AS REVOLUÇÕES SÃO INFINITAS – As lições da obra prima da ficção científica distópica, “Nós” de Zamiátin (URSS, 1920s)

Escrito na Rússia pós-Revolução Bolchevique, no início dos anos 1920, quando a nação estava em plena Guerra Civil, o livro Nós de Zamiátin (Ed. Aleph, 2017, 344pgs.) já teria entrado para a história da literatura distópica do século XX somente por esta façanha: inspirar a criação de duas das obras mais significativas da literatura no séc. XX: Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, e 1984 de George Orwell.

No entanto, o livro vai muito além de ser somente o inspirador de obras primas subsequentes, sendo uma obra-prima por seu próprio mérito. E que segue pulsando relevância no contexto atual, quase 100 anos após sua publicação.

George Orwell foi uma das mentes brilhantes do século XX que melhor viu a fulgurância artística e política do magnum opus futurista-distópico de Zamiátin. Em uma resenha publicada em Londres, em 1946, o autor de A Revolução dos Bichos, que nunca escondeu o impacto que a leitura de Zamiátin teve sobre seu fazer artístico e sua atividade política, resumiu os porquês da forte ressonância de Nós na posteridade:

No século 26, na visão de Zamiátin, os habitantes de Utopia perderam a individualidade tão completamente que somente são conhecidos por números. Vivem em casas de vidro (isso foi escrito antes da invenção da televisão), o que permite que a polícia política, conhecida como Os Guardiões, possa supervisioná-los mais facilmente. Todos vestem uniformes idênticos, e costuma-se fazer referência a um ser humano tanto como “um número” quanto “um unif” (de “uniforme”). Se alimentam de comida sintética, e a recreação habitual é marchar em filas de 4 pessoas enquanto o hino do Estado Único toca em alto-falantes. A intervalos estabelecidos, é permitido, durante uma hora (conhecida como “Hora Pessoal”), baixar as cortinas em torno dos apartamentos de vidro… – GEORGE ORWELL (p. 318)

É impressionante a habilidade que Zamiátin, com fina ironia, tem ao delinear os contornos do Estado Único, gerido por um monarca-imperador chamado O Benfeitor –  que tem óbvias ressonâncias nas figuras de autoridade do Big Brother (O Grande Irmão) orwelliano e do Chefe-de-Estado em V de Vendetta (graphic novel de Alan Moore e David Lloyd, adaptada para o cinema por James McTeigue em 2005).

Lá pelo século 26, na fantasia inventada por Zamiátin, todo o globo terrestre foi submetido ao poderio do Estado Único, que agora inicia a colonização de outros planetas. “Nós” tematiza, pois, uma espécie de imperialismo intergalático, subsequente ao período em que se exauriu completamente a possibilidade do bom e velho imperialismo internacional. A abordagem ousada desta temática prenuncia também a obra magistral de outro dos maiores gênios da ficção científica, Ray Bradbury, autor das Crônicas Marcianas e de Farenheit 451 (adaptado ao cinema duas vezes, por Truffaut e Bahrani).

Não tendo mais continentes a pilhar, nações a invadir, riquezas naturais a roubar, massacres e pogroms a perpetrar, o imperialismo capitalista deseja agora lançar seus foguetes para a empreitada de buscar colônias em outros planetas – e é esta a finalidade principal da nave Integral, super-foguete em que trabalha o protagonista e narrador de Nós. Trata-se um livro constituído inteiramente por anotações no diário realizadas pelo narrador em primeira pessoa, um matemático, engenheiro e astrofísico conhecido apenas pela sigla D-503.

D-503 é uma figura que, assim como Winston Smith, o protagonista do 1984 de Orwell, vai se descobrindo como ovelha negra no rebanho, como mosca na sopa das autoridades. Ele descreve-se, a certo ponto, como “um dedo cortado da mão”, saltitando por aí (p. 145).

Ele vai desviando da norma, saindo dos eixos da uniformidade compulsória, adquirindo uma doença perigosa: desenvolve uma alma. E neste mundo as autoridades querem que sejamos todos mecanismos. Que funcionemos como relógios e que todas nossas ações sejam cronometradas e coordenadas pela central estatal, o Estado Único.

Há uma Tábua das Horas destinada a sincronizar as milhões de pessoas que constituem as massas adestradas: todos acordam e dormem, almoçam e jantam, trabalham e se divertem, sempre nos mesmos horários. Tudo se pratica sob a Ditadura do Despertador e do Cronômetro.

Tudo isso se passa numa espécie de território-bunker, todo cercado por um gigantesco Muro – que segrega aquela nação, que está sob rédeas curtas e governada por control freaks,  da natureza selvagem e exuberante que a rodeia.

O protagonista nos conta ainda que esta civilização é herdeira da “Guerra dos 200 Anos”, conflito que atravessou dois séculos e no qual as mortandades em massas foram tão gigantescas que apenas 0,2% da Humanidade sobreviveu (p. 41).

Na fachada, esta civilização é uma Utopia; quando penetramos em suas entranhas, ela se expressa como Distopia. Ela faz propaganda de si mesma como civilização que gera a Felicidade para todos os seus cidadãos – e os inimigos do Estado Único são, por isso, chamados de “inimigos da felicidade”.

Como Orwell bem viu, “o princípio condutor do Estado é que felicidade e liberdade são incompatíveis. No Jardim do Éden, o homem era feliz, mas em sua loucura exigiu liberdade e foi expulso para o ermo. Agora o Estado Único restaurou sua felicidade ao retirar-lhe a liberdade.” (ORWELL, p. 319)

Distopia que denuncia e satiriza o Totalitarismo, “1984” de George Orwell não era um manual de instruções

Em Nós, de Zamiátin, também há um movimento clandestino de libertação que está em pleno levante contra o Estado Único e planeja sequestrar a espaçonave Integral.

O protagonista, D-503, acaba se enredando nas teias de aranha desta conspiração anti-estatal, deste grupo revolucionário em insurreição, cuja natureza e ideologia não se delineiam com clareza.

Sabemos apenas que os revolucionários agem concretamente através do projeto de sequestrar a Integral, numa espécie de apropriação/expropriação de um artefato tecnológico de primeira ordem para o Estado Único. Sabemos também que tomam a iniciativa de dinamitação do Muro Verde – uma entidade que eu imagino parecida com o Muro entre EUA e México, a famigerada La Migra.

O conflito lancinante e alucinatório que atravessa o psiquismo do protagonista do romance, o atormentado D-503, tem a ver também com sua posição desconfortável no meio de um cabo-de-guerra entre Estado e Revolução.

Pois D-503 é um tecnocrata importantíssimo para o Estado Único e tem sob sua responsabilidade o projeto aeroespacial Integral, mas acaba se apaixonando por uma moça, número I-330, que integra o movimento de resistência clandestino. É um tema que depois Bradbury replicará em Farenheit 451 através do romance entre Montag e Clarice.

Por força dos magnetos poderosos do amor, D-503 é arrastado, por parte da travessia que registra em seus diários, à rota da rebelião. Ou pelo menos a atos de insubmissão aos ditames do Estado. D-503 descobre então que “só se pode amar o insubmisso” (p. 105).

Em tempos em que o amor é proibido, amar se torna um ato revolucionário.

