“As revoluções sempre começam em ruas sem saída.” – Bertolt Brecht / “As revoluções não são feitas por decretos.” – Piotr Kropotkin

“As revoluções sempre começam em ruas sem saída.” – Bertolt Brecht

“Há épocas na vida da humanidade em que se impõe a necessidade de um abalo formidável, de um cataclismo, que venha agitar a sociedade até as suas entranhas, sob todos os aspectos ao mesmo tempo. Nestas épocas, todo homem sincero começa a se dizer que as coisas não podem mais continuar assim; que é preciso que grandes acontecimentos venham romper, de forma brusca, o curso da história, arremessar a humanidade fora da rotina em que se atolou, e lançá-la em novos caminhos, rumo ao desconhecido, à procura do ideal.

Sente-se a necessidade de uma revolução, imensa, implacável, que venha não só subverter o regime econômico, fundado na fria exploração, na especulação e na fraude, não só inverter a escala política, fundada na dominação de alguns pelo ardil, pela intriga e pela mentira, mas também para agitar a sociedade em sua vida intelectual e moral, sacudir o torpor, refazer os costumes, trazer ao meio das paixões vis e mesquinhas atuais o sopro vivificante das paixões nobres, dos grandes arrebatamentos, das generosas dedicações.

Nestas épocas, em que a mediocridade orgulhosa sufoca toda inteligência, que não se prosterna diante dos pontífices, em que a moralidade mesquinha do meio termo faz a lei, e a baixeza reina vitoriosa – nestas épocas, a revolução torna-se uma necessidade.

Os homens honestos de todas as classes da sociedade chamam a tempestade, para que ela venha queimar com seu sopro inflamado a peste que nos invade, arrancar o mofo que nos corrói, remover em seu movimento furioso todos estes escombros do passado que nos dominam, nos sufocam, nos privam de ar e luz, para que dê, enfim, ao mundo inteiro, um novo sopro de vida, de juventude, de honestidade.

(…) Já não é mais apenas a questão do alimento que se coloca nesta épocas; é uma questão de progresso contra imobilismo, de desenvolvimento humano contra o embrutecimento, de vida contra a estagnação fétida do pântano.”

“Se de fato vosso coração bate em uníssono com o da humanidade, se, como verdadeiro poeta, possuís um ouvido para escutar a vida, então, em presença deste mar de sofrimentos, cuja onda vos encobre, em presença destes povos que morrem de fome, destes cadáveres amontoados nas minas, destes corpos mutilados jazendo em montículos aos pés das barricadas, destes comboios de exilados que vão se enterrar nas neves da Sibéria e nas praias das ilhas tropicais, em presença da luta suprema que se trava, gritos de dor dos vencidos e de orgias dos vencedores, o heroísmo às voltas com a covardia, o entusiasmo em luta com a baixeza – não podereis mais continuar neutro; vireis juntar-vos aos oprimidos, porque sabeis que o belo, o sublime, a vida, enfim, estão do lado daqueles que lutam pela luz, pela humanidade, pela justiça!”

“As revoluções não são feitas por decretos. Para que a apropriação da riqueza social pelo povo torne-se um fato consumado, é preciso que o povo sinta a liberdade de agir, que ele aniquile a servidão à qual está muito habituado, que aja por si mesmo, que avance sem esperar as ordens de ninguém.”

KROPOTKIN, Piotr (1842 – 1921). “Palavras de um Revoltado”, Ed. Ícone, 2005, p. 22, 62 e 196.

https://pt.wikipedia.org/wiki/Piotr_Kropotkin

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Livros disponíveis para download:

ACKELSBERG, M. Free women of Spain – anarchism and the struggle for the emancipation of women
ADDOR, C. Um homem vale um homem – memória, história e anarquismo em Edgar Rodrigues
ALVES, M. Natureza e anarquia – Proudhon e Kropotkin
ALVES, M. O elogio da anarquia em ‘O que é a propriedade’ de Proudhon
ANDRADE, C. Blásfemos e sonhadores ideologia, utopia e sociabilidades nas campanhas anarquistas em a lanterna (1909-1916)

AVELINO, N. Anarquismos e governamentalidade[doutorado]
AVELINO, N. Estudos anarquistas e teoria política – entre Proudhon e Foucault
AVELINO, N. Governamentalidade e anarqueologia em Foucault
AVELINO, N. Malatesta – revolta e ética anarquista
AVELINO, N. Poder e governo em Proudhon e Foucault
AVELINO, N. Revolta, ética e subjetividade anarquista

