
E aí, tem alguém acordado? Que não só tenha se cafeínado pela manhã, mas que esteja também desperto para o fato de que estamos ficando sem tempo, no “Decênio Decisivo” (Luiz Marques), caso queiramos legar aos vindouros uma Terra habitável?
Aos que estão despertos para o fato de que estamos fritos, fodidos e mal pagos num planeta em chamas, pergunto: quem animaria de somar forças com A Casa de Vidro em 2026 pra tentarmos puxar o braço cerradeiro da Rebelião ou Extinção que já desponta pela Latinoamérica?
Imerso num processo de pesquisa sobre o ativismo que tem por alvo os causadores da catástrofe ecológica planetária, acabei por me envolver nas ações diretas de desobediência civil da Extinction Rebellion na Holanda e na feitura de um documentário sobre este movimento social, a ser indexado à minha tese de doutorado na UFG.
Após “Walking With The Rebels”, publico agora “Oceans Are Rising And So Are We”, filme sobre um protesto que fizemos em Haia nas proximidades do parlamento holandês com o tema (em dutch): “Stop Fossiele Subsidies” (tradução: Parem com Subsídios aos Fósseis), lema que a galera canta em coro com a melodia de “Seven Nation Army” dos White Stripes.
Quer assistir ao filme? Cole em: https://eduardocarlidemoraes.substack.com/p/oceans-are-rising-and-so-are-we-documentary e https://youtu.be/Jlj_Kl2qFkQ
É lamentável que o Brasil esteja menos que engatinhando nesta pauta; deitados no berço esplêndido da apatia cívica mais bunda-mole, muitos de nós fazem-se cúmplices de um negacionismo canalha imposto pelos operadores de uma Happycracia que nos impõe o “otimismo cruel” (exposto em suas entranhas por Lauren Berlant); pregam que tudo vai ficar bem, basta rezar a deus e se ajoelhar ao capital… confiem piamente no tecnosolucionismo do Vale do Silício… o Musk ou algum bilionário vão inventar um tecnofix pra nos salvar de glaciares derretendo e metros de oceanos subindo pra engolir metrópoles e países-ilha… Vai ser otimista assim no inferno! Não, nós brasileiros não estamos nos mobilizando à altura da urgência geohistórica que vivemos.
A COP30 amazônica, apesar de ter suscitado a maior marcha do clima na história do país, não parece ter gerado nenhum salto qualitativo na nossa organização cidadã. Também a XR Brasil é um treco lamentavelmente insignificante e com o qual quase ninguém se importa: há um perfil no Insta, um grupo no Facebook, e no site XR global constam 3 núcleos brazucas, em Porto Alegre, São Paulo e Rio de Janeiro, aparentemente todos eles tão silenciosos e pouco impactantes quanto uma lesma deslizando sobre o asfalto e pronta a ser esmagada pela S.U.V. do ricaço que queima gasolina em seu motor de combustão interna.
https://www.instagram.com/extinctionrebellion.brasil/
https://www.facebook.com/groups/343188776499510/
https://rebellion.global/pt/groups/br-brazil/#groups
Por ter estado em duas grandes ações da XR em Amsterdam e Haia, com travamento de rodovias e centenas de manifestantes encarcerados pela polícia, e por ter entrevistado vários rebeldes nas ruas e também em suas casas e nos cafés, tô “por dentro” das táticas propostas e dos dilemas divisivos desta mobilização altermundialista emergente. Eu estaria disposto a partilhar um pouco destas vivências, também plasmadas nos documentários, com quem se interessar. Mas quem se importa?…
O “Oceans Are Rising…” é um filme que pode gerar certo desconforto nos camaradas mais entusiastas do XR pois inclui uma entrevista com os anarquistas zineiros do coletivo DODO – DO OR DIE que entrevistei durante a Blockade da A12. Eles reclamam que o XR é muito tchuchuca com os nazis que colam no ato e que, segundo eles, deveriam tomar um pé na bunda nada polido, com base naquele anarco-princípio de “voadora em nazifascista até suástica virar catavento”. Também apontam que a maior parte dos manifestantes é uma galera branca, culta, de classe média ou alta, que tem certos privilégios sociais, de modo que não será tratada pela polícia com a tortura e o cárcere desgraçado reservado às pessoas de cor e aos refugiados e imigrantes ilegais.
