A PAIXÃO SEGUNDO A REVOLUÇÃO: Leon Trótski (1879 – 1940) biografado por Paulo Leminski (1944 – 1989)

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Haja proteína para lutar pelos famintos, pelos escravos, por todos os que são esmagados pela opressão multiforme! Neste ano de 2017, em que celebra-se o centenário da Revolução Russa, ou seja, aquilo que o autor do Catatau afirmou ser “o máximo acontecimento político do século XX” (p. 263) -, as proteínas literárias não são de se desprezar. Vale muito a pena redescobrir uma obra, cativante e de vasta relevância, que Paulo Leminski publicou, em 1986, sobre Trótski (1879 – 1940).

Graças ao excelente livro Vida (Companhia das Letras, 2013, 390 pgs), hoje o leitor brasileiro tem acesso fácil às imperdíveis biografias que Leminski devotou às vidas de Jesus de Nazaré, Cruz e Souza, Bashô e Trótski. São obras-primas não somente dentro da estreiteza do gênero biográfico, mas dignas de figurarem no cânone da literatura brasileira ou mesmo da ensaística especulativa universal, já que neles Leminski revela-se não só como poeta magistral, mas como livre-pensador dos mais preciosos já nascidos em terra brasilis. 

“Diante da brutalidade milenar da sociedade de classes, para lançar as bases do socialismo, era preciso concentrar séculos de horror em décadas. Os bolcheviques, conforme uma fantasia erótico-heróica de Trótski, em seu ‘Minha Vida’, cultivavam a fantasia de estar vingando Spartacus e todos os escravos da Antiguidade, os servos da Idade Média, os operários ingleses do século 18, todos os oprimidos, os explorados, os diminuídos. Sem saber, perseguiam aquilo do Evangelho: ‘bem-aventurados aqueles que têm sede e fome de justiça, pois eles serão saciados’. Mas não eram as belíssimas abstrações do Sermão da Montanha que os bolcheviques buscavam. Eles queriam a industrialização, a plenitude material, o fim da fome, o fim da ignorância, a vida sem medo nem insegurança, o cessar das guerras, o término da pré-história, a célebre passagem do Reino da Necessidade para o Reino da Liberdade…” (LEMINSKI, p. 326-327)

Por estes trechos já se percebe que o “polaco loco paca” não se limita a falar sobre a vida e a obra de Trótski, mas engaja-se com entusiasmo em debates, mete o bedelho onde não é chamado, sai filosofando sobre os destinos do marxismo-leninismo e da revolução, sempre com ousadia e espírito livre, criticando também os erros nefastos cometidos através da história do bolchevismo, entre eles o que chama de “monopólio do poder” e “unanimidade compulsória”:

Fragmento de um mural de Diego Rivera com retrato do revolucionário bolchevique Vladimir Ilitch “Lênin” ao centro

“O Partido Bolchevique pretendia não apenas o monopólio do poder, dos cargos de mando, da administração do país. Para manter e justificar esse monopólio, teve que assumir o monopólio ideológico, a ortodoxia doutrinária mais severa, sem margens para divergências e contestações. Qualquer diferença em relação às determinações partidárias será, doravante, considerado um gesto contrarrevolucionário. O império da unanimidade compulsória, característica dos tempos de Stálin, começou já nos tempos de Lênin e Trótski.

Filosoficamente, em termos de pensamento, essa ortodoxia manifestou-se na consagração e canonização do pensamento de Marx e Engels, com os acréscimos posteriores das ideias de Lênin e do pensamento de Stálin. Esse estranho amálgama filosófico-ideológico, que acabou se chamando marxismo-leninismo, é, em boa parte da terra, sinônimo de Razão, Verdade absoluta, ‘o saber supremo da nossa época’, como disse Sartre num de seus momentos mais vermelhos. De método vivo de pensar, em Marx, a dialética viria a se transformar numa escolástica congelada e repetitiva: de 1917 pra cá, a URSS não produziu um só pensador original, só comentadores dos clássicos. As reais contribuições a um avanço do pensamento marxista ocorreram fora da URSS: Adorno e Walter Benjamin, Sartre e Marcuse, até hoje gente não grata na Santa Rússia…” (LEMINSKI, p. 318)

O mais célebre dos divergentes e contestadores da unanimidade, que destoou o coro dos contentes na Era Stanilista, que fez ouvir as notas de sua canção dissonante de exilado e de perseguido político, é o próprio Trótski. Leminski busca desvendá-lo munido de excelente companhia. Ilustram o livro algumas gravuras e cartuns da pena de Vladimir Maiakóvski, com seu espevitado gênio poético, que manifestou-se não só em verso mas também de forma gráfica bem punk, proto-Henfilesca.

Leminski também baseia-se em um estudo exaustivo que fez dos livros de Isaac Deutscher (1907 – 1967), que devotou três grossos volumes a Trótski – a trilogia O Profeta Armado, Desarmado e Desterrado. É uma jornada em que Leminski consegue honrar o revolucionário russo com um livro à altura de sua estatura histórica.

Além disso, como ótimo poeta que é, Leminski amplia seu poder de evocação de imagens memoráveis com um arsenal que colhe nos filmes de Eisenstein. O histórico Outubro de 1917 e seus prelúdios no Encouraçado Potemkin de 1905 servem como armazéns inestimáveis de poesia audiovisual sobre aqueles dias que “abalaram o mundo” (John Reed) – e o autor sabe se aproveitar, de maneira interdisciplinar, de múltiplas obras nascidas em conjunção com a revolução.

“Os três principais chefes da Revolução de Outubro e da implantação do comunismo começaram a conspirar desde cedo. Todos conheceram a prisão, a deportação, a fuga, o medo da delação, as reuniões secretas, o uso de documentos falsos, todas as agruras de uma intensa vida de criminosos políticos.

Essa militância clandestina está inscrita no próprio nome com que os conhecemos. Lênin, Trótski e Stálin não são seus nomes. São apelidos, codinomes de militância subversiva, dois deles diretamente ligados a vicissitudes da vida de um criminoso político. Vladimir Ilitch chamou-se Lênin porque esteve preso numa colônia penal no interior da Sibéria, às margens do rio Lena. Quanto a Trótski, era o nome de um dos carcereiros de Liev Davidovitch, em uma de suas inúmeras prisões, e que Liev adotou quando fugiu da prisão, uma vez que seu verdadeiro nome já era conhecido em todas as delegacias da Rússia. Irônico o caso deste obscuro carcereiro cujo nome entrou na história através de um acidente da luta política entre os irmãos Karamázov e o Grande Pai Castrador.

Esse que nós conhecemos como Tróstki era filho de um judeu fazendeiro do sul da Ucrânia, proprietário da fazenda Yanovka… que ficava muito longe de qualquer sinagoga. Liev cresceu, ‘menino de engenho’, entre trabalhos de campo e rudes lavradores ucranianos, livre, como seu pai, das amarras do judaísmo ortodoxo tradicional.

Talvez esteja aí a raiz da extraordinária liberdade de pensamento crítico que sempre lhe foi característica, como teórico, como orador e como homem de ação. Nessa liberdade, seu estilo de pensar tem algo que lembra o pensar de Marx, outro judeu desjudaizado, um pensar de essências e medulas, com a coragem de ir até as últimas consequências do seu movimento inicial, passando por cima de preconceitos, lugares-comuns e verdades estratificadas…

A máquina mental e intelectual de Trótski era mais completa que a de Lênin. Seus interesses eram mais plurais. Suas leituras, mais diversificadas. Seu horizonte, muito mais amplo. Leia-se por exemplo o voo utópico do final do ensaio ‘Arte revolucionária e arte socialista’, capítulo 8 do seu livro Literatura e Revolução. Lênin jamais poderia ter escrito essas páginas de um sopro verdadeiramente épico-utópico sobre o novo homem que o socialismo poderia criar.” (LEMINSKI, p. 264-265)

As relações íntimas e intensas de Trótski com a literatura são um dos temas prediletos de Leminski. Ele nutre veneração tanto pelos talentos trotskianos como crítico literário, quanto por grandes autores da literatura russa que Trótski e Leminski consideram como mestres. Entrando em uma querela sobre o valor das contribuições à compreensão da Rússia, Leminski opõe historiadores a artistas, prestando no tribunal da história seu tributo de artista à sua estirpe de “antenas da raça”, dizendo que julga muito mais valiosos artistas como Dostoiévski do que aqueles historiadores que são “colecionadores de dados e datas”.

Os romances de Dostoiévski, seus dilemas existenciais e éticos, escritos por alguém que sofreu todas as aflições do aprisionamento na Sibéria e do pelotão de fuzilamento, também marcam profundamente a reflexão leminskiana. Rompendo com qualquer dogma sobre a escritura de biografias, Leminski fala ao leitor como se estivesse no boteco, dando conselhos de amigo-sábio aos novatos:

“Se você quer entender a Rússia, não perca tempo lendo manuais de história. Comece logo lendo Os Irmãos Kazamázov, de Dostoiévski. Esse romance, de 1880, é a história de um parricídio, o assassinato do velho Karamázov por um de seus 4 filhos… Os Irmãos Kazamázov não só retrata com perfeição a Rússia passada e presente, em suas estruturas mais profundas, mas ainda prefigura uma Rússia por vir. Quando Dostoiéski escreveu esse romance, Freud apenas engatinhava. Mas nele já se encontra todo o fundamental da teoria freudiana. Para Freud, é o parricídio primordial que funda a civilização. E toda revolução social de grandes proporções é uma luta dos filhos contra a tirania dos pais (pais, padres, patrões, padrões). (…) Quando um dos Karamázov mata o pai, começa a Revolução Russa, esse terremoto histórico, onde Trótski teve um papel decisivo.” (p. 246)

Leminski alça Trótski ao estatuto de herói épico, de uma epopéia revolucionária, que destaca-se também por sua extraordinária capacidade de criação intelectual em meio às batalhas da vida política, o que talvez explica que “envelheceu precocemente: aos 50 anos, parecia ter 70. Lutou contra Stálin e o stalinismo até o último momento. Foragido e perseguido, jamais deixou de denunciar as deformações que Stálin introduzia no socialismo da URSS, que ele tinha ajudado a criar. Sua vasta produção jornalística e literária é um combate contínuo contra a traição da Revolução que ele via no stalinismo triunfante.” (p.  344)

Preocupado com o destino histórico do pensamento de Marx e Engels tal como este encarna-se na história afora, Leminski percebe bem a complexidade do caso de Trótski, que foi líder revolucionário bolchevique e chefe militar supremo durante a Guerra Civil pós-revolucionária, e depois foi transformado por Stálin em pária, inimigo a ser caçado e liquidado, tanto fisicamente (Trótski foi assassinado em 1940, no México, por punhos servindo o stalinismo) quanto historicamente (nas fotografias, antes do Photophop, Trótski foi liquidado, num processo que inspirará George Orwell para retratar o totalitarismo em 1984).

Em 1984, livro publicado em 1949, a noção de um Partido Único, monopolizador de poder, impositor de uma unanimidade ideológica, também busca de maneira visceralmente stalinista manter o Passado sob seu controle. Fabrica uma ficção após outra sobre o que já se passou na fase histórica pregressa, sempre talhando o passado que mais convêm a seus interesses atuais, the past that suits you best. Se em Stalin vemos o protótipo do Grande Irmão, um autêntico Big Brother Bolchevique, em Trótski não é difícil reconhecer a figura do inimigo público número 1, bode expiatório, alvo supremo da perseguição da polícia política, que em Orwell é Emmanuel Wallerstein.

“Dor toda especial para Trótski deve ter sido a obliteração sistemática do seu nome na historiografia soviética, ou simpática a Stálin. Nesse terreno, não há dúvidas: a historiografia soviética sobre a Revolução é uma mentira deslavada, completamente deturpada por Stálin. Quem quiser saber uma opinião contemporânea e isenta leia John Reed em Os 10 Dias Que Abalaram O Mundo, o jornalista americano, comunista, estava lá, em 1917. O nome e a atuação de Trótski estão presentes em todas as páginas, onde Stálin não aparece nenhuma vez. Pois vem: o livro de Reed, com prefácio de Lênin, só pôde ser traduzido e editado na URSS depois da morte de Stálin. Durante sua vida, nenhum historiador russo se atreveria a mencionar sequer o nome de Trótski num trabalho sobre a Revolução. Essa gracinha poderia lhe custar, no mínimo, o emprego e, no máximo, a vida.

Essa institucionalização da mentira não se limitou aos textos. Até de fotografias históricas foi raspada e apagada a imagem de Trótski!  Não há exemplo no mundo moderno de uma conspiração da memória semelhante. O paralelo mais próximo seria a prática dos faraós do antigo Egito que costumavam mandar apagar dos monumentos os nomes dos faraós anteriores, para botar o seu no lugar…” (p. 345)

“Quatro pernas, bom. Duas pernas, ruim.” O lema provisório da fazenda comunista em “A Revolução dos Bichos”. Saiba mais: Capitalismo em Desencanto, A Casa de Vidro.

Este embate entre Stálin e Tróstki, tão determinante nos rumos e descaminhos da Revolução Bolchevique, também marca a alegoria orwelliana de A Revolução dos Bichos (Animal Farm), obra de 1943-1944,onde estes personagens históricos estão representados pelos porcos Napoleão (Stalin) e Bola-de-Neve (Trótski). 

O desenlace final do duelo também ganhou a tela do cinema através de The Assassination of Trotsky (1972), dirigido por Joseph Losey e com Richard Burton no papel principal, onde são revelados detalhes dos últimos dias da vida de Trótski, no México, sob a proteção de Diego Rivera e Frida Kahlo, dentre outros camaradas.

“Escorraçado por toda parte, encontrou precário refúgio no México, onde viveu nos arredores da capital, sempre ameaçado por atentados encomendados por Moscou. Passou seu últimos dias numa verdadeira fortaleza, em Coyocán, nas proximidades da Cidade do México, protegido por partidários leais que funcionavam como uma verdadeira guarda pessoal… Stálin tinha determinado sua eliminação. O fim de Trótski foi tão rocambolesco quanto sua vida. Stálin, através do Partido Comunista Mexicano, conseguiu infiltrar na fortaleza de Coyocán um agente seu, J. Monard, que se fez passar por jornalista de esquerda, interessado nas ideias de Trótski. Um dia, sozinho com Liev, Monard agarrou a pequena picareta que trazia sob o casaco, e a cravou na cabeça do velho líder. Trótski, que era homem vigoroso, ainda conseguiu lutar com o agressor. E só veio a morrer quando levado ao hospital.” (p. 346)

Leminski não canoniza Trótski: não silencia, por exemplo, sobre o episódio do Kronstadt, frequentemente citado como uma prova de que Trótski, que tanto acusou Stálin de ter traído a revolução, teria também praticado uma nefasta traição, afogando em sangue a dissidência através de “métodos brutais”, já que “mandou massacrar a guarnição rebelada de Kronstadt” (p. 334). Sem esconder os erros e contradições do homem, ao refletir sobre o legado de Trótski para a posteridade, ao avaliar sua relevância no âmbito do marxismo e da ação revolucionária, Leminski destaca como elementos cruciais o internacionalismo e a revolução permanente que são marcas do trotskismo, mas as critica com ideias próprias:

“Para Marx e os marxistas do século XIX, a revolução proletária era um fenômeno mundial, transnacional, baseada na igualdade da condição oprimida dos trabalhadores de qualquer latitude. As nações eram artifícios geopolíticos das classes dominantes. Entre um operário inglês e um operário alemão, deveria prevalecer a condição de operário sobre a diferença de nacionalidade. Na realidade, as coisas seriam um pouco diferentes. O ser humano, operário ou não, não é uma entidade genérica, abstrata. É um indivíduo concreto, com certos traços físicos comuns aos seus, falando determinada língua, orgulhoso de seus signos culturais, sua culinária, seu folclore, seus mitos fundantes. A certeza, porém, da iminência de uma revolução proletária em todos os países, a começar pelos mais industrializados, era esperança muito viva nos revolucionários do século XIX e primórdios do XX. Do ouro falso dessa esperança, Trótski forjou sua teoria da revolução permanente: uma vez iniciada num país, a revolução proletária não deveria parar aí, mas se irradiar numa reação em cadeia.

Durante a Revolução Russa, Trótski e os outros esperavam, para qualquer hora, a eclosão da Revolução na Alemanha. No poder, os trabalhadores alemães, mais desenvolvidos que os russos, dariam a mão a seus irmãos do Leste, dando início a uma sucessão de revoluções proletárias, que acabariam tomando conta do mundo todo. Sem essa fé, dificilmente os bolcheviques teriam tido tanta coragem para arrostar as incríveis dificuldades com que começou a Revolução Russa. Mas os fatos quiseram diferente. A incipiente revolução alemã foi facilmente tomada pela classe dominante, Rosa Luxemburgo e Liebknecht, seus líderes, sumariamente executados… Adeus, revolução permanente. Em meados dos anos 1920, Stálin começa a patrocinar a ideia do ‘socialismo num só país’, teorização de uma realidade histórica irremediável.” (p. 337)

Detalhe de um mural de Diego Rivera que retrata Trótski e Marx. Saiba mais.

Em 27 de fevereiro e 03 de Março de 1940, em Coyocán, México, Trótski escreve em seus últimos dias entre os vivos algumas palavras que lhe servem de testamento:

“Nos 43 anos de minha vida consciente, permaneci um revolucionário; durante 42 destes combati sob a bandeira do marxismo. Se tivesse que recomeçar, procuraria evidentemente evitar este ou aquele erro, mas o curso principal de minha vida permaneceria imutável. Morro revolucionário proletário, marxista, partidário do materialismo dialético e, por consequência, ateu irredutível. Minha fé no futuro comunista da humanidade não é menos ardente; em verdade, ela é hoje mais firme do que foi nos dias de minha juventude… A vida é bela. Que as gerações futuras a limpem de todo o mal, de toda opressão, de toda violência e possam gozá-la plenamente. (…) Sejam quais forem as condições de minha morte, morrerei com uma fé inquebrantável no futuro comunista. Esta fé no homem e em seu futuro dá-me, mesmo agora, uma tal força de resistência como religião alguma poderia me fornecer.” – Leon Trótski

FERMENTO PRA MASSA – Goiânia na Greve Geral (Documentário, Curta-Metragem, 2017, 21 min)

FERMENTO PRA MASSA – A GREVE GERAL EM GOIÂNIA
Um documentário curta-metragem de Eduardo Carli de Moraes
Uma produção independente A Casa de Vidro

“Hoje eu vou comer pão murcho, o padeiro não foi trabalhar / A cidade tá toda travada, é greve de busão, tô de papo pro ar!” É o que canta Criolo em “Fermento Pra Massa”, canção do álbum “Convoque Seu Buda”, convocada para inaugurar e batizar este doc em clima de samba-resistente. “Eu que odeio tumulto não acho insulto manifestação / Pra chegar um pão quentinho com todo o respeito a todo cidadão!”

Era um dia histórico na Nova República: a maior Greve Geral desta geração, com adesão de cerca de 35 milhões de pessoas em todo o país, coincidia com os 100 anos da pioneira, inaugural Greve Geral de 1917.

Em 1917, quando mulheres e crianças labutavam até 16 horas diárias, irrompeu em São Paulo a primeira grande luta operária brasileira, dirigida por anarquistas. Como começou. Quais suas conquistas e atualidade – Por Eduardo Alves Siqueira em Outras Palavras

A multidão em Goiânia, estimada pelos jornais Daqui em cerca de 30 mil pessoas – número inflado pela CUT a exagerados 70 mil manifestantes – era polifônica, multifacetada, pulsante como um mega-organismo da reXistência, parte de um todo-humano enigmático – “nós somos os 95%”! – que esparrama-se como um Octopus de mil tentáculos pelo território nacional.

Goiânia

São Paulo

Recife

Rio de Janeiro

Na Goiânia das dez vanguardas, nesta data, decerto houve caos e cacofonia. O tecido da sociedade está mesmo todo esgarçado, polvilhante de antagonismos. Em uma das vanguardas, onde as bandeiras negras dos movimentos anarquistas e antifascistas misturavam-se a cartazes coloridos propugnando “AMAR SEM TEMER”, ouviam-se em altos brados palavras-de-ordem como: “É barricada, greve geral, ação direta que derruba o capital!”

Re-aquecendo as brasas da Primavera Secundarista que fez História em 2016, com mais de 1.000 ocupações, a estudantada botou de novo a boca no trombone e cantou em alto e bom som todos os punk-hits da temporada. O hit do ano passado voltou a dar as caras neste dia de strike: “acabou a paz, mexeu com estudante, mexeu com Satanás! Olha o capeta!” Já o brado desafiador também não faltou: “o Estado veio quente, nóis já tá fervendo! Quer precarizar? Não tô entendendo! Mexeu com estudante, você vai sair perdendo!” Os batuques comiam soltos enquanto os coros de brados ressoavam pelo centro, informando a todos que “em Goiás tem escola de luta! Fica preparado: precariza nóis ocupa!”

