FLORA TRISTÁN (1803 – 1844)

FLORA (2011, 27 min)
Um filme de Lorena Stricker

Preciosidade do cinema latino-americano, o curta-metragem “Flora” de Lorena Stricker é uma linda homenagem à vida e ao pensamento de Flora Tristán (1803-1844). “Com sua voz acesa e seu pensamento desobediente e vivo”, esta mulher socialista fala-nos com senso crítico e um ideário feminista-igualitário de impressionante atualidade.

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Flora Tristán é autora de livros importantes da teoria social no século XIX como “Peregrinações De Uma Pária” (1838) e “A União Operária” (1843), analisados e comentados em recente obra de Eleni Varikas, o magistral “A Escória do Mundo” (Ed. Unesp).

“O padre, o legislador, o filósofo tratam a mulher como verdadeira pária. A mulher (é a metade da humanidade) foi posta fora da igreja, fora da lei, fora da sociedade. O padre lhe diz: ‘Mulher, você é a tentação, o pecado, o mal; você representa a carne – quer dizer, corrupção, podridão. Chore sua condição, cubra a cabeça com cinzas, feche-se numa clausura e, ali, macere seu coração que é feito para o amor, e suas entranhas de mulher que são feitas para a maternidade. E quando tiver mutilado seu coração e seu corpo, ofereça-os sangrentos e ressecados a seu Deus para a remissão do pecado original, cometido pela sua mãe Eva. (…) Depois, disse-lhe o legislador: ‘Mulher, por si mesma, você não é nada como membro ativo do corpo humanitário, não pode esperar um lugar no banquete social. É preciso, se quiser viver, que sirva de anexo a seu senhor e mestre, o homem.’ Em seguida, o filósofo sábio lhe disse: ‘Mulher, foi constatado pela ciência que, por sua organização, você é inferior ao homem… você é um ser fraco de corpo e espírito, pusilânime, supersticioso.’ (…) Deve ser tema profundo de dor para os sábios dos sábios pensar que descendem da raça mulher… Que vergonha para eles serem concebidos no ventre de semelhante criatura, ter sugado seu leite e permanecido sob sua tutela uma grande parte da vida. Oh! É bem provável que, se esses sábios tivessem podido colocar as mulheres fora da natureza, como as puseram fora da Igreja, fora da lei, fora da sociedade, teriam se poupado a vergonha de descender de uma mulher…” (FLORA TRISTÁN, A União Operária. Citada por VARIKAS, 2014, Unesp, p. 52 – 56)

Avó do pintor Paul Gauguin (1843 – 1908), Flora Tristán teve seu relacionamento com o neto explorado pelo romance “O Paraíso Na Outra Esquina”do Prêmio Nobel de Literatura Mario Vargas Llosa (compre em Estante Virtual).

Além disso, muitos historiadores do pensamento têm destacado o papel de precursora e influenciadora direta de Flora Tristán sobre os fundadores do materialismo histórico-dialético, Marx & Engels. É deste teor o comentário que dedica-lhe Michel Onfray no 5º volume da Contra-História Da Filosofia, chamado Eudemonismo Social (Ed. Martins Fontes). Resumindo a vida de Flora, Onfray evoca Flora como uma mulher

Portrait de Flora Tristan en 1839 ©Costa/Leemage

“malcasada com um marido que a brutaliza sexualmente e que ela abandona para viver sozinha com os filhos, militante a favor do divórcio, abolicionista em matéria de pena de morte, denunciadora do colonialismo americano, fica conhecendo Owen e Fourier em Paris. Na rua, seu ex-marido lhe dá um tiro: o processo público movimentado revela uma ardente feminista que reivindica o direito a uma igualdade integral com os homens. Ela deseja a união dos trabalhadores explorados e sua constituição em classe operária, invoca o fim da miséria dos povos. Durante uma longa viagem de militância pelas cidades da França, esgotada, doente, Flora Tristán falece em Bordeaux. Tinha 41 anos. Em sua descendência, por meio da filha Aline, conta-se certo Paul Gauguin…

Muitas vezes se omite que Engels leu o livro de Flora Tristán Promenades dans Londres e de que grande número de suas informações se encontram sem remissão em A Situação Da Classe Trabalhadora Na Inglaterra, publicado em 1845, um ano depois da morte de Flora… Para escrever Promenades dans Londres, Flora Tristán não se fecha numa biblioteca, como Marx quando trabalha no capitalismo sentado à sua escrivaninha ou na sala de leitura do British Museum. Ela sai em campo, ao encontro físico da miséria…Dia após dia, vai a uma fundição para assistir ao trabalho dos operários, fala com moradores de pardieiros, encontra-se com prostitutas em prostíbulos, dialoga com prisioneiros em suas celas, convive com doentes mentais num asilo de alienados…

Quer o fim da miséria e a ‘felicidade comum’, portanto liberdade, alforria e igualdade… Nas prisões constata a correlação entre encarceramento e pobreza, delinquência e miséria social. A prisão não restitui ao convívio social, é uma escola do crime. É preciso agir sobre as causas do crime, e não punir o crime em si mesmo. Insurge-se contra a disparidade das penas, a injustiça da justiça, clemência para os poderosos e severidade para com os miseráveis… milita pela abolição da pena de morte. O que propõe é outro sistema social, que não seja o capitalismo selvagem, uma alternativa política capaz de eliminar a miséria produzida pelo mercado livre. Quer a união operária, o mutualismo, a força da coletividade,  o programa socialista radical… Em L’Union Ouvrière, de 1843, 5 anos antes do Manifesto Comunista de Marx e Engels, ela escreve “proletários, uni-vos” pois “a emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores”…” (ONFRAY: p. 29)


SOBRE O CURTA-METRAGEM,
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Diario de Los Andes:


SIGA VIAGEM – LIVRO COMPLETO (EM INGLÊS):

SUSAN GROGAN – Flora Tristan – Life Stories
(Routledge) – DOWNLOAD EBOOK

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SANGUE LATINO – Canal Brasil e Nepomuceno Filmes: entrevistas com Eduardo Galeano, Mia Couto, Leonardo Boff, dentre outros.

Alguns dos principais intelectuais da América Latina estão reunidos no Canal Brasil no programa Sangue Latino. O escritor e jornalista Eric Nepomuceno reuniu escritores, músicos, poetas, artistas plásticos e outros grandes pensadores do continente em conversas sobre a situação política, literatura, música, cultura e política dos países da região, entre outros temas que serão abordados na atração. As entrevistas de “Sangue Latino” tiveram diversas locações e foram gravadas no Uruguai, Argentina, Chile e no Brasil, sempre em clima intimista e sem uma pauta previamente determinada para cada convidado.Dirigido por Felipe Nepomuceno – filho do apresentador – e produzido pela Urca Filmes, o programa traz nomes de grande influência na cultura latino-americana. Entre os entrevistados, o escritor e compositor brasileiro Chico Buarque, o escritor uruguaio Eduardo Galeano – autor do premiado “As Veias Abertas da América Latina” – e o artista plástico argentino Leon Ferrari, considerado pelo jornal norte americano “New York Times” como um dos cinco artistas vivos mais provocadores e importantes do mundo. Sangue Latino foi gravado com câmeras de alta resolução, e com imagens apenas em preto e branco, o que dá ao programa uma linguagem documental. A trilha sonora foi composta em uma jam session com o pianista e acordeonista Marcos Nimrichter, apresentador do Estúdio 66, outro programa do Canal Brasil. – SITE OFICIAL


ASSISTA:

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PEDAGOGIA DA LIBERTAÇÃO: Laços entre as utopias de Paulo Freire e José Martí, professores da desopressão e da construção de um alter-mundo melhor

Paulo Freire e José Martí: pedagogos da libertação onde arde a chama da utopia. Não uma utopia confundida com inúteis e vãos sonhos impossíveis, não uma utopia que é aguardo paciente e apático do Eldorado que por si mesmo se fará, mas uma utopia que descreve o télos de uma coletividade humana que, em sua força histórica atuante e concreta, pensa e age em prol da a construção de um outro mundo, de uma realidade alternativa, de uma sociedade radicalmente transformada para melhor – é o fogo que emana da vida e da obra de ambos.

Ultimamente alguns pensadores da educação têm buscam aclarar as afinidades eletivas entre P. Freire e J. Martí – é o caso de Danilo Streck (Unisinos), que participou da Feira Internacional do Livro de Havana, em Fevereiro de 2016, falando sobre Por Que Ler José Martí e Paulo Freire Hoje? . Na Universidade e na Imprensa, têm pintado artigos que sondam o mesmo tema, como este na Revista Redie (por Miguel Alvarado Arias) ou esta entrevista com o professor Carlos Rodríguez Almaguer no A Verdade.

Aqui tentarei mostrar brevemente, num paralelo entre ambos, quais são alguns dos pontos de contato entre estes dois professores de desopressão, a começar pela unidade indissolúvel entre anúncio denúncia, que segundo Freire constitui a essência mesmo da práxis transformadora utópica.

