acirrado pelo fato de que testemunhamos, no último século, tanto a escala como a intensidade sempre crescentes de conflagrações mundiais efetivas, incluindo duas guerras mundiais extremamente destrutivas.” (p. 107)

Além da ameaça das armas nucleares que pesam sobre o cérebro dos vivos – apocalipse tecnocrático tão bem retratado e satirizado por Stanley Kubrick em Doutor Fantástico – soma-se hoje uma “segunda condição gravemente ameaçadora”, como também lembra Mészáros, que é “a natureza destrutiva do controle sociometabólico do capital em nosso tempo – manifesta pela predominância cada vez maior da produção destrutiva, em contraste com a mitologia capitalista tradicionalmente autojustificadora da destruição produtiva – e que encontra-se no processo de devastação do ambiente natural, arriscando com isso diretamente as condições elementares da própria existência humana neste planeta.” (p. 108)

Diante da “magnitude sem precedentes das tarefas em jogo e da urgência historicamente única de nosso tempo”, espremidos entre o perigo do militarismo desenfreado, por um lado, e da hecatombe ecológica, por outro, só resta a certeza, pulsante e urgente, da “necessidade de instituir com êxito uma alternativa historicamente sustentável à crescente destrutividade do modo de controle sociorreprodutivo do capital.” (p. 110) Estamos diante da encruzilhada do Antropoceno, na era do duelo épico que, na formulação de Naomi Klein, opõe capitalism vs the climate (o capitalismo versus o clima). Ou, como disse Hubert Reeves, “estamos em guerra contra a natureza: se vencermos, estamos perdidos”.

War

* * * * *

a ser continuado…

SIGA VIAGEM:

Leia o artigo de Mészáros:
Educação: o desenvolvimento contínuo da existência socialista

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia – Saberes Necessários à Prática Educativa. Ed. Paz e Terra.
JINKINGS, Ivana. Apresentação de Educação Para Além Do Capital.
SADER, Emir. Prefácio a Educação Para Além Do Capital.
MARX, K; ENGELS, FTeses sobre Feuerbach.
MÉSZÁROS, István. A Educação Para Além do Capital. Ed. Boitempo.
SAVATER, Fernando. Ética Para Meu Filho. Trad. de Monica Stahel. Ed. Planeta, 2012.
COMTE-SPONVILLE. Pequeno Tratado das Grandes Virtudes. Ed. Martins Fontes.

P.S.  

PRA QUE PRESTAM, NA PÓLIS, OS PHILÓSOPHOS? Uma resposta de André Comte-Sponville

DO OUTRO LADO DO DESESPERO
Entrevista com André Comte-Sponville

Pergunta: André Comte-Sponville, façamos tábua rasa de tudo, e comecemos por definir: o que é a filosofia? O que é um filósofo? Que papel ele deve representar na Cidade de hoje?

André Comte-Sponville: Aí está um início bem filosófico! No fundo, será que filosofar não seria, antes de mais nada, isso mesmo: fazer tábua rasa (nada prova que seja possível), pelo menos tentarmos nos livrar de tudo o que nos atravanca, dos costumes, das idéias feitas, etc., em outras palavras, pensar renovadamente? Sim, talvez a filosofia seja antes de mais nada esse movimento de interrogação radical, como que um começo da razão, ou um recomeço; talvez a filosofia seja o pensamento novo, o pensamento livre, o pensamento libertado e libertador… Costuma-se dizer, citando Hegel, que a coruja de Minerva alça vôo no crepúsculo, e não está errado. A filosofia é a alvorada sempre recomeçada do pensamento, que não pára de se alçar – brilho pálido da razão! – do fundo de nossos crepúsculos.

Não há como escapar da filosofia – ou, diria eu, só escapamos dela renunciando a pensar. Ela é antes de mais nada uma dimensão constitutiva da existência humana. Você me pergunta, “O que é a filosofia?” Forjei, pensando em Epicuro, a definição seguinte: “a filosofia é uma prática discursiva que tem a vida por objeto, a razão por meio e a felicidade por fim.”

Como falo da felicidade, conclui-se daí um tanto apressadamente que aí estaria, para mim, o mais importante da filosofia. Nada disso. É possível ser feliz sem filosofar, sem dúvida, e, com toda certeza, é possível filosofar sem ser feliz! A felicidade é o fim, não o caminho. E principalmente: a felicidade não é a norma. Se uma idéia faz você feliz, o que isso prova? É o que acontece também, pelo menos por certo tempo, com a maioria das nossas ilusões… A felicidade não é a norma: a norma da filosofia, como de todo pensamento, é, só pode ser, a verdade. Sempre digo que, se um filósofo tem escolha entre uma verdade e uma felicidade, o que pode acontecer, ele só é filósofo se escolhe a verdade. Renunciar à verdade, ou à busca da verdade, seria renunciar à razão e, com isso, à filosofia. Mais vale uma verdadeira tristeza do que uma falsa alegria.

Por que então não definir a filosofia como busca da verdade? Primeiro porque essa busca não é, evidentemente, específica da filosofia: também se busca a verdade na história, na física, no jornalismo ou no tribunal… Na filosofia, a verdade é a norma, mas trata-se afinal de viver e, se possível, viver feliz, ou não muito infeliz… Daí essa tensão sempre, que me parece característica da filosofia, entre o desejo e a razão ou, para dizê-lo de outro modo, entre o fim (a felicidade) e a norma (a verdade). Que as duas podem se encontrar, é o que ensina a velha palavra “sabedoria”.

Se a filosofia é amor à sabedoria, como a etimologia anuncia, é que ela é amor, ao mesmo tempo, à felicidade e à verdade, e que tenta, na medida do possível, conciliá-las, fundir uma na outra…”

sponvaCOMTE-SPONVILLE.
O Amor, A Solidão.
Ed. Martins Fontes. Pg. 12.
Compartilhe

O ESPÍRITO DO ATEÍSMO: EPICURO, LUCRÉCIO E ANDRÉ COMTE-SPONVILLE

Epicuro
“Ou Deus quer eliminar o mal e não pode; ou pode e não quer; ou não pode nem quer; ou quer e pode. Se quer e não pode, é impotente, o que não corresponde a Deus; se pode e não quer, é mau, o que é estranho a Deus. Se não pode nem quer, é ao mesmo tempo impotente e mau, logo não é Deus. Se quer e pode, o que corresponde somente a Deus, de onde então vem o mal ou por que Deus não o suprime?” EPICURO

Excelentes questões, as de Epicuro, e que não cessam de dar nó no cérebro dos teólogos. Lucrécio, o maior herdeiro de Epicuro no mundo romano do I século antes de Cristo, escreveu seu poema e magnum opus, Da Natureza das Coisas, na intenção de divulgar e enaltecer o epicurismo, dissipando superstições e temores a golpes de desmistificação. Lucrécio também afirmava, como lembra André Comte-Sponville, que 

“A natureza mostra bastante bem, com suas imperfeições, ‘que não foi criada para nós por uma divindade’. O poeta, sobre esse tema, encontrará um dos seus mais belos e mais trágicos timbres: a vida é difícil demais, a humanidade é fraca demais, o trabalho é extenuante demais, os prazeres vãos ou raros demais, a dor é demasiado frequente ou demasiado atroz, o acaso é demasiado injusto ou demasiado cego, para que se possa crer que um mundo tão imperfeito seja de origem divina!” (COMTE-SPONVILLE)

Em “O Espírito do Ateísmo”, Sponville sintetiza sua posição atéia, calcada em larga medida na filosofia de Epicuro e Lucrécio, com as seguintes – e eloquentes – palavras ímpias:

sponville

“Há horrores demais neste mundo, sofrimentos demais, injustiças demais – e muito pouca felicidade – para que a idéia de ele ter sido criado por um Deus onipotente e infinitamente bom me pareça aceitável.(…) Há todos esses sofrimentos, desde há milênios, pelos quais a humanidade não é responsável. Há todas essas crianças que morrem de doenças, muitas vezes com sofrimentos atrozes. Esses milhões de mulheres que morreram de parto (que às vezes ainda morrem), com a carne e a alma dilaceradas. Há as mães dessas crianças, há as mães dessas mulheres, quando ainda vivas, incapazes de ajudá-las, de aliviá-las, que só podem assistir, impotentes, ao horror… Quem ousaria lhes falar de pecado original? Há um número incontável de cânceres (nem todos se devem ao meio ambiente ou ao modo de vida). Há a peste, a lepra, o impaludismo, a cólera, o mal de Alzheimer, o autismo, a esquizofrenia, a mucoviscidose, a miopatia, a esclerose múltipla, o mal de Charcot, a coréia de Huntington… Há terremotos, maremotos, furacões, secas, inundações, erupções vulcânicas. Há a desgraça dos justos e o sofrimentos das crianças. Ao que o pecado original dá uma explicação ridícula ou obscena. ‘Tínhamos de nascer culpados, ou Deus seria injusto’, escreve Pascal. Há uma outra possibilidade, mais simples: que Deus não existe.” 

ANDRÉ COMTE-SPONVILLE. O Espírito do Ateísmo. Ed. Martins Fontes.