BAKUNIN, M. A ilusão do sufrágio universal
BAKUNIN, M. A reação na Alemanha
BAKUNIN, M. Bakunin por Bakunin
BAKUNIN, M. Carta a Alexandre Herzen
BAKUNIN, M. Critica y accion [espanhol]
BAKUNIN, M. Dios y el estado – notas sobre rousseau [espanhol]
BAKUNIN, M. El principio del estado [espanhol]
BAKUNIN, M. Estatismo y anarquía [espanhol]
BAKUNIN, M. La mujer, el matrimonio y la família
BAKUNIN, M. La política del consejo
BAKUNIN, M. O conceito de liberdade
BAKUNIN, M. O sistema capitalista
BAKUNIN, M. O socialismo libertário

BERKMAN, Alexander. Kronstadt (em espanhol)
BERNERI, M. L. Viaje a través de la utopia
BEY, Hakim. TAZ (Zona Autonoma Temporaria)
BONOMO, A. O anarquismo em São Paulo [mestrado]
BOOKCHIN, M. Compilación de escritos

CABRAL, M. Teatro anarquista, futebol e propaganda
CAMPOS, C. O sonhar libertário – movimento operário nos anos de 1917 a 1920
CAPPELLETTI, A. La Ideologia Anarquista
CASTRO, R. A cisão no anarquismo argentino – as perspectivas

CHOMSKY, N. Apuntes sobre anarquismo
CHOMSKY, N. Fabricando consenso – el control de los medios massivos de comunicacion
CHOMSKY, N. O lucro ou as pessoas
CHOMSKY, N. Os caminhos do poder

COGGIOLA, O. A primeira internacional e a comuna de Paris

COLOMBO, E. Anarquia e anarquismo
COLOMBO, Eduardo. Anarquismo ante la crisis de las ideologías [espanhol]
COLOMBO, Eduardo. La vontad del pueblo – democracia y anarquía [espanhol]
COLOMBO, Eduardo. L’espace politique de l’anarchie [francês]

COLSON, D. Nietzsche e o anarquismo
COLSON, D. O anarquismo hoje

CORNÉLIUS, G. O Bakuninismo – um estudo sobre o coletivismo [monografia]

CORRÊA, F. Anarquismo, poder, classe e transformação social
CORRÊA, F. Elementos para uma teoria libertária do poder
CORRÊA, F. O sentido do termo “anarquia”
CORRÊA, F. Poder e participação
CORRÊA, F. Rediscutindo o anarquismo [mestrado]

COSTA, C. T. O que é anarquismo
CUBERO, Jaime. O movimento anarquista no Brasil – entrevista da Revista Utopia

DUARTE, R. A imagem rebelde – a trajetória libertária de Avelino Fóscolo

FABBRI, L. Carácter ético del anarquismo
FABRI, L. O caráter ético do anarquismo
FLORESTA, L. A gênese do pensamento pedagógico anarquista
FOSCOLO, A. O semeador
FREIRE, R; BRITO, F. Utopia e Paixão – A Política do Cotidiano

GALLO, S. Anarquismo e educação – os desafios para uma pedagogia anarquista hoje
GALLO, S. Escola pública numa perspectiva anarquista
GALLO, S. O paradigma anarquista em educação
GATTAI, Z. Anarquistas graças a deus

GOLDMAN, Emma. Dois anos na Rússia
GOLDMAN, Emma. O Indivíduo a Sociedade e o Estado, e Outros

GONÇALVES, C. Homem regenerado Brasil reformado [TCC]
GORDON, U. Anarchism and political theory [inglês]
GRAEBER, D. The new anarchists [inglês]

GUÉRIN, D. El anarquismo
GUÉRIN, D. Marxismo e anarquismo

GUIMARAES, Adonile. Anarquismo e ação-direta como estratégia [mestrado]

HAMON, A. Psicología del socialista-anarquista
HART, J.M. Anarquismo e la clase obrera no México
HOROWITZ, I. Los anarquistas – la teoria

KROPOTKIN, P. A Conquista do Pão
KROPOTKIN, P. Ajuda Mutua um fator de evolução
KROPOTKIN, P. Anarquismo (enciclopédia britânica)
KROPOTKIN, P. As prisões
KROPOTKIN, P. O assalariado
KROPOTKIN, P. O Princípio Anarquista e outros ensaios

LANDAUER, G. Revolution and other writings [inglês]
LEAL, C. Pensiero e dinamite – anarquismo e repressão em SP nos anos 1890
LEHNING, A. Marxismo y anarquismo en la revolucion rusa
LEUENROTH, E. Anarquismo – roteiro da libertação social
LEVAL, G. Espagne libertaire [francês]
LOPREATO, C. O espírito da leis – anarquismo e repressão política no Brasil
LOPREATO, C. O espírito da revolta – a greve geral anarquista de 1917

