SANGUE LATINO – Canal Brasil e Nepomuceno Filmes: entrevistas com Eduardo Galeano, Mia Couto, Leonardo Boff, dentre outros.

Alguns dos principais intelectuais da América Latina estão reunidos no Canal Brasil no programa Sangue Latino. O escritor e jornalista Eric Nepomuceno reuniu escritores, músicos, poetas, artistas plásticos e outros grandes pensadores do continente em conversas sobre a situação política, literatura, música, cultura e política dos países da região, entre outros temas que serão abordados na atração. As entrevistas de “Sangue Latino” tiveram diversas locações e foram gravadas no Uruguai, Argentina, Chile e no Brasil, sempre em clima intimista e sem uma pauta previamente determinada para cada convidado.Dirigido por Felipe Nepomuceno – filho do apresentador – e produzido pela Urca Filmes, o programa traz nomes de grande influência na cultura latino-americana. Entre os entrevistados, o escritor e compositor brasileiro Chico Buarque, o escritor uruguaio Eduardo Galeano – autor do premiado “As Veias Abertas da América Latina” – e o artista plástico argentino Leon Ferrari, considerado pelo jornal norte americano “New York Times” como um dos cinco artistas vivos mais provocadores e importantes do mundo. Sangue Latino foi gravado com câmeras de alta resolução, e com imagens apenas em preto e branco, o que dá ao programa uma linguagem documental. A trilha sonora foi composta em uma jam session com o pianista e acordeonista Marcos Nimrichter, apresentador do Estúdio 66, outro programa do Canal Brasil. – SITE OFICIAL


ASSISTA:

EDUARDO GALEANO


MIA COUTO


LEONARDO BOFF


DIRA PAES


EDUARDO COUTINHO


PEDRO JUAN GUTIÉRREZ


FERREIRA GULLAR


LEONARDO PADURA


ANTONIO TORRES


YAMANDU COSTA


ÁNGELES MASTRETTA


FERNANDO MORAIS


RICARDO DARÍN


RUY GUERRA


MATILDE CAMPILHO


ADRIANA VAREJÃO


WALTER CARVALHO


MILTON NASCIMENTO


LEON FERRARI


CAETANO VELOSO


LAURA RESTREPO


FERNANDO SOLANAS

UM EPITÁFIO PARA O PIG: “O jornalismo brasileiro vive um dos mais ignóbeis períodos de sua história” – Por Cynara Menezes, a Socialista Morena

UM EPITÁFIO PARA O P.I.G.
por Cynara Menezes

Exatamente como em 1964, coube de novo à mídia hegemônica brasileira o papel vexaminoso de dar suporte a um governo que chegou ao poder sem passar pelas urnas. Enquanto veículos de comunicação do mundo inteiro questionam o processo pelo qual uma presidenta honesta foi arrancada do cargo, os daqui apenas se calam e trabalham diuturnamente para conferir legitimidade a um governo ilegítimo. Mesmo a Folha de S.Paulo, que publicou as conversas entre políticos investigados na Lava Jato (todos agora confortavelmente aboletados no Governo Federal) que evidenciam a existência de um complô para derrubar Dilma, é incapaz de se dignar a defendê-la. Ora, se houve uma conspiração e se todos os que participaram dela são cúmplices, o que se pode dizer de uma mídia que apoiou esta conspiração?

GreenwaldO jornalismo brasileiro vive um dos mais ignóbeis períodos de sua história. Não só se transformou, em pouquíssimo tempo, em uma imprensa adesista, como se mostra disposta a omitir, escamotear e falsear fatos no intuito de defender os golpistas. Qualquer pessoa que se colocar no caminho da mídia hegemônica e seu apoio ao governo ilegítimo de Temer terá sua reputação atirada no lixo. E dizem que é o PT quem possui uma “máquina de moer reputações”… Escrevo este artigo sob o forte impacto do editorial do Estadão que atacou abertamente um trabalhador da notícia, o jornalista norte-americano Glenn Greenwald. Autor das reportagens que revelaram as escutas do governo dos EUA sobre o mundo, Greenwald mora no Rio de Janeiro e tem criticado o golpe parlamentar que se deu no Brasil. Como quem joga carne fresca às hienas, o Estadão o chamou de “ativista”, dando brecha a uma possível tentativa de expulsá-lo do País, já que a atividade política é vedada a estrangeiros.

“A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”, dizia Marx. Como não recordar neste momento a trajetória de Samuel Wainer (1910 – 1980), o menino pobre do Bom Retiro que construiu um império de comunicações, desafiando os ricos donos dos jornais brasileiros, e por isso foi perseguido sem trégua? A acusação é a mesma que certamente farão à Greenwald: quiseram expulsar Wainer do País por ser estrangeiro, nascido na antiga Bessarábia – o que só se comprovou como verdade após sua morte. Outra coincidência: assim como Greenwald e de forma diferente dos mesmos donos de jornais que apoiam o governo ilegítimo de Temer, Samuel Wainer se posicionou contrário ao golpe militar de 1964. A Última Hora, tal como foi criada, desapareceu, e junto com ela os jornais de oposição ao regime.

Tínhamos diários não alinhados com a ditadura além da Última Hora, como O Semanário e o Diário Carioca. Todos foram empastelados. É por essa razão que tantos países no mundo possuem jornais diários progressistas e o Brasil não. A Inglaterra tem, o Uruguai tem, a Itália tem, a França tem, os EUA têm… Em nosso País só sobreviveram os jornais de direita, que apoiaram o golpe. E que mal disfarçam o conservadorismo do seu DNA apelando a uma falsa pluralidade, dando espaço, em suas bolorentas páginas, a algum pensador de esquerda que ainda aceita participar dessa farsa. O lado bom dessa história toda é nos dar conta de que, mesmo sem lei de meios, a mídia de esquerda se consolidou e tem incomodado a direita e seus veículos de estimação. Fazemos muito barulho nas redes, a ponto de sermos atacados por jornalões centenários à beira da falência. A internet possibilitou que qualquer um possa ter seu próprio meio de comunicação, algo impensável no passado, e com custos muito menores do que os jornais convencionais, que necessitam de papel.