SIGA VIAGEM DENTRO DA CASA DE VIDRO:

NIETZSCHE & TOLSTÓI EM PARALELO – Comentários sobre o livro do filósofo existencialista russo Léon Chestov [1866-1938]

tolstoi

TOLSTÓI E NIETZSCHE:
RETRATOS PARALELOS NA PENA DE LÉON CHESTOV

Comentário sobre a obra “L’Idée Du Bien Chez Tolstoi et Nietzsche”.
Paris, 1949, Editora J. Vrin

A-Morte-de-Ivan-Ilitch

Em A Morte de Ivan Ilitch, uma das obras-primas da literatura universal, Tolstói assim pinta os últimos minutos da vida de Ivan: “Ele compreendeu que estava perdido, que não havia mais nenhum retorno possível, que o fim havia chegado, o fim derradeiro… Ele se agitava de modo desordenado dentro daquele saco negro para cujo fundo lhe empurrava uma força invisível, insuperável. Ele se debatia como um condenado à morte se debate nas mãos do carrasco, sabendo que não pode ser salvo…”

Esta “pintura” da agonia de Ivan Ilitch, de impacto estético impressionante, talvez só tenha a força que tem como obra-de-arte pois encontra um eco em cada um de nós, mortais que evitam confrontar-se com ela, “a indesejada das gentes” (na expressão de Manuel Bandeira), e de que não há gente que escape…

 A literatura em prosa tenta falar sobre a experiência de todos através do relato da experiência de alguém; o romance é o reino da singularidade do indivíduo único e irrepetível, mas que simboliza algo de universal. A morte de Ivan Ilitch não é a morte de qualquer um, não é a morte descarnada e abstrata do silogismo (“Todos os homens são mortais; Sócrates é homem; Logo, Sócrates é mortal…”); há em Ivan uma dor toda sua e que sugere que ninguém morre uma morte igual a de outrem. Mas ao mesmo tempo todos somos um pouco como Ivan, irmanados na mortalidade que nos é comum.

Tolstói, no fim de seu livro, oferece-nos uma espécie de resposta para a excessivamente angustiada e aflitiva agonia de Ivan Ilitch: Ivan atormenta-se por não conseguir olhar para sua vida e concluir que ela havia sido boa. Insatisfeito com sua vida em seu leito de morte, Ivan descobre que não poderá mudar mais uma vírgula e que o ponto final se aproxima. O que se sublinha é a tragicidade deste fato: a morte não espera que todos se considerem “realizados” e “felizes” para fazer uso de sua foice. Os homens não morrem quando querem (com exceção dos suicidas), nem morrem só depois de poderem considerar sua existência “bem-sucedida”: eles são às vezes ceifados quando não desejam deixar a vida e nem sempre é possível “enrolar” e adiar o momento fatal, jogando um interminável xadrez como o personagem de Bergman em O Sétimo Selo. O xeque-mate inelutável virá para todos nós.

7thsealposter

Como lembra Léon Chestov em seu comentário d’A Morte de Ivan Ilitch, todo o começo da narrativa nos explica porque a vida de Ivan Ilitch não havia sido boa. “Ele havia se economizado em demasia, ele havia preservado com muita atenção as compactuações com uma vida conveniente, ele tinha vinculado demasiado valor aos bens medíocres, e conforme foi se aproximando da tragédia, sentiu pela primeira vez que tinha deixado passar aquilo que há de melhor na vida.” (CHESTOV: p. 175) No entanto, essa angústia não durou muito: as últimas palavras que Ivan Ilitch ouve é a de alguém que diz: “A morte acabou. Ela não existe mais.” C’est fini.

* * * * *

Leon Chéstov (1916)

“Os horrores que Tolstói descobre quando visita, em Moscou, os asilos para as pessoas pobres e que vivem sem calefação”, como relembra Chestov, levou o escritor russo “a comover-se a ponto de não poder falar no assunto sem lágrimas e cólera” (CHESTOV: pg. 71). Tolstói, após experiências semelhantes, falará com frequência de seu “grande desgosto pela vida urbana”, a ponto de fabricar um ideal-de-vida que incluía labutar junto aos camponeses, abandonando as mordomias de letrado aristocrata para fraternizar com as penas dos mujiques. “Todos os prazeres de uma vida luxuosa”, escreve o autor de Anna Karenina, “se transformaram para mim em torturas.” (pg. 70)

Esta visita aos subúrbios empobrecidos de Moscou, esse encontro com uma multidão de humilhados, ofendidos, despossuídos e esfomeados, não foi decerto a primeira oportunidade que teve Tolstói de entrar em contato com alguns dos aspectos mais tenebrosos da existência – ele já era bastante experimentado neles: “O autor de Guerra e Paz, um pintor tão perfeito de todos os horrores de 1812, havia olhado na face milhares de mortos e de assassinatos, as mais terríveis e repugnantes manifestações da crueldade e da baixeza humanas” (pg. 70). Não era portanto um ingênuo, um desconhecedor dos males da terra, como foi um dia o super-protegido  jovem príncipe Sidarta que, “logo na primeira vez em que foge de seu palácio, encontra em seu caminho um doente, um velho e um mendigo.” (pg. 71)

Uma questão que vale a pena colocar é: teria Tolstói se transformado nesta figura tão imponente no âmbito da literatura e da ética, e teria Sidarta se convertido em Buda, se eles tivessem virado o rosto e vendado voluntariamente os olhos, recusando-se a reconhecer todos os males e todos os sofrimentos que o mundo comporta? Esquivar-se do sofrimento, procurar o comodismo da cegueira voluntária, proteger-se de conhecer as realidades que ferem, não é este o caminho que conduz certamente à mediocridade? E o que há de mais medíocre que “olhar com indiferença para o mal que reina sobre a terra”? (p. 71)

Chestov relata um episódio em que Tolstói, decidido a viver uma vida de benfeitorias ao visitar os pobres, conversar com eles e regalar-lhes com filantropias, conhece uma mulher que não comia há 10 dias. “Dei-lhe um rublo”, escreve Tolstói, “e me lembro que fiquei muito contente que outros tenham visto.” (p. 74)

 Chestov olha com suspeição para este episódio, para esta “satisfação com a própria virtude” que Tolstói confessa ter sentido com seu comovimento, este inchamento-de-ego que sente com sua deleitosa piedade pelos males alheios. Decerto que é humano… mas tudo que é humano é suspeito! Suspeitemos, pois, desta atitude de Tolstói, auto-congratulando-se por sua generosidade no auxílio financeiro, feliz com o elogio que recebeu dos amigos por ser um homem tão doce, tão bom, tão comovível.

Esta compaixão satisfeita-de-si, esta atitude de quem se orgulha de sua própria virtude ao demonstrar sua indignação diante do que aflige o outro, não merece também ser questionada? É o que Chestov soube realizar com brilhantismo, já que lidou com a obra e o pensamento de Tolstói depois de ter atravessado a “escola” de Nietzsche: “o que teria ocorrido se Tolstói tivesse se convencido que seus amigos tinham toda razão, que ele era mesmo bom e virtuoso, nada malévolo ou culpável? A sorte daqueles abrigados nos asilos não teria sido adoçada. As pessoas, parcialmente congeladas, se amontoariam como antes pelas ruas…” (pg. 72)

A consciência tranquila e pacificada daquele que, ao preço de compadecer-se dos outros, conquistou a agradável convicção de ser bom e virtuoso, auxiliará realmente a remediar os males daqueles cujo sofrer despertou os piedosos comovimentos? É digna do nome de “virtude” a satisfação-consigo daquele que se compadece, mas sem extinguir o mal que aflige o outro?

Em outras palavras: se o espetáculo da fraqueza, da fome e do frio do outro serve para aumentar a convicção na minha própria bondade por ser sensível e simpático ao sofrimento alheio, mas sem que eu pratique nenhuma atividade eficaz para remediar estes males, de que vale de fato esta compaixão? De que valem as lágrimas daqueles que tem “necessidade dos pobres” (CHESTOV: p. 73) para se sentirem bons e que, portanto, não tem interesse em acabar com a pobreza? Trama brechtiana!

A esmola que o rico dá ao mendigo é feita em favor de quem? É um altruísmo desinteressado que reina neste ato, ou então é o interesse do rico em mostrar-se humano e comprar com sua ação o aplauso dos outros e o sono dos justos? Quando Tolstói confessa o prazer que sentiu ao ser visto ajudando, aí se escancara o auto-interesse por trás da esmola. Pode-se suspeitar, como dirá André Comte-Sponville, que em casos semelhantes a esse não se trata de uma autêntica generosidade desinteressada, mas do “precinho de uma consciência limpa” (COMTE-SPONVILLE, Pequeno Tratado das Grandes Virtudes, capítulo “A Generosidade”). Ou mesmo uma moeda com que se compra as palmas da platéia.

 A confissão de Tolstói sobre o quanto lhe era “agradável” doar é só parte da história, é claro, pois ele logo descobrirá sua própria impotência diante da imensa miséria de Moscou: se ele abandona a cidade e seus pobres, depois de tentar ajudar a dúzias de esfomeados enregelados, retornando ao campo e à sua propriedade de Iasnaia Poliana, é pois percebe que não conseguirá fazer sozinho nenhuma grande diferença em meio ao gigantismo da metrópole. Não se vence a miséria com esmolas.

tolstoi ultimosDesesperado, cheio de angústias, numa situação grave onde murmura consigo que “é impossível viver assim”, Tolstói volta para o campo em busca de prosseguir na tentativa de decifrar seus enigmas. Sabe que seus olhos se abriram para horrores tais que ele dificilmente conseguirá esquecer: “Felizes aqueles que jamais abriram os olhos a tais horrores!”, escreve Chestov. “Mas o que deve fazer aquele que os viu, que não pode esquecê-los, que não deseja e não deve esquecê-los?” (pg. 76)

Em Iasnaia Poliana, resolve pôr em prática um novo estilo de vida, convencido de que “não é de dinheiro que os miseráveis tem necessidade”, mas sim de serem “ensinados a trabalhar, a estimar e a amar o trabalho, aquele trabalho através do qual se adquire os meios de existência.” (p. 77) Em outros termos: não dê um peixe, ensine a pescar. De agora em diante, Tolstói considerará uma vergonha ter as mãos sem calos.

Tolstói agora ensinará não somente através de seus livros, mas em ato, fazendo-se exemplo em carne viva que os outros fariam bem em imitar. Convidará seus contemporâneos, através de sua eloquência impressionante, a que cessem de privar outros do necessário por paixão pelo luxo. Consagrará 8 horas diárias ao trabalho físico no campo, descobrindo que ainda assim lhe restam ainda 8 horas diárias para consagrar ao trabalho intelectual. Diz-se cheio de boa disposição, jovialidade, paz d’alma, consciência tranquila. O “ato glorioso em prol do próximo sofredor realizado para lhe servir” parece-lhe um dever santo, quase um imperativo categórico de molde kantiano. E logo Tolstói estará pregando que “encontrou o meio de curar a humanidade de todos os males de que ela sofre”, além de profetizar que “todos os males desaparecerão e os homens se tornarão felizes” (CHESTOV: pg. 81) – e essa maravilha toda ocorrerá, é claro, caso todos ajam como ele.