MACKAY, J.H. The anarquists

MALATESTA, E. Amor y anarquia.pdf
MALATESTA, E. Anarquismo e Anarquia
MALATESTA, E. Entre campesinos
MALATESTA, E. Escritos revolucionários
MALATESTA, E. Pensamiento y accion revolucionários
MALATESTA, E. Um pouco de teoria
MALATESTA; MERLINO. Elecciones y anarquismo

MATEUS, J. G. Liberdade em Mikhail Bakunin
MATEUS, J. G. O sindicalismo revolucionário como estratégias nos congressos
MELLA, R. El socialismo anarquista
MENDES, S. As mulheres anarquistas na cidade de São Paulo, 1889-1930
MIRANDA, J. Recuso-me! ditos e escritos de Maria Lacerda de Moura

MONTEIRO, Fabrício. O materialismo histórico de Bakunin
MONTEIRO, Fabrício. O materialismo no debate Feuerbach, Stirner e Marx
MONTEIRO, Fabrício. Significações do ‘eu’ niilista [mestrado]

NETTLAU, M. Anarchism Communist or Individualist –Both
NETTLAU, M. História da anarquia
NETTLAU, M. La anarquia a traves de los tiempos

PASSETTI, E. Poder e anarquia
PAZ, A. Durruti y la revolución
PENNA, M. Socialistas libertários e lutas sociais no RJ
POMINI, Igor. Revolução espanhola [mestrado]

PROUDHON, P-J. A filosofia da miséria
PROUDHON, P-J. A guerra e a paz
PROUDHON, P-J. Do princípio federativo
PROUDHON, P-J. Filosofia Da Miséria (Tomo II)
PROUDHON, P-J. General Idea Of Revolution In The 19th Cent
PROUDHON, P-J. Idéia Geral Da Revolução No Século Dezenove
PROUDHON, P-J. O Que é a Propriedade?
PROUDHON, P-J. Sociedade Sem Autoridade

PUENTE, I. Comunismo libertário

RAGO, M. O anarquismo e a história
READ, H. A filosofia do anarquismo
READ, H. Al diabo con la cultura
READ, H. Anarquia y orden
READ, H. Arte poesia y anarquismo

RÉCLUS, E. La anarquía y la iglesia

ROCKER, R. Anarco sindicalismo – teoria y pratica [espanhol]
ROCKER, R. Artistas y rebeldes
ROCKER, R. As idéias absolutistas no socialismo
ROCKER, R. La tragédie de l’Espagne [francês]
ROCKER, R. Porque sou anarquista
ROCKER, R. The nation and the light of modern race theories [inglês]

RODRIGUES, E. Pequena história da imprensa social no Brasil
ROMANI, C. Oresti Ristori – uma aventura anarquista [mestrado]

SAMIS, A. Bolchevismo e anarquismo
SAMIS, A. Matizes do sentido
SAMIS, A. Neno Vasco e os grupos anarquistas em Brasil e Portugal
SAMIS, A. Sindicalismo e anarquismo no Brasil
SAMIS, A. Uma terra sem amos – federalismo na comuna de Paris

SANTOS, Kauan. Ação e militância anarquista nas manifestações operárias de 1917
SCHMIDT, M; WALT, V. Apresentando a Chama Negra
SCHMIDT, S. Accursed Anarchism Five Post-Anarchist Meditat
SEIXAS, J. Acerca do militante anarquista
SILVA, Custódio. A concepção de educação em Max Stirner (monografia)
SILVA, Regina. A linguagem anárquica de Barthes em dois momentos
SILVA, Regina. Stirner e Barthes – questões da linguagem e o anarquismo individualista
SILVA, Thiago L. Memórias de um anarquista na Porta da Europa [mestrado]
SILVA, Thiago L. Revolucionário ou reformista – sobre Malatesta
SILVA, Wanderlei. ‘Anarquia no Reino Unido’ – proposta anarquista em V de Vingança [TCC]
SOREL, G. El sindicalismo revolucionário
STIRNER, M. Textos Dispersos

THOREAU, H. Desobedecendo – a desobediencia civil e outros escritos
THOREAU, H. Desobediência civil
THOREAU, H. Walden ou a vida nos bosques

TOLSTOI, L. Cristianismo e anarquismo
TOLSTOI, L. O reino de Deus está em vós

TUCKER, Benjamin. Individual liberty

VACCARO, S. Anarquismo e ontologia
VASCO, Neno. A greve dos inquilinos
VASCO, Neno. Georgicas – ao trabalhador rural
VIANA, Rafael. Anarquismo – uma breve genealogia história

WALTER, N. O que é Anarquismo
WOODCOCK, G. historia das ideias e movimentos anarquistas

ZERZAN, J. O futuro primitivo.

