Manifesto do EMA – Grupo de Estudos em Complexidade de Goiânia

Manifesto: EMA – Grupo de Estudos em Complexidade de Goiânia

“Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro”
Belchior

Renascer é um trabalho constante e cansativo. E ao mesmo tempo é marcante e renovador. Somos filhos e filhas de um momento histórico que se perde em sua complexidade. Vivemos numa sociedade de especialistas ignorantes. Para cada escolha rumo a especialização, uma gama de possibilidades é deixada para trás. No frenesi de fluxos de informação, a população está escolhendo a pós-verdade. Quando essa sociedade de base positivista passou a preferir suas crenças e sentimentos pessoais aos fatos objetivos?

No momento em que o positivismo abre mão da objetividade e que um mero humanismo renascentista parece muito avançado, algo está torto. A tecnologia se provou um mero penduricário diante da propagação de explicações com causalidades mágicas e as pessoas se mostraram capazes de ignorar as questões mais candentes da atualidade. A saturação da capacidade de suporte do planeta, a violência, o colapso da psique humana, o individualismo. A crise sistêmica está aí para quem quiser ver.


“Toda vez que eu dou um passo o mundo sai do lugar”
Siba

Aqueles que vivenciaram minimamente a profundidade dessas problemáticas não conseguem voltar para casa e viver da mesma forma que antes. Casa, família, trabalho, férias, compras… Em contato consigo mesmo não se dorme em paz depois de vivenciar as mazelas da realidade. Depois de fazer as conexões necessárias, devemos buscar nossa função no fluxo constante das mudanças. Por isso a ignorância é tão confortante. Mas esse conforto não vale a pena. O conforto que mais vale é aquele de sentir que mais um grãozinho, ínfimo que seja, foi movimentado, que mais uma gota teve contato com a imensidão do oceano.

Idealizado em 2018, o projeto de um Grupo de Estudos em Complexidade em Goiânia foi apresentado em março de 2019 para um grupo multifacetado, multidisciplinar e pluridiverso de sujeitos. Após sete encontros, compreendemos o porquê de nos conectarmos pela complexidade, estruturamos uma visão metodológica para nossos próximos passos e demarcamos um horizonte a mirar. Este manifesto os exporá.

“O simples não existe, só existe o simplificado”
Bachelard

O complexo é aquilo que não se reduz, que é tecido junto, que demonstra sua inseparatividade, interconectividade. A práxis complexa é um balaio amplo e farto, um coração de mãe que permite muita coisa, só não permite o simplismo, os estereótipos, o reducionismo, o dogmatismo e o preconceito. Para construir uma compreensão mais ampla do real, temos que entender os níveis de realidade, do físico, químico, biológico, psicológico, antropológico, social, histórico, planetário!

Não sabemos se a unidade do conhecimento será um dia alcançável. Mas não achamos interessante a delimitação fria e estanque entre as formas de conhecimento (ciências, filosofia, artes e espiritualidade). Essas formas sempre se fecundaram, através de “eureka”, epifania, catarse, sonho, insight, transe, estudo e prática, meditação, contemplação, ócio produtivo, experimento mental ou diálogo com o diferente.

A metodologia que adotamos é o da transdisciplinaridade como conhecimento entre, através e além das disciplinas. Tivemos contato com a filosofia da práxis, a interdisciplinaridade e outras abordagens integrativas, mas a transdisciplinaridade aparenta suficientemente ampla e abrangente para nos guiar nessa caminhada. Pretendemos integrar leituras acadêmicas e não-acadêmicas da realidade, construir espaços de diálogos interculturais, inter-ontológicos e inter-axiológicos na medida das nossas condições concretas, antes que a monocultura da mente consolide sua dominação.

A partir de dinâmicas de grupo, oficinas, arte-terapias, mesas redondas, debates, video-conferências, experiências, esperamos vivenciar e criar conteúdo audiovisual e midiático para influenciar na realidade. Miramos o desenvolvimento das potencialidades humanas, da criatividade, o acesso à informação e ao conhecimento, o contato e a integração com a natureza, a dissolução do “eu” em prol de uma coletividade abundante, experienciar as emergências da sinergia e do amor. Sabemos das dificuldades de realizar grandes sonhos, mas somos felizes em viver cada dia seguindo este sentido.

Goiânia, Julho de 2019.

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BIBLIOTECA DIGITAL – Acesse gratuitamente os textos:

MORIN, Edgar. Introdução ao Pensamento Complexo – Prefácio e Capítulo 1.pdf
MULINARI, Filicio. Bases Metafisicas da Ciência Moderna.pdf
NICOLESCU, Basarab. Manifesto da Transdisciplinaridade.pdf