Apesar da intensa admiração que Chestov nutre pelo “maior escritor da terra russa”, ele não dissimula seu desconforto com a convicção tolstoiana, que ele teria mantido, obstinado, por toda a vida, de que “fora do Bem não existe salvação” (pg. 91). “A validade dos meios recomendados por ele para garantir a cura da humanidade lhe parecia incontestável” (pg. 81). Donde o diagnóstico chestoviano de que há em Tolstói elementos de “intolerância sectária” em relação à opinião dos outros, “em relação àqueles que levam uma vida diferente da sua. Quem não está com ele, está contra ele. E qualquer um que tenha reconhecido a soberania do bem é forçado a dividir seus próximos em bons e maus, isto é, amigos e inimigos.” (pg. 91)

 Esta ética que louva o altruísmo mas que descamba para o maniqueísmo, que pretende ser universal mas acaba por cindir a humanidade em dois grandes grupos, é muito aparentada com o espírito do cristianismo primitivo. Tolstói prega que os homens corram ao auxílio do próximo e isso se tornará para ele a panaceia universal: “ele se persuade mais e mais que descobriu a via que conduzirá sem nenhuma dúvida – e em pouco tempo – à felicidade universal”, e essa certeza na bondade de sua própria conduta permite que ele “avance acusações severas e aniquiladoras contra todos aqueles que não estão dispostos a enxergar a solução na via indicada por ele.” (pg. 84) O princípio moral supremo que o guia agora é: “toda a felicidade dos homens repousa unicamente em renunciar a si mesmo e servir aos outros.” (pg. 88)

Estamos diante de um exemplo paradigmático do que Nietzsche chamará de “moralidade altruísta” ou de “auto-renúncia”, e ao pregá-la Tolstói “repete em língua atual o que os profetas e apóstolos ensinam há dois mil anos”, como frisa Chestov. “Mas se os povos europeus tiveram a Bíblia por livro santo por tantos séculos e não executaram seus mandamentos, como poderia Tolstói seriamente esperar que sua palavra tivesse mais efeito que a palavra de seus mestres?” (pg. 95).

Ao contrário do esperado, os homens não seguem as predicações tolstoístas como o mestre o teria desejado; alguns lêem seus textos como mera “literatura edificante” e não vêem necessidade alguma de imitá-lo ou segui-lo; outros sentem-se deprimidos diante deste “juiz inexorável” que é Tolstói e que multiplica as acusações contra aqueles que nada fazem em prol dos necessitados; Chestov conta até que conheceu um “industrial, milionário, que emprestava dinheiro a juros e se acreditava tolstoísta…” (pg. 95).

Enfim: não é fácil a vida de um pregador. Lembremos daqueles que Kierkegaard chamava jocosamente de “cristãos de domingo de manhã”, aqueles que nada fazem de altruísta ou caridoso no cotidiano, mas seguem com enfado e gravidade os ritos prescritos na Missa semanal. Tolstói decerto revolta-se contra eles, querendo ser um cristão não somente em certos dias ou horários pré-estabelecidos, não somente durante os ritos e solenidades, mas o tempo todo. É o que destaca Jankélévitch:

JANKELEVITCH

Vladimir Jankélévitch, filósofo francês

“Tolstoi o sabe tão bem quanto Kierkegaard: ser um cristão do domingo – do domingo de manhã, entre onze horas e meio-dia… – é a única ambição dos burgueses da paróquia. Porém Tolstoi quer que sejam benditos e santificados não somente os dias feriados, mas também todos os dias úteis, e todas as horas de todos os dias, e cada minuto de cada hora, e cada instante de cada minuto; que a vida inteira em sua plenitude e nos mais humildes detalhes de sua duração seja uma festa perpétua; que a temporalidade seja inteiramente festiva em sua cotidianidade e até no infinitamente pequeno das refeições diárias e até nos vazios do sono! (…) Ora, uma festa contínua é esgotante, e uma santificação de todos os instantes é quimérica; e o desespero de Tolstói é ainda mais profundo…” (JANKÉLÉVITCH: Cursos Sobre Filosofia Moral, Ed. Martins Fontes, pg. 69).

Além dos cristãos de domingo de manhã, há os cristãos que se permitem todos os pecados pois depois se confessam e se acreditam redimidos; há os cristãos que querem empunhar espadas e ir assassinar judeus e muçulmanos; há os cristãos que apoiam os tiranos mais opressores e as moralidades mais repressoras; e há os cristãos que são tiranos opressores e repressores… Além do mais, “ser um cristão em tempo integral”, como parecia ser o ideal tolstoísta, corre outro risco, o de se transformar em maquinismo, em mecanicismo, em comportamento rotineiro e frio. “A virtude não é em nenhum caso um hábito, pois quando se torna habitual a maneira de ser moral resseca-se e se esvazia de toda intencionalidade; torna-se tique, automatismo e despautério de um papagaio virtuoso. Ela é, então, o gesto da devota que, sem mesmo olhar para o mendigo, deixa cair uma moeda na sua tijela.” (JANKÉLÉVITCH, O Paradoxo da Moral, Ed. Papirus, p. 12)

Na leitura de Chestov, o Tolstói dos últimos dias decerto é descrito como cheio de angústias íntimas, mas ao mesmo tempo alguém que as escondia de seus leitores. Portando a máscara do pregador, assumindo a pose grandiloquente do messias, é como se quisesse vencer suas próprias dúvidas ao encarnar uma figura de solenidade profética. Mas um dos problemas com os profetas é que eles tem a mania aporrinhante de, com seus discursos cheios de moralina e ressentimento, condenar comportamentos, atos e palavras que não se adequam a seus ideais. Com esta atitude condenatória espalham o veneno da culpa por todos os cantos, como se quisessem banir do mundo a própria inocência.

No caso específico de Tolstói, quando ele é possuído pelo messianismo que enche as páginas de Os Últimos Dias (Ed. Penguin Books), ele vocifera e escarra sobre tudo aquilo que desaprova – o que incluí até mesmo a obra de Shakespeare! – de um modo que recende a um certo fanatismo: “Tolstói se dá o direito”, escreve Chestov, “de fulminar os homens por sua irreligião/incredulidade” (pg. 164).

Ao mesmo tempo que ataca a Religião Ortodoxa Russa e todos os seus rituais, ridicularizando o rito da hóstia como se não passasse de uma ridícula fé em “bolachinhas abençoadas”, também não escapa daquela ateofobia que alguns homens religiosos possuem entranhada no peito como um preconceito dos mais arraigados.

Lembremos que Pascal, por exemplo, encheu seu livro mais importante, Os Pensamentos, com insistentes afirmações peremptórias sobre “a miséria do homem sem Deus”. “Pascal não cansa de vincular o ateísmo com a loucura e com a doença, como se os ateus não passassem de doentes que precisam ser “curados de um mal”, aqueles que por negarem a existência de Deus caem ao nível das “bestas selvagens”… (CARLI: Crítica da Aposta de Pascal).

Ora, um homem que tanto sofreu, vida afora, com as doenças que nunca o abandonaram, um homem que assiste na primeira infância à morte de seu pai e seu irmão caçula, um homem que presencia todos os horrores cometidos em nome de Deus ou do Reich de Bismarck, um homem que diante das tragédias da existência acaba por não conseguir crer – um homem como Nietzsche! – eis uma figura que, como Pascal e Tolstói recomendam, deveria ser tratado como uma besta selvagem? Como alguém que o profeta fulminador-dos-descrentes tem o direito de condenar, lançar na lama e prometer sua alma ao inferno?

* * * * *

PARTE II

Nietzsche: eis uma vida vivida no “grande sofrer”, que foi trágica desde os seus princípios. Eis um ateu entre muitos outros, é claro, mas o poder de sua filosofia, a beleza de sua escrita, a radicalidade e o vigor de suas idéias, tudo isso que prossegue a ecoar tanto em nossos tempos, mostra o quão complexa, multifacetada e fascinante pode ser a vida do ateu.

As provocações e críticas que a obra nietzschiana possui em tamanha profusão contra os dogmatismos e fanatismos de todo tipo tendem a provocar a fúria dos ateofóbicos e dos crentes fundamentalistas. Quem se revolta contra Nietzsche, ou quem cobre os ouvidos para não escutá-lo, quem prefere o otimismo apaziguador dos evangelhos e bíblias, corões e torás, ou de quaisquer outros escritos ditos “sagrados”, quem enfim se recusa a ouvir o que este descrente tem a dizer (e ele tem tanto!), demonstra com isso, talvez, sua resistência ao reconhecimento de verdades desagradáveis.

Esta resistência às verdades tristes talvez esteja de certo modo “implantado” no aparelho psíquico humano, sendo uma espécie de disposição inata? Como se o “princípio de prazer” a que se refere Freud também invadisse o domínio da linguagem e do mito, nos convidando a crer no que dá mais prazer e nos fazendo fugir portanto de tudo aquilo que causa dor, inclusive algumas dolorentas verdades? Quiçá as mais importantes? Sobre este tema, Ernest Becker fez a melhor das análises que conheço em seu Negação da Morte.

A suspeita que Chestov compartilha com seus leitores é a seguinte: Tolstói, através da “indignação que demonstra com os descrentes”, ou com a “receita do trabalho físico que ele nos propõem como panaceia universal” (CHESTOV, pg. 67), não estaria simplesmente fazendo uso de uma artimanha para se livrar de suas próprias dúvidas?

