
Galera, neste 6 de Novembro de 2025 pude partilhar parcela de minha pesquisa de doutorado, em andamento na área de Filosofia da Arte, que se encontra na fase final de redação e será defendida em Março de 2026: este é o quinto e penúltimo capítulo da tese que estou elaborando e aborda a entidade inescapável no debate intelectual contemporâneo: Gaia. Conectada ao meu tema principal: o Antropoceno, o Cinema, a Catástrofe Sócio-Ambiental Planetária e o Ativismo de Flanco Radical. A quem interessar possa, deixo o convite para que assistam ao registro audiovisual desta minha fala no evento XV Seminário da Pós-Graduação em Filosofia da UFG, “Entre Ideias” – comunicação (25min) + debate disponíveis no canal d’A Casa de Vidro e no Substack:

Sintam-se à vontade para tecer críticas, comentários, impressões que podem vir a beneficiar no aprimoramento do texto que, daqui uns 3 meses, estará sendo encaminhado à banca. Estou sob a orientação da professora Carla Milani Damião e fui co-orientado no exterior por Monique Roelofs (Universidade de Amsterdam) – e nesta ocasião devo gratidão aos comentários pertinentes e sagazes tecidos por Fernanda Azevedo, minha colega, doutoranda do mesmo programa (PPGFIL). Uma transcrição está disponível em www.acasadevidro.com/diantedegaia-eduardocarli.

Bom, boa tarde, pessoal. Eu sou Eduardo Carli eu sou doutorando aqui na UFG, também atuo como professor no Instituto Federal de Goiás. E hoje eu trouxe uma parte da minha tese em construção chamada Diante de Gaia, Enfrentando o Antropoceno Com Arte. Esse é o capítulo que eu estou trabalhando agora nessa reta final. Essa tese está se desenrolando aqui na filosofia da arte sob orientação da Carla Milani Damião e o meu principal interesse é compreender as relações entre Cinema e Antropoceno. Vou trazer ideias a respeito desta entidade Gaia, que nesta controvérsia toda sobre o Antropoceno, me chama a atenção que ela sempre é evocada, essa entidade cosmogônica da mitologia grega – ela está marcando profundamente o campo das ciências naturais, acho que todos devem estar minimamente cientes de que Lovelock e Margulis propuseram essa teoria, mas ela também transbordou para o âmbito das ciências humanas, da filosofia e da arte.
Me parece que essa deusa da mitologia grega, que hoje serve para representar o planeta como um todo e sua biosfera, ela não está apenas restrita ao âmbito da Ciência do Sistema Terra (CST), uma ciência transdisciplinar que visa compreender a complexidade do nosso planeta, mas ela nos oferece uma metáfora muito poderosa, um aparato representacional para descrever isso que também se chama de espaçonave Terra, com um sistema complexo, interconectado, e onde existe o argumento central, me parece, de que a vida e o que é chamado de meio ambiente não podem ser compreendidas de maneira isolada, precisam ser percebidas nas suas interações.
Um exemplo disso, que está muito presente também na hipótese Gaia de Lovelock e Marmuris, é a noção de que o oxigênio que nós respiramos foi produzido não por uma divindade, não por um ato de criação como aquele descrito em textos como Gênesis, mas houve um momento na história da Terra onde não havia oxigênio respirável e foi a emergência da vida das plantas, dos plânctons nos oceanos que começou a transfigurar a nossa atmosfera a ponto de, em algum momento do passado, o ar foi oxigenado e possibilitou então a evolução das formas mais complexas de seres vivos, como nós, os recém-chegados a esse planeta que já foi tão radicalmente transfigurado por nossa ação, por nossa tecnologia e que se encontra hoje também amplamente devastado pela agência humana.
Então, aquilo que nós chamamos de meio ambiente, ou de natureza, ou de atmosfera, tudo isso no âmbito da teoria Gaia, foi forjado pela própria vida em evolução e jamais pode ser considerado como um cenário, como um pano de fundo onde a vida se desenrola.