Porém D-503 não é um revolucionário, mas um funcionário do Estado, e nem mesmo a força magnética do amor é capaz de vencer o cabo-de-guerra em prol da revolução: o Benfeitor acaba sendo mais poderoso. D-503, que flerta com a revolução, termina no peleguismo. Prefere a cumplicidade com o establishment à insurreição transformadora. Orwell foi ao ponto nevrálgico:

Quando a rebelião irrompe, parece que os inimigos do Benfeitor são, de fato, muito numerosos, e que, além de tramar a derrubada do Estado, eles se entregam, no momento que as cortinas estão abaixadas, a vícios tais como fumar cigarros e beber. D-503 acaba por fim se salvando das consequências de sua própria loucura. As autoridades anunciam a descoberta da causa das recentes desordens: alguns seres humanos sofrem de uma doença chamada imaginação. Agora, o centro nervoso responsável pela imaginação foi localizado, e a doença pode ser curada por meio de um tratamento de raio-X. D-503 é operado e então se torna fácil fazer o que sabia ser sua obrigação desde o início – a saber, denunciar seus cúmplices à polícia. Com total equanimidade, ele observa I-330 ser torturada com gás comprimido sob uma redoma… (ORWELL, p. 320)

O narrador D-503 revela-se um anti-herói. A “terapia” pela qual ele passa para limpar sua psiquê evoca procedimentos da barbárie psiquiátrica, como a lobotomia e o eletrochoque. É como se, na sociedade que Nós descreve, todos os súditos do Estado Único tivessem que ser lobotomizados. Um processo de normalização autoritária, de imposição de uma norma única. À fórceps, enfia-se o conformismo nos comportamentos por meio de um procedimento de dano cerebral patrocinado pelo Estado Único.

Já os rebeldes, os insubmissos, os revolucionários, esses são considerados como matáveis, extermináveis, liquidáveis, como se fossem a escória do mundo – eis o título, aliás, do excelente livro de Eleni Varikas, publicado pela Ed. Unesp, que analisa a figura do pária através da história.

Impossível não lembrar do triste fim dos desviantes, dos transviados das normas sociais vigentes, em obras também distópicas como Laranja Mecânica (livro de A. Burgess, filmado por Stanley Kubrick) e Um Estranho no Ninho (livro de Ken Kesey, filmado por Milos Forman).

Na sociedade retratada em Nós, reina suprema a rítmica do trabalho de Taylor e tudo se justifica com apelo à sacrossanta Razão. Os bem ajustados ao sistema consideram-se ultra-racionais e desejam estar isolados da selvageria que há do outro lado do Muro Verde, onde reina aquele “insensato e repugnante mundo das árvores, pássaros, animais” (p. 132).

O ser humano segregado de sua matriz natural é aquilo que esta civilização consagra. Tanto que o protagonista D-503 julga que os sonhos noturnos representam uma patologia, devido à irrupção do irracional (p. 141-142), e ele desejaria que sua consciência fosse blindada contra o mundo onírico.

O tipo de personalidade que é considerada normal e louvável nos faz lembrar dos ensinamentos do psicólogo social Wilhelm Reich, formulador do conceito de Couraça do Caráter. O Estado Único deseja súditos encouraçados, duros como diamantes, que não devem nunca se deixar derreter por emoções malsãs como o amor e a piedade.

Em uma cena memorável, o foguete Integral está sendo testado e, no processo, um acidente acarreta a morte de 10 pessoas. Porém, “ninguém se abalou”, já que 10 mortos não são nada diante dos 100 milhões que constituem a massa do Estado Único: “só os antigos conheciam a compaixão iletrada: pra nós ela é cômica.” (p. 150)

A ideologia corrente reza que “o amor mais difícil e elevado é a crueldade” (p. 169). E o Grande Benfeitor não tarda a dar amostras deste amor cruel: no Dia da Unanimidade – aquilo que conhecemos por Eleições – o chefe de Estado massacra os que não se juntam ao coro uníssono que o celebra.

A tal Unanimidade é manufaturada a golpes de chacinas contra os que são dissidentes. As eleições só são unânimes pois não fica vivo ninguém daqueles votam contra. O massacre institucionalizado é praticado contra os que denunciam no Grande Benfeitor um crápula e um malfeitor, expondo o reverso de sua máscara de Cidadão de Bem.

A ideologia dominante no Estado Único pede que se imagine a Justiça assim: há dois pratos na balança, o prato do EU e o prato do NÓS. Ora, não é difícil de ver, mesmo que você não seja um gênio da matemática, que o EU não pesa quase nada, é equivalente a 1 grama, enquanto o NÓS pesa mais de 1000 toneladas.

Esta moral simplista quer que nenhum eu tenha direito à sua singularidade e que o nós seja um organismo único, homogêneo, descrito de maneira biologicista como um corpo dotado de milhões de cabeças. Cada súdito é uma célula deste Grande Corpo.

Nos anos 1920, Zamiátin já previa, em contornos gerais, muitos dos elementos da doutrina eugenista-racista do III Reich hitlerista, onde o anti-semitismo genocida estava conexo a uma noção do Povo Alemão, do Volk, como um corpo que precisava ser “purificado” de uma infecção: os inimigos da saúde do corpo coletivo eram judeus, ciganos, comunistas, doentes incuráveis etc.

Em Nós, quem fala pela segunda pessoa do plural? Quem é este sujeito coletivo que se expressa em uníssono? Quem seria senão a voz altissonante da ideologia da classe dominante? “Somos um organismo único com milhões de células”, mas estas células não podem ter autonomia alguma: devem se submeter ao projeto do Estado, que deseja uma massa homogênea, unânime, sem diversidade.

Por isso o “processo eleitoral” descrito em Nós é a negação mais crassa da Democracia. É o consentimento aterrorizado de Todos ao reinado inconteste do Um. É a farsa pública sempre repetida de ritos ensaiados onde a Unanimidade deve sempre ser re-afirmada. Aqueles que destoam, ou seja, que impedem a unanimidade de se constituir, devem ser tratados com máxima severidade pois são doentes: “anormalidade e doença são as mesma coisa”, lê-se na página 179.

A Democracia é uma polifonia, o totalitarismo é uma monofonia. Só se chega à monofonia – negação da música, reinado atordoante da monotonia! – através do silenciamento e do assassinato das vozes dissonantes. Isto fica claro quando o protagonista de Nós descreve a monofonia eleitoral, seu “grandioso uníssono”:

Amanhã assistirei ao mesmo espetáculo que se repete ano após ano e cada vez emociona de uma maneira diferente: o poderoso Cálice do Consentimento, as mãos erguidas em reverência. Amanhã é o dia anual do Benfeitor. Amanhã voltaremos a confiar ao Benfeitor as chaves da inabalável fortaleza da nossa felicidade.

Sem dúvida, isso não é parecido com as eleições confusas e desorganizadas dos antigos, quando – é engraçado dizer – o resultado das eleições sequer era conhecido de antemão. Construir um governo sobre causalidades inteiramente incalculáveis, às cegas – o que pode ser mais sem sentido? E ainda assim, foram necessários séculos para entender isso.

Seria importante dizer que, tanto nisso como em tudo o mais, não temos lugar para quaisquer casualidades, o inesperado não é possível. As próprias eleições têm um significado mais simbólico: recordar que somos um organismo único, poderoso, de milhões de células, que somos, nas palavras do ‘Evangelho’ dos antigos, uma única Igreja. Isso porque a História do Estado Único não conhece um incidente em que, nesse dia solene, uma única voz tenha ousado perturbar o grandioso uníssono. (ZAMIÁTIN, p. 188)

Ora, pouco tempo depois de nosso protagonista dizer ao leitor que a unanimidade está garantida, que sempre foi e sempre será assim, irrompe na cena o imprevisto. O uníssono manifesta-se como farsa quando a resistência insurrecional manifesta sua dissonância.

A ideologia dominante segue justificando que assassinar friamente os que se recusam a juntar-se a Nós é uma medida de higiene, uma política sanitária, destinada a limpar o organismo coletivo de um “pequeno distúrbio provocado pelos inimigos da felicidade” (p. 202), como as autoridades fazem publicar no jornal oficial, a Gazeta do Estado Único.

Autoritário com seus súditos, de quem espera submissão total e consenso unânime (as votações, nesta civilização, são uma farsa completa), o Estado Único, diante de seus opositores e contestadores, mostra a sua face totalitária e genocida.

