A poesia de Phillis Wheatley (1753-1784), “mulher-escritora-negra-desenraizada” que protagonizou um emblemático julgamento no Século das Luzes

“Uma negra pode ser poeta?” Com esta questão, ofensiva e racista em si mesma, Eleni Varikas inicia em chave irônica seu livro “A Escória do Mundo – Figuras do Pária” (Editora Unesp, 2014), evocando os versos impactantes e profundos desta emblemática “mulher, escritora, negra, desenraizada”, trazida à força da África para a América, onde sofreu em Boston o destino de escrava doméstica. De sua pena saíram versos como os seguintes:

“Should you, my lord, while you peruse my song,
Wonder from whence my love of Freedom sprung,
Whence flow these wishes for the common good,
By feeling hearts alone best understood,

I, young in life, by seeming cruel fate
Was snatch’d from Afric’s fancy’d happy seat:
What pangs excruciating must molest,
What sorrows labour in my parent’s breast?

Steel’d was that soul and by no misery mov’d
That from a father seiz’d his babe belov’d:
Such, such my case. And can I then but pray
Others may never feel tyrannic sway?”

(Leia na íntegra em Poetry Fundation: http://bit.ly/2dOHSK2.)

(TRADUÇÃO: Se, Milorde, ao ler meus versos / Se indagar com surpresa sobre a origem de meu amor pela Liberdade, / De onde fluem meus anseios pelo bem comum, / Apenas compreensível pelos corações sensíveis, / Eu, ainda jovem, por destino cruel / Fui arrancada de minha querida África: / Que dores excruciantes torturaram, / Que tristezas acometeram o coração de meus pais? / Petrificada a alma, intocada pela piedade, / Daquele que subtrai de um pai sua criança amada: / É este, é este meu caso. E o que posso fazer senão rezar / Que outros nunca sejam submetidos a esse domínio tirânico?)

Phillis Wheatley chegou à América em um navio vindo do Senegal e Serra Leoa, desembarcado em Boston em julho de 1761; ela tinha cerca de 7 anos de idade e foi comprada por uma senhora que precisava de uma escrava doméstica. Nua e envolta em trapos sujos, com dentes faltando, ninguém sabia o nome da criatura. Acabou batizada com o nome do navio negreiro (Phillis) e o sobrenome de seus patrões (Wheatley).

“Na casa dos seus senhores, aprendeu inglês muito rapidamente. Um ano e meio após sua chegada, lia e comentava as passagens mais difíceis da Bíblia. Com 12 anos, tinha escrito seu primeiro poema…” (Varikas, p. 2) Corte para o tribunal de Boston onde Phiilis Wheatley, em 1772, é submetida a um “exame oral insólito”, por 18 juízes, em que a “jovem escrava de 19 anos, franzina e tímida”,

“carregava em seus ombros a responsabilidade de ‘provar’ diante dos mais eminentes representantes da cultura – e dos europeus que acompanhavam o caso com interesse acalorado – a racionalidade dos negros e sua capacidade de aceder à escrita literária. Na realidade, o que estava em jogo nessa audiência não era a autenticação de um manuscrito, mas a autenticação da humanidade plena de todo o povo negro e, por isso mesmo, a legitimidade da abolição da escravidão. Porque, como disse Robert Nickol em 1788, nunca se ouviu falar de um orangotango que tivesse composto uma ode.

O atestado do júri confirmou ‘ao mundo’ que os poemas haviam sido de fato escritos por ‘uma negra’ que, pouco tempo antes, ainda era uma ‘bárbara sem cultura’ vinda da África. Wheatley tornou-se, assim, a primeira pessoa de origem africana a publicar um livro, e a primeira poetisa negra norte-americana.” (Varikas, p. 3)

Abrindo caminhos que depois seriam trilhados por outras mulheres escritoras, em insurgência contra o machismo e o racismo do Patriarcado escravista hegemônico, Wheatley foi celebrada com entusiasmo por abolicionistas de vários continentes. Sua obra completa – Complete Writings – hoje faz parte da prestigiosa coleção Penguin Classics. E não é absurdo dizer que as raízes do reconhecimento literário contemporâneo de autoras afroamericanas como Toni Morrisson (vencedora do Prêmio Nobel de Literatura), Alice Walker (autora de “A Cor Púrpura”), Angela Davis (hoje respeitada socióloga e pensadora da geopolítica), estão lá na obra de Phillis Wheatley, destino diante do qual Eleni Varikas pergunta: “que relato das Luzes poderia dar conta dos feitos dessa criança ‘prodígio’, sem ocultar a violenta desumanização que marcou sua elevação ao patamar de humanidade pensante?” (Varikas, p. 5)

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O ATLÂNTICO NEGRO: JUIZ DA MODERNIDADE (Reflexões descolonizadoras com Paul Gilroy, Charles Darwin, T. Todorov, Susan Buck-Morss, Toni Morrison etc.)

O ATLÂNTICO NEGRO, JUIZ DA MODERNIDADE

por Eduardo Carli de Moraes

Charles Darwin, muito antes de revolucionar a ciência com sua teoria da evolução, escandalizado pastores e teólogos com a publicação de seu magnum opus A Origem Das Espécies, viajou o mundo a bordo do Beagle, estudando a miríade de manifestações da Vida. No Brasil, Darwin também acabou por testemunhar os feitos e desfeitos deste primata particularmente perigoso, o homo sapiens, e diante das atrocidades cotidianas da escravidão no Rio de Janeiro o sábio naturalista deixou o seguinte relato, eivado de suspiros e lamentos:

Darwin

“Perto do Rio de Janeiro, minha vizinha da frente era uma velha senhora que tinha umas tarraxas com que esmagava os dedos de suas escravas. Em uma casa onde estive antes, um jovem criado mulato era, todos os dias e a todo momento, insultado, golpeado e perseguido com um furor capaz dedesencorajar até o mais inferior dos animais. Vi como um garotinho de seis ou sete anos de idade foi golpeado na cabeça com um chicote (antes que eu pudesse intervir) porque me havia servido um copo de água um pouco turva… E essas são coisas feitas por homens que afirmam amar ao próximo como a si mesmos, que acreditam em Deus, e que rezam para que Sua vontade seja feita na terra! O sangue ferve em nossas veias e nosso coração bate mais forte, ao pensarmos que nós, ingleses, e nossos descendentes americanos, com seu jactancioso grito em favor da liberdade, fomos e somos culpados desse enorme crime.” CHARLES DARWIN em A Viagem do Beagle. Via Brado Informativo.

