O desafio de dar nome ao horror inominável – Sobre as precondições do genocídio e a invisibilização da matança de vidas outras-que-humanas.

“Os deuses, acho eu, só existem no cérebro humano, prosperam ou definham dentro do mesmo universo que os inventou, mas o ‘fator Deus’, esse, está presente na vida como se efetivamente fosse o dono e o senhor dela.” – JOSÉ SAMARAGO, escritor português, na Folha de S. Paulo, 19/10/2001, em artigo publicado logo após o 11 de Setembro.
Não creio em Deus nem no Diabo. Mas devo admitir que o consórcio Israel-EUA, esta joint venture macabra, me conduz à convicção atéia de que estamos diante duma força histórica que ficamos tentados a adjetivar como diabólica: ela já exterminou mais de 50.000 vidas humanas entre 7 de Outubro de 2023 e 18 de Março de 2025 [1], incluindo mais de 17.000 crianças e adolescentes (a ONU estima que 70% das vítimas eram mulheres e menores de idade [2]), transformando Gaza na mais distópica wasteland do planeta Terra.
Diante de tal cenário, em que o conceito de genocídio forjado pelo judeu Raphael Lemkin parece aplicável às ações do Estado Judeu fundado na Palestina em 1947-1948 em seu trato com os nativos, manifesta-se a idéia de que o litmus test ético ou a “régua moral de nosso tempo” é o modo como nos posicionamos diante do assim chamado “conflito” Israel-Palestina (figuras tão diversas quanto Angela Davis e Breno Altman afirmaram recentemente que este é o “teste de moralidade” supremo de nosso tempo [3]).
Estamos diante de uma manifestação do mal extremo ou radical, que desafia nossa capacidade de compreensão ético-política e de assimilação psíquico-afetiva dada a magnitude da devastação infligida a um povo em um território (murado e bloqueado), e ao fato de que os Senhores da Guerra que produzem esta hecatombe são repletos de convicções inabaláveis e se declaram repletos de “Deus no coração”…
Isto só parecerá estranho àqueles que são ingênuos o bastante para crer que os auto-intitulados Cidadãos de Bem, que fantasiam-se como aureolados por Deus-Pai com a tarefa de levar à cabo a Guerra ao Terror, são mesmo quem dizem ser: anjos bélicos limpando o mundo de uma escória em prol da Civilização. Ingenuidade que merece ser desfeita com o conteúdo daquela frase de grande profundidade que encontramos n’O Mercador de Veneza de Shakespeare: “even the devil can quote scripture” (tradução livre: até o Capeta sabe citar a Bíblia).
Em termos mais mundanos e geopolíticos: Bolsonaro, Trump, Netanyahu, Milei e cia ilimitada de líderes neofascistas sabem citar versículos bíblicos enquanto agem como forças avassaladoras e mortíferas, rasgando sem dó até os mais básicos paradigmas morais, a começar por aquele famoso “Não Matarás” que consta nos 10 Mandamentos de Moisés e que eles também dizem (ao menos da boca pra fora) seguir. Quando o outro cultua Alá, porém, para eles o Decálogo está suspenso.

Esta satânica força israelense-estadunidense, apoiada também por grande parte da União Européia, não é comandada de fato por nenhuma entidade transcendente, não tem por general nenhum Papai-do-Céu que prometeu tal terra a tal povo eleito, tampouco está sob a batuta de qualquer Lúcifer expulso do Éden; concordo que é preciso evitar a todo custo qualquer pseudo-explicação teológica, qualquer tipo de racionalização das vitórias da força militar como se fossem sinais de uma eleição divina; é preciso encontrar uma explicação concreta e materialista-dialética para os horrores multiformes que povoam a Terra, e que não provêm dos atos de nenhum anjo caído em levante contra o cosmocrata, nem muito menos de um exército de anjos, mas tem muito mais o sabor daquele insuperável verso, também Shakespeareano, em A Tempestade: “o inferno está vazio e todos os demônios estão aqui.” Eu apenas adicionaria que o Céu também está vazio e nenhum anjo habita a Terra.