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“A pedagogia que defendemos, concebida na prática realizada numa área significativa do Terceiro Mundo, é, em si, uma pedagogia utópica”, escreve Paulo Freire em “Ação Cultural Para A Liberdade”. “Utópica, não porque se nutra de sonhos impossíveis, porque se filie a uma perspectiva idealista, porque implicite um perfil abstrato de ser humano, porque pretenda negar a existência das classes sociais ou, reconhecendo-a, tente ser um chamado às classes dominantes para que, admitindo-se em erro, aceitem engajar-se na construção de um mundo de fraternidade. Utópica porque, não “domesticando” o tempo, recusa um futuro pré-fabricado que se instalaria automaticamente, independente da ação consciente dos seres humanos.

Utópica e esperançosa porque, pretendendo estar a serviço da libertação das classes oprimidas, se faz e se refaz na prática social, no concreto, e implica a dialetização da denúncia e do anúncio, que têm na práxis revolucionária permanente o seu momento máximo. Por isso, denúncia e anúncio, nesta pedagogia, não são palavras vazias, mas compromisso histórico. Por outro lado, a denúncia da sociedade de classes como uma sociedade de exploração de uma classe por outra exige um cada vez maior conhecimento científico de tal sociedade e, de outro, o anúncio da nova sociedade demanda uma teoria da ação transformadora da sociedade denunciada.” (FREIRE: 2015, p. 94)

Já explorei a fundo, em outro artigo, os detalhes disto que Freire recomenda com tanta insistência e entusiasmo: o laço indissolúvel entre denúncia (a faceta crítica, problematizante, contestatória) e o anúncio (a construção de uma alter-realidade, a práxis transformativa e colaborativa de viés utópico). Segundo Danilo Streck, “a América Latina conquistou um espaço no cenário pedagógico internacional, hoje reconhecido sobretudo na figura de Paulo Freire, mas cujas raízes estão para além de sua pessoa e de nosso tempo. Trata-se, então, de alargar o olhar para trás e identificar marcas da gênese e da constituição dessa pedagogia. José Martí é uma destas figuras que balizam a construção da teoria pedagógica na América Latina.” (STRECK: 2007, p. 14).

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Uma introdução bastante significativa à pedagogia de Martí em Nuestra America são os textos que ele escreveu para as crianças, na revista mensal La Edad de Oro, que teve quatro edições e que em seu número de estréia, em julho de 1889, trazia uma contribuição de Martí à formação dos niños e niñas do amanhã, o impressionante texto “Três Heróis”. No caso, Martí queria ensinar à criançada algumas lições de moral e honradez, de heroísmo e humanismo, fazendo recurso a três figuras de monumental dimensão histórica: Simon Bolívar (1783-1830), José F. de San Martín (1778 – 1850), Miguel Hidalgo (1753 – 1811). Que no Brasil tão pouco se conheça, tão pouco se ensine e se aprenda, sobre Bolívar, San Martín e Hidalgo, é mais um sintoma do quanto a escola se apartou de seu compromisso histórico de levar ao conhecimento comum a vida e a obra destes três heróis emblemáticos e fecundos.

Vivendo no exílio em Nova York, após ser deportado de Cuba, Martí escreve os textos para A Idade do Ouro a partir de 1889, e evidentemente não há nenhum sinal da “neutralidade ideológica” preconizada no Brasil atual pelos acólitos do Escola Sem Partido: Martí, um dos fundadores do Partido Revolucionário Cubano e que perderá a vida no campo de batalha em 1895, devotou sua vida à construção de uma pedagogia diretamente informado pela experiências das lutas de libertação latino-americanas contra o jugo opressivo do império da Espanha. Sua escolha de heróis já torna explícito seu viés político, sua predileção pelos líderes anti-coloniais, agentes do processo de conquista coletiva de autonomia e autodeterminação. 

“Três Heróis”, preleção aos chiquititos, começa evocando a estátua do Libertador Bolívar em Caracas, na Venezuela, para realizar um discurso altamente moralista e edificante, centrado na virtude da honradez, assemelhada, neste contexto, à noção de dignidade humana:

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“Contam que um dia um viajante chegou a Caracas ao anoitecer e, sem sacudir o pó do caminho, não perguntou onde se comia nem se dormia, mas como se ia aonde estava a estátua de Bolívar. E contam que o viajante, só, com as árvores altas e perfumadas da praça, chorava diante da estátua, que parecia mover-se, como um pai quando se aproxima um filho. O viajante fez bem, porque todos os americanos devem querer a Bolívar como um pai. A Bolívar e a todos os que lutavam como ele para que a América fosse do homem americano. A todos: ao herói famoso e ao último soldado, que é um herói desconhecido. Os homens que lutam para ver livre a sua pátria até se tornam formosos de corpo.

Liberdade é o direito que todo homem tem de ser honrado e de pensar e falar sem hipocrisia. Na América não se podia ser honrado, nem pensar, nem falar. Um homem que oculta o que pensa ou não se atreve a dizer o que pensa não é um homem honrado. Um homem que obedece a um mau governo, sem trabalhar para que o governo seja bom, não é um homem honrado. Um homem que se conforma  com obedecer a leis injustas e permite que o país em que nasceu seja pisado por homens que o maltratam, não é um homem honrado. O menino, desde que pode pensar, deve pensar em tudo o que vê, deve padecer por todos os que não podem viver com honradez, deve trabalhar para que possam ser honrados todos os homens e deve ser um homem honrado.

O menino que não pensa no que sucede a seu redor e se contenta em viver sem saber se vive honradamente é como um homem que vive do trabalho de um sem-vergonha e está a caminho de ser um sem-vergonha. Há homens que são piores que as bestas, porque as bestas necessitam ser livres para viver ditosas; o elefante não quer ter filhos quando vive preso; a lhama do Peru se lança na terra e morre quando o índio lhe fala com rudeza ou lhe põe mais carga do que pode suportar. O homem deve ser, pelo menos, tão decoroso como o elefante e como a lhama. Na América se vivia antes da liberdade como a lhama que tem muita carga. Era necessário tirar a carga ou morrer.

Bolívar era pequeno de corpo. Os olhos relampejavam e as palavras saltavam dos lábios. Parecia que estava sempre esperando a hora de montar a cavalo. Era seu país, seu país oprimido, que lhe pesava no coração e não o deixava viver em paz. A América inteira estava como que despertando. Um homem só nunca vale mais do que um povo inteiro, mas há homens que não se cansam quando seu povo se cansa… Esse foi o mérito de Bolívar, que não cansou de lutar pela liberdade da Venezuela, quando parecia que a Venezuela cansava. Tinham-no derrotado os espanhóis: tinham-no expulso do país. Ele foi a uma ilha, para ver sua terra de perto, para pensar em sua terra.

Um negro generoso ajudou-o quando ninguém já não queria ajudá-lo. Voltou um dia a lutar, com 300 heróis, com os 300 libertadores. Libertou a Venezuela. Libertou Nova Granada. Libertou o Equador. Libertou o Peru. Fundou uma nação nova, a nação da Bolívia. Ganhou batalhas sublimes com soldados descalços e meio desnudos. Tudo estremecia e se enchia de luz ao seu redor. Os generais lutavam ao seu lado com valor sobrenatural. Era um exército de jovens. Jamais se lutou tanto, nem se lutou melhor, no mundo, pela liberdade. Bolívar não defendeu com tanto fogo o direitos dos homens a governar-se por si mesmos quanto o direito da América de ser livre. Os invejosos enxergaram seus defeitos. Bolívar morreu de pesar do coração, mais que de mal do corpo, na casa de um espanhol em Santa Marta. Morreu pobre e deixou uma família de povos.” (MARTÍ, La Edad de Oro, “Três Heróis”, 2007, p. 143).

Esta celebração de Martí à figura histórica de Bolívar, que no mesmo texto ele estende à San Martín e Hidalgo, é evidentemente problemática e criticável: não faltarão aqueles que acusarão esta pedagogia de querer ensinar à infância e à juventude a veneração de ídolos, o culto à personalidade heróica dos “libertadores”, a idolatria aos feitos bélicos daqueles que lutaram pelas independências nacionais na América então sob o jugo do imperialismo hispânico. Também é inegável a ênfase de Martí no patriotismo como uma motivação desejável e digna com a qual incendiar o entusiasmo militante dos pequenos – o que se dá, obviamente, num contexto onde pátria livre é sinônimo de república democrática e autônoma, em contraste com colônia dependente e gerida por monarquias de ultra-mar.

Em um momento histórico em que, em meados da década de 2010s, o conceito de “bolivarianismo” segue muito presente nos debates políticos, muitas vezes com um sentido pejorativo, mobilizado para defenestrar os regimes do falecido Hugo Chávez na Venezuela (e de seu sucessor N. Maduro) ou do ex-presidente Evo Morales da Bolívia, não deixa de ter alto interesse e valor o estudo, a compreensão e o debate lúcido sobre o que de fato foi realizado por figuras como Bolívar, Martí e Hidalgo. Pois chega a dar aquela sensação de “vergonha alheia” quando às vezes testemunhamos figuras, que se confessam “de direita” ou que se propõem como “liberais”, tacando pedras sobre regimes políticos e seus respectivos líderes sob a acusação de serem tiranos ou ditadores “bolivarianos” ou “bolivaristas”, sendo que estes mesmos defenestradores odientos são incapazes de falar por 5 minutos sobre a vida e o legado de Simon Bolívar. Solicitados a debater sobre o que tanto os enfurece no mesmo, podem até mesmo responder algo tão profundamente abissal como: “você quer que eu reflita sobre o legado de Simão Quem?!?”

