Conheça o livro “Encontros no Encontro: Participação Social da Rede Nacional dos Pontos de Cultura” (Editora IFG, 2017, 175 pgs)

Já está disponível para leitura e download gratuito o livro “Encontros no Encontro: Participação Social da Rede Nacional de Pontos de Cultura”, co-escrito por mim, Eduardo Carli de Moraes, e meu colega Rafael Moreira do Carmo, ambos professores do IFG (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia), sob a coordenação do Vinicíus Ferreira (PROEX – Pró-Reitoria de Extensão e Cultura), com colaboração de Maíra Soares Ferreira.

A publicação – colorida, repleta de lindas fotos e diagramada com primor – busca revelar em minúcias o que ocorreu em 2015, durante o XV Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros, uma realização da Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge. Naquela ocasião, ocorreu ali a reunião da Comissão Nacional dos Pontos de Cultura, com representantes de todo o Brasil reunidos para pensar as potencialidades e os obstáculos no contexto do programa Cultura Viva.

O conceito chave e fio condutor do livro é a participação social, de modo que buscamos dar voz a muitos dos ponteiros, artistas, produtores culturais, jornalistas, ativistas, agentes comunitários, dentre outros, que participaram desta Polifonia Participativa dentro do “Encontrão”. No manifesto gerado pela Comissão Nacional dos Pontos de Cultura, nesta ocasião – a Carta de São Jorge – os trabalhadores da cultura escreveram:

“A Política Nacional Cultura Viva (Lei n. 13.018/2014) é a afirmação de que, sem diversidade com base nos direitos humanos, não há cidadania. Essa política é essencial para combater o avanço conservador em marcha e construir uma sociedade emancipada. Chamamos os governos federal, estaduais e municipais a assumirem seu compromisso com a política e o cumprimento das metas do Plano Nacional de Cultura. Mais do que resistir, convocamos o movimento cultural brasileiro a exercer protagonismo na luta, organizando a sociedade nas redes e nas ruas por mais democracia e mais direitos, unificando esforços de mobilização.” – Carta de São Jorge (Leia na íntegra – imagem na abertura deste post)

O livro também visa frisar a relevância do trabalho deste Pontão de Cultura que há 20 anos vêm realizando um trabalho de imenso mérito na região da Chapada dos Veadeiros: a Cavaleiro de Jorge, sempre atuando em defesa da sociobiodiversidade, da inclusão social participativa e da expressão cultural múltipla e multifacetada das comunidades tradicionais da região.

A obra funciona como grande reportagem, documento histórico e reflexão crítica sobre as políticas públicas de cultura no Brasil, abordando o cenário cultural brasileiro nos arredores do ano de 2015, época de frutificação de muitas das sementes plantadas pela gestão Gilberto Gil & Juca Ferreira no Ministério da Cultura. O trabalho é fruto de uma parceria IFG & MinC, estabelecida através dos esforços do pessoal coordenado pela então secretária Ivana Bentes.

Lançamos esta obra em Setembro de 2017, primeiramente em cerimônia no Teatro do IFG – Câmpus Goiânia, em 01º de Setembro, ocasião em que a editora do IFG lançou 10 novas publicações. Também estivemos lançando este rebento durante as festividades dos 20 anos de existência da Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge, na Chapada dos Veadeiros, em 07 de Setembro de 2017. Agora, convidamos a todos à leitura e à discussão! 

ACESSE O EBOOK: 
http://editora.ifg.edu.br/index.php/editoraifg/catalog/view/19/15/51-1

Compartilhe no Facebook, no Instagram, no Twitter, no Tumblr

* * * *

No ano de 2016, participei da equipe de voluntários de Comunicação, selecionados por edital para realizarem a cobertura do 16º Encontrão – uma vivência extraordinária e inesquecível. Naquela ocasião, fui flagrado nesta foto pelo hermano Santi Asef – um fotógrafo argentino magistral – filmando um pouco dos agitos do Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros na Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge. Apesar da total ausência de fotogenia de minha parte, guardo com carinho esta foto que me traz com Raul Seixas no peito e olhando para o quadro de Luiz Gonzaga no alto. Um vislumbre do que foram aqueles 15 dias de intensas e memoráveis convivências e aprendizados, tanto na Aldeia Multietnica 2016 quanto no festival da Vila de São Jorge, na correria boa da criação intensa de reportagens (umas 20, no total), todas elas reunidas em A Casa de Vidro

ACESSAR REPORTAGENS – ENCONTRO DE CULTURAS 2016
https://acasadevidro.com/category/encontro-de-culturas-2016/

Na toada da relembrança, um maremoto de memórias invade a mente e me garante que esta foi uma experiência das mais incríveis poder trabalhar, como voluntário de jornalismo, deste eventaço junto com a equipe de comunicação constituída também pela Fernanda Verzinhassi no texto e pela Bruna Brandão e pelo Pedro Henriques na fotografia. Satisfação, galera! Também aprendi uma imensidão com o trabalho da Narelly Batista, da Ana Ferrareze, do Juliano Basso, de toda a galera responsável pelo Encontrão e pela Cavaleiro de Jorge.