É humano, demasiado humano, o diabolismo mais extremo. O diabólico – aqui entendido como capacidade para cometer ou para participar de um mal extremo – está incluído nas potencialidades do humano. O que leva ao conselho prudente endereçado a qualquer um: “te cuida! Pois devir-monstro está também dentro do teu possível, ser humano.” O problema se torna mais complexo, porém, pois qualquer explicação materialista-dialética também precisa levar em consideração o poder das ideologias, inclusive as religiosas, na determinação do caráter dos agentes e no impulsionamento afetivo que dá a certas ações que jamais seriam justificáveis se não tivessem por detrás, dando-lhes sustentação, uma justificação teológica ou um dogma de fé.
Este negócio chamado Grande Israel, que hoje destrava seu genocídio em Gaza e produz hecatombes também na Cisjordânia, no Líbano, na Síria, no Yêmen, provêm daquilo que de pior já se construiu na turbulenta história profana dos humanos: trata-se de um projeto imperial supremacista – lido por muitos intérpretes com o conceito de settler colonialism – baseado em fanatismo religioso, racismo, etnocracia, islamofobia, desumanização da alteridade etc. Isto é claro para quem quer que tenha estudado, dos dois lados dos muros do apartheid, as obras do palestino Edward Said e do israelense Ilan Pappé.
Por tudo isto julgo que é incontornável que encaremos entrar num confronto crítico com a religião e seus efeitos prático-concretos, na tentativa de contribuir com uma crítica construtiva da situação terrível em que nos encontramos no planeta. Deus, mesmo que não exista, não é inocente (enquanto ideia ou fantasia mobilizadora, enquanto fator que Saramago expôs bem em suas consequências bastante reais). Pois há os que Nele acreditam e agem baseados nesta crença. E não há como ignorar que o genocídio em curso tem suas raízes em certas credulidades vinculadas à noção de Terra Prometida e certas confusões perniciosas entre estórias mitológicas retratadas na Bíblia e a História factual-objetiva.
É tempo, portanto, de novamente encarar o “fator-Deus” nos horrores que produz e avaliar quanto de culpa no cartório possui hoje a credulidade de muitos. A crença-em-deus não pode ser a priori inocentada, como se não tivesse nada a ver com o genocídio livestreamed em nossos feeds, quando nos vemos diante desta pilha de cadáveres humanos que sobe aos céus (aquele onde planam as nuvens e que está desprovido de deuses e anjos). A crença-em-deus está chamada a comparecer ao tribunal da História perante as 50.000 vítimas oficiais que o consórcio Israel-EUA massacrou em Gaza nos últimos 18 meses – e que são na verdade mais de 186.000 mortes de pessoas palestinas caso incluamos no cálculo, como fez a The Lancet em Julho de 2024, as mortes indiretas acarretadas pela obliteração sistemática dos sistemas que fornecem água, comida e saúde aos 2.3 milhões de Gazanos. [5]
A questão que ressoa fortemente é ainda aquela de Eduardo Galeano: “Quem deu a Israel o direito de negar todos os direitos?” Permanece ainda um tabu admitir que a resposta à questão “como pode o Estado Judeu no Oriente Médio praticar tantas atrocidades impunemente?” perpassa também pelo apoio inabalável de Estados ocidentais capitalistas de maioria populacional cristã, e com autoridades públicas que também se declaram cristãs, ao holocausto palestino corrente. O que nos leva a um tema dos mais espinhosos: estaríamos diante de uma aliança judaico-cristã forjada no seio do assim-chamado Ocidente liberal, aquele que em seu auto-marketing se vende como democrático, republicano e fiel a valores iluministas modernos. Este marketing fake está em pleno colapso diante de nossos olhos com os eventos na Palestina entre o fim de 2023 e o presente em que este texto é redigido (Março 2025).
O antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, em uma crítica mordaz contra Richard Rorty, este filósofo que adora alardear-se como porta-voz dos “intelectuais liberais do Ocidente”, estes que estão convictos de que “há muitas visões que simplesmente não podemos levar a sério” (aí incluídos tantos os nazistas quanto os povos amazônicos, ambos indignos de terem suas visões-de-mundo tomadas com seriedade), aponta:
“Os nazistas ou os amazônicos são citados no texto de Rorty como exemplos gêmeos de distanciamento e estranheza, como gente que não compartilha qualquer ‘visão’ relevante conosco. O autor dá a impressão de que vê os nazistas e os amazônicos (estes também chamados de ‘tribos primitivas’) como polos indiferentemente e, portanto, coincidentemente, antipodais à lucidez e civilidade distintivas do consenso liberal do Ocidente. Peço licença para discordar: do ponto de vista de uma ‘tribo amazônica’, há muitíssimo mais coisas em comum entre os nazistas e os intelectuais ocidentais liberais do que entre os nazistas e os povos indígenas da Amazônia. Tal comunidade está particularmente evidente no momento em que reviso o presente texto, no mês de janeiro de 2024, quando assistimos perplexos ao genocídio do povo palestino com o beneplácito, a grana e as bombas do Ocidente liberal.” (VIVEIROS DE CASTRO: 2024, p. 88)
A “utopia sionista” – a construção da Grande Israel, estendendo-se do Rio ao Mar, que só se dará com a expulsão dos árabes palestinos que planeja-se varrer de suas terras ancestrais rumo ao Sinai egípcio (ou algum outro destino) – hoje em dia manifesta-se como algo bem diferente de apenas um plano sinistro que uma parcela dos judeus endossa. Só há carnificina de tal gigantesca extensão por causa também dos cristãos, de várias denominações, seja aqueles que endossam o processo de limpeza étnica da Palestina e criam assim esta aliança judaico-cristã e esta neo-Cruzada anti-muçulmanos que zela para este fim higienista, seja aqueles que se pretendem isentões e atuam como os bystanders, isto é aqueles que por sua inação e silencio cúmplice são instrumentais para o avanço de projetos tenebrosos como a Nakba 2.0 em curso. Portanto, é com o “beneplácito, a grana e as bombas do Ocidente liberal” (judaico-cristão) que se pratica hoje a punição coletiva de mais de 2 milhões de pessoas que, em Gaza, encontram-se presas em um campo de concentração, sedentas e famintas, inseguras mesmo dentro de escolas e hospitais, tudo em nome da execução de uma Solução Final para o “problema Hamas”.
No Brasil, temos um exemplo claríssimo deste fenômeno – a adesão a uma ideologia liberal-burguesa em economia política e judaico-cristã no campo religioso – entre a parcela da população que é de religião cristão / evangélica neopentecostal, e que apoia nas urnas e nas redes a extrema-direita bolsonarista e é ao mesmo tempo pró-sionista. Esta mescla indigesta prolifera também nos EUA na figura dos “nacionalistas cristãos” que são também Trumpistas e sionistas. Trata-se de uma galera suficientemente mentecapta para idolatrar uma trinca de ídolos como Jesus, Trump e Netanyahu – ou, no caso brazuca, JesUstra, Bolsonaro e Netanyahu. O cenário nos EUA que conduziu Trump a seu segundo mandato, alçado de novo à Casa Branca apesar do ataque ao Capitólio e da péssima gestão da pandemia de covid19, tem tudo a ver com o movimento nacionalista cristão (ele próprio profundamente pró-sionista), como exploramos na resenha do documentário Bad Faith).
Nada disso surpreende quem tenha aprendido as preciosas lições sobre a batalha dos três monoteísmos que, em seu impressionante livro O Zelo de Deus, nos expôs o filósofo alemão Peter Sloterdijk.