Pode-se dizer que as redes sociais fizeram uma democratização da mídia a fórceps. E é justamente por este perigo que representamos que prevejo dias difíceis para os jornalistas e blogueiros de oposição. Tentarão nos calar de todas as formas. Os processos judiciais se somarão às batidas acusações de que recebemos dinheiro para pensar como pensamos e defender o que defendemos (nos julgam pelo que são). Todo blogueiro e jornalista independente deve tomar muito cuidado com as palavras agora. Governos ilegítimos adoram a censura. Confesso que ainda me choca, como jornalista, assistir os principais veículos de comunicação do País passarem da oposição à adulação em um piscar de olhos. Vamos ver o que o governo de Michel Temer dará à atual mídia chapa branca como recompensa. Será o suficiente para salvar a carcomida imprensa da falência? Duvido. Ninguém mais quer ler isso. Desde que o PT chegou ao poder, em 2003, que jornais, TVs e revistas esqueceram o jornalismo para se transformarem em panfletos de oposição. Jornalismo se faz com boas histórias, não só com denuncismo.

Pig 2Não é à toa que os leitores vêm minguando ao longo desta última década, e continuarão a minguar. Não há qualquer perspectiva de melhora na qualidade do jornalismo produzido ali. A novidade, o frescor, está no digital e nas iniciativas independentes. Ao longo destes anos petistas, a mídia hegemônica ganhou o nada honroso apelido de PIG (Partido da Imprensa Golpista), que sempre refutou. Agora que participou ativamente de outra deposição de chefe de Estado legitimamente eleito, não há como fugir. O epíteto de PIG cabe à perfeição na velha mídia brasileira. E poderá lhe servir de epitáfio.


♦ Cynara Menezes é jornalista e editora do blog Socialista Morena (www.socialistamorena.com.br)

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manipulação em 10 lições-N Chomsky
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Galeano7

CAMPOS DE EXTERMÍNIO MENTAL – A classe mídia e o mainstream do Golpe @ O Cafezinho

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Ao que tudo indica, a classe média que serviu de massa de manobra para o golpe tornou-se uma autêntica classe mídia, e isso tem que ser entendido a partir do mainstream que dominou no Brasil nos últimos anos. Para essa nova classe mídia, a televisão foi, em especial na última década e meia, um vasto campo de extermínio mental. Um dos efeitos dessa liquidação em massa da inteligência foi o ódio à cultura. Basta atentar para a perseguição aos artistas, chamados de vagabundos, ao clima de caça às bruxas instaurado contra a Lei Rouanet, às agressões à classe artística nas redes sociais.

É difícil, porque vivemos todos sob o peso dessa atmosfera, ganhar a distância suficiente para fazer o diagnóstico desse período. Mas podemos esboçar um breve inventário da tragédia que foi a programação servida na mesa durante a última década e meia. Tomo esse período de uma década e meia porque já estamos na 16ª edição do Big Brother, portanto, já temos quase uma geração de brasileiros que nasceu e cresceu sob esse império da visibilidade, da invasão de privacidade, do desejo de devassar com o olhar espaços que, em principio, estariam resguardados dessa intrusão.

Entre outras coisas, talvez sejam esses dezesseis anos de Big Brother, mas não só eles, que tornaram tão aceitáveis os vazamentos de delações premiadas (e até as próprias delações), a divulgação de conversas grampeadas, a exposição de espaços privados (como o interior dos cômodos do sítio que a Lava Jato quer que seja de Lula a qualquer preço). Sem os vícios adquiridos nesses anos de reality shows, seria difícil que não soasse repulsivo à maioria dos brasileiros esse regime de invasão, espionagem e divulgação criminosa. Mas a mídia nos anestesiou contra a indignação.

Para se ter um breve vislumbre da dimensão do poder de impacto dessas mídias, é bom ter presente que o Brasil tinha em 2014, só contando as TVs comerciais, 6.197 retransmissoras, com 272 geradoras sendo 39 com sinal digital. A Rede Globo sozinha controla 124 dessas emissoras. Já para as rádios, contando apenas AM e FM, as emissoras chegam a 3.089. Dessas rádios, a Globo informa possuir 11 emissoras próprias e 61 afiliadas. Esses números não deixam dúvidas quanto ao poder e ao impacto dessa mídia privada para impor interesses e reduzir as cabeças.

Mas o mais nefasto é quando se constata que o poder de fogo da artilharia pesada desse aparato da mídia se concentra em uma programação extremamente tóxica. O inventário que faremos aqui está longe de ser exaustivo. Vejamos:

1) Tivemos 16 anos de Big Brother Brasil, aos quais se deve acrescentar as inúmeras outras variações do modelo reality show no país. Uma wiki dedicada ao tema lista nada mais nada menos que 86 programas nessa modalidade no período. O que isso representa em termos de idiotização em massa está na casa do imponderável ou dos números astronômicos. O pior é a avidez pela privacidade alheia, a incitação do desejo de sobrepujar qualquer barreira posta à visão. O que esse modelo constrói é um tipo de delinquência visual que, no fundo, nos ensina que nenhuma interdição (e as leis são interdições) devem ser respeitada.

2) Outro feijão com arroz na telas dos brasileiros tem sido o telejornalismo policial em programas como Cidade Alerta, Brasil Urgente e Linha Direta, que celebrizaram o tipo de narrador autoritário, grosseiro, que simula uma caricatura de apresentador mais próxima de um bicheiro que de um comunicador de massa. Além dos clássicos das grandes emissoras, como Datena, o formato se reproduz às centenas pelo país inteiro, em não só na TV mas também na forma do radiojornalismo policial. O medo de ser vítima daqueles tantos crimes narrados diariamente e a busca de proteção em figuras fortes (teatralizadas pelos próprios apresentadores), é um ingrediente antidemocrático. Tanto pela descrença que infunde – e uma persistente aversão aos direitos humanos, alimentada pelo bordão de que só se protege o bandido e não o “homem de bem” –, quanto pela ideia de que a solução para o crime passaria por alguma figura autoritária (juiz, justiceiro, delegado, etc.) que poria fim ao estado de violência. O debate sobre as origens da violência, o debate público e qualificado, não tem lugar nessa programação.