Com o mesmo tom de blues que Darwin emprega diante da escravatura, poderíamos suspirar: Ah, pobre e massacrado Oceano! Quantas atrocidades já cometeram os humanos sobre as tuas ondas! Hélas! Segundo o instrutivo e estarrecedor infográfico da Slate, por cerca de 315 anos o Atlântico foi atravessado por nada menos que 20,528 viagens marítimas diretamente vinculadas ao tráfico de escravos.

O que me leva à suspeita de que a “banalidade do mal”, como fenômeno histórico, existia muito antes deste conceito ser forjado por Hannah Arendt, que o formulou após testemunhar o o julgamento de Eichmann em Jerusalém, um dos emblemas das avalanches de males que marcaram o século XX. Muito antes das fábricas-da-morte instaladas pelos nazistas, Europa afora, para extermínio dos judeus, o mal banalizado da escravatura, crucial para o desenvolvimento do capitalismo europeu, consistiu na malvadeza banal, tornada habitual, da legalidade e cotidianidade – que hoje nos parece obscena e desumana!- dos mercadores de carne humana.

Do século XVI ao XIX, o slave trade (que tanto capital nos bolsos dos europeus logrou pôr!), impôs a escravatura aos humanos da África em uma escala e extensão impressionantes:  mais de 10 milhões de seres humanos escravizados chegaram às Américas, após terem sido sequestrados e acorrentados na África, extraídos à fórceps e com violência de suas terras nativas.  De todos os “forçados” que foram trazidos ao “Novo Mundo”, apenas 4% destes foram parar no Norte do Continente; a imensa maioria aportou na América Central e do Sul. O Brasil e o Caribe foram os territórios de maior influxo: foram cerca de 1,3 milhões de pessoas carregadas à América Central Espanhola; em contraste, chegaram 4 milhões ao Caribe (às colônias inglesas, francesas, holandesas e dinamarquesas), além de 4,8 milhões ao Brasil.

From the trade’s beginning in the 16th century to its conclusion in the 19th, slave merchants brought the vast majority of enslaved Africans to two places: the Caribbean and Brazil. Of the more than 10 million enslaved Africans to eventually reach the Western Hemisphere, just 388,747—less than 4 percent of the total—came to North America. This was dwarfed by the 1.3 million brought to Spanish Central America, the 4 million brought to British, French, Dutch, and Danish holdings in the Caribbean, and the 4.8 million brought to Brazil. SLATE

É preciso, portanto, repensar e re-escrever o relato histórico oficial, que fala em uma “descoberta da América” em que a “civilização” européia teria feito o favor de trazer aos pagãos-sem-lei as maravilhas e benefícios da “modernidade”. Como já argumentei em outro artigo, em seu clássico estudo A Conquista da América o Tzetan Todorov destaca claramente a dimensão da catástrofe genocida diretamente vinculada às aventuras imperialistas e escravocratas dos europeus:

 “Em 1500, a população do globo era de aproximadamente 400 milhões, dos quais 80 milhões habitam as Américas. Em meados do século XVI, desses 80 milhões… restam 10 milhões. Se nos restringirmos somente ao México: às vésperas da conquista, sua população é de aproximadamente 25 milhões; em 1600, é de 1 milhão. (…) Se a palavra genocídio foi alguma vez aplicada com precisão a um caso, então é esse. É um recorde, parece-me, não somente em termos relativos (uma destruição da ordem de 90% ou mais), mas também absolutos, já que estamos falando de uma diminuição da população estimada em 70 milhões de seres humanos. Nenhum dos grandes massacres do século XX pode comparar-se a esta hecatombe.” (TZVETAN TODOROV, A Conquista da América, Ed. Martins Fontes, p. 191-1)

la-economia-de-la-antiguedad-moses-finley-383111-MLA20493794209_112015-FÉ bem verdade que não foram os europeus da época das grandes navegações que inventaram a escravidão enquanto instituição: ela é um legado da antiguidade, uma acompanhante recorrente mesmo daquelas civilizações que tendemos a julgar como as mais “avançadas”. A obra de Moses Finley revela de modo esclarecedor as condições econômicas, sociais e morais que permitiram o surgimento, o desenvolvimento e o declínio das sociedades escravistas da antiguidade (confiram, por exemplo, o livro Escravidão Antiga e Ideologia Modernada Ed. Graal, 1991).

O Império Romano, por exemplo, praticava abertamente a escravidão. Na época em que Jesus de Nazaré vem ao mundo, este líder hebreu surge no contexto das insurreições de escravos similares ao levante chefiado por Spartacus (tão brilhantemente narrado no filme de Stanley Kubrick).  A figura histórica do nazareno, que depois acabará seus dias, aos 33 anos de idade, pregado numa cruz, é emblemática para frisar o seguinte: a “paixão de Cristo” foi em tudo similar às martirizantes crucificações perpetradas por Roma contra os escravos revoltosos e insubmissos. Tanto que, na Genealogia da Moral, Nietzsche analisará o cristianismo primitivo como expressão de uma “revolta dos escravos na moral”.

Um trecho notável de Friedrich Engels, no Anti-Dühring, clama pela necessidade de compreensão da infâmia escravocrata, se quisermos compreender adequadamente as maiores realizações culturais e espirituais tanto da antiguidade greco-romana quanto da Europa moderna:

Friedrich Engels, 1858

Friedrich Engels, 1858

“Foi a escravidão que tornou possível, pela primeira vez, a divisão do trabalho entre agricultura e indústria em grande escala… Sem a escravidão não haveria Estado, arte ou ciência gregas; sem a escravidão, não haveria Império Romano. Sem o helenismo e o Império Romano como bases, tampouco haveria a Europa moderna… É simples atacar a escravidão em termos gerais e despejar um ódio altamente moral em tais infâmias… Mas isto em nada nos revela como surgiram tais instituições, por que existiram e que papel tiveram na história.” (ENGELS. In: Marx/Engels, Werke, 20, Berlim: 1962, p. 168)

Tendo o Atlântico Negro em mente, é fácil compreender o que Walter Benjamin quis dizer com seu diagnóstico lapidar e crucial: “Todo monumento da civilização é também um documento da barbárie.” O dualismo maniqueísta civilização barbárie cai por terra e revela-se insustentável diante das barbaridades perpetradas pelos “civilizados”. A noção de uma barbárie-civilizada tem como exemplo explícito o caso da escravatura cotidianizada que os europeus praticaram por séculos. As civilizações que se celebram como as mais “elevadas” praticam infames e cruéis barbáries de modo recorrente, e isto também se manifesta em tempos mais recentes: a Alemanha altamente “culta” dará inúmeras provas disso durante o III Reich, e também os “desenvolvidíssimos” EUA, das bombas-H despejadas sobre Hiroshima e Nagasaki às chuvas de napalm sobre o Vietnã (para não mencionar os genocídios recentes no Iraque e no Afeganistão…).