2. A SHOAH, A NAKBA, A ETERNA TREBLINKA
Animais linguísticos que somos, inventamos nomes para nomear o horror. Dois destes nomes hoje se impõe em qualquer reflexão sobre o mal radical e os desrumos éticos-políticos do mundo: a Shoah e a Nakba. É tarefa das mais importantes, das mais desafiadoras, compreender hoje como foi possível o extermínio em massa de judeus europeus pelo III Reich alemão – a época aliado da Itália fascista sob Mussolini e do império japonês – e entender como está sendo possível o extermínio em massa de árabes palestinos pelo projeto imperial sionista Israel. Com as devidas distinções que devem ser feitas entre os dois processos, acredito na viabilidade de analogias entre estes dois holocaustos, um encerrado, outro em curso.
Quero argumentar aqui, no entanto, que há um nome-que-falta, o que significa também um horror inominável, que diz respeito aos bilhões de seres vivos outros-que-humanos que morrem pelas mãos dos humanos e suas máquinas-de-matadouro num imenso holocausto animal banalizado, uma carnificina carnista corretamente descrita como de escala industrial. Não me parece que tenhamos já consolidado algum termo para descrever a enormidade deste horror que está inclusive entre as pré-condições para os horrores cometidos por humanos contra humanos. Até onde sei, a melhor das denominações que temos por enquanto é a Eterna Treblinka proposta em obra literária de Isaac Bashevis Singer, ainda que, como argumentarei, a expressão esteja longe, muito longe, de ser satisfatória.
Inspiro-me nas reflexões de Débora Danowski presentes em seu livro A Chuva Desmancha Todos Os Fatos (N-1 Edições, 2025) para lembrar que há um horror de imensa magnitude – os mais de 60 bilhões de animais que são mortos todos os anos pelos aparatos humanos da pecuária industrial – e este horror carece de um termo como Shoah ou como Nakba. No artigo “A zona cinzenta da negação” (cap 4, pg. 45 a 57), a autora tece uma rica colcha-de-retalhos de citações para avançar uma ideia de extrema importância e muito pouco debatida. “Marguerite Yourcenar escreveu que se não tivéssemos aceito o transporte desumano de animais para os abatedouros não teríamos aceitado o transporte de humanos para os campos de concentração.” (DANOWSKI: p. 48)
Do mesmo teor é um pensamento d’Elisabeth Costello, em A Vida dos Animais do romancista sul-africano Coetzee, em que afirma-se que “estamos cercados por uma empresa de degradação, crueldade e morte que rivaliza com qualquer coisa que o Terceiro Reich tenha sido capaz de fazer, que na verdade supera o que ele fez, porque em nosso caso trata-se de uma empresa interminável, que se autorreproduz, trazendo incessantemente ao mundo coelhos, ratos, aves e gado com o propósito de matá-los.” (DANOWSKI, op cit, p. 48)
É nesta conjuntura que emerge uma expressão impactante, originalmente inventada por Isaac Bashevis Singer em um conto chamado “O Escritor de Cartas / The Letter Writer” (The New Yorker, 1968), em que compara-se o holocausto dos judeus com o abate de animais; afirma-se ali que os animais presos, do nascimento ao abate, dentro das factory farms e dos CAFOs, a vida equivale a “uma eterna Treblinka”. A expressão inspirou também uma obra de C. Patterson que analisa os vínculos entre abatedouros em Chicago, o fordismo e o hitlerismo.



Ou seja, da mesma forma que o III Reich alemão tratou os judeus como cabeças-de-gado, enfiados nos trens que conduziam aos lager como se não passassem de bichos, hoje em dia é Israel quem assassina pessoas na Palestina como se não passassem de gado bombardeável preso num grande CAFO. Com uma diferença tétrica: Israel, longe de engordar à força os palestinos, utiliza a fome e a sede como instrumentos de seu genocídio e impede a entrada de alimentos, água potável e medicamentos no enclave sitiado.