Pude conhecer gente preciosa e que a gente não esquece mais: as caminhadeiras Suzana Zana e Luisa Ritter (http://bit.ly/2unN1PO), o fotógrafo Danilo Christidis e a psicóloga Giuliana Mattiazzo Pessoa (http://bit.ly/2us0A0v), a Thâmile Vidiz e suas Sabenças da Infância(http://bit.ly/2usf3Jx), os documentaristas Bruno Goulart e Vinícius Fernandes (http://bit.ly/2ttYQ2J), o trampo do Ramon Lopes Negoativo Berimbrown da banda Berimbrown (http://bit.ly/2tYigyA), as lições do cineasta e ativista Rodrigo Siqueira Arajeju (http://bit.ly/2urSjJS), a sabedoria ancestral de pajés e curandeiras como Raimundo Dessana (http://bit.ly/2v6oL26), a musicalidade acachapante dos cânticos e danças rituais dos Fulni-Ô (http://bit.ly/2uo66S8), e por aí vai. Pude pirar também nas deslumbrantes imagens do time do audiovisual que incluía Diego Zanotti, da Agustina Martínez, da Isabella Lanave, do Bemmoithi Mekragnotire, da Ester Simon, dentre outros.

Neste 2017, em que compromissos de trabalho no Instituto Federal de Goiás (IFG) – oficial me impediram de participar da Aldeia Multiétnica e do Encontro de Culturas, deixo aqui este tributo de gratidão por tudo o que vivi ali. Na esperança de que o livro Encontros no Encontro e a série de reportagens possam somar algo à iniciativas tão louváveis para a Cultura e as Artes no Brasil, este cidadão-do-cosmos, debaixo do céu estreladíssimo de São Jorge, entusiasmado com as múltiplas efervescências e intercâmbios propiciados pelo Encontrão, convida à leitura e deseja: longa e fértil vida ao Encontro de Culturas, à Aldeia Multiétnica e à Chapada dos Veadeiros!

Obra do artista Moacir, morador da Vila de São Jorge, Alto Paraíso de Goiás

LEITURAS SUGERIDAS:

[Encontro de Culturas – Txt 09] Festividades dos Dessana tomam conta da X Aldeia Multiétnica

Dewssana

Um emblema fotográfico do dia das festividades Dessana na X Aldeia Multiétnica. Fotografia: Bruna Brandão. 21 de Julho de 2016.

Os Dessana, provenientes da região do Rio Negro, no Amazonas, onde existem cerca de 26 diferentes etnias, comandaram as festividades na Aldeia Multiétnica da quinta-feira, 22 de julho. A etnia tem sua origem às margens do rio Tiquié, próximo à fronteira com a Bolívia, e faz parte da família linguística Tukano. Para chegarem à Chapada dos Veadeiros, como relatou numa roda-de-prosa o xamã Raimundo Dessana, eles tiveram que encarar uma viagem de avião. “É uma pena que eles só nos deixaram trazer 30 quilos de bagagem cada um”, disse Raimundo. “Por isso não pudemos trazer tudo o que a gente queria de adornos e paramentos, de ferramentas e de plantas”.

Apesar dos limites de peso impostos pela companhias aéreas, os Dessana puderam realizar sua performance ricamente paramentados e demonstrando, através de suas pinturas corporais, gestos de dança e cânticos em conjunto, um pouco desta cultura ancestral (saiba mais nesta matéria de Silvaline Pinheiro  ou no site do Instituto Socioambiental).

Uma curiosidade espantosa é que o xamã Raimundo, da etnia Dessana, consegue se comunicar razoavelmente com 9 etnias da sua região. Com os parentes que são do grupo linguístico Tukano, por exemplo, ele diz conversar tão bem quanto fazem um brasileiro e um latino-americano de língua espanhola, que dão conta de “se virar”, para dialogar, com apelos ao bom e velho portuñol. Somando nesta conta dos 9 idiomas amazônicos também o português e o espanhol, que estão entre as línguas “dos brancos” que ele domina razoavelmente, Raimundo Dessana é indiscutivelmente um poliglota: comunica-se em 11 idiomas e dialetos.

Pajé Raimundo é mestre de milenares artes-da-cura revelam a densidade de saberes sobre o mundo natural conservada pelos povos indígenas através das gerações, como já contamos nesta outra reportagem, O Dom da Cura.

Foto: Santi Asef na X Aldeia Multiétnica

Pajé Raimundo Dessana, na X Aldeia Multiétnica. Foto: Santi Asef.

Teve uma vez, como ele alembra, que os franceses tomaram interesse por aprender a sabedoria médica acumulada pelo pajé Dessana junto a seus ancestrais: um médico de um hospital da França queria descobrir a cura para o vírus do HIV e acreditava que Raimundo Dessana poderia ajudá-lo nesta épica empreitada terapêutica de curar a AIDS. O pajé mostrou-se descrente e disse que não ia dar jogo: seria como dois analfabetos que tentassem se escrever uma carta.

Não havia entre o pajé Dessana e o médico francês nenhuma linguagem em comum para que pudessem, através do verbo, comunicar o essencial de seus saberes. Os abismos de comunicação abrem-se pois há o problema, incontornável, da variedade das linguagens, da diversidade de idiomas, da intraduzibilidade de muito entre elas. Há o indizível na língua do outro e há coisas na língua do outro que na nossa também são indizíveis; ainda assim, há o esforço da construção de pontes.