Na frente da Assembléia Legislativa, a multidão concentrou-se pela manhã do dia nacional de paralisação e alguns traziam caixões de isopor – ecos do protesto do Acampamento Terra Livre diante do Congresso Nacional. Nos caixões se lia: “Morreram Antes de Se Aposentar”. Os nomes ali inscritos eram tantos que aquilo que parecia ser um caixão tamanho individual mostrou-se logo como símbolo de uma vala comum. A vala comum que o desgoverno em curso pretende impor com suas deformantes Reformas.

O “Fora Temer” parecia ser um consenso ruidosamente reafirmado em dúzias de ruas e esquinas, mas os Fora Iris e Fora Marconi também não ficaram atrás. Explosões de indignação diante da truculência da PM goiana também não tardariam, quando o sangue do estudante da UFG, Mateus Ferreira, seria derramado pelo brutal cassetete de um capitão da PM.

Em estado grave, na UTI, com traumatismo craniano, respirando por aparelhos, o estudante com o crânio esmagado serve como emblema do autoritarismo irracional daqueles que se fazem cães-de-guardas de um regime golpista que cada vez demonstra mais que seu único argumento contra a dissidência é a barbárie da porrada.

Esgoelando-se sobre o carro de som, Davi Maciel, professor de História da UFG, esbravejou:

“A Reforma da Previdência e a Reforma Trabalhista não visam apenas bater a mão na nossa carteira, não é apenas um estelionato pra tirar direitos, pra nos fazer trabalhar mais tempo e nos fazer trabalhar mais barato, mas visa sobretudo baratear nosso salário.” Evocando os 150 anos em que já estamos convivendo com o espectro de Karl Marx e das análises de seu “O Capital”, o professor conclamou ainda: “Temos que derrotar esse Governo estelionatário, esse Congresso estelionatário, que bate a mão na nossa carteira, que nos dá um golpe barato… Fora com essa pauta de reformas anti-populares, favoráveis ao capital! Greve geral enquanto essas reformas não forem vetadas! Fora Temer!”

Houve quem desfilasse pelas ruas seu catolicismo, re-aproximado da Teologia da Libertação pelas idéias e práticas de Jorge Bergoglio (o Papa Francisco). Este era celebrado no cartaz de uma manifestação por sua frase de utopista: “Nenhuma família sem casa, nenhum camponês sem terra, nenhum trabalhador sem direitos.”

Em escudos, faixas e camisetas também prestava-se solidariedade a Rafael Braga. Quando a senhora pergunta “quem?”, a moça explica: “É o cara que foi preso numa manifestação por porte de Pinho Sol…”. De cima do carro de som, estudantes gritarão: “Eu falo por Amarildo, falo por Rafael Braga!”

Os estandartes vermelhos arrastados pela avenida eram também de várias faces: do MTST – Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto ao SINTEGO, o escalarte era uma das cores mais vistas no dia da Greve Geral, também pela profusão de camisetas da CUT Brasil.

Infelizmente, outro vermelho marcaria este dia: o sangue derramado pela truculência brutal da Polícial Militar. O estudante da UFG, Mateus Ferreira, que curta Ciências Sociais / Políticas Públicas”, sofreu uma violenta agressão por parte de um capitão da PM; a história deste crânio esmagado e da banalidade do mal está neste outro texto:

O sangue derramado sobre o asfalto pode até ter sido lavado, junto com o resto dos refugos da Greve Geral, mas ele não será esquecido tão cedo.

Ao escarlate do sangue misturavam-se as lágrimas indignadas que eu via correrem de muitas faces enquanto Mateus era atendido pelo Corpo de Bombeiros, estirado na Avenida Goiás, enquanto a galera gritava a plenos pulmões para a PM: “Polícia, fascista, você que é terrorista!”.

Passei as últimas horas obcecado com o pensamento de que aquele crânio esmagado poderia ter sido o meu. Ou o de algum amigo querido. Ou o de alguma companheira de midiativismo. A brutal agressão policial, furiosa irrupção de um autoritarismo brucutu, explicitação da completa incapacidade de reflexão e auto-controle por parte do criminoso fardado, poderia ter atingido qualquer um de nós.

Este texto poderia nunca ter sido escrito pois seu autor poderia estar agora numa UTI, com o crânio esmagado, pelo fato de estar nas ruas com uma câmera… O sangue entre as sobrancelhas da Júlia Aguiar, agredida por um policial enquanto tirava fotografias, não me deixa mentir.

Ao meio-dia deste 28 de Abril, enquanto o helicóptero da polícia sobrevoava baixo sobre nossas cabeças, ostentando o barulho de suas hélices e a metralhadora de seus soldados, eu filmava aquilo com as mãos tremendo: Mateus, desmaiado, a cabeça ensanguentada, carregado pelos companheiros desde a Anhanguera, através da Avenida Goiás, enquanto a Tropa de Choque e a Cavalaria já realizavam suas manobras para “dispersar” a multidão, usando aqueles métodos aprendidos com aquela Ditadura que alguns conjugam no passado, como se fosse matéria de livros de História, mas que ainda estamos longe de ter superado. A PM não só esmagou o crânio de um estudante de Ciências Sociais/Políticas Públicas; deixou-o ali para sangrar em praça pública.

Tudo isso aconteceu sob o olhar impiedoso da estátua do Anhanguera, genocida de pedra que decora o epicentro de Goiânia como um lembrete das autoridades ao povo: aqui tratamos como heróis e batizamos com nomes de avenidas aqueles que, no passado, marcaram época pelo sangue que derramaram em seus propósitos colonizadores. Se aquela estátua pudesse aplaudir, os PMs teriam tido as únicas palmas do dia. Agora, na cibercultura de nosso mundo cada vez mais insanizado e mais próximo de Black Mirror, fãs de Bolsonaro e fascistas de Facebook fornecem os aplausos ao horror…

Quem tenta justificar uma agressão homicida, que deixou o estudante da UFG com traumatismo craniano e respirando por aparelhos, já pôs-de do lado dos carrascos, já filiou-se como cúmplice do fascismo, já é funcionário inconsciente da banalidade do mal. “Se ele tivesse ficado em casa, isso não teria acontecido”; “Ele provavelmente quebrou umas vidraças de banco, caso contrário não teria apanhado da polícia”; “Ele teve sua cabeça destroçada por um cassetete da PM, é verdade; mas quem mandou cobrir o rosto com uma máscara?” Nem é preciso ter estudado a “Psicologia de Massas do Fascismo” de Wilhelm Reich pra perceber nestes argumentos a manifestação do fascismo cotidianizado, que enxerga vidraças como mais sagradas do que vidas humanas, que aplaude a crueldade fardada como se esta fosse panacéia pra pôr ordem em nosso caos… – LEIA MAIS

Sobre o episódio da lamentável brutalidade do policial contra o manifestante, a Faculdade de Ciências Sociais da UFG publicou a seguinte nota de solidariedade:

https://www.facebook.com/blogacasadevidro/posts/1901067016586281

A TV Anhanguera, filiada da Rede Globo, também realizou uma reportagem e entrevista com a mãe e o pai do Mateus:

Estes e outros agitos deste dia histórico no Brasil estão nos 20 e poucos minutos do filme. “Fermento Pra Massa” contou com a colaboração de Renato Costa, nas filmagens, e inclui fotografias de Annie Marques,Júlia Aguiar, Luiz da Luz e Jean Pierre Pierote. A trilha sonora inclui, além de Criolo, “Take The Power Back”, do Rage Against The Machine, “La Bala”, de Anita Tijoux, e “O Dia Em Que A Terra Parou”, de Raul Seixas. Acesse o post e saiba mais em A Casa de Vidro: www.acasadevidro.com.

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O FOGO DE PROMETEU E AS ORIGENS DA CIVILIZAÇÃO CARNÍVORA – Uma análise do ensaio de Percy Shelley (1792-1822), “A Vindication of Natural Diet” (1813)

Joseph Severn, Posthumous Portrait of Shelley Writing Prometheus Unbound (1845)

Retrato do poeta Shelley escrevendo “Prometeu Libertado” (Prometheus Unbound). O quadro é do pintor Joseph Severn, 1845.

Talvez não haja modo mais eficaz de questionar um carnívoro do que colocando a interrogação, tão simples quanto embaraçosa: você seria capaz de matar a tua própria janta? O poeta inglês Shelley, invocando um experimento que Plutarco propunha, sugere a seu leitor que imagine-se em uma situação em que “com os próprios dentes, arranca um membro de um animal, mergulha a cabeça em suas vísceras, satisfaz sua sede com o sangue que jorra aos borbotões…” (SHELLEY: V.N.D., pg. 573) Você acha que seria capaz, após uma vivência dessas, de dizer que a Natureza te fez de modo a encontrar deleite e serenidade no exercício cotidiano de  tal atividade alimentícia?

Calma! O poeta não está convidando-nos a praticar de fato uma tentativa de ir à caça sem outros instrumentos senão aqueles de que a Natureza nos equipou, para depois pôr em exercício a devoração de carne crua. Tais atitudes seriam desviantes em relação às normas civilizacionais em vigor há tantos milênios e que estabelecem um tabu em relação à carne que não foi tocada pelo fogo. Shelley solicita-nos que imaginemos os afetos que tomariam conta de nós diante de uma tarefa como esta: comer um bicho cru, sem que ele antes passe pela cozinha ou pela fábrica. A resposta de Shelley é que há uma reação “instintiva”, visceral, supra-racional que toma conta do ser humano diante da perspectiva de um banquete como este, que tendemos a considerar subhumano pois semelhante àquele que os leões impõem às zebras ou que os abutres praticam sobre as carcaças.

Na Selva que os civilizados pretendem ter deixado para trás, soterrada pelos edifícios suntuosos da Civilização, não há mais permissão dada para esta selvageria da carne crua, mas vigora aquilo que se considera como o zênite civilizacional insuperável: a carne cozida. Mas será que chegamos mesmo no topo? É isso o melhor que podemos fazer e não devemos esperar por nada melhor do que isso?

Factory Farm Editorial by KerriAitken

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Segundo o poeta Shelley (que nisto acompanha Plutarco, Pitágoras, além de milênios de sabedoria indiana…) é irrecusável o fato de que experimentamos, diante da perspectiva de matar a nossa própria janta e depois devorá-la sem preparação culinária alguma, sensações intensas de repugnância, de nojo, de recusa. É como se a própria natureza humana vomitasse diante de uma prática como nos alimentarmos com a carne crua de animais recentemente ceifados por nossas próprias mãos nuas.

Tanto que poderíamos dar o nome de tecnologia àquilo que faz por nós o serviço sujo: para que não sujemos as mãos de sangue, pagamos para que a “tecnologia” e seus operadores corporativos matem por nós o que não queremos matar sozinhos. E tudo  para que possamos devorar a carne de seres vivos recentemente assassinados com argumentos tão sólidos quanto: “Agrada-me muito o sabor desta salsicha!” ou “Que fragrância sublime emana desse churrasco!”

Shelley, em seu ensaio “A Vindication of Natural Diet” (1813), sustenta a tese de que a humanidade é naturalmente frugívora ou vegetariana, e que o carnivorismo ou omnivorismo não passa de uma perversidade inventada pela Civilização. Aqui, é claro, não se trata da Civilização que é celebrada por seus ideólogos e demagogos papagaios, mas sim de uma Civilização enxergada criticamente, posta em questão por um de seus integrantes mais contestatórios e interrogativos, e que foi confrontada História afora pelo levante rebelde de figuras como Jean Jacques Rousseau, Friedrich Nietzsche, Henry David Thoreau, dentre tantos outros, que identificam a decadência de um Civilização a partir do sintoma deste maléfico distanciamento que o humano realiza em relação à Natureza, alienando-se dela e passando a percebê-la como um inimigo a vencer, como um escravo a submeter e controlar. A dieta carnívora, em Shelley, aparece como um dos sintomas de uma civilização que instaura um divórcio pernicioso, que cinde-nos e divide-nos, apartando-se da Natureza e embrenhando-nos nas teias do artifício, com atrozes consequências.

Em Shelley – como ocorre em boa parte da poesia dita Romântica do séc. 19 – a Civilização é sistematicamente acusada por suas imperfeições inúmeras, suas insensatas húbris e manias, seus desarranjos passionais e destrutivos que se manifestam, por exemplo, no clamor das guerras e na cotidianização dos massacres animais institucionalizados. As instituições civilizadas do presente histórico do poeta aparecem-lhe como que encharcadas de sangue, maculadas por vícios sem fim, como por exemplo o de se serem devotadas ao exercício da força bruta e do domínio tirânico. [#2]

A importância histórica do fogo no caminhar evolutivo da humanidade e suas instituições não pode ser subestimado, e não somente pois o fogo tanto contribuiu para o avanço das artes mortíferas da guerra. O pensamento de Shelley evoca fortemente a importância do fogo como peça-chave para a modificação dos hábitos de alimentação humanos – o Fogo representa o momento da Queda, em que mordemos o fruto do pecado e despencamos rumo a uma condição de doença, apetites desnaturados, intemperanças pagas com o custo de tormentos e sofrimentos infindos. O fruto do pecado – ousa proclamar o poeta rebelado, em herética intenção de re-escrever os Evangelhos! – não é a maçã… mas sim a carne. Os mestres da pintura flamenga, ao pintarem o cenário mítico do Gênesis bíblico, souberam bem enfatizar a harmonia-com-os-animais que vigia no Éden antes do Pecado Original; ali, no Paraíso primevo de que o casal primordial é expulso, não há carnivorismo e nenhum dos animais sai correndo, temeroso por sua vida, quando depara com Adão e Eva:

“Adam and Eve eating of the tree of evil, and entailing upon their posterity the wrath of God, and the loss of everlasting life, admits of no other explanation than the disease and crime that have flowed from unnatural diet. (…) Comparative anatomy teaches us that man resembles frugivorous animals in everything, and carnivorous in nothing; he has neither claws wherewith to seize his prey, nor distinct and pointed teeth to tear the living fibre. (…) It is only by softening and disguising dead flesh by culinary preparation that it is rendered susceptible of mastication or digestion, and that the sight of its bloody juices and raw horror does not excite intolerable loathing and disgust.”

PERCY SHELLEY, “A Vindication of Natural Diet” (1813), pgs. 571 e 573.

Shelley conhece profundamente toda a carga mítica que envolve com suas auréolas a questão do FOGO  nas mitologias de várias civilizações, que não se cansam de tecer poeticamente o tecido simbólico social através de narrativas como as de Prometeu (na cultura grega) ou Agni (na cultura indiana). Prometeu, o Titã que rouba o fogo do Olimpo, em desobediência desabrida aos ditames de Zeus, é portanto uma encarnação mítica da relevância do fogo na história humana, que Shelley enxerga indissoluvelmente conectada a uma prática social que só se tornou possível após o controle humano das chamas ser conquistado. O fogo é aquilo que possibilita o carnivorismo; não haveriam humanos carnívoros se não fosse pelo turning point realmente revolucionário que foi na História da espécie o ganho de comando sobre o fogo, elemento até então ingovernável e que enfim a Humanidade descobre-se como governante.

Ora, Shelley tem argumentos de sobra para defender sua tese de que não é natural para os humanos comer carne. Shelley defende que o carnivorismo é algo cuja existência histórica está condicionada aos artifícios tecnológicos, a começar pelo fogo, que permitem seu cozimento e, portanto, seu consumo. Não teríamos coragem, e nosso organismo mesmo se revoltaria, caso tentássemos viver baseados em uma dieta de carne crua. Só o fogo é que permite que estes animais frugívoros que somos, tão intensamente aparentados com os orangotangos (primatas célebres por serem 100% vegetarianos), vivamos à base de carne animal. O presente de Prometeu aos humanos – o fogo roubado dos céus – foi aquilo que permitiu-nos impor o domínio tirânico sobre a Natureza e que que permitiu a uma fração da humanidade ir contra a sua própria inaptidão inata para o carnivorismo. Mas uma dieta tão desnaturada não pode ter como efeito senão a tortura de sermos punidos pelo constante ataque do abutre da Doença.

Book Cover

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“The story of Prometheus is one likewise which, although universally admitted to be allegorical, has never been satisfactorily explained. Prometheus stole fire from heaven, and was chained for this crime to Mount Causasus, where a vulture continually devoured his liver, that grew to meet its hunger. Hesiod says that before the time of Prometheus, mankind were exempt from suffering; that they enjoyed a vigorous youth, and that death, when at length it came, approached like sleep, and gently closed their eyes. (…) How plain a language is spoken by all this. Prometheus (who represents the human race) effected some great change in the condition of his nature, and applied fire to culinary purposes; thus inventing an expedient for screening from his disgust the horrors of the shambles. From this moment his vitals were devoured by the vulture of disease.” (SHELLEY, V.N.D., pg 573)

Vê-se que Shelley pretende interpretar o mito de Prometeu de modo bem semelhante à sua decifragem do mito de Adão e Eva: ambos são narrativas sobre uma Queda ocasionada por uma ruptura que a Humanidade estabelece com a dieta natural a que nossos corpos, anatomica e fisiologicamente, convidam-nos a seguir e respeitar. Prometeu, simbolizando a humanidade, adquire o hábito de comer carne – mas exclusivamente a carne cozida – somente após empregar sobre sua caça o fogo que roubou dos céus. O carnivorismo, portanto, longe de ser originário e natural, surge em certo momento da história, aquele em que a Humanidade ganha um domínio sem precedentes sobre a Natureza por ter aprendido a comandar o poder antes acreditado como privilégio dos deuses, aquele poder de combustão continuada que em espanto e incompreensão o ser humano vê, em plena operação mas à distância abissal, nos caldeirões cósmicos das estrelas.

O poeta não se abstêm de falar no tom do profeta ou do moralista: Shelley, como um punk straight-edge que tivesse lido doses cavalares de Ésquilo e Milton, vocifera não só contra a dieta carnívora, que considera uma perversão da natureza humana, mas também contra o alcoolismo: “How many thousands have become murderers and robbers, bigots and domestic tyrants, dissolute and abandoned adventurers, from the use of fermented liquors; who, had they slaked their thirst only at the mountain stream, would have lived but to diffuse the happiness of their own unperverted feelings.” (SHELLEY, V.N.D., p. 576)

Não devemos porém compreender o discurso de Shelley como apologia do ascetismo, da auto-mortificação, do auto-sacrifício; ao contrário, se Shelley faz o elogio da “dieta natural” (isto é, do vegetarianismo) é pois considera que ele é vantajoso tanto do ponto de vista individual (dando-nos saúde e longevidade) quanto do ponto de vista coletivo.

Shelley considera que a dieta natural é perfeitamente compatível com “um sistema de perfeito epicurismo”, baseado nos deleites serenos possibilitados pela temperança, pela frugalidade, por uma conduta norteada pelos valores da amizade e da compaixão por todas as criaturas sencientes.

Um epicurista Shelleyano é vegetariano também pelo prazer que isso dá, tanto por ser saudável ao corpo quanto por agradar à mente sabermos que não somos alguém que deleita-se com o sofrimento de outros seres vivos, ou seja, que estamos livres do ímpeto malsão de gozar com a crueldade e o exercício do domínio tirânico. Se Shelley procura convocar o ardor de novos entusiastas para a sua causa, é a partir da propaganda que faz dos extensos e largos benefícios que decorreriam da re-harmonização do homem com sua dieta natural (frugívora, vegetariana).

A inteligência e a sensibilidade do ser humano, espera o poeta, hão em um dia glorioso de nosso futuro, quando enfim nos tornarmos mais iluminados, dar como frutos a capacidade para a simpatia, a empatia, a gentileza: “it will be a contemplation full of horror and disappointment to his mind, that beings capable of the gentlest and most admirable sympathies, should take delight in the death-pangs and last convulsions of dying animals.” (SHELLEY, V.N.D., p. 581)

Já do ponto de vista da saúde e da felicidade coletivas, é incrível o quão contemporâneo é o argumento de Shelley – veiculado em um texto que, apesar de escrito no começo do século 19, prossegue válido 200 anos depois. Ainda que não tenha conhecido nada que se assemelhe ao nosso atual sistema de pecuária industrial [factory farming], Shelley era agudamente consciente das contradições obscenas de uma sistema de produção de alimentos que condena tantos milhões à subnutrição e à miséria, enquanto dá a alguns privilegiados o poder de deleitar-se com carnes. Os animais, engordados com alimentos vegetais que poderiam perfeitamente ser consumidos diretamente pelos humanos, representam uma maneira depredatória, anti-ecológica e ademais ineficaz de produzir os meios concretos de alimentar a contento o conjunto da humanidade.

