Manuela D’Ávila – “Resistir: o desafio do Brasil” (UFG, 12/03/2019) [Vídeo Completo]

Manuela D’Ávila (PCdoB – Partido Comunista do Brasil), lançando seu livro “Revolução Laura: Reflexões sobre Maternidade e Resistência” (Editora Belas Letras2019: https://bit.ly/2Y2OOpy), palestrou sobre “Resistir: O Desafio do Brasil” na Faculdade de Direito da Universidade Federal de Goiás em 12/03/2019. Uma realização do Caxim – Centro Acadêmico XI de Maio – Faculdade de Direito da UFG. Estivemos lá e te mostramos como foi neste vídeo exclusivo d’A Casa de Vidro (www.acasadevidro.com).

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Manuela D’Ávila em ensaio fotográfico para matéria “Manu Mulher”, da revista VIP.

SOBRE O LIVRO: A maternidade é revolucionária. Este livro é o registro afetivo de uma mulher, mãe de uma criança de dois anos, que aceitou o desafio de concorrer à presidência do Brasil em novembro de 2017 e que, em agosto de 2018, tornou-se candidata a vice-presidente, chegando ao segundo turno. Uma mulher que percorreu um país continental, amamentando sua filha e construindo uma nova forma de ocupação do espaço político. Também é uma conversa, sobre uma jornada de aprendizado e acolhimento. Sobre privilégios; sobre as lutas para que privilégios não existam mais. É sobre direitos. É sobre feminismo e liberdade. É sobre afeto, carreira e amor, porque não tem sentido ser pela metade. É sobre estar e não estar; presença e ausência. Sobre ser mãe e mulher; ser madrasta e não ser bruxa. Sobre acolher, sonhar um outro mundo e ser o outro mundo sonhado. E, profundamente, é sobre uma revolução chamada Laura. Uma revolução de amor, de amor próprio, de potência. Porque depois de gerar um filho não há nada, nadica de nada que uma mulher não possa fazer.

SOBRE A AUTORA: Mãe da Laura, madrasta do Gui, jornalista e mestre em Políticas Públicas. Foi vereadora, deputada federal e estadual, além de candidata a vice-presidente do Brasil na chapa de Fernando Haddad (PT). Lançou recentemente em seu canal no Youtube o programa E Se Fosse Você?, devotado ao combate contra as fake news e a cultura do ódio:


 

RELEMBRE POSTS D’A CASA DE VIDRO: OUTUBRO DE 2018 >>>

A candidatura Bozonazista merece ser impugnada por flagrante e recorrente violação da legislação eleitoral. Não há um pingo de respeito, nem por parte da chapa Bozo/Mourão, nem por parte das hordas de fanatizados Bolsominions, pelas mais básicas regras do Estado Democrático de Direito (aquilo que está hoje com a cabeça na guilhotina e com a lâmina, afiada pela extrema-direita, prestes a despencar).
 
Não me lembro de nenhuma campanha política que tenha sido tão ignóbil na quantidade e canalhice das falsidades que dissemina, no assassinato de reputações que busca realizar, na baixeza de suas táticas de “demonização” do outro. Não é só desrespeitoso e inescrupuloso, ou seja, não é só eticamente execrável; é ilegal, fraudulento, golpista. Algo típico de um grupo político que encarna uma barbárie análoga à da Ku Klux Klan ou das Freikorps. O nome disso é Fascismo e este “marketing” político é uma espécie de cruzamento maligno entre Goebbels e as táticas-Trump que levaram a extremos a lógica da “Pós-Verdade”.
 
Uma enxurrada de mentiras contra a Manu e o Haddad se disseminaram pelas redes, com um impacto gigantesco. As reações tardias e tímidas do TSE colocam apenas um band-aid nessa hemorragia.
 
O Bolsonarismo não tem economizado esforços nem capitais para jogar no lixo qualquer tipo de “fair play”, em uma das campanhas mais sórdidas de que se tem notícia no mundo. Boçalnaro e sua trupe jogam muito sujo, de maneira irresponsável e canalha. Não compreendem que o sufrágio universal é um processo que deve ser precedido por um amplo debate público sobre as propostas concretas dos pretendentes ao governo para que a opinião pública possa tomar uma decisão sensata e bem-informada.
 
Além de fugir dos debates feito um arregão, além de posar de machão e ensinar armamentismo às crianças, além de elogiar torturadores e vomitar misoginias, além de recusar-se a assumir responsabilidade pela onda de crimes cometidos por Bolsominions, o candidato da extrema-direita é uma espécie de mitomaníaco: caso fosse Pinóquio, estaria com o seu nariz batendo lá nos anéis de Saturno.

#EleNão
acasadevidro.com

[Encontro de Culturas 2016 – Txt 07] “Tempo de Kuarup”: documentário revela detalhes do rito Kuarup realizado pelos povos do Alto Xingu

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Fotografias: Mariana Florêncio, X Aldeia Multiétnica / 2016

“TEMPO DE KUARUP”

por Eduardo Carli de Moraes para o XVI Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros

Com direção e roteiro de Neto Borges, patrocínio do MinC (Ministério da Cultura) e do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), o documentário “Tempo de Kuarup” é uma produção da Olho Filmes e foi realizada por uma parceria da Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge, do instituto Darcy Ribeiro e da AWAPÁ – Associação Yawalapiti. O documentário foi uma das atrações do cineclube que integra a programação do XVI Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros e foi exibido, para deslumbre do público, na noite desta quarta-feira, 27 de Julho de 2016. (Assista ao trailer oficial.)

É através do Kuarup, ritual sagrado praticado pelos povos do alto Xingu, que os viventes despedem-se de seus mortos ilustres. “Após o falecimento de um líder notório”, explica o doc, “a comunidade discute a pertinência de realizar o ritual.” Ao manter acesa a chama do Kuarup, honram os costumes dos antigos e expressam uma mitologia própria (saiba mais). Tradições milenares são assim preservadas e perpetuadas, ainda que elementos estranhos e hostis – como projetos hidrelétricos e sua procissão de devastações e etnocídios – rondem, como uma ameaça palpável, essas tribos ancestrais e suas celebrações.

Kuarup é o nome de uma das árvores da floresta que marca presença no ritual sob a forma de três troncos, representativos dos entes queridos que morreram. Os troncos são decorados e pintados pelos Yawalapiti em seus preparativos para uma grande congregação onde recebem na aldeia os convidados de várias outras etnias. Os preparativos para a cerimônia são longos e envolvem os cuidados culinários: a pescaria de uma fartura de peixes, a serem servidos aos convivas, e a preparação de alimentos à base de polvilho e pequi, dentre outros ingredientes. Tudo minuciosamente preparado para a consumação de um Encontrão de tribos durante as festividades Kuarupianas (em 2016, eles até mesmo incluíram uma alfinetada no traíra usurpador e teve #ForaTemer berrado pela pele).

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 A música e a dança são elementos essenciais para o bom andamento do ritual. A música é produzida tanto por chocalhos e maracás, que produzem a percussão e instituem um consenso rítmico, quanto por imensas “flautas” que, de acordo com Aritana Yawalapiti, tem por dono “o espírito da raiz”. Através dos sons, das danças, das pinturas corporais, dos movimentos  coreografados, o filme revela alguns ricos vislumbres da cultura xinguana, dotada de gramática rítmica própria e que expressa toda uma cosmologia, com seus mitos de origem e suas narrativas sobre a vida e a morte, a finitude e a eternidade.

O filme também é eficaz ao fazer a denúncia, sem nenhum panfletarismo ou demagogia, das devastações acarretadas por madeireiras e monoculturas, que vão invadindo e matando a mata, devastando a diversidade sociocultural e aniquilando a biodiversidade de fauna e flora. Revela também a discordância do povo Yawalapiti em relação às barragens hidrelétricas que estão sendo construídas e planejadas para a região do Xingu, devastadores projetos como Belo Monte, obras megalomaníacas que são terríveis para o equilíbrio do ecosistema todo no qual vivem a milênios os povos originários. Não são só os seres humanos que ali (re)existem que estão sendo tratorados pelo Brasil Grande das nossas elites, ecocidas, genocidas, golpistas; a Natureza sofre junto, colapsam seus equilíbrios, por exemplo nos peixes impedidos de realizar sua piracema.