O que José Martí realiza através de seus textos, artigos e discursos, além de demonstrar o infatigável ímpeto de um intelectual-atuante que não se recusa nunca a assumir uma posição na luta de classes e no clash das ideologias, é fornecer um conteúdo bastante concreto à palavra “libertação” – o que é um ponto de contato com Paulo Freire. Para ambos, libertação não é mero blá-blá-bá, mas compromisso histórico: no caso de Martí e Bolívar, era evidentemente norteada pela luta dos povos latino-americanos por seu direito à auto-determinação, violado por séculos de imperialismo espanhol e todo seu séquito de horrores, dos quais destacava-se a imposição do sistema de produção escravista, com milhões de pessoas forçadas ao trabalho indigno, à vida curta e dolorosa, e aos frutos de seu labor roubados em sua inteireza por patrões imperiais.

É claro que Paulo Freire vive em outra época, mas à semelhança de Martí vivencia também o exílio, após o golpe de Estado de 1964, abordando a situação da América Latina também sob o viés da necessidade incontornável e inadiável de vencer a opressão sustentada por uma nova modalidade de imperialismo – agora com sede nos EUA e impondo a economia política do neoliberalismo, aquilo que Naomi Klein chamará de Doutrina do Choque. A experiência das ditaduras militares instauradas no Brasil, no Chile, na Argentina, no Uruguai, no Peru, dará ao pensamento de Paulo Freire um teor que o aproxima não só das lutas libertárias anti-coloniais do passado latino-americano (Bolívar, Martí…), mas que o conectará também aos movimentos pela libertação da África de que foi contemporâneo, sendo determinante também na gestação da Pedagogia do Oprimido a obra de um Amílcar Cabral ou de um Franz Fanon.

Além dos textos publicados na revista La Edad de Oro, destinadas à formação da juventude, há outros artigos de José Martí que comunicam de modo bem sintético e poético seus ideais pedagógicos. Eu destacaria, neste contexto, uma espécie de manifesto que Martí escreve para descrever as atividades da “Liga”, fundada em Nova York em 1889, em parceria com Rafael Serra, com o propósito de formar seus acólitos para a tarefa revolucionária e para as lutas em prol da autodeterminação dos povos (além de Nova York, a Liga desenvolveu suas experiências nas plantações e fábricas de tabaco no Sul da Flórida). Em 26 de Março de 1892, em artigo publicado em Patria, Martí escreve:

José Martí, Nova York, 1885.

José Martí, Nova York, 1885.

“A Liga” de Nova York é uma casa de educação e de carinho, (…) nela reúnem-se, depois da fadiga do trabalho, os que sabem que somente há felicidade verdadeira na amizade e na cultura; os que em si sentem ou vêem por si que o ser de uma cor ou de outra não diminui no homem a aspiração sublime; os que não crêem que ganhar o pão em um ofício dá ao homem menos direitos e obrigações que os daqueles que o ganham em qualquer outro; os que ouviram a voz interior que manda ter acesa a luz natural e o peito, como um ninho, quente para o homem; os filhos das duas ilhas que, no sigilo da criação, amadurecem o caráter novo por cuja justiça e prática firme se haverá de assegurar a pátria. Conquistá-la será menos que mantê-la; e junto com a arma que haverá de resgatá-la é necessário levar a ela o espírito da república e o habitual manejo das práticas livres, que por sobre todos seus germes de discórdia haverá de salvá-la.

E se A Liga tivesse alguma nota especial nas coisas de nosso país, seria a de ver-se ali sem suspicácia, e sem disputar-se a fama ou o pão da mesa, os que vêem do país oprimido e os que fora dele lhes abrem os braços; seria a de reunir-se ali, apagadas com o anelo do saber as marcas todas do cansaço do dia, os que dos livros não querem conhecer a mera letra pedante, mas tirar-lhes o espírito com os fogos e choques da conversação, ou ensinar aos que sabem menos, ou aprender mais do que se sabe; seria a de juntar-se ali, sem lisonja de alguns nem humilhação de outros, mas com os olhares no mesmo nível, os filhos dos que foram injustos e os daqueles que padeceram a injustiça.” (MARTÍ, 2007, p.  118-119)

A SER CONTINUADO…
Carli – 25/01/2017


SIGA VIAGEM… NO CINEMA:


SIGA VIAGEM: INÉDITOS VIÁVEIS – A Utopia Como Síntese Entre Denúncia e Anúncio no Pensamento de Paulo Freire


BIBLIOGRAFIA

FREIRE, P.  Ação Cultural Para A Liberdade. Paz & Terra: 2015, 15ª edição.

MARTÍ, J. A Idade de Ouro – Escritos Para Crianças. In: Educação em Nossa América – Textos Selecionados. Unijuí: 2007.

MARTÍ, J. As segundas-feiras de “A Liga”. In: Educação em Nossa América – Textos Selecionados. Unijuí: 2007.

STRECK, D. “José Martí e o imaginário pedagógico latino-americano – introdução para uma leitura pedagógica.” Unijuí, 2007.

P.S. – As fotografias que abrem e fecham esta publicação representam uma escultura, Meñique, baseada na obra de Martí, localizada no parque La Edad de Oro, em Artemisa, Cuba. Encontrei no site do artista visual Karroll Williams.

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ARDER ATÉ AS CINZAS, RENASCER COMO FÊNIX: A potência da palavra povoada de Violeta Parra (1917-1967)

ARDER ATÉ AS CINZAS, RENASCER COMO FÊNIX:
A POTÊNCIA DA PALAVRA POVOADA DE VIOLETA PARRA
por Eduardo Carli de Moraes

“…toda palavra se não tem brasa
se desprende e cai da árvore do tempo.”
PABLO NERUDA
citado por Antonio Skármeta em A Insurreição
(Cap. XXV, p. 189, ed. Francisco Alves, 1983)

Visitar o Chile ao raiar de 2017, aos 100 anos do nascimento de VIOLETA PARRA (1917-1967), foi ótima ocasião para uma imersão na obra desta magistral multi-artista, uma das mais celebradas cantautoras chilenas do século XX, capaz de incendiar sua palavra com seu brilhantismo e seu ânimo a ponto dela não cair da árvore do tempo.  Já se passaram 50 anos desde seu suicídio em 1967, mas Violeta Parra revela, no ano deste seu centenário, a capacidade de resiliência e de renovada atualidade que é o dom das obras rotuladas de clássicas. A travessia por Valparaíso e Santiago revelou-me um país que alimenta a chama da memória da querida presença desta violeta ainda em flor.

Em Santiago, onde há museu consagrado a ela, havia vistosa homenagem: bem maior que um mísero outdoor, um gigante painel fotográfico (foto acima) decorava de alto a baixo o frontispício de um prédio na Avenida Libertador Bernardo O’Higgins, a via que dá acesso ao palácio presidencial La Moneda e onde o estouro de fuegos artificiales reúne a maior muvuca comemorativa do reveillon em Santiago.

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Em várias livrarias chilenas, exposto em vitrines e outros locais de destaque, marcava presença o belíssimo livro publicado pela Universidade de Valparaíso, em parceria com a Fundación Violeta Parra: Poesia (capa dura, 472 pgs). Trouxe-o comigo para servir não só como companheiro de viagem, mas como camarada na vida. Comprado na Libreria Crisis, em frente ao Congresso Nacional (Valparaíso), o livro abre janelas para a descoberta de imensos tesouros da arte popular latino-americana tão brilhantemente condensados nas canções e poemas de Parra.

Nascida no Outubro da Revolução Bolchevique de 1917, Violeta Parra terá o ano de 2017 a ela dedicado no Chile, pátria-mãe que mostra-se repleta de gratidão pela vida e pelo legado de uma de suas figuras culturais de maior relevo e importância, algo comunicado com muita potência por Paula Miranda, que destaca a influência da Teologia da Libertação tanto quanto da canção que é catarse em meio à dor e ao desamparo:

Pintura de Claudia Martinez dedicada a Violeta Parra: "Dulce Vecina De La Verde Selva"

Pintura de Claudia Martinez dedicada a Violeta Parra: “Dulce Vecina De La Verde Selva”

“Su gesto más revolucionario es abandonar progresivamente la función otorgada por el capitalismo a la canción y al arte en general, como mero accesorio artístico y de del espetáculo, para convertirlos en lugares de denuncia de las injusticias sociales y de los abusos de los poderosos, que protesta por los pobres  y redime los mártires que se han enfrentado al orden imperante: Lumumba, García Lorca, Vicente Peñaloza, Zapata, Rodríguez y Recabarren. Hay algo aquí de la teología de la liberación de la época, pero más de los valores que ha adquirido Violeta Parra de la cultura religiosa campesina: compasión, solidariedad, sacrificio, salvación, imagen de un Dios muy cercano, redentor. Hay algo também de la canción que cumple su función catártica em medio del dolor y del desamparo.” – PAULA MIRANDA (PUC-Chile), In: PARRA, Poesia, V. Valparaíso, 2016, p. 27.