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Em sintonia com argumentos avançados tanto por documentários contemporâneos (como Cowspiracy e Meat The Truth) quanto pelos pesquisadores e acadêmicos mais renomados do ramo (como Raj Patel e Peter Singer), Shelley denuncia o sistema carnívoro como poluente, desperdiçador, insustentável, eticamente inaceitável e ecologicamente abominável: “The quantity of nutritious vegetable matter consumed in fattening the carcase of an ox would afford ten times the sustenance, undepraving indeed, and incapable of generating disease, if gathered immediately from the bosom of the earth. The most fertile districts of the habitable globe are now actually cultivated by men for animals, at a delay and waste of aliment absolutely incapable of calculation. It is only the wealthy that can, to any great degree, even now, indulge the unnatural craving for dead flesh, and they pay for the greater license of the privilege by subjection to supernumerary diseases.” (SHELLEY, V.N.D., p. 581)

É um argumento que George Monbiot, um dos jornalistas mais bem informados em atividade em nossos tempos, retoma em texto artigo recente: “Manter animais insalubres em currais lotados requer montes de antibióticos. (…) Esse sistema é também devastador para a terra e o mar. Animais de fazendas industriais consomem um terço da produção global de cereais, 90% do farelo de soja e 30% dos peixes capturados. Se os grãos que hoje alimentam animais fossem destinados, em vez disso, às pessoas, mais 1,3 bilhão de indivíduos poderiam ser alimentados. Carne para os ricos significa fome para os pobres.”

Em seu tempo, Shelley pôs todo o ardor de seu verbo incendiado e rebelde para conclamar todos aqueles que amam a felicidade e a justiça a darem uma chance ao vegetarianismo; o poeta argumenta que re-converter-nos à dieta natural servirá para que colhamos imensos benefícios individuais e coletivos. Em um dos livros mais completos e minuciosos sobre a história do vegetarianismo, The Bloodless Revolution do historiador inglês Tristam Stuart, o autor resume assim as posições de Shelley – que viriam a causar um grande impacto e repercussão na posteridade por terem sido posteriormente abraçadas por Mahatma Gandhi, indiano enraizado em uma cultura que há milênios pratica a dieta natural que o poeta, dissonante em relação ao Império Britânico de sua época, defende tão apaixonadamente:

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“For Shelley, meat-eating was the Pandora’s box that introduced savagery into the world, and vegetarianism was the key with which it could be locked away again. Eating animals was the equivalent of the Fall; it turned man into the tyrant of the world and introduced inequality into both natural ecologies and human society. By ceasing to eat animals, man would return to his natural place as ‘as equal amidst equals’. (…) Shelley’s thoughts were indeed driven across the world like leaves, when Mahatma Gandhi re-exported them to India and scattered them as inspirational ashes and sparks in the largest non-violent movement of radical liberation the world has ever seen.” (STUART, B.R., p. 386)

NOTAS

1) Plutarco, em seu ensaio On The Eating of Flesh,  do primeiro século depois de Cristo, escreve: “Man has no hooked beak or sharp nails or jagged teeth, no strong stomach or warmth of vital fluids able to digest and assimilate a heavy diet of flesh.” (apud STUART, p. 142) Pierre Gassendi (1592-1655) irá trabalhar, expandir e aprimorar o argumento de Plutarco, dizendo que comer carne crua é algo naturalmente repelente aos humanos: “Nature intended men to follow, in the selection of their food, not the carnivores, but the herbivores which graze on the simple gifts of the Earth.” (apud STUART, p. 142)

2) A fúria do poeta dirige-se, por exemplo, aos “hábitos militares”, “introduzidos pelos tiranos e com os quais a liberdade é incompatível”, que são inculcados em pessoas até que elas percam parte essencial de sua humanidade e tornem-se soldados. Um soldado, para Shelley, é sempre um escravo, a quem foi ensinada a obediência estrita às ordens de um superior hierárquico, de modo que sua vontade não é mais guiada por seu próprio julgamento: “He is taught obedience; his will is no longer – which is the most sacred prerogative of man – guided by his own judgement. He is taught to despise human life and human suffering; this is the universal distinction of slaves. He is more degraded than a murderer; he is like the bloody knife which has stabbed and feels not; a murderer we may abhor and despise, a soldier is by profession beyond abhorrence and below contempt.” (SHELLEY: On The Sentiment of the Necessity of Change, p. 623)

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

SHELLEY, P. The Selected Poetry and Prose. Wordsworth Poetry Library.

MONBIOT, G. Alimentar-se, Ato Desumano?Outras Palavras.

STUART, T.The Bloodless Revolution. Norton & Company, New York / London, 2006. Amazon.

Percy Shelley's portrait by Alfred Clint

Percy Shelley’s portrait by Alfred Clint

No longer now the winged habitants,
That in the woods their sweet lives sing away,
Flee from the form of man; but gather round,
And prune their sunny feather on the hands
Which little children stretch in friendly sport
Towards these dreadless partners of their play.
All things are void of terror: Man has lost
His terrible prerogative, and stands
An equal amidst equals.

PERCY SHELLEY
Queen Mab  (1813)

JOSÉ MARTÍ (1853-1895): Vislumbres da vida e obra desta estrela-guia libertária na luta latinoamericana contra os jugos opressores

josemart1-000JOSÉ MARTÍ (1853-1895)

“Há homens e mulheres que, ao viverem intensamente o seu tempo, transcendem-no e se tornam referência em outros tempos e em outros lugares”, escreve o prof. Danilo R. Streck (Unisinos), “e José Martí é um destes homens.” (STRECK, 2007, p. 13-14)

Tendo vivido por somente 42 anos, transcorridos na segunda metade do século XIX, Martí realizou ditos e feitos impressionantes como pensador, jornalista, poeta e militante político, a ponto de ter sido convertido não só em estátuas e monumentos, mas em um autêntico mito no século seguinte.

Esta travessia de Martí, da carne ao mito, deu-se sobretudo, mas não somente, através do Movimento 26 de Julho, fundado por Fidel Castro, Ernesto ‘Che’ Guevara, Camilo Cienfuegos, dentre outros exilados políticos que, no México, em 1955, começaram a tecer a mobilização revolucionária que viria a triunfar contra a ditadura de Fulgencio Batista em 1959.

Vidas como a de Martí transcendem sua época justamente pela devoção existencial intensa e indomável que as move no sentido da transformação da época de que são contemporâneos. Como pontua Streck,  “o preço disso é que a sua pessoa e as suas idéias se fundem em mitos que, como tais, são suscetíveis tanto da idolatria quanto da execração.” (op cit, p. 13)

Pessoa de carne-e-osso, tombada no túmulo precocemente por seu envolvimento nas lutas anticoloniais e independentistas, José Martí transcende sua morte em campo-de-batalha para transformar-se em mito vivo da História Latinoamericana. Esta, aliás, que o Brasil reluta em conhecer e abraçar, incapaz de reconhecer os outros povos do continentes como legítimos hermanos – tanto que a maior parte da população  brasileira segue desconhecendo até mesmo as figuras históricas que mais impacto prosseguem tendo sobre a vida do subcontinente (como Bolívar, San Martin, Hidalgo e o próprio Martí, ainda sub-representados e mal estudados em nossas escolas).

el-ojo-del-canariojose-marti-ojo-del-canario-fernando-perezNascido em Cuba, no dia 28 de Janeiro de 1953, José Julian Martí Pérez teve uma excelente crônica cinematográfica filmada sobre seus anos de formação: trata-se do filme El Ojo Del Canario (O Olho do Canário), de 2009, realizado pelo cineasta Fernando Pérez. A obra é uma espécie de Bildungsroman (romance de formação) que revela Martí em sua infância e adolescência, focando no período entre os 9 e os 16 anos.

Tanto seu pai, Mariano Martí, quanto sua mãe, Leonor Pérez Cabrera, eram espanhóis emigrados para Cuba, ainda sob domínio da Espanha. José Martí nasce cubano, mas numa Cuba ainda serva da Espanha e onde a abolição da escravidão ainda não havia sido conquistada.

Desde cedo o pequeno Martí, apelidado de “Pepe”, demonstra ser o melhor aluno da escola, o que não o impede de tomar altos safanões, bofetadas e palmatórias de figuras autoritárias e mandonas. Exemplos disso são seu professor de matemática, fã de torturar aluno flagrado “colando” na prova, e seu pai, que não tardará em repreendê-lo com dureza quando souber que o adolescente Pepe está escrevendo peças de teatro defendendo “Cuba Libre!”

O filme desvela, sem idealizações mas com convincente capacidade de reconstrução histórica, as relações do niño Martí com as agruras de seu tempo e o sofrimento de seu povo, destacando a importância que teve em sua vida ter sido aprendiz de seu mestre Rafael Mendive (1821-1866) e suas vivências durante a insurreição chefiada por Carlos Manuel de Céspedes (1819 – 1874).

Desde muito cedo, Martí enxerga na imprensa uma arma essencial no debate de idéias e no confronto de ideologias, fundando o periódico Patria Libre – uma iniciativa brutalmente defenestrada por seu pai, que abomina ter um filho dissidente e militante independentista.

As cenas mais impressionantes de O Olho do Canário ocorrem quando o adolescente Martí é envolvido pelo turbilhão da guerra civil em Havana: milícias de soldados fiéis à Coroa Espanhola tocam o terror pelas calles cubanas, fuzilando e prendendo os ativistas que atuam em prol da independência de Cuba. A tensão dramática atinge o auge em uma cena em que Martí e sua mãe são abordados na rua pelos milicos e ele, sob a mira feroz do fuzil, ameaçado de morte súbita, é obrigado a gritar “Viva a Espanha!” ou perder a vida ali mesmo. A mãe, desesperada, berra ao filho que obedeça, cada vez mais transtornada diante da iminência da tragédia, mas o jovem é de um obstinado mutismo.

A cena é um emblema do caráter de Martí, mas também inspiração para fecundas reflexões sobre Resistência e Desobediência Civil. Salvos por um triz de morrerem nas mãos dos milicos sanguinários, em especial pela intervenção de um velho professor de Martí, mãe e filho saem indelevelmente marcados por esta vivência de clash entre os insurretos e os que defendem com força bruta a manutenção do status quo hispano-imperialista.

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“Mírame, madre, y por tu amor no llores, si esclavo de mi edad y mis doctrinas, tu mártir corazón llene de espinas, piensa que nacen entre espinas flores.” – José Martí, 28 de agosto de 1870. Escultura acima: monumento em Tenerife.

Mãe e filho chegam em casa para encontrar um pai que parece menos um homem que um touro enfurecido diante de um pano vermelho. O pai espanca Martí na cara, impondo seu jugo autoritário, e tenta forçar-lhe a “tirar da cabeça essa porcariada patriótica” e abandonar completamente suas atividades políticas. Mas é tarde demais para um pai tentar conter o ímpeto rebelde de sua cria. Em José Martí já arde a estrela revolucionária que nenhum jugo, por mais duro, é capaz de silenciar e invisibilizar. A estrela que haverá de queimar pelos séculos afora na própria bandeira cubana.

O filme termina com o jovem Martí, aos 16 anos, sendo preso como dissidente, dormindo no piso frio, detrás de grades, pelo crime de lutar pela libertação cubana através de suas idéias, artigos, cartas, poemas, discursos. Mas nenhuma gaiola é capaz de calar por completo o canto do canário, de plumagem amarela mas olhos negros, que seguirá cantando mesmo nas situações mais adversas.

Levado ao tribunal, é condenado a 6 anos de presídio, com trabalho forçado. Vivencia na pele aquilo que havia antes testemunhado junto à população afrodescendente de Cuba: o jugo terrível do trabalho escravo, excessivo e brutal, sem dignidade e indignante, quebrando e carregando pedras com os pés acorrentados. Uma situação que evoca a lembrança daqueles versos da canção “I Fought The Law”, de Bob Fuller, regravada pelo The Clash e pelo Green Day: “breaking rocks in the hot sun: i fought the law but the law won!”

Em sua introdução ao livro Educação Em Nossa América – Textos Selecionados de José Martí (Ed. Unijuí, 2007), Danilo Streck relembra estes episódios biográficos, narrados em O Olho do Canário, e fornece breves informações sobre o que se seguiu:

“Aos 15 anos, em 1868, Martí se engajou no movimento separatista, que incluía no seu projeto a libertação dos escravos. O movimento foi derrotado e Martí condenado a 6 anos de prisão. Passou os primeiros anos realizando 12 horas diárias de trabalho forçado e conheceu em primeira mão um dos lados mais cruéis do já decadente poder colonial. Dado o seu precário estado de saúde, em 1871 a pena de prisão foi comutada para exílio, passando ele a viver na Espanha. No exílio, Martí continuou seus estudos e obteve o título de licenciado em Filosofia e Letras pela Universidade Central de Madrid. Nesse período amadureceu o seu pensamento político e publicou os primeiros textos: El Presídio Político en Cuba La República Espanhola ante La Revolución Cubana.

Saiu de Madrid em 1874 e peregrinou por vários países, entre eles México e Guatemala, retornando a Cuba em 1878. Desde a chegada estava novamente envolvido em atividades clandestinas pela independência de Cuba, o que lhe custou nova deportação um ano depois. Com rápida passagem por Madrid, seu destino desta vez foi Nova York. Ali teve contato com chefes revolucionários e foi ali que produziu a maior parte de sua obra jornalística e literária. Em Nova York também acompanhou o nascimento das políticas imperialistas dos Estados Unidos, que denunciou com a mesma veemência com que combateu a dominação da Espanha.

Martí percebeu que a verdadeira libertação de Cuba não poderia acontecer sem a união do povo, de todos os setores da sociedade. O Partido Revolucionário Cubano, fundado em 1892, assumiu esta bandeira e Martí foi a sua alma por seus ideais de unidade. O partido teve papel decisivo na luta pela independência, que estourou em 1895. Martí saiu de Nova York para se juntar às tropas comandadas pelo general Máximo Gómez. Em 19 de março daquele ano morreu em combate contra o exército espanhol, em Dos Rios, sem ter concretizado o grande sonho de sua vida.” (STRECK, op cit, p. 16-17)

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El ojo del canario – Um filme de Fernando Pérez (2010)
Leia também: LibertadoresLa Jiribilla


No livro “Versos Libres”, Martí oferta-nos o impressionante e inesquecível poema:

YUGO Y ESTRELLA

Cuando nací, sin sol, mi madre dijo:
– Flor de mi seno, Homagno generoso,
de mí y de la creación suma y reflejo,
pez que en ave y corcel y hombre se torna,
mira estas dos, que con dolor te brindo,
insignias de la vida: ve y escoge.

Éste, es un yugo: quien lo acepta, goza.
Hace de manso buey, y como presta
servicio a los señores, duerme en paja
caliente, y tiene rica y ancha avena.

Ésta, oh misterio que de mí naciste
cual la cumbre nació de la montaña,
esta, que alumbra y mata, es una estrella.
Como que riega luz, los pecadores
huyen de quien la lleva, y en la vida,
cual un monstruo de crímenes cargado,
todo el que lleva luz se queda solo.

Pero el hombre que al buey sin pena imita,
buey torna a ser y en apagado bruto
la escala universal de nuevo empieza.
El que la estrella sin temor se ciñe,
como que crea ¡crece!
¡Cuando al mundo
de su copa el licor vació ya el vivo:
cuando, para manjar de la sangrienta
fiesta humana, sacó contento y grave
su propio corazón; cuando a los vientos
de Norte y Sur virtió su voz sagrada,
la estrella como un manto, en luz lo envuelve,
se enciende como a fiesta, el aire claro,
y el vivo que a vivir no tuvo miedo,
se oye que un paso más sube en la sombra!

– Dame el yugo, oh mi madre, de manera
que puesto en él, de pie, luzca en mi frente
mejor la estrella que ilumina y mata.

MARTÍ

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

STRECK, Danilo. Educação Em Nossa América – Textos Selecionados de José Mart.  Ijuí (RS): Editora da Unijui, 2007.

MARTÍ. Vibra el aire y retumba (Poesia). Buenos Aires: Editorial Losada, 1997.

Eduardo Carli de Moraes – Janeiro de 2017

FIDEL CASTRO (1926 – 2016) – In Memoriam

HASTA SIEMPRE, FIDEL?
por Eduardo Carli de Moraes | Novembro de 2016

“E seus inimigos não dizem que apesar de todos os pesares, das agressões de fora e das arbitrariedades de dentro, essa ilha sofrida mas obstinadamente alegre gerou a sociedade latino-americana menos injusta.” – EDUARDO GALEANO
(Tradução de Eric Nepomuceno em Outras Palavras) – LEIA TUDO EM http://wp.me/p15fon-1UQy

Fidel se foi, sua fama e seus feitos ficam. Figura controversa, é claro: entre os pólos extremos da idolatria mais derretida e do rechaço mais furioso, perfilam-se as reações à morte de Fidel Castro após seus 90 anos na Terra.

De 1926 a 2016, realizou seu percurso de vida de modo tão fulgurante, tão marcante, que não há dúvida de que não será esquecido tão cedo. Esta segunda morte, o esquecimento, que a todos nós há de recobrir (em 5 milhões de anos, quem se lembrará de Napoleão ou Júlio César, de Jesus Cristo ou de Buda, de Cleópatra ou Marilyn Monroe?), demora mais a vir para estas figuras que adquiriram “estatura histórica”.

Fidel Castro, se não será esquecido, deve o mérito de seu destino memorável em especial às palavras e ações que dedicou aos olvidados da Terra, aos desvalidos, aos deserdados, às vítimas da exploração e da espoliação injustas – aqueles que Frantz Fanon chamou de Les Damnés de la Terre.

Se a chama de sua memória há de ser preservada viva por algum tempo, furtando-o de sumir por completo após os vermes terem devorado os últimos tecos de seu cadáver, será por ação de re-memora-ação admirativa e fiel daqueles cuja sina de opressão e miséria Fidel Castro lutou a vida inteira por revolucionar, alçando-os à dignidade humana de camaradas, irmãos de destino em uma sociedade mais fraternal.

A História o absolverá? Quem terá a temeridade presunçosa de dar resposta a uma questão destas? Quem são os juízes que tem o direito de sentar no tribunal da História e te julgar, comandante?

É curioso, quase engraçado, nestes dias que sucederam à morte de Fidel, notar o quanto a cyber-praça-pública foi tomada por pontífices da História e juízes da vida alheia, proclamando vereditos de Facebook sobre o tirano sanguinário ou sobre o herói revolucionário Fidel Castro. A demonização e a angelização são ambas encontráveis às mancheias, e é de se suspeitar que nenhuma nem outra faça justiça à vida de Castro que, como todo mundo, era humano, demasiado humano. 

De todo modo, mesmo aqueles que tacam pedras sobre a reputação de Castro não podem ignorar ou permanecer neutros diante de uma espécie de fato empírico de estranho tipo: o mundo sente que perdeu um ser humano que vai morar nos livros de História, que será incorporado àquela vasta galeria de personagens, através dos séculos, que realizou algo de inesquecível e inescapável em matéria de ação e reflexão no âmbito da política. Esta vida que se foi é incapaz de deixar o mundo indiferente à sua partida – eis o que ensina a tua morte, Fidel.

O que será feito de ti não está mais em teu controle. Nem no túmulo escaparás da polêmica, da qual nunca fugistes, aliás. Tua reputação póstuma também é um campo de batalha. E diante disso, por mais insignificante que eu seja, por mais pífio que seja meu poder, perfilo-me nas barricadas a teu lado, compañero. 

Pois a Revolução Cubana é, em política, uma inescapável estrela-guia para todos que lutam por sociedades menos injustas. Foi a prova viva de que era possível nos trópicos inventar uma civilização socialista bem naquele espaço que o arrogante Império havia se acostumado a pensar como seu chiqueiro, seu quintal, sua colônia de férias, seu cassino, seu vasto campo de exploração colonial.

Primeiro a Espanha, depois os Estados Unidos, as metrópoles fincaram suas garras ensanguentadas nesta ilha por tanto tempo infeliz, chorando as amargas lágrimas, no corpo de seu povo, pela escravidão, pela opressão, pela espoliação e injustiça sofridas (mas nunca consentidas). A ousadia dos guerrilheiros de Sierra Maestra, o triunfo da revolução, a caminhada difícil até a construção do socialismo, a resiliência e a coerência de um regime que se manteve fiel a seus princípios igualitaristas de justiça social, inspira milhares de ativistas até hoje, e talvez a morte de Fidel não vá causar o arrefecimento mas sim uma nova efervescência das idéias e práticas do “castrismo”.

Conheço o discurso do fora todos!, do não quero ter nenhum herói, mas às vezes isto soa-me, em política, como uma espécie de individualismo niilista, de indivíduo isolado que pensa poder prescindir de pessoas como inspiração e que, com seu ethos, no percurso de sua existência, fornecem motivações afetivas sem as quais a ação permaneceria apática, ineficaz.

Conheço – e adoro – aquelas canções punk anarco-autonomistas que, como diz o Stiff Little Fingers lá da Irlanda, exige: “no more heroes!”. Porém, não será quimérico querer uma política totalmente sem heroísmo, privada de heróis e vilões, sem lideranças nem liderados, na quimérica e perfeita horizontalidade homogênea?