Além disso, vale frisar que até mesmo aqueles reputados como os mais sábios dentre os homens, os mais inteligentes dos seres que já viveram, puderam realizar, naturalmente com muita “civilidade” e retórica apurada, a apologia da escravatura. O etnocentrismo de Hegel já foi amplamente reconhecido como traço notório do autor da Fenomenologia do Espírito (livro que contêm a famosa reflexão sobre a “dialética do senhor e do escravo”, de reverberações e críticas incalculáveis, de Kojève a Marx). Em um texto muito revelador, a historiadora Susan Bock-Morss realiza a proeza de refletir sobre a vida e obra de Hegel tendo como foco a Revolução no Haiti (analisada em minúcias no clássico da historiografia Os Jacobinos Negros, de C.R.L. James):

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LEIA: HEGEL E HAITI, DE SUSAN BUCK-MORSS. Resumo: O paradoxo entre o discurso da liberdade e a prática da escravidão marcou a ascensão de uma série de nações ocidentais no interior da nascente economia global moderna. O artigo explora o uso da metáfora da escravidão no iluminismo filosófico europeu, e sugere que a “dialética do senhor e do escravo” hegeliana tem raízes mais na história contemporânea – particularmente, nas notícias que chegavam à Europa da Revolução Haitiana de 1791 – do que na tradição herdada pelo filósofo alemão.

“No século XVIII, a escravidão havia se tornado a metáfora fundamental da filosofia política ocidental, conotando tudo o que havia de mau nas relações de poder. A liberdade, sua antítese conceitual, era considerada pelos pensadores iluministas o valor político supremo e universal. Mas essa metáfora política começou a deitar raízes justamente no momento em que a prática econômica da escravidão – a sistemática e altamente sofisticada escravização capitalista de não europeus como mão de obra nas colônias – se expandia quantitativamente e se intensificava qualitativamente, ao ponto de, em meados do século XVIII, ter chegado a sustentar o sistema econômico do Ocidente como um todo, facilitando, paradoxalmente, a expansão global dos próprios ideais do Iluminismo que tão frontalmente a contradiziam.

Essa discrepância gritante entre pensamento e prática marcou o período de transformação do capitalismo global de sua forma mercantil para sua modalidade proto-industrial. Seria de se esperar que nenhum pensador racional e “esclarecido” deixaria de percebê-la. Contudo, não era esse o caso.

A exploração de milhões de trabalhadores escravos coloniais era aceita com naturalidade pelos próprios pensadores que proclamavam a liberdade como o estado natural do homem e seu direito inalienável. Mesmo numa época em que proclamações teóricas de liberdade se convertiam em ação revolucionária na esfera política, era possível manter nas sombras a economia colonial escravista que funcionava nos bastidores.

Se esse paradoxo não parecia incomodar a consciência lógica dos contemporâneos, talvez seja mais surpreendente que alguns autores, ainda hoje, se disponham a construir histórias do Ocidente na forma de narrativas coerentes do avanço da liberdade humana….” – SUSAN BUCK-MORSS

Já entre os filósofos gregos clássicos, encontramos escravocratas entre os maiores popstars do pensamento: Aristóteles, o discípulo de Platão e mentor do imperador Alexandre, fará a defesa explícita da escravidão em sua obra Política:

ARistoteles“Alguns seres, ao nascer, se veem destinados a obedecer; outros, a mandar. (…) O macho é mais perfeito e governa; a fêmea o é menos, e obedece. (…) Há na espécie humana indivíduos tão inferiores a outros como o corpo o é em relação à alma, ou a fera ao homem; são os homens no qual o emprego da força física é o melhor que deles se obtém. Partindo dos nossos princípios, tais indivíduos são destinados, por natureza, à escravidão; porque, para eles, nada é mais fácil do que obedecer. (…) A utilidade dos escravos é mais ou menos a mesma dos animais domésticos: ajudam-nos com sua força física em nossas necessidades cotidianas. (…) O escravo é completamente privado da faculdade de querer; a mulher a tem, mas fraca; a do filho é incompleta…” ARISTÓTELES. Política. Trad. Nestor Silveira Chaves. Ed. Saraiva de Bolso, Livro I, Capítulo 2 e 4, pgs. 26, 27 e 42.

Ideologia semelhante já era propagada em A República, onde Sócrates prega uma pólis ideal onde imperaria a escravidão, além de uma rígida censura, com o reinado elitista do “filósofo-rei” e a divisão do trabalho com base nas “aptidões naturais” (alguns, vocês sabem, nascem para a escravidão, outros para a filosofia e o poderio civil… é mais ou menos o sustentava o sujeito que Atenas mandou matar com a cicuta). Mesmo os mais consagrados dos pensadores podem afirmar valores aristocráticos e racistas (Heidegger foi membro de carteirinha do Partido Nazi…). E na Europa jamais faltaram filósofos que dão justificativas sórdidas para o apartheid social e para a manutenção do que Nietzsche chamava de “pathos da distância” (a obra de Nietzsche, aliás, também está repleta de um ethos do aristocratismo, que será fustigado sem dó pelo filósofo marxista Lúkacs em O Assalto à Razão)

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Zumbi dos Palmares, pintura de Antônio Parreiras

Porém, jamais foi sem resistência que o supremacismo militarizado dos escravocratas impôs a mercantilização brutal aos escravizados. A “Revolução dos Escravos” no Haiti é um emblema de que ideais de justiça, liberdade, igualdade e fraternidade, pregados da boca-pra-fora em uma Europa que seguia imperialista e escravocrata, pode triunfar através da insurreição popular revolucionária. No Brasil, por exemplo, também multiplicaram-se os quilombos e os heróis da liderança emancipatória, como Zumbi dos Palmares. Nas águas do Atlântico Negro, atravessado pela diáspora africana, eclodiram também muitas lutas encarniçadas entre capitalistas acorrentadores e escravizados em motim, como ocorreu no navio Amistad em 1839 (cuja crônica cinematográfica foi realizada em 1997 por Steven Spielberg).