Assim como o cantor e compositor Victor Jara, assassinado após o golpe de Setembro de 1973, prossegue cultuado por velhas e novas gerações (“Victor Jara será eterno”, li pintado na mochila de uma guria no metrô…), Violeta Parra também é homenageada com altos louros pelos chilenos. É descrita como “imortal”, comparada em sua maestria verbal a alguns dos luminares principais doa poesia do Chile, como Gabriela Mistral, Pablo Neruda e Nicanor Parra (irmão mais velho de Violeta). Em artigo publicado em El País, Rocío Montes escreveu:

A chilena Violeta Parra (San Fabián de Alico, 1917; Santiago do Chile, 1967) viveu múltiplas vidas ao longo de seus 49 anos. Foi cantora e compositora, ofício pelo qual foi mais reconhecida, mas também compiladora de música folclórica e artista plástica. No centenário de seu nascimento – celebrado neste ano no Chile com a publicação de livros sobre sua obra, festivais, concertos, exposições e congressos internacionais –, o país a homenageia como uma criadora diversa e promove o reconhecimento de seu legado sob uma perspectiva integral. “Por que Violeta Parra transcende?”, pergunta-se a pesquisadora Paula Miranda, uma das maiores especialistas em sua figura. “Porque tem um trabalho com a palavra muito sofisticado. A dimensão poética está presente em toda sua obra”.

Miranda fala de Violeta Parra como uma das melhores poetas da música e ressalta que a discussão sobre a entrega do Nobel de Literatura a Bob Dylan no ano passado também poderia valer para a cantora e compositora chilena: “Existe muita poesia fora dos livros e a poesia, além do mais, era cantada em sua origem”. Miranda, doutora em Literatura e autora do estudo La Poesía de Violeta Parra, publicado em 2013, cita como exemplo um dos hinos mais conhecidos da criadora: “A poesia em sua máxima expressão é aquela que consegue transformar o mundo, e isso é o que Parra faz em “Gracias a la Vida”. Por um lado agradece e, por outro, tenta retribuir algo que recebeu da vida. Sua arte não é de adorno, nem de entretenimento, mas de reflexão e emoção. Acompanha as dores e os amores humanos”, diz a pesquisadora. [LEIA O ARTIGO COMPLETO]

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Em seu texto Arder Hasta Las Cenizas, Rosabetty Muñoz, pesquisadora da obra de V. Parra, sugere que ela viveu “no tempo do asco”, sempre junto ao pueblo e suas luchas, na convicção de que o artista trabalha flamejando nas chamas da coletividade a que pertence. É preciso arder até as cinzas para dar à luz algumas pérolas de imorredoura poesia, renascente como Fênix. Só as palavras em brasa, incendiadas pela vivacidade dos afetos da gente verdadeira, são capazes de seguir dependuradas na árvore do tempo, nutrindo as gerações que se sucedem como um milagroso fruto cujo sumo não se esgota mesmo se sorvido por um milhão de bocas. Escreve Muñoz, rememorando o impacto da obra de Violeta Parra sobre seus contemporâneos:

“Así la conocí: su poesía se abrió con la ferocidad propia de un tiempo que exigía de nosotros una ligazón entre la palabra y la historia, un compromiso com el presente que ella tenía claro. (…) ‘No puede ni el más flamante / pasar en indiferencia / si brilla en nuestra conciencia / amor por los semejantes.’ (…) El el tiempo del asco (como lo llamó Stella Díaz Varin) necesitábamos voces mayores y los versos de Violeta llovieron cargados de integridad. Así como tenía claro el lugar del creador (lejos de los privilegiados, cerca de los suyos) también declara ferviente la dirección que tomarán sus llamas líricas en la lucha por denunciar y marcar los daños: ‘entre más injusticia, señor fiscal / más fuerzas tiene mi alma para cantar.'” – R. MUÑOZ, Violeta Parra: Arder Hasta Las Cenizas. p. 11-12

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“Seus trabalhos foram a base para o desenvolvimento do movimento estético-musical-político chamado de Nova Canção Chilena, do qual fizeram parte também Victor Jara, Rolando Alarcón, e Patricio Manns, além dos grupos Inti-Ilimani e Quilapayún.” – Portal Vermelho

O livro traz em sua capa uma das obras realizadas por Violeta no âmbito das artes visuais, outro domínio onde ela também expressou sua fecunda criatividade, em especial em tapeçarias cuja técnica ela aprendeu com sua mãe, tecedora de raízes indígenas e vinculada ao povo Mapuche. Muitas das tapeçarias violetianas foram expostas em Paris, no Museu de Artes Decorativas do Louvre, reaparecendo também no início dos capítulos do livro. Confira abaixo algumas reproduções das obras:

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O cinema também reavivou Violeta há alguns anos com a bela biopic Violeta Se Fue Aos Cielos (2011), de Andrés Wood (o mesmo diretor de Machuca), em que Parra foi interpretada por Francisca Gavillan. O filme  saiu consagrado no badalado festival de Sundance, colheu farta bilheteria em seu país de origem e tem mérito duradouro não só como competente esforço biográfico e dramatúrgico, mas por oferecer uma convidativa porta de entrada para quem deseja descobrir mais a fundo a vida e a obra de Violeta.

Do filme de Andrés Wood eu destacaria algumas cenas e citações que me parecem memoráveis. Em uma entrevista televisiva, Violeta Parra revela muito de suas convicções políticas e estéticas. Sobre as primeiras, quando o jornalista lhe pergunta se ela é comunista, ela brinca: “Camarada, eu sou tão comunista que, se me derem um tiro, o meu sangue sai vermelho…” Achando graça da resposta, seu interlocutor contesta: “Ora, o meu sangue também sairia vermelho…” Ao que ela retruca, estendendo a mão para cumprimentá-lo: “Que bom, camarada!”

Em outro momento da entrevista re-encenada no filme, o entrevistador pede que ela dê conselhos a jovens artistas. Ela então aconselha: “A criação é um pássaro sem plano de vôo e que nunca voará em linha reta.” Longe dos conservatórios onde a música é ensinada com formalismo e rígida disciplina, Violeta Parra buscou sua pedagogia poético-musical através da imersão junto à gente comum, em meio ao “povão”, indo beber na fonte de campesinos e Mapuches, tendo realizado monumental trabalho como compiladora do folclore del pueblo. 

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Em um dos momentos mais tocantes de Violeta Fue A Los Cielos, podemos testemunhar longas e árduas caminhadas que Violeta fazia para chegar até as moradias campestres de idosos aos quais solicitava, com doçura e interesse, que compartilhassem com ela canções de tempos idos. Um senhor recusa-se terminantemente a ajudar: havia feito um juramento de nunca mais cantar desde que seu netinho havia morrido.

Empregando toda a sedução sincera de alguém que enxerga valor imenso naquilo que o velhinho trazia enclausurado em seu crânio, Violeta busca convencer-lhe a compartilhar os tesouros musicais e poéticos que, caso não sejam cantados e anotados em um caderninho, podem perder-se para sempre. É esta percepção de que os tesouros da tradição estão ameaçados pelo trator impiedoso da modernização, de que os depositários de cancioneiros de tempos idos estão caindo no túmulo e levando consigo canções e poemas irrecuperáveis, que faz de Violeta uma infatigável pesquisadora da cultura popular. Ela parece pesquisar na certeza de que é frágil e efêmero o depositário carnal das canções cuja chama está sob ameaça de para sempre apagar-se.

Estas cenas são comovedoras por revelarem uma Violeta Parra que é o avesso e o antônimo da popstar que recebe de magnatas da indústria e de fabricadores profissionais de hits as receitas prontas para os sucessos comerciais fáceis. Revelam uma trabalhadora em prol da memória, uma folclorista que foi em andanças pelo Chile afora para pesquisar a fundo a música, a dança e a lírica que o povão havia conservado por gerações, transmitido língua a língua sem ter nunca conseguido fixar-se em partitura e ganhar assim chances maiores de sobrevivência. Sua capacidade de escuta e de interesse evocou em mim a lembrança de um dos melhores filmes brasileiros de cinema verdade já realizados: O Fim e o Princípio, de Eduardo Coutinho.

Quando Andrés Wood filma o velhinho, antes relutante em cantar e teimoso em seu silêncio juramentado, a cantar no velório de um bebê morto, é como se criasse um emblema para o mérito do labor de Violeta Parra: ela resgatou do esquecimento algumas pérolas que, sem ela, estariam mortas para sempre, oferecendo assim inestimável contribuição para a condensação cultural de uma miríade de manifestações culturais de seu povo (no Brasil, trabalhos similares foram empreendidos por um Mário de Andrade, por uma Ecléa Bosi, dentre tantos outros…).

Cena do filme de Andrés Wood

Cena do filme de Andrés Wood

A morte de um filho bebê, como narra o filme, serviu também para que Violeta, em meio aos tormentos do luto, compusesse uma de suas canções mais memoráveis – “Rin del Angelito”, célebre na versão do Inti-Illimani (ouça abaixo). Longe de qualquer pregação gospel, a canção é ainda assim uma reflexão religiosa sobre o después da “morte da carne”, cheia de um conteúdo consolador que vincula-se às ancestrais doutrinas de transmigração da alma. 