É uma tristeza que tantos judeus hoje enfeitiçados pela ideologia mortífera e supremacista do sionismo demonstrem brutal incapacidade de aprender com a história e total desprezo pela formação ético-política que poderia lhes ser propiciada por figuras como Isaac Bashevis Singer (1904-1991). Este autor polonês, laureado com o Nobel de Literatura, nasceu e viveu boa parte de sua juventude em Varsóvia (Warsaw). Em meio à “Solução Final” aplicada ao “problema dos judeus europeus” pelos nazifascistas, ocorreu em 1943 o célebre Levante do Gueto de Varsóvia, descrito na Wikipédia como “um ato de resistência contra a ocupação nazi alemã”:
“Nessa altura já se tinham dado os transportes da maioria dos habitantes do gueto. Cerca de 300 mil das 380 mil pessoas no gueto tinham sido levadas para o campo de extermínio de Treblinka, onde foram assassinadas imediatamente após a sua chegada, no final do verão de 1942. Os restantes habitantes do gueto sabiam agora o que os esperava e muitos deles preferiam morrer lutando, em vez de morrer numa câmara de gás. A revolta foi esmagada pelo Gruppenführer da SS Jürgen Stroop…” (Wikipedia)
3. UMA ANALOGIA PERTINENTE: O LEVANTE DO GUETO DE VARSÓVIA (POLÔNIA, 1943) E A OPERAÇÃO DILÚVIO DE AL-AQSA (FRONTEIRA GAZA-ISRAEL, 2023)
Estou convicto de que não é nenhum despropósito propor uma analogia entre o Levante de Varsóvia em 1943 – representado no cinema em Uprising (Insurreição), um filme de Jon Avnet, 2001 – e a Operação Tempestade de Al-Aqsa promovida pelo Hamas e outros grupos islâmicos jihadistas em 7 de Outubro de 2023.
“Descrita como uma Terceira Intifada por alguns observadores” (Wikipedia), a operação de 7 de Outubro parece-me mal denominada como “atentado terrorista”, como o fazem as lideranças israelenses, estadunidenses e européias, e muito mais assemelhada com um desesperado levante insurrecional que se enraíza nas condições de vida absolutamente desumanas, atrozes e infernais que o Estado de Israel impõe ao povo de Gaza.

A primeira analogia está no esmagamento promovido pelo poder opressor-ocupante contra os que se levantam contra a opressão-ocupação. Quando a Polônia foi invadida pela Alemanha em 1939, soçobrando à ocupação após um mês de guerra, o invasor obrigou os 350.000 judeus de Varsóvia a serem enfiados como gado num gueto. Em 1943, os que haviam sobrado vivos, os que não haviam perecido nos lager, estavam diante de um dilema análogo àquele vivenciado pelos Gazanos que foram trancados em um gueto após a Nakba de 1948. Trata-se da alternativa resignar-se a um destino de intolerável sofrimento sob as botas e bombas do opressor, ou levantar-se em armas para opor-lhe resistência.
Esta reportagem da BBC informa: “segundo o Museu do Holocausto dos Estados Unidos, pelo menos 7 mil judeus morreram lutando ou se escondendo no gueto. Outros 7 mil foram capturados pelas SS e pela polícia no fim dos combates e deportados para o centro de extermínio de Treblinka, também na Polônia. Ali, acabaram assassinados. Os demais, cerca de 42 mil, foram enviados para campos de trabalhos forçados e para o campo de concentração de Lublin/Majdanek. A maioria foi assassinada a tiros em novembro de 1943, durante a chamada Operação Harvest Festival (Erntefest), que durou dois dias. Poucos conseguiram escapar através do sistema de esgoto de Varsóvia para florestas fora da cidade.”
O filme de Avnet é uma reconstituição histórica que revela como em 1939 nasce uma Varsóvia segregada entre seu setor ariano e o gueto judeu. Todos os privilégios para o primeiro, todos os horrores para o segundo, é a sórdida e injusta divisão alocada a estes dois setores sociais básicos neste recém-instaurado apartheid, bem ao gosto do III Reich. Ora, a analogia é clara com a maneira como Israel institui-se como “zona ariana” e torna Gaza e a Cisjordânia os guetos murados, militarmente ocupados, volta e meia severamente bombardeados, onde vivem aprisionados os refugiados da limpeza étnica fundadora do Estado Judeu sonhado por Herzl e outros ideólogos sionistas. A Shoah e a Nakba tem complexas conexões que nos importa sondar, mas ainda mais importante é perceber que ambas operam segundo princípios semelhantes a este horror-sem-nome que é, digamos, o Holocausto Animal Cotidianizado que Bashevis Singer chamou de “Eterna Treblinka”.