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"Levante no Amistad", de Hale Woodruff.

“Levante no Amistad”, de Hale Woodruff.

The Mutiny on the Amistad – In 1839 on the West Coast of Africa, 53 Africans were kidnapped from Mende country (modern Sierra Leone) and sold into Spanish slave trade.  The men, women and children were shackled and loaded aboard a ship where they endured physical abuse, sickness, and death during a horrific journey to Havana, Cuba. Led by Senbeh Pieh (Cinque’), the Africans revolted, took control of the ship, which was eventually seized by an American naval vessel.  The Africans were jailed and charged with piracy and murder. – STEINHARDT/NYU

Um dos pintores ingleses mais importantes do século XIX, Turner (1775-1851), retrata em um célebre quadro a seguinte situação: um “navio negreiro lançando mortos e moribundos ao mar enquanto uma tempestade se aproxima”. A extraordinária e icônica imagem foi inspirada em eventos reais ocorridos com o navio Zong, que fez a travessia entre a África e a Jamaica em 1783, quando 132 pessoas, que eram s africanos escravizados e acometidos por uma epidemia, foram lançados à morte certa nas águas repletas de tubarões. A obra “foi exposta na Royal Academy para coincidir com a convenção mundial antiescravista realizada em Londres, em 1840” (Paul Gilroy, Atlântico Negro, Ed. 34, p. 55).

Obra do pintor inglês, J.M.W. Turner, "O Navio Negreiro" (The Slave Ship), de 1840

Obra do pintor inglês, J.M.W. Turner, “O Navio Negreiro” (The Slave Ship), de 1840. Compartilhar.

A imagem é um emblema das tragédias vinculadas ao tráfico de escravos perpetrado pelos europeus em suas práticas de terror racial e supremacismo branco, mas “deve-se enfatizar que os navios eram os meios vivos pelos quais se uniam os pontos naquele mundo atlântico, os elementos móveis que representavam os espaços de mudança entre os lugares fixos que eles conectavam” (Gilroy, p. 60). No Atlântico, milhares de dramas, hoje apenas parcialmente conservados pela história, transcorreram em meio aos avanços impiedosos da industrialização e da modernização capitaneados pela Europa.

Para Paul Gilroy, o Atlântico Negro remete a uma “estrutura rizomórfica e fractal da formação transcultural e internacional”. O livro de Gilroy pretende focar no conceito de diáspora, sempre remetendo às rotas marítimas, intercruzadas e múltiplas, realizadas através do Oceano que conecta a África, a Europa e a América. O navio teria sido, como escreve Peter Linebaugh, “o mais importante canal de comunicação pan-africana antes do aparecimento do disco long-play.” (LINEBAUGH, “Atlantic Mountains”, p. 119, apud Gilroy, p. 54)

“Este livro é, essencialmente, um ensaio sobre a inevitável hibridez e mistura de ideias”, escreve Paul Gilroy no prefácio ao Atlântico Negro, obra em que faz um “apelo sincero contra a clausura da categorias com as quais conduzimos nossas vidas políticas” e que oferece um “vasto acervo de lições quanto à instabilidade e à mutação de identidades que estão sempre inacabadas, sempre sendo refeitas.” (p. 30) No prefácio à edição brasileira, ele torna explícito o seu desejo de contribuir para “consolidar e renovar nossas críticas da própria ideia de raça e esperançosamente prever sua morte como princípio de cálculo moral e político.” (p. 24) A utopia de Gilroy inclui a morte do racismo, a abertura alegre para a mestiçagem e a crioulização, de modo a demolir todos os absolutismos étnicos, purismos raciais e nacionalismos particularistas que tantos desastres já causaram pela História afora.

Um dos antrópologos mais conceituados da atualidade que estuda a reconstrução da identidade africana, fugindo um pouco dessa relação umbilical com a África Na foto: Paul Gilroy Foto: Walter de Carvalho, Ag. A Tarde, em 03/08/06

Paul Gilroy, autor de O Atlântico Negro. Foto: Walter de Carvalho, Ag. A Tarde, em 03/08/06.

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Falls Road, Belfast

Street Art na Irlanda destaca em seu centro Frederick Douglass. Local: Falls Road, Belfast.

O imperio da necessidadeA situação de cisão e apartheid social no Brasil, um dos lócus mais marcados pela diáspora africana que o termo Atlântico Negro pretende captar, marca nosso presente com seus nefastos legados racistas e discriminatórios até hoje (vejam, por exemplo, o documentário Abolição, de Zózimo Bulbul, lançado no centenário da Lei Áurea,). A escravatura em terra brasilis é bem retratada visualmente pelas obras de Débret, Rugendas e outros artistas menos conhecidos – como é o caso do pintor e desenhista francês François Auguste Biard (cerca 1798–1882), cuja pintura “O Tráfico de Escravos” ilustra a abertura deste post (acima) e decora a capa de livros que estudam o tema, como O Império da Necessidade – Escravatura, Liberdade e Ilusão no Novo Mundo, de Greg Grandin (Ed. Rocco).

Segundo este artigo publicado pelo Goethe Institut:

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François Auguste Biard (cerca 1798–1882), que durante um tempo trabalhou também como retratista oficial na Corte francesa, viajou ao Brasil em 1858 e percorreu amplas extensões do país. Após regressar a Paris, publicou em 1862 o livro, amplamente ilustrado, Deux années au Brésil (Dois anos no Brasil). Segundo Berthold Zilly, a ilustração do transporte do piano pode ser vista “como símbolo da cisão da sociedade brasileira, incluída a elite, entre a pretensão civilizatória e a bárbara base socioeconômica”.

the_slave_trade_by_auguste_francois_biard“O tráfico de escravos – The Slave trade”, pintura de François-Auguste Biard (1833). SAIBA MAIS.