“Tempo de Kuarup” é prova viva da potência do cinema-verdade para agir como expansor de horizontes. A câmera como janela que permite-nos aprender sobre perspectivas alternativas, modos-de-viver de múltiplas outras alteridades, permitindo um contato possível com culturas de densa ancestralidade. E que perpetuam a duras penas a beleza e a força de seus ritos e práticas em tempos sombrios de devastação institucionalizada. É um dos documentários essenciais para quem quer entrar em contato – ainda que mediado pelo audiovisual, o que não dispensa ninguém de outros modos de mais imediata e radical vivência de interação – com a vivacidade da tradição xinguana, que vive e resiste em rituais como o Kuarup. É todo o cotidiano existencial e arranjo político da aldeia Yawalapiti que encontra no filme um retrato à altura de sua beleza e complexidade.

SAIBA MAIS

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CONHEÇA OUTROS DOCUMENTÁRIOS INTERESSANTES DE TEMÁTICA SEMELHANTE:

* SERRAS DA DESORDEM, de Andrea Tonnacci
*  RAONI (1978), de Jean-Pierre Dutilleux e Luiz Carlos Saldanha
* ÍNDIO CIDADÃO?, de Rodrigo Siqueira
A GUERRA DE PACIFICAÇÃO DA AMAZÔNIA, de Yves Billon
MUNDURUKANIA – NA BEIRA DA HISTÓRIA, de Miguel Castro

P.S. Vale lembrar que Kuarup é também o nome de um filme brasileiro lançado em 1989, dirigido por Ruy Guerra e baseado em obra de Antônio Callado, cuja narrativa se passa no Parque Indígena do Xingu. O recente filme Xingu (2011), de Cao Hamburger, oferece uma reconstrução narrativa, altamente cinematográfica, da trajetória dos irmãos Villas-Bôas. Ambos filmes, apesar de serem obras ficcionais ou “biopics”, abrem janelas para o concreto da História real em que se inspiram.

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LEITURA SUGERIDA:

FRANCHETTO, Bruna e HECKENBERGER, Michael (orgs.). 2001. Os Povos do Alto Xingu: História e Cultura. Rio de Janeiro: Editora UFRJ. 496 pp.

FRANCHETTO, Bruna e HECKENBERGER, Michael (orgs.). 2001. Os Povos do Alto Xingu: História e Cultura. Rio de Janeiro: Editora UFRJ. 496 pp. Saiba mais.

FIOS NA TEIA DA VIDA – O papel do jornalismo na defesa da sociobiodiversidade

FIOS NA TEIA DA VIDA:
O papel do jornalismo na defesa da sociobiodiversidade

por Eduardo Carli de Moraes

Escrito para o Edital do XVI Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros (resultado)

“A pluralidade é a lei da terra”.
HANNAH ARENDT (1906 – 1975) [1]

“Não sou apenas o índio que perdeu a taba
Na curva da estrada que o trator abriu
Quando arrancou mãe-floresta,
Quebrou minha flecha
Deturpou minha festa e quase ninguém viu
Não quero esse lero-lero de quem diz:
Não posso! Coitado! Ai de mim!
Se a Amazônia dá um grito, nós gritamos juntos.
E rezamos assim: Ave! Ave! Santa árvore
Pai nosso e do palmital
Pão nosso e do santo fruto
Ribeirinho enfrenta o mal
Do homem que traz a cerca
Planta capim, faz curral
Amparado num projeto de violência brutal
Onde o homem é esquecido
E o boi querido é o tal.”
ZÉ PINTO [2]

Neste ano de 2016, o Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros comemora 16 anos de travessia. Através desta história, vem atuando como propiciador de intercâmbios culturais que contribuem para que “a voz do nosso povo se faça ouvir com toda sua diversidade” [3], para lembrar palavras de Célio Turino.

Esta é também uma das tarefa de antropólogos e etnográfos, de fotógrafos e jornalistas: tornar evidente e manifesto a polifonia e a pluralidade de nosso “país que pulsa diversidade”, como se lê na Carta de São Jorge. Esta é um manifesto coletivo, nascido como um dos muitos frutos da 15ª edição do Encontro, assinado pela Comissão Nacional dos Pontos de Cultura, reunida entre os dias 28 de julho a 01 de agosto na Vila de São Jorge, Alto Paraíso de Goiás. Suas eloquentes palavras permanecem, um ano depois, intensamente atuais:

O Brasil, que pulsa diversidade, está atento à onda conservadora que assola o País e promove uma crise civilizatória. Setores reacionários atacam nossa juventude por meio da redução da maioridade penal e o genocídio da juventude negra, agridem povos de terreiro, mulheres e a comunidade LGBTT com o crescente fundamentalismo religioso. Indígenas, quilombolas e povos tradicionais sofrem uma ofensiva do grande capital contra seus territórios. Fica claro para nós que as conquistas sociais e econômicas dos últimos anos não são suportadas pelas elites do nosso País… (Carta de São Jorge [4])

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Aldeia Multiétnica @ Encontro de Culturas da Chapada dos Veadeiros – Foto: Fredox Carvalho

Premiado pelo Iphan em 2015 [5], o Encontro das Culturas Tradicionais tem contribuído para repovoar nosso imaginário utópico rumo a uma cultura polifônica, repleta de participação social e diálogos fecundos entre os diferentes povos e perspectivas que constituem os fios na grande teia da vida. É neste contexto que nos propomos, no presente texto, realizar algumas reflexões sobre o papel do jornalismo na defesa e na celebração da sociobiodiversidade, conceito muito enfatizado no “Encontrão” (como é carinhosamente conhecido).

Acredito que os profissionais da mídia têm o dever ético e profissional, além da função pública essencial, de engajarem-se na defesa da “inestimável sociobiodiversidade dos povos da floresta”6 e na denúncia da brutalidade das práticas “da cerca e do curral” mencionadas no poema-canção de Zé Pinto e que fazem com que “o homem seja esquecido”.

Hoje, mais do que nunca, quando estamos ameaçados por todos os lados por desmatamentos e etnocídios, por assassinatos de ecoativistas e imensas catástrofes ambientais (como aquela que ocorreu no Rio Doce), faz-se necessário e urgente defender as culturas em sua pluralidade, re-afirmando a possibilidade de um convívio fecundo e mutuamente enriquecedor entre as diferenças.

Para esta tarefa grandiosa e utópica é preciso a congregação de forças – e sem dúvida que os jornalistas podem (e devem) somar suas vozes e palavras, suas investigações e pesquisas, suas reportagens e fotografias, suas denúncias e seus anúncios, ao coro daqueles que querem uma cultura viva, pulsante, pluralíssima, que celebre o colorido todo da nossa inestimável sociobiodiversidade hoje tão ameaçada, vilipendiada e golpeada.

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Palco de atrações artísticas do Encontro de Culturas da Chapada dos Veadeiros – edição XV, 2015, foto de Leonil Jr

A desconexão pode enlouquecer – e não estamos falando da Internet que, quando cai, pode deixar doido (ao menos provisoriamente) alguns de seus usuários mais adictos. A desconexão mais nociva é aquela que nos separa uns dos outros em facções e seitas inimigas, impedindo-nos a congregação e a troca em meio à pluralidade que nos constitui. Em um país de cultura adoecida, os sujeitos estão desconectados da rede da vida. Podem estar conectados a seu feed de besteirol no celular ou no navegador, mas vivem na alienação da desconexão, desvinculados uns dos outros, construindo abismos intransponíveis que as separam ao invés de pontes que comunicam as margens, incapazes de perceberem os laços que os unem uns aos outros e à natureza comum de que participam.

O jornalismo, quando de fato fornece informação autêntica sobre a realidade concreta, fornece não apenas uma enxurrada de informação, infértil e sem consequência. O jornalismo, ao informar-nos sobre o real, fornece-nos algo essencial para a transformação do que há, para a superação do dado, uma vez que pode servir para desfazer os feitiços paralisantes da alienação, definida magistralmente por Milton Santos nos seguintes termos: “A força da alienação vem dessa fragilidade dos indivíduos, quando apenas conseguem identificar o que os separa e não o que os une.”