Não estou defendendo o maniqueísmo, como visão-de-mundo, já que sua estreiteza e sua estupidez são explícitas: dividir a Humanidade entre dois grandes clubes, o das pessoas-de-bem e a dos endemoniados, a dos angelicais e a dos bestiais, as dos heróis aureolados e dos satanizados adversários, é algo tosco demais para precisar de demoradas refutações. Meu questionamento é outro: a mobilização coletiva poderá de fato algum dia prescindir da capacidade de mobilização que só é fornecida por “ideologias do heroísmo” e por líderes carismáticos com força mobilizadora?

É inegável, até como fenômeno sociológico empiricamente comprovável, passível de virar estatística e tudo, que há milhares de sujeitos que tem fome de heróis e encontram em Fidel Castro, em Che Guevara, no Subcomandante Marcos etc. figuras dignas de admiração. E mais que isso: quando digo admiração, não me refiro a qualquer tipo de contemplação passiva, em que alguém que ficaria boquiaberto e babando ovo para alguém, mas com a bunda bem sentadinha no sofá do conformismo e da inatividade.

Admiração, no caso, é uma espécie de força mobilizatória que impele o sujeito a realizar uma espécie de mímesis de seu herói adorado. Por mais que nos coloquemos, no debate teórico e intelectual, no lado materialista da barricada, enxergando nos idealistas aqueles que estão na ilusão e no equívoco, é bem difícil ser um materialista lúcido e negar que todo o “mundo simbólico” tem sim muitos efeitos históricos, e que entre estes eventos simbólicos está a idealização-de-outrem, a circulação social de ideias heróicos e as conexas mímesis de um ethos admirado, nunca estando excluída a necessidade de investigar o quanto as ideologias estão por trás daquilo que fomos ensinados a louvar ou a rechaçar. 

Eu provocaria dizendo que tem muito materialista, no âmbito teórico, que é um idealista na prática, pois todas as suas ações militantes são derivadas de uma força motriz “ideal” – que pode ser, por exemplo, a motivação de “brilhar no céu da história com o fulgor de Lênins, Fidéis e Ches”.

Talvez muito materialista, tendo se convertido ao ateísmo, precise de um substituto para os deuses do céu em que não crê, e por isso fabrique ídolos na Terra, ídolos que foram de carne-e-osso e que depois de mortos tornam-se emblema, símbolo, ausentes em corpo mas presentes na figura de um ideal que muitos sujeitos mantêm com a chama viva, alimentando-o com o sangue bombeado por seus próprios corações.

Que há nisso um elemento de idolatria, não tenho dúvida, mas será que seríamos Nietzschianos fiéis ao mestre se concluíssemos, com simplismo crasso, que é preciso condenar igualmente toda e qualquer idolatria, ao invés de perguntar: qual o valor de tal e tal sistemas-de-ídolos? Ele serva à vida ascendente na imanência, ou serve ao sacrifício da vida presente a uma quimera transcendente? Será que também Nietzsche não propôs uma reviravolta de heroísmos com sua transvaloração de todos os valores, uma proposta de que cessássemos com a idolatria do Nazareno em sua cruz e começássemos a nos mirar no exemplo de espíritos mais livres, dos Übbermench prenunciados pelas bacantes dionisíacas?

É porque sinto em mim uma vontade de celebrar com panegíricos a figura de Fidel Castro que me pus, neste texto, a refletir sobre idolatrias, seus perigos mas também suas promessas. Talvez possamos admirar e idolatrar de modo lúcido, sem cegueira, com empatia e camaradagem, mas nunca abdicando da autonomia de um senso crítico que foi ensinado a não se sujeitar a nenhum ídolo acima da verdade.

Sabemos, Fidel, que figuras como ti e Che não foram nem a perfeição encarnada nem os capetas assassinos que os mais tacanhos e estúpidos dentre teus adversários pintam que vocês foram. Nem anjos nem bestas, de todo modo lograram realizar algo que lhes trouxe amplo reconhecimento e celebridade.

Nós, os reles mortais, os olvidados, os que vivem na semi-sombra de um quase-anonimato, aqueles que não serão mencionados por seus nomes próprios em nenhum livro de História ou nenhum documentário, nós que suspeitamos que nosso destino post mortem será o rápido esquecimento, olhamos com inevitável admiração para teus feitos inolvidáveis. Não podemos esquecê-los, nem suportar calados e sem revolta aqueles que desejariam usar, contra vocês, a borracha. Ou o assassínio de reputação.

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"Esta noite milhões de crianças dormirão na rua. Nenhuma delas é cubana." - Ilustra por Vitor Teixeira

“Esta noite milhões de crianças dormirão na rua.
Nenhuma delas é cubana.” – Ilustra por Vitor Teixeira

II. DA GUERRILHA AO SOCIALISMO – A REVOLUÇÃO CUBANA

Gostaria de prestar tributo a Fidel evocando uma obra que muito me ensinou sobre ele e seu papel histórico: Da Guerrilha ao Socialismo – A Revolução Cubana, de Florestan Fernandes (ed. Expressão Popular):”Não importa o que se pense sobre ‘o papel do grande homem na história’, o fato contundente é que, sem Fidel Castro, a revolução cubana não teria ocorrido da forma histórica que a caracterizou. Por mais que esta revolução estivesse historicamente madura e fosse uma necessidade política, sem ele e o movimento castrista a ruptura com a ordem social neocolonial teria sido contida, de um modo ou de outro, no nível de uma composição nacional-burguesa mais ou menos conservadora e pró-imperialista.” (p. 119)

Sem Fidel Castro, a revolução cubana poderia não ter tomado os rumos do socialismo, do poder popular soberano, do anti-imperialismo radical, da defesa intransigente de uma espécie de soberania nacional libertária.

Segundo Che Guevara, Fidel Castro teria sido uma “força telúrica” da América Latina, alguém que nos momentos mais difíceis da Sierra Maestra tinha uma infatigável “grandeza humana e espírito revolucionário”, como fica patente pela seguinte narração de Che: “Uns 15 homens destruídos fisicamente e até moralmente, juntamo-nos e só pudemos ir adiante pela enorme confiança que Fidel Castro teve nesses momentos decisivos, por sua valorosa figura de chefe revolucionário e sua fé inquebrantável no povo” (CHE GUEVARA, “Proyeciones sociales del ejército rebelde”, In: CASTRO, La Revolución Cubana, p. 428, apud FERNANDES, p. 120).

O que Che enfatiza aqui é um fator que fazia parte da personalidade de Castro e que pôde incidir sobre toda a história do povo cubano: sua convicção inquebrantável de estar lutando pela causa do “povo”, em prol de uma revolução legítima e necessária, o que o convertia naquela fortaleza que fortalecia aqueles que sentiam-se tentados a desistir.

Sua estatura histórica é inseparável de sua capacidade de  mobilização popular, aquilo que trocando em miúdos podemos chamar de sua popularidade, mas é certo que Fidel Castro não foi meramente um mestre da retórica, da oratória, apenas um astuto demagogo. Fidel Castro foi um pensador político, um estrategista da práxis, um materialista de viés marxista cujo pensamento é muito digno de discussão e debates nas faculdades de sociologia e filosofia. Falemos um pouco sobre o que Florestan Fernandes considera ser a estratégia castrista:

 “Fidel Castro foi o estrategista da revolução cubana… deve-se à sua imaginação prodigiosa a criação de uma estratégia política que fez do movimento castrista uma vanguarda revolucionária e o converteu, aos poucos mas de maneira muito rápida, no verdadeiro pilar da revolução cubana. Tratava-se de uma estratégia muito simples e, também, muito ousada. (…) Os êxitos e os malogros do ataque ao quartel de Moncada, em 1953, permitiram que Fidel passasse do diagnóstico dos problemas cubanos e de seus remédios políticos para um exame em profundidade das relações entre meios e fins na luta revolucionária. A contra-revolução contava com o poder de repressão da ditadura, com recursos externos facilmente mobilizáveis…. Não havia como sair do impasse a curto prazo, o que determinou a aceitação da guerrilha como o meio principal de luta e a formação de um movimento político paralelo, cuja função inicial consistia em impedir o isolamento político da guerrilha.” (FLORESTAN FERNANDES, p. 121)

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Fiéis à tradição de José Martí, os revolucionários “castristas” acreditam que não se luta contra uma ditadura militarizada e sanguinária, sustentada por Yankees brutais, interessados na perpetuação da espoliação imperial e da dominação do povo nativo por um truculento Estado-títere, através do uso de rosas e carinhos, gentilmente cedidos aos poderosos, com os pedidos delicados de que abdiquem voluntariamente de praticar a opressão.

A guerrilha foi aceita como uma ferramenta em uma luta de libertação que não tinha nenhum tipo de particularismo estreito, uma luta revolucionária em prol da maioria do povo cubano, que deveria conquistar assim sua autêntica independência e soberania. Há um componente de indignação moral nos discursos e ações de Fidel Castro que é também, segundo avaliação de Florestan Fernandes, um dos fatores que fez dele uma tão potente liderança política:

“É fascinante a sagacidade com que Fidel Castro se moveu nesse complexo e movediço tabuleiro, lançando palavras-de-ordem diretas e concretas, muitas delas variavelmente pungentes, e que atendiam às frustrações de todas as classes ou respondiam, de uma ou de outra forma, a necessidades e aspirações sentidas nos diversos estratos dessas mesmas classes – nesse sentido, o centro de gravidade da revolução ficava, inicialmente, na libertação nacional.

Por sua vez, o ataque frontal contra a ordem foi montado em termos de condenação moral, esta sim, extremista e candente, mas também formulada em termos concretos: os excessos dos poderosos e da ditadura, os efeitos da espoliação extrema, os males da corrupção e da submissão aos interesses estrangeiros, os defeitos da concentração agrária, da monocultura, da dependência a um mercado etc. – nesse sentido, a unidade política da revolução procedia inicialmente de seu eixo democrático. (…) Como a Constituição de 1940 continha normais ideais que nunca seriam cumpridas, ela criava um espaço político legítimo e legal para todo o debate. Fidel Castro explorou com sabedoria esse espaço, afirmando-se através dele como o paladino do nacionalismo, da legalidade constitucional, do populismo e da democracia, tocando o coração de todos os cubanos e despertando nos destituídos uma nova esperança.” (FERNANDES, p. 123)

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É pela mobilização da indignação e da esperança da maioria da população da ilha que Fidel torna-se uma espécie de herói nacional, torna-se uma força histórica determinante, sem que com isso caiamos no simplismo de uma História que seja feita “de cima para baixo”, por inspiração ideal de um líder iluminado; na verdade, o inverso é que é mais real, pois a revolução cubana veio de baixo para cima, como a lava de um vulcão e não como uma dádiva dos céus, e se Fidel Castro teve papel-chave neste processo foi justamente por ter se colocado de pés bem firmes no solo concreto onde buscou a concretização de uma “organização revolucionária dos humildes, pelos humildes e para os humildes”, definição que ele propôs para o Movimento 26 de Julho (CASTRO, La Revolución Cubana, p. 110, apud FERNANDES, p. 137).

Longe de cairmos no personalismo populista (“um homem sozinho mudou a história de seu país”), afirmamos aqui que a erupção da rebeldia do povo espoliado e maltratado de Cuba foi o agente revolucionário supremo, mas que seria falsificação histórica passar uma borracha sobre a importância crucial, neste processo, de uma liderança como Fidel Castro, fundamental para a determinação dos rumos anti-imperialistas, autenticamente socialistas, da revolução cubana, que ao invés de tornar-se apenas uma “revolução dentro da ordem”, que desaguasse na sensaboria de um capitalismo modernizado e de uma democracia liberal burguesa, triunfou como “revolução contra a ordem”, com forte protagonismo dos proletários urbanos e camponeses, além da juventude radical e dos setores populares radicalmente anti-imperialistas:

“O antiimperialismo exigia, como algo inevitável, o anticapitalismo: não se poderia dar um salto histórico de um sem o outro e, portanto, impunha-se ir direto à concepção libertária e socialista de liberação nacional. (…) À medida que a desagregação da ordem social neocolonial se completa e as classes trabalhadoras passam da revolução dentro da ordem para a revolução contra a ordem, a socialização política do jovem radical sofre uma transmutação. Ele apanha essa potencialidade ainda no seu estado larval e avança através dela.

Por conseguinte, o jovem radical veio a ser um protagonista exemplar: veio a ser o sismógrafo das sucessivas alterações da situação revolucionária e o porta-voz das classes e estratos de classes especificamente revolucionários da sociedade cubana… O êxito militar dos jovens rebeldes, dos fins de 1957 em diante, deixara o campo político aberto para a eclosão das forças revolucionárias reprimidas nos confins da sociedade cubana. As classes trabalhadoras e os humildes foram deslocados para a condição de uma retaguarda mobilizada e militante… Atinge-se, então, o clímax da socialização política produzida e a consciência revolucionária do jovem rebelde traduz não só as exigências da ‘revolução nacional’ e da ‘luta antiimperialista’, mas a própria consciência da classe trabalhadora, que emerge como a classe revolucionária, e seu poder real, o poder popular.” (FERNANDES, p. 109)

Revolucionários

Cuba, em 1959, conseguiu dar o salto para além de seu sequestro pelo imperialismo: de “satélite” dos Estados Unidos, ilha-monocultora, exportadora de açúcar e de frutas, com condições de trabalho mantidas em níveis próximos à escravidão, como foi durante as ditaduras de Machado e Batista, a ilha salta para o socialismo libertário que de imediato pratica a reforma agrária e várias medidas redistributivas.

Obviamente, a revolução cubana ocorre em um contexto internacional tanto de Guerra Fria, com a polarização entre EUA e URSS, mas também das lutas pela descolonização na África, o que possibilitou que a luta em Cuba pudesse, apesar de visceralmente nacionalista, estar também conectada à janela histórica de “inclusão de Cuba nas correntes históricas da época do socialismo” – “o que estava em jogo, desse ângulo, era o grau de liberdade de Cuba de saltar da descolonização para a autodeterminação propriamente dita. (…) A situação mundial criara espaço histórico para que uma pequena ‘nação problema’ da América Latina ousasse ir tão longe desafiando o colosso e derrotando-o.” (FERNANDES, p. 145-143)

O colosso – no caso, os EUA, o gigante que Cuba tinha a poucas milhas de seu território – não só foi enfrentado com braveza, foi sim derrotado, não só pelo fracasso da contra-revolução financiada por Washington e pelo desastre que foi a tentativa de invasão da Baía dos Porcos, mas também pois a construção do socialismo cubano mostrou que era viável uma via autônoma, independente, soberana, mesmo na vizinhança do colossal império capitalista anglo-saxão.

Florestan diz que “a idéia de que um extenso e profundo  desenvolvimento capitalista prévio é indispensável  ao êxito da revolução socialista  faz parte de arraigados mitos eurocêntricos de nossa época” (p. 148), mas que na verdade é planamente possível passar “direto” do status de colônia monocultora sob o jugo das metrópoles imperiais espoliadoras, para o status de nação que se autodetermina em prol da invenção de um socialismo dos trópicos, antes e independente de qualquer modernização capitalista. O Tio Sam não perdoaria fácil a ousadia da Ilha insurgente.

“Onerando a revolução cubana com o peso da terrível guerra econômica, política e militar que lhe moveu de forma impiedosa e prolongada” (p. 149), os EUA no entanto não teve sucesso em impedir o florescimento da nova sociedade socialista em Cuba. Neste seu livro, publicado em 1979, aos 20 anos da revolução, Florestan Fernandes pondera:

“Já se disse que Cuba não poderia socializar mais que a miséria. Nestes últimos 20 anos Cuba fez mais que isso, o que exige que se retome a crítica desse julgamento cruel. Graças ao socialismo, em apenas 20 anos, Cuba realizou uma reforma agrária que se inscreve na história das grandes realizações que ocorreram na América Latina no século 20; retirou a maioria de sua população, os setores mais pobres dos proletários rurais e urbanos, da situação crônica de condenados da terra, assegurando-lhes meios permanentes de trabalho, um padrão sóbrio mas decente de vida, e a possibilidade de viver como gente; suplantou um dos mais terríveis cercos capitalistas e deixou definitivamente para trás o complexo colonial…” (p. 150)

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Fidel Castro falando à multidão, num longuíssimo discurso na Praça da Revolução, Havana

CONTINUA…

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Com Malcolm X

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8 de Janeiro 1989: uma pomba branca pousa nos ombros de Fidel Castro enquanto ele discursa em comemoração aos 30 anos da Revolução.

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03 de Abril de 1989: com Mikhail Gorbachev, em Havana

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Dezembro de 1995 – Visita à Grande Muralha da China

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03 de Setembro de 2010, Universidade de Havana

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Fidel Castro no lançamento de uma biografia escrita por Katiuska Blanco. 03 de Fevereiro de 2012.

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Só sorrisos com Che Guevara

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Na Sierra Maestra

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Com Che Guevara, que tenta jogar golfe (aparentemente sem muito sucesso e com muito desengonço…)

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Maio de 1963: Fidel Castro e Nikita Khrushchev, visita oficial do líder cubano a Moscou

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5 de Julho de 1968: Fidel Castro mostra uma fotografia em que o General Ovando Candia e outros membros do Exército Boliviano celebram o assassinato de Che Guevara.

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13 de Agosto de 2006 – Presidente da Venezuela, Hugo Chávez, visita Fidel em Havana

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Fidel Castro Com Luiz Inácio Lula da Silva, presidente do Brasil

julho-de-1963

Julho de 1963: Fidel Castro depõe após ser preso pelo ataque ao Quartel Moncada – Santiago de Cuba. A intenção era armar a população e derrubar o governo de Fulgencio Batista. Por ser advogado, pronuncia sua auto defesa diante do tribunal, que passará a ser conhecida como “A História me Absolverá”, frase com a qual conclui sua auto defesa. Após um ano de detenção, sai em liberdade, anistiado em 1955, e exila-se no México. Volta a Cuba desta vez com Ernesto Che Guevara, Camilo Cienfuegos e Raul Castro , num total de 83 homens a bordo do iate Granma e inicia a guerrilha contra o regime desde a Sierra Maestra a 2 de Dezembro de 1956. Inicia-se assim a Revolução Cubana que em 1 de Janeiro de 1959 triunfaria contra Batista.

A ex-presidente Dilma Rousseff visitou Fidel Castro em Havana em 27 de janeiro de 2014. Na ocasião, a imprensa oficial cubana disse que o encontro "foi uma expressão do afeto e da admiração entre Fidel e Dilma".

A ex-presidente Dilma Rousseff visitou Fidel Castro em Havana em 27 de janeiro de 2014. Na ocasião, a imprensa oficial cubana disse que o encontro “foi uma expressão do afeto e da admiração entre Fidel e Dilma”. – BBC

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2 de Setembro de 1998, com Nelson Mandela, no 12th Non-Aligned Movement Summit, Durban

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Em Havana, com o Papa Francisco (o argentino Jorge Bergoglio), em 20 de Setembro de 2015.

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Fidel Castro com Thomas Sankara, presidente de Burkina Faso e conhecido como “Che Guevara” da África

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Com Nelson Mandela

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Com Amilcar Cabral, líder na luta por independência da Guiné Bissau e Cabo Verde

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Com Samora Machel, líder da Guerra da Independência de Moçambique. Se tornou o seu primeiro presidente de 1975 a 1986.

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9781473607064_z
fidel-e-cheCOMPRE NA LIVRARIA A CASA DE VIDRO: “Fidel e Che – uma Amizade Revolucionária, de Simon Reid-Henry”. a história do filho de um camponês, estudioso e rebelde – Fidel Castro – e da sua amizade com o médico Enesto “Che” Guevara. Ainda muito jovens, e ambos no exílio, encontraram-se na Cidade do México, em 1955. Em 1967 Che Guevara foi morto. Ao longo dos seus doze anos de amizade tornaram-se duas das figuras mais incontornáveis do século XX. O livro segue Fidel e Che desde a sua dramática jornada política no México, à guerra nas montanhas cubanas, até ao ponto alto da Guerra Fria. O autor baseia-se em pesquisas de arquivos em Havana, Washington, Moscovo, Miami, Princeton, Boston, Londres, Berlim, e também em entrevistas com alguns dos maiores protagonistas nesta história. Simon Reid-Henry, estudioso da Revolução Cubana,  é professor de geografia na Universidade de Londres. Livro novo, em perfeito estado, 575 pgs. [COMPRE AQUI – Ed. Globo, 2010, novo, 575 pgs, R$47,90]

 

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FILMOGRAFIA RECOMENDADA:

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SOY CUBA, Um filme de Mikhail Kalatozov (1964). BAIXAR TORRENT. COMPARTILHA NO FACEBOOK.