Diante da diáspora africana, causada pela instituição da escravatura, é a modernidade ocidental como um todo que vai parar no banco dos réus. O Atlântico Negro torna-se juiz da modernidade. Segundo Gilroy, a diáspora pelo Atlântico Negro acabará por constituir poderosas contraculturas, que o autor analisará com muita perspicácia através das obras de W.E.B. Du Bois, Frederick Douglass, Toni Morrison, Richard Wright – no âmbito da cultura letrada -, focalizando também na expressão musical negra, em suas múltiplas manifestações (blues, reggae, funk, r&b etc.), de Quincy Jones e Billie Holliday à emergência do hip hop e dos grafiteiros.

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“A impossibilidade da alfabetização para os escravos e seu refinamento compensatório na arte musical não explica o compromisso obstinado e consistente da música negra com a ideia de um futuro melhor. O poder da música no desenvolvimento das lutas negras pela comunicação de informações, organização da consciência e articulação das formas de subjetividade exigidas pela atuação política, seja individual ou coletiva, defensiva ou transformadora, exige atenção tanto aos atributos formais dessa cultura expressiva como à sua base moral distintiva.” (GILROY, p. 94)

A produção cultural vinculada ao Atlântico Negro representa, na avaliação de Gilroy, uma crítica radical de todo o projeto da modernidade ocidental e seu culto à razão. Seria mesmo bizarro que as vítimas da violência escravocrata pudessem acreditar na “racionalidade” do sistema imposto pelos impérios colonizadores. Segundo Gilroy, o exuberante florescimento da arte no âmbito das contraculturas negras revela uma filosofia-de-vida que enxerga na expressão artística uma peça central das “esperanças de emancipação” e “libertação comunal”, em contraste com a tradição da “modernidade” européia, tão logocêntrica e cuja tradição se baseava em esperanças excessivas no poder redentor da “racionalidade”:

“Esta tradição havia mantido a ideia de que a vida boa para o indivíduo e o problema de uma ordem social e política melhor para a coletividade poderiam ser alcançadas por meios racionais. Embora raramente seja reconhecida ainda hoje, essa tradição perdeu seu direito exclusivo à racionalidade, em parte pelo modo como a escravidão se tornou interna à civilização ocidental e pela cumplicidade óbvia que tanto a escravidão da plantation como os regimes coloniais revelaram existir entre a racionalidade e a prática do terror racial. (…) “No pensamento crítico dos negros no Ocidente, a autocriação social por meio do trabalho não é a peça central das esperanças de emancipação. Para os descendentes de escravos, o trabalho significa apenas servidão, miséria e subordinação. A expressão artística (….) torna-se o meio tanto para a automodelagem individual como para a libertação comunal.” (GILROY – p. 98 – 100)

Um dos elementos mais interessantes desta obra-prima da historiografia e da crítica cultural que é o Atlântico Negro de Gilroy é sua abordagem da questão do “pós-modernismo”. Gilroy defende que “repensemos drasticamente” a periodização histórica vigente, que pressupõe uma ruptura radical entre modernidade e pós-modernidade. É preciso superar “versões da modernidade elaboradas pelas míopes teorias eurocêntricas”, o que Gilroy realiza de modo brilhante:

“O conceito de pós-modernismo é frequentemente introduzido para enfatizar a natureza radical ou mesmo catastrófica da ruptura entre as condições contemporâneas e a época do modernismo. Dessa forma, pouca atenção é dada à possibilidade de que grande parte do que é identificado como pós-moderno possa ter sido pressagiado ou prefigurado nos contornos da própria modernidade. Tanto os defensores como os críticos da modernidade parecem não atentar para o fato de que a história e a cultura expressivas da diáspora africana, a prática da escravidão racial ou as narrativas de conquista imperial europeia podem exigir que todas as periodizações simples do moderno e do pós-moderno sejam drasticamente repensadas.

(…) Pode-se argumentar que grande parte da suposta novidade do pós-moderno se evapora quando vista à luz histórica inexorável dos encontros brutais entre europeus e aqueles que eles conquistaram, mataram e escravizaram. (…) Um conceito de modernidade que se preze deve, por exemplo, ter algo a contribuir para uma análise de como as variantes particulares de radicalismo articuladas pelas revoltas de povos escravizados fez uso seletivo das ideologias da Era da Revolução ocidental e depois desaguou em movimentos sociais de um tipo anticolonial e decididamente anticapitalista. Por último, a superação do racismo científico (um dos produtos intelectuais mais duráveis da modernidade) e sua transmutação no pós-guerra em formas culturais mais novas, que enfatizam a diferença complexa em lugar da hierarquia biológica simples, podem fornecer um exemplo concreto e revelador do significado do ceticismo em relação às narrativas grandiosas da razão científica.

O interesse pela subordinação social e política dos negros e outros povos não europeus geralmente não se apresenta nos debates contemporâneos em torno do conteúdo filosófico, ideológico ou cultural e das consequências da modernidade. Em seu lugar, uma modernidade inocente emerge das relações sociais aparentemente felizes que agraciaram a vida pós-Iluminismo em Paris, Berlim e Londres. Esses lugares europeus são prontamente purgados de qualquer traço dos povos sem história, cujas vidas degradadas poderiam levantar questões incômodas sobre os limites do humanismo burguês. (…) O trabalho de uma série de pensadores negros será examinado adiante como parte de uma argumentação geral de que há outras bases para a ética e a estética que não as que parecem imanentes às versões da modernidade elaboradas pelas míopes teorias eurocêntricas. (…) As experiências históricas características das populações da diáspora africana criaram um corpo único de reflexões sobre a modernidade e seus dissabores, que é uma presença permanente nas lutas culturais e políticas de seus descendentes atuais.” (GILROY: 103 – 106 – 107)

Gilroy não permite que o leitor jamais se esqueça da “estreita associação entre modernidade e escravidão”, de modo a insistir numa “firme rejeição da ideia hipnótica da história como progresso” (p. 123). Para escaparmos aos míopes eurocentrismos, é preciso observar a modernidade da perspectiva de suas vítimas, é preciso enxergar as resistências e rebeliões contra uma modernidade que foi vivenciada por milhões como bárbara e opressora. É preciso dar voz, para que contem o seu quinhão da história, aqueles que resistiram bravamente contra o cortejo de atrocidades que lhe eram impostos. A própria história da filosofia precisa passar por uma revolução de modo a considerar, por exemplo, que a dialética do senhor e do escravo na Fenomenologia do Espírito de Hegel pode ser analisada à luz de eventos históricos de que o filósofo alemão foi contemporâneo, em especial “as lutas dos escravos pela emancipação e pela justiça racial, e que persistem nas lutas atuais de seus descendentes dispersos” (p. 124).