A Aldeia Multiétnica oferece um protótipo de espaço de convivência onde a interculturalidade e a diferença reconhecida e assumida têm destaque; um espaço onde buscamos construir pontes sobre estes abismos de incomunicabilidade para nos encontrar num espaço comum. Sabemos que muito se perde na tradução, mas será isto razão para desistir de traduzir? Se comunicar-se é difícil, devemos por isto abandonar a empreitada?

A existência de um espaço assim manifesta uma vontade humana, que é coletiva, de interconexão, de partilha, de troca de saberes. Ninguém disse que é fácil, mas esta perspectiva torna totalmente aceitável que os pajés frequentem sim os aeroportos e que aprendam muitas outras línguas além da nativa, pois só assim a aldeia global seria capaz, talvez, de ouvir esta voz tão crucial, tão enraizada, tão antiga e tão urgente.

AAA 1

X Aldeia Multiétnica recebe os Dessana. Foto: Mariana Florêncio.

FIOS NA TEIA DA VIDA – O papel do jornalismo na defesa da sociobiodiversidade

FIOS NA TEIA DA VIDA:
O papel do jornalismo na defesa da sociobiodiversidade

por Eduardo Carli de Moraes

Escrito para o Edital do XVI Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros (resultado)

“A pluralidade é a lei da terra”.
HANNAH ARENDT (1906 – 1975) [1]

“Não sou apenas o índio que perdeu a taba
Na curva da estrada que o trator abriu
Quando arrancou mãe-floresta,
Quebrou minha flecha
Deturpou minha festa e quase ninguém viu
Não quero esse lero-lero de quem diz:
Não posso! Coitado! Ai de mim!
Se a Amazônia dá um grito, nós gritamos juntos.
E rezamos assim: Ave! Ave! Santa árvore
Pai nosso e do palmital
Pão nosso e do santo fruto
Ribeirinho enfrenta o mal
Do homem que traz a cerca
Planta capim, faz curral
Amparado num projeto de violência brutal
Onde o homem é esquecido
E o boi querido é o tal.”
ZÉ PINTO [2]

Neste ano de 2016, o Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros comemora 16 anos de travessia. Através desta história, vem atuando como propiciador de intercâmbios culturais que contribuem para que “a voz do nosso povo se faça ouvir com toda sua diversidade” [3], para lembrar palavras de Célio Turino.

Esta é também uma das tarefa de antropólogos e etnográfos, de fotógrafos e jornalistas: tornar evidente e manifesto a polifonia e a pluralidade de nosso “país que pulsa diversidade”, como se lê na Carta de São Jorge. Esta é um manifesto coletivo, nascido como um dos muitos frutos da 15ª edição do Encontro, assinado pela Comissão Nacional dos Pontos de Cultura, reunida entre os dias 28 de julho a 01 de agosto na Vila de São Jorge, Alto Paraíso de Goiás. Suas eloquentes palavras permanecem, um ano depois, intensamente atuais:

O Brasil, que pulsa diversidade, está atento à onda conservadora que assola o País e promove uma crise civilizatória. Setores reacionários atacam nossa juventude por meio da redução da maioridade penal e o genocídio da juventude negra, agridem povos de terreiro, mulheres e a comunidade LGBTT com o crescente fundamentalismo religioso. Indígenas, quilombolas e povos tradicionais sofrem uma ofensiva do grande capital contra seus territórios. Fica claro para nós que as conquistas sociais e econômicas dos últimos anos não são suportadas pelas elites do nosso País… (Carta de São Jorge [4])

Aldeia_Multietnica_Yawalapiti_-_foto_de_Fredox_CarvalhoN

Aldeia Multiétnica @ Encontro de Culturas da Chapada dos Veadeiros – Foto: Fredox Carvalho

Premiado pelo Iphan em 2015 [5], o Encontro das Culturas Tradicionais tem contribuído para repovoar nosso imaginário utópico rumo a uma cultura polifônica, repleta de participação social e diálogos fecundos entre os diferentes povos e perspectivas que constituem os fios na grande teia da vida. É neste contexto que nos propomos, no presente texto, realizar algumas reflexões sobre o papel do jornalismo na defesa e na celebração da sociobiodiversidade, conceito muito enfatizado no “Encontrão” (como é carinhosamente conhecido).

Acredito que os profissionais da mídia têm o dever ético e profissional, além da função pública essencial, de engajarem-se na defesa da “inestimável sociobiodiversidade dos povos da floresta”6 e na denúncia da brutalidade das práticas “da cerca e do curral” mencionadas no poema-canção de Zé Pinto e que fazem com que “o homem seja esquecido”.

Hoje, mais do que nunca, quando estamos ameaçados por todos os lados por desmatamentos e etnocídios, por assassinatos de ecoativistas e imensas catástrofes ambientais (como aquela que ocorreu no Rio Doce), faz-se necessário e urgente defender as culturas em sua pluralidade, re-afirmando a possibilidade de um convívio fecundo e mutuamente enriquecedor entre as diferenças.

Para esta tarefa grandiosa e utópica é preciso a congregação de forças – e sem dúvida que os jornalistas podem (e devem) somar suas vozes e palavras, suas investigações e pesquisas, suas reportagens e fotografias, suas denúncias e seus anúncios, ao coro daqueles que querem uma cultura viva, pulsante, pluralíssima, que celebre o colorido todo da nossa inestimável sociobiodiversidade hoje tão ameaçada, vilipendiada e golpeada.