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FIDEL, um doc Saul Landau (1971)


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MEMÓRIAS CUBANAS – Uma série de docs de Gianni Minà


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FIDEL! (2002), de David Attwood

FIDEL! (2002), de David Attwood

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OUTROS VÍDEOS RECOMENDADOS:

Histórico diálogo entre Fidel Castro y Salvador Allende (Completo) – 53 min

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Marcos, aqui estamos! – Da série de docs Memórias Cubanas de Gianni Minà


Fidel no Congresso da UNE – Belo Horizonte – 1999


Roda Viva – TV Cultura – 1990


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5 CANÇÕES





BARRIL DE PÓLVORA – O BRASIL SEGUNDO BOULOS (RESENHA DO LIVRO “DE QUE LADO VOCÊ ESTÁ?”, BOITEMPO, 2015)

“Pátria Amada! O que oferece a teus filhos sofridos: dignidade ou jazigos?”
CRIOLO, “Lion Man” (Do Nó na Orelha)

Ilustração do post: Vitor Teixeira

Esqueça a lorota preconizada pelo hino: “dos filhos deste solo és mãe gentil…” O Brasil real está mais pra megera ou Medéia.

Um país que botou na bandeira “ordem e progresso” e esqueceu-se, como lembram Mautner e Jards, de incluir o amor – que fazia parte da tríade de ideais do positivismo de Augusto Comte que tanto inspirou nosso ideal nacional oficial.

Somos um país líder em péssimas proezas: o maior consumidor global de agrotóxicos (o veneno está na mesa, como alertou Silvio Tendler); uma desigualdade na distribuição de renda que está entre as mais obscenas do globo; altíssimos índices de homicídio, violência contra a mulher, crimes motivados por homofobia, racismo institucionalizado; uma das piores situações de encarceramento-em-massa do mundo, somada à estupidez reiterada  do proibicionismo e da Guerra às Drogas.

Temos também, para além das catástrofes ambientais como aquela que vitimou o ecossistema do Rio Doce em 2016, o maior índice global de assassinatos contra ecoativistas (como Chico Mendes e Dorothy Stang); em muitas das periferias, já vivemos num estado de guerra civil, oficialmente não-declarada, que faz com que nas “quebradas” morra mais gente do que em zonas de guerra como o Iraque e a Síria (como mostram Lutas.doc, Notícias de Uma Guerra Particular, Estopim, dentre outros documentários).

Soma-se a isso uma nojenta mídia corporativa, a besta-fera conhecida pela alcunha de “P.I.G.”, cúmplice de golpes de Estado e praticante cotidiana da desinformação e da alienação das massas midiotizadas. Sempre pronto a pregar as benesses de um fundamentalismo de mercado, de modelo yankee, corporações idiotizantes e arrogantes como a Rede Globo, a Editora Abril e muitos “jornalões” não sabem senão submeter sua linha editorial ao deslavado elogio de um neoliberalismo pró-corporativo e de um elitismo meritocrático – o que beira o autoritarismo fascista em seu trato com os excluídos e marginalizados que o sistema pretende varrer para as favelas, para os presídios e para o IML. Um regime político-econômico que, no neo-clássico Doutrina do Choque, foi brilhantemente criticado pela Naomi Klein.

 O Brasil é um barril de pólvora, bem distante da “Aquarela Brasileira” kitsch-ufanista de um Policarpo Quaresma, satirizado pela pena de Lima Barreto. Neste cenário, Boulos parece-me um dos intérpretes mais lúcidos e bem-informados do país, um pensador que arregaça as mangas e segue à risca a tese de Marx: os filósofos não estão aí só para interpretar o mundo, a tarefa é transformá-lo!

As teses de Boulos podem parecer intragáveis para aqueles que desejam crer numa imagem mais rósea do país – “na prática existe pena de morte no Brasil”, dispara Boulos – mas o trago amargo que é ler seus textos parece-me também salutar medicina contra nossas cegueiras morais, auto-ilusões voluntárias e impotências resignadas. “De Que Lado Você Está?” (Ed. Boitempo) é um livro tonificante, um tanto incendiário, escrito por uma jovem liderança política que emerge no país e que é admirável por sua capacidade de mobilização na práxis e pela amplidão de seu conhecimento concreto da realidade que nos engloba.

 Boulos 1Guilherme Boulos é dirigente do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), militante da Frente de Resistência Urbana e professor de filosofia. Escreve semanalmente no site da Folha de S. Paulo e também “estrela” o programa da webtv brasileira Havana Connection (na companhia de Leonardo Sakamoto, Jean Wyllys e Laura Capriglione) na TV UOL.

Formado em filosofia pela USP, especializou-se em psicanálise, trilhando caminhos um tanto similares ao de seu comparsa de FFLCH, Vladimir Safatle. Recém-saído do forno, pela Editora Boitempo, o contundente livro “De Que Lado Você Está? – Reflexões Sobre a Conjuntura Política e Urbana no Brasil” (2015, capa ao lado) reúne 45 artigos de Boulos publicados na Folha.

Com entusiasmo  recomendo a leitura desta poderosa coletânea de panfletos e artigos-de-intervenção, que re-animam a chama de um jornalismo autenticamente crítico, a serviço da melhoria revolucionária de nossos pavorosos quadros sociais. Algumas frases de Boulos tem o estampido incendiário de coquetéis molotov; mas ele quer destruir os destruidores, abrindo o terreno para construções coletivas mais justas. Segundo o próprio autor, De que lado você está? “é uma obra de intervenção, que propõe saídas à esquerda para os desafios que a explosiva conjuntura brasileira nos oferece”.

Devorei-o, como bom antropófago, nestes últimos dias. E fui obrigado pela força argumentativa do texto, além do substancial embasamento em fatos e estatísticas concretos, a reconhecer os amplos méritos das análises de Boulos. Lendo-o, sinto reverência diante de uma das mentes que me parecem mais importantes dentre as que hoje, no Brasil, pensam a política. Boulos pensa a fundo e sem covardia. E não tem medo de rasgar o tecido do kitsch e revelar um país bem mais horrendo do que vendem-nos as fantasias ufanistas. 

Boulos junta-se ao time que já tem Vladimir Safatle, Maria Rita Kehl, Eduardo Viveiros de Castro, Eliane Brum, dentre outros, no forefront de um “Levante dos Palmares” de parte da intelectualidade brasileira, que está em estado de rebelião aberta, incapaz de aceitar calada as mazelas e desmandos das Paulicéias Desvairadas e das Hellcifes desta vasta Brazilândia ensandecida. Ó pátria mãe gentil, “o que ofereces a teus filhos sofridos”, pergunta-te o rapper Criolo, “dignidade ou jazigos?”


“Lavar os copos / Contar os corpos / E sorrir / A esta morna rebeldia.” Criolo

Sou admirador confesso dos textos-manifesto de Boulos e acho que eles às vezes alçam-se ao poder retórico dos escritos do Subcomandante Marcos ou de Eduardo Galeano (pouca gente no Brasil escreve com tanta combatividade latino-americana quanto Boulos!). Com frequência a voz de Boulos soa-me um tanto Eduardo Galeanesca em seu brado anunciador de uma outra ordem, menos perversa e nefasta que esta hoje vigente. Além disso, Boulos, fiel ao espírito de um certo Vladimir Safatlismo, é da turma daquela Esquerda Que Não Teme Dizer Seu Nome (para citar o título do notável livro-manifesto de Safatle). Revela-se assim como um dos autores de leitura mais crucial pra compreender o Brasil de hoje – que é, para Boulos, um barril de pólvora em forma de país – e sem escassez de fagulhas e estopins.

O livro que a editora Boitempo acaba de lançar revela uma pena firme e uma voz convicta. Boulos é contundente em suas denúncias e diagnósticos – por exemplo, afirma que “existe fascismo em SP”, de certo modo ecoando e fazendo dueto com “Não Existe Amor em SP” de Criolo. Para além do denuncismo, ele também é movido, em sua práxis e em seus textos, por certos anúncios utópicos: pode ser que, na polarização exacerbada do cenário político (que vivenciamos desde o fim de 2014, numa das eleições presidenciais mais acirradas da história brasileira recente), haja de fato o potencial de uma “saída à esquerda”.

Comecemos pelo diagnóstico que faz Boulos sobre SP, às beiras do colapso hídrico, vivendo há duas décadas sob a hegemonia política do Tucanato: em São Paulo, diagnostica, há fascismo sim, e de sobra. “E a elite paulistana não faz nenhuma questão de escondê-lo. Sabemos que não é de hoje. A história da segregação territorial em São Paulo vem dos anos 1940, quando se inicia de forma sistemática a demolição dos cortiços e das residências operárias nas regiões centrais. Pobre precisa vir ao centro para trabalhar e servir, mas morar ali? Não, aí já é vandalismo!” (p. 36)

O fascismo não é novidade, nem no Brasil (que vivenciou tanto na Era Vargas quanto durante a Ditadura Militar de 1964-1985 regimes ditatoriais e de características fascistas) nem em São Paulo, onde, recentemente, sob a batuta de um certo prefeito Gilberto Kassab, hoje promovido a Ministro das Cidades, ocorreu uma verdadeira epidemia de incêndios em favelas… As favelas incendiadas, tanto quanto as famílias expulsas de suas casas no Pinheirinho (em São José dos Campos), aparecem a Boulos como sintomas de uma mesma lógica, nefasta, hoje hegemônica, que “materializa no território a segregação social”:

“Quando um bairro recebe investimentos ou passa a hospedar grandes empreendimentos privados – condomínios de alto padrão, shoppings etc. – sofre um processo intenso de valorização. Expulsa assim os moradores mais pobres, por vezes através de despejos coletivos e, mais frequentemente, pela hipervalorização dos aluguéis. Essa dinâmica econômica sedimentou uma mentalidade higienista na elite e nas camadas médias. Veio junto com uma fobia, um nojo, uma recusa da convivência. Seu ideal seria que os pobres trabalhassem para servi-los, mas ao fim do expediente evaporassem, para retornar apenas no dia seguinte. Pobres podem até existir, desde que longe de seus olhos.

(…) A face mais perversa desse fenômeno foram os incêndios em favelas. O mercado imobiliário é mesmo muito criativo. Quando, por alguma eventualidade, o Judiciário barra o despejo de uma favela localizada em zona de expansão imobiliária, eles fazem a seu modo. Incendiar favelas tornou-se um recurso habitual para afastar pobres dos condomínios de alto padrão. (…) O site Fogo no Barraco reuniu em um mapa todos os incêndios em favelas paulistas de 2005 a 2014 e comparou as regiões incendiadas com o índice de valorização imobiliária. O mapa mostra como a enorme maioria dos incêndios ocorreu em zonas de valorização. Mais inflamável que o clima seco é a especulação. Os dados dizem ainda que metade dos incêndios dos últimos vinte anos ocorreu entre 2008 e 2012, isto é, durante a gestão de Gilberto Kassab (PSD) como prefeito, que foi marcada pela promiscuidade com o mercado imobiliário.” (BOULOS, 2015, Boitempo, p. 37)

Brada-se no Brasil contra a corrupção e aponta-se muito o dedo para Brasília, como se lá se concentrasse a corja, o ninho de serpentes, Sodoma e Gomorra no Cerrado… Mas muita gente esquece-se do gigantesco papel corruptor dos comportamentos do setor privado em nossos tempos neoliberalizados. Guilherme Boulos, em sua análise impiedosa e lúcida da especulação imobiliária, comunica-nos um absurdo: neste país, com mais de 6.000.000 de pessoas sem moradia digna, segundo o IBGE, existem cerca de 6.052.000 imóveis desocupados – 400 mil deles em São Paulo. De um lado, famílias sem casa; de outro lado, casas sem famílias, servindo à especulação imobiliária.

Resistência popular urbana no Pinheirinho com a comunidade prestes a ser invadida pela PM

Resistência popular urbana no Pinheirinho (São José Dos Campos / SP) com a comunidade prestes a ser invadida pela PM

Boulos provoca: “O Judiciário e a polícia postam-se para garantir o direito à especulação, caso este seja perturbado por grupos de sem-teto buscando – que ousadia! – o direito de morar em alguma parte. (…) Tratar problemas sociais como casos de polícia é sinal inequívoco da barbárie. Assim foi no Carandiru, em Eldorado dos Carajás ou no Pinheirinho. É a aposta na violência de Estado para sufocar as contradições da sociedade.” (p. 39)

A postura combativa e os discursos falando-grosso de Boulos podem até conduzir alguns a pensarem nele como caricatura da figura do radical esbravejante, mas a leitura destes artigos publicados na imprensa revela um homem profundamente inteligente e bem-informado, de muita coerência e sensatez, incapaz de ficar calado diante de gritantes desigualdades sociais, e que segue o mantra marxista de que o filósofo não deve somente interpretar o mundo, mas tem por tarefa ajudar a transformá-lo.

Boulos conecta assuntos aparentemente dispersos, alheios uns aos outros, como a especulação imobiliária e a diminuição da maioridade penal, mostrando que tudo faz parte de uma mesma lógica: um Estado autoritário, gerido por uma elite de mente privatista e tendências à barbárie higienista, que impõe pela violência uma “ordem” onde possa gozar de todos os privilégios o deus Lucro. Nem Alá, nem Jeová, nem Buda: no Brasil, barril de pólvora, a elite está de joelhos diante de Pluto…

Os artigos de Boulos dedicam-se a auscultar o coração da vida urbana no Brasil e revelam-nos um dos mais perspicazes intérpretes políticos do país. Explica muito bem todo o contexto do país que foi chaqualhado pelas Jornadas de Junho de 2013 e, depois, pela UFC eleitoral entre PT e PSDB em 2014. O foco da atenção de Boulos cai mais frequentemente sobre São Paulo, já que é esta a megalópole onde Boulos age mais ativamente, seja através do MTST ou de seus textos na Folha de São Paulo, de modo que não faltam murros e alfinetadas lançados pelo audaz articulista contra as autoridades-mor da Paulicéia Desvairada:

“O governador Geraldo Alckmin (PSDB) segue o mantra malufista de que polícia violenta dá voto. E por isso não perde uma oportunidade de pôr o Choque em ação, a Rota na rua. Pode funcionar no curto prazo, numa sociedade dominada pelo medo e pela violência. Mas frequentemente quem aposta na barbárie vê, cedo ou tarde, o feitiço voltar-se contra o feiticeiro. Junho de 2013 deu sinais disso, mas a memória é curta… Na Sampa real e sem poesia, a feia fumaça que sobe apagando as estrelas tem cheiro de pólvora e gás lacrimogêneo.” (BOULOS, p. 40)

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Carlos Latuff, 2012

Como efeito dos grandes eventos esportivos – tanto a “Copa das Tropas” quanto as Olimpíadas de 2016 – vivenciamos nos grandes centros urbanos uma epidemia de especulação imobiliária e gentrificaçãoNa chamada Cidade Maravilhosa, Boulos também faz o diagnóstico de “uma sociedade em que o lucro está acima de todo o resto”: “o Rio de Janeiro tem registrado o maior índice de valorização imobiliária entre todas as cidades incluídas nas estatísticas da Fipe/Zap. Nos últimos 6 anos, a valorização média do metro quadrado atingiu 262%. Os aluguéis também dispararam, subindo 143% no mesmo período.” (pg. 44)

Um dos piores problemas do Brasil, no diagnóstico de Boulos, é justamente o poderio das mega-empresas da construção civil, que acarreta, como subproduto da lógica econômica e política hegemônica, uma tremenda precarização das moradias para milhões de pessoas. Longe tanto do antipetismo feroz que não sabe reconhecer os méritos do período “lulista-dilmista” quanto da subserviência acrítica ao governo do PT, Boulos tece um discurso onde aponta os avanços do país, a partir da eleição do Lula, mas que também aponta muitas insuficiências, como fica clara na análise que faz do Minha Casa Minha Vida:

“Embora seja o maior programa de habitação popular da história do Brasil, o Minha Casa Minha Vida reproduz o modelo da cidade do apartheid. A dinâmica imobiliária sempre empurrou os mais pobres para as periferias. Ao invés de fazer o contraponto, o programa tem reforçado esse movimento excludente. Quem define os terrenos que serão disponibilizados são as construtoras… O resultado é previsível: as construtoras usam seus piores terrenos e proliferam-se condomínios-guetos nos fundões urbanos. (…) Aliás, a especulação imobiliária sabota os próprios efeitos quantitativos do programa. Mesmo com o Minha Casa Minha Vida, o déficit habitacional cresce de forma consistente nas principais metrópoles do país. O ritmo de produção de novos sem-teto – pelo aumento de valor dos aluguéis – é maior do que o de construção de novas casas.” (p. 55)

SÃO PAULO, SP, BRASIL, 11-012-2013, 10h00: Diversos grupos e ocupações do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) realizam protesto na manhã desta quarta-feira (11), em São Paulo. (Foto: Marcelo Camargo/ABr)

SÃO PAULO, SP, BRASIL, 11-12-2013, 10h00: Diversos grupos e ocupações do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) realizam protesto (Foto: Marcelo Camargo/ABr)

Quanto ao tema do corrupção (e dos corruptores), Boulos está bem informado sobre os “escândalos que se sucedem e bodes expiatórios são criados um após o outro para acalmar os ânimos. A mídia denuncia, o público pede cabeças e vez ou outra alguma vai para a guilhotina. Nesse circo contínuo se alimenta a descrença do povo na política institucional. (…) O discurso que tem se fortalecido é o da direita. Não se pode nunca esquecer que a Marcha da Família com Deus, que preparou o golpe militar de 1964, tinha o combate à corrupção como lema.” (p. 71)

A cruzada contra a corrupção pode tornar-se um estandarte fascista, e contra isso Boulos fornece o remédio: a compreensão clara dos porquês da “estrutura carcomida do sistema político brasileiro”. A essência de nossa desgraça coletiva estaria, afirma Boulos, na “apropriação do Estado pelos interesses de uma elite patrimonialista. A captura dos recursos públicos está aí. A burguesia brasileira pede um Estado mínimo e enxuto para o povo, mas desde sempre teve para si um Estado máximo. Privatizar os lucros e socializar o prejuízo, esta é sua diretriz.” (p. 72)

As corporações construtoras viciam todo o sistema político brasileiro:

“Não é à toa que os principais ‘doadores’ de campanha eleitoral são as empreiteiras, que também são o setor mais acionado para obras públicas. Dos 10 maiores financiadores de campanha, 7 estão sendo investigados por corrupção. A Camargo Correa, líder no financiamento eleitoral em 2010, é investigada por desvios de R$ 29 milhões na Refinaria de Abreu e Lima – e na mesma obra, a Galvão Engenharia é investigada pela bagatela de R$70 milhões. A Andrade Gutierrez, vice-líder em 2010, é alvo do TCU por superfaturamento de R$86 milhões na Arena Amazônia… A JBS Friboi, maior frigorífico do mundo, é objeto de inquérito por fraude em precatórios que pode chegar a R$3,5 bilhões.

O conluio entre grandes empresas, partidos e candidatos é o maior câncer da política brasileira. O legítimo pai da corrupção. No Congresso Nacional esse jogo de interesses é escancarado. Dados do Diap mostram que quase 50% dos deputados eleitos em 2010 compõem a chamada bancada empresarial. É por isso que o Brasil precisa urgentemente de uma reforma política. Ficar no sofá ou nas redes sociais reclamando da corrupção pode até ter serventia psicológica para quem o faz, mas não tem qualquer consequência prática. Defender uma reforma política ampla e pautada no fim do financiamento privado das campanhas eleitorais, na revogabilidade dos mandatos e no fortalecimento dos mecanismos de participação popular é apenas dar coerência ao repúdio à corrupção e aos corruptos da política brasileira.

As soluções só podem vir de iniciativas populares. Afinal, não se pode esperar que o Congresso Nacional, verdadeiro balcão de negócios de interesses privados, faça ele próprio uma reforma política que liquide com seus privilégios patrimonialistas.”

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Na sequência, como exemplo de um texto de Boulos de intensa e imensa relevância em nossa atual conjuntura nacional, A Casa de Vidro compartilha o brilhante “Robin Hood Às Avessas”. Boa leitura!

ROBIN HOOD ÀS AVESSAS
Guilherme Boulos na Folha de S.Paulo [04/12/2014]

Corte de gastos, mais uma vez, é o assunto do momento. Apesar de o candidato de sua predileção ter perdido as eleições, a banca conseguiu impor sua pauta. A velha cantilena do arrocho neoliberal volta a ganhar força no governo petista, com Joaquim Mãos-de-Tesoura à frente da equipe econômica. Venceu a chantagem dos “investidores”.

Mas, se o assunto é corte de gastos, por que não debatê-lo sem preconceitos?

O debate dos gastos públicos no Brasil é totalmente enviesado. Nas últimas semanas tem-se feito um circo em torno da meta de superavit primário. Os banqueiros querem ampliá-la e o governo –cabisbaixo como um mau aluno– reconhece que tem de fazer mais e promete maior aperto em 2015. O superavit primário, recurso desviado dos investimentos públicos para pagamento de dívida, é em si uma excrecência. Poucos são os países que o adotam.