Os escritos de Nietzsche, por sua vez, são com frequência repletos de uma outra indignação, nos antípodas da fúria tolstoísta – aquilo que indigna a Nietzsche é a arrogância dos que se arrogam o direito de fulminar os descrentes, dentre os quais se encontram com frequências os mais livres dos espíritos livres! “Toda virtude tem seus privilégios: por exemplo, o de levar seu próprio feixezinho de lenha para a fogueira do condenado.” (NIETZSCHE).

Poderíamos dizer que a crença baseia-se em idéias que não devem ser questionadas ou mudadas (exigência de imutabilidade), e que pretendem valer para todos (pretensão de universalidade). No caso da crença monoteísta-criacionista, aquele que se acredita o filho predileto de um Pai Celeste arroga-se o direito de auto-proclamar-se “virtuoso”, pois segue os preceitos escritos nos livros que ele considera sagrados, e então se dá o direito de levar os que rotula de viciosos para a fogueira, o suplício, a excomunhão, o exílio, o opróbrio. Palavras feias para ocorrências horríveis.

Em Nietzsche há defesas explícitas da incredulidade, elogios arrebatados do ceticismo que faz desabarem os dogmas, como se crer no mais cômodo e confortável não passasse de baixeza e comodismo: e isso dito por um homem que não tinha como escapar do sofrimento vitalício que o acompanhou pela vida afora sem que ele tenha a solicitado – como uma espécie de sadismo gratuito do destino.

Isso não significa que todo “grande sofrer” conduza à incredulidade – isso ocorreu, decerto, no caso de Nietzsche, por uma série de especificidades de sua vida que talvez não seja despropositado especular que remetem à primeira infância. O pai do pequeno Fritz Nietzsche, pastor protestante, homem-de-fé bastante firme, pregador do evangelho de Lutero, quando é subitamente fulminado por uma morte precoce aos 36 anos de idade, possivelmente deixou em seu primogênito estranhas dúvidas sobre a Bondade, a Generosidade e a Justiça que eram atribuídos nos sermões ao “Criador de Todas as Coisas”.

Que Deus estranho, este, que fulmina um de seus mais devotados servidores! Um Deus fulminador de padres, que não lhes cura as doenças quando eles rezam a ele por horas, por semanas, pela vida inteira! O quanto questões desse tipo devem ter acometido, em seu luto e em sua incompreensão, essa criança órfã-de-pai que cresceria para se tornar o filósofo da “morte de Deus”, isso deixo a vocês imaginar…

Um dos interesses maiores da obra de Chestov é que ele se interessa por combater a idéia, que encontramos em Tolstói e muitos outros autores da tradição judaico-cristã, de que a descrença é causada por uma “má vontade”, quer dizer, uma vontade . Como se qualquer um tivesse a plena liberdade de crer ou não crer, e aqueles que se descobrem como incapazes de fé seriam necessariamente reprovados no exame e considerados malvados. O problema com este exame, é claro, é que ele foi criado pelos crentes para aprovarem a si mesmos! E assim, criando para si um clubinho fechado que excomunga aquele que não comunga na crença, surge este perigoso fenômeno do sectarismo e todo seu séquito de intolerâncias e perseguições, excomunhões e inquisições. Pois na maior parte das vezes o clubinho que se acha o dono da verdade  se torna imperialista e quer converter o mundo inteiro.

Grande parte da obra de Voltaire debruça-se sobre este tema, eminentemente político, da religião em operação sobre o palco da História quando, em sua pretensão de universalidade, tenta impor-se de modo imperialista sobre as outras seitas e sobre todas as diversidades de descrentes. O sangue que correu por causa disso é tão imensurável que beira o infinito.

Já Zaratustra, que no Ecce Homo é sublinhado de modo insistente por Nietzsche como não sendo nada parecido com um fundador de religião, diz a seus discípulos, a certo momento: “vocês não haviam ainda encontrado a si mesmos e então me encontraram. Assim fazem todos os crentes… Hoje, ordeno-vos que me percam e que vos encontrem!” (“Da Virtude Que Doa”) Zaratustra recomenda que eles percam a fé nesta figura de autoridade que ele mesmo, Zaratustra, se transformou diante dos seguidores, que pensem por si mesmos, que não sejam papagaios do mestre, e que só retornem depois de terem se encontrado…

nietzsche2

PARTE III

“Pour satisfaire la curiosité provenant de l’étonnement,
est-il si indispensable de trouver la verité?”

LÉON CHESTOV

 Se a filosofia nasce do espanto, e se este acirra a curiosidade humana, isto significa que devemos aspirar a uma Verdade que nos retire desta condição de estarrecidos buscadores de respostas para nossos enigmas? Em outras palavras: a Verdade é algo pra se achar e se guardar num cofre (ou num livro), ou simplesmente algo pra se procurar, interminavelmente? Como a Utopia para Galeano, que se afasta 10 passos a cada 5 passos avante que damos, será a Verdade isso que fica sempre no Horizonte, seduzindo o desejo e nos servindo para que caminhemos?

Pobres daqueles que, por terem concluído que já a conhecem, cessaram de busca-la! Não será o filósofo um perpétuo espantado, sempre sedento por alimento para suas miríades de dúvidas e desassossegos? Um curioso insaciável, que não se cansa de questionar suas próprias respostas e multiplicar suas próprias perguntas? O filósofo: aquele que, para cada resposta que encontra, formula 10 novas perguntas…

A crença que alguém possui de ter descoberto a Verdade, de estar em sua posse, eis o que poderíamos chamar de dogmatismo. Aquilo que os dogmáticos sacrificam no altar da certeza é nada menos que a ânsia visceral de onde emerge a filosofia: o espanto, a dúvida, a curiosidade nascida da ignorância. Estabelecer-se na crença de que a verdade já está descoberta e é possuída, cessando assim de questionar as respostas dadas, desistindo de inquirir se as perguntas não estavam mal colocadas ou eram absurdas, procurar o descanso do pensamento na cômoda cama das convicções imutáveis: eis o que assassina o livre-pensamento e faz do filósofo um dogmático papagaio de certezas imutáveis.

Segundo o retrato que Lou-Salomé pinta de Nietzsche no lindo livro que publica em 1894 sobre seu metamórfico e desassossegado amigo, o bigodudo Fritz tinha uma personalidade radicalmente anti-dogmática, como o prova reiteradas vezes a obra deste martelador de convicções e certezas, deste grande “mestre da suspeita”:

“A mudança de opinião, a obrigação de se transformar, encontram-se tão profundamente ancorados no coração da filosofia nietzschiana e são eminentemente característicos de seus métodos de investigação. (…) Sua estranha necessidade de metamorfose, no domínio do conhecimento filosófico, provinha do desejo insaciável de renovar sem cessar suas emoções intelectuais. É por isso que a clareza perfeita não era, a seus olhos, senão um sintoma de saciedade e extenuação. (…) Para Nietzsche, uma solução encontrada não era jamais um fim, mas ao contrário o sinal de uma mudança de perspectiva que o obrigava a contemplar o problema sob um ângulo novo, a fim de lhe encontrar uma nova solução. (…) Nietzsche não admitia que um problema, qualquer que ele fosse, comportasse uma solução definitiva.”[1]

A relação de Nietzsche com a verdade, portanto, é também marcada pela suspeita: ele é precavido em relação a qualquer convicção que pretenda ao status glorioso de verdade; toda solução encontrada é atravessada pelo crivo da dúvida, analisada sob outras perspectivas, compreendida não como um ponto de repouso mas como uma stepping stone que conduz a renovadas reflexões.

 Uma atitude “idealista”, como aponta Chestov, seria a de um “homem que acredita que todas as suas dúvidas, todas as suas questões, todas as suas pesquisas não são nada além de questão de tempo. Todos estes problemas já encontraram faz tempo uma solução definitiva e excelente.” (pg. 36) Um exemplo por ele citado é a tese de Hegel de que “o real é razoável”, ou seja, o credo otimista de que “deveríamos nos representar a vida como respondendo plenamente às exigências da razão” (idem, pg. 38). Crer que a verdade já foi descoberta no passado e que basta se apossar dela através do intelecto; julgar que o real é integralmente compreensível pela razão e explicável em sua inteireza por meio de idéias; e, além do mais, “ter fé no futuro feliz”, como se o progresso fosse obrigatório e estivesse ontologicamente ancorado no seio da História… eis alguns das tomadas de posição, dos parti pris, daqueles que Nietzsche considera seus antípodas.

 Caberia então uma classificação dos pensadores em duas grandes categorias, a dos céticos e a dos dogmáticos? Seria um simplismo desaconselhável instaurar mais um dualismo (como se a filosofia não estivesse já o suficiente atolada em dualismos e maniqueísmos!). Melhor dizer que há muitos pensadores que, “humanos demasiado humanos”, procuram através do pensamento se desembaraçar de suas dúvidas e encontrar um solo estável onde possam instalar-se com suas certezas: por exemplo, uma cátedra ou um púlpito, sobre o qual proclamar às massas ávidas as respostas prontas e certas que se traz na bandeja. Este não é, porém, o caminho dos espíritos livres que Nietzsche descreve como intrépidos experimentadores, inimigos da fixidez, avessos a dogmas, suspeitosos de todos os sistemas, metamórficos e oni-questionantes.


[1] ANDREAS-SALOMÉ, L. Nietzsche À Travers Ses Ouvres. Paris: Grasset, 1992. Pgs. 49 e 84.  No original : “Le changement d’opinion, l’obligation de se transformer se trouvent ainsi profondément ancrés au coeur de la philosophie nietzschéenne, et sont éminemment caractéristiques de ses méthodes d’investigation. (…) Son étrange besoin de métamorphose, dans le domaine de la connaissance philosophique, provenait du désir insatiable de renouveler sans cesse ses émotions intellectuelles. C’est pourquoi la clarté parfaite n’était, à ses yeux, qu’un symptôme de satiété et d’exténuation. (…) Pour Nietzsche, une solution trouvée n’était jamais une fin, mais au contraire le signal d’un changement de point de vue qui l’obligeait à envisager le problème sous un angle nouveau, afin de lui apporter une solution nouvelle. (…) Nietzsche n’admettait pas qu’un problème quel qu’il fût comportât une solution définitive.”