Geral Encontro 2_2015_Foto Leonil Jr

Palco de atrações artísticas do Encontro de Culturas da Chapada dos Veadeiros – edição XV, 2015, foto de Leonil Jr

A desconexão pode enlouquecer – e não estamos falando da Internet que, quando cai, pode deixar doido (ao menos provisoriamente) alguns de seus usuários mais adictos. A desconexão mais nociva é aquela que nos separa uns dos outros em facções e seitas inimigas, impedindo-nos a congregação e a troca em meio à pluralidade que nos constitui. Em um país de cultura adoecida, os sujeitos estão desconectados da rede da vida. Podem estar conectados a seu feed de besteirol no celular ou no navegador, mas vivem na alienação da desconexão, desvinculados uns dos outros, construindo abismos intransponíveis que as separam ao invés de pontes que comunicam as margens, incapazes de perceberem os laços que os unem uns aos outros e à natureza comum de que participam.

O jornalismo, quando de fato fornece informação autêntica sobre a realidade concreta, fornece não apenas uma enxurrada de informação, infértil e sem consequência. O jornalismo, ao informar-nos sobre o real, fornece-nos algo essencial para a transformação do que há, para a superação do dado, uma vez que pode servir para desfazer os feitiços paralisantes da alienação, definida magistralmente por Milton Santos nos seguintes termos: “A força da alienação vem dessa fragilidade dos indivíduos, quando apenas conseguem identificar o que os separa e não o que os une.”

milton-santos-alienacao_thumb3

O jornalismo, quando de fato se presta a ouvir as vozes das comunidades tradicionais, quando abre-se a aprender com as sabedorias ancestrais de povos indígenas ou quilombolas, pode realizar um trabalho de revelação de uma realidade que muitos não enxergam. Pode contribuir para que a opinião pública se sensibilize em relação a problemas, dificuldades e desafios enfrentados pelas comunidades, mas pode também ensinar sobre outros modos de conviver e de criar. O jornalismo autêntico, segundo acredito, busca compartilhar um saber sobre o real de que somos contemporâneos, sendo uma atividade não apenas informativa mas também de formação; contêm uma dimensão pedagógica intrínseca, desde que não preste ao leitor o desserviço de enganá-lo ou ludibriá-lo por ordem do patrão.

Compartilhar o saber sobre a vida concreta, as dificuldades e os triunfos, os obstáculos e as vitórias, das comunidades tradicionais, pode ajudar os leitores a compreenderem a importância das raízes bem plantadas em solo fecundo para que as árvores dêem profusão de flores e frutos. O jornalismo pode ser uma dessas forças que fornece saber sobre a efetividade desses povos e que amplifica seus valores e práticas. Se saber não é exatamente poder, é sim um elemento essencial à eficácia da ação conjunta no mundo comum de que nos fala Hannah Arendt, esta terra cuja lei a filósofa afirmava ser a pluralidade.

Conhecer o real é indispensável para aqueles que querem transformá-lo, e o jornalismo, em sua vocação, deve ser veículo de conhecimento sobre aquilo de que somos contemporâneos. Assim considerado, o jornalista é análogo ao historiador (que deseja ter cognição do passado para comunicar conhecimento sobre tempos idos), com a diferença de que é no calor da hora, em um presente que está acontecendo em toda a sua desenrolante imprevisibilidade, que o jornalista buscará aquilo que é digno de comunicar a seu público.

Em nosso país de dimensões continentais como o Brasil, estamos condenados a desconhecer vários Brasis onde nunca estivemos, vários locais onde nossa experiência imediata nunca bebeu. E já que ninguém tem o dom da ubiquidade, só se pode conhecer a fundo este país gigantesco – e de si mesmo tão dessemelhante! – através das narrativas que tecemos e comunicamos uns aos outros, entre elas as jornalísticas. Uma boa reportagem não difere tanto, quanto aos efeitos éticos e estéticos que propicia à sensibilidade e à inteligência do leitor, de algum primoroso conto de nosso repertório literário. E creio não haver absurdo em debater quem é a escritora mais magistral, se Clarice Lispector, se Eliane Brum.

Eliane Brum, jornalista e escritora brasileira

Eliane Brum, jornalista e escritora brasileira

No Brasil, existem em atividade alguns jornalistas muito engajados nas questões socioambientais: caso de Washington Novaes, Felipe Milanez, Eliane Brum (El País), Inês Castilho (Outras Palavras), André Trigueiro, dentre outros. Há também institutos e ONGs, com seus respectivos blogs e sites, devotados ao jornalismo de qualidade sobre o tema, caso do Combate Racismo Ambiental, Instituto Sócio Ambiental ou Envolverde [7]. O jornalismo, tal como praticado por estes inspiradores luminares da profissão, pode contribuir para que o leitor enxergue as conexões entre os fenômenos, refletindo sobre as consequências futuras de nossas ações atuais etc.

Infelizmente, a chamada “grande mídia” não costuma dar o devido destaque aos temas do meio ambiente e dos modos-de-vida de populações tradicionais capazes de uma relação harmônica com a natureza. Temas de extrema importância, como o aquecimento global, a acidificação dos oceanos, a poluição atmosférica, o desmatamento, a invasão de garimpeiros e madeireiras sobre áres demarcadas, dentre outros temas, sofrem com uma espécie de blecaute cotidiano em grande parte da imprensa empresarial, apelidada por alguns “mídia burguesa”.