Da doutrina indiana do karma às crenças da seita do filósofo grego Pitágoras, a transmigração da alma ou metempsicose é um corpo de artigos de fé de uma ancestralidade que não sai de moda. No caso de Violeta, ela explora uma modalidade bastante latino-americana desta fé, afirmando uma espécie de panteísmo panpsiquista em que a alma do angelito falecido pode penetrar num passarinho ou num “peixinho novo”:

Ya se va para los cielos
ese querido angelito
a rogar por sus abuelos
por sus padres y hermanitos.
Cuando se muere la carne
el alma busca su sitio
adentro de una amapola
o dentro de un pajarito.

La tierra lo está esperando
con su corazón abierto
por eso es que el angelito
parece que está despierto.
Cuando se muere la carne
el alma busca su centro
en el brillo de una rosa
o de un pececito nuevo.

En su cunita de tierra
lo arrullará una campana
mientras la lluvia le limpia
su carita en la mañana.
Cuando se muere la carne
el alma busca su diana
en el misterio del mundo
que le ha abierto su ventana.

Las mariposas alegres
de ver el bello angelito
alrededor de su cuna
le caminan despacito.
Cuando se muere la carne
el alma va derechito
a saludar a la luna
y de paso al lucerito.

Adónde se fue su gracia
y a dónde fue su dulzura
porque se cae su cuerpo
como la fruta madura.
Cuando se muere la carne
el alma busca en la altura
la explicación de su vida
cortada con tal premura,
la explicación de su muerte
prisionera en una tumba.
Cuando se muere la carne
el alma se queda oscura.

De sua arte, tão enraizada nas tradições mas tão aberta também às invenções, “brotam luzes” – ainda que não haja escassez de sombras. É nesse jogo de claro e escuro que desenha-se a profundidade e a densidade destas composições que vão muito além e muito mais fundo do que a rasidão e a estreiteza a que estão limitadas as canções comerciais.

Ouçam, por exemplo, a emblemática “Cantores Que Reflecionam”, do álbum Las Últimas Composiones, um dos mais importantes discos na história da música chilena, uma daquelas poesias que não podem ser reduzidas a mera “letra de música”, já que os versos se sustentam perfeitamente em seu próprio mérito:

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En la prisión de la ansiedad
medita un astro en alta voz.
Gime y se agita como león,
como queriéndose escapar.
¿De dónde viene su corcel
con ese brillo abrumador?
Parece falso el arrebol
que se desprende de su ser.
«Viene del reino de Satán
–toda su sangre respondió–.
Quemas el árbol del amor,
dejas cenizas al pasar».

Va prisionero del placer
y siervo de la vanidad.
Busca la luz de la verdad,
mas la mentira está a sus pies.
Gloria le tiende terca red
y le aprisiona el corazón
en los silencios de su voz
que se va ahogando sin querer.
La candileja artificial
le ha encandilado la razón:
¡dale tu mano, amigo Sol,
en su tremenda oscuridad!

¿Qué es lo que canta? –digo yo.
No se consigue responder.
Vana es la abeja sin su miel,
vana la hoz sin segador.
¿Es el dinero alguna luz
para los ojos que no ven?
«Treinta denarios y una cruz»
–responde el eco de Israel.
¿De dónde viene tu mentir
y adónde empieza tu verdad?
Parece broma tu mirar;
llanto parece tu reír.

Y su conciencia dijo al fin:
«Cántale al hombre en su dolor,
en su miseria y su sudor
y en su motivo de existir».
Cuando del fondo de su ser
entendimiento así le habló,
un vino nuevo le endulzó
las amarguras de su hiel.
Hoy es su canto un azadón
que le abre surcos al vivir,
a la justicia en su raíz
y a los raudales de su voz.

En su divina comprensión
luces brotaban del cantor.

(1965-1966. In: Ultimas Composiones)

Não parece ser por mero saudosismo, típico de gente preocupada em tirar o pó dos vinis antigos, que os chilenos celebram Violeta Parra, mas sim pois esta obra tem resiliência e atualidade. Versos que ela escreveu em protesto ao presidente Ibañez (1877 – 1960), figura massacrada pelo escárnio do cineasta Alejandro Jodorowsky em seu ciclo de autobiografias surreais A Dança da Realidade Poesia Sem Fim – também servem para atacar a ditadura militar capitaneada por Pinochet entre o golpe de 1973 e o plebiscito de 1988. Já a celebração “Me Gustan Los Estudiantes” – regravada muitas vezes na América Latina, com destaque para versões de Mercedes Sosa e dos grupos corais brasileiros MPB4 & Quarteto em Cy – foi considerada apta a ilustrar vídeos no Youtube que revelam os levantes estudantis entre 2011-2014:

Que vivan los estudiantes,
jardín de las alegrías.
Son aves que no se asustan
de animal ni policía,
y no le asustan las balas
ni el ladrar de la jauría.
Caramba y zamba la cosa,
que viva la astronomía.

Que vivan los estudiantes
que rugen como los vientos
cuando les meten al oído
sotanas o regimientos,
pajarillos libertarios
igual que los elementos.
Caramba y zamba la cosa,
que vivan los experimentos.

Me gustan los estudiantes
porque son la levadura
del pan que saldrá del horno
con toda su sabrosura
para la boca del pobre
que come con amargura.
Caramba y zamba la cosa,
viva la literatura.

Me gustan los estudiantes
porque levantan el pecho
cuando les dicen harina
sabiéndose que es afrecho,
y no hacen el sordomudo
cuando se presenta el hecho.
Caramba y zamba la cosa,
el Código del Derecho.

Me gustan los estudiantes
que marchan sobre las ruinas;
con las banderas en alto
va toda la estudiantina.
Son químicos y doctores,
cirujanos y dentistas.
Caramba y zamba la cosa,
vivan los especialistas.

Me gustan los estudiantes
que van al laboratorio.
Descubren lo que se esconde
adentro del confesorio.
Ya tiene el hombre un carrito
que llegó hasta el purgatorio.
Caramba y zamba la cosa,
los libros explicatorios.

Me gustan los estudiantes
que con muy clara elocuencia
a la bolsa negra sacra
le bajó las indulgencias.
Porque, ¿hasta cuándo nos dura,
señores, la penitencia?
Caramba y zamba la cosa,
que viva toda la ciencia.

 Outra amostra da aptidão da obra de Parra para servir à apropriações criativas é uma canção como “Maldigo De Alto Cielo”: apesar de escrita muito antes do bombardeio ao palácio de La Moneda e os massacres do Setembro de 1973, foi mixada com fotografias do coup que derrubou o governo socialista, legítimo e eleito em eleições democráticas, de Salvador Allende,  em um vídeo com mais de 700.000 visualizações no Youtube (confira em La Pichanga – Música Chilena).

 

Escutar na sequência “Maldigo de Alto Cielo” e “Gracias a La Vida” é experiência inquietante: as duas canções parecem habitar dois pólos extremos, irreconciliáveis, quase como se não pudessem ter sido escritas pela mesma pessoa. Pode parecer paradoxal e absurdo que a mesma Violeta Parra que escreveu um belo hino de gratidão à vida, repleto de amor fati, espécie de símile latinoamericano de “Je Ne Regrette Rien” da francesa Edith Piaf, tenha podido compor algo o folk-punk de intensa malediciência de “Maldigo de Alto Cielo”, em que amaldiçoa tudo – a primavera e os planetas – numa orgia de pessimismo, niilismo e odium fati. Só se surpreenderá quem desconhece as complexidades afetivas que habitam e se digladiam no peito dos poetas.

Nietzsche chegou a dizer que o espírito fértil e fecundo é aquele rico em contradições, e este pensamento me ocorre ao contrastar estas duas canções: ouvi-las revela uma Violeta Parra capaz de explorar um amplo leque de afetos, de encarnar um vasto espectro de atitudes existenciais, que vai da ação de graças, sábia e serena, de “Gracias a La Vida”, à amarga maldição lançada contra o todo do mundo em “Maldigo Del Alto Cielo” por um eu-lírico sofredor, enlutado, deprimido, que ao fim de cada estrofe retorna ao seu lamento-bumerangue, que evoca uma dor imensurável, inquantificável, beirando o inefável.

 “Maldigo” talvez seja a canção que melhor evoca o estado de espírito que pôde conduzir Violeta ao suicídio – que verso pungente é “Maldigo el vocablo amor con toda su porquería!” – pero “Gracias” sintetiza a sabedoria amável e irradiante de uma artista que, para além da morte, tornou-se sol acalentando a vontade de viver dos que hoje segue celebrando seu legado, 100 anos após seu nascimento e 50 anos após sua auto-extinção. O espírito de “Gracias a La Vida” irá inspirar muitas cantoras latinoamericanas – de Mercedes Sosa a Elis Regina – mas Violeta Parra tem muitos espíritos para além da doçura graciosa, incluindo verves mais contestatórias, manifestas em canções de protestos e crítica social de espantosa atualidade.

Evoco alguns exemplos: as promessas demagógicas de políticos sacanas, cheios de falsas promessas e sorrisos hipócritas, são denunciadas em “Miren Cómo Sonrién” (p. 113). São versos que podem ainda hoje ser citados na denúncia de estelionatos eleitorais e que podem inspirar análises sobre os descaminhos da democracia representativa.

Miren cómo sonríen
los presidentes
cuando le hacen promesas
al inocente.
Miren cómo le ofrecen
al sindicato
este mundo y el otro
los candidatos.
Miren cómo redoblan
los juramentos,
pero después del voto,
doble tormento.