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA PRINCIPAL:

CHESTOV, L. L’Idée Du Bien Chez Tolstoi et Nietzsche. Paris, 1949, Editora J. Vrin.

A JORNADA DO DESESPERO À BEATITUDE NA ÉTICA DE ANDRÉ COMTE-SPONVILLE

A JORNADA DO DESESPERO À BEATITUDE
NA ÉTICA DE ANDRÉ COMTE-SPONVILLE

“Pensa que cada dia é teu último dia, e aceitarás com gratidão aquele que não mais esperavas.”
HORÁCIO

“Por que não sair do banquete da vida como um conviva saciado?”
LUCRÉCIO

[ NO FUNDO DA CAIXA DE PANDORA ]

“Da caixa de Pandora, na qual fervilhavam os males da humanidade, os gregos fizeram sair a esperança em último lugar, por considerá-la o mais terrível de todos. Não conheço símbolo algum mais emocionante do que este.” É o que escreve o grande pensador franco-argelino Albert Camus (em seu livro Núpcias, pg. 35), um autor que soube cantar a beleza de uma vida lúcida e desesperada.

“Se deveras existe um pecado contra a vida”, complementa Camus, “talvez não seja tanto o de desesperar com ela, mas o de esperar por outra vida, furtando-se assim à implacável grandeza desta.” Estas palavras também poderiam ser consideradas também como uma bela expressão sintética da filosofia de vida de André Comte-Sponville. Pois neste trecho o mestre existencialista Camus é fidelíssimo ao “espírito do sponvillianismo”, que também considera a esperança um mal a ser superado e um obstáculo à nossa felicidade.

O materialismo filosófico de Comte-Sponville gera necessariamente, depois da queda das ilusões religiosas, uma inversão radical do estatuto da esperança, que cessa de ser vista como um valor (como é no cristianismo, em que aparece como uma das três “virtudes teologais”, junto com a fé e a caridade), passando pelo crivo de uma crítica que a desmascara como fonte de temor e infelicidade. Repleto de Philia (amizade) por filósofos como Epicuro, Lucrécio, Montaigne e Spinoza, André Comte-Sponville revitaliza no pensamento contemporâneo uma tradição de pensamento que vê como sua missão a desmistificação e procura nos ajudar a realizar uma jornada ética curiosa, excêntrica, na qual aparecem vinculados o desespero e a beatitude. Felizes são os que não tem esperança!

A esperança, para Sponville, é apenas uma das modalidades do desejo, uma das maneiras de ser da vontade humana: a esperança exemplifica o desejo como falta, o desejo por um objeto cuja ausência no presente temporal é sentida como sofrimento. A noção de que o desejo é um sofrimento, já que queremos o que não temos, aparece, com variações, em pensadores tão diferentes quanto Platão, Buda e Schopenhauer. Segundo Comte-Sponville: “O que é a esperança? É um desejo que se refere ao que não temos (uma falta), que ignoramos se foi ou será satisfeito, enfim cuja satisfação não depende de nós” (F.D., 58). Donde a definição clássica e sintética: “esperar é desejar sem gozar, sem saber, sem poder”.

“Só esperamos o que não temos, e por isso mesmo somos tanto menos felizes quando mais esperamos ser felizes. Estamos constantemente separados da felicidade pela própria esperança que a busca. A partir do momento em que esperamos a felicidade (“Como eu seria feliz se…”), não podemos escapar da decepção… É o que Woody Allen resume numa fórmula: “Como eu seria feliz se fosse feliz!” (F.D., p. 37).


Sabe-se que Dante pôs na entrada do seu Inferno, na Divina Comédia, a seguinte inscrição: “Abandonai toda a esperança, vós que entrais!” Sponville, ao contrário, considera que quem está no inferno é quem mais  inebria-se de esperanças. “Colocar essa frase na porta do inferno é inútil. Como querer que os danados não tenham esperança?”, provoca (F.D., 71). Pois a esperança é um desejo que surge de um solo de impotência, de ignorância, de insatisfação, e conduz em quase todos os casos ao desencanto, ao tédio, à “alienação” em relação ao real/concreto (ou seja, ao que existe). Sem falar que toda esperança é mãe de um medo, e o medo, para Spinoza e Sponville, é uma tristeza, algo que diminui nossa potência de existir. Como haveria paz interna – ou seja: sábia ataraxia – se não cessamos de cair no tumulto labiríntico das esperanças e dos temores? E uma não existe sem a outra: “não há esperança sem temor”, como define Spinoza (Ética III, def. 13 das afeições).

Lembrem-se do que diz a canção de Geraldo Vandré, “Pra Não Dizer Que Não Falei de Flores”: “Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”. Pois quem sabe e pode, age; quem ignora e não pode… espera e reza. E quem espera não goza: teme e sofre. Também aí, neste clássico da MPB, vêm implícita a idéia de que em tempos de opressão política, como foi no pós-1964 no Brasil,o povo nada ganha ficando sentado em casa, com vagas esperanças utópicas de melhoras, mas deve sair às ruas, desfraldar bandeiras, pôr bocas em trombones, já que a ação e a intervenção, o protesto e a batalha, o fazer acontecer e o gerar-o-novo, são o que conta e faz a diferença, não a esperança (palavra que, não à toa, traz a “espera” em seu bojo…). Viver não é esperar.

O sábio, pois, não espera nada: vive no presente, impulsionado pela força alegre de seu desejo, preferindo sempre a ação à espera, a intervenção ativa à reza, o amor à carência, sem temores nem desencantos.

LE_SEXE_NI_LA_MORT_couv_Mise en page 1

“Como esperar é desejar sem saber, sem poder, sem gozar, o sábio não espera nada. Não que ele saiba tudo (ninguém sabe tudo), nem que possa tudo (ele não é Deus), nem mesmo que ele seja só prazer (o sábio, como qualquer um, pode ter uma dor de dente), mas porque ele cessou de desejar outra coisa além do que sabe, ou do que pode, ou do que goza. Ele não deseja mais que o real, de que faz parte, e esse desejo, sempre satisfeito – já que o real, por definição, nunca falta: o real nunca está ausente -, esse desejo pois, sempre satisfeito, é então uma alegria plena, que não carece de nada. É o que se chama felicidade. É também o que se chama amor.” (COMTE-SPONVILLE, A Felicidade Desesperadamente, p. 76)

[ SÍSIFO FELIZ ]

Em sua obra, Sponville tenta uma reelaboração do mito de Sísifo que, depois de ter passado pelo prisma existencialista de Camus, torna-se, em seu Tratado do Desespero e da Beatitude, um “símbolo da esperança”. Para Sponville, não há cena mítica que melhor indique os padecimentos causados pela esperança: arrastamos rochedos pesadíssimos para cima de topos de montanhas de onde eles, sempre, fatalmente despencam – e sempre recomeçamos o mesmo vão trabalho…

“O rochedo é a própria esperança” (TDB, 28), arrisca Sponville; são elas os pedregulhos que arrastamos colina acima, e que sempre acabam no despencamento do desencanto, da saciedade insatisfeita, do tédio… “Isso é que é o absurdo, e triste, e trágico: o peso sempre de nossos desejos insatisfeitos e temores vãos.”

Aqui, a palavra “absurdo” é pra ser tomada a sério: o “absurdo”, que Camus dizia ser a essência da condição humana, provinha, segundo este, dum “desacordo” ou “desarmonia” entre nossa psique e o “mundo”. Nós, famintos por sentido; ele, mundo, silencioso, indiferente e a-linguístico. Como não se abriria um abismo?

Mas Camus, que neste ponto é mais pessimista que Sponville, achava que havia uma fratura irrecuperável, um abismo intransponível, separando a “fome de sentido” humana e a indiferença absoluta do mundo. Isto é o Absurdo – essa relação desarmônica entre o desejo humano e o “cosmos”. “Este mundo não é razoável em si mesmo, eis tudo o que se pode dizer”, afirmava o mestre existencialista. “Porém o mais absurdo é o confronto entre o irracional e o desejo desvairado de clareza cujo apelo ressoa no mais profundo do homem. O absurdo depende tanto do homem quanto do mundo. Por ora, é o único laço entre os dois.” (O MITO DE SÍSIFO, p. 35).

Estamos perdidos: pedimos e suplicamos do “mundo” o que ele não tem para nos dar – sentido, calor, diálogo, amor… A razão humana, epifenômeno raro nascido em uma espécie dentre milhões de espécies vivas, emerge no seio de um planeta indiferente, inconsciente, amoral. Em uma palavra: a razão humana está diante de um Irracional de uma imensidão absolutamente incontornável. “O homem se encontra diante do irracional. Sente em si o desejo de felicidade e de razão. O absurdo nasce desse confronto entre o apelo humano e o silêncio irracional do mundo.” (M.d.S., p. 41) Por isso, pesa sobre tantos homens a condenação a angustiar-se, se podem enxergar bem a verdade sobre nossa condição: “a angústia é o ambiente perpétuo do homem lúcido…” (M.d.S., p. 37). Este Absurdo, para ele, só pode “resolver-se” na Revolta: é para ela que devemos tender.

Já Sponville não fala em revolta, mas, se falasse, diria provavelmente: se for pra se revoltar contra algo, que seja contra as esperanças, e não exatamente contra o absurdo! Pois matar as esperanças é o mesmo que matar o absurdo. O absurdo só vive uma existência derivada e secundária, dependente das esperanças. É somente porque esperamos que o mundo e a vida tenham sentido que somos tomados pela sensação de absurdidade quando os fatos crus negam nossos desejos. Quando não mais espera-se que o mundo tenha sentido, o fato dele não ter nenhum deixa de parecer absurdo – passa a ser unicamente verdadeiro.