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PETER MARSHALL
Demanding the Impossible – A History of Anarchism.
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Inclui análise de pensadores anarquistas clássicos: Godwin, Proudhon, Stirner, Bakunin, Kropotkin, Reclus, Malatesta, Tólstoi, Gandhi, Emma Goldman etc.

O Narcisismo dos Povos Patriotários (Clastres & Todorov contra o Etnocentrismo)

“Narciso” de Caravaggio

“Será que é possível amar realmente alguém ignorando sua identidade? Vendo, em lugar dessa identidade, uma projeção de si mesmo ou de seu ideal? Sabemos que isso é possível e até frequente nas relações interpessoais, mas como fica no encontro das culturas? Não se corre o risco de querer transformar o outro em si mesmo e, consequentemente, de submetê-lo? De que vale então esse amor?”

TZVETAN TODOROV,
“Escravismo, Colonialismo e Comunicação”
in: A Conquista da América
(Ed. Martins Fontes, pg. 245)

O mito grego de Narciso, que narra a trágica morte por definhamento do gabarola que enamora-se com sua própria imagem, ao vê-la refletida nas águas, não é certamente um exemplo a ser seguido, mas muito mais arapuca a ser evitada. Os ingleses chamam isso de cautionary tale: tenham cautela para não serem tolos como Narciso, meus caros, caso contrário… “glub, glub, glub!” Nêmesis não perdoa.

Apesar das 3 grandes feridas que, segundo Freud, foram infligidas à nosso Narcisismo de espécie (nosso “especismo”, diria Peter Singer), ainda prosseguimos enganchados por ideários perigosamente narcísicos, em especial quando eles são tão disseminados e massivos que equivalem a verdadeiras epidemias psíquicas. Pois não são somente os indivíduos, afinal de contas, que têm tendências narcisistas: “sem dúvida o etnocentrismo, como frisa muito justamente Lapierre, é a coisa melhor distribuída do mundo: toda cultura é, poder-se-ia dizer, por definição etnocêntrica em sua relação narcisista consigo mesma” (CLASTRES, S.C.E., p. 35).

Morto precocemente aos 43 anos, num acidente de carro, Pierre Clastres foi uma inteligência dotada de uma audácia fora-de-série: filósofo francês, discípulo de Lévi-Strauss, mergulhou na vida de civilizações bem diferentes da européia, tendo convivido ampla e abertamente com  índios Guayaki, Guarani e Yanomami (dentre outros), tornando-se grande conhecedor das sociedades ditas “primitivas”, em especial as da América do Sul. Sua antropologia, longe de meramente descritiva ou factual, é apaixonadamente argumentativa e investigativa, parece carregar a marca de um engajamento existencial que transborda para seu texto vigoroso, de uma concretude impressionante, desestabilizador de dogmas e “abridor de horizontes” (para usar um termo poético de Manoel de Barros).

Um dos méritos mais evidentes do trabalho de Clastres, e que torna sua leitura recomendável para qualquer um de nós, e não somente para filósofos ou antropólogos, é que ele combate preconceitos tenazes que contaminam as relações humanas. Ele expõe as chagas de Narciso, mostra-nos o quão “viciados” e prejudicados (prejudiced!) são muitos dos olhares direcionados àqueles chamados de “selvagens”. Procura reconhecer e vencer “o adversário sempre vivaz, o obstáculo permanentemente presente na pesquisa antropológica, o etnocentrismo” (SCE, p. 35).

 Uma “velha convicção ocidental” , toda impregnada de narcisismo etnocêntrico, é a “de que a história tem um sentido único, de que as sociedades sem poder são a imagem daquilo que não somos mais e de que a nossa cultura é para elas a imagem do que é necessário ser” (SCE, p. 37). Como diz Viveiros de Castro, trata-se da miopia de julgar que índio ainda é índio e que o ideal para ele é… tornar-se como nós, civilizados. “Se nos obstinamos em refletir sobre o poder a partir da certeza de que a sua forma verdadeira se encontra realizada em nossa cultura, se persistimos em fazer dessa forma a medida de todas as outras, até mesmo o seu télos, então seguramente renunciamos à coerência do discurso e deixamos a ciência degradar-se em opinião.” (SCE, p. 40)

 O pensamento verdadeiramente livre sabe libertar-se de seu particularismo, de sua tendência narcísica a preferir o familiar, a entronar a si mesmo e aos valores de sua própria cultura. Clastres reivindica a necessidade da realização de uma “revolução copernicana” na Antropologia:  “Até o presente, e sob alguns aspectos, a etnologia deixou as culturas primitivas girarem em torno da civilização ocidental”, comenta Clastres. “Para escapar à atração de sua terra natal e se elevar à verdadeira liberdade de pensamento, a reflexão sobre o poder deve operar a conversão ‘heliocêntrica’” (SCE, p. 44). Se deixamos de crer na Terra como centro do cosmos, por que muitos povos ainda não abandonaram a crença de serem “a melhor civilização da Terra”?