Ainda assim, há de se reconhecer que, apesar das críticas que podem lhe ser dirigidas, existem projetos como a Planeta Sustentável, “uma iniciativa multiplataforma de comunicação que tem a missão de difundir conhecimentos sobre desafios e soluções para questões ambientais, sociais e econômicas do nosso tempo. Dissemina conhecimentos sobre temas relacionados a sustentabilidade para 21 milhões de leitores anuais por meio de seu site mais de 30 títulos de revistas da Editora Abril.” [8]

Já no âmbito da intelectualidade brasileira, também há alguns ilustres autores que têm oferecido muitas reflexões relevantes sobre os temas socioambientais e culturais: é o caso, por exemplo, de Ricardo Abramovay, Ladislau Dowbor, Deborah Danowski, Eduardo Gianneti da Fonseca, Antonio Nobre, Eduardo Viveiros de Castro, dentre outros.

Quando exercido por profissionais de talento literário e percepção sociológica aguçada, a narrativa jornalística pode atingir tons épicos, grandiosos. Um exemplo excelente é aquilo que costumo chamar de “jornalirismo” de Eliane Brum, autora capaz de descrições socioambientais de raro brilhantismo literário, que podemos exemplificar relembrando sua descrição da realidade vivenciada pelos ianomâmis:

A floresta proibida dos ianomâmis, 9,7 milhões de hectares estendidos como um tapete verde e úmido sobre Roraima e Amazonas, assemelha-se a um universo primordial. Rios de sucuris gigantes, cachoeiras cinematográficas, árvores eternas. Quase o dia da criação. Os índios, feitos dessa mesma matéria original, se mimetizam à selva, invisíveis ao primeiro olhar, aconchegados ao ventre de Omamë, o precursor de tudo segundo sua cosmologia. Revelam ao cibernético século XXI, agora tragicamente confrontado com as diferenças que julgava encobrir, um modo de viver semelhante ao dos primeiros ancestrais. Dos povos mais isolados do planeta, travam a guerra do começo do mundo enquanto o planeta globalizado ameaça manchar a Terra com um ponto final. – ELIANE BRUM 9

Eliane Brum serve para ilustrar a potência do jornalismo quando pratica a sensibilização do leitor para as questões socioambientais, em que a vida humana e a vida da biosfera nunca estão desconectadas, onde as florestas e seus povos são reveladas em toda a tessitura de sua pluralidade, inclusive com a revelação recorrente da unicidade de cada personagem que dá o ar de sua graça na reportagem.

Foi lendo e relendo os textos de Brum que fui me convencendo que hoje o jornalista precisa ser um pouco antropólogo, um pouco etnógrafo, movido por um sincero desejo de compreender o mundo do outro, acessar a perspectiva existencial alheia, construindo pontes de comunicação que permitam uma mútua cognição e que nos auxiliem a melhor tecer, em conjunto, a continuação da teia da vida.

Sem dúvida, o jornalista responsável, que conhece sua função pública, têm necessariamente de pôr em prática permanente o seu senso crítico, inclusive sobre os dogmas e as dominações que vigem na profissão. Um livro publicado recentemente no Brasil pela Ed. Boitempo, Mídia, Poder e Contrapoder – Da concentração monopólica à democratização da informação, traz um interessante artigo de Ignacio Ramonet onde ele afirma que vários grupos midiáticos “estão se comportando, segundo o conceito de Louis Althusser, como ferramenta ideológica da globalização”10.

Para não se render a ser serviçal das ideologias hegemônicas e dos sistemas de produção e consumo hoje hegemônicos, que são insustentáveis pois ecocidas, o jornalismo precisa esclarecer a opinião pública sobre as culturas, em sua pluralidade, que sobrevivem hoje com técnicas ancestrais de interação com o meio ambiente, sem devastação, com respeito e sabedoria. Povos indígenas e quilombolas têm destaque neste cenário, infelizmente ainda muito desconhecido de boa parte dos brasileiros “civilizados”, já que muitos urbanóides que habitam os grandes centros urbanos ignoram boa parte da realidade brasileira (e, como viemos explorando, a mídia empresarial tem culpa no cartório em relação à produção social desta relativa cegueira).

Um outro exemplo de jornalismo competente, cujo tema tem muita relação com o XVI Encontro de Culturas das Chapadas dos Veadeiros, é uma interessante reportagem recente chamada “As Novas Cercas do Quilombo”, na qual Repórter Brasil revelou que “apenas 7% das famílias quilombolas vivem em áreas tituladas. Na busca pelo reconhecimento dos territórios, comunidades enfrentam ameaças, confisco de objetos históricos e resistência até do órgão de preservação do patrimônio.” Eis um exemplo interessante de como o jornalismo pode servir ao bem público ao informar-nos sobre a realidade social:

Dos cerca de 2.700 quilombos de todo o país já certificados pela Fundação Palmares, só 163 chegaram à etapa final e foram titulados. No Incra, a morosidade é absoluta: “A questão é que há mais de 1.500 processos abertos no Incra, mas o órgão não tem capacidade de encaminhá-los”, afirma Otávio Penteado, assessor da Comissão Pró-Índio de São Paulo, organização que também lida com a questão quilombola. Para Otávio, a falta de titulação das terras ocorre por “desinteresse político”, o que se traduz em cortes orçamentários na área.