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Obras-primas da arte contemporânea tematizam os dramas e dilemas vinculados à diáspora africana e ao Atlântico Negro. É o caso do romance Beloved, de Toni Morrison, a primeira escritora negra a vencer um prêmio Nobel de Literatura. Neste romance, segundo Gilroy, Toni Morrison recria com “patente habilidade” a “assustadora história da tentativa de fuga de Margaret Garner da escravidão em Kentucky”: a mulata Garner, em 1856, em um trenó puxado a cavalo, fugiu com seu marido e seus 4 filhos, além de 9 outros escravos, em direção ao Ohio. Porém, “apanhada em casa pelo cerco de caçadores de escravos, Margaret matou sua filha de três anos com uma faca de açougueiro e tentou matar as outras crianças em lugar de deixar que fossem levadas de volta à escravidão por seu senhor” (GILROY: p. 144).

BELOVEDEm seu impressionante filme, também chamado Beloved, Jonathan Demme soube retratar bem a complexidade e densidade psicológica desta mulher que poderia ser descrita como uma Medéia Escrava e que, segundo Gilroy, na radicalidade de seu infanticídio, manifesta uma “preferência positiva pela morte em lugar da continuidade da servidão. Ela fornece uma valiosa pista para responder à pergunta de como o reino de liberdade é concebido por aqueles que nunca foram livres.” (p. 150)

Não é possível idealizar a ideologia burguesa da modernidade, supostamente humanista e iluminista, diante das cicatrizes e feridas condensados na memória vital dos escravizados. Se o Atlântico Negro merece ser considerado seriamente no “tribunal da História”, como juiz da modernidade, é também para que superemos uma tendência míope da historiografia, que é o foco nacionalista ou etnocêntrico:

“Com algumas nobres exceções, as explicações críticas da dinâmica da subordinação e resistência negra têm sido obstinadamente monoculturais, nacionais e etnocêntricas. Isso empobrece a história da cultura negra moderna, pois as estruturas transnacionais que trouxeram à existência o mundo do Atlântico Negro também se desenvolveram e agora articulam suas múltiplas formas em um sistema de comunicações globais constituído por fluxos. Este deslocamento fundamental da cultura negra é particularmente importante na história recente da música negra que, produzida a partir da escravidão racial que possibilitou a moderna civilização ocidental, agora domina suas culturas populares. (…) O O conceito crucial de diáspora é indispensável no enfoque da dinâmica política e ética da história inacabada dos negros no mundo moderno.” (GILROY: p. 170)

A obra de Gilroy é magistral em revelar uma “percepção profunda” do quanto “a modernidade se estrutura numa cumplicidade entre a racionalidade e a prática do terror supremacista branco”, algo revelado pela teoria e práxis de grandes figuras da história do ativismo negro como Frederick Douglass, Martin Luther King, Malcolm X, Nelson Mandela, Angela Davis, Toni Morrison, entre outros. A contribuição inestimável do livro de Gilroy está em fornecer-nos uma viagem transatlântica pela plural e diversificada cultura negra, em especial aquela que põe sua “ênfase no terror como traço definidor dos regimes escravos santificados tanto por Deus como pela razão” (Gilroy: p. 234).

Em um dos livros mais clássicos em toda a história da produção cultural do Atlântico Negro, The Souls of Black Folk, de W. E. B. Du Bois, sintetiza-se bem esta benjaminiana percepção da modernidade-bárbara: “Guerra, assassinato, escravidão, extermínio e devassidão: este tem sido reiteramente o resultado de se levar a civilização e o abençoado evangelho às ilhas do mar e aos pagãos sem lei.” (DuBois, apud Gilroy, p. 234)

Profundamente inspirado pelas obras de Du Bois, Douglass, R. Wright, Toni Morrison, C.L.R. James, Frantz Fanon, além de impregnado com a música múltipla produzida pela diáspora africana, Paul Gilroy produziu em O Atlântico Negro um monumento da historiografia e da crítica cultural que busca lutar contra “tradições raciais hermeticamente lacradas e culturalmente absolutas”. A aposta de Gilroy é na

“inevitabilidade e valor legítimo da mutação, hibridez e mistura em marcha rumo a memórias do racismo e da cultura política negra melhores do que aquelas até agora oferecidas por absolutistas culturais de vários matizes fenotípicos. A história dos negros no Ocidente e os movimentos sociais que têm afirmado e reescrito essa história podem fornecer uma lição que não se restringe aos negros. Existe aqui, por exemplo, uma contribuição potencialmente importante rumo à política de um novo século no qual o eixo central de conflito não será mais a linha da cor, mas o desafio do desenvolvimento justo e sustentável e as fronteiras que separarão as áreas super-desenvolvidas do mundo (internamente e no exterior) da pobreza intratável que já as circunda. Nessas circunstâncias, pode ser mais fácil considerar a utilidade de uma resposta ao racismo que não reifique o conceito de raça e premiar a sabedoria gerada pelo desenvolvimento de uma série de respostas ao poder do absolutismo étnico, que não tente fixar absolutamente a etnia mas, sim, a veja como um processo infinito de construção da identidade.” (GILROY: p. 415)

SIGA VIAGEM NA CASA DE VIDRO: Angela DavisFrederick Douglass

Leia também: Harvard University Press – Africa in Words – Eufrázia (Scielo) – Critical Legal Thinking – Encyclopedia.com.