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O jornalismo, quando de fato se presta a ouvir as vozes das comunidades tradicionais, quando abre-se a aprender com as sabedorias ancestrais de povos indígenas ou quilombolas, pode realizar um trabalho de revelação de uma realidade que muitos não enxergam. Pode contribuir para que a opinião pública se sensibilize em relação a problemas, dificuldades e desafios enfrentados pelas comunidades, mas pode também ensinar sobre outros modos de conviver e de criar. O jornalismo autêntico, segundo acredito, busca compartilhar um saber sobre o real de que somos contemporâneos, sendo uma atividade não apenas informativa mas também de formação; contêm uma dimensão pedagógica intrínseca, desde que não preste ao leitor o desserviço de enganá-lo ou ludibriá-lo por ordem do patrão.

Compartilhar o saber sobre a vida concreta, as dificuldades e os triunfos, os obstáculos e as vitórias, das comunidades tradicionais, pode ajudar os leitores a compreenderem a importância das raízes bem plantadas em solo fecundo para que as árvores dêem profusão de flores e frutos. O jornalismo pode ser uma dessas forças que fornece saber sobre a efetividade desses povos e que amplifica seus valores e práticas. Se saber não é exatamente poder, é sim um elemento essencial à eficácia da ação conjunta no mundo comum de que nos fala Hannah Arendt, esta terra cuja lei a filósofa afirmava ser a pluralidade.

Conhecer o real é indispensável para aqueles que querem transformá-lo, e o jornalismo, em sua vocação, deve ser veículo de conhecimento sobre aquilo de que somos contemporâneos. Assim considerado, o jornalista é análogo ao historiador (que deseja ter cognição do passado para comunicar conhecimento sobre tempos idos), com a diferença de que é no calor da hora, em um presente que está acontecendo em toda a sua desenrolante imprevisibilidade, que o jornalista buscará aquilo que é digno de comunicar a seu público.

Em nosso país de dimensões continentais como o Brasil, estamos condenados a desconhecer vários Brasis onde nunca estivemos, vários locais onde nossa experiência imediata nunca bebeu. E já que ninguém tem o dom da ubiquidade, só se pode conhecer a fundo este país gigantesco – e de si mesmo tão dessemelhante! – através das narrativas que tecemos e comunicamos uns aos outros, entre elas as jornalísticas. Uma boa reportagem não difere tanto, quanto aos efeitos éticos e estéticos que propicia à sensibilidade e à inteligência do leitor, de algum primoroso conto de nosso repertório literário. E creio não haver absurdo em debater quem é a escritora mais magistral, se Clarice Lispector, se Eliane Brum.

Eliane Brum, jornalista e escritora brasileira

Eliane Brum, jornalista e escritora brasileira

No Brasil, existem em atividade alguns jornalistas muito engajados nas questões socioambientais: caso de Washington Novaes, Felipe Milanez, Eliane Brum (El País), Inês Castilho (Outras Palavras), André Trigueiro, dentre outros. Há também institutos e ONGs, com seus respectivos blogs e sites, devotados ao jornalismo de qualidade sobre o tema, caso do Combate Racismo Ambiental, Instituto Sócio Ambiental ou Envolverde [7]. O jornalismo, tal como praticado por estes inspiradores luminares da profissão, pode contribuir para que o leitor enxergue as conexões entre os fenômenos, refletindo sobre as consequências futuras de nossas ações atuais etc.

Infelizmente, a chamada “grande mídia” não costuma dar o devido destaque aos temas do meio ambiente e dos modos-de-vida de populações tradicionais capazes de uma relação harmônica com a natureza. Temas de extrema importância, como o aquecimento global, a acidificação dos oceanos, a poluição atmosférica, o desmatamento, a invasão de garimpeiros e madeireiras sobre áres demarcadas, dentre outros temas, sofrem com uma espécie de blecaute cotidiano em grande parte da imprensa empresarial, apelidada por alguns “mídia burguesa”.

Ainda assim, há de se reconhecer que, apesar das críticas que podem lhe ser dirigidas, existem projetos como a Planeta Sustentável, “uma iniciativa multiplataforma de comunicação que tem a missão de difundir conhecimentos sobre desafios e soluções para questões ambientais, sociais e econômicas do nosso tempo. Dissemina conhecimentos sobre temas relacionados a sustentabilidade para 21 milhões de leitores anuais por meio de seu site mais de 30 títulos de revistas da Editora Abril.” [8]

Já no âmbito da intelectualidade brasileira, também há alguns ilustres autores que têm oferecido muitas reflexões relevantes sobre os temas socioambientais e culturais: é o caso, por exemplo, de Ricardo Abramovay, Ladislau Dowbor, Deborah Danowski, Eduardo Gianneti da Fonseca, Antonio Nobre, Eduardo Viveiros de Castro, dentre outros.

Quando exercido por profissionais de talento literário e percepção sociológica aguçada, a narrativa jornalística pode atingir tons épicos, grandiosos. Um exemplo excelente é aquilo que costumo chamar de “jornalirismo” de Eliane Brum, autora capaz de descrições socioambientais de raro brilhantismo literário, que podemos exemplificar relembrando sua descrição da realidade vivenciada pelos ianomâmis:

A floresta proibida dos ianomâmis, 9,7 milhões de hectares estendidos como um tapete verde e úmido sobre Roraima e Amazonas, assemelha-se a um universo primordial. Rios de sucuris gigantes, cachoeiras cinematográficas, árvores eternas. Quase o dia da criação. Os índios, feitos dessa mesma matéria original, se mimetizam à selva, invisíveis ao primeiro olhar, aconchegados ao ventre de Omamë, o precursor de tudo segundo sua cosmologia. Revelam ao cibernético século XXI, agora tragicamente confrontado com as diferenças que julgava encobrir, um modo de viver semelhante ao dos primeiros ancestrais. Dos povos mais isolados do planeta, travam a guerra do começo do mundo enquanto o planeta globalizado ameaça manchar a Terra com um ponto final. – ELIANE BRUM 9

Eliane Brum serve para ilustrar a potência do jornalismo quando pratica a sensibilização do leitor para as questões socioambientais, em que a vida humana e a vida da biosfera nunca estão desconectadas, onde as florestas e seus povos são reveladas em toda a tessitura de sua pluralidade, inclusive com a revelação recorrente da unicidade de cada personagem que dá o ar de sua graça na reportagem.

Foi lendo e relendo os textos de Brum que fui me convencendo que hoje o jornalista precisa ser um pouco antropólogo, um pouco etnógrafo, movido por um sincero desejo de compreender o mundo do outro, acessar a perspectiva existencial alheia, construindo pontes de comunicação que permitam uma mútua cognição e que nos auxiliem a melhor tecer, em conjunto, a continuação da teia da vida.

Sem dúvida, o jornalista responsável, que conhece sua função pública, têm necessariamente de pôr em prática permanente o seu senso crítico, inclusive sobre os dogmas e as dominações que vigem na profissão. Um livro publicado recentemente no Brasil pela Ed. Boitempo, Mídia, Poder e Contrapoder – Da concentração monopólica à democratização da informação, traz um interessante artigo de Ignacio Ramonet onde ele afirma que vários grupos midiáticos “estão se comportando, segundo o conceito de Louis Althusser, como ferramenta ideológica da globalização”10.

Para não se render a ser serviçal das ideologias hegemônicas e dos sistemas de produção e consumo hoje hegemônicos, que são insustentáveis pois ecocidas, o jornalismo precisa esclarecer a opinião pública sobre as culturas, em sua pluralidade, que sobrevivem hoje com técnicas ancestrais de interação com o meio ambiente, sem devastação, com respeito e sabedoria. Povos indígenas e quilombolas têm destaque neste cenário, infelizmente ainda muito desconhecido de boa parte dos brasileiros “civilizados”, já que muitos urbanóides que habitam os grandes centros urbanos ignoram boa parte da realidade brasileira (e, como viemos explorando, a mídia empresarial tem culpa no cartório em relação à produção social desta relativa cegueira).