Os Estados Unidos, modelo dos liberais que falam de descontrole fiscal por aqui, acumula todos os anos deficits fiscais consideráveis. Não só não reserva dinheiro arrecadado para o pagamento da dívida como também gasta mais do que arrecada. O deficit fiscal dos EUA neste ano foi de mais de U$480 bilhões ou 2,3% do PIB. Será Obama um bolivariano fiscal?

Na zona do Euro o deficit, apesar de decrescente, ficou em 3% do PIB em 2013. Já aqui fazem escândalo por acharem que o superavit não é suficiente. Suficiente pra quem, cara pálida?

Os gastos do Brasil com o serviço da dívida pública –amortização, pagamento de juros e rolagem– são assombrosos. Em 2012, o dinheiro público destinado ao pagamento dos credores da dívida correspondeu a 44% do Orçamento federal. Em 2013, a 40%, expressando nada menos que R$ 718 bilhões. Neste ano, até o final de outubro, já haviam sido sugados pela dívida R$910 bilhões, cerca de 50% dos gastos da União no período. Os dados são da Auditoria Cidadã da Dívida, que também disponibiliza gráficos comparativos impressionantes sobre o assunto.

Essa montanha de dinheiro vai para grandes bancos e “investidores” nacionais e estrangeiros. Uma elite que abocanha diariamente quase R$ 3 bilhões de recursos públicos. É a chamada Bolsa Banqueiro.

Há quem reclame dos gastos com o Bolsa Família. O programa gastou em 2013 R$ 24 bilhões para atender 50 milhões de pessoas. Isto corresponde ao gasto de menos de 10 dias da Bolsa Banqueiro, para beneficiar alguns milhares de ricaços. Ora, não podemos dar o peixe aos bancos, temos de ensiná-los a pescar!

Todos defendem melhorias na saúde e na educação, não é mesmo? A previsão de gastos federais para este ano em educação foi de R$ 115 bilhões. Na saúde foi de R$ 106 bilhões. Já a Bolsa Banqueiro arrancará este ano mais de R$1,02 trilhão de recurso público federal.

Todos se indignam também com a corrupção no Brasil. De fato, a apropriação privada de recursos públicos é inaceitável e devemos combatê-la com unhas e dentes. Agora, este combate não deve limitar-se aos escândalos políticos. Tem que pegar as grandes raposas do atacado. A cada dia, a Bolsa Banqueiro desvia do orçamento público valor correspondente a 20 mensalões. Se um mensalão nos indignou, por que não nos indignam 20 mensalões por dia?

Porque nos vendem diuturnamente a ideia de que estes pagamentos são necessários para atrair investimentos e de que esta dívida é legítima. Afinal, não pagar dívida é coisa de caloteiros!

Em relação aos investimentos, o argumento é um contrassenso em si. Na verdade, o serviço da dívida suga os recursos do país, em vez de invés incrementá-los. Que investimento é esse que arranca R$1 trilhão por ano?

A legitimidade desta dívida é um capítulo à parte. A estudiosa Maria Lucia Fatorelli demonstra com abundância de dados como a dívida pública foi construída na base de fraudes, contratos duvidosos e dos famosos juros flutuantes, que aumentam ao gosto do credor. Formou-se, diz ela, um sistema da dívida que atua como um ciclo vicioso, ampliando o valor devido quanto mais se paga.

Essas malandragens do colarinho branco foram postas a nu nos países que fizeram auditoria em suas dívidas públicas. No Equador, a auditoria de 2007 mostrou que 70% da dívida era ilegítima. Mesmo por aqui, quando Getúlio Vargas auditou os contratos nos anos 30, descobriu-se que 40% da dívida não estava sequer respaldada por contratos!

Vamos, portanto, falar seriamente de corte de gastos. Mas não nas migalhas destinadas aos investimentos sociais ou à previdência pública. Estes precisam ser decididamente ampliados se quisermos caminhar para reduzir as desigualdades gritantes de nosso país. É preciso mexer na verdadeira ferida dos gastos públicos: o insustentável pagamento do serviço da dívida, a Bolsa Banqueiro.

A tesoura do Joaquim não está afiada para isso. Mas sim para reproduzir a hipocrisia de cortar os já medíocres investimentos sociais. É a política do Robin Hood às avessas: tirar mais dos pobres para dar aos ricos. Chamam isso de responsabilidade fiscal.

A ORAÇÃO PUNK DO PUSSY RIOT – Documentário escancara os detalhes do levante anarco-feminista russo-ucraniano

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PUSSY RIOT: A PUNK PRAYER

De Mike Lerner e Maxim Pozdorovkin (2013, 1h 28 min)

ASSISTA O FILME COMPLETO:

“Art is not a mirror to reflect the world, 

but a hammer with which to shape it.”

BERTOLT BRECHT

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Provocativo, excitante, instigante, indignante, hilário… esses são alguns dos adjetivos que acodem à mente para descrever este documentário sobre o Pussy Riot. Veja cenas explícitas e sem-censura das performances do grupo – incluindo “Orgia No Museu” e “Occupy Praça Vermelha”. E saiba mais sobre o contexto do aprisionamento das garotas, que foram condenadas a 2 anos de prisão por terem entrado em uma catedral de Moscow e berrado um punk-rock desafinado contra o “ditador Vladimir Putin”.

As garotas do Pussy Riot transformaram a performance artística, o teatro improvisado e a provocação punk em um espetáculo-freak que sacudiu a Rússia inteira e inflamou o debate sobre liberdade de expressão, fanatismo religioso, perseguição política contra dissidentes. O caso ecoou mundo afora, e até figuras como Yoko Ono e Madonna saíram em defesa do “Levante da Buceta”.

Segundo o diretor Maxim Pozdorovkin, todo o bafafá e polêmica causados pelas riot grrrrls do Pussy Riot equivale ao fuzuê que ocorreu na Inglaterra, circa-1977, com a explosão dos Sex Pistols, cuspindo na cara da Rainha, da EMI e do caralho-a-quatro. As cenas do julgamento do Pussy Riot indicam claramente que o processo criminal contra as garotas tem a ver com outra causa além da liberdade de expressão e o direito do artista de se manifestar sua discórdia com o status quo: o que está em questão também é o Estado Laico, ou melhor, sua ausência na Rússia de Putin, onde o Estado e a Igreja Ortodoxa agem em estreitas e íntimas ligações.

O Pussy Riot só foi em cana por causa da “blasfêmia” que foi entrar numa Catedral e botar a boca no trombone contra o governo Putinesco e suas frequentes violações da laicidade do estado (que era um dos ideais da Revolução bolchevique de outubro de 1917). Enfim… vale a pena embarcar neste filmaço que relata como o punk rock feminista e a arte de protesto sacudiram a Rússia e desnudaram a faceta autoritária e repressiva da era Putinesca (com suas leis homofóbicas e suas gulags na Sibéria para artistas blasfemos…).

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NOW magazine (Toronto):

“Note to authoritarian regimes: don’t think you can mount a show trial if the defendants are more media-savvy than you are. This and about a dozen other ideas – including the value of performance art and the power of Putin – are behind this kick-ass doc about Russian punk art collective Pussy Riot and the trial that ensued after the group put on a guerrilla performance – playing an anti-Putin anthem – in Moscow’s central cathedral. Charismatic arrestees Masha (Maria Alyokhina), Katia (Yekaterina Samutsevich) and especially Nadia (Nadezhda Tolokonnikova) and coverage of the trial and demonstrations both for and against Pussy Riot give this pic electrifying energy. See it.”

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Maxim Pozdorovkin, director of

Maxim Pozdorovkin, director of “A Punk Prayer”

Hail Pussy Riot. But, says doc director, learn some basic history first. By SUSAN G. COLE
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Ah, Pussy Riot! Instinctively, we love them – especially given their home country’s human rights record – but many of our assumptions about the brazen Russian art activists are false.

The case of the female threesome who became a worldwide cause célèbre when they were charged with hooliganism and jailed after their anti-Putin performance in a church is badly misunderstood.

So claims Maxim Pozdorovkin, co-director of Pussy Riot: A Punk Prayer.

For starters, Pussy Riot isn’t a punk band. The arrested women are members – though their standing among their comrades is in question now that they’ve blown up worldwide – of a loose collective of artists, filmmakers and journalists working to create a different iconography for protest.

“They see themselves as contemporary artists determined to bring theatre into life,” says the hyper-articulate director on the phone from New York City. He’s there on the eve of an Amnesty International benefit, where recently released activists Maria Alyokhina and Nadezhda Tolokonnikova are set to appear – introduced by Madonna. He’s hanging out with them and planning to make a short film of the event.

“I always said that the story was misrepresented in Russia and in the West – I’m not sure where it was worse,” Pozdorovkin declares.

In Russia, they’re wrongly accused of being anti-religion, he claims.

“And in the West, it’s assumed that because they were a punk band singing an anti-Putin song, they went to jail. That’s nonsense. If they’d sung the song outside of the church, or anywhere else, no one would have cared.

“They had done so many things before that you’d think would’ve landed them in jail. In the U.S., for example, you couldn’t do the orgy in the National History Museum [explicitly shown in the film] and not go to jail.”

Pozdorovkin, who grew up in Moscow, played in punk bands and has a PhD from Harvard in found-footage filmmaking, is almost apoplectic at the idea that Putin’s regime can be compared to even the lighter anti-gay side of Stalinism. He sees more chaos than control in the new Russia.

“One of the biggest mistakes Westerners make is seeing the oppressive aspects of the arrest and trial as somehow organized and coming from the top down. That’s simply not the case.”

It was the women themselves – not the Russian authorities – who requested in a motion that the trial be filmed. The motion was granted, resulting in some of the doc’s most mesmerizing footage. A Russian news agency did the shooting, and Pozdorovkin, blown away by the quality of the initial rushes, then set the project in motion.

Though he allows that Pussy Riot are incredibly media-savvy, he says they weren’t totally aware of what they were getting into by making their statement inside a church.

“They didn’t mean to offend people. They felt they had the right to do what they did, and that maybe they’d be fined for, say, trespassing, but not be criminally charged. There’s something about the story that’s anachronistic, beautiful, idealistic.”

But the radical troupe is changing the way people look at performance and politics, which was precisely Pussy Riot’s intention. Soviet culture had never before been confronted by punk ideals and conceptual art on a mass level.

“The public awareness that you got with [the Sex Pistols’] God Save The Queen, that never happened in Russia until Pussy Riot.”

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CONTESTÁVEIS CONTESTAÇÕES – Crítica do elitismo fascista e suas massas-de-manobra

Millôr Fernandes, no Livro Vermelho, comenta sobre o “direito inalienável de contestação”, este pilar imprescindível para qualquer democracia, e pondera que “isso não exclui, é claro, antes inclui, como coisa definitiva, o direito de contestar a contestação dos outros.” [1]

Exercendo meu direito cívico legítimo de contestar a contestação alheia, compartilho aqui algumas impressões e reflexões sobre a “micareta macabra” (para citar palavras de Maria Frô) que tomou as ruas do país no Domingo, dia 15 de Março de 2015 (doravante referido como “15-M”). Escancarou-se naquele dia um tal “assanhamento da direita”, como escreveu Guilherme Boulos, que “o que se viu foram níveis recordes da Escala F, criada por Theodor Adorno para medir as tendências fascistas que emergem nas democracias liberais.” [2]

O termômetro do Fascismo subiu a alturas preocupantes. Sobraram cidadãos sorridentes posando para selfies com os “Caveirões” da Tropa de Choque, como se os fardados fossem heróis nacionais, quando é bem sabido que “a letalidade da PM é escandalosa”, para citar a conclusão da Anistia Internacional. Numerosas faixas e cartazes ostentadas por “cidadãos-de-bem” no 15-M pregavam abertamente a intervenção militar (eufemismo para golpe de Estado) para a derrubada violenta da presidenta re-eleita.

Há também muitos relatos de pessoas que foram hostilizadas, insultadas ou quase-linchadas simplesmente por estarem vestindo roupas vermelhas (e que por isso foram de imediato estigmatizadas como comunistas ou bolivaristas, e por isso dignas de esculacho e espancamento). Houve até mesmo um atentado à bomba contra a sede do PT em Jundiaí/SP.

Uma fração da mídia corporativa até tentou celebrar o 15-M como uma “festa da democracia”, mas esta representação rósea foi contestada com contundência no artigo de Vladimir Safatle na Folha:

Safatle

“E eu que achava que festas da democracia normalmente não tinham cartazes pedindo golpe de estado, ou seja, regimes que torturam, assassinam oponentes, censuram e praticam terrorismo de Estado. Houve um tempo em que as pessoas acreditavam que lugar de gente que sai pedindo golpe militar não é na rua recebendo confete da imprensa, mas na cadeia por incitação ao crime.” [3]

O filósofo Renato Janine Ribeiro também manifestou-se em tom semelhante ao de Safatle, defendendo que “pregar a volta dos militares deveria ser crime e levar a pessoa para a cadeia. Vários países da Europa criminalizaram a pregação nazista. Nós – que tivemos uma ditadura militar – deveríamos criminalizar a pregação da ditadura.” [4] O que acho interessante debater, neste caso, são os limites legítimos do incontestável direito de contestação. Em outras palavras: a democracia autêntica é aquela em que impera o vale tudo e todas opiniões e atitudes podem manifestar-se sem freios, ou então ela pode e deve impor limites, por exemplo, à expressão/manifestação de ímpetos anti-democráticos? 

Com certeza há quem defenda que o princípio da liberdade de expressão deve ser respeitado de modo absoluto, devendo valer até mesmo para discursos e atitudes que manifestem xenofobia, racismo, homofobia, misoginia, fascismo etc. Há mesmo quem invoque a autoridade de Voltaire (1694-1778), a quem é atribuída a famosa frase (apócrifa): “Posso até não concordar com o que dizes, mas defenderei até a morte o teu direito de dizê-lo.” Citada assim, avulsa e fora de contexto, a frase (jamais escrita ou proferida por Voltaire) contribui para a fabricação de uma imagem deste filósofo como defensor da tolerância total e absoluta, o que está longe de ser o caso.

Uma análise cuidadosa dos escritos de Voltaire, em especial do Tratado Sobre a Tolerância (já esmiuçado em artigo publicado aqui na Casa de Vidro), demonstra todo o horror que este pensador nutria pela intolerância religiosa e pelos regimes políticos teocráticos, duramente criticados como culpados pela ocorrência de guerras sectárias, de pogroms e massacres (como a Noite de São Bartolomeu), de cruzadas e inquisições. [5]

Devemos de fato ser tolerantes com a intolerância? A democracia deve permitir impunemente a ação daquilo que procura destrui-la e corroê-la? Ou a liberdade de expressão e manifestação, longe de absolutas, devem ter certos limites respeitados? Eis o que vamos explorar nas próximas linhas. Como construir uma ordem social justa, que evite os extremos da censura autoritária, de um lado, e do “vale tudo” demasiado permissivo, de outro? Este último tornaria impunes todos aqueles que, através de seus discursos e manifestações, ofendem os direitos humanos, pisam sobre grupos minoritários e marginalizados, insultam membros de outras etnias ou classes sociais, desrespeitando a liberdade de cada um de nós à sua identidade e ao respeito-pela-alteridade.

Recentemente, por exemplo, Levy Fidelix foi condenado pela justiça a pagar multa de R$1 milhão por suas declarações homofóbicas, proferidas em um debate entre os candidatos à presidência da República, decisão que foi celebrada por Luciana Genro, a candidata do PSOL (Partido Socialismo e Liberdade), nos seguintes termos:

 A mesma Luciana Genro, em sua avaliação das manifestações do 15M, destaca também a responsabilidade da mídia corporativa brasileira na convocação e cobertura tendenciosa do que acontecia nas ruas: “Ao não ter uma ideologia crítica, anticapitalista, o que predominou foi a ideologia da classe dominante, e no guarda chuva desta ideologia as posições de direita e extrema direita também se expressam. (…) É neste caldo que a grande mídia atua, instrumentalizando e direcionando. Em junho de 2013 a Rede Globo foi questionada nas ruas por ser claramente identificada com a manipulação ideológica. E é, de fato, o grande partido da classe dominante brasileira.” [6]

O caso contra a Globo já seria bastante grave se ela limitasse sua pilantragem a práticas de Pinóquio. Mas o buraco é mais embaixo. O 15-M foi um dos maiores exemplos, nos últimos anos, da espantosa capacidade de manipulação que os mass media podem exercer, muitas vezes utilizando-se de seu público espectador como massas de manobra, a fim de servir aos interesses dos barões da mídia tradicional, como as famílias Marinho (das Organizações Globo) e Civita (da Editora Abril), que estão entre as 15 pessoas mais ricas do Brasil (só os 3 herdeiros do R. Marinho concentram hoje uma fortuna de R$ 51 BILHÕES e 640 MILHÕES de reais, segundo dados da revista Forbes).

Desde as Jornadas de Junho de 2013, porém, o poderio dos oligopólios midiáticos está sendo duramente questionado, nas ruas e nas redes, com a emergência poderosa de uma legítima contracultura, intensamente alimentada pelo cyberespaço e suas redes sociais, com a circulação de informação, de modo descentralizado, sobre muitos temas que a grande mídia prefere esconder (por exemplo, o fato de que “abrir empresa em paraíso fiscal faz parte de um velho modus operandi da Globo”.)

Recentemente, a tag #GloboGolpista tornou-se viral no cyber-espaço, chegando ao topo dos trending topics do Twitter, o que acabou chamando a atenção até mesmo da mídia internacional (ex: teleSur). Vários memes circularam, satirizando e criticando o que muitos avaliaram como uma intentona golpista perpetrada de modo descarado pela Globo. Um belo vídeo produzido pelo recém-nascido coletivo Jornalistas Livres fornece-nos um exemplo muito bem-vindo de jornalismo competente, bem-informado, audaz, capaz de conectar o presente à história.

A reportagem expõem alguns dados históricos interessantes sobre o dia 15 de Março: esta era a data de empossamento dos presidentes durante a Ditadura Militar (1964-1985). Costa e Silva, em 1967, assumiu o posto em um 15 de Março; nas próximas sucessões, em 1974 e 1979, a história se repetiu, e o último presidente da Era da Truculência, o Figueiredo, também tornou-se presidente em um 15 de Março.

Seria mera coincidência que, em 2015, esta data fatídica e macabra de nossa história tenha sido escolhida para manifestações públicas que, como apontado por muitos intérpretes (como Vladimir Safatle), tem muitas semelhanças com as “Marchas da Família com Deus pela Liberdade”, iniciadas em março de 1964 e que, após o golpe militar que derrubou o regime de Jango (acusado de estar em vias de aplicar ao Brasil medidas socialistas) passaram a se chamar “Marchas Da Vitória”?

BRASIL

A falácia de que teria ocorrido uma “festa da democracia” no último dia 15 de Março só se torna mais escancarada quando atentamos para o tipo de assessoria de imprensa fornecida pela Globo: muito confete lançado sobre os manifestantes que, em numerosos casos, proferiam insultos chulos e ofensas coléricas contra Lula, Dilma e o Partido dos Trabalhadores, alvos quase únicos desta contestação marcada por indignação altamente seletiva. Vladimir Safatle ficou estarrecido: “Fiquei procurando um cartazete sobre a corrupção no metrô de São Paulo, um ‘Fora, Alckmin!’, grande timoneiro de nosso ‘estresse hídrico’, um ‘Fora, Eduardo Cunha’ ou ‘Fora, Renan’, pessoas da mais alta reputação. Nada.” (op cit, nota [3])

No intento de avançar em uma reflexão mais aprofundada sobre a corrupção, a filosofia me parece imprescindível, já que estamos lidando com uma questão visceralmente ética. Acusamos os políticos de corruptos por sua falta de ética, por seus vícios morais, em especial a má gestão do bem público. Em um artigo instigante chamado A Corrupção Ronda A Liberdade, Abrahão Costa Andrade oferece uma reflexão bem oportuna:

“Vamos entender por corrupção o ato de um indivíduo ou de um grupo particular no sentido de tirar proveito ilícito de algum bem público. Muito cedo, o povo percebeu que a região da política era um pasto farto para cometimentos de corrupção. Contudo, os políticos corruptíveis são mais ágeis do que o povo, e para lá seguem e se fartam o quanto podem, antes de qualquer denúncia formalizada. Mas essa diferença entre o povo, de um lado, e os políticos, de outro, passa por uma concepção de política que favorece a prática da corrupção: a idéia de que a política e seus negócios são ‘coisas só se político’. Porém, se o bem é público, é tanto dele quanto meu, é nosso. Sendo nosso, devo ficar atento, tanto quanto tu e ele, para cuidar e preservar. Essa mentalidade, segundo a qual a coisa pública (a res publica) é de interesse comum, é o que faz de alguém um republicano, uma pessoa interessada em primeiro lugar pelo bem da coletividade. A boa idéia seria que cada cidadão pensasse no bem comum. Mas na prática é bem diferente. Primeiro deturpam o conceito de cidadão (os direito do ‘cidadão’ são os direitos do consumidor), depois trabalham para que cada ser humano permaneça preocupado mais em ganhar seu próprio pão (ou seu próprio sonho de consumo) do que em pensar no bem comum.” [7]

15M

II. O CIDADÃO-DE-BEM PROTESTA NA PAULICÉIA DESVAIRADA

Na Avenida Paulista, havia muita gente que considera-se “cidadão-de-bem”, do mais fino pedigree, além de patriota impecável. No entanto, é preciso questionar esta auto-representação lisonjeira e narcísica de muitos destes que bradavam contra a corrupção alheia, sem parar um minuto para analisar a corrupção própria. Será que muitas destas pessoas não passam de contradições ambulantes? Muitos pensam na corrupção como algo restrito ao âmbito da política, como se somente pudessem ser corruptos os gestores da coisa pública, quando na verdade o setor privado (o mundo empresarial-corporativo, por exemplo) também está repleto de corruptores, corruptíveis e corrupções. Na tentativa de esclarecer isto, vou evocar aqui um personagem, que inicialmente pensei em batizar de Sr. Coxinha, mas que preferi enfim cognominar “Sr. Cidadão-de-Bem”.