A mudança na composição dos ministérios que o presidente interino Michel Temer (PMDB) realizou assim que Dilma Rousseff foi afastada pelo Senado agravou as preocupações das entidades ligadas à questão quilombola. Na última quinta-feira (12/05), o deputado federal ligado à bancada ruralista Osmar Terra (PMDB-RS) foi nomeado para a pasta de Desenvolvimento Social e Agrário, que é responsável pelo Incra. Também foi extinto o Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos, que coordenava o Programa Brasil Quilombola e executava políticas voltadas às comunidades negras tradicionais. – Repórter Brasil [11]

Acredito que o jornalismo possa ser uma tocha iluminante em nossos tempos sombrios, fornecendo informação verídica sobre o real que permita transformá-lo de modo criativo. Quando soma suas forças narrativas à eventos como o Encontro de Culturas Tradicionais, pode auxiliar a tornar visíveis os invisíveis, tornar audíveis os silenciados, dando voz e vez àqueles que o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro apelidou recentemente de os involuntários da pátria [12].

O jornalismo, que também integra o âmbito da cultura e tem todo o interesse em seu florescimento, pode (e deve) agir consciente de sua função pública ao invés de servil a interesses empresariais classistas e excludentes. Para recuperar a Carta de São Jorge com que começamos, não há jornalismo emancipador que não seja devotado à construção de uma democracia participativa, do diálogo perene, que aposte numa política da gestão compartilhada do mundo comum, tendo sempre em foco a defesa e a celebração da sociobiodiversidade. Por isso, subscrevemos o seguinte trecho do manifesto:

Entendemos que a cultura deve estar na centralidade do modelo de desenvolvimento do país. E um governo que tem como lema Pátria Educadora deve reconhecer as sabedorias, os conhecimentos e os ensinamentos próprios de seu povo. Deve reconhecer, também, que quem faz cultura, quem produz cultura não são gestores em gabinetes, mas o povo no seu viver, conviver, sobreviver, existir e resistir. A Política Nacional de Cultura Viva (Lei 13.018) é a afirmação de que, sem diversidade com base nos direitos humanos, não há cidadania. Ela é essencial para combater o avanço conservador em marcha e construir uma sociedade emancipada.”

Que a pluralidade pulse no XVI Encontro e que o jornalismo possa juntar sua voz para cantar nesta ciranda exuberante da cultura viva!

14a edição 4

Aldeia Multiétnica do Encontro de Culturas da Chapada dos Veadeiros – 14a edição

* * * * *

NOTAS

1 A frase de filósofa está presente em seu livro A Vida Do Espírito – Volume I: Pensar.

2 Zé Pinto é poeta e cantador de Rondônia e este poema foi declamado na música “Devoção à Amazônia” do CD Arte em Movimento do MST – Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Ouça na Internet: https://youtu.be/InHzQ_h1SbA.

3 Célio Turino em Ponto de Cultura: o Brasil de baixo para cima. 2ª ed. São Paulo: Ed. Anita Garibaldi, 2010. P. 16.

5 Na 28ª edição do prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade, do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), foi um dos vencedores na categoria II – “iniciativas de excelência em promoção e gestão compartilhada do patrimônio cultural.“

6 CALEGARE; HIGUCHI (org). Nos interiores da Amazônia: leituras psicossociais. Curitiba-PR: Ed. CRV, 2016.

9 BRUM, E. A Guerra do Começo do Mundo. Leia a reportagem na íntegra no portal A Casa de Vidro. O texto integra o livro Olho da Rua – uma repórter em busca da literatura da vida real (ed. Globo, 2008, p. 53)

10 “Vocês acham que os meios de comunicação dominantes, que pertencem a grupos de alta relevância no mercado, serão críticos com a globalização e o neoliberalismo, sendo que eles são atores centrais nessas duas dinâmicas? É evidente que a possibilidade disso acontecer é pequena. Em termos gerais, o que eles dizem sobre esse assunto? Que isso é muito bom para nós. Você perdeu seu trabalho, não dispõe mais de serviços públicos, cortaram sua pensão, complicam sua aposentadoria e fazem você trabalhar mais… mas isso é muito bom! É excelente! Todos os meios de comunicação nos repetem isso constantemente. Em outras épocas, quem dava a visão de mundo, quem tinha a responsabilidade e a missão de inculcá-la na sociedade era a Igreja. A Igreja difundia uma concepção de mundo; do mundo e do além. Por exemplo, na colonização da América, os conquistadores eram acompanhados por evangelizadores na destruição de sociedades que tinham sua idiossincrasia, sua religião, sua cultura, suas línguas, sua própria cosmogonia. O conquistador brutal destruía todos esses elementos da sociedade e o evangelizador dizia: ‘mas que sorte maravilhosa!’ Destruíram sua família, destruíram seu povo, destruíram suas crenças, destruíram sua língua, destruíram sua cultura, mas agora você tem a verdadeira religião! Alegre-se! Hoje, a imprensa e os meios de comunicação têm a missão de ser a ferramenta ideológica da globalização.” (RAMONET: Boitempo, 2013, p. 63)

12 Em um trecho magistral, Viveiros de Castro diz: “Povo” só ‘(r)existe’ no plural — povoS. Um povo é uma multiplicidade singular, que supõe outros povos, que habita uma terra pluralmente povoada de povos. Quanto perguntaram ao escritor Daniel Munduruku se ele “enquanto índio etc.”, ele cortou no ato: “não sou índio; sou Munduruku”. Mas ser Munduruku significa saber que existem Kayabi, Kayapó, Matis, Guarani, Tupinambá, e que esses não são Munduruku, mas tampouco são Brancos. Quem inventou os “índios” como categoria genérica foram os grandes especialistas na generalidade, os Brancos, ou por outra, o Estado branco, colonial, imperial, republicano.” Trecho de “Os Involuntários da Pátria”, aula pública de Viveiros de Castro proferida durante o ato Abril Indígena, na Cinelândia, RJ, em 20/04/2016, que pode ser lida na íntegra no portal A Casa de Vidro.