Um outro exemplo de jornalismo competente, cujo tema tem muita relação com o XVI Encontro de Culturas das Chapadas dos Veadeiros, é uma interessante reportagem recente chamada “As Novas Cercas do Quilombo”, na qual Repórter Brasil revelou que “apenas 7% das famílias quilombolas vivem em áreas tituladas. Na busca pelo reconhecimento dos territórios, comunidades enfrentam ameaças, confisco de objetos históricos e resistência até do órgão de preservação do patrimônio.” Eis um exemplo interessante de como o jornalismo pode servir ao bem público ao informar-nos sobre a realidade social:

Dos cerca de 2.700 quilombos de todo o país já certificados pela Fundação Palmares, só 163 chegaram à etapa final e foram titulados. No Incra, a morosidade é absoluta: “A questão é que há mais de 1.500 processos abertos no Incra, mas o órgão não tem capacidade de encaminhá-los”, afirma Otávio Penteado, assessor da Comissão Pró-Índio de São Paulo, organização que também lida com a questão quilombola. Para Otávio, a falta de titulação das terras ocorre por “desinteresse político”, o que se traduz em cortes orçamentários na área.

A mudança na composição dos ministérios que o presidente interino Michel Temer (PMDB) realizou assim que Dilma Rousseff foi afastada pelo Senado agravou as preocupações das entidades ligadas à questão quilombola. Na última quinta-feira (12/05), o deputado federal ligado à bancada ruralista Osmar Terra (PMDB-RS) foi nomeado para a pasta de Desenvolvimento Social e Agrário, que é responsável pelo Incra. Também foi extinto o Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos, que coordenava o Programa Brasil Quilombola e executava políticas voltadas às comunidades negras tradicionais. – Repórter Brasil [11]

Acredito que o jornalismo possa ser uma tocha iluminante em nossos tempos sombrios, fornecendo informação verídica sobre o real que permita transformá-lo de modo criativo. Quando soma suas forças narrativas à eventos como o Encontro de Culturas Tradicionais, pode auxiliar a tornar visíveis os invisíveis, tornar audíveis os silenciados, dando voz e vez àqueles que o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro apelidou recentemente de os involuntários da pátria [12].

O jornalismo, que também integra o âmbito da cultura e tem todo o interesse em seu florescimento, pode (e deve) agir consciente de sua função pública ao invés de servil a interesses empresariais classistas e excludentes. Para recuperar a Carta de São Jorge com que começamos, não há jornalismo emancipador que não seja devotado à construção de uma democracia participativa, do diálogo perene, que aposte numa política da gestão compartilhada do mundo comum, tendo sempre em foco a defesa e a celebração da sociobiodiversidade. Por isso, subscrevemos o seguinte trecho do manifesto:

Entendemos que a cultura deve estar na centralidade do modelo de desenvolvimento do país. E um governo que tem como lema Pátria Educadora deve reconhecer as sabedorias, os conhecimentos e os ensinamentos próprios de seu povo. Deve reconhecer, também, que quem faz cultura, quem produz cultura não são gestores em gabinetes, mas o povo no seu viver, conviver, sobreviver, existir e resistir. A Política Nacional de Cultura Viva (Lei 13.018) é a afirmação de que, sem diversidade com base nos direitos humanos, não há cidadania. Ela é essencial para combater o avanço conservador em marcha e construir uma sociedade emancipada.”

Que a pluralidade pulse no XVI Encontro e que o jornalismo possa juntar sua voz para cantar nesta ciranda exuberante da cultura viva!

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Aldeia Multiétnica do Encontro de Culturas da Chapada dos Veadeiros – 14a edição

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NOTAS

1 A frase de filósofa está presente em seu livro A Vida Do Espírito – Volume I: Pensar.

2 Zé Pinto é poeta e cantador de Rondônia e este poema foi declamado na música “Devoção à Amazônia” do CD Arte em Movimento do MST – Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Ouça na Internet: https://youtu.be/InHzQ_h1SbA.

3 Célio Turino em Ponto de Cultura: o Brasil de baixo para cima. 2ª ed. São Paulo: Ed. Anita Garibaldi, 2010. P. 16.

5 Na 28ª edição do prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade, do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), foi um dos vencedores na categoria II – “iniciativas de excelência em promoção e gestão compartilhada do patrimônio cultural.“

6 CALEGARE; HIGUCHI (org). Nos interiores da Amazônia: leituras psicossociais. Curitiba-PR: Ed. CRV, 2016.

9 BRUM, E. A Guerra do Começo do Mundo. Leia a reportagem na íntegra no portal A Casa de Vidro. O texto integra o livro Olho da Rua – uma repórter em busca da literatura da vida real (ed. Globo, 2008, p. 53)

10 “Vocês acham que os meios de comunicação dominantes, que pertencem a grupos de alta relevância no mercado, serão críticos com a globalização e o neoliberalismo, sendo que eles são atores centrais nessas duas dinâmicas? É evidente que a possibilidade disso acontecer é pequena. Em termos gerais, o que eles dizem sobre esse assunto? Que isso é muito bom para nós. Você perdeu seu trabalho, não dispõe mais de serviços públicos, cortaram sua pensão, complicam sua aposentadoria e fazem você trabalhar mais… mas isso é muito bom! É excelente! Todos os meios de comunicação nos repetem isso constantemente. Em outras épocas, quem dava a visão de mundo, quem tinha a responsabilidade e a missão de inculcá-la na sociedade era a Igreja. A Igreja difundia uma concepção de mundo; do mundo e do além. Por exemplo, na colonização da América, os conquistadores eram acompanhados por evangelizadores na destruição de sociedades que tinham sua idiossincrasia, sua religião, sua cultura, suas línguas, sua própria cosmogonia. O conquistador brutal destruía todos esses elementos da sociedade e o evangelizador dizia: ‘mas que sorte maravilhosa!’ Destruíram sua família, destruíram seu povo, destruíram suas crenças, destruíram sua língua, destruíram sua cultura, mas agora você tem a verdadeira religião! Alegre-se! Hoje, a imprensa e os meios de comunicação têm a missão de ser a ferramenta ideológica da globalização.” (RAMONET: Boitempo, 2013, p. 63)

12 Em um trecho magistral, Viveiros de Castro diz: “Povo” só ‘(r)existe’ no plural — povoS. Um povo é uma multiplicidade singular, que supõe outros povos, que habita uma terra pluralmente povoada de povos. Quanto perguntaram ao escritor Daniel Munduruku se ele “enquanto índio etc.”, ele cortou no ato: “não sou índio; sou Munduruku”. Mas ser Munduruku significa saber que existem Kayabi, Kayapó, Matis, Guarani, Tupinambá, e que esses não são Munduruku, mas tampouco são Brancos. Quem inventou os “índios” como categoria genérica foram os grandes especialistas na generalidade, os Brancos, ou por outra, o Estado branco, colonial, imperial, republicano.” Trecho de “Os Involuntários da Pátria”, aula pública de Viveiros de Castro proferida durante o ato Abril Indígena, na Cinelândia, RJ, em 20/04/2016, que pode ser lida na íntegra no portal A Casa de Vidro.