No 15 de Março de 2015, o Sr. Cidadão-de-Bem levantou-se pela manhã em seu luxuoso apê em Higienópolis e foi encher o tanque com gasolina no posto Shell. A mídia que o Sr. Cidadão-de-Bem costuma acompanhar – ainda que de modo negligente, desatencioso e por vezes com demasiada credulidade – jamais informou-o que a Shell já foi eleita a pior empresa do mundo, por seus crimes ambientais (assanhada, queria até perfurar o Ártico!) e suas constantes violações dos direitos humanos (a Nigéria que o diga!). Depois de dar sua grana para a Shell From Hell, o Sr. Cidadão-de-Bem rodou por Sampa em seu carro importado e blindado, xingando as malditas ciclovias do Haddad, coisa que lhe é de praxe sempre que pega um engarrafamento, ou seja, todo dia.

Que coisa curiosa! Ele revolta-se contra ciclistas, que em suas bikes dão uma aula de comportamento sustentável e saudável, mas vota convicto no PSDB, tendo ajudado a reeleger Geraldo Alckmin no 1º Turno nas eleições de 2014, ainda que o escândalo de corrupção nos metrôs e trens tenha “lesado os cofres públicos em R$ 425 milhões”, como revelado pela matéria da ISTOÉ (veja também outra reportagem, E Eles Ainda Dizem Que Não Sabiam De Nada).

 O Cidadão-de-Bem, enfurecido, deseja secretamente que a Tropa de Choque mande bomba não somente sobre ativistas do Passe Livre, mas também sobre ciclistas, mas acha ótimo que os mega-criminosos que desviam grana para suas contas em paraísos fiscais na Suíça não somente estejam todos soltos, como tenham cargos como o de… governador do Estado de São Paulo.

Na sequência, após comprar combustíveis fósseis de uma corporação criminosa, o Cidadão-de-Bem sai peidando CO2 pelo planeta, rumo ao próximo pit stop de pessoa que encarna a bondade: ele vai e saca uma grana em sua conta no HSBC (que ele considera um banco santo!), e isso para que possa, durante o protesto, alimentar toda a sua família com lanches do McDonald’s e abundantes garrafas de Coca-Cola. O Cidadão-de-Bem é grande fã de junk food e celebra a genialidade dos yankees por esta enorme contribuição à Humanidade.

Dirigindo-se à manifestação vestindo a camiseta canarinho da CBF (ele jamais aprovou os vândalos que gritaram nas ruas “Não Vai Ter Copa” pois é grande amante da “magia do esporte”, ainda que este às vezes exponha os torcedores às humilhações das goleadas ao estilo 7 a 1). O Cidadão-de-Bem confessa para os seus: está inebriado com a perspectiva de que eles talvez tenham sua imagem difundida na Programação da Rede Globo.

O Cidadão-de-Bem não foi informado sobre a corrupção praticada pela empresa dos Marinho nos últimos 50 e poucos anos; ele tem memória curta e não se lembra que a Globo deu seu apoio ao coup d’état contra Jango, e que sacramentou seu poderio após 1968 através da cumplicidade com o regime que naquele ano instaurava o AI-5. Tampouco tem reproches a fazer contra os 600 milhões que a Globo sonegou da Receita Federal ou à propina que a Globo realizou a uma “criminosa contumaz”, funcionária corruptível da Receita Federal, para que sumisse com o processo. Ela foi condenada a 4 anos e 11 meses de prisão, como relata a reportagem de Luiz Carlos Azenha para o Jornal da Record:

O Jornal Nacional nunca contou ao Cidadão-de-Bem que os 50 bilhões de reais que os Marinho hoje acumulam foi resultado das tenebrosas transações com assassinos, torturadores e golpistas (com a única justificativa de que era bom para os negócios!).  O Cidadão-de-Bem brada contra a corrupção daqueles que chama de “petralhas”, que ele demoniza como se fossem um bando de endemoniados; mas ele é incapaz de perceber ou de se importar com a corrupção dos executivos e CEOS das empresas (seja o posto de gasolina, a rede de televisão ou o banco), que o Cidadão-de-Bem adora financiar com seu consumismo tantas vezes acrítico.

O Cidadão-de-Bem pensa que é um leão rugindo contra a maldade, um gigante que acordou, quando não passa de um papagaio que repete a cartilha ditada pelas autoridades mais reacionárias da República, estas que atravessaram a Ditadura gozando de privilégios e regalias, e que, nesta fase de re-democratização em que ainda estamos, frequentemente sabotam a possibilidade de instalação de uma autêntica democracia popular. Por exemplo realizando manipulações descaradas de debates presidenciais, como fizeram em 1989 para destruir a reputação de Lula e eleger à fórceps o sacrossanto “caçador de marajás”, Fernando Collor de Mello.

O Cidadão-de-Bem nem sequer pensa, enquanto ele berra a palavra “impeachment!” na Av. Paulista – muito orgulhoso da pronúncia que adquiriu após 2 anos de curso no Cel Lep – que o único presidente que já foi fulminado por um impeachment era o candidato global, para quem a Veja batia suas palminhas. Collor nunca teria chegado ao Palácio do Planalto sem “aquela forcinha” do Mister Marinho e da Editora Abril:

Veja2

No 15 de Março, o Cidadão-de-Bem ficou emocionado ao ponto das lágrimas quando ficou sabendo pela Globo que ele era parte de uma massa de “mais de um milhão”, nem suspeitando que a TV mentiu descaradamente sobre o número de pessoas presentes na Avenida Paulista: a Datafolha, mais realista, avaliou o evento paulistano em 210 mil presentes, número aliás que inúmeras edições da Parada Gay já superaram de longe (saiba mais sobre a “guerra dos números” nesta matéria da Carta Capital).

O Cidadão-de-Bem, que considera Dilma um capeta-de-saias, uma perigosa bolivarista que tem linha direta com Fidel, uma “vermelha” odiável que quer impor a transformação do Brasil em uma Venezuela chavista, não percebe quão lunático é seu anti-comunismo diante do PT governista atual (que seria dificílimo considerar sensatamente como um governo de esquerda). De todo modo, o Cidadão-de-Bem acha-se inteligentíssimo em suas posições pró-intervenção militar contra o caos socialista-bolivarista que tenta instaurar ferozmente a nossa presidenta-guerrilheira. E justifica seu apelo ao golpe violento contra Dilma citando de memória trechos de seu livro predileto, O Mínimo Que Você Precisa Saber Para Não Ser Um Idiota, de Olavo de Carvalho.

O Cidadão-de-Bem, acabado o protesto em ele esteve lá com sua Família, com Deus e pela Liberdade, apesar de seus atos e palavras terem revelado ódio, rancor e defesas do militarismo (ou seja, da violência institucionalizada), ele tem ainda tempo para realizar algo mais em seu Domingão tão eventuoso. Vai ao culto da Igreja Universal do Reino de Deus, excitado com uma novidade que promete deixar-lhe tão animado quanto as boas lutas da UFC que ele adora assistir na TV: o Cidadão-de-Bem está louco para aplaudir os Gladiadores do Altar. Pois Dila Rousseff é uma comunista bolivarista possuída pelo demônio, já Edir Macedo, Silas Malafaia e outros serafins e querubins análogos são dignos de canonização…

O sociólogo e poeta Mauro Iasi, que foi candidato à presidência da república em 2014 pelo PCB, comenta este quadro um tanto grotesco em que os auto-proclamados Cidadãos-de-Bem, em larga medida vítimas da manipulação midiática e da desinformação crônica, mostram seus dentes e soltam os cachorros, atingindo temperaturas de febre na Escala F, e sempre a mando de seus chefes, os Big Brothers versão Brazileira:

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“A rede Globo, em mais uma demonstração de miséria jornalística, tenta enquadrar a realidade no molde de seu jornalismo de desinformação, transformando o circo de horrores da direita na rua no dia 15 em uma “festa da democracia”. (…) Apesar de a emissora (que recebeu auxílio governo petista para não quebrar) tentar reapresentar o samba de uma nota só da corrupção, as “ruas” gritavam coisas como: “pela intervenção militar”, “morte aos comunistas”, “em defesa do feminicídio”, “pela maioridade penal”, “contra as doutrinações marxistas nas escolas”. Algumas demandas, para facilitar o entendimento, escritas em inglês e francês.

Vejam, com todos os problemas das Jornadas de 2013, podíamos ver ali como central um conjunto de demandas como a defesa do transporte público, contra os gastos com os eventos esportivos, contra a violência da política militar, a denúncia dos limites desta pobre democracia representativa. Ainda que houvesse por um tempo a tentativa de contrabando das bandeiras direitistas, elas foram sendo isoladas das manifestações. Agora elas dão o tom e organizam grandes manifestações em defesa da barbárie.

 Interessante notar que as Jornadas de 2013 foram violentamente reprimidas e o senhor Cardozo, ministro da (in)Justiça, se apressou a cercar de garantias legais a ilegalidade da repressão e criminalização dos movimentos. Já no festival da extrema-direita anticomunista, a polícia militar tirava fotos e selfies com os animados participantes vestidos com a camisa da CBF…” [8]

pigUm dos grandes entraves para o pleno florescimento da democracia brasileira é justamente este câncer que é a mídia burguesa e os milhões de mentes que ela mantêm cativa em sua Matrix. A grande mídia no Brasil, também conhecida pela sigla P.I.G. = Partido da Imprensa Golpista (tema de vários cartoons de Carlos Latuff), infelizmente ainda recorre à atitude suína que teve durante a Ditadura Militar (1964-1985); o golpismo, este desrespeito crasso pela democracia, é algo que os barões da mídia infelizmente ainda não puseram em desuso.

 É só refletir no quanto certos colunistas da revista Veja, (de)formadores de opinião como Diogo Mainardi, Reinaldo Azevedo ou Rodrigo Constantino, contribuíram para gerar o clima de ódio exacerbado pelo PT que manifestou-se com tanta força no 15-M. Vale lembrar também que, na véspera do 2º turno das eleições presidenciais de 2014, o posicionamento ideológico pró-PSDB da Veja tornou-se explícito no “maior e mais escancarado golpe midiático das últimas décadas, repercutido na noite deste sábado no Jornal Nacional, da Rede Globo de Televisão, aliada política da Editora Abril”: a revista publicou uma matéria de capa repleta de acusações sem provas contra Lula e Dilma, sendo rapidamente “condenada pela Justiça Eleitoral por golpe contra a democracia” (como relata o Correio do Brasil, 25/10/2014) [9].

 Nesta ocasião, a Internet manifestou seu potencial de contestação coletiva através da disseminação viral de capas fake de Veja, que satirizavam o “desespero” da publicação diante da perspectiva da re-eleição de Dilma Rouseff (relembrem dezenas destas capas sarcásticas no Tumblr #Desespero da Veja). Mais um exemplo do potencial da nova contracultura cibernética em contrapor-se ao P.I.G., muitos internautas-cidadãos, a fim de ridicularizar as acusações veiculadas por Veja, forjaram notícias fantasiosas (eis um top 5): “Bastardos que mataram Kenny (personagem da série de TV South Park) agiram a mando de Lula e Dilma“, “Cebolinha confessa: eu recebia dinheiro do PT para roubar o coelho da Mônica” ; “Cobra que seduziu Eva foi adestrada por Lula e Dilma”; “Walter White confessa: Lava Jato de Breaking Bad usado para lavar dinheiro de campanha do PT”; “Bomba! Bomba! Bomba! 11 de Setembro Foi Organizado por Lula, Dilma e Fidel”.

GloboCuspindo sobre o serviço ao bem público que deveriam exercer, as empresas da mídia burguesa parecem viver em um eterno 1º de Abril. O jornalismo de desinformação praticado no dia-a-dia por estas corporações esconde deliberadamente do público uma série de crimes praticados por seus aliados políticos (Privataria Tucana? Trensalão do Metrô em SP? Roubalheiras aecistas? Desastre de Alckmin na gestão da Sabesp? Isso você nunca vê no PlimPlim nem lê na Veja!).

Recentemente, o estouro de outro mega-escândalo de corrupção envolvendo o banco HSBC na Suíça revelou presença muito suspeita de contas pertencentes aos Marinho em paraísos fiscais. Os obscenos graus de enriquecimento privado que o Brasil permite aos operadores de Televisão, teoricamente uma concessão pública que deveria estar devotada ao bem público, indica o elefantíase dos oligopólios de mass media no país: “entre as 15 pessoas mais ricas do Brasil estão quatro barões da mídia“, escreve Igor Carvalho na Revista Forum, “os três herdeiros de Roberto Marinho, das Organizações Globo (R$ 51,64 bilhões), e Giancarlo Civita, herdeiro da editora Abril (R$ 7,68 bilhões).” [10] O Cidadão-de-Bem, xingando Dilma Rousseff na Paulista com os piores palavrões que encontra, pratica a cegueira voluntária em relação à corrupção no setor privado, em especial nas empresas que fabricam o conteúdo midiático que ele consome com credulidade, a-criticamente.

Diante destas graves violações, o 1º de Abril de 2015 foi eleito como um dia de grandes manifestações, programadas Brasil afora, para exigir a democratização imediata da mídia, a imposição de limites ao poderio obsceno e às práticas criminosas de empresas como a Globo e a Abril. Não é nada absurda também a demanda de revogação da concessão pública à emissora dos Marinho, após um histórico tão grotesco de violações à lei.

Os ato de terrorismo eleitoral e jornalismo panfletário, praticados em conluio pelos mais ilustres representantes do P.I.G., acabaram não dando o resultado pretendido no fim de 2014: Aécio Neves, o “predileto” do P.I.G. (talvez por ser um corrupto tão recorrente que jamais, como presidente, iria deixar que se investigassem as corrupções múltiplas praticadas pelo P.I.G.), saiu derrotado das urnas. Em Março de 2015, a polarização intensa que “dividiu o Brasil” nas campanhas para as eleições voltou a manifestar-se nas ruas: no 13 de Março, o eleitorado de Dilma, a base sindical ainda fiel ao PT, a militância petista que não tem medo deixar a Av. Paulista lotada de flâmulas vermelhas, mostrou seu apoio à presidenta, e dois dias depois foi o eleitorado de Aécio, derrotados na eleição, quem esteve ali, como a Datafolha apontou claramente (82% dos presentes ao 15-M votaram em Aécio…).

A profusão de altas temperaturas na Escala F que manifestou-se nas ruas no 15-M talvez tenha relação direta com o golpismo que a Rede Globo praticou em 1964 e que volta-e-meia parece a fim de repetir. Mais uma razão pela qual o 1º de Abril é a data ideal para um protesto anti-PIG: eis a data em que inicia-se o regime militar, instalado após o golpe de 1964, que derrubou o governo Jango e instaurou 21 anos de tanques, trevas, torturas e trabucos. A Rede Goebbels de Telemanipulação, além de outros jornalões e revistonas, não somente celebrou aquele crime contra a democracia brasileira, como também lucrou horrores nos 21 anos seguintes, através de sua cumplicidade e conivência com o regime ilegal instaurado à força de tanques e trabucos no país. Por isso a tag, já epidêmica, #GloboGolpista, parece-me certeira e oportuna: podemos até entrar em controvérsias se, no 15M, a “micareta macabra” orquestrada pela Globo tinha de fato intenções golpistas; o que é bem menos controverso é que a Globo foi de fato, no passado, abertamente golpista, tendo sido diretamente responsável pela manutenção dos 21 anos de trevas que vivenciamos entre 1964 e 1985.

O mais curioso é o quanto os incorrigíveis barões da mídia veiculam altas doses de denuncismo contra a corrupção dos políticos, mas mantêm um silêncio sepulcral sobre a corrupção, também imensa, que existe no setor privado, incluindo nas empresas de mídia. O 15M foi uma demonstração de quão disseminada já está a ideologia, propagada por anos a fio pela mídia burguesa, de que a corrupção no país é, em última análise, culpa do PT, somente do PT e de ninguém mais. Não se trata de pintar auréolas de santidade sobre o PT, nem de fingir que episódios como o Mensalão (ou o escândalo atual: as propinas de Belo Monte) não ocorreram. Mas o fato é que o currículo de corrupção de partidos como PSDB e PMDB é comprovadamente bem pior, sendo que até mesmo a revista Exame, que é do grupo Abril, publicou  que “o PSDB tem o maior número de barrados pelo Ficha Limpa“: “Até agora, 317 candidatos a prefeito no Brasil tiveram suas candidaturas barradas pelos Tribunais Regionais Eleitorais (TREs). Destes, 56 são vinculados ao PSDB. O PMDB está na segunda posição, com 49 candidatos barrados. O PT aparece em oitavo, com 18 barrados.” [11]

O “coxinismo”, incluindo suas alas fascistas e golpistas, desfilou seu analfabetismo político pelas ruas do Brasil no 15-M, sob a batuta da Rede Goebbels de telemanipulação, soltando seus impropérios contra os “petralhas” e bradando pelo “impítima” como se ele fosse ser a salvação nacional (ter Michel Temer ou Eduardo Cunha na presidência seria, segundo estes mentecaptos, a maior das maravilhas?). Derrotado nas urnas, o eleitorado tucano parece urrar seu ódio à democracia, seu desrespeito à decisão da maioria do povo brasileiro, e sentem-se autorizados a dar seus xiliques de gente chique em “panelaços” que fazem de suas varandas gourmet, confundindo como fazem de praxe uma barulheira com um argumento, um insulto com uma proposição política válida. A criatividade no exercício cívico realmente não é o forte desta turma da histeria anti-petista.

Enquanto isso, temas bem mais urgentes e relevantes são deixados de lado: a falta d’água no Sudeste (e as responsabilidades políticas vinculadas à esta crise ecológica sem precedentes), o aquecimento global (e as medidas necessárias para minorar as catástrofes que estão a caminho), a reforma política (a necessidade de acabar com a orgia de dinheirama que faz com empreiteiras, lords do agronegócio e megaindústrias multinacionais “comprem” as eleições), o encarceramento em massa (o Brasil está entre os 3 maiores aprisionadores do planeta!), a guerra às Drogas (que é uma guerra aos pobres e está diretamente relacionada com nossos Carandirus e Bangus…), a medida (ainda travada) de taxação de grandes fortunas (prevista na Constituição de 1988 e até hoje sabotada pelas elites), a democratização da mídia de massa (que, vide o caso Veja e Globo, ainda age como um entulho autoritário herdado de 1964…).

Não se trata de aplaudir de modo acrítico o governo Dilma, que merece sim ser criticado por aquilo que tem feito de indefensável, desde certas nomeações ministeriais grotescas (Madame Motosserra no Meio Ambiente?) e certas tendências neo-desenvolvimentistas que levam o etnocídio e o ecocídio à Amazônia (como ilustrado pelo “caso Belo Monte” e pelas dúzias de hidrelétricas destinadas a construir o novo “Brasil Grande”). Eliane Brum sintetiza de modo brilhante as críticas legítimas que devem ser direcionadas em alto e bom som ao PT governista (e que também são vociferadas por grandes figuras da intelectualidade brasileira, como Eduardo Viveiros de Castro ou André Vallias) :

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“Mata a gente desmata. Reclama, a gente mata.” De André Vallias.