3) O veneno é servido na mesa também na forma dos programas humorísticos que, sob o manto da crítica ao politicamente correto, investem na propagação do assédio moral (Danilo Gentili, Rafinha Bastos, o falecido CQC, o Pânico, etc.). Uma das faces interessantes desse humorismo é que se apresenta como moderno e inovador quando, na verdade, reedita e até agrava os defeitos do velho humorismo tacanho. Lembrem-se das diversas piadas sobre o estupro protagonizadas por Danilo Gentili. Um exemplo é a piada contada e recontada em inúmeros shows pelo Brasil, um clássico da imbecilidade, desde 2011:

“─ Toda mulher que eu vejo na rua reclamando que foi estuprada é feia… Tá reclamando do quê? Deveria dar graças a Deus. Isso pra você não foi um crime, e sim uma oportunidade. Homem que fez isso não merece cadeia, merece um abraço.”

Essa dose cavalar de insensatez foi reprisada em uma das pérolas do humorista em 2012, seguindo o mesmo padrão de apologia à violência sexual contra a mulher: “Um cara esperou uma gostosa ficar bêbada pra transar com ela. Todos sabemos o nome que se dá para um cara desses: gênio. “

Lembremos também que Gentili é uma das figuras que, através de diversas investidas grotescas, reeditou as práticas racistas que explodiram nas redes nos últimos anos. A sua ‘piada’ perguntando a um rapaz negro que o questionava no Twitter quantas bananas queria para acabar com uma discussão, foi um marco nesse sentido. Não há surpresa, principalmente depois que o caso foi julgado e o humorista absolvido por um juiz bem humorado, em que atrizes, apresentadoras e cantoras negras tenham sofrido barbaramente nas mãos dos racistas nos últimos meses.

4) Um enorme reforço a essa tendência racista vem com a predominância na TV brasileira das apresentadoras louras, por um lado, e da quase exclusão completa das negras, de outro. Não se discute a qualidade ou o talento, mas apenas o fato de que a TV insista em privilegiar e impor um único modelo de beleza através da seleção de apresentadoras louras: Angélica, Xuxa, Eliane, Adriane Galisteu, Ana Maria Braga, Ana Hickmann, Sheherazad, Andressa Urach, etc. O mais trágico, nesse caso, é que esse modelo se repete numa infinidade de programas locais, tanto na modalidade do entretenimento quanto nas bancadas dos telejornais regionais. Além dos nomes citados, o Brasil tem hoje centenas de apresentadores louras que se sucedem ao longo do dia nas telas de muitos milhões de espectadores pelo país afora.

E que ninguém diga que a televisão brasileira, ao conceder esse monopólio às louras, segue uma tendência internacional. Muito pelo contrário. A apresentadora mais bem paga do mundo, e mais conhecida na atualidade, é Oprah Winfrey, uma mulher negra e de meia idade.

5) Outro aspecto significativo dessa mídia é transformação crescente dos Portais em locais de exposição de corpos femininos, retalhados segundo uma lógica de fragmentação mental semelhante a que exibe peças de carne em um açougue. A mulher é exposta em partes (“barriga”, “bumbum”, “coxas”, etc.) sobre as quais se aplicam rótulos classificatórios (por exemplo, a barriga é rotulada como barriga sarada, barriga negativa, barriga trincada, barriga chapada, barriga tanquinho, barriga definida, barriga perfeita, etc. ). Cada vez mais se impõe um modelo que se assemelha aos manequins de vitrine, quer dizer, como um objeto sem vida. O interessante desse modelo de corpo, o que faz dele um modelo de corpo morto, é que ele desconhece duas coisas, essenciais na beleza dos corpos vivos: o detalhe e os gestos. O detalhe é o que uma percepção sensível apreende no outro e que são singularidades intransferíveis (a beleza de uma boca, um nariz, ombros, de sardas, de tonalidade da pele, etc.). O gesto, evidentemente, é a expressão de um corpo com a carga de personalidade que ele carrega. A destruição dessas referências é um modo de privar os espectadores do conhecimento e da experiência, e colocar em seu lugar algo que qualquer imbecil pode reconhecer e valorizar e que, na verdade, só reconhece e valoriza porque é imbecil (o corpo sarado, a barriga trincada, etc.).

O que tem de monstruoso e trágico nessa compreensão do corpo ficou patente justamente com um dos produtos extremos dessa nossa mídia nos últimos tempos, a história da modelo e apresentadora Andressa Urach. O regime químico monstruoso ao qual submeteu seu corpo, para se enquadrar e se manter dentro de certa estética do corpo objeto, foi denunciado pela própria degradação física extrema que acabou por se manifestar. E o espetáculo chegou ao flerte total com o horror, quando a modelo posou no hospital e vendeu as imagens das suas chagas. E nisso, na verdade, não poderia haver nada de errado já que era o mesmo comércio do corpo que ela fazia enquanto apresentadora e musa e, como confessou em livro logo depois, também como prostituta. Enfim, o modelo do corpo parcelado e vendido nos Portais talvez tenha mesmo por base, como seu modelo implícito, o mercado da prostituição. E ao tentar seduzir o leitor através da venalidade desses corpos retalhados, a mídia não faz outra coisa que degradar a sociedade num imenso sistema de meretrício.

6) Muito próximas dessa exibição do corpo como objeto aparecem ainda duas modalidades de exposição violadora: a dos assassinatos flagrados por câmeras de segurança e a de cadáveres originados de mortes violentas, seja de crimes ou acidentes de trânsito. Esta segundo modalidade não é o carro chefe das redes nacionais de TV e dos grandes portais na internet, mas não está ausente deles, aparecendo com relativa frequência. Já nas televisões regionais, em especial no interior do país e nos programas do telejornalismo policial, chega-se ao paroxismo de exibir da forma mais crua corpos mutilados, vítimas agonizantes, etc. É uma normalização do obsceno em grande escala. Nessa obscenidade os grandes portais investem também, mas o fazem através daquela primeira modalidade, a dos vídeos das câmeras de segurança. A diferença é que em grande parte dos casos, os assassinatos das câmaras de segurança são encobertos. Há alguns anos era comum que fossem apresentados mas hoje, com o público já viciado, basta apresentar algumas cenas do que as câmeras registraram.

O quadro geral é esse. Muitas coisas poderiam ser acrescentadas a ele. Por exemplo, o imenso universo do que Manuel Castells chamou de auto-comunicação de massas (as redes, os blogs, o compartilhamento de mensagens, vídeos e imagens pelos celulares, etc.). Se entrássemos aqui o horror só faria crescer. Certamente, nesse caso, temos também muitas tendências de uma nova mídia, livre dos vícios nefastos da grande mídia brasileira. Contudo, viceja ai também o pântano da submídia que repercute, até de forma mais chocante, o universo da violência presente nas grandes redes.