SIGA VIAGEM:

Moacir

moacir-chapada

Trabalhos do artista plástico Moacir, na Vila de São Jorge (GO), tema do documentário “Moacir Arte Bruta” de João Jardim (assista abaixo)


“Chapada dos Veadeiros” – filmagens de drone


“Cada Terra Tem Um Uso, Cada Roda Tem Um Fuso” (2009, 80 min, diretor Neto Borges)


“ATLÂNTICO NEGRO – Na Rota dos Orixás”


SERRAS DA DESORDEM – Um filme de Andrea Tonacci (2006, COMPLETO)


PROGRAMA ENREDO CULTURAL DA TV UFG


BOOGARINS – “Benzin” (clipe filmado na Chapada e estrelado pela Salma do Carne Doce)


ACOMPANHE A COBERTURA COMPLETA DO 
XVI ENCONTRO DE CULTURAS DA CHAPADA DOS VEADEIROS
Site oficialhttp://www.encontrodeculturas.com.br/

XVI Encontro de Culturas Tradicionais @ Chapada dos Veadeiros: 15 a 30 de julho de 2016 na Vila de São Jorge

XVI Encontro de Culturas Tradicionais
De 15 a 30 de julho de 2016
Vila de São Jorge · Chapada dos Veadeiros · Goiás
http://www.encontrodeculturas.com.br/2016/

“Há 16 anos, em toda segunda quinzena do mês de julho, o Brasil se encontra na Chapada dos Veadeiros. Um Brasil que gostamos de chamar de profundo. Profundo geograficamente e em sua sabedoria. A vila de São Jorge, já tão abençoada com sua comunidade local, forte e batalhadora, recebe representantes de diversos povos como o seu. Durante 15 dias, os olhos do mundo se voltam aos interiores, às roças, às aldeias indígenas, aos remanescentes quilombolas, aos pequenos produtores, artesãos, raizeiros, rezadeiras, parteiras, batuqueiros, aos artistas do povo. Aqui, fazemos música, dançamos, rezamos, debatemos, denunciamos, comemos, bebemos, compartilhamos, nos emocionamos – nos entregamos à celebração de um grande encontro de saberes e fazeres. No Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros, nos reconhecemos como brasileiros, compreendendo o quão complexa é essa definição.

4 edições

Darcy Ribeiro afirmava que “o povo que não conheça ou queira ignorar suas raízes culturais corre o risco de não avaliar corretamente sua realidade”. Em 2016, estamos em um momento propício para reflexão, diante de um governo que não compreende o lugar da cultura no projeto nacional. A extinção de políticas voltadas às mulheres, ao movimento agrário e aos direitos humanos é um retrocesso. A possibilidade da indicação de membros das bancadas ruralista e evangélica ao comando da Funai, assustadora. Diante deste cenário, a 16ª edição do Encontro de Culturas chega com uma boa notícia: nós não esmorecemos. Este ano, mais do que nunca, nos colocamos como um evento de resistência. Continuamos na luta pela construção de um Brasil verdadeiro.

Desde o início, o Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros incentivou grandes trocas. Para nos garantir como um evento transformador, aprendemos a lidar com as tecnologias sociais dos grupos tradicionais que recebemos e com eles construir diferentes espaços de conhecimento e formulação de estratégias que compreendam suas necessidades, demandas e dinâmicas, a fim de que, ao final, eles de fato se beneficiem. Foi assim que os povos tradicionais e indígenas tomaram para si o Encontro de Culturas como uma agenda coletiva de seus calendários e imaginário, mesmo com as dificuldades financeiras que muitas vezes ameaçam sua participação e a continuação do evento.

É por eles que continuamos. E por todos aqueles que de alguma forma se deixaram transformar pelos encontros que viveram em nosso grande Encontro. Também pelos tantos outros que virão. Nosso nome é pronto, como diz Seu Otávio, grande parceiro Kalunga. Quando dizemos que vamos, nós vamos mesmo. Coisa de gente da roça, pra quem palavra e confiança são as coisas mais importantes que se pode conquistar. Guiados pela fé, que não costuma faiá, preparem o coração. O XVI Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros vai começar.”

* * * * *


PROGRAMAÇÃO NO AR!

Confira tudo o que vai rolar no XVI Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros, de 15 a 30 de julho

A primeira etapa do Encontro começa com a Aldeia Multiétnica, de 15 a 22 de julho, quando receberemos cerca de nove etnias indígenas de diversas regiões do Brasil para uma semana de intercâmbio cultural. Entre elas, estão Fulni-ô, Kayapó, Krahô, povos do Alto Xingu, Guarani Mbya, Dessana, Xavante. Convidados como Denilson Baniwa, da Rádio Yandê, Rodrigo Siqueira, diretor deÍndio Cidadão, representantes do poder público, fotógrafos, cineastas e comunicadores vão compor rodas de prosa e oficinas ligadas ao tema do evento comemorativo deste ano: “10 anos de Aldeia Multiétnica: Comunicação, Saberes Tradicionais e Novas Linguagens”. Pautas importantes como saúde, educação escolar, afirmação da identidade indígena, conservação de sementes tradicionais e crioulas, segurança alimentar e sabedoria dos ciclos femininos também serão abordadas, como é prezado em todas as edições do evento. Ainda dá tempo de se inscrever pelo site www.aldeiamultietnica.com.br e garantir uma vaga.