SIGA VIAGEM:

Moacir

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Trabalhos do artista plástico Moacir, na Vila de São Jorge (GO), tema do documentário “Moacir Arte Bruta” de João Jardim (assista abaixo)


“Chapada dos Veadeiros” – filmagens de drone


“Cada Terra Tem Um Uso, Cada Roda Tem Um Fuso” (2009, 80 min, diretor Neto Borges)


“ATLÂNTICO NEGRO – Na Rota dos Orixás”


SERRAS DA DESORDEM – Um filme de Andrea Tonacci (2006, COMPLETO)


PROGRAMA ENREDO CULTURAL DA TV UFG


BOOGARINS – “Benzin” (clipe filmado na Chapada e estrelado pela Salma do Carne Doce)


ACOMPANHE A COBERTURA COMPLETA DO 
XVI ENCONTRO DE CULTURAS DA CHAPADA DOS VEADEIROS
Site oficialhttp://www.encontrodeculturas.com.br/

O POVO DO MEIO – Uma reportagem amazônica de Eliane Brum (2004)

O POVO DO MEIO

Por Eliane Brum

Raimundo Nonato da Silva não sabe quem é Luiz Inácio Lula da Silva. Entre os dois Silvas, o presidente do Brasil e o brasileiro sem presidente, há um vasto mundo no qual se chamar Raimundo nem é rima nem é solução. Ele vive num país desconhecido pelo próprio Brasil, onde a maioria dos homens atende por Raimundo. Sua república fica no coração da Amazônia e pertence a uma região cujo nome parece ter saído do universo mitológico de J.R.R.Tolkien em O Senhor dos Anéis: Terra do Meio. É um país invisível porque 99% dos habitantes não têm documentos. Oficialmente, os Raimundos e Raimundas não existem. Mas estão lá, insistem em existir, rasos de letras mas gordos de paradoxos. São analfabetos ou, como eles dizem, ”cegos”. Nunca votaram porque fantasmas só se tornam eleitores em currais de fins de mundo. E eles vivem um pouco mais além do fim do mundo. Esse povo pode ser exterminado antes que o país oficial se aperceba dele. Como a floresta em que vive, está ameaçado de extinção.

Descendentes de soldados da borracha, nordestinos levados para os confins da selva pelo governo de Getúlio Vargas durante a Segunda Guerra Mundial, por lá ficaram e multiplicaram-se formando uma só família com menos de 200 pessoas dispostas numa intrincada teia de parentescos. Vivem como os índios viviam antes de terem contato com a civilização. Caçadores e coletores, comem o que a floresta lhes dá. E ela lhes dá muito. Castanha no inverno, caça, pesca e óleo das árvores de copaíba e andiroba o ano todo.

Assim seguiriam com a vida no seu país sem moeda, não fosse terem sido descobertos pelos grileiros. Esses predadores da floresta são velhos conhecidos da Amazônia. Chegam empunhando armas e títulos de terra forjados. Apregoam-se donos de milhares, até milhões de hectares de floresta. O nome, ”grileiro”, surgiu pelo antigo artifício de confinar os títulos falsos numa caixa cheia de grilos: os insetos liberam uma substância que amarela e corrói o papel, dando-lhe uma aparência de velho. Como no tempo do Descobrimento, primeiro os grileiros ofereceram os espelhinhos: no caso, um punhado de reais. Depois, exibiram o cano de uma espingarda calibre 12 de repetição. Hoje, os Raimundos estão jurados de morte.

O empreiteiro Cecílio do Rego Almeida disputa na Justiça uma área que pode chegar a 7 milhões de hectares – um território com o tamanho da Holanda e da Bélgica somadas. Se conseguir, obrigará todo o Povo do Meio a abandonar suas terras. ”Só me arrancam daqui com uma arma na cabeça”, esperneia Raimundo Delmiro, um dos líderes da comunidade, de 39 anos, nove filhos. Ele é um homem quieto, com a coragem de quem faz o que o caráter manda apesar do medo. ”Um dia eu voltei do mato e os homens de fora estavam na minha casa. Depois vieram outros e não pararam mais de chegar. Me ofereceram R$ 10 mil pela minha terra. Eu disse não. Eles começaram a cercar o meu lugar por todos os lados. Passam no rio em rabetas (canoas com motor) cheias de pistoleiros armados. São armas garantidas, de repetição, não como a minha espingarda de caça que tem 23 anos. Querem me botar medo. E conseguem. Sou um homem jurado de morte.”

Raimundo e sua família haviam acordado naquela manhã sem nada para comer. Cada um embrenhou-se num ponto cardeal da mata em busca de alimento. Antes do meio-dia, Fernando, de 13 anos, voltava com uma anta de quase 300 quilos e Francisco, de 14, trazia duas queixadas. ”A floresta é assim, rica de um tudo. Por isso tô marcado pra morrer, mas fico.”

O PAÍS DOS RAIMUNDOS

Raimundo reedita a história de Chico Mendes, promovido a herói nacional depois de um assassinato anunciado que ninguém impediu. Seu mundo, porém, fica ainda mais longe. Com quase 8 milhões de hectares, a Terra do Meio transformou-se numa das derradeiras possibilidades de preservação da Amazônia. Encravada no Estado do Pará, tem esse nome porque fica entrincheirada entre os rios Xingu e Iriri. Cercada por territórios indígenas e florestas nacionais (Flonas), sua localização geográfica acabou protegendo-a por muito tempo da devastação: a oficial, representada pelas várias tentativas desastradas de ocupação da selva, especialmente pelos governos militares, e a privada, protagonizada por predadores disfarçados de empreendedores. Terra de ninguém, é reivindicada por muitos.

Nos anos 90, o assalto dos grileiros a suas fronteiras recrudesceu com a operação da máfia do mogno. Nos últimos meses, a notícia do asfaltamento da Transamazônica e da Cuiabá-Santarém multiplicou a pressão. A sudeste, em torno de São Félix do Xingu, a região já se transformou num faroeste. É de lá que vem boa parte dos flagrantes de trabalho escravo, extração ilegal de madeira e mortes por conflitos de terra que alimentam o noticiário nacional. Na fronteira nordeste, cuja porta é Altamira, a invasão ainda está em curso, em ritmo apressado. É a noroeste, à beira de um igarapé chamado Riozinho do Anfrísio, que vive a população de Raimundos – cada casa a horas de canoa de distância uma da outra.

O nome vem de Anfrísio Nunes, um sergipano que, como outros tantos, recebeu autorização do governo para explorar os seringais da Amazônia. Seus descendentes também reivindicam a posse da terra. ”O Anfrísio levou mais de 200 famílias de arigós do Nordeste para cortar seringa no Riozinho”, conta sua enteada e nora, Vicencia Meirelles Nunes, de 74 anos. ”Naquele tempo os índios dizimavam famílias inteiras de arigós. O Anfrísio criou 18 órfãos de gente morta pelos caiapós e pelos araras.”

Os Raimundos são justamente os descendentes dos ”arigós”. Abandonados à própria sorte quando a borracha deixou de ser lucrativa, moldaram seu destino à revelia do Estado: sem escola, sem saúde, sem registro de nascimento. Não querem a posse da floresta, só querem viver nela. Sua concepção de mundo não inclui cercas.

A TRAVESSIA DE HERCULANO

Para mostrar ao Brasil que seu povo existe, um homem miúdo chamado Herculano Porto, de 60 anos, foi escolhido para empreender uma viagem à cidade de Altamira. Único chefe de família com documento, só ele estava apto a realizar a travessia. Tornou-se o presidente da comunidade. Depois de um dia remando na sua canoa, alcançou a boca do Riozinho do Anfrísio e, de lá, pegou um barco. No caminho, chegou a topar com uma onça que atravessava o rio. ”A gente achou que era um veado e botou o barco por cima.”

Em 7 de setembro, Herculano iniciou a viagem de volta. Havia cumprido sua missão: carregava duas bolas de futebol e um documento elaborado pela Comissão Pastoral da Terra em que a comunidade pedia ao governo federal a criação de uma reserva extrativista. Abaixo da reivindicação, seu povo teria de gravar os polegares para valer como assinatura.

Mas entre Herculano e seu país acessível somente por água estendiam-se 328 quilômetros de rios. Sua saga só terminaria dias mais tarde, ao final de uma trama fluvial que conduz sempre para dentro. Depois do Xingu, o Iriri aprofunda-se na Terra do Meio sobre um labirinto de pedras. É preciso vencer meia dúzia de corredeiras, cada vez desembarcando e subindo a pé para depois içar o barco com cordas em meio à correnteza. Na empreitada, as mãos arrebentam até sangrar.

Homem alfabetizado na língua da água, Herculano não temia as armadilhas do rio. Só era assombrado pelos conselhos do proeiro, Benedito dos Santos, que em 62 anos de vida amazônica foi seringueiro, garimpeiro, cafetão, caçador de onça e jagunço. Não tem história contada por ele em que não morram uns dois ou três. ”Já botei muita gente pra fora de terra pros doutor nesta Amazônia. Tem mais facilidade tomar conta com agressão. Essa história já se repetiu tantas vezes e nunca vi posseiro ganhar. Sempre vai ter essa briga de terra no mundo”, ia desfiando rio afora. ”Homem, vende logo seu pedaço antes que lhe joguem fora.” Herculano esboçava um sorriso falhado de dentes, mas farto de persistência.