Muito provavelmente, sem que a percepção fosse trabalhada maciçamente por essas formas que violam o pensamento, a compreensão, o gosto, a experiência do que é aceitável e do que não é, as interdições em relação ao mundo público e ao mundo privado, e que promovem atitudes e personagens antidemocráticos, o golpe não teria espaço para vingar no Brasil. Compreender as diversas regressões mentais, sociais, políticas e estéticas operadas pela mídia dominante no Brasil é a tarefa prévia para imaginar um sistema de comunicação democrático. Certamente, se houver luz e câmera no final do túnel escuro que atravessamos hoje, não bastará que a comunicação ganhe caráter público. Ela terá que começar encontrando formas de curar as lesões profundas causadas por esses anos em que, para a maior parte da população brasileira, a mídia tem funcionado como um campo de extermínio mental.

Por Bajonas Teixeira de Brito Junior –http://www.ocafezinho.com/2016/06/24/campos-de-exterminio-mental-a-classe-midia-e-o-mainstream-do-golpe/

“THE TRUMAN SHOW / O SHOW DA VIDA” (PETER WEIR, 1998) #CINEPHILIA_COMPULSIVA (por Eduardo Carli de Moraes)

A Caverna de Platão, reinventada na era hi-tech da indústria cultural: eis o que The Truman Show concretiza frente a nossos olhos. A febre televisiva dos reality shows – fenômeno da cultura de massa que se tornou uma epidemia com a proliferação de Big Brothers e similares – é o tema do filme de 1998 realizado pelo cineastra australiano Peter Weir (o mesmo de Sociedade dos Poetas Mortos). 

A ironia começa no título: The Truman Show seria mais apropriadamente traduzido como “O Show do Homem de Verdade”, o espetáculo “honesto” do true man. Só que o programa de TV em questão exorbita em falsidade, artificialidade, sendo claramente percebido pelo espectador como um mundo fake, como uma pseudo-realidade. Estamos diante de alguém que parece-nos preso numa cidade-de-brinquedo, numa vila artificial como estas que se fabrica nos jogos à la Simcity.

Neste Simcity-real que é Hollywood, por exemplo, edificam-se cidades cenográficas inteiras, fabricam-se pirotecnias e efeitos especiais mil, para poder criar um produto midiático cuja conexão com a realidade muitas vezes se perdeu tão amplamente que vemos diante dos olhos um carrossel de mentiras filmadas. Com o terreno todo minado pelas iscas do merchandising.

Caverna Platon Atemporal

 O personagem interpretado por Jim Carrey é o prisioneiro de uma Caverna similar àquela descrita por Platão em seu diálogo A República, só que agora numa versão atualizada para a era digital e cibernética. Assim como na Caverna estavam acorrentados os prisioneiros, que nada viam além das imagens fantasmáticas projetadas na parede de seu cárcere, Truman é o prisioneiro de uma ilha, gerida pela indústria do entretenimento, onde ele é tratado sempre, desde o princípio de seus dias, como uma marionete, um títere a ser manipulado, um peão a mexer no tabuleiro de xadrez do Espetáculo, sempre com o fim de maximizar os Ibopes e os lucros…

Todas as táticas astuciosas do merchandising estão sendo ironicamente criticadas pelo filme: Truman é muitas vezes coagido, pelas pessoas com quem “convive” na cidade cenográfica de que é um prisioneiro iludido, a postar-se diante dos anúncios publicitários. Empurram Truman para um cenário urbano onde, no segundo plano, vê-se um outdoor seduzindo para as delícias de um frango frito vendido nas junkfoodarias ao estilo McDonald’s e KFC. Enquanto joga golfe no asfalto, com seu falso amigo (na verdade um ator…), Truman é interpelado pela ideologia subliminar do consumismo: olhando para as câmeras com o rosto de quem está deliciosamente embriagado, mostrando claramente para a lente a marca da cerveja, o “amigo” obriga Truman a ouvir repetidas vezes: “Meu caro, não há cerveja mais deliciosa do que esta!” (Na real, o interlocutor não é Truman, de verdade, mas o imenso público de telespectadores que precisam ser convencidos a comprar o produto da marca Y…).

Truman Show 21

De modo similar, sua esposa está frequentemente conversando com Truman ao modo de um anúncio ambulante de gadgets à disposição no supermercado: reclama com o maridão que a grama está muito mal cortada, para em seguida recomendar que cumpre comprar  uma máquina nova, melhor, mais charmosa, à venda no WalMart, em promoção imperdível, proclamada nos slogans como revolucionária invenção da maravilhosa e humanitária empresa X…

A mesma “estrutura narrativa” do mito da Caverna platônico também é utilizada no filme de Weir, que descreve como Truman de certo modo vai buscando libertar-se de sua prisão, passando a questionar a veracidade do mundo que rodeia seus sentidos. A descoberta de sua condição de escravo manipulado pela indústria do entretenimento é o que constitui a verdade aventura do filme. Truman vai “despertando” para sua real condição: a de alguém que foi desde o princípio ludibriado.

Quando começa a descobrir-se como alguém que foi enganado, alguém que foi encerrado na prisão – literal e mental – de uma Caverna que Marx & Engels analisarão sob o conceito de ideologia. Truman é prisioneiro da caverna ideológica no sentido de que foi. por 10.000 dias. o funcionário exemplar da maquinaria do Espetáculo, trabalhando sorridente para o lucro e o deleite dos empresários midiáticos, que enriqueciam suas contas bancárias com a venda de mercadorias nos tele-mercados altamente capitalizados.

O filme, porém, descreve uma crise, que se passa aproximadamente no dia 10.000 do programa (uma longevidade impressionante, mas que não é inteiramente irrealista: vejam quanto tempo de duração no ar tiveram shows televisivos como Seinfeld, Friends, Chaves, TrapalhõesJô Soares  etc.). Todo o cenário destinado a ludibriar Truman começa a desabar como um castelo de cartas na ventania. O prisioneiro começa a se debater contra aquilo que o acorrenta à Caverna, aquilo que o prende a esta ilha de enganações impostas por autoridades invisíveis.