Na Aldeia Multiétnica, respeitamos a dinâmica indígena, que é naturalmente mais livre. Por isso, a programação nunca é fechada: pode mudar a qualquer momento, conforme as decisões das lideranças. No dia 22 de julho, como manda a tradição, ao final da vivência na Aldeia os indígenas se direcionam à Vila de São Jorge e passam o “comando” da festa aos remanescentes quilombolas da Comunidade Kalunga e aos povos e comunidades tradicionais convidados. Até o dia 30, a vila será tomada por atividades, como shows, apresentações dos grupos de cultura tradicional, oficinas, rodas de prosa, intervenções artísticas e espetáculos teatrais.

Este ano, pela primeira vez, o Encontro de Culturas recebe o I Encontro de Raizeiros e Pajés na Chapada dos Veadeiros, que acontecerá de 20 a 22 de julho, na Aldeia Multiétnica, e o Encontro de Lideranças Negras, que será realizado de 23 a 25 de julho em São Jorge. A Feira de Experiências Sustentáveis do Cerrado, montada pelo terceiro ano consecutivo com o patrocínio do Sebrae, é um dos destaques desta edição e contará com 14 estandes, que terão como foco a economia criativa do Nordeste Goiano.

A programação cultural contará com a participação das cinco comunidades precursoras do evento, representantes da região da Chapada dos Veadeiros: a Caçada da Rainha de Colinas do Sul, a Comunidade do Sítio Histórico Kalunga, o Congo de Niquelândia e a Folia de Crixás.

Além destes grupos, a 16ª edição terá atrações selecionadas mediante edital lançado neste site. Foram 177 propostas, enviadas das cinco regiões do país, das quais a curadoria selecionou 24 para a composição da programação artística e de parte das oficinas em 2016. Já está confirmada a participação de artistas como Mariana AydarMestrinho, grupo BerimbrownGabriel LevyCaixeiras do Divino da Casa Fanti Ashanti e o grupo mexicano Danza Del Venado. Esta edição também contará com o Dia da Lavadeira, realizado em 26 de julho, uma releitura da tradicional Festa da Lavadeira, permeada pelas cores do maracatu e do samba de coco, marcantes na cultura pernambucana.

Também teremos três mostras de cinema ao ar livre: o Cineclube Brasileirando (15 a 30/07), oCinesolar (29 e 30/07) e o Projeto Cineclube na Praça (25 a 28/07), promovido pela UEG (Universidade Estadual de Goiás).

O Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros é um festival vivo, portanto a programação está sujeita a modificações. Sugerimos que não se atente a isso: entregue-se à celebração e deixe-se guiar pela energia que vibra pelas culturas tradicionais e pela Chapada dos Veadeiros.

Está chegando!

 * * * *

Kickante
CONTRIBUA COM A CULTURA TRADICIONAL BRASILEIRA

“Há 16 anos, o Encontro de Culturas Tradicionais é realizado na Vila de São Jorge, na Chapada dos Veadeiros, com atividades gratuitas a todos. Um grande trabalho coletivo que reúne expressões culturais tradicionais de todo o Brasil. Este ano, pedimos a colaboração de todos para realizar nossa XVI edição. Escolhemos a cultura quilombola de nossos parceiros do Sítio Histórico Kalunga, o maior remanescente quilombola do Brasil, para chegar até vocês.

As recompensas para cada doação vêm diretamente de lá. Candeias, caixas de folia, tapetes feitos por nossa rainha Dona Dainda, buracas e uma viagem incrível, em agosto, até o Vão de Almas, quando acontece o Império do Divino Espírito Santo, uma das celebrações mais importantes desse povo e das mais bonitas de nosso País.

É muito fácil contribuir:

> Abra o link www.kickante.com.br/kalungas
> Clique no ícone “Quero contribuir!”
> Selecione a quantia com que pode colaborar
> Escolha a opção de pagamento: cartão de crédito ou boleto

Pronto! Colaborando, você contribui com a valorização da cultura tradicional brasileira e recebe em casa produtos únicos que expressam a riqueza da cultura quilombola.

Temos um mês para atingir nossa meta! Contamos com você para chegar ao valor que precisamos. A doação pode não fazer diferença no seu bolso, mas no nosso será fundamental para a realização de mais um encontro.

Compartilhe com todos os seus amigos! Convide a todos para este evento e nos ajude a divulgar a campanha.”

Encontro de CulturasCasa de Cultura Cavaleiro de Jorge

* * * * *

NOTA DO EDITOR D’A CASA DE VIDRO: Estarei lá cobrindo o evento após ter sido selecionado pelo Edital de Voluntários de Produção e Comunicação para XVI Encontro de Culturas e postarei a cobertura oficial tb em A Casa de Vidro (fotos, vídeos e textos!). Mantenham-se antenados! (E. Carli de Moraes)