Isso se explicita quando o Estado Único pratica a tortura e faz uso frequente de uma guilhotina hi-tech. O instrumento para execução da pena capital chama-se “A Máquina do Benfeitor” e há momentos do romance em que Zamiátin rivaliza com Kafka em sua capacidade de pintar um pesadelo judicial que evoca a absurdidade de O Processo ou A Colônia Penal. Orwell impressionou-se:

Há muitas execuções na utopia de Zamiátin. Elas ocorrem publicamente, na presença do Benfeitor, e são acompanhadas pelas odes triunfais recitadas pelos poetas oficiais. A guilhotina, evidentemente, não é aquele antigo e grosseiro instrumento, mas um modelo muito aprimorado, que literalmente liquida a vítima, reduzindo-a a fumaça e uma poça de água límpida em um instante. Com efeito, a execução é um sacrifício humano, e a cena que a descreve recebe deliberadamente a cor das sinistras civilizações escravocratas do mundo antigo. É esta apropriação intuitiva do lado irracional do totalitarismo – sacrifício humano, crueldade como um fim em si, idolatria de um Líder a quem se atribui características divinas – que faz do livro de Zamiátin superior ao de Huxley (Brave New World). – ORWELL (p. 321)

Denúncia de um totalitarismo que depois Hannah Arendt se devotaria a explicar e elucidar em seus clássicos estudos como Eichmann em Jerusalém As Origens do Totalitarismo, a obra de Zamiátin permanece atualíssima, infelizmente.

Pois ainda pende sob nossas cabeças a espada de Dâmocles da guilhotina totalitária, desta vez sob a forma de uma espécie de fundamentalismo de mercado, anarco-capitalista e neoliberal, globalizado e sem controle, que encontrou em Naomi Klein uma de suas críticas mais penetrantes e perspicazes. A Doutrina do Choque é um manual essencial para a compreensão de nossos tempos. Tempos estes em que podíamos dizer a recém-chegados de outro planeta: Bem-Vindos à Distopia do Real! (Zizek)

Muito antes de Naomi Klein, Arundhati Roy ou de Zygmunt Bauman nos fornecerem muitas das chaves para a decifração da sociedade capitalista atual, Zamiátin denunciou a intentona totalitária de inventar um mundo onde o único está em guerra contra o múltiplo, o homogêneo em guerra contra o diverso, e o autoritarismo dos lucros em guerra contra as liberdades civis… Tudo disfarçado por trás de uma fachada alegre como Mickey Mouse ou Ronald McDonald: a máscara da Sociedade da Felicidade.

Vale ressaltar, para terminar, que nada tenho contra a noção de Felicidade Pública como conceito político – a Bolívia sob Evo Morales é um exemplo da possibilidade de um socialismo focado na felicidade pública e na sabedoria Pachamâmica. Mas o sistema atualmente hegemônico, nosso status quo, fala de uma felicidade como possibilidade apenas para indivíduos isolados e em competição por este recurso escasso. Prega que o acesso à felicidade se dá pelas escadarias estreitas e acessos limitados da Meritocracia, a Sociedade das Áreas VIP.

Hoje vivemos sob a ditadura “branda” de um fundamentalismo capitalista neoliberal que, anti-democrático e excludente, concentrador de capital de maneira exorbitante, prefere dizer que a Felicidade é para poucos, para escolhidos, exclusivo para empreendedores capitalistas.

Apenas algumas migalhas caem da mesa para os microempreendendores do neocapitalismo, com seu trabalho Uberizado, em que ter uma máquina de cartão de débito permite que você “seja seu próprio chefe” e onde somos convidados a engolir o capim de uma ideologia que diz: “conquiste para si sua felicidade, e pague em 12 prestações no cartão de crédito com pequeno juro mensal!”…

Aquela felicidade que hoje em dia nos pregam os apóstolos do Livre Mercado e do Estado Mínimo está historicamente vinculada a um modelo de regime social que não costuma gostar do processo democrático, visto que adora subir ao poder depois de perversos golpes de Estado. Foi assim na instalação do Laboratório Neoliberal em 1973, no Chile, com a derrubada violenta da União Popular de Salvador Allende; e todas as ditaduras militares instauradas antes disso na América do Sul (Guatemala, 1954; Brasil, 1964; Argentina, 1976) tiveram a ideologia dos Chicago Boys – os neoliberais ao estilo Milton Friedman e Gary Becker – como motor do empreendimento golpista.

Hoje em dia, é difícil não cair na gargalhada, ou não se indignar com a má fé, daqueles que dizem que o neoliberalismo respeita a democracia…

Hoje, Zamiátin ensina-nos a desconfiar de toda sociedade que busque decretar o fim da História e procure tornar o mundo homogêneo. Querem hoje que sejamos todos consumidores, e não mais cidadãos; espectadores, e não mais agentes.

Pode-se dizer que Zamiátin criou uma obra irrotulável, um livro difícil de domar: não é nada fácil colar uma etiqueta classificatória neste livro, até mesmo porque ele reúne uma mescla de ideários que, de maneira um pouco simplista, poderíamos dizer que se enquadram no antagonismo que opõe Liberalismo e Comunismo através da história.

O Liberalismo clássico, aquele de figuras como Locke, Stuart Mill e Tocqueville, era um movimento burguês contra a tirania e o despotismo do Antigo Regime. Reivindicava os direitos civis individuais, entre eles o direito à privacidade, compreendido como o direito de não ser incomodado pelo monstro do Estado – o Leviatã conceituado por Thomas Hobbes – em excesso.

De certo modo, Nós denuncia uma sociedade em que os direitos reivindicados pela tradição liberal não existem, como provam as casas de vidro e as tábuas das horas, sinal de uma gestão estatal invasiva e altamente despótica. Uma leitura liberal de Nós pode apontar as similaridades entre o Estado Único e o Estado Bolchevique, então em sua constituição primordial. O argumento seguiria sendas trilhadas, muitas décadas depois de Zamiátin, por Paulo Leminski, que falará de uma “unanimidade compulsória” que teria marcado o bolchevismo.

Mas Nós não é um panfleto pró-liberal, como são os livros de Ayn Rand. Nós quer também debater a tese comunista, em atuação na época histórica onde Zamiátin escreveu, na plena vigência e efervescência do regime que decretou “todo poder aos sovietes!”

A ideologia dominante, em que o Grande Benfeitor parece-se muito com a figura do velho Czar, diz que qualquer levante revolucionário é inútil: “é uma loucura como tapar a boca do cano de uma arma com a mão e achar que é possível deter o tiro.” (p. 221)

Por séculos, o czarismo disse aos seus súditos que ele era inderrubável, que jamais seria vencido, até que em 1917 tudo colapsou e um mundo novo começou a ser forjado, com os bolcheviques liderando as massas proletárias russas a partir dos escombros do velho mundo.

Escrevendo ainda nos tempos em que Lênin encabeçava o empreendimento revolucionário bolchevique, o livro de Zamiátin é também célebre por veicular a tese bastante Trotskysta da revolução permanente. É óbvio que, tendo sido escrito antes da contra-revolução Stalinista tomar conta dos processos revolucionários desencadeados em 1917, o livro de Zamiátin não poderia ter como intenção a denúncia da URSS pós-1929.

Se este livro pode ser dito visionário, é pois foi capaz de criticar o Stalinismo sem nem saber que o estava fazendo, foi anti-stalinista avant la lettre: Zamiátin lançou em 1920 palavras que, nos anos 1930, atingiam em cheio o coração do pesadelo burocrático e genocida que transformou Stalin em um “Benfeitor” que, na real, enterrou a revolução real – internacionalista e permanente – com a mesma brutalidade com que lidou com Trotsky, liquidando-o fisicamente e buscando depois apagá-lo da História…

No fim das contas, o romance de Zamiátin comunica fortemente a noção de que as revoluções não vão parar. Não há o pretenso “fim da História” pregado por Fukuyamas e congêneres – a História segue, e no futuro talvez ninguém mais vá se lembrar de que houve alguém chamado Fukuyama. Enquanto houver tirania, opressão, espoliação, injustiça, as revoluções serão infinitas.

D-503: Isso é inconcebível! Um absurdo! Por acaso não está claro que o que você está começando é uma revolução?