 Pensar contra si mesmo é pensar com verdadeira liberdade. Decerto que é mais fácil abandonar-se ao pendor narcísico e às seduções do patriotismo, acomodando-se na crença de que pertencemos à melhor das civilizações possíveis. Mas o livre-pensar nada tem a ver com comodismo, facilidade ou covarde obediência a patriotadas. Desfazermo-nos da “miopia do ufanismo” e deixarmos de sermos “patriotários”, para usar as expressões do poeta José Paulo Paes, equivale a abrir-mo-nos para uma compreensão mais ampla do Outro. “O caminho desta conversão é indicado por um pensamento da nossa época que soube levar a sério o dos selvagens: a obra de Claude Lévi-Strauss… É tempo de buscarmos outro sol e de nos pormos em movimento. (…) Se é menos fatigante descer que subir, o pensamento no entanto não pensa lealmente senão contra a corrente?”

Uma das principais visões míopes do Narcisinho Etnocêntrico consiste em presumir que “as sociedades arcaicas não vivem, mas sobrevivem”. Em outras palavras: “sua existência é um combate interminável contra a fome, pois elas são incapazes de produzir excedentes, por carência tecnológica e cultural. Nada de mais tenaz que essa visão da sociedade primitiva – e ao mesmo tempo nada de mais falso.” (S.C.E., p. 32) Clastres procura “enfatizar a vaidade ‘científica’ do conceito de economia de subsistência, que traduz muito mais as atitudes e hábitos dos observadores ocidentais diante das sociedades primitivas que a realidade econômica sobre a qual repousam essas culturas. (…) É antes o proletariado europeu do século XIX, iletrado e subalimentado, que se deveria qualificar de arcaico”. De modo que a etnologia (ocidental, naturalmente…) é “vítima de uma mistificação tão grosseira e tanto mais temível quanto contribuiu para orientar a estratégia das nações industriais com relação ao mundo dito subdesenvolvido” (p. 33).

A Conquista da América possibilitou que se defrontassem duas sociedades radicalmente diversas, em que o problema do político foi resolvido de modos extremadamente antagônicos: de um lado, os brancos da Europa Ocidental, servidores de uma Monarquia Absoluta, tão acostumados ao despotismo que o julgavam coisa natural. De outro lado, os habitantes originais da América, dentre os quais “somente uma minoria ultrapassou a anarquia primordial” (p. 46). Os conquistadores, servos de Vossas Majestades, contrastavam de modo notório com os índios cujos chefes não tinham um pingo de autoritarismo ou despotismo. “Os primeiros descobridores do Brasil diziam a respeito dos índios Tupinambá: ‘gentes sem fé, sem lei, sem rei’. Seus chefes não possuíam com efeito nenhum ‘poder’. O que haveria de mais estranho, para pessoas saídas de sociedades onde a autoridade culminava nas monarquias absolutas da França, de Portugal ou da Espanha?” (p. 33)

 Com grande eloquência nos contrastes que estebelece, Pierre Clastres pinta um retrato da diferença extrema que existe entre as Sociedades Sem Estado (como eram quase todas as sociedades ameríndias pré-colombianas, inclusive as brasileiras) e as Sociedades Com Estado (aquelas dos invasores europeus, habitantes de regimes monárquicos e ainda feudais). “Nossa cultura ocidental, desde as suas origens, pensa o poder político em termos de relações hierarquizadas e autoritárias de comando-obediência”, escreve Clastres sobre as nações-Estado do Ocidente. “Considerando-se sua organização política, é essencialmente pelo sentido da democracia e pelo gosto da igualdade que se distingue a maioria das sociedades indígenas da América. Os primeiros viajantes do Brasil e os etnógrafos que os seguiram muitas vezes sublinharam: a propriedade mais notável do chefe indígena consiste na ausência quase completa de autoridade. (…) É a falta de estratificação social e de autoridade do poder que se deve reter como traço pertinente da organização política da maioria das sociedades indígenas.” (S.C.E., 47)

A Conquista da América deixaria um saldo obsceno de tão trágico: um dos maiores morticínios da história humana. “Só podemos afirmar nossa total concordância com Pierre Channu: ‘É preciso supor na América pré-colombiana 80 milhões, talvez 100 milhões de almas. A catástrofe da Conquista […] foi tão grande quanto o denunciou Las Casas’. Conclusão que estarrece: ‘Foi um quarto da humanidade, grosso modo, que foi aniquilada pelos choques microbianos do século XVI.” (CLASTRES, S.C.E., p. 117)

Pierre Clastres (à direita) junto com o cacique mbya-guaraní Ángelo Garay

O CHEFE INDÍGENA: PARADOXO DO PODER IMPOTENTE

 Robert Lowie, em um texto de 1948, definiu “três propriedades essenciais do líder índio, cuja recorrência ao longo das duas Américas permite apreender como condição necessária do poder nessas regiões” (p. 48):

1) APAZIGUADOR/PACIFISTA: o chefe é um “fazedor da paz”, um “árbitro que procura reconciliar”; ele tem a “tarefa da manutenção da harmonia no grupo”, “deve apaziguar as disputas e regular as divergências” (p. 49).