Até a boca de sua terra a jornada nos barcos de linha consome sete dias na estação da seca, se tudo correr bem. Muitas vezes, os passageiros são obrigados a acampar numa passagem mais difícil por semanas até conseguir vencê-la. Pelo caminho, homens como Herculano vão sondando o rio e a mata em busca da comida – em especial um tipo de quelônio chamado tracajá. Eles têm a selva por restaurante. Para ganhar tempo, só fazem uma refeição ao final do dia, depois que o sol se deita e as pedras do leito do rio tornam-se invisíveis e fatais. Pernoitam nas ilhas, atando a rede nas árvores.

Nessas noites, o silêncio da selva é feito de ruídos. Herculano Porto conhece cada um deles pelo nome. Tem a floresta dentro da cabeça. Os animais não atacam. Como o ecossistema é equilibrado, há comida para todos e o homem é um predador que nem as onças desafiam sem um motivo forte. Os jacarés limitam-se a manter os amarelos olhos fosforescentes a uma distância regulamentar enquanto os passageiros se banham com a lua alta. O pior inimigo são as arraias, abundantes, que aplicam ferroadas fundas quando se tem o azar de pisar nelas. Às vezes, uma sucuri. Um dia depois que Herculano passou, uma delas matou um homem quando ele nadava. A cobra triturou todos os seus ossos.

Enquanto Herculano singrava os rios de seu mundo primitivo, parte de sua terra era oferecida na internet por R$ 6 milhões pela imobiliária Sofazenda, de Varginha, em Minas Gerais. A oferta anunciava as maravilhas do Riozinho do Anfrísio: ”Dezenas de qualidades de madeiras de lei, em densas florestas, ricas em mogno…”. Assim como ”grande reserva de minério, cassiterita, ouro, diamante e outros”. Na quinta-feira, o corretor Aldamir Rennó Pinto explicou que a área foi tirada do catálogo ”porque estava enrolada”. Ofereceu outra, de 390 mil hectares, por R$ 27 milhões. ”Inclusive, a outra terra estava dentro dessa que estou lhe oferecendo. Ela pertence aos herdeiros do Anfrísio Nunes e já estou com os títulos, tudo certinho.”

Analfabeto, Herculano enfrenta a golpes de dedão o universo da grilagem cibernética. Quando finalmente desembarcou em casa, descobriu que seu castanhal havia sido posto abaixo. Faltava apenas a derrubada das árvores maiores. E depois o fogo. Herculano, também marcado para morrer, havia cumprido sua missão. Mas, quando o documento com as digitais de seu povo alcançar o país oficial em Brasília, ninguém vai ter a dimensão do tamanho da odisséia.

A DISPUTA DAS ALMAS

Até a chegada dos invasores, a Terra do Meio havia girado sem dinheiro. Os grileiros levaram moeda e cobiça. Foram penetrando pelas frestas das almas, dividindo para semear a discórdia. Francisco dos Santos, o homem que mais conhece o rio e suas manhas, foi o primeiro a ser assaltado por tentações. Chico Preto, como é chamado, vendeu-se por R$ 20 ao dia para botar e tirar peão e pistoleiro do interior do Riozinho do Anfrísio. ”Eu luto pela reserva, mas eles pagam em dia e aqui é difícil ganhar dinheiro de outro modo”, diz Chico. ”São pessoas alegres, prestativas, nem parece que matam gente.” Seu enteado, mais um Raimundo, tornou-se o homem de confiança de um grileiro conhecido por Goiano, cujas atrocidades já viraram lenda. Opera na boca do rio o rádio que denuncia a chegada de estranhos. ”É melhor vender a terra porque vão tomar de qualquer jeito. Aí botam a gente pra fora sem nada”, defende esse Raimundo dissidente.

Os grileiros aproveitam-se do abandono para oferecer o que o Estado não dá. ”Quero levar melhorias para aquele povo. Escola e posto de saúde. Já botei um carro à disposição deles”, disse a ÉPOCA Edmilson Teixeira Pires, de 51 anos, que reivindica a posse de algumas dezenas de quilômetros quadrados. Já riscou uma estrada a partir da Transamazônica, onde instalou mais de uma casa e dezenas de peões. Só não chegou ao rio porque encontrou no seu caminho Luiz Augusto Conrado, de 51 anos, conhecido como Manchinha por conta de uma mecha de cabelos brancos que ostenta desde bebê. ”Pode recuar. Na minha terra vocês não entram”, avisou.

Manchinha conhece bem a caridade dos doutores. Antes de casar com Francineide, parteira do Riozinho do Anfrísio, foi escravo em fazendas no Pará por mais de dez anos. Depois virou garimpeiro em Serra Pelada. Viu de tudo, menos ouro o suficiente para mudar a sina. Sabe muito bem de que matéria é feita sua resistência: ”A floresta é o único lugar que tem fartura pra pobre. Os homens vão nos cercando e a gente precisa da castanha, da caça, da pesca. Vão nos matando porque encolhem a terra. Quando uma das estradas, das tantas que tão cortando por aí, chegar ao rio, acaba nós e o mato”.

AMEAÇADOS DE EXTINÇÃO

Se os invasores vencerem essa que é uma das últimas guerras da Amazônia em que ainda é possível ganhar, com a selva desaparecem 346 espécies de árvores, 1.398 tipos de vertebrados, 530 qualidades de peixes. Boa parte dessas variedades são endógenas – ou seja, só existem na Terra do Meio. O mundo fica mais pobre em biodiversidade, que é o tipo de miséria irremediável. Mas, além da perda de milhares de espécies, o planeta fica também menos sortido de gente. O Povo do Meio está entre os últimos de sua estirpe, ceifada junto com a floresta. O isolamento – e o abandono – construiu nos confins do Brasil a extravagância de uma cultura sem imagem que ainda persiste no século XXI.

É por isso que se tornou uma terra de Raimundos. Sem TV, eles nunca batizaram filhos de ”Maicon” ou ”Dienifer” nem ficaram sabendo que João e Maria viraram nomes chiques. São consagrados a São Raimundo Nonato, que, por ter sido extraído do útero da mãe morta, ao tornar-se santo virou protetor das parteiras. Todo o imaginário é costurado de ouvido. As cenas são formadas a partir de fragmentos da Rádio Nacional da Amazônia, o único contato com o Brasil. É assim, por exemplo, que reinventam as jogadas de futebol a partir dos lances escutados – e jamais vistos.

Ronaldo e Ronaldinho Gaúcho são ídolos sem rosto, cujas façanhas são reinterpretadas na cabeça de cada Raimundo. É no futebol que esses homens da floresta forjam seu RG de brasileiro. A identidade é a bola, trocada por 200 quilos de castanha no Regatão, espécie de shopping fluvial que passa meia dúzia de vezes por ano para o escambo da produção local pelos artigos da cidade.

Raimundo Nonato da Silva, o brasileiro que não sabe quem é Lula, tem um campo de futebol diante de sua casa de pau-a-pique coberta de babaçu. Nos domingos, seus meninos trocam a faquinha da seringa pela bola. É nesse cartório de chão batido que registram seu nascimento. ”Era bom saber o nome do presidente do Brasil por saber, mas diferença não faz”, diz.

Quem não conhece a sina de Raimundo poderia achar que ele é variado das idéias. Desde que nasceu, herdeiro de um soldado da borracha que caiu morto no seringal (”Meu pai se chamava Zuza, sobrenome Zé”), ele viveu uma vida sem Estado. Sabe apenas que para além do rio há um lugar chamado cidade, que ele imagina, enigmaticamente, como ”um tipo de movimento”. Para ele, tanto faz mesmo o nome do presidente. A idéia de país não pertence a seu imaginário. É o Brasil que precisa descobrir Raimundo, antes que seja tarde.