I-303: Sim, uma revolução! Por que isso é absurdo?

D-503: É um absurdo porque uma revolução não é possível. Porque a nossa revolução foi a última. E não é possível haver outras revoluções. Todo mundo sabe disso.

I-303: Meu querido: você é um matemático. Inclusive mais do que isso: um filósofo da matemática. Então: fale-me sobre o último número… O último, o mais elevado, o maior.

D-503: Mas, I, isso é um completo absurdo. Os números são infinitos, que último número é esse que você quer?

I-303: E que última revolução é essa que você quer? Não há última, as revoluções são infinitas. Último é para as crianças: o infinito as assusta, e é imprescindível que as crianças durmam tranquilamente à noite… (ZAMIÁTIN, p. 236)

Nós, que não somos mais tão crianças, já acordamos para o fato de que as tiranias nunca se instalam sem resistência, que as opressões nunca reinam sem insurreições, que as ditaduras nunca deixam de suscitar guerrilhas: nós sabemos que nenhuma das configurações societárias é imutável, pois tudo é dialético e dinâmico, pois tudo está em disputa e os dados ainda estão rolando. De modo que vivemos na certeza e no entusiasmo de que, como diz a rebelde de Zamiátin, ecoando Trótsky e prenunciando Che Guevara, as revoluções são de fato infinitas.

Eduardo Carli de Moraes
http://www.acasadevidro.com

 

P.S. Soube pelo site A Escotilha que Existe um filme de 1982, inspirado no romance, criado pela rede de televisão alemã ZDF, chamado Wir e disponível na íntegra no Youtube com legendas em inglês:

:: A Estética de Schopenhauer ::


O CLARO ESPELHO DO MUNDO

Reflexões sobre a estética de Schopenhauer

– Por Eduardo Carli de Moraes –


PRIMAZIA DA VONTADE SOBRE O CONHECIMENTO

Clément Rosset, em sua obra Schopenhauer: Filósofo do Absurdo, considera Schopenhauer como um “precursor” de grandes correntes de pensamento posteriores a ele, como a psicanálise freudiana, o procedimento “genealógico” nietzschiano, o existencialismo camusiano, citando ainda suas reverberações nas obras de pensadores e literatos como Marcel Proust, Henri Bergson e Jorge Luis Borges. Rosset destaca que Schopenhauer é um “filósofo in-atual”, “estrangeiro a seu tempo”, uma vez que rompe com um certo “racionalismo” então vigente.

Schopenhauer est un philosophe inactuel, étranger à son temps. (…) La philosophie de Schopenhauer surgit à une époque òu la foi en une raison directrice et ordonnatrice de toutes choses, loin de s’affaiblir, s’est presque exacerbée au travers du grand espoir que le XVIIIe siècle avait attaché au développement du rationalisme, pour abourtir aux constructions de Hegel qui voit dans le devenir du monde la réalisation progressive de l’Esprit absolut, au point d’assimiler réalité et rationalité.”1

Prenunciando o que dirá Freud, Schopenhauer sublinha com recorrência que os conceitos racionais possuem uma existência secundária, derivada, dependente da Vontade. “Em regra geral, o conhecimento permanece sempre a serviço da vontade, do mesmo modo que ele nasceu para este destino e está, por assim dizer, implantado sobre a vontade como a cabeça está sobre o tronco”.2

É o que Jair Barboza também destaca, ao dizer que “é chegada a vez do sentimento ganhar um inédito estatuto, selando aquilo que pode ser considerado como um mérito de Schopenhauer na história da filosofia e que tanta influência exerceu sobre a psicanálise: o primado da vontade sobre o intelecto.” 3 É o que Ferenczi também aponta: “As verdades da psicanálise são inteiramente compatíveis com uma filosofia que vê a essência e origem do universo num ímpeto cego [Vontade], não inteligente e não moral, como Schopenhauer o concebe.”4

“O conhecimento, em geral, tanto racional como puramente intuitivo, procede, pois, da vontade e pertence à essência dos graus mais altos da sua objetivação”, lê-se ao fim do 2º Livro de O Mundo Como Vontade e Representação. “Originariamente ligado ao serviço da vontade e ao cumprimento dos seus desígnios, ele permanece quase continuamente pronto a servi-la; é assim em todos os animais e em quase todos os homens.”

Como também frisa Anatol Rosenfeld, que prefaciou o excerto dos Parerga e Parelipomena publicado no brasil como “Metafísica do Amor, Metafísica da Morte”:

“Freud sempre negou ter lido Schopenhauer, mas a influência indireta, através de múltiplos canais subterrâneos, é tão evidente que não é preciso insistir nisso. É a obra de Schopenhauer que pela primeira vez focalizou sistematicamente a atenção nos fenômenos sexuais, inspirando com isso um exército de pensadores e autores, de Freud a Weininger, de Forel a D. H. Lawrence. (…) Toda a teoria freudiana de que o impulso sexual é a raiz inconsciente do nosso comportamento – representando o consciente uma crosta superficial – é de origem schopenhaueriana. A suposição freudiana da preponderância do irracional e inconsciente sobre o racional e consciente – base da metafísica de Schopenhauer – tornou-se, desde então, um lugar comum e pode-se dizer que o nosso tempo, no seu pessimismo quanto à capacidade do “homo sapiens” de guiar-se pelo intelecto e pela razão, é tributário direto ou indireto da concepção de Schopenhauer, e o comportamento atual da humanidade parece ser um único, gigantesco esforço destinado a provar a metafísica do grande pessimista.”5

VONTADE: A ESSÊNCIA DE TODOS OS FENÔMENOS

Uma dificuldade comum que o leitor leigo de Schopenhauer tende a enfrentar frente a seu conceito de Vontade é o fato deste transcender a esfera humana. Esta Vontade de que fala Schopenhauer não só não é privilégio humano, nem mesmo está presente exclusivamente nos animais, mas é vista como a essência de todos os fenômenos, inclusive os vegetais, minerais e quaisquer outras forças e energias presentes na natureza. É o que Aramayo explica, frisando que ao utilizar o termo “Vontade” Schopenhauer

utilise seulement la meilleure des dénominations possibles, puisque notre vouloir [le vouloir humaine] n’embrasse pas tout le domaine de la volonté au sens large du terme. La volonté recouvre em effet non seulement les volitions humaines, mais en outre les appétits animaux et toutes les forces ou énergies qui animent l’ensemble de la nature.”6

Portanto, é essencial que nos desembaracemos da noção comum de vontade que possuímos, ou seja, a concepção do senso comum que vê na vontade uma espécie de motivo consciente que impele para a ação, ou, em outras palavras, um desejo humano do qual nos apercebemos e que pode, se não for contraposto por um interdito ou outro desejo mais forte, conduzir-nos à busca por sua satisfação. A Vontade que Schopenhauer têm em mente não possui como um de seus atributos essenciais a consciência, de modo que esta Vontade pode operar (e de fato opera) de modo “cego” e “inconsciente” em várias de suas manifestações. Deste modo, haveria uma espécie de “Inconsciente Cósmico” (no sentido de um Cosmos Inconscientemente Desejante), do qual a vontade consciente e inconsciente dos seres humanos não passaria de um exemplar.

…a Vontade Cósmica tem o hábito de abandonar a eterna noite da inconsciência e despertar para a vida como uma vontade individual, para retornar mais tarde à sua inconsciência originária depois de ter sonhado o pesadelo da vida.”7

De modo que Schopenhauer concede o conceito de Vontade como a “chave” para a decifração de todos os enigmas do mundo, comparando sua filosofia à cidade de Tebas, cujas mil portas conduziam ao mesmo centro.


ÉTICA DA COMPAIXÃO

O reconhecimento da essência comum compartilhada por todos os fenômenos do Universo conduz à uma noção ética baseada na “unidade da vida” por detrás de suas diferentes manifestações. De modo que, segundo uma célebre e eloquente imagem de Schopenhauer, o carrasco que faz mal à sua vítima está fazendo mal a si mesmo, já que fere no outro a mesma essência que carrega em si.