2) GENEROSO/DADIVOSO: o chefe deve ser “generoso com seus bens”, ou seja, têm “obrigação de dar tudo o que lhe pedem”, o que gera esta extravagante realidade de um “chefe que possui menos que os outros e traz os ornamentos mais miseráveis”.

3) DONS ORATÓRIOS/ELOQUÊNCIA: O chefe deve ser necessariamente um bom orador: o talento oratório é exigido desta figura e “numerosas são as tribos onde o chefe deve todos os dias, na aurora ou no crepúsculo, recompensar com um discurso edificante as pessoas do seu grupo” (p. 50). Seus discursos, quase sempre, “exortam a viver segundo a tradição” dos antepassados, em obediência às leis ancestrais (p. 50).

Tantos encargos são recompensados com alguns poucos privilégios: quase todas essas sociedades reconhecem o direito exclusivo do chefe à poligamia. “É então por 4 traços que na América do Sul se distingue o chefe: ele é um apaziguador profissional; deve ser generoso e bom orador; possui, enfim, o privilégio da poliginia” (p. 55).

 Longe de ser um déspota, um tirano, um “concentrador” de poder ou capital, o chefe indígena é decerto “humilde” em comparação com os chefes politicos do Ocidente dito “civilizado”. As sociedades indígenas são organizadas de modo a coibir e impedir as desigualdades gritantes, de modo que “nenhum indivíduo, mesmo que seja chefe, pode concentrar nas mãos muitas riquezas materiais”. “O líder não possui qualquer poder decisório”, “suas funções são controladas pela opinião pública” e ele vive na “fragilidade permanente de um poder sempre contestado” (p. 56).

Ao invés de reinar num palácio, sentado em seu trono, servido por serviçais, o “líder deve cultivar sua mandioca e matar sua caça” (p. 59). “A maioria dos líderes indígenas está longe de oferecer a imagem de um rei ocioso: bem ao contrário, o chefe, obrigado a responder à generosidade que dele se espera, deve incessantemente preocupar-se em encontrar presentes para oferecer à sua gente. (…) De modo que, curiosamente, o líder é quem, na América do Sul, trabalha mais arduamente.” (60)

 Bem distantes estamos dos tenazes preconceitos que julgam estas sociedades sempre sob o viés da falta, da ausência, do subdesenvolvimento: as sociedades indígenas, sustenta Clastres, não devem ser vistas como não tendo ainda podido desenvolver estas preciosas glórias ocidentais: o déspota, o tirano, a monarquia absoluta, a cisão radical entre os que comandam e os que obedecem, o trabalho alineado, a mais-valia, acumulação privada de lucros. Na verdade, como Clastres nos convida a perceber, as sociedades indígenas são caracterizadas por imenso apreço pelo igualitarismo e uma “recusa radical da autoridade” (63). Nascida de uma “intuição de que o poder é, em sua essência, coerção”, a escolha destas sociedades pela limitação da esfera da autoridade política manifestaria seu gosto visceral pela liberdade. “Venerado em sua impotência”, o líder indígena será abandonado ou morto em praça pública pelos membros da aldeia sempre que quiser abusar de seu poder, bancando o Poderoso Chefão.

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A SOCIEDADE CONTRA O ESTADO

A obra de Clastres dedica-se, com uma perspicácia e lucidez ímpares, a mostrar como não tem fundamento o argumento de que “essas sociedades estariam condenadas à economia de subsistência em razão da inferioridade tecnológica” (p. 204). Um “preconceito tenaz” leva muitos a insistir na “afirmação de que essa sociedade mobiliza permanentemente a totalidade de suas forças produtivas para fornecer a seus membros o mínimo necessário à subsistência”. A isto soma-se a ideia, também muito difundida, “de que o selvagem é um preguiçoso” (p. 205). Já se vê que há aí uma contradição entre estas duas “noções” de índio – pois das duas uma: ou os índios são uns “preguiçosos ociosos” ou são uns “trabalhadores infatigáveis e esfomeados”!