Truman, se um dia pôde engolir direitinho a lorota ideológica, que lhe inculcou o pensamento de que ele vivia num dos lugares mais maravilhosos da terra, a ilha de Seahaven, no decorrer do filme vai rebelando-se contra a cidade. Vai tornando-se, de cidadão respeitador da lei e da ordem, em anárquico subversor de limites e regras.

Além do mais, se Truman pode escapar às teias totalitárias do sistema que o rodeia com suas câmeras de onivigilância, é também porque seu mundo subjetivo não é totalmente domável pelo poder. Não se controla tão facilmente a “vida afetiva” de um ser humano como se faz com um robô programado a responder aos comandos de um controle remoto. Vejam, por exemplo, esta “cena” chave do quebra-cabeças: para os empresários de TV, foi apenas uma bela cena, um ótimo produto da teledramaturgia, quando Truman, em sua infância, velejando no mar com seu pai, enfrentou uma tempestade (artificalmente induzida, é claro!), e na qual seu pai supostamente morreu afogado e foi sepultado no chão do oceano, para nunca ter seu cadáver encontrado. Pode-se imaginar os magnatas da mídia celebrando os milhões de dólares provindos dos picos de audiência. Para Truman, porém, aquilo não é “cena”, é vivência; e torna-se, é evidente, um trauma. 

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Truman Show 4

Cedo no filme nos damos conta do caráter neurótico de Truman, que cedo se manifesta no seu sintoma da fobia à água. Em seu trabalho, mandam-lhe realizar um serviço em outra ilha, que exige uma viagem de balsa (ferryboat), mas Truman, ao encaminhar-se ao barco, é acossado e possuído pelo trauma, pelo retorno da experiência antiga e amarga. Sua fobia o impede de seguir viagem. A fobia de Truman é o que prende-o a Seahaven e o que, no filme, ele terá o empenho heróico de superar.

 A neurose que lhe restou como legado de suas vivências como prisioneiro da indústria cultural de espetáculos lucrativos é também a raiz de sua insatisfação existencial, inseparável esta de sua rebeldia. A tensão dramática impressionante do filme tem a ver com o conflito interior que toma conta do personagem enquanto ele vê digladiarem-se, em seu peito, o “conservadorismo”/conformismo daquele que adapta-se e não questiona, de um lado, e o ímpeto de rasgar o véu de Maya e saber de fato o que está ocorrendo, de outro.

Se, por um lado, o peso do passado lhe legou o imobilismo e a fobia, ou seja, a incapacidade psicológica e física de escapar pelo mar, por outro lado Seahaven vai tornando-se tão mais insuportável quanto mais Truman vai desvelando sua verdadeira natureza: a de uma prisão. Da prisão da ideologia só podemos nos libertar quando tivermos plena consciência de sermos prisioneiros! Rosa Luxemburgo dizia que “quem não se move não sente as correntes que o prendem”. Truman, conforme o filme progride, sente cada vez melhor as correntes que o prendem, e esta consciência da servidão, a insatisfação diante desta condição servil, são aquilo que dá força à seu ímpeto rebelde, disruptivo.

Truman Show

1984Não sei se concordam comigo, mas para o meu gosto o filme fica bom mesmo quando Truman vai virando a ovelha negra, caso-de-polícia, perigoso subversivo. Pois o filme versa também sobre o fracasso, em última instância, do poder controlador e manipulador que procura seu domínio através da vigilância e do policiamento mais invasivos. Temos no filme Truman Show, pois, uma prefiguração de toda a temática que veio à tona com as revelações de Edward Snowden e as práticas cotidianas, nos EUA, da NSA (National Surveillance Agency). Certas forças políticas acabaram por acreditar que 1984, o clássico romance-denúncia de George Orwell, era um manual de instruções (!), ao invés de uma contundente porrada dada nos totalitarismos de ambições dominadoras.

A Sociedade do Espetáculo revelou-se como a era dos control freaks, com a proliferação de um complexo industrial carcerário e policial que atinge, em especial nos EUA (mas também no Brasil, na Rússia, na China e em tantas outras regiões) a dimensão de uma epidemia bastante triste onde o aprisionamento em massa, para punir os pobres, encontra-se articulado com uma indústria cultural destinada a perpetuar ideologias de sistemas econômicos e políticos que são justamente os responsáveis pelo militarismo, pelo belicismo, pelo frenesi carcerário.  Truman é “prisioneiro de luxo”, é claro, e sua condição nem de perto lembra a condição execrável em que são condenados a viver os “condenados” pela Justiça, lançados ao sistema carcerário hoje dominante…

A teia de mentiras, tecida ao redor de Truman, começa a colapsar quando ele revê seu pai, que ele pensava morto, reaparecer em cena como um mendigo. Para economizar uns trocados, a empresa de TV provavelmente resolveu utilizar o mesmo ator para personagens diferentes, o que é o estopim para a onda de ceticismo que toma conta de Truman. Desconfiando ele desperta. É duvidando da veracidade do sistema à sua volta que ele começa, mexendo-se, a sentir as correntes que o prendem. Sua insurgência, é claro, nasce de modo instintivo e um tanto caótico.

Como um bicho feroz numa jaula pequena, começa a sonhar em ir para a ilha de Fiji – que é exatamente do outro lado do mundo, o lugar mais longínquo que existe para ele. Que Truman queira vazar para o mais longe possível de Seahaven é um sinal de sua insatisfação com sua condição. O filme de Peter Weir vai convertendo-se aos poucos em um jailbreak, uma aventura de fuga-da-prisão, mas bem mais alegórica do que os enredos realistas de filmes como Fuga de Alcatraz, PapillonUm Sonho de Liberdade.

 O sistema organizou-se ao seu redor no sentido de amedrontá-lo diante da perspectiva de viajar, de partir. Ele tenta comprar uma passagem de avião para Fiji, mas é óbvio que não conseguirá do sistema tão fácil o seu tíquete de fuga. Tudo fazem os “donos do jogo” para dissuadir Truman de escapar de sua jaula dourada. Como uma mosca aprisionada na teia do poder, Truman tenta escapar dos controles, mas tem a experiência reiterada de que o poderio dessa entidade controladora é muito extenso. Com seus tentáculos, que parecem estar em toda parte, o grande polvo do “poder” tenta impedir todas as rotas de fuga de Truman. Suas tentativas de escapar devem apenas gerar boas cenas de ação, aumentos nos picos de audiência, mas devem mantê-lo preso ao labirinto, como um rato de laboratório.