“Les différences entre la victime et son bourreau n’existent que sous le principe d’individuation, c’est-à-dire dans le temps. Mais lorque se dissipe ce que la sagesse indienne apelle le voile de Maya, la vision de ces apparences s’évanouit et on reconnaît alors que tous les phénomènes du monde sont la manifestation d’une seule et unique essence comunne dont tous identiquement procèdent.”8

O apelo à noção de véu de Maya, uma espécie de correlato hindu da Caverna de Platão, é constante em Schopenhauer. Quando o sujeito vence a ilusão de se considerar como um indivíduo separado de todo o resto, e supera as considerações ditadas pelo princípio de razão, mergulhando numa intuição imediata que o constitui como “espelho do mundo”, adquire um “conhecimento direto da identidade do querer em todos os seus fenômenos”. E isto possui consequências éticas muito importantes, tornando o sujeito capaz de “fazer sua a miséria do mundo inteiro”, como explica o filósofo no seguinte trecho:

“Quando o véu de Maya, o princípio de individuação, se levanta diante dos olhos de um homem, a ponto de este homem já não fazer uma distinção egoísta entre a sua pessoa e a de um outro, quando ele participa tanto nas dores do outro como se fossem suas, e assim chega a ser, não só muito caridoso, mas completamente pronto a sacrificar a sua pessoa, se pode com isso salvar a de muitos outros, então é evidente que este homem, que em cada ser reconhece a si mesmo no que tem de mais íntimo e mais verdadeiro, considera também as dores infinitas de tudo aquilo que vive como sendo as suas próprias dores, e assim faz sua a miséria do mundo inteiro. Daí em diante, nenhum sofrimento lhe é estranho. Todas as dores dos outros (…) pesam sobre o seu coração como se fossem suas.”9

O filósofo romeno Cioran (1911-1995), cuja obra possui uma alta carga de influência de Schopenhauer, enxergou muito bem o quanto sofreria descomunalmente um homem que possuísse uma “sensibilidade ao sofrimento” e uma “aptidão para a piedade” extraordinárias. Mas destaca muito bem o estado de exceção que representa uma tal capacidade de empatia, destacando o quanto o egoísmo e a tirania do princípio de individuação representam regras raramente superadas:

Quem chegasse, por uma imaginação transbordante de piedade, a registrar todos os sofrimentos, a ser contemporâneo de todas as penas e de todas as angústias de um instante qualquer, esse – supondo que tal ser pudesse existir – seria um monstro de amor e a maior vítima da história do sentimento. Mas é inútil imaginarmos tal impossibilidade. Basta-nos proceder ao exame de nós mesmos, praticar a arqueologia de nossos temores. Se avançamos no suplício dos dias, é porque nada detém esta marcha, exceto nossas dores; as dos outros nos parecem explicáveis e suscetíveis de ser superadas: acreditamos que sofrem porque não têm suficiente vontade, coragem ou lucidez. Cada sofrimento, salvo o nosso, nos parece legítimo ou ridiculamente inteligível; sem o que, o luto seria a única constante na versatilidade de nossos sentimentos. Mas só estamos de luto por nós mesmos. Se pudéssemos compreender e amar a infinidade de agonias que se arrastam em torno de nós, todas as vidas que são mortes ocultas, precisaríamos de tantos corações quanto os seres que sofrem. E se tivéssemos uma memória milagrosamente atual que conservasse presente a totalidade de nossas penas passadas, sucumbiríamos sob tal fardo. A vida só é possível pelas deficiências de nossa imaginação e de nossa memória.”10


DESEJO E SOFRIMENTO

Ecoando a mensagem de Buda, Schopenhauer, após constatar a onipresença da Vontade como coisa-em-si de todos os fenômenos, irá constatar o caráter cego e sem fundamento desta Vontade, chegando à conclusão de que o sofrimento humano em todas as suas formas é decorrente de nossa submissão de Íxions e Sísifos à procissão infindável de desejos, cujas satisfações particulares não conduzem jamais à nenhuma felicidade duradoura.

Chegando às raias da misantropia, de um desprezo quase generalizado pelas “massas” e seus modos de pensar, proceder e existir, diz o filósofo:

“Na verdade, custa a crer a que ponto é insignificante, vazia de sentido, aos olhos do espectador estranho, a que ponto é estúpida e irrefletida, para o próprio ator, a existência que a maior parte dos homens leva: uma espera tola, sofrimentos estúpidos, uma marcha titubeante através das quatro idades da vida, até esse termo, a morte, na companhia de uma procissão de idéias triviais. Eis os homens: relógios; uma vez montados, funcionam sem saber por quê.” (op cit, pg. 338)

De modo que Schopenhauer, levando ao ápice seu “pessimismo”, chega a sugerir que a existência da maioria dos humanos não passa de um pêndulo oscilando entre o sofrimento e o tédio. O seguinte trecho do Mundo… é uma boa síntese destas idéias:

“Todo querer procede de uma necessidade, isto é, de uma privação, isto é, de um sofrimento. A satisfação põe-lhe um fim; mas, para cada desejo que é satisfeito, dez pelo menos são contrariados; além disso, o desejo é demorado, e as suas exigências tendem para o infinito; a satisfação é curta, parcimoniosamente medida. Mas este contentamento supremo é apenas aparente: o desejo satisfeito cede lugar em breve a um novo desejo; o primeiro é uma decepção ainda não reconhecida. A satisfação de nenhum desejo pode conseguir contentamento durável e inalterável. É como a esmola que se lança a um mendigo: ela salva-lhe hoje a vida para prolongar a sua miséria até amanhã. – Enquanto a nossa consciência está preenchida pela nossa vontade, enquanto estamos subjugados pelo impulso do desejo, pelas esperanças e pelos temores contínuos que ele faz nascer, enquanto somos súditos do querer, não existe para nós nem felicidade duradoura, nem repouso.” (op cit, pg. 206)

Porém, o pessimismo schopenhauriano não é absoluto, nem o labirinto que ele pinta com tintas tão sombrias é irremediável e sem saída. Novamente ecoando os ensinamentos orientais que tanto apreciava, o filósofo sugere que há sim um modo de se libertar do jugo do desejo e seu séquito de sofrimentos e aborrecimentos. A dissolução do eu, de que tão frequentemente falam muitas escolas do budismo, por exemplo, re-aparece em Schopenhauer, que concebe a “salvação” ou o Nirvana nos termos de uma superação do “princípio de individuação”, que funcionaria como um véu de Maia separando o homem da percepção da unidade de essência entre todos os fenômenos cósmicos. Portanto, para o “Samsara” da dor e do tédio que Schopenhauer descreve como sendo consubstanciais à ditadura do desejo, haveria um “Nirvana” de quietude e repouso, estado em que o desejo se cala e o sujeito se faz contemplação cristalina do cosmos.

“…a supressão espontânea e total, a negação do querer, o verdadeiro nada de toda vontade, em resumo, esse estado único em que o desejo se detém e se cala, em que se encontra o único contentamento que não se arrisca a passar, esse único estado que liberta de tudo… eis o que chamamos o bem absoluto… eis onde vemos o remédio radical e único para a doença, enquanto que todos os outros bens são puros paliativos, simples calmantes.” (op cit, pg. 380)

Bruegel

O PAPEL DA ARTE EM RELAÇÃO À VONTADE

A constatação da quase universal submissão do conhecimento aos interesses e impulsos da Vontade, de que tratamos há pouco, não impede que o filósofo considere a possibilidade de uma “libertação” deste jugo: “em alguns homens o conhecimento pode subtrair-se desta escravidão, rejeitar este jugo e permanecer puramente ele mesmo, independente de todo alvo voluntário, como puro e claro espelho do mundo: é daí que procede a arte”.11

A arte possui para Schopenhauer o poder de suprimir, ainda que por um tempo limitado, esta submissão do conhecimento à vontade. Na experiência estética consumada, absorvido em contemplação profunda, várias “modificações” são notáveis: o sujeito, antes dominado pelo querer, torna-se “sujeito puro do conhecer”, isento de vontade; e o princípio de individuação, que causa a ilusão da individualidade, torna-se inoperante, de modo que “nos esquecemos de nossa individualidade, da nossa vontade e só subsistimos como puro sujeito, como claro espelho do objeto, de tal modo que tudo se passa como se só o objeto existisse, sem ninguém que o percebesse, que fosse impossível distinguir o sujeito da própria intuição e que ambos se confundissem no mesmo ser” (LIII, #34, p. 187).