Aceitar que o mundo e a vida não tenham nenhum sentido que transcenda o homem, que há um “vácuo objetivo de sentido” no cerne do ser, que o próprio ser talvez seja completamente sem-sentido e cheio somente de sua própria existência, traz uma inesperada plenitude. Vivemos então “na plenitude que a justa percepção de sua vacuidade nos proporciona…”, como escreve lindamente Sponville (TDB, 31). É também o espírito do budismo, como Lévi-Strauss o descreve: “Não há além para o budismo; nele, tudo se reduz a uma crítica radical (…) ao cabo da qual o sábio desemboca numa recusa do sentido das coisas e dos seres…” (LÉVI-STRAUSS, Tristes Trópicos, p. 475).

A fome de sentido é o que nos dana. É dela que precisamos nos libertar. Precisamos aprender a viver em paz, ainda que a vida não tenha sentido, ainda que o céu não exista. No silêncio da verdade. Na serenidade. Sim: trata-se de renunciar. Pode parecer estranho que apareça por aqui esta necessidade de renúncia, tão associada às religiões e aos conselhos-de-vida que estas costumam dar a seus devotos… Mas as religiões renunciam ao mundo… Já aqui, trata-se de renunciar justamente à religião e agarrar-se com amor desesperado ao mundo! Sim: não haverá felicidade sem renúncia. Mas esta renúncia é uma renúncia das esperanças ilusórias que nos impedem o caminho para a felicidade real, sendo a religião só mais uma dentre tantas forças ideológicas que nos entulham a mente com ilusões e nos aprisionam ao Samsara.

Camus, de seu modo, chegou a conclusões semelhantes. O homem, percebendo a absurdidade de sua condição, não deve “saltar” para ao abraço das ilusórias consolações oferecidas pela cultura; nem deve entulhar sua cabeça com contos-de-fada agradáveis. O essencial do “método” camusiano é recusar a salvação, aferrar-se à sua lucidez, manter os olhos abertos até o fim – o que ele chama, lindamente, de “viver sem apelação”:

222

“Insistamos de novo no método: trata-se de obstinação. Em certo ponto do seu caminho, o homem absurdo é solicitado. Na história não faltam religiões nem profetas, mesmo sem deuses. Pedem-lhe para saltar. Tudo o que ele pode responder é que não entende bem, que isso não é coisa evidente. Só quer fazer, justamente, aquilo que entende bem. Afirmam que aquilo é pecado de orgulho, mas ele não entende a noção de pecado; talvez o inferno esteja ao final, mas ele não tem imaginação suficiente para vislumbrar esse estranho futuro; talvez perca a vida imortal, mas isso lhe parece fútil. Querem que reconheça sua culpa. Ele se sente inocente. Na verdade, só sente isto, sua inocência irreparável. É ela que lhe permite tudo. Assim, o que ele exige de si mesmo é viver somente com o que sabe, arranjar-se com o que é e não admitir nada que não seja certo. Respondem-lhe que nada é certo. Mas isto, pelo menos, é uma certeza. É com ela que tem que lidar: quer saber se é possível viver sem apelação.” (O HOMEM REVOLTADO, p. 65)

Sísifo só seria feliz se não tivesse esperança alguma. É o que Sponville resume numa fórmula quase cruel: melhor não arrastar rocha alguma, como escravo dos deuses, e ficar ao pé da montanha fumando o cigarro do condenado. Que é a própria vida. Resignação e apatia? Pelo contrário! Desfrute intenso de um bem temporário, no presente, o único tempo que existe, em seu dinamismo sempiterno, que nos arrasta em sua correnteza, mas no qual podemos nadar, dizendo sim e evoé, prazenteiramente colhendo os doces frutos de uma vida bem vivida.

De certo modo, trata-se sim de uma vitória da sobriedade sobre a embriaguez, e da razão lúcida sobre a paixão descontrolada, mas de modo diverso do tradicional logocentrismo falocêntrico hegemônico na filosofia ocidental, de Platão a Descartes, de Bacon a Hegel… Trata-se, sim, de “moderação dos desejos”, do “princípio de realidade” vencendo o “princípio de prazer” (Freud), de um trabalho sobre a vontade que tenta “ensiná-la” a não desejar erroneamente – e ter esperanças é, pura e simplesmente, o “jeito” errado de desejar. É este o ponto: esperanças são desejos humanos que conduzem ao temor e ao sofrimento; somente por isso estão sendo criticadas, e não porque o filósofo deseja pisotear nas flores vivas e fazer com que o homem viva na lama do desconsolo e da agonia, sem auxílio algum das consolações… É como diz Marx: “A crítica arrancou as flores imaginárias que enfeitavam as cadeias, não para que o homem use as cadeias sem qualquer fantasia ou consolação, mas que se liberte das cadeias e apanhe a flor viva…”

Marx 1867

“A angústia religiosa é ao mesmo tempo a expressão de uma angústia real e o protesto contra ela. A religião é o suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração, tal como é o espírito de uma situação não espiritual. É o ópio do povo. A abolição da religião como a felicidade ilusória do povo é necessária para sua felicidade real. O apelo para que abandonem as ilusões sobre sua condição é o apelo para abandonarem uma condição que necessita de ilusões. A crítica da religião é, portanto, em embrião, a crítica do vale das dores, cuja auréola é a religião. A crítica arrancou as flores imaginárias que enfeitavam as cadeias, não para que o homem use as cadeias sem qualquer fantasia ou consolação, mas que se liberte das cadeias e apanhe a flor viva. A crítica da religião desaponta o homem com o fito de fazê-lo pensar, agir, criar sua realidade como um homem desapontado que recobrou a razão, a fim de girar em torno de si mesmo e, portanto, de seu verdadeiro sol. A opressão deve ainda tornar-se mais opressiva pelo fato de se despertar a consciência da opressão e a ignomínia tem ainda de tornar-se mais ignominiosa pelo fato de ser trazida à luz pública. (…) É preciso fazer com que dancem as relações sociais petrificadas fazendo-as ouvir sua própria melodia! O povo deve ter horror de si mesmo, a fim de que ganhe coragem. (…) É certo que a arma da crítica não pode substituir a crítica das armas, que a força material tem de ser derrubada pela força material, mas a teoria converte-se em força material quando penetra nas massas. A prova evidente do radicalismo da teoria alemã, e deste modo a sua energia prática, é o fato de começar pela decisiva superação positiva da religião. A crítica da religião culmina na doutrina de que o homem é o ser supremo para o homem. Culmina, por conseguinte, no imperativo categórico de derrubar todas as condições em que o homem aparece como um ser degradado, escravizado, abandonado, desprezível.”
 [KARL MARX. Crítica à Filosofia do Direito de Hegel. Introdução, p. 145-146, 148, 151; como citado por LÚKACS em O Jovem Marx e Outros Escritos de Filosofia, p. 173-174, ed. UFRJ.]

* * * * *

Lennon

[O SAMSARA DA ESPERANÇA FAZ-SE O NIRVANA DO DESESPERO]

Quando a esperança bate em seu nível zero, uma espécie de “momento místico” acontece; e, ao contrário do que possam pensar os crentes, é um momento exuberante, cheio de vida e energia, em que nos sentimos mais vivos do que jamais antes. Curioso instante em que um umbral é transposto, um portal é atravessado, um extremo torna-se seu oposto… “O desespero se inverte em ataraxia”, resume Sponville. (T.D.B., 28) A felicidade é para ser pescada no fundo-do-poço. Haverá felicidade quando toda esperança morrer. Pois a vida é bem mais forte do que a esperança; e são nossas esperanças as principais vilãs que nos separam e nos alienam da vida. Desesperar é viver.

Queres pouco: terás muito.
Queres nada: serás livre.

(FERNANDO PESSOA)

O desespero é o meio desta libertação. É quase budismo: aniquilação completa do Samsara da esperança. Pois os homens “giram a esmo na prisão de seus desejos” (TDB, 30), e isso é o Samsara. Como Buda dizia: “O homem apega-se apaixonadamente a sombras: inebria-se de sonhos, planta no meio um falso Eu e estabelece à roda um mundo imaginário”. (PERCHERON, MAURICE. Buda e o Budismo, p. 41).

A esperança nos encerra no Samsara: não existe esperança no Nirvana. E não seria exato dizer que quando “entramos” no Nirvana a esperança some. Não: a esperança precisa sumir para que possamos entrar no Nirvana. É uma necessidade sine qua non para a iluminação: que o esperançar tenha se silenciado; não no silêncio da depressão ou da apatia, mas no silêncio da plenitude, da escuta e da contemplação.

Heresia das grandes: “a única salvação está em renunciar à salvação” (T.D.B, 29). Frase suficiente para que Sponville tivesse ido parar na fogueira da Inquisição, se tivesse vivido séculos atrás. Pois o que se afirma é: os crentes jamais salvarão suas almas através da esperança. Não há alma a salvar, nem céu a se conquistar. Toda a idéia de “salvação” não passou de um embuste… Só se chega à felicidade quando se percebe que o céu não existe e que é inútil esperá-lo; e, que se for pra ser em algum lugar, só poderá ser aqui – se o pudermos construir.

“O nirvana não é outro mundo, que viria justificar este, dar-lhe um sentido, santificar ou superar suas ilusões. Nem paraíso, nem justificação, nem santificação. O mundo é o mundo, nada mais, e o céu é vazio. Não há deuses, ou nada a esperar deles. Então?… Então a salvação é esse vazio mesmo, a compreensão da ilusão, a aceitação do contra-senso – o desespero. O nirvana não é, portanto, o contrário do samsara: “Enquanto o nirvana for encarado como algo diferente do samsara, ainda será necessário superar o erro mais elementar relativo à existência (Nagarjuna)…”. (TDB, 30-31)

Nada mais ilusório, pois, do que pensar em Nirvana e Samsara separados espacialmente, como se fossem duas cidades separadas por uma fronteira, ou duas margens de um rio atravessáveis por uma ponte. Na verdade, é a “atitude interna” o que muda, um novo olhar/perspectiva se estabelece. Não se vai ao Nirvana a pé. Nem de carro ou avião. Ao Nirvana “vai-se” sem mexer um músculo. Pois trata-se de uma modificação de consciência. Uma “purificação” de consciência. Uma pacificação, serenização, ataraxia desta consciência, antes presa do carrossel das esperanças e dos temores. Ver o mundo através do vidro impuro da esperança é enxergá-lo mal, como se olhássemos por um material semi-opaco, delirante, de pouca transparência…

O que temíamos que nos esmagaria como a pior das mais terríveis notícias – o mundo não tem sentido! O céu está vazio! Não há o que esperar dos deuses! – acaba (surpresa!) sendo nosso maior tesouro. O desespero, que temíamos, nos liberta de todo temor. Descobrimos que, se éramos medrosos, era porque esperávamos. Espero a carta chegar, e enquanto ela não vem sofro, importuno o carteiro, tenho tremendas insônias… A carta chega e com ela cessa a espera, eu des-espero: alegria, alívio, estou livre de um rochedo!

