
Concebendo o cinema não como aprazível picnic ou massagem relaxante, mas sim como um desestabilizador soco-no-estômago da caretice, MALU (2024) é uma das obras mais contundentes na trajetória recente do nosso cinebrazuca. Traz em seu cerne um “conflito de gerações” envolvendo avó, mãe e filha, divididas por diferentes concepções sobre o papel da arte e da cultura em suas vidas pessoais e naquela da coletividade que integram.

Pedro Freire, estreando na direção de um longa-metragem, inspirou-se na vida de sua falecida mãe, a atriz teatral paulista Malu Rocha (1945-2013). Aprendiz de Eugenio Kusnet e do método Stanislavski, Malu estreou nos palcos em 1969, dirigida por Zé Celso e contracenando com Gianfrancesco Guarnieri, numa montagem do Don Juan de Molière. Depois atuou no marco da dramaturgia do Movimento Hippie, “Hair”, ajudando a dar corpo cênico à Era de Aquarius, sob direção de Adhemar Guerra.
Mas o filme foca numa fase já declinante – diria até agonizante – desta indomável atriz, quando ela mora no Rio de Janeiro e sonha em construir um centro cultural comunitário, contendo um teatro de arena, em sua residência toda perpassada pela fúria e pelo desencontro.
Sem muitos spoilers, Malu é tretada pra cacete com sua mãe religiosa, que insiste em tentar capturar a filha para as hostes celestiais, sendo que Malu é convictamente atéia (e maconheira). Adepta do Teatro da Crueldade no cotidiano quando depara com um padre, não resiste em perfilar diante do religioso os crimes dos pedófilos de batina ou o fato de que Jesus era um comunistão que pregava que um rico entrar no Céu é mais foda que o camelo passar pelo buraco da agulha.
Já a filha de Malu, envolvida com o mundo artístico-cultural na França, em visita ao Brasil, vê-se enredada numa trama familiar cheia de ruído e fúria, onde o sonho se desfaz nos escombros e o teatro utópico permanece em estado de canteiro de obras.
Presa pela ditadura, ela deu um drible de atriz nos opressores: “Quando foi capturada por militares durante os anos de chumbo no Brasil, a atriz Malu Rocha não teve dúvidas. Invocou o método do dramaturgo russo Constantin Stanislavski e começou a chorar copiosamente, jurando aos agentes que era a filha de um casal da alta sociedade paulistana e não tinha nada a ver com os artistas que perseguiam —estava no Teatro Oficina por curiosidade. Foi solta.” (Diário de Cuiabá)
No coração pulsante deste filme audaz, comovente, sem papas nas língua, está um debate muito pertinente sobre a diferença entre a Contracultura no período da ditadura militar e o estado-da-arte no Brasil onde fica até difícil elencar quais seriam os agentes culturais e entidades que de fato merecem, em 2026, o status de contraculturais.
O que fizeram de nossa rebeldia, de nossa subversão, foi todinha cooptada pelos gestores de shopping centers, pelo conforto bundamole de sentar diante da Netflix, pela zumbificação do mundotela e seus scrolls infinitos?
O que queremos de verdade é que a arte volte a ser perigosa. E quase todo mundo parece resignado a vê-la reduzida a mercadoria, confinável ao lazer, apequenada a mero entretenimento. “Contra-cultura” parece ter virado assunto para historiadores e não para jornalistas.
A potência contra-hegemônica e contestadora da arte que vai contra-a-corrente parece bem domesticadinha… mas Malu, o filme, faz parte das empreitadas fílmicas que merecem ser louvadas por nos provocar para fora do torpor e apontar, de maneira Benjaminiana, uma brasa pretérita dormindo debaixo das cinzas. O que faremos de nossa cultura insurgente após Zé Celso? Após Malu? Após Pereio? Após Chico Science? Deixo aí as perguntas ressoando, como convite ao papo, e também convido à leitura do ótimo comentário de J. Geraldo Couto no site do IMS:

COUTO – “Uma das obras mais contundentes da 48ª Mostra de Cinema de São Paulo, o brasileiro Malu, de Pedro Freire, narra as relações de amor e ódio entre uma atriz de meia-idade, sua mãe e sua filha. Foi vencedor do prêmio de melhor longa-metragem (dividido com Baby, de Marcelo Caetano) no recente Festival do Rio.
A atriz em questão é Malu Rocha (Yara de Novaes), personagem inspirada na mãe do diretor. Ela já teve seu auge no teatro e hoje (isto é, nos anos 1990, quando se passa a ação) vive retirada numa casa modesta em uma pequena favela à beira-mar, nos arredores do Rio de Janeiro. Sonha em transformar o lugar num centro cultural para a comunidade. O filme começa quando sua filha Joana (Carol Duarte), também atriz, volta da França, onde passou uma temporada estudando e atuando.
Malu divide a casa com a mãe, Lili (Juliana Carneiro da Cunha), que tenta atraí-la para a igreja católica e afastá-la das drogas. Num puxadinho improvisado mora o jovem negro Tibira (Átila Bee), ator e dançarino, por quem Lili nutre uma franca hostilidade.
Ambiente em obras
É nesse ambiente inacabado, perpetuamente em obras, paralisado entre a memória do passado, o projeto futuro e a realidade presente, que essas poucas criaturas vão alternadamente trocar afeto e se digladiar, com momentos de crueldade psicológica que lembram o cinema de Fassbinder.
Entre as reminiscências libertárias de Malu, que não se conforma com a caretização do teatro e do mundo em geral, e as dificuldades concretas do dia a dia, desenrola-se um drama pleno de violência emocional, pontuado por um humor feroz.
O diretor Pedro Freire se serve habilmente do espaço confinado e precário da ação para extrair o máximo das potencialidades dramáticas do embate entre as atrizes – todas elas excepcionais. Carol Duarte, no papel de Joana, expressa diante das excentricidades da mãe e da avó uma perplexidade e uma angústia que são também, suponho, a da maioria dos espectadores.
Por esse jogo dramático entre mulheres de três gerações passa muito da história do teatro brasileiro (e também do cinema) nas últimas décadas, oscilando entre a utopia de novas relações humanas e a conformação às regras do mercado e da mídia. Um filme belo e perturbador, para dizer o mínimo.” https://ims.com.br/blog-do-cinema/cores-e-dores-do-mundo-por-jose-geraldo-couto/
Publicado em: 03/02/26
De autoria: Eduardo Carli de Moraes educarlidemoraes
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