Miren el hervidero
de vigilante
para rociarle flores
al estudiante.
Miren cómo relumbran
carabineros
para ofrecerle premios
a los obreros.
Miren cómo se viste
cabo y sargento
para teñir de rojo
los pavimentos.

Miren cómo profanan
las sacristías
con pieles y sombreros
de hipocresía.
Miren cómo blanquearon
mes de María,
y al pobre negreguearon
la luz del día.
Miren cómo le muestran
una escopeta
para quitarle al pueblo
su marraqueta.

Miren cómo se empolvan
los funcionarios
para contar las hojas
del calendario.
Miren cómo gestionan
los secretarios
las páginas amables
de cada diario.
Miren cómo sonríen,
angelicales.
Miren cómo se olvidan
que son mortales.

Já em “Al Centro de la Injusticia”, uma mordaz crítica social, Violeta Parra faz por merecer sua pertença junto aos maiores nomes da canção de protesto em todos os tempos. Apesar de bem menos conhecida do que os norte-americanos (Woody Guthrie, Bob Dylan, Joan Baez), Violeta é uma cantora folk que soube dirigir afiados petardos contra a injustiça social, as barbáries militaristas, os desgovernos autoritários; até mesmo a especulação imobiliária e o turismo alienado são alvo alvejados pela cantautora, e isso décadas antes de estarem na crista da onda os fenômenos da gentrificação:

“Linda se ve la patria, señor turista,
pero no le han mostrado las callampitas.
Mientras gastan millones en un momento,
de hambre se muere gente que es un portento…” (p. 115)

O que torna a obra de Parra tão resiliente, tão capaz de sobreviver aos 50 anos de sua ausência física entre os vivos, talvez seja aquilo que chamo de a potência da palavra povoada. Com isso quero dizer que Violeta Parra não é simplesmente uma poetisa que expressa afetos e impressões individuais, não é apenas um eu isolado que fala sobre si, mas sim alguém que põe o seu verbo e sua voz, sua verve e sua arte, em contato íntimo e cotidiano com todo um povo.

Sua poesia busca amplificar a potência e disseminar a sabedoria de uma coletividade que atravessa as gerações, ainda que o precioso trabalho de resgate dos tesouros acumulados pela tradição não impeça que Violeta seja também inventiva e recriadora. Como Maiakóvski, que em célebre poema fazia-se caixa de ressonância para 150 milhões de russos, Parra besunta-se com os chilenos para tecer seus cantos. Por isso, ouvi-la é mais que ouvir uma mulher de extraordinário talento, é entrar em contato com a pulsação viva de todo um pueblo em seu esforço de criar beleza imorredoura e palavras que não vão cair da árvore do tempo.

Carli – Janeiro de 2017


OUÇA: DOWNLOAD GRATUITO
Antología: Grabaciones originales en EMI Odeon 1954-1966

De modo a contribuir para disseminar a obra de Violeta Parra na blogosfera do Brasil, A Casa de Vidro realiza um pequeno ato de cyberdelinquência e oferta a todos a versão pirata deste BOX de 4 CDs, uma das melhores coletâneas já lançadas como panorâmica da criação Parriana entre 1954 e 1966. São quase 5 horas de música e o download é inteiramente gratuito. Boa audição!

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CD 1: CLICK AQUI PARA BAIXAR EM MP3 DE 320kps. Canções: 1. La petaquita; 2. Son tus ojos; 3. El sacristán; 4. El bergantín; 5. A dónde vas, jilguerillo; 6. Si lo que amo tiene dueño; 7. Casamiento de negros; 8. Tonada del medio; 9. Atención, mozos solteros; 10. Bella joven; 11. El joven para casarse;  12. Cuando salí de mi casa; 13. El palomo; 14. Hay un estero de vino (por ponderación); 15. Blanca, Flor y Filomena; 16. Adiós, corazón amante; 17. Qué pena siente el alma; 18. Ya me voy a separar; 19. Ausencia; 20. Cuando deja de llover; 21. Es aquí o no es aquí; 22. La inhumana; 23. Parabienes al revés; 24. Un reo siendo variable; 25. No habiendo como la maire.

CD 2: CLICK AQUI PARA BAIXAR EM MP3 DE 320kps. Canções: 1. Una naranja me dieron; 2. Verso por la sagrada escritura; 3. Verso por las doce palabras; 4. Viva Dios, viva la Virgen; 5. Las naranjas; 6. Viva la luz de Don Creador; 7. La jardinera; 8. Adiós que se va segundo; 9. Tonada por ponderación; 10. Cuándo habrá cómo casarse; 11. El jardinario; 12. Cueca valseada; 13. La cueca larga (Las Hermanas Parra); 14. La Juana Rosa; 15. La muerte con anteojos; 16. Amada prenda; 17. Las tres pollas negras; 18. Paloma ingrata; 19. Si te hallas arrepentido; 20. Niña hechicera; 21. Allá en la pampa argentina; 22. Verso por desengaño; 23. Verso por despedida a Gabriela; 24. Verso por el Rey Asuero.

CD 3: CLICK AQUI PARA BAIXAR EM MP3 DE 320kps. Canções: 1. Verso por la niña muerta; 2. Verso por padecimiento; 3. Verso por saludo; 4. Violeta ausente; 5. Viva el chapecao; 6. Yo tenía en mi jardín; 7. Cueca larga de Los Meneses; 8. En el norte corrió vino; 9. Entre San Juan y San Peiro; 10. Hay una ciudad muy lejos; 11. Tan demudado te he visto; 12. He recibido carta; 13. Imposible que la luna; 14. La Monona; 15. Los paires saben sentir; 16. Por el fin del mundo; 17. Por padecimiento; 18. Qué t’estai pensando, ingrato; 19. Huyendo voy de tus rabias; 20. Qué te trae por aquí; 21. Amigos tengo por cientos; 22. Por la mañanita; 23. El chuico y la damajuana; 24. Por pasármelo toman…; 25. El día de tu cumpleaños.

CD 4: CLICK AQUI PARA BAIXAR EM MP3 DE 320kps. Canções: 1. Las flores; 2. 21 son los dolores; 3. Los mandamientos; 4. El hijo arrepentido; 5. El pueblo; 6. Galambo temucano; 7. Maldigo del alto cielo; 8. Yo canto a la diferencia; 9. Miren cómo se ríen; 10. Arauco tiene una pena; 11. Y arriba quemando el sol; 12. A la una; 13. Escúchame, pequeño; 14. La pericona se ha muerto; 15. Los pueblos americanos; 16. Mañana me voy pa’l norte; 17. Paloma ausente; 18. Por ésta y otras razones; 19. Qué dirá el Santo Padre; 20. Se juntan dos palomitas; 21. Pedro Urdemales; 22. Según el favor del viento; 23. Una chilena en París; 24. Qué he sacado con quererte; 25. Tocata y fuga; 26. El moscardón.

SAIBA MAIS: MEMÓRIAS DA DITADURALIBERTAD DIGITAL – SHE SHREDSLIVIN SANTIAGOPORTAL VERMELHO.

5 MATÉRIAS RELEVANTES DA IMPRENSA INTERNACIONAL SOBRE O “GOLPE DE ESTADO” NO BRASIL: The Guardian (UK), Glenn Greenwald (EUA), L’Humanité (França), Al Jazeera, CNN

I. THE GUARDIAN (Inglaterra) – Opinião de David Miranda

“A história da crise política no Brasil, e a mudança rápida da perspectiva global em torno dela, começa pela sua mídia nacional. A imprensa e as emissoras de TV dominantes no país estão nas mãos de um pequeno grupo de famílias, entre as mais ricas do Brasil, e são claramente conservadoras. Por décadas, esses meios de comunicação têm sido usados em favor dos ricos brasileiros, assegurando que a grande desigualdade social (e a irregularidade política que a causa) permanecesse a mesma.

Aliás, a maioria dos grandes grupos de mídia atuais – que aparentam ser respeitáveis para quem é de fora – apoiaram o golpe militar de 1964 que trouxe duas décadas de uma ditadura de direita e enriqueceu ainda mais as oligarquias do país. Esse evento histórico chave ainda joga uma sombra sobre a identidade e política do país. Essas corporações – lideradas pelos múltiplos braços midiáticos das Organizações Globo – anunciaram o golpe como um ataque nobre à corrupção de um governo progressista democraticamente eleito. Soa familiar?

Por um ano, esses mesmos grupos midiáticos têm vendido uma narrativa atraente: uma população insatisfeita, impulsionada pela fúria contra um governo corrupto, se organiza e demanda a derrubada da primeira presidente mulher do Brasil, Dilma Rousseff, e do Partido dos Trabalhadores (PT). O mundo viu inúmeras imagens de grandes multidões protestando nas ruas, uma visão sempre inspiradora.

Mas o que muitos fora do Brasil não viram foi que a mídia plutocrática do país gastou meses incitando esses protestos (enquanto pretendia apenas “cobri-los”). Os manifestantes não representavam nem de longe a população do Brasil. Ao contrário, eles eram desproporcionalmente brancos e ricos: as mesmas pessoas que se opuseram ao PT e seus programas de combate à pobreza por duas décadas.