“Se em nossa linguagem popular diz-se ‘trabalhar como um negro’, na América do Sul, por outro lado, diz-se ‘vagabundo como um índio’. Então, das duas uma: ou o homem das sociedades primitivas vive em economia de subsistência e passa quase todo o seu tempo à procura de alimento, ou não vive em economia de subsistência e pode portanto se proporcionar lazeres prolongados fumando em sua rede. Isso chocou claramente os primeiros observadores europeus dos índios do Brasil. Grande era a sua reprovação ao constatarem que latagões cheios de saúde preferiam se empetecar, como mulheres, de pinturas e plumas em vez de regarem com suor as suas áreas cultivadas” (Clastres).

É que, vocês se lembram, foi o Deus bíblico, aquele celebrado pelos monarcas dos Absolutismos europeus, quem supostamente condenou Adão à labuta dura, punição pelo pecado originário: os índios, que não conhecem dessas mitologias de culpa e expiação através de labutas suarentas e exaustivas, eram bem mais lúdicos e celebrativos (artistas, enfim!) do que workaholics. Preferem fazer apenas o trabalho necessário (3 ou 4 horas por dia, no máximo!), ao invés de “se matarem de trabalhar” em turnos extenuantes, e tudo em prol da “produção de excedentes” (isto é, lucros para os patrões; mais especificamente, no caso de hoje, em prol da elefantíase das grandes multi-nacionais e seus acionistas em Wall Street). 

“Tratava-se portanto de povos [indígenas/autóctones] que ignoravam deliberadamente que é preciso ganhar o pão com o suor do próprio rosto. Isso era demais, e não durou muito: rapidamente se puseram os índios para trabalhar, e eles começaram a morrer. Dois axiomas, com efeito, parecem guiar a marcha da civilização ocidental, desde a sua aurora: o primeiro estabelece que a verdadeira sociedade se desenvolve sob a sombra protetora do Estado; o segundo enuncia um imperativo categórico: é necessário trabalhar.” (p. 205)

Um contraste radical se desenha, pois, entre os workaholics das sociedades industriais que se auto-denominam “avançadas”, em seu frenético produtivismo-e-consumismo, e as sociedades indígenas, que seriam muito mais “civilizações do lazer”, da poesia, do misticismo – e da guerra, é claro, infortúnio que ao menos preserva as autarquias e impede a formação de impérios, como argumenta Clastres em Arqueologia da Violência.  “Os índios, efetivamente, só dedicavam pouco tempo àquilo a que damos o nome de trabalho. E apesar disso não morriam de fome. As crônicas da época são unânimes em descrever a bela aparência dos adultos, a boa saúde das numerosas crianças, a abundância e variedade dos recursos alimentares. Por conseguinte, a economia de subsistência das tribos indígenas não implicava de forma alguma a angustiosa busca, em tempo integral, de alimento.” (p. 206)

Dois exemplos concretos da quantidade ínfima de trabalho praticado pelos índios, em comparação com as jornadas de trabalho estafantes e mal-pagas, às vezes de mais de 10 horas diárias, que fez o proletariado e o funcionalismo “civilizados” padecerem por tantos séculos: “Jacques Lizot, que vive há muitos anos entre os índios Yanomami da Amazônia venezuelana, estabeleceu cronometricamente que a duração média do tempo que os adultos dedicam todos os dias ao trabalho, incluídas todas as atividades, mal ultrapassa 3 horas” (p. 207). Clastres soma a este exemplo sua própria experiência de quem viveu junto aos Guayaki da floresta paraguaia, garantindo que eles “passavam pelo menos a metade do dia em quase completa ociosidade” (p. 207).

Clastres comenta que o etnocentrismo ocidental também “invoca o subequipamento técnico, a inferioridade tecnológica”, para explicar a inferioridade dos pré-modernos. O único porém, evidentemente, está no fato desta tecnologia avançada de que tanto se gabam os civilizados estar em larga medida “baseada no insano projeto cartesiano cujas consequências ecológicas mal começamos a medir” (p. 203). A bomba atômica, a usina nuclear (com seus potenciais vazamentos…), o avião drone e os mísseis teleguiados também são gloriosas invenções técnicas ocidentais… A tecnologia posta à serviço da barbárie.