Com o carro, Truman tenta se dirigir a Atlantic City, depois a New Orleans, mas o polvo do poder não cessa de interpor obstáculos em seu caminho, fabricando trânsito congestionado, botando fogo em estradas ou simulando uma contaminação radioativa que impede o tráfego na via. É como se uma divindade transcendente se manifestasse em atos ao redor de Truman. Mas não se trata de um deus, mas sim do personagem de Ed Harris, o “coordenador” daquela peça complexa de teledramaturgia…

O Ed Harris encarna a figura do manipulador-mor, do mestre-de-títeres; para ele, Truman, apesar de um homem de carne-e-osso, é tratado como marionete, como boneco. Provocar emoções intensas em sua cobaia, o Truman que é seu rato-de-laboratório-midiático, é a função desta figura cheia de poderio. Ele “orquestra” não apenas um programa de TV, mas todo um sistema de doutrinação social, toda uma máquina difusora de ideologia.

Um exemplo muito concreto: o Titereiro Christof (Ed Harris) conduz sua cobaia (O Truman, Jim Carey) de experiência traumática (a suposta morte do pai) a re-encontro triunfal – e o Ibope bomba! Truman descobre que seu pai não morreu de fato naquela noite fatídica, mas que sobreviveu e re-aparece agora em cena, em boa hora, para fornecer à telenovela a possibilidade de um lucrativo melodrama sobre a reunião de pai e filho. “Grande show!”, comemoram os produtores do Truman Show, quando o títere de carne-e-osso Truman abraça-se com seu pai, como se estivesse aplaudindo a transcendência divina que intercedeu a seu favor.

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Truman é sobretudo um Frankenstein da indústria cultural globalizada, uma criatura disfuncional e estranha do sistema que o incubou. A ideia era realizar um reality show realmente global – 1.7 bilhões de pessoas assistem pela TV ao nascimento de Truman; 220 países estão ligados em suas aventuras e desventuras… – mas que acaba revelando a própria máquina de produzir psicose que é todo esse o sistema Capitalista-Espetacular.

As câmeras escondidas (um enxame delas!) vigia e transmite a vida de Truman sem parar – ele está sempre no ar… –   e isso lhe dá a impressão alucinante de que o mundo gira ao seu redor. A psicopatologia de Truman é pior que um narcisismo, que um antropocentrismo patológico, é uma espécie de egocentrismo com elefantíase. E difícil é decidir qual dos dois tem o ego mais elefântico, se Truman ou se Cristof. Na verdade, no filme Cristof é quem “brinca de Deus”, realmente; Truman é sua vítima, seu títere, seu Frankenstein. A noção de divindade se aplica aqui porque a Truman, os poderes de Cristof parecem de fato como emanados de um “poder superior”: aquele poder, que na realidade concreta mantêm Truman num cárcere, num imenso bunker de metal, situado em Hollywood, California.

Truman não tem idéia e não toma consciência com facilidade do fato de que ele não está em “Seahaven”, a ilha, porra nenhuma; ele está aprisionado dentro de um artifício, dentro de um bunker que foi isolado do real. Não é permitido a Truman que saiba de sua condição de cidadão de Hollywood – ele tem que prosseguir cego, preso à lorota de que ele de fato vive numa inventada terra de ficção, uma fantasia armada em concreto.

A questão que fica é: caso tiremos Truman desta sua prisão-bolha, deste seu bunker de artificialidade, o que ele faria depois de viver um tempo “no real”? Talvez sentisse uma saudade imensa de sua Ítaca, a Seahaven onde “tudo gira ao seu redor”. O narcisismo de Truman é um construto da condição social em que se encontra, na posição de uma espécie de escravo da indústria cultural. Cristof, o pequeno deus deste micromundo onivigiado e onicontrolador, o tirano-mor deste totalitarismo em microcosmo, é o megalômano dos megalômanos. No filme, Cristof é figura meio Prometeica, que quer rivalizar com o poder de deus, e que por isso acaba tratando outro ser-humano como coisa – peão de xadrez, marionete de um teatro de Ibopes…

Para Truman, existe também um “Dark Side Of The Moon”, um lado escuro da Lua, e é literalmente o fato de que a Lua em seu céu é uma fake-Moon, uma construção humana, e nela escondido está o “olho” do Poder, o Panopticon da trupe de Cristof, essa figura que é celebrada na TV como um “televisionary”. Ou seja, o “televisionário”, o visionário da mídia, soube criar toda uma teia de artificialidade dentro do qual manipula sua cobaias humanas, instigando-os às situações e aos afetos que dão boa audiência e aumentam a venda de mercadorias… O importante é que o Truman Show continue “vendendo”, e pra isso a cobaia-Truman deve levada a extremos, mesmo que isso destrave comportamentos excêntricos e imprevisíveis.

No fim das contas, Cristof vende seu supostamente “revolucionário” produto-midiático como uma grande inovação pois é um show sem script pré-definido, um show que vai se escrevendo conforme acompanha a “aventura de formação” de seu protagonista entre o berço e o seu 10.000 dia… A crise destravada neste limite transposto do 10.000 dias tem a ver com uma série de irrupções de estranhezas no cotidiano de Truman, a começar por aquele cena, bem no inicío, quando um holofote de luz despenca do céu como se fosse uma estrela cadente e espatifa-se no asfalto, para assombro de Truman, que não sabia que holofotes podiam chover das nuvens… Que estranho mundo, digno da imaginação de um Lewis Carroll, o cinema de Peter Weir soube realizar com este neo-clássico do sci-fi!

A crise de Truman impulsiona-o ao jailbreak, o que faz com que ele escape, pela primeira vez, ao radar do poder, furtando-se aos tentáculos do polvo onipresente. Cristof, quando seu Frankeintein desaparece, como se escapulisse de sua coleira, brinca de deus em modo hard e apela pesado: ordena que, no meio da madrugada, faça-se nascer um sol… C0m a luz do sol artificial, chamado a raiar antes da hora pelo teledramaturgo em seu jogo de “Master of Puppets”, Christof manifesta-se enfim com a arbitrariedade que se espera de uma boa divindade. Chuta o pau da barroaca e ousa penetrar na “normalidade instituída” do “cosmos” de Truman e subverter as regras do jogo. Truman, diante disso, pensará estar diante de um milagre? Ou já raiará nele a noção de estar preso dentro de um grande estúdio, dum pequeno theathrum mundi, onde a Verdade lhe foi vedade?