Schopenhauer procura descrever o modo como através da arte é possível uma superação da dualidade sujeito-objeto, característica do mundo como representação. Quando atinge o estado de contemplação profunda que caracteriza a experiência estética, o sujeito, que antes “enxergava” uma clara distinção entre si mesmo e os objetos representados, passa a “confundir-se” com eles, constituir com eles uma unidade, espécie de eco da unidade de essência que os une: a essência comum que compartilham, a vontade.

“A vontade é uma só e idêntica no objeto contemplado e no indivíduo que ao elevar-se a esta contemplação toma consciência de si mesmo como puro sujeito; ambos, por conseguinte, se confundem, visto que eles são, em si, apenas a vontade que se conhece a si mesma” (L3, 34, p 189).

É o que Jair Barboza expõe nos seguintes termos:

“Doravante não se trata mais do conhecimento individual, comum, cotidiano, brotando do intelecto-lanterna, correlato do princípio de razão em conluio com a vontade individual, mas sim do conhecimento estético, independente do princípio de razão, ocupado com aquilo que sempre é e nunca vem-a-ser. (…) O conhecimento, que originariamente era mekané, servidor da vontade, passa a ser desinteressado e a vontade é negada, já que com a supressão da individualidade a vontade renuncia aos fins desejáveis de serem atingidos, logo, os motivos não têm mais eficácia sobre ela.” “Resta tão-só uma unidade entre contemplador e contemplado, a ser considerada como mais um dentre os reflexos da unidade cósmica.”12

A experiência estética, pois, é um momento beatífico, de iluminação, em que um eu antes carregado de desejos e interesses pessoas torna-se um “neutro” e límpido “sujeito puro do conhecer”. É o que Barboza exprime de modo belamente poético quando diz: “Indiferente é se se está num paço real ou num calabouço, se quem olha é um rei ou um prisioneiro. A impessoalidade do instante é total. O olho que vê não é de um particular, mas o ‘claro olho cósmico’…” (op cit, pg. 62) E frisa ainda que este “estado estético” é “plenamente reconfortante”. “Ao contemplar uma árvore, o claro olho cósmico não procura sua explicação, deixa-a tranquilamente diante de si, perde-se na sua imagem, fruindo-a…” (op cit, 63)

Não seria despropositado, tendo isto em mente, sugerir que um poeta como Alberto Caeiro, alter-ego de Fernando Pessoa, seja uma espécie de eu-lírico que encarna em algumas poesias a vivência estética descrita por Schopenhauer. Em um poema clássico como “O Guardados de Rebanhos”, de 1911-1912, Caeiro enfatiza sua libertação do jugo da Vontade (“não tenho ambições nem desejos / ser poeta não é uma ambição minha…), manifesta desprezo pela “racionalidade” (“pensar incomoda como andar à chuva”; “pensar é estar doente dos olhos”), e descreve um “olhar nítido como um girassol” só alcançável por aquele que atinge um “pasmo essencial”.

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás…
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem…
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras…

Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo…

Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender…

O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos…
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a demais por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem o que é amar…

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar…

ALBERTO CAEIRO13

TODA COISA PODE SER BELA

O conceito de “belo”, para Schopenhauer, engloba tudo aquilo, seja na arte ou na natureza, capaz de causar em seu espectador um estado contemplativo que escape à ditadura do querer. Por esta razão, como aponta Clément Rosset, pode “tornar-se belo” “qualquer objeto, assim que deserta o domínio daquilo que interessa à vontade para unir-se aos objetos da pura contemplação, dos quais se desinteressa a vontade”14.

“Encontramos na contemplação estética dois elementos inseparáveis: o conhecimento do objeto considerado, não como coisa particular, mas como idéia platônica, isto é, como forma permanente de toda uma espécie de coisas; depois a consciência, aquele que conhece, não como indivíduo, mas como puro sujeito que conhece, isento de vontade” (MVR, L3, 38, 205).

Aí está a chave para compreendermos a idéia de Schopenhauer de que “toda coisa é bela”, ao menos de direito: “tout objet est beau dès lors que le regard qu’on porte sur lui est affranchi de tout intérêt désirant et personnel. Selon Schopenhauer une chose est belle, non parce qu’elle se distingue par sa beauté du reste des choses, mais parce qu’elle peut se prêter à un regard non faussé par les intérêts du désir (ou de la volonté).” (Rosset, op cit).

A admiração de Schopenhauer pelos pintores flamengos de naturezas mortas, que frequentemente representavam cenas domésticas “banais” em seus quadros, explicita que o filósofo acreditava que até mesmo os objetos mais “insignificantes” de nosso cotidiano poderiam se tornar belos caso um gênio soubesse enxergar neles suas Idéias e fixá-las em sua obra, tornando-as acessíveis aos demais humanos.

Além disso, o sereno estado de ânimo que foi imprescindível a estes pintores para que pudessem retratar em tantas minúcias e com tamanho cuidado os objetos que pintaram é testemunho de um proeminência do intelecto sobre a vontade que Schopenhauer considera admirável. Talvez não haja tanta distância entre esta noção schopenhauriana e aquilo que sugeriu Merleau-Ponty quando refletiu sobre Cézanne: “artista é aquele que fixa e torna acessível aos demais humanos o espetáculo de que participam sem saber”15.

Vale notar que esta definição da beleza parte muito mais dos efeitos gerados no espectador do que nas qualidades inerentes ao objeto. Pode ser julgado “belo” todo objeto, artístico ou natural, capaz de “despertar” naquele que o observa um estado contemplativo, de intuição pura, durante o qual se calam temores e esperanças, ânsias e preocupações.

Rosset sugere até mesmo que algo criado com funções meramente utilitárias, e que é utilizado em nosso cotidiano por seu valor de uso, sem ter sido concebido como portador de um “valor estético”, possui uma certa “potencialidade” para gerar este estado contemplativo que Schopenhauer vincula ao objeto belo. Deste modo, seria possível enxergar na obra de um artista como Marcel Duchamp (1887-1968) um preceito schopenhauriano posto em prática. É o que Rosset aponta:

Il n’y a donc pas de différence fondamentale entre un objet conçu em fonction d’une finalité esthétique et un objet fabriqué em fonction d’une finalité utilitaire ou comerciale. Quand il expose un séchoir à bouteilles, une roue de bicyclette ou un urinoir, Marcel Duchamp ne se doute certainement pas qu’il met ainsi em pratique un précepte de l’esthétique de Schopenhauer.”16

A arte funcionaria, pois, como um calmante da vontade, uma Maracujina do desejo, estando aí o maior de seus méritos. Clément Rosset diz:

“l’art agit comme un calmant: il possède, à la manière d’une potion magique, telle celle mise au point par le druide Panoramix dans les aventures d’Astérix, le pouvoir de rendre l’homme invincible, capable de triompher un moment des tortures psychologiques qui jallonent son existence d’être vivant et soufrrant.”17

O apelo à poção de Panoramix, por parte de Rosset, pode parecer despropositada, mas indica bem outra característica essencial deste calmativo ou anestesiante que é a arte: seu caráter efêmero, já que seu efeito, tal qual o da poção, logo se desfaz — e logo recomeça o Samsara da vida comum. A arte representaria, pois, um “oubli momentané des peines”, na expressão de Rosset (op cit, p. 143).