É adequado, portanto, falar das sociedades ditas “primitivas” como animadas por um ímpeto anti-estatal, por um desejo de evitar a cisão social e a emergência de uma classe de dominantes, senhores, imperadores, déspotas. A sociedade primitiva recusa o Estado pois deseja manter-se indivisa, sem uma fratura interna entre os que mandam e os que obedecem, entre os que trampam e os que exploram, entre os que vivem na miséria e os que vivem no fausto e no luxo (soa familiar, caro ocidental?). Ao falarmos em “sociedades sem Estado”, alega Clastres, fica sub-entendido uma certa “privação”, como se estas sociedades estivessem amputadas de algo crucial; por isso, Clastres prefere fazer em sociedades contra (e não meramente sem) o Estado. Quando se diz “sem Estado”, isto “na verdade dissimula uma opinião, um juízo de valor. O que de fato se enuncia é que as sociedades primitivas estão privadas de alguma coisa… são, portanto, incompletas. (…) Descobre-se nessa abordagem uma fixação etnocentrista… Cada um de nós traz efetivamente em si, interiorizada como a fé do crente, essa certeza de que a sociedade existe para o Estado. (…) Quase sempre, as sociedades arcaicas são determinadas de maneira negativa, sob o critério da falta: sociedades sem Estado, sem escrita, sem história.” (CLASTRES: 201-201)

  Lizot, falando dos Yanomami, destaca que são “sociedades de recusa do trabalho”; Marshall Sahlins, por sua vez, fala em “sociedades de lazer” e “sociedades de abundância” (p. 209). Essas sociedades não teriam ainda sido “contaminadas” pelo gosto da acumulação; nelas teria sido impedido o surgimento do poder político como “potência de sujeitar, capacidade de coerção”; ainda não havia nascido a peste do trabalho alienado, em que sujeitos esgotam-se em padecimentos terríveis no trabalho, e somente para que os frutos desses duros trabalhos sejam concentrados e acumulados nas mãos de patrões, acionistas, banqueiros – figuras de poder capazes de prosseguir coagindo a sociedade a prosseguir na trilha, salpicada de suor e lágrimas, do trabalho desumano e mal-pago.

“Estamos portanto bem longe da miserabilidade que envolve a ideia de economia de subsistência. (…) As sociedades primitivas dispõem, se assim o desejarem, de todo o tempo necessário para aumentar a produção dos bens materiais. O bom senso questiona: por que razão as pessoas dessas sociedades quereriam trabalhar e produzir mais, quando três ou quatro horas diárias de atividade são suficientes para garantir as necessidades do grupo? De que lhes serviria isso? Qual seria a utilidade dos excedentes assim acumulados? É sempre pela força que os homens trabalham além das necessidades. E exatamente essa força está ausente do mundo primitivo: a ausência dessa força externa define inclusive a natureza das sociedades primitivas. Podemos admitir a partir de agora, para qualificar a organização econômica dessas sociedades… no sentido de recusa de um excesso inútil, da vontade de restringir a atividade produtiva à satisfação das necessidades.” (p. 208)

 “A verdadeira revolução, na proto-história da humanidade, é a revolução política, é essa aparição misteriosa, irreversível, mortal para as sociedades primitivas, do que conhecemos sob o nome de Estado.” (p. 215) As consequências são conhecidas: a divisão da sociedade entre ricos e pobres, exploradores e explorados, proprietários e proletários… Essa hierarquização social vêm acompanhada por uma opressão política, uma violência externa que obriga a “trabalhar e produzir mais para satisfazer as necessidades dos novos senhores do poder.” (p. 216) Conhece-se a célebre definição marxista do “Estado como instrumento que permite à classe dominante exercer sua dominação violenta sobre as classes dominadas”; Clastres sugere, porém, que “convém inverter firmemente a teoria marxista da origem do Estado”, afirmando que “é o Estado que engendra as classes” (p. 235).

  “Nada existe, no funcionamento econômico de uma sociedade primitiva, de uma sociedade sem Estado, que permita a introdução da diferença entre mais ricos e mais pobres, pois aí ninguém tem o estranho desejo de fazer, possuir, parecer mais que seu vizinho. A capacidade, igual entre todos, de satisfazer as necessidades materiais, e a troca de bens e serviços, que impede constantemente o acúmulo privado de bens, tornam simplesmente impossível a eclosão de um tal desejo, desejo de posse que é de fato desejo de poder. A sociedade primitiva, primeira sociedade da abundância, não deixa nenhum espaço para a superabundância.” (…) “O selvagem é um sujeito que não saqueia. Ele tira da natureza aquilo de que necessita. Quando suas necessidades estão satisfeitas, ele se detém. (…) Portanto, não irá cortar inutilmente galhos de árvores, nem caçar por nada um animal. Nunca fará isso. Por isso, as sociedades primitivas seguramente não corriam o risco de destruir o ambiente.” (p. 217) Já a Civilização Ocidental-Industrial-Capitalista… talvez seja a mais ecocida de todas as civilizações que já houveram. O Ártico ela já conseguiu derreter: e a Amazônia, já tão amputada, será a próxima a “sumir do mapa”, para dar lugar a novos bancos e shopping centers? Ah! Quando não houver mais água limpa para beber, quando não houver mais oxigênio para respirar, quando não houver nem mesmo pios de pássaros nas matas, vocês vão descobrir, meus caros, que dinheiro não se pode comer…