Quando Truman tenta escapar das garras deste mundo imundo e seu deus arbitrário e onicontrolador, Chrisof se irrita e sua psicose se manifesta. Truman é, para Cristof, uma espécie de posse, de propriedade, que ele não tolera perder. Truman tenta navegar para longe de seu cárcere, mas seu carcereiro Cristof destrava os temporais relampejantes, ainda que sob ameaça de virar seu barco e lançá-lo a uma possível morte por afogamento. Ao vivo, um magnata da mídia pratica uma tentativa de homicídio, ao vivo e a cores, justificando-se assim: “Truman nasceu diante das câmeras, por que não poderia morrer diante dela?”

Truman embarca em sentido inverso ao de Ulisses na Odisséia: este queria sair das tormentas do mar para retornar ao lar e à sua Penélope em Ítaca. Já Truman quer deixar o porto seguro de Seahaven para enfrentar as tormentas que o enviem ao coração do desconhecido, ao cerne da descoberta. É aí que Truman realmente vira herói de um filme quase contracultural: quando escolhe encarar o risco e tentar sua fuga, custe o que custar. Ele quer intensamente libertar-se de seu “deus” perseguidor, sempre vigilante, sempre interventor.

nirvana-nevermindSeu último ato, que põe um the end no programa de TV mais longevo e mais lucrativo da história da teledramaturgia (isso no mundo fictício tão bem bolado pelo roteiro de Andrew Nicol), sugere a escolha de Truman por um “salto no escuro”: ele prefere a independência à escravidão, o controlar-se como ser autônomo ao invés de prosseguir marionete de um Master of Puppets. Para relembrar uma imagem icônica da chamada Geração X, ainda carecemos do aprendizado necessário para, ao invés de ficar nadando atrás da isca do dólar, como o bebê na capa do Nevermind, nadarmos em direção à saída do aquário onde estamos encerrados…

Batendo de frente com a parede onde o céu estava pintado – aquele céu, que visto de longe, lá das margens de Seaheaven, parecia de fato um real horizonte sem fim! –  Truman chega ao estopim final da crise revolucionária que o transformou e transtornou. Ele bate de frente com o horizonte limitado, com as barras de ferro de sua jaula, que ele confundia com o céu aberto.

Custe o que custar, a verdade ele quer degustar. Truman abre a porta e deixa o recinto, abandona a farsa, vaza da Caverna, põe um ponto final à manipulação sem fim. O que ocorre depois o filme deixa no escuro. Quem ficou aguardando uma continuação, esperou em vão. É bom que seja assim: é deixada à imaginação do espectador o que ocorre com Truman no “mundo real”, onde ele sem dúvida fará muitas desagradáveis descobertas

A vida do prisioneiro após sair de sua platônica Caverna, ou melhor, como é estar com a consciência desperta após livrar-se das correntes e miragens ideológicas, tudo isso, que Peter Weir relega ao escuro que segue o “The End”, está aí para cada um descobrir – basta, para isso, mover-se para sentir as correntes que nos prendem, e em seguida cortá-las, para viver na pele o que é, após ter sido condenado a estar preso, imitando estereótipos, descobrir como é estar condenado a ser livre, forjador autônomo de percurso próprio…

 

p.s. – “O pão com que a indústria cultural alimenta os homens continua a ser a pedra da estereotipia.”
Adorno & Horkheimer (Dialética do Esclarecimento, pg 123)

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R.I.P. ANTONIO ABUJAMRA (1932 – 2015) – Assista alguns dos melhores episódios do “Provocações”: Safatle, Laerte, Stédile, J. Wyllys, R. Alves, V. Mosé, Tom Zé etc.

Em homenagem ao provocador-mor da TV brasileira, o recém-falecido “Abu”, compartilhamos aqui algumas das melhores entrevistas do programa Provocações, que atravessou 14 anos no ar, sempre “idolatrando a dúvida” e agindo como “um periscópio sobre o oceano do social”. Além disso, uma série de poemas declamados por ele no programa. Voilà:

Antonio Abujamra – Poemas Declamados no Provocações

Rubem Alves

Jean Wyllys

João Pedro Stédile

Renato Janine Ribeiro

Vladimir Safatle

Laerte Coutinho

Mino Carta

Viviane Mosé

Roberto Freire

Nicolau Sevcenko

Ricardo Abramovay

Tom Zé

Márcia Tiburi

José Miguel Wisnik

Zé Celso Martinez Correa

FILOSOFIA AQUI E AGORA: 1ª TEMPORADA COMPLETA (PROGRAMA DE TV ARGENTINO, 30 MIN. CADA EPISÓDIO)

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1ª TEMPORADA COMPLETA DE FILOSOFÍA AQUI & AHORA
Do canal argentivo ENCUENTO
 Apresentado por José Pablo Feinmann
EPISÓDIOS 1 a 12
Assista on-line:

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Capítulo 1 – ¿Por qué hay algo y no más bien nada?

1.1 ¿Por qué un curso de filosofía?
1.2 ¿por qué “filosofía aquí y ahora”?
1.3 ¿Cuáles son las preguntas de la filosofía?
1.4 ¿Qué hacemos con lo que hicieron de nosotros?

¿Por qué un curso de filosofía? El ser humano y las preguntas de la filosofía: el hombre como ser finito que sabe que muere y, sin embargo, sigue viviendo y piensa su situación en el mundo. ¿Por qué “Filosofía, aquí y ahora”?, pensamiento situado. El poder de los medios y la colonización de la subjetividad. René Descartes y el discurso del método: la duda metódica. ¿Qué hacemos con lo que hicieron de nosotros?, condicionamientos y responsabilidad: somos lo que elegimos ser.

Capítulo 2: Sacar la filosofía a la calle (0:27:14)

2.1 ¿Sujetos sujetados?
2.2 Si la historia está en manos de Dios, ¿Qué hacen los hombres?
2.3 ¿En qué consiste la ruptura de Descartes con el pensamiento teologal del medioevo?
2.4 Descartes, ¿Un héroe del pensamiento?