Em suma: uma obra-de-arte seria admirável em proporção de sua capacidade de nos fazer escapar às garras tiranas do interesse pessoal e da vontade individualizada, por assim dizer. O gênio, pois, aquele capaz de criar as mais potentes das obras-de-arte, não deixa de ser, para Schopenhauer, um professor de resignação, um mestre a guiar a humanidade no caminho do conhecimento e da renúncia à vontade tirânica. Por isso Jair Barboza sugere que “o gênio é o correlato do asceta, como toda genuína vivência do belo é um momento beatífico, de iluminação”.18

Cabe fazer a ressalva de que para um pensador como Nietzsche, em sua crítica ao que considerava como uma postura “niilista” de Schopenhauer, a arte não será concebida em função de suas capacidades de “acalmar a vontade”, mas muito mais pelo seu potencial de exaltar a vontade de potência, para Nieztsche um “valor” positivo e digno de ser afirmado.

Ludwig Van!

A FIGURA DO GÊNIO

Estabelecendo uma cisão entre o conhecimento racional e o conhecimento “intuitivo”, Schopenhauer descreve através de vivas metáforas as diferenças entre estes:

“O primeiro [o conhecimento racional] assemelha-se a uma violenta tempestade que passa, sem que se lhe conheça nem a origem nem o fim, e que curva, agita, arranca tudo no seu caminho; a segunda [a contemplação] é o calmo raio de sol que fura as trevas e desafia a violência da tempestade. O primeiro é como a queda das gotas inumeráveis e impotentes que numa cascata mudam sem cessar e não têm um instante de repouso; a segunda é o arco-íris que paira tranquilo acima deste tumulto desenfreado” (L3, 36, 195-96).

O homem que Schopenhauer concebe como “gênio” não possuiria um talento especial para o raciocínio lógico e as inferências racionais, mas sim para a contemplação das idéias eternas:

“É apenas através desta contemplação pura e completamente absorvida no objeto que se concebem as idéias; a essência do gênio consiste em uma preeminente aptidão para esta contemplação; ela exige um esquecimento completo da personalidade e das suas relações; assim, a genialidade é apenas a objetidade mais perfeita, isto é, a direção objetiva do espírito, oposta à direção subjetiva que termina na personalidade, isto é, na vontade. Por conseguinte, a genialidade consiste em uma aptidão para se manter na intuição pura e aí se perder, para libertar da sujeição da vontade o conhecimento que lhe estava originariamente submetido; o que se resume em perder completamente de vista os nossos interesses, a nossa vontade, os nossos fins: devemos, durante um tempo, sair inteiramente da nossa personalidade, ser apenas o puro sujeito que conhece, olhar límpido do universo inteiro…” (L3, 36, 195)

Nesta capacidade extraordinária de se furtar aos desiderata da vontade pessoal se encontra uma das características principais do gênio, capaz de uma “intuição objetiva” que o homem comum raramente consegue conquistar:

“O homem comum, esse produto industrial que a natureza fabrica à razão de vários milhares por dia, é, como dissemos, incapaz, pelo menos de uma maneira contínua, desta percepção completamente desinteressada, sob todos os pontos de vista, que constitui a contemplação… ele só pode fazer incidir a sua atenção sobre as coisas na medida em que elas têm uma certa relação com a sua própria vontade.” (op cit, pg. 196)

Jair Barboza afirma, pois, que o gênio possui um “intelecto emancipado”. Em linguagem freudiana, poderíamos dizer que gênio é aquele que, ao invés de ser conduzido cegamente, feito uma marionete, pelos ditados de sua libido, consegue dominá-la, refreá-la e sublimá-la, tornando-se senhor desta “vontade cega” que provêm das profundezas de seu inconsciente e que é exemplar particular de uma Vontade natural una que se manifesta de várias formas no universo.

Alçando-se acima do interesse pessoal e dos desejos mesquinhos de “Vossa Majestade, o Eu”, o gênio é aquele capaz de dissolver sua personalidade própria e tornando-se o “claro espelho do mundo” de que fala Schopenhauer. “O gênio: esquecimento dos interesses, dissolução no intuir” — é como o define Jair Barboza (op cit, pg. 70).

Um extraordinário poder de imaginação, que “alarga o círculo de visão do gênio”, também é descrita como “o correlativo e mesmo a condição do gênio”.É como se, na pessoa do gênio, a balança do conhecimento conseguisse sobrepujar a balança da vontade: “no homem de gênio, a faculdade de conhecer, graças à sua hipertrofia, subtrai-se por algum tempo ao serviço da vontade; por conseguinte, ele pára para contemplar a vida por ela mesma”. Por isso, muitas vezes o homem genial é desastrado em sua vida prática. “E o gênio, em consequência de sua aversão ao conhecimento racional, desvia-se do conhecimento matemático e símiles” (BARBOZA, op cit, pg. 67).

…um homem de gênio é muitas vezes presa de violentas afeições e paixões insensatas. A causa deste fato não é, no entanto, de modo algum, a fraqueza da razão; é, em parte, a energia extraordinária do fenômeno da vontade que constitui o homem de gênio e que se traduz pela veemência de todos os seus atos voluntários; em parte, a preponderância do conhecimento intuitivo dos sentidos e do entendimento sobre o conhecimento abstrato: daí, com efeito, uma tendência declarada para a contemplação; ora a intuição ativa brilha com uma luz tão soberana ao lado dos conceitos incolores que ela os fere de impotência e reina, daqui em diante, sozinha sobre a conduta, que se torna, por este mesmo fato, insensata; aliás, a impressão presente tem tanto poder sobre eles, que os leva à irreflexão, ao arrebatamento, à paixão.” (op cit. 199-200)

Schopenhauer não concebe o homem de gênio, porém, como num estado constante de “contemplação pura”; esta vem em marés, por assim dizer, e é por esta razão, sugere o filósofo, que muitos acreditam numa inspiração que os tomasse tal como uma possessão. A estética schopenhaueriana nos leva a pensar que isto não passa de superstição e que a diferença do gênio em relação ao homem comum é a maior aptidão e frequência com a qual o gênio consegue alçar-se acima dos ditados de sua vontade e experenciar o mundo através de uma intuição cristalina, tornando-se sujeito puro do conhecimento.

MISTICISMO?

É sabido que Schopenhauer conhecia a fundo as filosofias orientais, em especial o budismo e o hinduísmo, chegando a citar em muitos pontos de seu percurso textos como os Upanixades, os Vedas e outros textos fundadores de “religiões” na Índia e adjacências. Talvez por isto seja possível sugerir que há um certo “tropismo” para uma concepção “mística” de inspiração oriental em Schopenhauer. Alguns dos principais estudiosos e divulgadores da sabedoria oriental no Ocidente, como Aldous Huxley e Joseph Campbell, possuem formulações que soam muito aparentadas àquelas de Schopenhauer.

Huxley, que deixou minuciosos relatos de suas experiências estéticas e místicas, inclusive relatando sua percepção musical e intuitiva sob o efeito de substâncias como a mescalina, também sugeria que a “Iluminação” consistia numa superação da dualidade entre sujeito e objeto — exatamente o processo que Schopenhauer sustenta ocorrer na experiência estética.

“…a consciência mística mais alta só surge quando se está livre do conhecido, quando não há meta em vista, por mais intrinsecamente excelente que seja, mas sim abertura pura”, sugere Huxley. E não seria absurdo supor que há um íntimo parentesco entre a “intuição desinteressada” de Schopenhauer e a “abertura pura” à qual Huxley se refere. Este último ajunta ainda que esta experiência estética-mística de “transcender a dualidade” ocorre através da

“des-subjetificação daquele que percebe, que não vê mais o mundo exterior com desejo ou aversão, não julga mais automática e irrevogavelmente, não é mais um ego emocionalmente carregado, mas descobre ser um elemento na realidade dada, que não é um negócio de objetos e sujeitos, mas uma unidade cósmica de amor.”19

Já Alan Moore, uma das mentes mais brilhantes hoje operantes no que se costuma chamar de cultura pop, e que se auto-declara um “xamã”, soa altamente schopenhaueriando quando declara:

“When we are doing the will of our true Self, we are inevitably doing the will of the universe. (…) Every human soul in is fact one human soul. It is the soul of the universe itself and as long as you are doing the will of the universe, then it is impossible to do anything wrong.” 20

INFLUÊNCIA DE SCHOPENHAUER

É sabido também que Schopenhauer conquistou entre literatos, poetas, romancistas e pintores uma admiração rara, influenciando muitas obras que estão fora do domínio propriamente filosófico. É o que destaca Anatol Rosenfeld: “A concepção estética do filósofo de Frankfurt empolgou gerações de autores e artistas e o conceito particular do gênio, como foi concebido por ele, encontrou ainda recentemente expressão num romance de Thomas Mann (Dr. Fausto), o autor dos Buddenbrooks, obra em que O Mundo como Vontade e Representação desempenha um papel decisivo”21.