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Impressões pessoais da repórter Eliane Brum sobre a viagem à Terra do Meio

VIAGEM AO PAÍS DOS RAIMUNDOS

”A melhor maneira de explicar isso a vocês é dizendo que, por um ou dois segundos, me senti como se em vez de ir para o centro de um continente, estivesse de partida para o centro da Terra.” (Coração das Trevas, Joseph Conrad)

Esse é o sentimento que ecoava, em mim e no Lilo (o fotógrafo Maurilo Clareto), quando penetramos na boca do Riozinho do Anfrísio, que apesar desse nome meigo é um igarapé selvagem. Troncos formavam cavernas sobre a água, um casal de ariranhas mergulhou bem na nossa frente e milhares, milhões talvez, de borboletas amarelas acompanhavam o percurso labiríntico. Parecia que tínhamos sido engolidos, numa piscada de distração, para uma dimensão desconhecida. Sentia como se mergulhasse cada vez mais para dentro e para dentro da terra. Por todo o tempo me ardia no peito a certeza de que, por melhor que eu conseguisse escrever, seria incapaz de alcançar a dimensão do que vi – e vivi.

Essa é uma angústia permanente, a da redução da vida quando é confinada em palavras. Mesmo quando as palavras são exatas, como no caso do trecho do Conrad aí de cima. Como testemunhar a luta de um punhado de brasileiros esquecidos, invisíveis e terrivelmente frágeis muito depois do fim do mundo e contar isso em alguns parágrafos, páginas? Poderia começar assim: “Levamos quatro dias navegando 12 horas por dia e dormindo na floresta para chegar à boca do Riozinho”. É verdade, mas não é nada. Ou: “O povo do Riozinho está ameaçado de morte pelos grileiros que cobiçam o mogno e o ouro da terra”. É um fato e não é nada. Não conta do que significa para aqueles homens e mulheres isolados, dia após dia, estarem ameaçados de perder tudo o que conhecem, inclusive a vida. Essa mesma angústia eu sentia quando as freiras do colégio em que eu me alfabetizei diziam: “Deus fez o mundo em seis dias e no sétimo descansou”. Como assim?!

Primeiro, dizer que fui para a Amazônia é o mesmo que dizer que fui aos anéis de Saturno. Mas qual deles? São muitas florestas, gentes e realidades diferentes dentro de uma mesma convenção geopolítica. O que importa ressalvar aqui é que, seja qual for das Amazônias, é sempre uma jornada de risco. Não falo da dificuldade do transporte, dos índios, dos carapanãs (uns mosquitos que têm o desplante de ignorar repelentes e picam no entardecer e no amanhecer, inclusive através da roupa, abrindo uma trilha de inchaços no corpo). Falo do maior risco para um repórter, que é errar o tom. Nem dá para ser babão e achar que tá no éden perdido, nem dá para ser blasé e achar que é um pouco mais do mesmo. Tem de se deslumbrar sem ser deslumbrado. Uma linha bem estreita.

Por isso fico meio sem graça de sair contando minhas aventuras na primeira pessoa. Não quero que fique parecendo que me acho alguma Indiana Jones. Depois de 10 dias convivendo com o Aldo e com o seu Bené, o piloto e o proeiro da voadeira que nos carregou pelo rio, e em seguida com o povo valente do Riozinho do Anfrísio, sei muito bem que todas as minhas seis viagens a Amazônia não valem um dia deles. Os caras são brilhantes. Conseguem enxergar ovo de tracajá onde eu só vejo areia, pedra pontuda onde eu só enxergo água, chuva onde eu só vejo azul. (Depois de testemunhar o cotidiano desse povo, se eu tivesse alguma pretensão de me sentir uma Crocodila Dundee, tinha afundado no brejo. Eu mal conseguia amarrar a rede num pedaço de pau na hora de dormir…).

O seu Bené, então, que é o legítimo homem amazônico, a quem prometi escrever um livro contando a vida, merecia uma estátua. Vida sofrida, como é a de todos, mas de uma intensidade… Nas suas andanças como seringueiro, mateiro, gateiro, cafetão, garimpeiro, seu Bené espiou mais para dentro do bicho homem do que a sanidade permite. Na última noite da viagem, tivemos de pernoitar num lugar de mata muito fechada porque o motor da voadeira quebrou antes que a gente chegasse no pouso pretendido. Ninguém se apavorou, mas eu confesso que fiquei com vontade de dormir de mão com o Lilo, caso a minha reputação de durona permitisse. Eu olhava aquele barranco de floresta fechada que se erguia sobre a minha pobre rede e ficava imaginando o que diabos havia ali atrás. Deixamos uma velinha acesa quase a noite toda pra dar uma animada.

Mas enquanto esperávamos o peixe cozinhar, seu Bené ia contando uma de suas histórias de garimpo. Dessa vez, foi um avião que caiu numa das pistas clandestinas. Seu Bené ajudou a arrancar os mortos e os vivos dos destroços. Eu achei até que a história estava meio fraca, com míseros dois mortos – na anterior ele tinha despachado uns 40 pro inferno. Mas eu não sabia de nada. “O mecânico queimou todinho. Só uma parte da polpa da bunda ficou assada”, desfiou ele. “Não é que o meu colega comeu a bunda do sujeito?” Nós todos logo pensamos que era um “comer” no sentido bíblico do termo (o que já seria, digamos, um absuuuurdo). Seu Bené esclareceu: “Passou a faca e comeu. Disse que era gostoso. Aquele cabra tinha um estômago que vou te dizer.”

O pior é que quando ele chegou nessa parte eu já estava engolindo a janta-almoço (só fazíamos uma refeição por dia para não perder tempo, depois que o sol se punha). Ajeitei tudo com mais um punhado de farinha. Aliás, viciei naquela farinha grossa, amarela, capaz de quebrar um dente facinho. Eu só entendi meeesmo o espírito da coisa depois da primeira ameaça de tempestade. Uma coisa feia, o rio virando mar, nada em nenhuma das margens parecido com abrigo, o caminho cheio de pedras e as nuvens engordando de escuridão. Eu pensando que os caras tinham um plano B para esse tipo de situação. Quando o céu finalmente caiu roncando sobre o mundo, só ouvi o grito de desespero: “Não deixa molhar a farinha!”. Nessa hora, todas as minhas pretensões de ser tratada como princesa, assim, na condição de única moça do grupo, foram literalmente por água abaixo. Eu que me ensopasse toda, já a farinha…

Tudo o que eu conto como aventura é da vida cotidiana do povo amazônico, ribeirinho. Seria mais ou menos como se o seu Bené viesse a São Paulo e fosse descrever a travessia da Ipiranga com a São João como um épico. A gente, aqui, urbanóide, ia morrer de rir. Bem, é possível que na história dele morresse uma meia dúzia atropelado… Seu Bené é muito melhor contador de histórias do que eu. (E ainda por cima ele me chamava de dona Maria. E o apelido pegou. Se ouvirem falar de uma dona Maria por lá, sou eu.)

Os dois primeiros dias foram os mais complicados pra mim. É como sair de um mundo e entrar num outro, sem escalas. Era muito de tudo: muito sol, muito 40 graus, muito carapanã, muito jacaré, muita arraia, muita aranha, muito mato. E eu estava no primeiro dia de menstruação e comigo tinha mais cinco homens e nenhuma privacidade. (Não vou contar como resolvi isso no meio do mato durante a viagem de ida porque, digamos, não é o momento…) Mas é para lembrar que também tem dessas coisas. Eu só pensava: “Mulher, o que você está fazendo aqui?!”

Mas aí acontece alguma coisa (e sempre me acontece essa coisa) e, no terceiro dia, eu já estava, como se diz em linguagem chique, mais feliz que pinto no lixo. Entendi muitas coisas nessa viagem. Muitas. Entendi, principalmente, porque a Amazônia precisa ser salva. Todas as que ainda dá para salvar. O mundo ia ficar pobre demais (vocês precisam imaginar quanto!) e o Aldo, o seu Bené, o seu Herculano iam desaparecer. Alguns deles reapareceriam em alguma favela ou no cadastro do Fome Zero, mas já seriam outros. Não digo isso porque é politicamente correto ou por caridade cristã, mas por egoísmo mesmo: é um mundo muito grande, muito rico, muito bonito e o povo de lá sabe muita coisa que a gente não sabe. Naquela região tudo é grande, imenso, generoso, mas se focar o olhar é pequeno, cheio de detalhes. De todas as Amazônias que eu conheço, aquela é a mais impressionante, a mais delicada. Ali, é muito mais fácil acreditar em Deus do que em Darwin.