Aos poucos, o resto do mundo começou a ver além da caricatura simples e bidimensional criada pela imprensa local, e a reconhecer quem obterá o poder uma vez que Rousseff seja derrubada. Agora tornou-se claro que a corrupção não é a razão de todo o esforço para retirar do cargo a presidente reeleita do Brasil; na verdade, a corrupção é apenas o pretexto.

O partido de Dilma, de centro-esquerda, conseguiu a presidência pela primeira vez em 2002, quando seu antecessor, Lula da Silva, obteve uma vitória espetacular. Graças a sua popularidade e carisma, e reforçada pela grande expansão econômica do Brasil durante seu mandato na presidência, o PT ganhou quatro eleições presidenciais seguidas – incluindo a vitória de Dilma em 2010 e, apenas 18 meses atrás, sua reeleição com 54 milhões de votos.

RATOS

Brasília: mais de 80.000 manifestantes anti-golpe nas ruas em 17 de Abril de 2016, quando a Câmara dos Deputados aprovou o processo de impeachment

Brasília: mais de 80.000 manifestantes anti-golpe nas ruas em 17 de Abril de 2016, quando a Câmara dos Deputados aprovou o processo de impeachment

A elite do país e seus grupos midiáticos fracassaram, várias vezes, em seus esforços para derrotar o partido nas urnas. Mas plutocratas não são conhecidos por aceitarem a derrota de forma gentil, ou por jogarem de acordo com as regras. O que foram incapazes de conseguir democraticamente, eles agora estão tentando alcançar de maneira antidemocrática: agrupando uma mistura bizarra de políticos – evangélicos extremistas, apoiadores da extrema direita que defendem a volta do regime militar, figuras dos bastidores sem ideologia alguma – para simplesmente derrubarem ela do cargo.

Inclusive, aqueles liderando a campanha pelo impeachment dela e os que estão na linha sucessória do poder – principalmente o inelegível Presidente da Câmara Eduardo Cunha – estão bem mais envolvidos em escândalos de corrupção do que ela. Cunha foi pego ano passado com milhões de dólares de subornos em contas secretas na Suíça, logo depois de ter mentido ao negar no Congresso que tivesse contas no exterior. Cunha também aparece no Panamá Papers, com provas de que agiu para esconder seus milhões ilícitos em paraísos fiscais para não ser detectado e evitar responsabilidades fiscais.

É impossível marchar de forma convincente atrás de um banner de “contra a corrupção” e “democracia” quando simultaneamente se trabalha para instalar no poder algumas das figuras políticas mais corruptas e antipáticas do país. Palavras não podem descrever o surrealismo de assistir a votação no Congresso do pedido de impeachment para o senado, enquanto um membro evidentemente corrupto após o outro se endereçava a Cunha, proclamando com uma expressão séria que votavam pela remoção de Dilma por causa da raiva que sentiam da corrupção.

Como o The Guardian reportou: “Sim, votou Paulo Maluf, que está na lista vermelha da Interpol por conspiração. Sim, votou Nilton Capixaba, que é acusado de lavagem de dinheiro. ‘Pelo amor de Deus, sim!’ declarou Silas Câmara, que está sob investigação por forjar documentos e por desvio de dinheiro público.”

Mas esses políticos abusaram da situação. Nem os mais poderosos do Brasil podem convencer o mundo de que o impeachment de Dilma é sobre combater a corrupção – seu esquema iria dar mais poder a políticos cujos escândalos próprios destruiriam qualquer carreira em uma democracia saudável.

Um artigo do New York Times da semana passada reportou que “60% dos 594 membros do Congresso brasileiro” – aqueles votando para a cassação de Dilma- “enfrentam sérias acusações como suborno, fraude eleitoral, desmatamento ilegal, sequestro e homicídio”. Por contraste, disse o artigo, Rousseff “é uma espécie rara entre as principais figuras políticas do Brasil: Ela não foi acusada de roubar para si mesma”.

O chocante espetáculo da Câmara dos Deputados televisionado domingo passado recebeu atenção mundial devido a algumas repulsivas (e reveladoras) afirmações dos defensores do impeachment. Um deles, o proeminente congressista de direita Jair Bolsonaro – que muitos esperam que concorra à presidência e em pesquisas recentes é o candidato líder entre os brasileiros mais ricos – disse que estava votando em homenagem a um coronel que violou os direitos humanos durante a ditadura militar e que foi um dos torturadores responsáveis por Dilma. Seu filho, Eduardo, orgulhosamente dedicou o voto aos “militares de 64” – aqueles que lideraram o golpe.

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Até agora, os brasileiros têm direcionando sua atenção exclusivamente para Rousseff, que está profundamente impopular devido a grave recessão atual do país. Ninguém sabe como os brasileiros, especialmente as classes mais pobres e trabalhadoras, irão reagir quando verem seu novo chefe de estado recém-instalado: um vice-presidente pró-negócios, sem identidade e manchado de corrupção que, segundo as pesquisas mostram, a maioria dos brasileiros também querem que seja cassado.

O mais instável de tudo, é que muitos – incluindo os promotores e investigadores que tem promovido a varredura da corrupção – temem que o real plano por trás do impeachment de Rousseff é botar um fim nas investigações em andamento, assim protegendo a corrupção, invés de puni-la. Há um risco real de que uma vez que ela seja cassada, a mídia brasileira não irá mais se focar na corrupção, o interesse público irá se desmanchar, e as novas facções de Brasília no poder estarão hábeis para explorar o apoio da maioria do Congresso para paralisar as investigações e se protegerem.

Por fim, as elites políticas e a mídia do Brasil têm brincado com os mecanismos da democracia. Isso é um jogo imprevisível e perigoso para se jogar em qualquer lugar, porém mais ainda em uma democracia tão jovem com uma história recente de instabilidade política e tirania, e onde milhões estão furiosos com a crise econômica que enfrentam.”

* * * * *

II. L’HUMANITÉ (FRANÇA)

“Até recentemente golpes de estado, na América Latina, levantavam com razão uma onda de indignação. E agora. Como será? Depois de Honduras, em 2009, e do Paraguai, em 2012, agora é o Brasil que está às voltas com um golpe de estado institucional, e os motivos oficiais são mais do que obscuros.

Pode-se apostar que a ex-guerrilheira, que conheceu a prisão durante a ditadura militar (1964-1985), não renunciará às suas funções, a despeito das adversidades. E as direções dos partidos políticos que apoiam o Parido dos Trabalhadores, no poder, deverão se reunir nesta semana, da mesma forma como os movimentos sociais mobilizados nos últimos meses, em favor da democracia.

Mais de 100.000 pessoas se manifestam contra o impeachment de Dilma Rousseff no Recife, Pernambuco, em 24 de Abril de 2016.

Mais de 100.000 pessoas em manifestação no Recife, Pernambuco, em 24 de Abril de 2016.

Nada está escrito. A presidenta Dilma Rousseff “lutará ao lado de todos os que defendem a democracia no Brasil. Uma pessoa que acredita em causas como estas vai até o fim da luta para escrever uma história da qual não se afasta. Se é vítima de uma ação orquestrada (…) cabe a ela lutar com todas as forças para evitar uma brecha na democracia que foi duramente conquistada”, alertou o ministro José Eduardo Cardozo, após o voto pela remoção da inquilina do Palácio do Planalto. Cabe agora ao Senado decidir sobre este processo. Uma maioria simples será suficiente para excluir Dilma Rousseff, durante 180 dias, enquanto durar seu “julgamento” parlamentar. E o vice-presidente Michel Temer, no caso do impeachment, seria o interino. Aconteça o que acontecer, os partidários da presidenta, e da esquerda, não desistirão de dizer que a acusação é vazia.

Um voto dedicado ao sinistro carrasco Ustra

Ao contrário do que repete a direita brasileira, Dilma Rousseff não é acusada pelos escândalos de corrupção que minam a sociedade brasileira. A direita e ex-aliados do Partido dos Trabalhadores (PT), como o Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) se aproveitam do mecanismo de destituição para afastar a esquerda e chegar ao poder que as urnas não lhes dá desde 2003.

Para isso, a presidenta deve ser reconhecida como responsável por um crime, ou um delito, de responsabilidade. As acusações feitas pelos detratores de Dilma Rousseff se baseiam-no fato de que ela teria falhado na execução do orçamento nacional, teria tomado medidas administrativas e financeiras excepcionais, em razão da crise econômica que sacode a oitava economia mundial, para assegurar a manutenção dos programas sociais. Seus antecessores haviam recorrido às mesmas medidas, mas com outros fins políticos, e sem despertar a mesma reprovação.

Os três dias de debate parlamentar que precederam o voto dos deputados demonstraram a grosseira farsa, sob a presidência de Eduardo Cunha, do PMDB, que é acusado pelo Ministério Público de ter contas milionárias na Suíça, depois de desviar dinheiro da companhia nacional de petróleo, a Petrobras.