La filosofía y la condición finita del hombre; el pensamiento autónomo y el estado de interpretado; el medioevo y la teología: la historia en manos de Dios, el poder pastoral y la Inquisición; Cristóbal Colón y René Descartes: el descubrimiento de América, la conformación de un sistema mundo y el surgimiento de la subjetividad capitalista; el hombre de la burguesía: ahora ocupa la centralidad y comienza a hacer la historia.

Capítulo 3: Colón descubre América; Descartes, la subjetividad

René Descartes y el descubrimiento de América para el capitalismo. El discurso del método: dudo de todo. Pienso, luego existo; las filosofías idealistas y el humanismo: la subjetividad del hombre como punto de partida epistemológico. ¿Cómo demostrar la existencia de la realidad externa?, la recurrencia a la veracidad divina; el dualismo entre el sujeto y el objeto.

Capítulo 4: La filosofía corta la cabeza de Luis XVI (1:19:29)

Descartes y la expresión de la subjetividad capitalista; el cuestionamiento al orden de la teología medieval; las filosofías idealistas: el sujeto como punto de partida para el conocimiento de la realidad; Kant: la realidad externa dominada por la burguesía y el sujeto que constituye al objeto; el Iluminismo y la razón que ordena la realidad; el rol del intelectual revolucionario; la Revolución Francesa; Voltaire: Cándido o el optimismo, el Dr. Pangloss y la justificación del orden existente; la filosofía al servicio de tornar explícita la ignominia y hacerla intolerable; la irritabilidad de las masas.

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Capítulo 5: Kant, la experiencia posible y la experiencia imposible

Kant: Crítica de la razón pura, conocer la facultad de conocer y buscar los fundamentos de la ciencia; David Hume y la noción de hábito; el giro copernicano de Kant: el sujeto constituyente; “solo hay objetos para un sujeto”; el mundo de la experiencia posible y el mundo de la experiencia imposible; el concepto de categoría.

Capítulo 6: Hegel, el sujeto absoluto y la consolidación de la burguesía

El sujeto comunicacional y la construcción de lo real; Hegel y el desarrollo dialéctico de la historia; las críticas posmodernistas al pensamiento totalizador hegeliano; concepto de espíritu absoluto: el sujeto, la sustancia y la historia; Hegel como filósofo de la Revolución Francesa; la burguesía y el control de la totalidad del poder político; ¿El fin de la historia?

Capítulo 7: Hegel, dialéctica del amo y el esclavo

Hegel, dialéctica del amo y el esclavo: cómo comienza la historia, el deseo del hombre, el miedo a la muerte y el sometimiento al otro; el contacto con la materia del esclavo y la creación de cultura; la desilusión del amo; filosofías idealistas y filosofías materialistas, pensar a los nuevos sujetos históricos: la burguesía y el proletariado.

Capítulo 8: Filosofía y praxis

La dialéctica en el pensamiento de Marx: la burguesía engendra a su propio enterrador, el proletariado; el materialismo histórico; filosofía de la praxis; la tesis 11 sobre Feuerbach: el pensamiento al servicio de la transformación de la realidad; las armas de la crítica: conocer lo real para transformarlo; la crítica de las armas: violencia de masas y praxis vanguardista.

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Capítulo 9: La modernidad desbocada

El pathos de la indignación, la crítica y la conciencia de la ignominia; los socialismos del siglo XX, las masas y las vanguardias; el dogma, el partido y el líder; Marx, el Manifiesto Comunista y el optimismo histórico: “para que el proletariado surja, la burguesía debe triunfar en todas partes”; la burguesía como la clase más revolucionaria que ha existido: expansión, globalización y sistema mundo; los pensadores marxistas argentinos y el proyecto mitrista; la burguesía como aprendiz de hechicero: no puede controlar las fuerzas que ha desarrollado; concentración y exclusión: el temor de los que viven en la opulencia.

Capítulo 10: El capital

El capital; concepto de plusvalía; la acumulación originaria del capital y la violencia: el descubrimiento de América, el exterminio, la esclavización y el saqueo en América, India y África. El fetichismo de la mercancía: el vértigo y el encantamiento; el dinero; ¿Todo es mercancía?; las profecías incumplidas de Marx.

Capítulo 11: Nietzsche, vida y voluntad de poder

Nietzsche: La genealogía de la moral; el origen de los valores y la transvalorización de los valores; la moral de la compasión y los valores de la aristocracia; la tardía unificación de Alemania, el Tercer Reich y el espacio vital.

Capítulo 12: Nietzsche: “Dios ha muerto”

Nietzsche y la voluntad de poder; conservación y aumento: vinculación con el pensamiento hitleriano; el mundo suprasensible platónico y el mundo de la vida; “Dios ha muerto”; el superhombre y el guerrero; la exaltación de lo dionisíaco.

LITERATURA FUNDAMENTAL – SÉRIE DE PROGRAMAS DA TV UNIVESP (30 MIN. CADA) – Baudelaire, Camus, Conrad, Dostoiévski, Homero, Montaigne, Platão, Sartre, T.S. Eliot etc.

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Uma seleção de alguns problemas da série Literatura Fundamental da UNIVESP, na íntegra:

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“O BANQUETE”, de Platão
por ADRIANO RIBEIRO MACHADO

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“A REPÚBLICA”, de Platão
por ROBERTO BOLZANI

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“AS METAMORFOSES” de OVÍDIO (43 a.C.)
por ALEXANDRE HASEGAWA

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“O CORAÇÃO DAS TREVAS”, de Joseph Conrad
por MARCOS CÉSAR SOARES

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“A TERRA DESOLADA”, de T.S. Eliot
por VIVIANA BOSI

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“OS CAMINHOS DA LIBERDADE” (Trilogia), de Jean Paul Sartre
por FRANKLIN LEOPOLDO E SILVA

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“OS ENSAIOS”, de Michel de Montaigne
por SÉRGIO XAVIER GOMES ARAÚJO

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“ILÍADA”, de Homero
por ANDRÉ MALTA

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“ODISSÉIA”, de Homero
por ANDRÉ MALTA

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“AS FLORES DO MAL”, de Baudelaire
por ÁLVARO FALEIRO

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“CRIME E CASTIGO”, de Dostoiévski
por ELENA VÁSSINA

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“O ESTRANGEIRO”, de Albert Camus
por CLÁUDIA AMIGO PINO