Há “novidade”, pois, nesta “lição de desespero” sponvilliana? Decerto que não! E ele não pretende ser original: de certo modo, segue nos passos de Buda, Epicuro, Spinoza, Marx e Freud… Que a esperança seja uma praga existencial é uma descoberta ancestral. “Não esperai nada dos deuses implacáveis. Esperai tudo de vós mesmos” (PERCHERON, p.34-35): palavras de Buda, mais de 2 mil anos atrás… “As noites serenas são as noites sem esperança”, escreve Sêneca, também milênios lá longe…

A sabedoria, pois, exige uma renúncia suprema: de toda esperança. “A sabedoria é a inversão do desespero, e seu apogeu” (TDB, 33). Quando o desespero chega ao seu ápice, ou seja, quando não há mais esperança alguma, é aí que a sabedoria, o nirvana, a ataraxia nascem.

A felicidade é uma hóspede que, chegando em nosso hotel, exige um quarto vago. E ela é bem específica em suas demandas: diz que só fica se for no quarto hoje ocupado pelas esperanças, aquelas pragas. Diz a felicidade, a quem sabe ouvi-la: “expulse todas as danadas do quarto, estas ervas daninhas, que juro que me instalo, mesmo que seja só por meia-diária, uns minutos, um pisco…”. É preciso abrir no peito um ninho vazio onde o pássaro da felicidade seja convidado a se pousar. O desespero é quem trabalha nesta obra: abre “o espaço livre” que a beatitude precisa para nascer.

Por isso Sponville não diria que nosso tempo histórico, o “clima espiritual de nossa época”, é dominado pelo “desespero”. O nosso tempo é do desencanto, da decepção. O desespero seria a superação deste mesmo desencanto; pois todo desencanto é a queda de uma esperança. Notem na própria palavra: é preciso que se esteja encantado para que o desencanto sobrevenha… Não se desenfeitiça quem não foi enfeitiçado; mas quase todos perdemos nossas vidas enfeitiçados pela esperança e pelo desencanto. São nossas vidas: quereres e frustrações, desejos sem fim e infindáveis tédios… Samsara. Como escapar a este labirinto? Não há medicina alguma além desta: doses colossais de desespero. É preciso descer até o fundo do poço. Estranha terapêutica, que de certo modo recomenda aos deprimidos e melancólicos que continuem descendo… Haverá uma estrela brilhante no fundo do poço escuro…

Budfha

[ A QUEDA DE VOSSA MAJESTADE, O EU ]

Em Sponville vacila também o “cogito” cartesiano, suposta base solidíssima para toda a filosofia de Descartes. Este “eu” que se pôs no alicerce de tudo, como certeza primeira, existirá de fato? Ou só existe esta “multiplicidade vaga e como que fantasmática de suas aparições”? (TDB, 44). O eu, em Sponville, pára de ser visto como uma unidade estável, e passa a ser enxergado como um processo metamórfico. Crer na estabilidade do eu, pois, é nutrir uma crença profundamente ilusória. O eu é um rio que corre, sempre, e que não se pode congelar. Tal concepção vêm de muito longe na história: do atomismo de Epicuro/Lucrécio/Demócrito, de Heráclito, das filosofias “místicas” orientais (hinduísmo, budismo etc.), chegando até Nietzsche e grande parte da filosofia do século 20. Não resta nada do sujeito senão sua “ilusão de si”. Desespero: não há mais Deus nem sujeito.

Para o budismo, por exemplo, não há “eu” – ou seja, bem antes de Nietzsche e toda a filosofia contemporânea, Buda já tinha decretado a “morte do sujeito”. “Só há agregados, isto é, combinações fugidias cuja aparente continuidade é apenas ilusória”, explica Sponville. (TDB, 47). Processo, metamorfose, agregado, dança de átomos… não há mais “eu”. Contra a presunçosa tese metafísica dos monoteísmos, que garantem que há algo em nós, o “espírito”, que é imortal, imutável, indestrutível, fixo, Buda diria: “o que chamais de espírito se produz e se dispersa numa mudança perpétua… se forma e se dissolve sem cessar…” (PERCHERON, Maurice. Buda e o Budismo, Seuil, p. 58). O cosmo é uma imensa praia de areia movediça. “…não há nada permanente, eterno e sem mudança na totalidade da existência universal…” (WALPOLA RAHULA, p. 93). “O homem não passa de um composto impermanente num oceano de impermanência” (TDB, 49), resume Sponville.

Isso que chamamos de “identidade”, pois, entendendo por isso uma estabilidade da personalidade, algo que “continuamos a ser” através das idades da vida, desde o primeiro choro até o último suspiro, por todas as curvas e ladeiras e morros do tempo, não passa de uma ilusão. Se formos sábios, descobriremos que o amor não é uma questão de esperar que os outros admirem nosso “eu”, que não passa de fumaça e correnteza, vaidade das vaidades, mas sim de agir em nome da alegria e da potência de existir, batalhar pela felicidade alheia, dando o “eu” em hecatombe, como combustível para este incêndio maior (tão maior!)… O amor é uma ação, uma potência, uma força – e não um desejo de ganho. Pobre de Narciso, “que só ama reflexos e miragens, que só ama inapreensíveis jogos na água, e frágeis, e cambiantes, da luz…” (TDB, p. 55).

A única coisa eterna é a mudança. A fugacidade é só o que há de perene. A eternidade não é uma estátua: é uma eterna correnteza, que corre e corre sem se cansar… E por isso o tal do “eu” não passa de uma quimera, que o budismo tão bem soube desmascarar:

“…aquilo que nós chamamos de Eu não passa de uma abstração da memória e não representa senão lembranças registradas – o que contribui para dar uma impressão falaciosa de continuidade. O único Ego genuíno é o do momento dado, pois se concentra na experiência imediata. A dualidade dolorosa aparece quando o indivíduo tenta a cada instante pôr em ação um Eu, de fato, inexistente. Pouco importa para o budista encarar a libertação de seu sofrimento como um objetivo futuro, pois a única coisa que conta realmente é a identidade do seu Eu e o pensamento presente. Seria um erro crer que esse aprisionamento do Eu e o caráter efêmero que ele reveste afastem toda possibilidade de modificar, de maneira geral, um ponto de vista do espírito, fortemente polarizado pelo momento atual: muito pelo contrário, a renúncia a um falso Eu é libertadora, uma vez que o pensamento do instante presente não se entregue a interpretações errôneas.” (PERCHERON, M. BUda e o Budismo, p. 63)

[ CONHECE-TE A TI MESMO: DISSOLVE TEU EU… ]

O “eu” é somente uma ilusão a superar, pois, e o modo para esta superação não é outro senão o velho imperativo do oráculo-de-Delfos: “conhece-te a ti mesmo”. O auto-conhecimento, ao contrário do que pensam os ingênuos e os otimistas, não nos dá, quando consumado e bem-sucedido, a felicidade de “sermos donos de nosso próprio eu”. Não: o auto-conhecimento dilui este mesmo “eu” que ele, pensando conhecer, só consegue “dissolver”…

E o auto-conhecimento não passa, também, de processo. E processo vitalício. Não é possível “estacionar” num conhecimento “seguro” e “imutável” sobre o tal do “eu”. E é porque ele não existe “parado”: o que chamamos de eu é algo que corre… Como na célebre parábola de Heráclito: não se banha duas vezes no mesmo rio, tanto porque as águas não são mais as mesmas, tanto porque o “eu” que se refresca já é outro… O eu corre, está sempre correndo. O eu não sabe ficar sentado; é criança traquinas que não sossega o facho… Como “conhecer”, pois, um moleque endiabrado que fica correndo pela casa?

O auto-conhecimento, se conduz ao contentamento e à serenidade, se é a jornada essencial para “atingir” a sabedoria, é muito mais pelo efeito dissolvente que ele possui. Ele destrói mais do que fabrica: destrói ilusões, quimeras, esperanças, temores, fantasias, paranóias, neuras… O próprio Freud certamente assinaria embaixo desta tese, tão simples e tão comprovadamente verdadeira: o auto-conhecimento é terapêutico. Mas se é terapêutico, é pelos males que ele dissolve mais do que pelo “conhecimento positivo” que ele possibilita – aí está. E não é terapêutico porque nos dá a “posse” de nosso próprio “eu” – não há eu a possuir, só ilusões a dissolver. E querer possuir um eu – imutável, idêntico no nascimento e na morte, que não flui nem se modifica – é a ilusão essencial. Quem embarca nesta viagem de auto-descobrimento com tais ímpetos colonizadores (“apossar-se do eu”…) periga naufragar no meio do Atlântico, como um Cabral que não descobre a América…

O oráculo de Delfos nos deu uma missão que talvez seja, no fundo, irrealizável (mas que não é, por isso, menos crucial e de suma importância). Não porque não haja níveis de “auto-conhecimento”: com certeza existem pessoas extremamente iludidas sobre si mesmas, que se tomam por uma imagem distorcida que fabricaram de sua “identidade”, e outras que parecem possuir uma extrema lucidez, uma capacidade límpida para perceberem-se e aceitarem-se como são. O que é impossível é que o auto-conhecimento “pare”, estacione, se conclua. Esta não é uma jornada com uma recompensa que se possa possuir, como é no caso de um mergulhador que desce ao navio naufragado e emerge com um baú de tesouros. Não há eu: não há no fundo de nós, escondido lá nos breus das funduras, nenhum “eu” que seja o nosso pote-de-ouro no fim-do-arco-íris. Conhecer-se, de verdade, é perceber-se como um mutante, e abdicar de qualquer esperança de estabilidade…

“Loucura de Narciso: querer possuir um eu que não existe”, escreve Sponville (TDB, 92). “A sabedoria é renunciar à posse.” Não estamos falando somente de posses materiais, claro, mas sim deste desejo de “ser dono de si mesmo” – desejo ilusório, esperança miserável, que não passa de uma fantasia utópica. Como naquela música dos Los Hermanos, que encerra o Ventura, onde o Marcelo Camelo canta (com infinita melancolia) sua fantasia de que, no “final” (um “final” que ele, claro, projeta num futuro distante, num mitológico tempo cósmico onde se tornará carne o happy end)…

…vou ser coroado rei de mim.