“O PT no Governo priorizou um projeto de desenvolvimento predatório, baseado em grandes obras, que deixou toda a complexidade socioambiental de fora. Escolha inadmissível num momento em que a ação do homem como causa do aquecimento global só é descartada por uma minoria de céticos do clima, na qual se inclui o atual ministro de Ciência e Tecnologia, Aldo Rebelo, mais uma das inacreditáveis escolhas de Dilma Rousseff. A síntese das contradições – e também das traições – do PT no poder não é a Petrobras, mas Belo Monte. Sobre a usina hidrelétrica já pesa a denúncia de que só a construtora Camargo Corrêa teria pagado mais de R$ 100 milhões em propinas para o PT e para o PMDB. É para Belo Monte que o país precisaria olhar com muito mais atenção. É na Amazônia, onde o PT reproduziu a visão da ditadura ao olhar para a floresta como um corpo para a exploração, que as fraturas do partido ao chegar ao poder se mostram em toda a sua inteireza. E é também lá que a falácia de que quem critica o PT é porque não gosta de pobre vira uma piada perversa.

A sorte do PT é que a Amazônia é longe para a maioria da população e menos contada pela imprensa do que deveria, ou contada a partir de uma visão de mundo urbana que não reconhece no outro nem a diferença nem o direito de ser diferente. Do contrário, as barbaridades cometidas pelo PT contra os trabalhadores pobres, os povos indígenas e as populações tradicionais, e contra uma floresta estratégica para o clima, para o presente e para o futuro, seriam reconhecidas como o escândalo que de fato são. É também disso que se lembram aqueles que não gritaram contra Dilma Rousseff, mas também não a defenderiam.” [12]

De todo modo, creio que a jovem democracia brasileira não pode permitir o avanço do golpismo, do fascismo, do ideário “intervenção militar já”. Isso deve ser combatido com força por todos nós que desejamos que nunca mais se repitam as décadas de tenebrosas violações aos direitos humanos, de cotidiano autoritarismo mandonista e terrorismo de Estado, de neoliberalismo imposto com a violência tão brilhantemente exposta por Naomi Klein em uma das obras mais importantes de nosso século, A Doutrina do Choque. Que o resultado das urnas sejam respeitados e que o governo Dilma, re-eleito no último pleito, seja sim contestado, criticado e transformado, mas por meio da ação construtiva e do discurso crítico, pela influência e participação de uma ampla gama de movimentos sociais – MTST, Passe Livre, MST, Ninja, sem falar nas causas feministas, anti-racistas e LGBT – autenticamente engajados na construção de um país mais igualitário e fraterno.

Nós somos os 99% e ainda resta uma tarefa hercúlea por fazer: enfrentar de fato o 1% no topo da pirâmide, esta plutocracia que é defendida por uma mídia conivente e corrupta, além de sustentada pelo poderio bruto dos PMs (Paus Mandados, braço armado da burguesia), que prosseguem militarizados e agindo nas periferias como se a Ditadura nunca tivesse terminado (além de brindarem com suas bombas de gás lacrimogêneo todas as manifestações cidadãs realmente incômodas ao status quo).

Desmilitarização já! Afinal, como escreve Florestan Fernandes, “a menos que se queira manipular mistificações, uma República democrática exige uma carta constitucional que coloque no povo e no poder popular o alfa e o ômega da eficácia das normas constitucionais. O que pressupõe que se repila decididamente a existência de um quarto poder, de um “Estado militar” instalado dentro do Estado legal, como seu núcleo dinâmico e centro de comando.” [13] O atual modelo, que prega o Estado Mínimo em prol do Lucro Máximo (e o Estado policial-militar-carcerário Máximo em prol do encarceramento e repressão de todos os marginalizados por este sistema altamente excludente), só nos carrega para a barbárie de um mundo cada vez mais Shock-Doctrinesco.

Para finalizar, digo só o seguinte: apesar de não ser filiado, o PSOL parece-me um partido digno de que nele depositemos nossa confiança e que a ele somemos nossas forças. Se o Brasil passa por uma grave crise de representação, em que os políticos eleitos parecem-nos como uma corja de canalhas, encastelados em seus privilégios, quase sempre adquiridos através de enriquecimentos ilícitos, resta destacar que o quadro só não é absolutamente desesperador pois podemos nos sentir felizes com figuras renovadoras e audazes, como Jean Wyllys, Marcelo Freixo, Luciana Genro, Vladimir Safatle, Ivan Valente, Carlos Giannazi, dentre outros, que talvez sejam responsáveis por uma ampliação inaudita do número daqueles, em especial entre a juventude, que acham que o Sol da Liberdade só raiará com a superação do capitalismo e a aurora do socialismo.

Não digo que devamos seguir a cartilha ortodoxa dos socialismos do passado – que deu em pavorosas experiências históricas como o stalinismo soviético ou o Khmer Rouge cambojano – mas o socialismo do futuro, este que cabe a nós construir, aprendendo com as lições do passado, mas adaptando-o ao novo contexto, que é o do Antropoceno em crise ecológica global e das mudanças climáticas cada vez mais extremas. Nesse contexto, acho que já passou da hora da palavra ECO-SOCIALISMO passar a ser termo mais corrente no horizonte das utopias dos brasileiros, caso queiramos enfrentar com dignidade a barbárie global que vai se instalando conforme o caos climático se exacerba e vai abrindo para a Humanidade uma nova Caixa de Pandora.

Eduardo Carli de Moraes
Goiânia, 15 a 25 de Março de 2015

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

[1] FERNANDES, Millôr. O Livro Vermelho. L&PM, 2005, pg. 48.

[2] BOULOS, Guilherme. Sobre o 15 de Março. Folha de S. Paulo, 19/03/2015.

[3] SAFATLE, Vladimir. Impeachment É Pouco. Folha de S. Paulo, 17/03/2015.

[4] RIBEIRO, Renato Janine. “Deveríamos criminalizar a pregação da ditadura”, diz filósofo. Geledés, 16/03/2015.

[5] MORAES, Eduardo Carli. O Tratado Sobre a Tolerância de Voltaire. A Casa de Vidro, 29/01/2013.

[6] GENRO, Luciana. Algumas Impressões Sobre Este Dia. Revista Fórum, 15/03/2015.

[7]ANDRADE, Abrahão Costa. A Corrupção Ronda A Liberdade. Revista Discutindo Filosofia, Ano 1, N2, Ed. Escala, Pg. 34.

[8] IASI, Mauro. A adaga dos covardes ou o limite da imbecilidade direitista. Correio da Cidadania, 19/03/2015.

[9] JORNAL CORREIO DO BRASIL. Justiça eleitoral condena golpe da Veja contra democracia. Correio do Br, 25/10/2014.

[10] CARVALHO, Igor. Entre 15 mais ricos do Brasil estão quatro barões da mídia. Revista Fórum, 17/08/2013.

[11] REVISTA EXAME. O PSDB tem o maior número de barrados pelo Ficha LimpaExame, 08/09/2012.

[12] BRUM, Eliane. A mais maldita das heranças do PT. El País, 16/03/2015.

[13] FERNANDES, Florestan. O PT e os rumos do socialismo. Ed. Globo, pg. 148.

VÍDEOS RECOMENDADOS

Guilherme Boulos: “Fascismo não se discute, fascismo se combate.”

Documentário da BBC inglesa, “Além do Cidadão Kane”,
que revela muito da história tenebrosa da manipulação política exercida pela Globo no Brasil:

Vladimir Safatle, “Quando Novos Sujeitos Políticos Sobem à Cena”

Rosa Luxemburgo – O Filme (Dir: Margarethe Von Trotta) [Assista na íntegra]



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“Os Índios da Palestina” – por Gilles Deleuze & Elias Sanbar

DeleuzeOS ÍNDIOS DA PALESTINA
Deleuze & Sanbar
(Trad. Arlandson Matheus Oliveira)

Gilles Deleuze: Parece que alguma coisa amadureceu no campo palestino. Um novo tom se insinua, como se eles tivessem superado o primeiro estágio de sua crise, como se tivessem chegado a um lugar de certeza ou de serenidade, com um novo senso de seus “direitos”. Isso sugeriria uma nova consciência. O novo tom parece ter-lhes permitido falar de uma nova maneira, nem agressivamente nem defensivamente, mas como“iguais” com o mundo. Como você explica isso, tendo em vista que os palestinos têm ainda de alcançar seus objetivos políticos?

Elias Sanbar: Tivemos uma sensação desse direito após a publicação do nosso primeiro número. Muitos preocupados com o conflito disseram: “Agora os palestinos têm seu próprio jornal”, e isso parece ter sacudido uma antiga imagem dos palestinos aos olhos do mundo. Não esqueçamos que, aos olhos de muitos, a imagem do palestino combatente – aquela que estamos tentando promover – permaneceu demasiadamente abstrata. Em outras palavras, antes de impormos a realidade da nossa presença, pensavam em nós exclusivamente como refugiados. Quando o nosso movimento de resistência deixou claro que a nossa luta não poderia ser ignorada, fomos uma vez mais reduzidos a uma imagem clichê: éramos vistos pura e simplesmente como militaristas. A imagem era isolada e reproduzida ad infinitum. Não éramos percebidos como nenhuma outra coisa. É para nos libertar da imagem militarista no sentido estrito que preferimos essa outra imagem do combatente.

Acredito que a surpresa que o nosso jornal tem suscitado também vem do fato de que algumas pessoas devem estar dizendo a si mesmas que os palestinos efetivamente existem, e não meramente por uma questão de evocar princípios abstratos. Apesar de o jornal ser palestino, constitui-se num terreno onde muitas preocupações diferentes podem ser expressas, um lugar onde não somente vozes palestinas podem ser ouvidas, mas também vozes árabes, judaicas e europeias.

Algumas pessoas devem também estar se dando conta de que esse tipo de trabalho, oriundo de vários horizontes, remete à existência de muitos palestinos diferentes nos vários setores da sociedade palestina: pintores, escultores, trabalhadores, fazendeiros, romancistas, banqueiros, atores, homens de negócio, professores, etc. Em suma, elas compreendem que existe toda uma sociedade por trás desse jornal.

A Palestina não é apenas um povo, mas uma terra. A Palestina é o que conecta esse povo à terra que tem sido pilhada e defraudada. É um lugar onde o exílio e um imenso desejo de retornar se conjugam, um único lugar, composto de todas as expulsões que o nosso povo vem sofrendo desde 1948. Quando estudamos a Palestina, e acompanhamos as mudanças que a afetam, temos uma imagem sua diante de nós. E nunca a perdemos de vista.

Gilles Deleuze: Muitos dos artigos no seu jornal se referem, e analisam de um jeito novo, os métodos que tem sido empregados para afugentar os palestinos do seu território. Isso é crucial porque os palestinos não se encontram em uma típica situação colonial. Eles são mais removidos e expulsos que colonizados. No seu livro (nota I), você compara os palestinos aos índios americanos. Há, com efeito, dois movimentos distintos no capitalismo. No primeiro, um povo é mantido na sua terra e forçado a trabalhar, explorado para acumular uma mais-valia. Isso é o que geralmente chamamos “colônia”. Mas no segundo, um território é esvaziado do seu povo. O capitalismo então faz um salto gigante em um único esforço, mesmo se isso exigir a importação de trabalhadores e labor manual. A história do sionismo, a história de Israel e a história dos Estados Unidos, todas têm feito este percurso: como criar um vácuo, como esvaziar um território?

Yassir Arafat em uma entrevista assinalou os limites da comparação (nota II), e esse limite abrange o horizonte do seu jornal: ele diz que a diferença é o mundo árabe, enquanto que os índios americanos, tendo sido expulsos do seu território, não tinham ninguém a quem poderiam recorrer para obter suporte econômico ou militar.

Elias Sanbar: Como exilados, a nossa situação é bastante particular, porque fomos expulsos não para um país estrangeiro, mas para os confins da nossa “pátria”. Fomos exilados em países árabes onde nunca passou pela mente de ninguém nos dispersar. Estou pensando na hipocrisia de alguns israelenses que declaram que os árabes têm culpa por não nos “integrar” – o que na fala israelense significa “nos fazer desaparecer”. Aqueles que nos expulsaram estão repentinamente preocupados com algum suposto racismo árabe contra nós. Isso significa que não encontramos situações difíceis em certos países árabes? Claro que não. Certamente encontramos. Mas essas dificuldades não se devem a sermos árabes. Elas são inevitáveis, porque éramos e ainda somos uma revolução armada. Mas, para nossos colonizadores judeus, somos de fato os índios da Palestina. Tudo o que estávamos a fazer era desaparecer de vista. Nesse sentido, a história do estabelecimento de Israel é uma repetição do processo que deu origem aos Estados Unidos da América. Aí provavelmente reside um dos ingredientes essenciais na sua mútua solidariedade.

Nisso, ademais,vemos os elementos que ilustram como, durante o período da Custódia Britânica (nota III), não fomos sujeitos à colonização “clássica”, onde colonizadores e colonizados viviam lado a lado. Os franceses, os ingleses, etc., queriam estabelecer áreas cuja condição mesma de existência dependia da presença dos povos indígenas. Para qualquer dominação efetiva, deveria ser um povo a ser dominado. Isso criou, talvez não intencionalmente, áreas comuns, isto é, redes ou setores ou aspectos da vida social onde o “encontro” entre colonizador e colonizado teve lugar. Que esse encontro era insuportável, explorador, esmagador ou opressivo, não muda o fato de que o “colonizador estrangeiro” teve primeiro de estar “em contato” com “os locais” a fim de exercer a sua dominação.

Então surgiu o sionismo, mas as suas suposições são o oposto: a nossa ausência é uma necessidade, mais ainda, como mostrou Ilan Halevi (nota IV), a pedra angular da nossa rejeição, do nosso deslocamento, da nossa “transferência” e substituição é um traço específico dos sionistas, a saber, o seu pertencimento a uma comunidade judaica. Assim, nasceu toda uma nova classe de colonizadores, “uma desconhecida”, chegando no meio da massa daquilo que acabei de chamar “colonizadores estrangeiros”. Esse novo colonizador opera fazendo das suas próprias características a base da total rejeição do Outro.

Além disso, em alguns sentidos, o nosso país não foi só colonizado em 1948 – ele “desapareceu”. De qualquer forma, é como os colonizadores judeus que se tornaram “israelenses” deve tê-lo experienciado. O movimento sionista mobilizou a comunidade judaica na Palestina não com a ideia de que os palestinos sairiam algum dia, mas com a ideia de que o país estava “vazio”. Houve, é claro, judeus que vieram, viram que era uma inverdade e escreveram sobre isso! Mas a maioria da comunidade judaica agiu como se o povo que eles encaravam todo dia, vivendo e trabalhando, não estivesse lá. Essa cegueira, contudo, não era física. Ninguém poderia enganar-se a esse ponto. Mas todos entendiam que o povo vivendo em seu meio estava “em processo de desaparecimento”. E eles se deram conta de que, para que o desaparecimento se consumasse, a primeira coisa a ser feita era agir como se tal consumação já tivesse ocorrido, “nunca vendo” a existência do Outro, que, no entanto, estava inegavelmente presente. O esvaziamento do território, para ser bem-sucedido, teria de começar pelo banimento “do Outro” da cabeça do colonizador.

Um dos meios de o sionismo obter êxito era jogar o jogo da raça, fazendo do judaísmo o fundamento mesmo para a expulsão, para a rejeição do Outro. As perseguições racistas na Europa foram extremamente úteis nesse sentido, uma vez que forneceram ao sionismo a confirmação dos passos que deveria seguir. Consideramos que o sionismo aprisionou os judeus, mantendo-os cativos da visão que acabei de descrever. Quero enfatizar que ainda os mantém cativos. Isso não é verdade apenas em um momento histórico particular. Digo isso porque a racionalidade sionista mudou depois do Holocausto. O sionismo se modificou, postulando um pseudo-“eterno princípio” de que os judeus seriam desde tempos imemoriais o “Outro” em qualquer sociedade em que vivessem. Contudo, nenhum povo, nenhuma comunidade pode reclamar ocupar essa posição de marginalizado, do maldito “Outro” de forma permanente e inalterável. E afortunadamente isso é verdade, em especial para os judeus.

Hoje no Oriente Médio, o Outro é o árabe, e o palestino. O desaparecimento desse Outro é agora a ordem do dia, e o fato de que é a esse Outro, que corre o risco de desaparecer, que os poderes ocidentais pedem por garantias é a medida da hipocrisia e do cinismo. Somos aqueles que precisam de garantias, para sermos protegidos da loucura dos líderes militares israelenses.

Em qualquer caso, a OLP [Organização de Libertação Palestina], nossa única representante, propôs uma solução para o conflito: um estado democrático na Palestina, um estado onde os muros que existem entre os habitantes, quem quer que fossem,seriam demolidos.

Gilles Deleuze: As páginas de abertura do primeiro número do seu jornal contêm um manifesto: somos “um povo como qualquer outro”. O sentido dessa declaração é múltiplo. Em primeiro lugar, é um lembrete, ou um clamor. Os palestinos são constantemente acusados de não reconhecerem Israel. Bem, dizem os israelenses, eles querem nos destruir. Mas por mais de 50 anos, os palestinos têm lutado para serem reconhecidos como um povo. Em segundo lugar, a declaração marca uma oposição ao manifesto de Israel, que diz “não somos um povo como qualquer outro” por causa da nossa transcendência e da enormidade das nossas perseguições. Daí a importância, no segundo número, dos dois textos de escritores israelenses sobre o Holocausto e a significância que esse evento teve em Israel, especialmente com relação aos palestinos e ao mundo árabe, intocado por uma tal catástrofe. Exigindo “ser tratado como um povo com um status excepcional”, o Estado de Israel mantém uma dependência econômica e financeira do Ocidente de uma maneira que não pode jamais ser equiparada à de nenhum outro Estado (Boaz Evron, nota V). Essa dependência do Ocidente explica o porquê de os palestinos serem tão duros relativamente à declaração contrária: eles desejam se tornar o que são, a saber, um povo com um status “excepcional”. À medida que opõem a história ao apocalipse, existe um sentido da história como possibilidade, a multiplicidade daquilo que é possível, a profusão de múltiplas possibilidades a cada momento. Não é isso que o seu jornal espera fazer evidente na sua análise?

Elias Sanbar: Absolutamente. A ideia de um clamor para recordar ao mundo a nossa existência é profundamente plena de sentido, mas é também bastante simples. É o tipo de verdade que, uma vez reconhecida, fará as coisas muito difíceis para qualquer um que ainda conte com o desaparecimento do povo palestino. No fundo, o que essa verdade diz é que todo povo tem “um direito aos seus direitos”, por assim dizer. Isso é auto evidente, mas é tão poderoso que representa o ponto de partida e o objetivo de toda luta política. Veja os sionistas: o que eles têm a dizer a esse respeito? Você nunca os ouvirá dizer: “os palestinos têm direito a alguma coisa”. Nenhum dispêndio de força pode sustentar tal posição, e eles o sabem. Eis por que a afirmação da existência do povo palestino é tão poderosa, muito mais do que pode parecer à primeira vista.

[Essa entrevista com Elias Sanbar foi publicada no Libération, em 8-9 de maio de1982, p. 20-21. Precedendo-a, havia umas poucas palavras que Deleuze escreveu sobre a Revue d’Etudes Palestiniennes, criada em outubro de 1981, e cujo objetivo era analisar os fatores responsáveis pela crise no Oriente Médio: “Desde algum tempo, esperávamos por um jornal árabe na França. Pensávamos que ele viria do norte da África, mas acontece que os palestinos o fizeram primeiro. Embora claramente focado nos problemas palestinos, esse jornal tem duas características que deveriam preocupar o mundo árabe como um todo. Primeiro, contém uma penetrante análise sociopolítica que revela um perfeito autocontrole, em um tom sereno; segundo, delineia um “corpus” literário, histórico e sociológico que é propriamente árabe, extremamente rico e pouco conhecido.” Elias Sanbar é um escritor palestino nascido em 1947 e editor-chefe da Revued’Etudes Palestiniennes. Deleuze e ele eram amigos desde o final dos anos setenta.]

[Traduzido ao português a partir da tradução ao inglês de Ames Hodges e Mike Taormina contida em “Two Regimes of Madness – Texts and Interviews, 1975-1995.”]

NOTAS

(i) Elias Sanbar, Palestine 1948, l’expulsion (Paris: Les Livres de la Revue d’Etudes Palestiniennes, 1983).
(ii) In Revue des Etudes Palestiniennes, 2, inverno de 1983, p. 3-17.
(iii) A Palestina esteve sob um regime militar britânico até 1921, quando a Liga das Nações declarou-a um Território de Custódia da Grã-Bretanha. A administração civil começou em 1923 e se encerrou em 15 de maio de 1948, quando os britânicos se retiraram e o estado de Israel foi criado.
(iv) Ilan Halevi, Question juive, la tribu, la loi, l’espace (Paris: Editions de Minuit, 1981).
(v) Boaz Evron, “Les interprétations de ‘l’Holocaust:’ Un danger pour le peuple juif,” Revue d’Etudes Palestiniennes, no. 2, inverno de 1982, 36-52.

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LEIA TAMBÉM: DELEUZE SOBRE A PALESTINA (1978 NO LE MONDE)

BONUS TRACK:
DELEUZE, O ABCDÁRIO / LETRA G de “GAUCHE” (ESQUERDA):