Eu trouxe aqui algumas referências para tentar mostrar quão forte é a presença de Gaia nesse debate sobre o Antropoceno: um dos autores mais estudados na filosofia da ciência nos últimos anos, o Bruno Latour, aqui no Brasil, as Gifford Lectures se chamam Diante de Gaia, oito conferências sobre a natureza do antropoceno. O próprio Bruno Latour se aventurou no campo das artes e foi o produtor de um espetáculo teatral chamado Gaia Global Circus. Então esse livro também tem várias referências cinematográficas interessantes a filmes como Melancolia, do Lars von Trier, e Gravidade, do Alfonso Cuarón. Então na minha tese eu faço uma análise de alguns filmes e de como é possível representar essa megaentidade chamada Gaia.

Então existe aí um problema também da representação e do impacto da imagem, para que hoje falemos tanto sobre Gaia: um exemplo disso é que existe uma fotografia muito célebre na história humana, chamada Blue Marble, que foi quando, em algum ponto da nossa história, conseguimos levar foguetes com aparatos fotográficos e filmográficos para o espaço sideral e pudemos enxergar o nosso planeta com olhos de fora, digamos assim, através de figuras como Yuri Gagárin, que foi um dos primeiros cosmonautas que estiveram fora do nosso planeta olhando de longe. Tivemos então a possibilidade de grafar numa imagem o que é esse planeta azul: a Terra como um todo foi colocada diante de uma objetiva que a fotografou e nós vimos a imensidão dos nossos oceanos, a ausência de fronteiras visíveis entre os países – e nesse momento histórico emerge a hipótese Gaia, ou a teoria Gaia, proposta justamente pelo Lovelock, que foi um cientista da NASA, e pela Margulis, que é uma grande bióloga, e que propôs a noção do planeta simbiótico, inclusive saiu recentemente publicado no Brasil.
Ou seja, me parece então, para quem estuda cinema, para quem estuda fotografia, que houve um impacto causado pela força dessas imagens no campo das ciências naturais e das ciências humanas. E isso também transbordou para o ramo artístico propriamente. Então hoje quando nós falamos em Gaia, a gente se refere a essa entidade muito vasta, interconectada, uma teia de organismos e habitats constituindo esse emaranhado. E um debate filosófico que eu faço é a respeito de como devemos compreender essa entidade Gaia, que tendo ela emergido do mundo cosmogônico e mítico dos gregos, ela está lá por exemplo no Hesíodo (Teogonia) como essa entidade primordial, como a mãe de todos os seres, que emerge a partir do caos e começa a organizar o equilíbrio da matéria. Então eu tenho essa compreensão de Gaia como uma figura que representa um certo equilíbrio, mas que foi engendrado a partir de um caos original.
E existe uma concepção diferente de Gaia que eu acho um pouco equivocada e perigosa, que é transformá-la numa deusa mãe, que ela teria uma consciência similar aos seres humanos, e que ela estaria, digamos, acessível às nossas súplicas, às nossas orações, de modo que uma espécie de seita neo-hippie, preocupada com a catástrofe climática e com o colapso da biodiversidade, poderia conceber como saída possível para esse desastre… você rezar a Gaia. E isso que eu acho que é um equívoco. Então, os autores que eu tenho pesquisado, eles descrevem uma outra Gaia, que ela não é exatamente maternal. E aí eu chego também a uma autora importante nesse contexto, uma filósofa da ciência que é a Isabelle Stengers, no livro No Tempo das Catástrofes, que ela vai mencionar que nós vivenciamos hoje a intrusão de Gaia na história, ou seja, a história humana no passado havia sido concebida como uma espécie de trama onde a natureza é um pano de fundo, e isso foi o que colapsou. Então existe agora um novo clima da história, como também o Chakrabarty diz, onde você não pode desconsiderar o planeta e todas as suas formas de vida quando você faz qualquer tipo de trabalho historiográfico.