Alguns me farão a objeção que existe o nome para este horror, portanto! Bem, “Eterna Treblinka” é possivelmente uma das melhores expressões já forjadas para a matança em escala industrial de animais com base no supremacismo especista e na ideologia carnista, mas ainda assim parece-me longe de ideal: Treblinka é um termo muito específico, um locus inclusive muito desconhecido da maioria de nós que nunca estivemos na Polônia, e precisaríamos de um nome que desse conta de apontar para a extensão planetária da Treblinka Globalizada imposta a bilhões de seres vivos outros-que-humanos.
Em Treblinka, os nazistas trataram seres humanos que tinham vivido em Varsóvia como gado em um matadouro. Hoje, em Tel Aviv, Netanyahu e os Likudistas tratam os Gazanos como gado em um matadouro. Eis o horror inominável.
Ora, aqui avanço a tese de que os assassinados causados por Israel em Gaza no último período (2023-2025), já ultrapassando 50.000 vítimas fatais, é análogo ao que fizeram os nazistas contra os judeus que se levantaram em armas em Varsóvia em 1943. A prática da “punição coletiva” destravada contra a revolta do gueto de Gaza que foi o Dilúvio de Al-Aqsa parte de uma cegueira voluntária da IDF: a total indistinção alvos militantes/guerrilheiros e alvos da população civil. A IDF mete bomba sem perguntar se ela vai cair num quartel ou numa escola, se vai matar generais jihadistas ou mulheres e idosos num abrigo da ONU. É análoga à indistinção com a qual o III Reich esmagou os varsovianos em Levante.
Em 18 de Março de 2025, tivemos mais uma enxurrada de horror, e foi ele que me impeliu a estar aqui, vomitando estas agoniadas, angustiadas, revoltadas palavras tão inúteis quanto necessárias.
O horror pode ter efeito o silenciamento, o estupor da inexpressividade que Walter Benjamin diagnosticou em muitos soldados que voltavam do front na Primeira Guerra Mundial e que Lanzmann também retrata em vários dos entrevistados de seu documentário Shoah. Diante da Nakba 2.0 que hoje testemunhamos, muitos calam não por cumplicidade mas por este estupor deprimido que o horror em excesso pode causar em nossas capacidades expressivas. É contra isto que insisto em me insurgir através da escrita ainda que a saiba e sinta, cada vez mais, como inefetiva, débil, quase inútil. Não é com palavras que se põe um pause ou mesmo um stop num genocídio livestreamed em nossos feeds. No entanto, desistir completamente delas seria conceder a nossos inimigos, aos assassinos do futuro, uma vitória a mais.
O filme de Avnet nos ajuda a entender, sendo uma preciosa peça pedagógica, como a Shoah é uma espécie de pré-condição da Nakba. No filme, em 1939, quando começa a ocupação nazista da Polônia, já se está organizado a emigração para a Palestina de judeus que estão sendo perseguidos, deportados, exterminados pelo III Reich. Os alvos do nazismo que emigraram para a Palestina, previamente ocupada pela população árabe-islâmica, acabaram por conquistar, em 1947-1948, as condições históricas concretas, via ONU e OTANistão, para guetificar os palestinos e criar uma nação murada, apartada, sobre o sangue derramado na expulsão de 700.000 pessoas e na destruição de inúmeras cidades e vilarejos da Palestina pré-fundação de Israel.