Os camaradas anarquistas-verdes provocam que tem uma galerinha que vê a manifestação como uma divertida festa da militância, com a aventura de sentar a bunda no asfalto de uma rodovia, ser preso por um policial, enfiado num busão, enviado pra longe da manifestação, e libertado a tempo de ir num coffeeshop fumar um beck com os amigos. A provocação é válida, mas… zoar quem tá fazendo tvz seja menos benfazejo do que zoar quem não faz porra nenhuma além de economizar um dinheirinho pra comprar aparelho de ar condicionado, deixando o capetalismo ecocida incólume.
Criei um videocast chamado ANTROPOCENO ENTRA EM CENA pra debater algumas destas questões: https://acasadevidro.com/o-antropoceno-entra-em-cena-videocast1/
Uma nota final sobre esta bosta tamanho gigante chamada BIG TECH. Estas empresas estão contra uma internet livre, uma ágora de debates realmente democrática, e estão praticando a censura e o banimento de conteúdos dissidentes e rebeldes.
Estes documentários me tomam meses e meses de trabalho; envolvem riscos de aprisionamento e de ter filmadora quebrada pelos cassetetes ou pelos jatos d’água (aliás, minha câmera que os fez encontra-se atualmente neste exato estado de combalida e quebrada); envolvem um trampo de comunicação intersubjetiva complexo para conquistar a confiança dos entrevistados, para que topem falar comigo com uma câmera enfiada em suas caras; envolvem deslocamentos no espaço que custam tempo e recursos – no caso de “Oceans Are Rising…”, os trens que peguei entre Amsterdam e Haia, e alguns pernoites no hostel; envolvem horas de edição solitária na Ilha de Montagem; envolvem, enfim, o aproveitamento de um kairos, de uma janela de oportunidade, o que significa estar no lugar certo, na hora certa, pra registrar centenas de cidadãos consternados que não querem ser mortos-vivos ou zumbis-paralíticos em meio ao planeticídio em que estamos imersos, muitos de nós em estado de catatonia e imobilidade.
A Google e a Meta estão devotadas a calar este tipo de pauta. Assim como estão deletando centenas de conteúdos, contas e perfis de quem denuncia o genocídio na Palestina cometido por Israel e seu parceiraço United Snakes of America. É exasperante fazer este trampo todo e postar filmes que não chegam nem a 100 views e ficam zerados de comentários. Dá uma sensação muito enervante de “ninguém se importa” (com o que mais importa) – será que é isso mesmo? Tamos quietinhos comendo o alpiste dos algoritmos corporativos? Não conseguimos fazer algo melhor com a WWW do que permitir que os padrões dos bilionários sobre o que merece “engajamento” reinem supremos, enquanto conteúdos dissidentes relevantes são banidos e jogados para as sombras da invisibilidade?…
Acabei o desabafo. Tem alguém acordado? Chama nóis quem quer somar forças e confluir na construção de Rebelião ou Extinção no Cerrado. Também andei matutando com Gomes a ideia d’A Casa de Vidro puxar, além do Confluências, o festival que seria a versão brazuca do NO MUSIC ON A DEAD PLANET, outra iniciativa massa pra caramba que a galera na Holanda e no UK tá fazendo. NÃO HÁ MÚSICA NUM PLANETA MORTO… Bóra tocar?

Publicado em: 28/01/26
De autoria: Eduardo Carli de Moraes educarlidemoraes
A Casa de Vidro Ponto de Cultura e Centro de Mídia