“O POVO BRASILEIRO” – Série completa, em 10 episódios, baseada na obra de Darcy Ribeiro [1922 – 1997] (com Chico Buarque, Antonio Candido, Tom Zé, Aziz Ab’Saber, Paulo Vanzolini e outros…)

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“O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil”, Darcy Ribeiro (Cia das Letras, 1995) – ACESSE E BAIXE O EBOOK (PDF, 28 MB)

“Darcy Ribeiro é um dos maiores intelectuais que o Brasil já teve. Não apenas pela alta qualidade do seu trabalho e da sua produção de antropólogo, de educador e de escritor, mas também pela incrível capacidade de viver muitas vidas numa só, enquanto a maioria de nós mal consegue viver uma.” Antonio Candido, Folha de S.Paulo

Orelha: “Por que o Brasil ainda não deu certo? Darcy Ribeiro, ao chegar no exílio, no Uruguai, em abril de 1964, queria é responder a essa pergunta na forma de um livro-painel sobre a formação do povo brasileiro e sobre as configurações que ele foi tomando ao longo dos séculos. Viu logo, porém que essa era uma tarefa impossível, pois só havia o testemunho dos conquistadores. E sobretudo porque nos faltava uma teoria crítica que tornasse explicável o mundo ibérico de que saímos, mesclados com índios e negros. Afundou-se, desde então, na tarefa de produzir seus Estudos de antropologia da civilização, que pretendem ser essa teoria. A propósito deles, Anísio Teixeira observou que “embora um texto introdutório, uma iniciação, não é reprodução de saber convencional, mas visão geral, ousada e de longa perspectiva e alcance. Darcy Ribeiro é realmente uma inteligência-fonte e em livros desse tipo é que se sente à vontade. Considero Darcy a inteligência do Terceiro Mundo mais autônoma de que tenho conhecimento. Nunca lhe senti nada da clássica subordinação mental do subdesenvolvido.”

TODOS OS 10 EPISÓDIOS DA SÉRIE,
DIRIGIDA POR ISA GRINSPUM FERRAZ:

P.S. – Para comprar o BOX com 2 DVDs da série, dê um pulo no Submarino.

darcy.jpgDARCY RIBEIRO – UM BRASILEIRO
Documentário Completo

Leia post da Socialista Morena
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“O Brasil foi construído sobre a maior migração forçada da História, tendo recebido cerca de 4 milhões de escravos africanos…” – Veja o documentário da BBC, “BRAZIL: AN INCONVENIENT HISTORY” (BRASIL: UMA VERDADE INCONVENIENTE)

 Documentário da BBC, “BRAZIL: AN INCONVENIENT HISTORY”
(BRASIL: UMA VERDADE INCONVENIENTE)
Ano de produção: 2001. Diretor: Phil Grabsky. 47 minutos. Legendas: português.

While the history of slavery in the US is widely known, few people realize that Brazil was the largest participant in the slave trade. Forty percent of all slaves that survived the Atlantic crossing were destined for Brazil, while only four percent were sent to the US. At one time half of the population of Brazil were slaves, and it was the last country to officially abolish slavery in 1888.

This well-researched BBC production charts Brazil’s history using original texts, letters, accounts, and decrees. From these original sources, we learn firsthand about the brutality of the slave traders and slave owners, and the hardship of plantation life. With the Portugese colony of Angola acting as a “factor” supplying Africans to Brazil, it was cheaper to replace any slave starved and worked to death than to extend his life by treating him humanely. Few plantation owners sent for their wives to live in this hot climate, so the softening effect of family life was absent among the rough white settlers.

Historians Joao Jose Reis, Cya Teixeira, Marilene Rosa Da Silva, anthropologist Peter Fry, and others recount the effect of centuries of slavery on Brazil today.This is an important documentary for Black history, African history, and Latin American studies.

Academic Video Store

“Os Jacobinos Negros”, de C. L. R. James + Maya Deren no Haiti (documentário + LP com gravações Voodoo)

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THE BLACK JACOBINS

by C.R.L. James (1901-1989)

From the author’s preface:

“In 1789 the French West Indian colony of San Domingo supplied 2/3 of the overseas trade of France and was the greatest individual market for the European slave-trade. It was an integral part of the economic life of the age, the greatest colony in the world, the pride of France, and the envy of every other imperialist nation. The whole structure rested on the labour of 500.000 slaves.

In August 1791, after 2 years of the French Revolution and its repercussions in San Domingo, the slaves revolted. The struggle lasted for 12 years. The slaves defeated in turn the local whites and the soldiers of the French monarchy, a Spanish invasion, a British expedition of some 60.000 men, and a French expedition of similar size under Bonaparte’s brother-in-law. The defeat of Bonaparte’s expedition in 1803 resulted in the establishment of the Negro state of Haiti which has lasted to this day.

The revolt is the only successful slave revolt in history, and the odds it had to overcome is evidence of the magnitude of the interests that were involved. The transformation of slaves, trembling in hundreds before a single white man, into a people able to organise themselves and defeat the most powerful European nations of their day, is one of the great epics of revolutionary struggle and achievement. Why and how this happened is the theme of this book.”

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From The New York Times:

“Mr. James is not afraid to touch his pen with the flame of ardent personal feeling – a sense of justice, love of freedom, admiration for heroism, hatred for tyranny  and his detailed, richly documented and dramatically written book holds a deep and lasting interest.”

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Download e-book in english (PDF, 19 mb)

http://bit.ly/1hWPwHC

New York: Vintage Books.

 Buy at Amazon.

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You might also enjoy:

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Voices Of Haiti (recorded by Maya Deren) Elektra EKLP-5 (10-inch mono) 1953

Voices Of Haiti (recorded by Maya Deren)
Elektra EKLP-5 (10-inch mono) 1953

“The belief that the proper performance of a sacred formula of symbols or sounds is the means by which man achieves contact with divine powers is a basic principle not only of Voudoun, but of every religion. Such formulae were known as mantras in ancient Sanskrit, and this is still the term for all such ritual action, whether the chants of the Muslim muezzin or the saying of the Catholic rosary. The use of mantras is as ancient and as universal as man’s desire to improve his condition and secure his destiny. It is as prevailing as the proud conviction of each man that his weaknesses and inadequaceis are, by and large, common to all men and that, consequently, the power which is sufficiently superior to sustain and fortify him is one which is superior to man altogether. In times of need a man may seek to enlist such assistance by magic means. (…) If the songs and drumming achieve the compelling power which I believe is represented in this album it is because the microphone, lashed to the center post of the ceremonial peristyle, has captured a record not of men and women at play, not of their relaxed spontaneities, nor of their effort to create an art work for other men or for the satisfaction of any employer. It is a record of labor, of the most serious and vital effort which a Haitian makes, for he is here laboring for divine reward, addressing himself not to men but to divinity. They are singing for the gods. It is a privilege to have overheard and to have recorded it.” -Maya Deren