Clément Rosset, um dos filósofos contemporâneos que melhor soube enxergar os ecos do pensamento de Schopenhauer em pensadores posteriores a ele, destaca sua enorme influência sobre o pensamento e a literatura do século 20, chegando a sugerir que o romance A Náusea, de Jean Paul Sartre, assemelha-se a um “romance de juventude” de Schopenhauer:

“Son influence est néanmoins sensible chez certains penseurs du XXe siècle: par exemple chez Cioran; chez Georges Bataille qui lui emprunte sans le savoir, dans L’Érotisme, plusieurs de ses thèmes fondamentaux; enfin dans tout le courant dit ‘existentialiste’ qui lui emprunte, toujours sans le savoir, les thèmes de la facticité et de l’absurdité de l’existence. Ainsi La nausée de Sartre pourrait-elle être consideré comme une sorte de roman de jeunesse de Schopenhauer.”22

O escritor italiano Italo Svevo (1861-1928) confessou abertamente que seu primeiro romance, Una Vita, “foi inteiramente feito à luz da teoria de Schopenhauer” 23, de modo análogo à inspiração freudiana que “regeu” a redação de A Consciência de Zeno. Influências também podem ser percebidas em autores como Marcel Proust, Henri Bergson ou Jorge Luis Borges. O autor argentino, por exemplo, escreveu belíssimas palavras de reflexão sobre a questão do sonho em Schopenhauer, filósofo que apreciava muito a fórmula de Caldéron “a vida é um sonho”:

“Si le monde est le rêve de quelqu’un, s’il y a en ce moment quelqu’un qui est em train de nous rêver et qui rêve l’histoire de l’univers, alors l’anéantissement des religions et des arts, l’incendie général des bibliothèques n’importent guère plus que la destruction des meubles d’un rêve. L’esprit qui une fois les a rêvés les rêvera de nouveau; tant que l’esprit rêvera, rien ne sera perdu. La conviction de cette vérité, que l’on dirait fantastique, a fait que Schopenhauer a comparé l’histoire à un kaléidoscope òu les figures changent, mais non les morceaux de verre, à une éternelle et confuse tragi-comédie òu les rôles et les masques changent, mais non les acteurs.” 24


SOFRIMENTO E ASCETISMO

Uma vez que nenhuma felicidade absoluta é obtenível, e já que a gangorra entre o sofrimento e o tédio constitui a gema do pesadelo da vida, só resta a Schopenhauer sugerir como uma via de liberação a negação desta vontade produtora de tamanho sofrimento.

Rien ne peut faire que la volonté arrête de vouloir sans cesse, car nulle satisfaction ne parvient à remplir définitivement ce tonneau des Danaïdes qu’est notre vouloir inépuisable. Il est impossible de trouver un bien absolu, un bien qui ne soit pas provisoire, et le seul bien suprême est la complète négation de la volonté qui décide de se supprimer elle-même par la voie de l’ascétisme, em cessant de vouloir, afin de se libérer de la souffrance qui domine le monde.”25

O “pessimismo” de Schopenhauer, pois, não é tão desolador e desesperante quanto possa parecer, uma vez que uma estreita porta rumo a uma beatitude possível permanece sugerida pelo filósofo. É como se renunciar à busca pela felicidade fosse o único meio de nos aproximarmos de uma felicidade; não uma felicidade positiva e “colorida”, composta por prazeres e deleites, mas uma felicidade que estaria mais num repouso d’alma, numa ataraxia imperturbável, numa tranquilidade búdica.

A experiência estética representaria, na “jornada espiritual” que conduz a esta beatitude possível, um dos primeiros passos. Quando, através da contemplação de uma obra de arte, conseguimos nos alçar acima da dolorosa tirania do desejo, nos tornando “sujeitos puros” do conhecer, sem temores nem preocupações, experimentamos alguns dos instantes mais felizes que são acessíveis aos seres humanos. Decerto que é provisória esta delícia; mas ela é o bastante para fornecer a Schopenhauer uma espécie de “modelo” de experiência em que o sujeito torna-se o “espelho sereno do mundo” — condição à qual o filósofo convida incessantemente seu leitor a procurar realizar.

* * * * *

:: REFERÊNCIAS ::

1ROSSET, Clement. Schopenhauer, philosophe de l’absurde. Paris: Presses Universitaries de France (PUF), 1967.

2SCHOPENHAUER. O Mundo Como Vontade e Representação. Rio de Janeiro: Contraponto. 2ª ed, 2004. Trad. M. F. Sá Correia. Livro III, #33, pg. 186.

3BARBOZA, Jair. A Metafísica do Belo de Arthur Schopenhauer. São Paulo: Editora Humanitas – FFLCH-USP, 2001. Pg. 33.

4FERENCZI. Psicanálise I. In: Obras Completas. São Paulo: Martins Fontes, 1991. P. 216.

5ROSENFELD, Anatol. Texto/Contexto I. Editora Perspectiva, Coleção Debates.

6ARAMAYO, Robert R. L’Optimisme Du Rêve Éternel D’Une Volonté Cosmique Chez Schopenhauer. In: La Raison Devoulée – Études Schopenhauriennes. Paris: J. Vrin, 2005.

7ARAMAYO. Op cit. P. 19.

8ARAMAYO. Op Cit. P. 21.

9SCHOPENHAUER. MVR. Op Cit. L IV, #68, pg. 397.

10CIORAN, Emil. Breviário de Decomposição (Précis de Décomposition). Tradução de José Thomaz Brum. Editora Rocco. Página 34.

11SCHOPENHAUER. MVR. Op. Cit. Livro II, #27, pg. 161.

12BARBOZA, Jair. Op cit. Pg. 60.

13CAEIRO, Alberto. Poemas Completos. Ed Martin Claret, Pg 34.

14ROSSET, Clément. Remarques Sur L’Esthétique de Schopenhauer. In: La Raison Devoulée – Études Schopenhauriennes. Paris: J. Vrin, 2005.

15MERLEAU-PONTY. A dúvida de Cézanne. In: Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1980. Pg. 120.

16ROSSET, C. Op Cit, pg. 141.

17ROSSET, C. Op Cit. P. 143.

18BARBOZA, Jair. A Metafísica do Belo de Arthur Schopenhauer. São Paulo: Editora Humanitas – FFLCH-USP, 2001. Introdução. Pg. 9.

19HUXLEY, Aldous. Moksha – textos sobre Psicodélicos e a Experiência Visionária (1931-1963). Organizado por Michael Horowitz e Cynthia Palmer. Ed. Globo, 1983, pg. 108-111.

20MOORE, Alan. The Mindscape of Alan Moore. Documentário inglês de Dez Vylenz e Moritz Winkler.

21ROSENFELD, Anatol. Schopenhauer, o filósofo do pessimismo.

22ROSSET, Clément. Écrits Sur Schopenhauer. Préface. Pg. 6. Paris: PUF, 2001.

23SVEVO, I. Profilo autobiografico di Italo Svevo. RSPS, p. 800-801.

24BORGES, Jorge Luis. Otras inquisiciones.

25ARAMAYO. Op Cit. Pg. 21.