Mas ninguém se torna “rei do seu próprio eu”, na verdade, pois esse “eu” (substancial) não existe. Somos um corpo, decerto, mas não um corpo que “tem um eu”. Se dissermos que cada um de nós é um corpo que tem “vários eus”, já estaremos um pouco mais próximos da verdade. “O eu é um outro”, dizia Rimbaud, talvez querendo dizer que a estranheza consigo mesmo era tamanha que seu “eu” soava como um estranho, um desconhecido bizarro… Mas para sermos fiéis ao espírito do sponvillianismo, teríamos que dizer algo esquisito como: “o eu é todo um monte de gente!”. Parece coisa de criança… mas quem disse que as crianças não tem lá sua sabedoria? E, se o “eu” é “um monte de gente”, ora bolas, por que o chamamos de “eu” e não de “nós”? Por que acreditamos numa “identidade”?

A gente é um monte de gente…

“…só terei alegria, em minha relação comigo mesmo (ou com o que vivo como tal), se souber amar aquilo em mim que não é eu, aquilo em mim que não é um indivíduo, não é um sujeito, não é uma coisa: aquilo… esse jogo de forças e desejos, essa potência em mim de gozar e de pensar, essa força de existir, isto é, de viver e de agir, que Spinoza chamava conatus ou desejo. Ou seja: a natureza em mim viva (Vênus Volupta), de que não sou, e nunca serei, mais que uma parte. Bem tolo é o egoísta, que toma essa parte por um todo. E bem infeliz: pois ela morre. E sua vida é amarga como um sonho natimorto. É o sonho de Narciso, e o amargor de suas esperanças vãs… Ao invés disso, é necessário amar, não o eu, mas a natureza em mim (minha própria potência enquanto parte da potência da natureza), não o eu, mas a vida. Isso não se possui: a onda não se possui, nem o mar. Mas ser sábio, repitamos, é renunciar à posse.” (TDB, pg. 92)

A vida não se pode possuir. A vida não é algo que se tenha. Ninguém tem, da vida, nada senão uma “posse” precária, transitória, passageira, mortal. Uma posse que passa e se perde, não sabemos quando, e para todos, sem exceção. Da vida, um dia, seremos todos despossuídos. Pois então: possuímos de verdade aquilo que vai morrer? Ou tudo o que vai morrer nos está somente emprestado? Pois somos, para nós mesmos, aquilo que vai morrer: transitória carcaça de carne e nervos que arrastamos pelos dias, parcos e poucos, em que vivemos e lutamos, persistindo como podemos…

A “satisfação interior”, o “auto-contentamento”, a “ataraxia”, a “beatitude”, “a sabedoria”, só virá quando este complexo de ilusões que chamamos eu, na ilusória crença de sua unicidade e substancialidade, ruir e se desfazer. Sim: é como no budismo – o Nirvana é alcançado com a “extinção do eu”. Ou seja: da ilusão de que o eu existe. Estar iluminado é saber que o eu não existe.

* * * * *

“O Nascimento de Vênus”, de Botticelli

[ VIVER É DESEJAR, DESEJAR É VIVER ]

O eu não existe; mas a vida sim. O eu não existe; mas nossos corpos, sim. E nossos corpos, que carregam seus desejos e necessidades, que sentem prazer ou dor com certos e cert’outros contatos, têm uma força íntima, propulsora de tudo, que vive enquanto vivermos – exatamente o que chamamos conatus, desejo, libido. Viver é desejar. E só os mortos não desejam.

Não há eu imutável, não há identidade fixa, não há nada em nós que não flua na correnteza do tempo, junto com tudo o mais… Mas há os desejos.

O que não há é o “eu” que deseja, e que seria supostamente sempre o mesmo, apesar do carrossel de seus quereres. Só há o carrossel, sem piloto, sem botão de stop, e que só pára com a morte. Só no túmulo paramos de desejar. Por isso “a experiência do eu é a experiência do desejo. Anterior à consciência do eu no recém-nascido, mais ampla que esta no adulto, o desejo é a essência de nossa vida”, afirma Sponville. “Todos os nossos dias lhe são submetidos, e até nossas noites, como Freud mostrou, lhe obedecem.” (TDB, p. 63)

Somos, essencialmente, vontade de gozo. E isso, como diz o poeta, “nos faz ir onde quer que o prazer (voluptas) arraste cada um de nós” (LUCRÉCIO, II, 257.) Vênus é sempre um magnético sol em nosso horizonte: vamos em sua direção. E não há fim para a “constante marcha adiante do desejo”, nesta vida – a marcha só cessa quando cessa a vida. “O desejo, como o mar, é sempre recomeçado. Do mesmo modo que meu corpo não passa de composição, no espaço, de átomos perpetuamente móveis, assim também minha vida não passa da sucessão, no tempo, de desejos indefinidamente variados.” (TDB, p. 66)

Não se enganem, pois: dizer que não se deve querer a posse do “eu” não é o mesmo que apostar, como no niilismo de Schopenhauer, que é preciso negar toda a “vontade de viver”. Pelo contrário! Isto que chamamos de “vontade de viver” é pra ser afirmada, decerto! É o próprio conatus, e o conatus é todinho feito de desejo. “Não se trata de renunciar ao desejo”, frisa Sponville, neste ponto sendo fiel a Nieztsche. Nem é possível, no fundo, esta renúncia completa: somente no suicídio. Enquanto há vida, há conatus – mesmo no moribundo, há ali um resíduo desta força vital que persevera no ser, a despeito de tudo, de quaisquer argumentos e razões….

“Spinoza é o anti-Pascal: em vez de nos rebaixar pela denúncia, carregada de ódio, de nossa ‘miséria’, ele nos eleva pela consideração, cheia de alegria, de nossa potência.” (Sponville, T.D.B., 93) Pascal – que dizia que nada há de mais odioso que o eu – não conseguiu libertar-se dele (e é óbvio porquê: pois ficou prisioneiro do cristianismo). Já Spinoza, que alçou vôo bem longe dos dogmatismos dos monoteísmos ocidentais, percebeu o que a filosofia oriental já descobriu há milênios (como mostra muito bem o “Filosofias da Índia”, o magistral livro do Heinrich Zimmer, que considero um dos melhores da filosofia no século 20): o eu é só uma quimera, que deve ser desfeita para que possamos viver “a verdadeira vida”.

“Nem Pascal, nem Narciso: nem o eu da religião, nem a religião do eu” (T.D.B., pg. 96). O “eu” não é um culpado, um criminoso, que é preciso torturar, arrastar no chão, humilhar com violência, mandar pro castigo, como queria Pascal, como quer o cristianismo (doutrina que nos convence que somos todos pecadores, precisados de redenção…). O “eu” também não é algo pelo que apaixonar-se, como fez Narciso, que delirou uma imagem de si-mesmo e tacou-se de cabeça nela – afogando-se, lembrem-se bem. Ser cristão, ser narcisista, não nos servirá para atingir nem felicidade nem sabedoria.

“Quem não se possui se partilha sem perda”, escreve lindamente o Sponville (TDB, 95). Como nos partilharíamos, se acreditássemos ter um “eu” que é preciso guardar e resguardar? A “possessividade” em relação ao eu é a fonte de todos os vícios, infelicidades e burrices do desejo.

Desiludidos das miragens das posses, não nos descobrimos pobres: estamos mais ricos do que jamais estivemos. Lembrem do que cantava a Janis: “freedom is just a another word for nothing left to lose”. Quando não mais há eu a perder, quando não há mais esperanças a nos iludir, estamos livres. É o espírito de Woodstock, e não à toa chamavam aquela geração de mística, esotérica, orientalizada… Pois é verdade: o balanço da cultura-jovem daqueles Verões-do-Amor pendeu mais para o Oriente, o sábio Oriente, do que o Ocidente bélico, industrialista, individualista, consumista, competitivo e tecno-junkie desejava. Que perigo, essa juventude achando que a contemplação, o amor e a música são valores mais dignos de serem perseguidos do que o consumo e o trabalho mecanizado!…

A vida, pois, é pra ser desfrutada, não possuída. A vida foi feita para o desfrute passageiro, e não para a posse eterna. Na vida somos apenas visitantes, nunca moradores. E devemos amá-la pelo que é, sem apelação e sem ilusão, sem falsas esperanças que nos furtem da implacável grandeza de uma existência lúcida. “Desfrutar-se sem se possuir: o filho pródigo contra o avarento, o jogo contra a propriedade, a serenidade contra a angústia” (T.D.B., pg. 96). Pois quem disse que “perder o eu” e “abandonar toda esperança” é coisa ruim? Pelo contrário! É a libertação.

Para transpor as águas turbulentas do Samsara e aportar na ataraxia do Nirvana, urge abandonar os fardos do temor e da esperança, vencendo o império da ausência em prol do amor à presença.

watsss– Eduardo Carli de Moraes