VOICES OF HAITI >>> DOWNLOADMIRROR

side one:

a1- Creole O Voudoun  (yanvalou) 5:02
a2- Ayizan Marche  (zepaules) 3:23
a3- Signaleagwe Orroyo  (yanvalou) 3:37
a4- Zulie Banda  (banda) 3:09
a5- Ibo Lele  (ibo) 1:16

side two:

b1- Ghede Nimbo  (mahi) 4:39
b2- Nogo Jaco Colocoto  (nago crabino) 2:50
b3- Miro Miba  (congo) 2:59
b4- Po’ Drapeaux  (petro mazonnei) 5:49

Recorded during ceremonials near Croix Des Missions and Petionville in Haiti by Maya Deren in 1953.


The Divine Horsemen: The Living Gods of Haiti
Full Documentary. Directed by Maya Deren.

:: Nagel (II) ::

:: O BEM QUE NÃO SE FAZ ::


“Todo homem é culpado pelo bem que não faz.”

VOLTAIRE

Comecemos pelo mais urgente! Vivemos num mundo onde, em 2010, há ainda 930 milhões de pessoas passando fome, segundo as estatísticas (nunca exatas, mas sempre chocantes…) da ONU. Que esta situação obscena não seja sequer reconhecida por todo o gênero humano é uma das realidades mais espantosas para um filósofo que, como Nagel, deseja nos auxiliar a compreender as razões deste horror e encontrar os meios para tentar minorá-lo… Esta miséria, é claro, é um problema político, econômico, social, cultural e tudo mais — mas é também um espinhoso problema ético. E é pela via da ética que eu queria entrar na discussão da obra de Nagel. Ouçamos um exemplo bem concreto que ele dá:

“…a conta por uma refeição a dois num restaurante nova-iorquino moderadamente caro equivale à renda anual per capita de Bangladesh. Toda vez que saio para comer fora, não porque preciso mas simplesmente porque tenho vontade, o dinheiro que gasto poderia fazer um bem muito maior se contribuísse para aliviar o problema da fome. O mesmo se poderia dizer de muitas despesas com roupas, vinho, ingressos para o teatro, férias, presentes, livros, discos, móveis etc. Tudo termina se somando. Tudo resulta não só em um modo de vida como em uma grande quantia de dinheiro. Se uma pessoa se encontra próxima do extremo superior no contexto de uma distribuição econômica mundial muito desigual, a diferença de custo entre a vida a que ela provavelmente está acostumada e uma existência muito mais precária mas perfeitamente tolerável é suficiente para alimentar várias dúzias de famílias famintas, ano após ano.” (pg. 316)

Temos a tendência a achar que as cédulas e moedas que temos no bolso, se foram adquiridas dignamente pelo nosso trabalho, são nossas para gastarmos como bem entendermos. Ora, aplicando este raciocínio, se um CEO de uma grande multinacional quer comer caviar a 1.000 dólares o centímetro cúbico todas as sextas feiras no restaurante mais chique de Copenhagen, bem… o problema é dele e ninguém tem nada com isso, certo? Ora, num mundo em que um bilhão de seres humanos não tem o que comer, é sim um problema que deveria estar em primeiríssimo plano este: o que fazemos com nosso dinheiro, e o que é ético que façamos com as riquezas hoje existentes no mundo, tão grotescamente mau divididas…

Mais um exemplo bastante concreto, desta vez cinematográfico, me parece oportuno. Numa das cenas mais brilhantes do Examined Life, o excelente documentário da Astra Taylor, Peter Singer passeia pela 5a Avenida, em Nova York, um dos “points” do burgo, repleto de grifes carésimas que vendem sapatos ao preço do salário anual de uma família da Somália. As dondocas e os playboys, cegados pelo fascínio invisível que parece emanar das vitrines, carregam com orgulho suas compras, vaidosos por terem adquirido um símbolo de status e poder tão mágico quanto um terno Armani ou um Rolex folhado a ouro… O questionamento de Singer é óbvio: como é que pode estas pessoas serem tão cegas e indiferentes ao fato de que os 10.000 mil dólares que gastam adquirindo um pedaço de pano que algum babaca marqueteiro lhes convenceu que é très chic poderia salvar a vida de dúzias de criancinhas que estão sofrendo de subnutrição?

Assistam a cena que vale a pena! (Infelizmente, não encontrei legendas em português…)

Ora, me parece que esta é uma das mais elementares “lições de moral” que a gente recebe, ainda pivete, junto com o leite materno: ser um “bom garoto” é saber superar o egoísmo e dividir o pacote de bolachas com os amiguinhos. O curioso é notar que muita gente vivendo nestas sociedades consumistas, individualistas e espetaculosas do Primeiro Mundo (e também do Terceiro mundo colonizado culturalmente por ele…) permanecem, quando adultos, num estado de absoluto “infantilismo moral”: como o bilionário que, mesmo sabendo que um 1 bilhão de estômagos no planeta Terra roncam, não deixa este estrondoso barulho perturbar sua consciência limpíssima. E claro que não irá abdicar de alguns zeros à direita em sua conta bancária, o que representaria para ele a imensa catástrofe de cair algumas posições no ranking da Forbes dos homens mais ricos do mundo. Tadinho! Ao invés de sair na capa, ia ser relegado à página 50…

Seria quixotesco se não fosse obsceno.

Um dos diagnósticos possíveis sobre o porquê desta situação de miopia ética, seguindo os passos de Nagel, é uma espécie de inaptidão para a objetividade. Seria como um “vírus” epidêmico que afeta não o corpo, mas a “consciência moral” (ou falta dela…) em indivíduos em quem o ego-centrismo é tão tirânico que não lhes permite nenhum tipo de percepção lúcida e desperta da realidade objetiva do planeta. E aí chegamos talvez ao conceito central ao redor do qual Nagel vai construir a sua reflexão: a objetividade.

CONTINUA….