Deportações em massa dos judeus de Varsóvia começam em 1942 (no filme, minuto 45): a discussão ética proposta é “se uma pessoa moral pode manter esta sua moralidade numa época imoral”, e a resposta dos resistentes é um pouco esta: pegar em armas contra o opressor imoral não é necessariamente a mesma imoralidade, pode haver uma moral da honra ou da responsabilidade que conduz a se apossar das armas-de-fogo, como instrumentos para causar a morte alheia, e utilizá-las para fins libertadores. Ou pelo menos esta é a justificativa moral, ético-política, apresentada por aqueles que estavam dispostos a responder às atrocidades nazistas com a força do fogo ainda que soubesse que o poder-de-fogo do inimigo era muito maior, mais amplo, mais mortífero.
Emblemática é a cena em que 2 músicos saindo de um recital que havia sido invadido pelos soldados nazi, e interrompido a tiros, a pretexto de ser uma reunião ilegal (por que judeus tocando música seria uma ofensa ao III Reich…), tentam voltar para suas tocas no gueto quando são parados pelos militares nazis – um deles exige que o judeu toque algo ao violino; não gostando, mete-lhe a baioneta e rouba-lhe a vida. O segundo violinista é convocado à mesma tarefa, e parece se esforçar para tocar a mais ariana composição de que possa se lembrar… neste momento a Resistência irrompe e mata os militares nazistas, deixando de pé, ensanguetado, o violinista e seu violino calado. Dá um bom debate sobre moralidade deste assassinato múltiplo cometido contra o assassino e seu entourage.
Dar nome à violência contemporânea é uma das tarefas enfrentadas por um dos livros mais pertinentes publicados nos últimos anos, o Horrorismo de Adriana Cavarero, obra que aqui nos inspirou a pensar que, dentre os nomes para males radicais e horrores supremos que temos em circulação – Shoah, Nakba, Holodomor… – ainda falta uma denominação melhor para o Holocausto dos Animais Não-Humanos, para a Catástrofe Contínua da Carne-Produção. Gaza nos oferece um tétrico exemplo contemporâneo de um horror que também decorre da desumanização do outro tornada mais fácil e banal pois diuturnamente os seres humanos já tratam os animais que criam em CAFOS e consomem em churrascos como indignos de quaisquer direitos: o Estado de Israel, em delírio supremacista, trata os palestinos como gado matável e condena o campo de concentração de Gaza a uma Treblinka sem fim.
NOTAS
[1] As informações são do Ministério da Saúde de Gaza e foram publicadas por órgãos da imprensa como a AlJazeera: https://www.aljazeera.com/news/2025/3/23/israeli-offensive-in-gaza-has-killed-50000-palestinians-since-october-2023

[2] FARGE, Emma. Quase 70% dos mortos na guerra de Gaza são mulheres e crianças, diz ONU. Informações publicadas no portal UOL com base na agência Reuters: https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/reuters/2024/11/08/quase-70-dos-mortos-verificados-na-guerra-de-gaza-sao-mulheres-e-criancas-diz-onu.htm

[3] A noção de que “A posição sobre a Palestina é a régua moral do nosso tempo” consta no livro do jornalista Breno Altman, Contra o sionismo: retrato de uma doutrina colonial e racista. Já Angela Davis expressou-se em entrevista à Al Jazeera afirmando: ‘Palestine is a moral litmus test for the world’ – URL: https://www.aljazeera.com/program/upfront/2023/10/27/angela-davis-palestine-is-a-moral-litmus-test-for-the-world
[4] Um dos exemplos mais chocantes do princípio aqui apelidado de o-Diabo-pode-citar-a-Bíblia são recentes falas públicas de Netanyahu a respeito de Amalek. URL: https://x.com/MiddleEastEye/status/1718666177143026055
[5] Refiro-me aqui ao artigo Counting the dead in Gaza: difficult but essential. In: The Lancet, 2024. https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(24)01169-3/fulltext
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
SARAMAGO, José. O Fator Deus. In: Folha de S. Paulo, 2001. URL: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/especial/fj1909200128.htm
VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. A Floresta de Cristal – Ensaios de Antropologia. São Paulo: N-1, 2024.
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Publicado em: 25/09/25
De autoria: Eduardo Carli de Moraes educarlidemoraes
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