Tem uma citação aqui da Stengers que eu queria trazer sobre a intrusão de Gaia na história que na filosofia brasileira tem sido muito debatida, sobretudo pela Débora Danowski e sobretudo por Eduardo Viveiros de Castro, que são dois dos organizadores desse grande evento intelectual no Brasil do século XXI, que inclusive ficou gravado, está lá no YouTube, gerou dois grandes livros, e a própria Isabel esteve no Rio de Janeiro falando sobre esse tema da intrusão de Gaia na história. E ela fala o seguinte,
“a intrusão do tipo de transcendência que eu nomeio Gaia instaura no seio de nossas vidas um desconhecido maior e que veio para ficar. E, aliás, talvez seja isso o mais difícil de conceber. Não existe um futuro previsível em que Gaia nos restituirá a liberdade de ignorá-la. Não se trata de um momento ruim que vai passar, seguido de uma forma qualquer de repente, no sentido pobre de um problema resolvido. Não seremos mais autorizados a esquecê-la teremos que responder incessantemente pelo que fazemos diante de um diante de um ser implacável e surdo as nossas justificativas.”
Então acho que há uma grande controvérsia sobre Gaia e isso que Stengers stá falando aqui não tem nada de uma deusa maternal, que irá tratar a humanidade de maneira benévola e generosa, caso nós façamos os devidos sacrifícios e reformemos nossa conduta. E existe muito mais uma mega entidade que está, diante das ações antropogênicas, produzindo uma espécie de vingança, no sentido grego de que toda húbris, todo exagero, toda desmedida, encontra sua nêmesis, que se contrabalança a isso.
Então, o que eu tenho tentado estudar? De que maneira o cinema representa o planeta como um todo que está sendo radicalmente transfigurado pela ação humana – e de maneira que não é exatamente louvável, porque a humanidade, e não é a humanidade como um todo, é sobretudo uma parcela da humanidade, sobretudo mega corporações transnacionais, sobretudo países afluentes e poluidores, está agindo nessa mega entidade que nós integramos como a causa de pelo menos três fenômenos que eu julgo extremamente preocupantes e que ameaçam de extinção da nossa própria espécie no longo prazo, que são:
1) as mudanças climáticas, em debate no Brasil dentro de poucos dias, na cúpula do clima da Amazônia (COP 30);
2) o colapso de biodiversidade, que faz com que alguns estudiosos considerem que estamos passando pela sexta extinção em massa da diversidade da vida, pela primeira vez causada por uma espécie que se tornou dominante.
3) a proliferação nuclear, tanto de armamentos quanto de energia nuclear, e que contamina o assim chamado ambiente com substâncias radioativas que estarão aí por milênios.
Então a minha abordagem do Antropoceno é um pouco eco-ansiosa, por assim dizer. É uma perspectiva de alguém que, enquanto pesquisador, enquanto eco-ativista, enquanto cidadão global preocupado com o futuro, eu percebo um rumo bastante preocupante e catastrófico dessas ações humanas no planeta. E aí, diante disso, eu analiso alguns filmes e algumas obras de arte que têm alguma relevância nesse contexto.

Não tenho tempo para entrar muito a fundo na análise propriamente estética das obras de arte, mas quero mencionar duas aqui nesses minutinhos que me faltam. Pouco sabe, mas Lovelock decidiu batizar como Gaia, a sua teoria, em interlocução com um escritor muito importante, britânico, do século XX, chamado William Golding, prêmio Nobel de Literatura, que escreveu o livro Senhor das Moscas. Então, no meu trabalho, eu também analiso de que maneira aquela ilha onde se passa o romance e a adaptação filmográfica do Peter Brook, como ela também é um microcosmo de algo que a humanidade tem feito em larga escala, em magnitude planetária.
Porque nessa narrativa existe um acidente de avião no meio da Segunda Guerra Mundial e você tem pré-adolescentes que saem de uma Inglaterra, extremamente civilizada, são meninos de coro na igreja anglicana, onde eles começam a aprender Shakespeare e eles caem direto na barbárie total da incivilização. Estão numa ilha desabitada e eles têm que resolver os problemas básicos da existência, caçar animais, controlar o fogo. É uma grande parábola Hobbesiana sobre a guerra de todos contra todos. E nesse romance, nesse filme, O Senhor das Moscas, a certo ponto eles decidem que eles vão criar diferentes gangues ou diferentes tribos, chefiadas por diversos líderes então tem o fenômeno de um tribalismo muito antagônico, e eles basicamente botam fogo nessa ilha, a vegetação nativa é incendiada porque eles querem mandar um sinal de alerta para que eles possam ser resgatados.