Cada noite, na rede, eu ficava assim, de olho estalado, engasgada de sentimento. Eu tenho uma lanterna daquelas de amarrar na testa, tipo mineiro, para poder ler. Levei On the road, a bíblia beatnik do Jack Kerouac. Mas eu estava vivendo tantas coisas on the river que não cheguei a ficar arrepiada. Só no fim, mas não vou contar. Decorei a seqüência de ruídos de bichos noite afora, sempre a mesma, e então sabia mais ou menos que horas seriam. Quando acordava, tinha dúvidas se havia dormido. Na floresta, a gente fica toda instinto de sobrevivência, então o sono é leve, diferente, na iminência de algo.

Assim foi a viagem de ida e depois a de volta. Medo mesmo, medão, eu só tinha de arraia. Toda noite eu tomava banho no rio e não dava para enxergar o que tinha embaixo. E sempre havia muitas arraias. Basta a gente pisar sem querer, que elas já enfiam o ferrão no pé. Vi o pé de um homem que teve esse azar. O buraco tinha quase cinco centímetros, acho que beirava o osso, e purgava. Me ensinaram a arrastar os pés no fundo do rio. Não aconteceu nada com a gente. Nem malária pegamos.

Quanto ao povo do Riozinho, ainda é difícil contar sobre eles. Quando desembarcávamos em alguma casa na beira do rio, no caminho, as meninas, as mães de família, pensavam que eu era alguma autoridade. Sempre me pediam escola. Nunca vi tanta gente, novo e velho, pedindo para estudar com tanto brilho no olhar, tanta gana. “Aí vou casar com um homem daqui, cego de letras que nem eu, e vamos ser os dois ignorantes nesse mundo”, me disse uma menina chamada Deusa, de 16 anos, na beira do Iriri. Ou a Francineide, parteira do Riozinho, “se botarem uma escola vou aprender a ler mesmo se já tiver velha demais e tiver de ir me arrastando”.

É um povo que quando diz o número de filhos conta os mortos. E quando conta os mortos conta que morreram da febre, da malária. E morreram só porque não há remédio, porque basta remédio para não morrer de malária. Mas esse povo, quando precisa de remédio que não tem no mato, quando precisa de médico e não de benzedeira, tem de ir até o posto de saúde da Cachoeira Seca, a terra indígena mais próxima, a dias de canoa de distância.

Meninas, ainda, meia dúzia de filhos, sempre me rodeavam para perguntar como era possível que eu, já tão velha (bah!), tivesse só uma filha. Descobria então que elas nunca viram uma camisinha. E quando começava a falar de pílula anticoncepcional, sempre aparecia alguém para dizer que “a pessoa toma essa pílula, tá boazinha e de uma hora pra outra amanhece morta”.

Nunca vou esquecer do corpo de passarinho do seu Herculano, um rastro de gente no mundo, resistindo em cima da sua floresta, agarrado à beira do único mundo que conheceu. A gente não mergulha no mundo do outro impunemente. E depois vai embora como se nada tivesse acontecido. Toda viagem é sem volta. E eu ainda estou chegando.

ELIANE BRUM
In: Olho da Rua.
Ed. Globo.

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Leia tb em A CASA DE VIDRO:
A Morte Como Escola
A Guerra do Começo do Mundo
A Loucura dos Normais 
(sobre Holocausto Brasileiro, de Daniela Arbex)

O HOMEM QUE MATOU DEUS (“L’Homme qui a Tué Dieu”) – Curta-metragem, ficção, 15 min, dirigido por Noé Vitoux

O HOMEM QUE MATOU DEUS – Um filme de Noé Vitoux
Brasil, França
2013 • cor/pb • digital / 18 min. • Ficção

O Homem Q Matou Deus

Leitura sugerida:
A ALEGORIA DA BARBÁRIE NO FILME O HOMEM QUE MATOU DEUS (NOÉ VITOUX, 2013), 
por Sandro Oliveira (UEG – Universidade Estadual de Goiás)

“Há um curta-metragem realizado por um cineasta francês numa aldeia indígena, da Comunidade Wari, na cidade de Guajará-Mirim, no estado de Rondônia, que se chama O homem que matou Deus (18 min., 2013). Foi exibido na mostra competitiva do XV FICA (2014), não obtendo prêmios. O fato de se trabalhar com este filme neste artigo foi a recepção absolutamente contraditória que ele desencadeou, misturando aplausos pela ousadia e destreza de sua linguagem cinematográfica e, ao contrário, protestos pelo seu conteúdo gráfico explícito e seu tom altamente agressivo. Sobre a recepção do filme, explica-se: O homem que matou Deus é uma paródia alegórica. Dentro da dicotomia do estatuto do ator (representacional e apresentacional), e utilizando-se do conceito de paródia e de cinismo do antropólogo canadense Erving Goffman, este filme presta-se a uma via de análise em camadas, que explica o porquê de sua recepção tão contraditória e polêmica.” – LEIA O ARTIGO COMPLETO

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Do mesmo diretor: BLACK BLOC – ESTÓRIA DE AMOR E FÚRIA (3 min):

Esse Homem Vai Morrer – Um Faroeste Caboclo (Documentário, 2008, 75 min, de Emilio Gallo)

Poster1-1Esse Homem Vai Morrer – Um Faroeste Caboclo
(Documentário, 2008, 75 min, de Emilio Gallo)
Assista já:

Crônica de Mortes Anunciadas
Por Carlos Alberto Mattos

“Fé e teimosia” – eis como o Padre Ricardo Rezende define sua perseverança na solidariedade aos lavradores sem terra e na denúncia do trabalho escravo, mesmo depois de frequentar uma lista de pessoas marcadas para morrer. Padre Ricardo é personagem e guia do documentário Esse Homem Vai Morrer – Um Faroeste Caboclo, de Emilio Gallo. Além das virtudes do sacerdote, o filme trata também do medo, da violência e da impunidade que adensam o ar de várias cidades do sul do Pará, nosso farnorte sem lei.

Esse Homem Vai Morrer é uma delas. Foi realizado em 2006, quando Padre Ricardo retornou pela primeira vez à diocese de Rio Maria, onde vivera entre 1988 e 1996. Como ele, diversos religiosos, sindicalistas, advogados e juízes frequentaram e continuam frequentando as tais listas de morte anunciada. As vítimas potenciais sabem até quantos milhares de reais valem suas cabeças no mercado da pistolagem de aluguel. Ricardo teve mais sorte que a Irmã Dorothy Stang, assassinada em 2005.Esse episódio ecoa na voz de Dira Paes, que faz duas vinhetas ficcionais no filme e é uma das várias celebridades envolvidas com a denúncia das listas de morte no Pará.

Emilio Gallo reúne histórias de mortos e de sobreviventes, assim como ouve as razões de dois fazendeiros que se dizem atingidos por invasões de propriedade (a maior parte delas griladas, ou seja, apropriadas sem documentos de posse ou com documentos falsos). Não há aqui veleidades de estilo ou de modernidade narrativa. A câmera na mão do próprio diretor cria seu espaço dramatúrgico de maneira crua e incisiva. O que interessa é o que as pessoas dizem, não o que o filme pode fazer com o que elas dizem. Isso pode soar meio amador aqui e ali, com tomadas de cobertura e intervalo que reforçam o caráter um tanto doméstico da filmagem. Mas não se pode negar que esse despojamento é produtivo para a premissa do filme, que é chamar a atenção das pessoas para a grande tragédia paraense.

Os cinco anos que se passaram não tiraram a atualidade do filme. Hoje existe uma lista com 18 pessoas juradas de morte no sul do Pará. “A situação está no plenilúnio. Vai cair alguém não demora muito”, alerta Emilio, deixando claro que a personagem de Dira Paes se baseia um pouco nele mesmo. Esse Homem Vai Morrer é um pequeno filme feito contra a morte, contra o medo e a injustiça.

(Fonte. 13/05/11)

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