As justificações dos 367 deputados que se pronunciaram pela destituição da presidenta, contra os 137 favoráveis a ela, dizem muito sobre suas motivações. Esses parlamentares falaram em nome de “Deus”, de sua “tia”, de sua “filha”, ou também em “garantias ao Brasil”. O ex-militar Jair Bolsonaro ousou dedicar seu voto ao coronel Ustra, sinistro carrasco reconhecido como tal pela justiça, pelas torturas que praticou durante a ditadura brasileira (1964-1985). Outros também votaram pela destituição achando que assim colocariam fim à “Central Única dos Trabalhadores e seus marginais”, e para “parar de dar dinheiro aos desempregados”. Para não esquecer: a maioria desses deputados são alvo da justiça, acusados de crimes de corrupção.

Bolsomitos Bolsonazi

A oposição neoliberal não digere a política de Lula

“Tenho vergonha de ser parte desta farsa, desta eleição indireta conduzida por um ladrão, chocada por um traidor e apoiada por torturadores, covardes e analfabetos políticos. Em nome dos direitos da população LGBT, pessoas negras exterminadas na periferia, os trabalhadores da cultura, sem teto, sem-terra, voto contra o golpe “, criticou o deputado Jean Wyllys, do Partido Socialismo e Liberdade, sob vaias homofóbicas da direita.

Uma semana antes, em uma manifestação de apoio a Dilma Rousseff, o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva lembrou que a crise atual é parte da luta de classes no Brasil.

O jornal Zero Hora publicou uma pesquisa recente que revelou o perfil das pessoas que, nas últimas semanas, participaram de manifestações contra a presidenta. Mostrou que 91% são brancos, apenas 27% tem algum membro da família desempregado, 40 % tem renda acima de 10 salários mínimos. Enfim, 76 % votaram no candidato da direita Aécio Neves na última eleição presidencial, de 2014.

Aquela foi a quarta derrota consecutiva da direita depois da primeira eleição vencida pela esquerda desde 2002; ela está na origem do movimento golpista. A oposição neoliberal não digere mais o ciclo progressista iniciado por Lula após a vitória de 2002, a despeito de alguns aspectos controversos de sua gestão. “O que está em jogo não é o meu mandato. (…) O que está em jogo é o respeito da vontade soberana do povo brasileiro, o respeito pelas urnas. O que está em jogo são as conquistas sociais e direitos dos brasileiros “, disse Dilma Rousseff, em discurso à nação, algumas horas antes daquela votação.

Não tendo êxito em anular os resultados da eleição de 2014, depois de exigir uma recontagem dos votos, a direita recorre outra vez aos velhos demônios golpistas.

Fonte: Por Cathy Ceïbe, do L’Humanité, tradução José Carlos Ruy

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III. Glenn Greenwald, jornalista vencedor do Pulitzer Prizes:

NÃO É FÁCIL, para quem olha de fora, compreender todas as argumentações em jogo a respeito da crise política no Brasil e os esforços para depor sua presidente, Dilma Roussef, que venceu as eleições há apenas 18 meses, com 54 milhões de votos. A melhor maneira de entender a verdadeira natureza antidemocrática do que está acontecendo, no entanto, é olhar para a pessoa que os oligarcas brasileiros e suas organizações de mídia tentam empossar como Presidente: o Vice-Presidente Michel Temer, implicado em corrupção, extremamente impopular e servo fiel dos plutocratas. Dessa forma, torna-se claro o que realmente está acontecendo e porque o mundo deveria estar profundamente angustiado.

O chefe do New York Times no Brasil, Simon Romero, entrevistou Temer esta semana, e assim começa seu excelente artigo:

RIO DE JANEIRO – Uma pesquisa recente mostrou que apenas 2% dos brasileiros votariam nele. Ele está sob suspeita por conta de um depoimento que ligou seu nome a um enorme escândalo de propina. E uma alta corte da justiça decidiu que o Congresso deve considerar a abertura de impeachment contra ele. O Vice-Presidente do Brasil Michel Temer está se preparando para assumir o Brasil no próximo mês se o Senado decidir depor a Presidente Dilma Roussef em julgamento.

Como alguém, em pleno domínio da razão, pode acreditar que o sentimento anti-corrupção é o que move os esforços da elite para depor Dilma, quando estão empossando alguém com acusações de corrupção muito mais sérias que as da Presidente? É uma farsa evidente. Mas há algo ainda pior.

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A terceira pessoa na linha de sucessão presidencial, depois de Temer, foi apontada como um corrupto descarado: o fanático evangélico e presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha. Foi ele quem encabeçou os procedimentos do impeachment, embora tenha sido descoberto, no ano passado, por enviar milhões de dólares oriundos de suborno para contas no Swiss Bank, depois de ter mentido ao Congresso quando negou que possuía qualquer conta em bancos estrangeiros. Quando Romero perguntou a Temer sobre sua postura diante de Cunha uma vez que assumisse o poder, ele respondeu assim:

O Sr. Temer defendeu a si mesmo e seus principais aliados que estão sob uma chuva de acusações no esquema. Ele expressou apoio a Eduardo Cunha, o infame líder da Câmara que está chefiando os esforços do impeachment no Congresso, dizendo que não pediria a renúncia a Cunha. O Sr. Cunha será o próximo na linha de sucessão presidencial se Temer sair.

Isso demonstra, por si só, a farsa que está ocorrendo aqui. Como disse meu parceiro, David Miranda, hoje pela manhã em seu editorial no Guardian: “Está claro que a corrupção não é a causa dos esforços para depor a duas vezes eleita presidente; na verdade, a corrupção é um mero pretexto”. Em resposta, as elites da mídia no Brasil vão argumentar (como fez Temer) que, uma vez que Dilma seja impedida, os outros políticos corruptos serão certamente responsabilizados, mas eles sabem que isso não é verdade: e o alarmante apoio de Temer a Cunha deixa isso claro.

De fato, reportagens indicam que Temer planeja nomear, como Advogado Geral da União – cargo chave do Governo na investigação da corrupção – um político especificamente indicado por Cunha para o cargo…

Duas semanas atrás, a agência Reuters reportou que a primeira escolha de Temer para chefiar o Banco Central é o presidente do Goldman Sachs no Brasil, Paulo Leme. Hoje a Reuters reportou que “Murilo Portugal, o chefe do mais poderoso lobby da indústria bancária do Brasil” – e um antigo executivo do FMI, “surgiu como um forte candidato a assumir o Ministério da Fazenda se Temer tomar o poder.” Temer também disse que vai implementar a austeridade para a população do Brasil que vem sofrendo: ele “pretende reduzir o tamanho do governo” e “cortar os gastos.”

Enquanto isso, as organizações de mídia dominantes como Globo, Abril (Veja), Estadão – profundamente discutidas no editorial de Miranda – estão virtualmente unidas no apoio ao impeachment – como em No Dissent Allowed – e têm incitado os protestos de rua desde o início. O que isso revela? Os Repórteres sem Fronteiras publicaram ontem seu Ranking de Liberdade de Imprensa de 2016, e o Brasil aparece em 103° lugar, por conta da violência contra jornalistas, mas, também, por causa deste importante fato: “A propriedade dos meios de comunicação continua muito concentrada, especialmente nas mãos de grandes famílias ligadas à indústria que são, muitas vezes, próximas da classe política”. Não é evidente o que está acontecendo aqui?

Então, em resumo: as elites financeira e midiática do Brasil fingem que a corrupção é a razão para remover a presidente eleita duas vezes, enquanto conspiram para instalar e empoderar as figuras políticas mais corruptas do país. Os oligarcas brasileiros terão êxito em tirar do poder um governo de esquerda moderada que ganhou quatro eleições consecutivas, supostamente representando os pobres do país, e estão literalmente entregando o controle da economia brasileira (a sétima maior do mundo) ao Goldman Sachs e os lobistas da indústria bancária.

A fraude que está sendo levada a cabo aqui é tão barulhenta quanto devastadora. Mas é o mesmo padrão que vem sendo repetidamente observado ao redor do mundo, particularmente na América Latina, quando uma pequena elite trava uma guerra , em seu próprio interesse e proteção, contra os fundamentos da democracia. O Brasil, quinto país mais populoso do planeta, tem sido um exemplo inspirador de como uma jovem democracia pode amadurecer e prosperar. Mas agora, essas instituições e princípios democráticos estão sendo agredidas pelas mesmas facções financeiras e midiáticas que suprimiram a democracia e impuseram a tirania neste país por décadas.” – Glenn Greenwald

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“A razão quando vive solitária gera monstros. Sou um senti-pensante, alguém que intenta atar a emoção e a razão. Conto histórias críticas mas celebrantes. (…) O que mais me fascina na condição humana é sua diversidade. (…) Tudo o que escrevo é na tentativa de recuperação das cores do arco-íris terrestre. Eu creio que o arco-íris terrestre tem muito mais fulgores e cores que o arco-íris celeste. Mas estamos cegos e não o vemos.”

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“O poeta Antônio Machado, em um verso inolvidável, disse: ‘agora qualquer néscio confunde valor e preço’. E este é um sistema em que todos nós temos um preço, e a partir dele se define nosso valor. Ou seja: é um sistema que mente, pois o valor não se mede pelo preço. As coisas mais valiosas podem ser gratuitas.”

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“A fome não é só fome de pão. Há também muita fome de abraço. Este é um mundo esfomeado de pão e abraço. E não seremos humanos, nem deveras democráticos, se não formos capazes de criar um mundo em que não haja fome nem de pão, nem de abraço.”

EDUARDO GALEANO

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