Então me pareceu interessante destacar que uma das principais teorias científicas do século XX, a teoria Gaia, pegou uma influência não só de uma obra literária, mas de um livro profundamente distópico, dark como o Lord of the Flies. E um pouco o que eu afirmo é isso: aquelas crianças fazem nessa ilha distópica, em micro escala, o que a humanidade está fazendo em macro escala, que é desmatar, que é tratar os outros animais como carne, como mercadorias, como sacrificáveis para o bem-estar da espécie dominante que somos nós, numa incapacidade de percepção dessa teia da vida que nós integramos.
E, para terminar, eu trago um exemplo brasileiro que é muito caro e que é muito atual. Nós tivemos recentemente um movimento social que emergiu na pandemia de Covid-19 aqui no país, que tomou as ruas em várias ocasiões de manifestações públicas, chamado Reviravolta de Gaia, que gerou esse belo livro, assim como centenas de fotografias tiradas nas ruas, sobretudo de São Paulo, onde os manifestantes não apenas carregavam seus cartazes com palavras de ordem, reclamando contra o ecocídio no Brasil, fazendo demandas de justiça pelos crimes ambientais que ocorreram em Minas Gerais, colocando essa demanda de colocarmos freio no garimpo legal, no desmatamento da Amazônia, etc. E esse movimento social, então, gerou esse livro fotográfico com muitos artigos no final, inclusive de Danowski, de vários pensadores importantes.
Um filme foi produzido chamado Eu Sou Uma Arara, dirigido pela Mariana Lacerda e Rivane Neuenschwander, que é um média-metragem de 30 minutos e que me parece um dos filmes brasileiros mais interessantes que eu vi nos últimos anos. E ele vai afirmar um pouco essa necessidade do que está sendo chamado de uma aliança multiespécies para que a gente confronte a hidra capitalista, que está aqui apresentada nas obras da artista plástica da Rivane. Então eu não tenho mais tanto tempo para expandir o tema, mas eu tenho ido ao cinema tentando compreender como se representa esse planeta em estado de tormenta por agência humana.
E eu tenho encontrado em muitos autores, além do Bruno Latour, tenho lido o Emanuel Coccia, Metamorfoses, no Brasil também Scarano, Regenerantes de Gaia, este que traz muitos filmes que vão tematizar essa agência humana, impactando os equilíbrios ecossistêmicos e também tematizando a nossa agência para o futuro, caso queiramos ter um futuro como espécie. Então, o Bruno Latour, por exemplo, vai dizer que nós estamos vivendo uma nova guerra dos mundos. E eu vou terminar por aí. Guerra dos Mundos é uma obra de ficção científica que marcou época do H. G. Wells, que já foi adaptada para o cinema algumas vezes.
E, originalmente, ela revela uma guerra entre seres vivos alienígenas que nos invadem, originários de outros planetas, que praticamente extinguem a humanidade, mas existe ali um happy end, onde a partir dos micróbios e das bactérias a humanidade vira o jogo e se salva da aniquilação. o Bruno Latour, de maneira muito provocativa, ele tem falado, nós estamos agora numa nova guerra dos mundos, mas não é mais uma guerra entre os humanos terráqueos e os aliens malévolos que nos invadiram. Nós temos uma guerra entre essa galera que é fanática pela modernização capitalista, que acredita no extrativismo, na queima de combustíveis fósseis, no desmatamento para colocar pasto no lugar, que acredita nos holocaustos coloniais e que acredita no confinamento em massa de animais ditos comestíveis e que está causando um desequilíbrio no seio de Gaia, que precisa ser confrontado nessa guerra dos mundos por nós, terranos.
Terranos (earthbound) no sentido de que nós que sabemos que estamos na terra, vulgo Gaia, planeta simbiótico, e precisamos então de uma aliança com as outras espécies, com plantas, com fungos, com plânctons, com araras, para conseguirmos barrar isso que ameaça a nossa própria sobrevivência, que são as mudanças climáticas, o colapso da biodiversidade e a proliferação de radioatividade.
Então é mais ou menos por aí que eu tenho pesquisado, gente. Obrigado!
SEGUE DEBATE
RECORTES
Publicado em: 08/11/25
De autoria: Eduardo Carli de Moraes educarlidemoraes
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